sábado, 7 de março de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Moraes e Toffoli devem explicações com urgência

Por O Globo

Não podem pairar dúvidas sobre as relações de Daniel Vorcaro com altas figuras da República

As últimas revelações sobre o caso Master impõem aos ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), o dever de dar explicações urgentes e, acima de tudo, convincentes. As mensagens trocadas por Moraes com o banqueiro Daniel Vorcaro, reveladas pela colunista do GLOBO Malu Gaspar, são o desdobramento mais grave do caso desde que ela própria noticiou o contrato milionário do escritório de familiares de Moraes com o Master — jamais desmentido nem explicado. Ao mesmo tempo, as transações imobiliárias de Toffoli e seus familiares com o grupo de Vorcaro seguem envoltas em dúvidas.

PL Antifacção mal atinge o topo do crime organizado, por Daniel Cerqueira*

O Globo

Sem inteligência integrada e sem instrumentos modernos de investigação financeira, polícia e MP continuam enxugando gelo

Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei 5.582, batizado PL Antifacção. Em tom de vitória, o relator anunciou:

— Aprovamos a legislação mais dura contra o crime.

A frase rende manchete, mas não resiste à leitura atenta do texto. Comparada ao substitutivo aprovado no Senado, a versão final representa menos enfrentamento estrutural e mais retórica punitiva. O resultado é um projeto que endurece o discurso, mas enfraquece os instrumentos capazes de atingir o topo das organizações criminosas.

Há cinco décadas, o Brasil insiste na mesma fórmula: aumentar penas e ampliar o encarceramento como resposta automática à violência. O alvo quase sempre é a base da pirâmide — jovens recrutados e integrantes de baixa hierarquia do crime. Enquanto isso, o andar de cima se profissionalizou. Estruturou redes sofisticadas de lavagem de dinheiro, infiltrou-se em mercados formais e investiu em conexões políticas.

É só o começo, por Flávia Oliveira

O Globo

Uma eventual colaboração premiada de um ou mais envolvidos pode desnudar um esquema que o Brasil precisa expor. E superar

O escândalo do Banco Master, que o ministro Fernando Haddad, da Fazenda, já classificou como (possível) maior fraude do setor financeiro na História, é mais que isso. Cada novo capítulo destampa uma vertente da organização criminosa. Não é por acaso que a Polícia Federal (PF) pediu — e o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), concedeu — a prisão de Daniel Vorcaro em unidade federal de segurança máxima. O banqueiro é poderoso a ponto de interferir nas investigações, ameaçar testemunhas ou movimentar bilhões, mas também vulnerável à brutalidade de um sistema carcerário dominado por facções, caso do PCC, em São Paulo, e do Comando Vermelho, no Rio de Janeiro.

André Mendonça salvará o STF? por Thaís Oyama

O Globo

A partir de agora, é sobre ele que recairá o peso de decisões capazes de afetar os rumos das eleições

Mendonça era o “patinho feio” do STF — ou ao menos assim era visto por um grupo de colegas da Corte. Terrivelmente evangélico, indicado por um ex-presidente desprestigiado e condenado por golpismo, isolado e sem traquejo no palco do plenário, levou tempo até delimitar seu território e passar a abrir divergências com o grupo dominante, formado por Gilmar Mendes, Dias Toffoli e Alexandre de Moraes.

Penduricalhos, por Eduardo Affonso

O Globo

O cronista sai de carro, que comprou, financiado, porque o transporte público demora e é inseguro

A diferença entre o cronista e o romancista russo não está na quantidade de caracteres de que precisam para contar uma história, descrever um gesto.

O cronista acorda cedo e toma o café, pago do próprio bolso. Também o pão e a manteiga (possivelmente de um lado só) são por sua conta. No chuveiro, economiza água (que ele mesmo paga) e energia elétrica — a bandeira vermelha não tem esse nome à toa. O aluguel do apartamento (nem um pouco funcional), condomínio, IPTU, nada é subsidiado. Se atrasar, tem multa.

