domingo, 1 de março de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Passou da hora de encerrar inquérito das fake News

Por O Globo

Instrumento criado para defender ordem democrática se transformou em risco para a própria democracia

É incontestável o papel crucial que o Supremo Tribunal Federal (STF) desempenhou na preservação da democracia brasileira, quando submetida a abalos e ameaças. Sem a ação do Supremo, é provável que o desfecho da intentona golpista tivesse sido outro. Esse é um fato que a História reconhecerá para sempre. É justamente para honrar essa trajetória que o STF deve finalmente pôr fim a um instrumento jurídico heterodoxo que, desde 2019, tem dado à Corte poderes excepcionais que não cabem numa democracia: o inquérito 4.781, apelidado “inquérito das fake news”.

Freire deixará comando do Cidadania e indica Alex Manente seu sucessor, Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

“O velho líder comunista encerra sua trajetória com melancolia e perda de dimensão histórica. Seu gesto sucessório, em vez de estabilizar, implodiu a legenda”

A literatura latino-americana já descreveu com precisão clínica o momento em que um ciclo de poder se encerra. A cena de abertura de O Outono do Patriarca, de Gabriel García Márquez, permanece como uma das metáforas mais contundentes da decomposição política: “Durante o fim de semana os urubus entraram pelas varandas da residência presidencial, bicaram as telas metálicas das janelas e o alteio de suas asas agitou o tempo estagnado lá dentro, e na madrugada de segunda-feira a cidade acordou de sua letargia de séculos com a brisa morna e macia do grande homem morto e apodrecido…”.

A passagem simboliza o fim do “tempo interminável” do caudilho. O que parecia eterno já estava morto — apenas ninguém ousava admitir. Guardadas as proporções entre ficção e realidade, a metáfora de Gabo ilustra a crise do Cidadania, que ultrapassa a disputa sucessória. Tornou-se existencial.

Acordões com gosto de pizza, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Até onde o Supremo Tribunal Federal vai se lambuzar com ‘pizzas’ mal assadas?

Brasília evolui, a olhos vistos, do surrado “toma lá, dá cá” para o “você me livra, eu te livro e todos nós nos livramos”. Um método se abastece do dinheiro público e o outro abusa das brechas que garantem a impunidade geral, mas ambos têm a ver com corrupção e mobilizam mundos e fundos, tudo e todos, em torno de “negociações”.

Objetivo desta vez é substituir o regime, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

Incapacitado, Irã poderia conduzir guerra assimétrica, que incluiria ataques terroristas

O bombardeio lançado na manhã de ontem no Irã por Estados Unidos e Israel tem escopo fundamentalmente distinto daquele realizado na chamada “guerra dos 12 dias” em junho: desta vez, o objetivo não é apenas conter os programas nuclear e de mísseis iranianos, mas criar as condições para a população substituir o regime.

Trata-se de ameaça existencial, da óptica da teocracia em Teerã, à luz dos protestos de dezembro e janeiro, os mais contundentes desde a Revolução Islâmica de 1979, esmagados com o massacre de milhares de manifestantes. Os bombardeios visaram à decapitação do regime.

A aposta mais arriscada de Trump, por Oliver Stuenkel

O Estado de S. Paulo

Operação sem objetivos claros expõe EUA a retaliações, instabilidade regional e pressão inflacionária

Ao atacar o Irã e conclamar os iranianos a derrubarem o próprio governo após o fim da operação, o presidente Donald Trump assumiu um risco elevadíssimo, sobretudo porque o Irã não representava uma ameaça iminente aos EUA. Pelo contrário: avaliações recentes da inteligência americana indicavam que o país está militarmente enfraquecido após os bombardeios do ano passado. Diferentemente de ataques pontuais no passado, desta vez trata-se de uma campanha aberta, com risco real de escalada. O próprio Trump admitiu que pode haver baixas americanas — linguagem típica de guerra declarada, mas sem autorização formal do Congresso.

O esforço para manter o BRB, por Míriam Leitão

O Globo

Os próximos dias serão decisivos para o BRB e seu plano de capitalização, que pode incluir um pedido de empréstimo ao FGC

O governo do Distrito Federal colocará 15 imóveis para a operação de capitalização do BRB. Ao todo, esses ativos somariam R$ 10 bilhões em garantia. Eram nove na última versão da proposta que será discutida amanhã na Câmara Legislativa do Distrito Federal. Na sexta-feira, o presidente do Banco de Brasília, Nelson Souza, visitou bancos em São Paulo explicando seus planos. Um deles é tentar um empréstimo no FGC e outro lançar um Fundo de Investimento Imobiliário com a venda de cotas. O banco também avalia negociar subsidiárias integrais e a criação de um banco digital com o Flamengo.