Tragédia moral, por Miguel Reale Júnior

O Estado de S. Paulo

O arcabouço político do País está corroído e a responsabilidade em grande parte se deve ao presidencialismo de cooptação e ao sistema eleitoral

Com aperto na garganta nos perguntamos se o Brasil tem jeito. A resposta, revestida de muitas dúvidas, exige um retrospecto.

A corrupção como forma de obtenção de apoio parlamentar, antes eventual, se institucionalizou com o mensalão. Minoritário na Câmara dos Deputados, o governo conseguiu a partir de 2003 a adesão de parlamentares de outros partidos mediante a entrega a eles de importâncias contínuas advindas de contratos fraudulentos com empresas de publicidade, gerando o conhecido mensalão. Julgado em 2012 pelo Supremo Tribunal Federal (STF), resultou na condenação de vários líderes partidários.

Esse processo não teve o condão de intimidar, pois enquanto se desenrolava o julgamento no STF instalou-se o petrolão, com ramificações em outras estatais. Constitui-se um tripé: empresas construtoras, diretores de empresas estatais e agentes políticos de diversos partidos.

Moraes sob o direito xandônico, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Será investir na incompreensão ler as mensagens de Vorcaro a Alexandre de Moraes – no dia em que seria preso pela primeira vez – sem ter como norte a existência do contrato, de quase R$ 130 milhões, a cerca de R$ 3,5 milhões mensais, entre o Master e o escritório Barci de Moraes, da esposa do ministro. Diga-se que Moraes, um salvador da pátria acessível, respondeu a todos os zaps do banqueiro, conteúdo indisponível porque apagado.

Guerra dá lucro, por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

Os Estados Unidos são um país que vive em guerra. Seu dispositivo militar determina a política externa e provoca conflitos que, para eles, são rentáveis

As duas bombas atômicas que os Estados Unidos jogaram sobre Hiroxima e Nagazaki, no Japão, em 1945, acabaram com a Segunda Guerra Mundial, na sua fase asiática. Mas também serviram para avisar à União Soviética do poder devastador de suas forças armadas. Os russos explodiram sua bomba em 1949 e devolveram o aviso. Agora, a inesperada ação militar combinada de Estados Unidos e Israel contra o Irã tem por objetivo defender a nação judia e avisar a China que o país está cercado por eficientes equipamentos de ataque. É a advertência de que a guerra continua e o Império do Meio enfrenta concorrentes poderosos.

Quem o 8 de Março inclui no Brasil? Por Rosi Costa

Correio Braziliense

A institucionalização do feminismo no Brasil produziu avanços significativos na ampliação de direitos civis, trabalhistas e políticos. No entanto, a incorporação das experiências das mulheres negras nesse processo foi desigual

A narrativa consagrada sobre o Dia Internacional da Mulher situa sua origem nas greves e marchas de operárias europeias no início do século 20. Esse marco é historicamente relevante, mas insuficiente para compreender a complexidade da desigualdade de gênero em sociedades marcadas por colonialismo e escravidão. No caso brasileiro, a leitura do 8 de Março deve considerar o dado estrutural da formação social de nosso país, a qual é organizada pelo trabalho forçado de africanas escravizadas, que sustentaram a economia. 

A institucionalização do feminismo produziu avanços significativos na ampliação de direitos civis, trabalhistas e políticos. No entanto, a incorporação das experiências das mulheres negras nesse processo foi desigual. A intersecção entre gênero, raça e classe é elemento constitutivo da desigualdade brasileira. Políticas formuladas sob o signo da universalidade tendem a reproduzir desigualdades que pretendem combater.

Mulheres livres e a crise da masculinidade, por Juliana Diniz

O Povo (CE)

Na véspera do Dia Internacional da Mulher, precisamos lembrar que os direitos nunca são conquistas definitivas, precisam ser reafirmados e protegidos permanentemente. Há séculos, nós mulheres almejamos o reconhecimento de nossa dignidade e nosso estatuto de sujeitos de direitos. Há séculos, enfrentamos resistência ante a todos os pequenos avanços alcançados.

É importante que esse movimento paradoxal entre avanço e negação dos direitos seja bem compreendido. Por que, ao mesmo tempo em que gozamos de um espaço de liberdade maior que nossas bisavós e trisavós, precisamos testemunhar tanta violência, tanta barbárie contra a mulher, como se nossa liberdade conquistada viesse acompanhada de maior risco? De onde vem tanto ódio quando uma mulher diz "não"? Quando uma mulher decide ir embora, quando uma mulher decide viver sua autonomia à revelia do homem?

Espantos e turbulências do caso Master apenas começaram, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Além da fraude bilionária, há mais a ser descoberto, o que apavora Brasília

Buraco negro da máfia financeira devora de pastores evangélicos a sugar babies

Buraco negro que a todos envolve e devora —golpistas financeiros, pastores evangélicos, magistrados, governadores, parlamentares de diversas cores (com predominância para os de direita e extrema direita), servidores do Banco Central, jornalistas e influenciadores, hackers, sugar babies—, o escândalo Master está longe de terminar. Além da fraude bilionária, há mais jogadas a serem descobertas, e é isso o que apavora Brasília na temporada eleitoral.

Turma de Vorcaro agia como a Máfia, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Era tudo coisa de gângster: Vorcaro e sua turma construíram um cenário de brutalidade de longo alcance

Com nova operação da PF, as suspeitas de que o antigo relator do caso, o ministro Dias Toffoli, atrapalhou as investigações aumentam

As revelações que vieram à tona no rastro da nova fase da operação Compliance Zero, deflagrada na manhã desta quarta-feira (4) pela Polícia Federal, mostraram que a quadrilha montada pelo banqueiro Daniel Vorcaro agia como uma máfia.

Era tudo coisa de gângster. Vorcaro e sua turma construíram um cenário de brutalidade de longo alcance.

Que tal substituir juízes por IA? Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Algoritmos são mais consistentes do que pessoas em todo tipo de julgamento

Menores custos e maior resistência à corrupção seriam vantagens adicionais

E se trocássemos os juízes por um algoritmo de IA (inteligência artificial)? Admito que há algo de capcioso na pergunta. Não tanto pelo conteúdo, mas pelo "timing". O Judiciário brasileiro vive um mau momento, com ministros do STF enrolados no escândalo do Master, o problema dos penduricalhos sob os holofotes da imprensa e o caso da venda de sentenças no STJ, entre outras histórias pouco edificantes.

Supremo em suprema encruzilhada aos 135 anos, por Oscar Vilhena Vieira

Folha de S. Paulo

Corte vive uma das mais graves crises de sua história

O que distingue a atual das anteriores é a sua dimensão interna

Ao completar 135 anos, o Supremo Tribunal Federal vive uma das mais graves crises de sua história.

Desde sua instalação, em 28 de fevereiro de 1891, as crises da República reverberam e se projetam sobre o Supremo. Responsável pela guarda da Constituição, num país marcado por sucessivas rupturas e por uma cultura política avessa ao governo das leis, não foram poucas as circunstâncias em que o Supremo teve sua autoridade afrontada, suas prerrogativas esvaziadas e seus membros ameaçados ou mesmo afastados de suas funções.

Floriano Peixoto, nos primeiros anos da República, descumpriu inúmeras decisões do Supremo que ousaram assegurar direitos a dissidentes. Indignado com a emergente independência do novo tribunal, teria advertido: se continuarem concedendo habeas corpus aos meus adversários, não sei quem amanhã concederá habeas corpus aos ministros do Supremo.

Direita e esquerda: uma distinção que ainda faz sentido? Por Marcus Pestana

A queda do Muro de Berlim e a dissolução da URSS trouxeram à tona a discussão sobre os conceitos de direita e esquerda, nascidos na Revolução Francesa, que haveriam se tornado obsoletos e superados como referências para o debate teórico e a ação política. O cientista político Francis Fukuyama, em seu livro “O fim da história e o último homem”, lançado em 1992, chegou a decretar, com grande repercussão, que os fatos ocorridos no final do século XX configuravam o coroamento da história humana e que o capitalismo e a democracia liberal seriam o ponto terminal e definitivo da civilização para todas as nações.    