A Cargill foi invadida, e o governo cedeu, por Elio Gaspari

O Globo

Para quem joga com as canetas de Brasília, o caso estaria resolvido. Faltou combinar com a empresa

Em agosto do ano passado, os çábios de Brasília soltaram o decreto 12.600, incluindo milhares de quilômetros de hidrovias em trechos dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins no Plano Nacional de Desestatização. A iniciativa abria o caminho a estudos para avaliar uma eventual concessão de serviços de navegabilidade, dragagem e manutenção dos canais. Há anos, o Arco Norte da Amazônia, com suas rotas fluviais, transporta cerca de 40% das exportações nacionais de soja e milho.

Operação sabotagem, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Sem força para derrotar proposta em ano eleitoral, partidos pedem apoio a empresários para impedir votação

A direita decidiu cerrar fileiras contra o fim da escala 6x1. Na semana que passou, três presidentes de partido atacaram a ideia de mudar a lei para que todo trabalhador tenha direito a dois dias de descanso por semana. As falas revelam mais sobre a mentalidade da turma do que sobre o mérito da proposta.

O chefão do União Brasil, Antonio Rueda, definiu a mobilização como “um desatino”. “É muito danosa para a economia e o setor produtivo”, decretou, sem mencionar os trabalhadores. O dono do PL, Valdemar Costa Neto, disse que o fim da escala 6x1 seria “uma bomba” e se solidarizou com a classe dirigente: “Não é fácil para os empresários que já reclamam dos nossos impostos e tudo mais”.

Hermenêutica neles, por Merval Pereira

O Globo

A disputa de interpretações esbarra em uma mágica jurídica cada vez mais em uso por ministros do Supremo, que superam as leis com seus poderes incontrastáveis para atingir seus objetivos

Mais uma vez a disputa hermenêutica ganha destaque na crise institucional em que vivemos. Hermenêutica é a ciência da interpretação de textos e símbolos para além do sentido literal, vem de Hermes, o mensageiro grego dos deuses. Como há muito tempo a Justiça brasileira vive de interpretar as leis, em vez de cumpri-las, o episódio da quebra de sigilo da família Toffoli tornou-se exemplar dessa tendência. A CPI do Crime Organizado não conseguiu maioria para quebrar o sigilo do ministro Dias Toffoli porque a base do governo, auxiliado pelo Centrão, não deixou, mesmo depois que ele foi obrigado a sair da relatoria do caso por um flagrante conflito de interesses, pois o resort Tayaya, de propriedade da empresa Maridt, dos três irmãos Toffoli, foi comprado por um grupo ligado ao banco Master.

Trump sendo Trump, por Dorrit Harazim

O Globo

Ele embaralhou temas e falsas verdades, desconversou sobre os problemas reais da nação de 250 anos

Discursos do Estado da União fazem parte do rito anual de todo presidente dos Estados Unidos. Costumam ser longos e enfadonhos. Servem, em teoria, para o mandatário prestar contas ao Congresso sobre o que fez e pretende fazer. O desempenho de Donald Trump na noite de terça-feira foi um exercício de embevecimento fascista com a própria voz. Durante uma hora e 47 minutos, embaralhou temas e falsas verdades, desconversou sobre os problemas reais da nação de 250 anos e transformou o plenário do Capitólio em claque de auditório.

Flávie dará golpe de estade, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Se eleito, filho de Bolsonaro tem boas chances de governar com maioria golpista no Senado

Tudo que queremos é uma eleição em que possamos, em caso de derrota, ficar chateados, culpar o neoliberalismo, e voltar à vida normal

O debate de hoje será sobre o tema "o golpe de Estado empatou com a democracia na última pesquisa Atlas". Podem perguntar.

"Mas isso não é um exagero? Flávio Bolsonaro outro dia fez um post direcionado à comunidade LGBT usando linguagem neutra. Ele não está moderando?"