O Judiciário no banco dos réus, por Aldo Fornazieri

CartaCapital

A sociedade está farta dos privilégios dos juízes e das decisões que afrontam a lei

A opinião pública colocou o Judiciário no banco dos réus. São pequenos e grandes desatinos, pequenos e grandes abusos dos que se sentem impunes porque se consideram senhores da lei ou acima dela. A crise é extensa, multifacetada e atinge a magistratura de alto a baixo.

A crise é de ineficiência, imparcialidade, morosidade, confiança e também moral. Claro que existem lapsos de eficiência e compromissos, merecedores de elogios, respeito e admiração. A forma como o Supremo Tribunal Federal enfrentou os atos golpistas e defendeu a democracia é um desses lapsos.

Bode na sala, por André Barrocal

CartaCapital

Fábio Luís da Silva, o “Lulinha”, volta a servir de instrumento da oposição para atingir o presidente da República

Em abril de 2020, Jair Bolsonaro era presidente e comandou uma reunião ministerial na qual soltou palavrões feito torcedor na arquibancada. Em certo momento, comentou que não iria “esperar foder” a família dele para mudar peças do governo. Na semana anterior, o filho mais velho, Flávio, tinha sido derrotado no Superior Tribunal de Justiça na tentativa de anular as quebras de sigilo bancário e fiscal decretadas por um juiz de primeira instância do Rio de Janeiro. O senador era investigado pelo Ministério Público e pela Polícia Federal por ter embolsado no passado verba pública que deveria pagar funcionários de seu gabinete de deputado estadual fluminense. No fim das contas, o “zero um” venceria a batalha pelos sigilos e jamais se sentaria no banco dos réus por causa das “rachadinhas”, mas Bolsonaro cumpriria a palavra, ou melhor, o palavrão dado aos ministros. Demitiu o chefe da PF dois dias depois da reunião.

As raízes do trumpismo, por Luiz Gonzaga Belluzzo

CartaCapital

Os EUA e o mundo flertam com o igualitarismo totalitário do “se você não é igual a mim, não tem direito a existir”

Diante de mais um espetáculo empreendido pelo projeto trumpista Make ­America Great Again, não faltam análises que insistem no reducionismo que restringe um fenômeno sócio-histórico às idiossincrasias amalucadas de Donald Trump. No entanto, há quem decrete a prevalência das forças sociais que se movem nos subterrâneos das aparências do individualismo.

Homens e mulheres foram alcançados pelos terremotos recorrentes da vida social submetida às condições políticas e econômicas da sociedade de massa capitalista. A pretendida autonomia do indivíduo, nascida no âmago do projeto iluminista, não resistiu aos percalços desatados pelas turbulências da vida social, econômica e política do capitalismo realmente existente.

Senhor da guerra, por Jamil Chade

CartaCapital

O presidente dos EUA abandona o figurino de “promotor da paz”

Ilegal em todos os níveis possíveis, a guerra iniciada pelos EUA contra o Irã tem o potencial de ser o fato que vai definir a presidência de Donald Trump e a própria posição norte-americana no mundo. Ao violar a Constituição norte-americana por não ter pedido autorização do Congresso e em completo desrespeito à Carta das Nações Unidas, o republicano abriu o que pode ser o ato pelo qual seu mandato será lembrado.

Em termos domésticos, Trump gerou uma crise profunda em sua base mais radical, com a explosão de vozes ultraconservadoras alertando que a ofensiva vai na contramão de sua promessa de campanha de acabar com o envolvimento dos EUA em “guerras sem fim”. O republicano, agora, terá de provar que não será um envolvimento militar como tantas outras guerras que ele mesmo criticou. Determinante, porém, será a duração do conflito.