Ok, Flávio não dará golpe de Estado, dará golpe de estade. Mas será golpe de todo o jeito. Elu já prometeu soltar os membros da quadrilha golpista de que é membre. Se eleite, tem boas chances de governar com maioria golpiste no senade, o que lhe possibilitaria impichar ministres do STF em um momento em que a imagem do tribunal está fragilizade. Nenhuma outra instituição, além do STF, atuou contra a última tentativa de golpe.

Regra de transição cheira a embromação, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Pactos de aperfeiçoamento não se realizam porque há resistência para corrigir distorções nos três Poderes

De adiamento em adiamento, o fim das regalias indevidas corre o risco de ficar para o dia de são nunca

A cada vez que os Poderes se reúnem para combinar pactos de aperfeiçoamento nos respectivos comportamentos criam-se expectativas que em geral não se realizam por completo. Acontece quando há distorções a serem corrigidas, mas há resistências quase impossíveis de serem vencidas.

Aconteceu assim com o acordo sobre as emendas parlamentares, firmado num encontro entre representantes do Judiciário, Executivo e Legislativo, em agosto de 2024.

O neoterrorismo dos notáveis, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

É que há muito tempo vivemos no desencantamento do mundo, outro modo de falar do niilismo total

Uma rede depravada como a de Epstein é reveladora porque ataca fragmentos de sacralidade humana

Numa mensagem ao potentado árabe Sultan Ahmed bin Salayem, delicia-se Jeffrey Epstein: "Adorei o vídeo de tortura". Apesar da repetição cansativa dos horrores nos arquivos Epstein, a cada página a magnitude da aberração ainda faz refletir. A frase tenebrosa sugere algo além de sexo stricto-sensu no círculo de depravação que, desde uma princesa norueguesa até um príncipe britânico, se fechou em torno de figuras notáveis do poder global.

Ataque ao Irã é ilegal e não satisfaz critério de autodefesa imediata, por João Paulo Charleaux

Folha de S. Paulo

Ação contra Teerã distorce conceito de autodefesa previsto na Carta da ONU

Trump ressuscita argumentos que levaram à queda de Saddam no Iraque em 2002

A brecha que os Estados Unidos e Israel têm para defender a legalidade do bombardeio contra o Irã neste sábado (28) é estreita. Pela Carta da ONU, um país só pode atacar outro em caso de legítima defesa ou sob aprovação do Conselho de Segurança. Como nenhuma das duas condições está presente, será preciso contorcionismo para legalizar esses atos.

O conceito de autodefesa previsto no direito internacional é muito estrito. A Carta da ONU não autoriza uma resposta extemporânea contra um ataque sofrido meses antes, nem tampouco permite a retaliação preventiva a uma ameaça hipotética, distante ou presumida.

No Irã, na Venezuela ou em Cuba, terror e negociata são os objetivos da 'guerra de Trump', por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Ataque a iranianos não tem sentido ou fins claros, nem país era ameaça imediata

EUA trumpianos fazem extorsão e recorrem a bombardeios negocistas e impensados pelo mundo

Israel matou 3% dos palestinos e avariou ou arruinou 80% das construções de Gaza. Queria aniquilar o Hamas, que ainda está lá, depois de mais de dois anos de guerra e massacre. A situação política continua indefinida, embora o Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas) tenha decidido em 2025 que Gaza será até o fim de 2027 governada por um "Conselho de Paz" comandado por Donald Trump.

Ainda que falhe, mesmo barbarizando, a cúpula de Israel costuma saber o que faz ou quer. O que Trump quer no Irã? No discurso em que declarou a guerra, aliás ilegal, afirmou que quer acabar com o programa nuclear, mísseis balísticos e marinha do Irã. Que quer a queda do regime, tarefa que terceirizou para os iranianos.

Quanto ao mais, Trump pegou gosto por bomba e ameaças. De março a maio de 2025, atacou os houthis, do Iêmen (grupo apoiado pelo Irã), que atacam Israel e navios. Em dezembro, bombardeou a Nigéria, supostamente autorizado pelo governo nigeriano a atacar grupos islâmicos.

Desde 2025, afunda barcos de "narcoterroristas" no Caribe e no Pacífico. Neste ano, foi a vez da Síria. Estrangulou a Venezuelasequestrou Nicolás Maduro e mantém uma faca no pescoço da ditadura chavista, a quem dá ordens. Ameaçou México e Colômbia com ataques a "narcoterroristas". O próximo alvo é Cuba.

Trump quer dizer, enfim, que ninguém está seguro. Imagina que pode obter "deals" (acordos e negócios) com guerras em que americanos não morrem. O caso do Irã é mais enrolado.

O Irã é um país grande e ditadura enraizada, com vários centros fortes de poder: aiatolás, Guarda Revolucionária, tecnocracia e empresários que se dão bem no regime. Parte da população é religiosa e, como a elite ideológica, avessa a "valores ocidentais" e nacionalista. Apesar da revolta recente, não há oposição organizada. Os aiatolás preferem matar e morrer a fazer concessões.

Vitórias decisivas, quando há vitórias, ou rendições são mais e mais raras. Exigem destruição da força armada inimiga e da infraestrutura; morte ou cooptação de elites do poder (desfazimento do Estado). Os EUA fizeram algo assim no Iraque (2003), mas tiveram de invadir. O "Ocidente" fez em parte isso na Líbia e na Síria, deixando caos e barbárie, ou foi derrotado, como no Afeganistão.

Uma guerra decisiva toma tempo. No Oriente Médio, pode causar danos a interesses ocidentais, como no petróleo, embora o risco maior não se concretize desde 1979 (Revolução Iraniana). Apesar de tentativas, nunca houve o famoso fechamento do estreito de Ormuz (por onde passa um quarto do petróleo mundial transportado por mar).

Em 2019, um ataque de Irã e/ou houthis à Arábia Saudita arruinou a produção de 5% do petróleo mundial. O preço do barril subiu 15%, mas caiu no mês seguinte, pois os sauditas deram um jeito. Além do mais, a economia do petróleo mudou, com mais produção nas Américas. Mas ainda se trata de risco econômico, o mais temido por Trump.

A força militar do Irã vira pó com os ataques de Israel e EUA. Os iranianos não têm amigos que lhes deem dinheiro ou apoio militar (a Rússia é mui amiga, só). Ainda assim, não é difícil perder o controle da situação no Oriente Médio.

Trump quer mandar no mundo e arrumar negócio para si e compadres por meio de extorsão e ameaça de tiro. Em alguns casos, no curto prazo, funciona, como na Venezuela, talvez em Cuba. O resultado geral é insegurança, fragmentação política mundial perigosa e rearmamento.

Extrema direita canalizou ódio contra imigrantes, mas ele é bem mais antigo, por Vinícius Mendes

Folha de S. Paulo

Historicamente visto como anormal, quem migra tem sua saída questionada e, no destino, não é plenamente aceito

Mesmo com cidadania, estrangeiro é visto antes de tudo como um outro, condição que persiste além de direitos nacionais

[RESUMO] O autor sustenta que o imigrante é historicamente construído como um outro, estranho e marginal, resultado de anomalias sociais e econômicas. O texto argumenta que sociedades e governos canalizam esse estranhamento em políticas de exclusão e controle, exemplificadas por muros em fronteiras, novas tecnologias de vigilância, leis restritivas e atuações policiais como as do ICE.

"Essas pessoas que cresceram quase sem conhecer os benefícios da civilização, (...) grosseiros, bebedores, despreocupados do futuro, chegam trazendo seus costumes brutais a uma classe da população que tem, para falar a verdade, pouca inclinação para a cultura e a moralidade".

Essa percepção seria atribuível a Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria que já ameaçou levar os imigrantes —sírios, afegãos, filipinos— até a porta do prédio da União Europeia, em Bruxelas, na Bélgica.

Mas essa frase também poderia ter saído da boca de José Antonio Kast, presidente do Chile que ganhou as eleições de 2025 prometendo sancionar empresas que contratarem imigrantes indocumentados, a maioria venezuelanos.

Quando o recuo vira destino, Roberto Amaral*

“A inação diante de Cuba repete o erro fatal de Munique: apaziguar o agressor só adia a guerra e a torna mais devastadora — a história não perdoa os que se calam diante do fascismo renascente”.  
Gabriel Cohn (Cuba, a Espanha no século XXI)

Em 1938, regressando de Munique, aonde fora negociar com Adolf Hitler, o primeiro-ministro Neville Chamberlain declara ao Parlamento britânico haver conquistado o que denominava como “a paz para o nosso tempo”. Enganado ou não, enganava os ingleses e despistava o mundo, em especial o mundo europeu, mal saído da Primeira Guerra Mundial e já se vendo ameaçado por um novo conflito para o qual não estava preparado, como se veria logo depois.