quarta-feira, 25 de março de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Pacote de alívio pela guerra tem de zelar por contas públicas

Por O Globo

Aumento de arrecadação resultante da alta do petróleo pode acomodar auxílio, mas governo não deve relaxar

A guerra no Oriente Médio segue contagiando a economia global, e governos têm se movimentado para mitigar efeitos da alta do petróleo. No Brasil, o diesel fechou a semana passada 19,4% mais caro que antes do início do conflito. As restrições de oferta preocupam o agronegócio. Produtores de arroz no Sul correm para terminar a safra. No Sudeste, canavieiros temem que falte combustível para as colheitadeiras. No Centro-Oeste, a soja foi recém-colhida, e as atenções estão no escoamento da produção. Preocupa que os planos para aliviar os setores afetados sejam mais benevolentes que o necessário em razão do ano eleitoral. Em que pese a gravidade do momento, é crucial lembrar as limitações fiscais.

Master cria República do ‘cada um por si’, por Vera Magalhães

O Globo

Para onde quer que se olhe, tem alguém inovando em causa própria ou para impingir derrota a um desafeto

A alta dose de imprevisibilidade do caso Master cria uma nova fase da República brasileira, em que as instituições e, dentro delas, seus principais atores fazem um jogo do “cada um por si” em busca de reduzir danos e fustigar adversários. Nesse ambiente, alinhamentos históricos se tornam frágeis, decisões circunstanciais expõem contradições com outras recentes, e a estabilidade e a confiabilidade são sacrificadas na bacia das almas da sobrevivência política.

Para onde quer que se olhe, tem alguém inovando em causa própria ou para impingir uma derrota a algum desafeto. De ministros do Supremo à cúpula do Congresso, passando amplamente por expoentes do governo e da oposição, todo mundo age pautado pela percepção da opinião pública ao escândalo, e não pelo papel que o ordenamento legal e institucional dita.

As prebendas dos magistrados, por Elio Gaspari

O Globo

Com a palavra, o príncipe de Salinas, aristocrata siciliano, personagem de “O Leopardo”, genial romance de Giuseppe Tomasi di Lampedusa: "Tudo isso não deveria poder durar; mas vai durar, sempre; o sempre humano, é claro, um século, dois séculos...; e depois será diferente, porém pior."

Em 2026, sabe-se que seis dos dez ministros do Supremo Tribunal Federal receberam da Viúva valores superiores ao teto (o salário deles, R$ 46.366,19). São os conhecidos penduricalhos, todos legais.

Ratinho pulou do navio, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Próximo da fila do PSD, Caiado não tem nada a perder além de mais uma eleição

Ratinho, o Júnior, foi o primeiro a abandonar o navio. O governador do Paraná anunciou que não é mais candidato a presidente. Vai ficar no cargo até o fim do mandato.

O herdeiro do animador de TV se apresentava como candidato da “direita democrática”. Ensaiou um discurso moderado, mas prometeu militarizar escolas e indultar os golpistas, a começar por Jair Bolsonaro.

Caiado ou Eduardo, a escolha de Sofia de Kassab para candidato do PSD, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O líder do PSD vive um drama político. Argumenta que o processo de escolha fortaleceu o partido, mas mal consegue disfarçar a frustração com a desistência de Ratinho Júnior

Com a surpreendente desistência do governador do Paraná, Ratinho Júnior, de se candidatar à Presidência da República, o ex-prefeito Gilberto Kassab está diante de uma escolha de Sofia: tem dois nomes para substituí-lo, os governadores de Goiás, Ronaldo Caiado, e do Rio Grande Sul, Eduardo Leite, e precisa indicar um deles para concorrer à Presidência. No jargão político, a expressão é usada para descrever situações muito difíceis, em que qualquer decisão representa uma grande perda, como no romance A Escolha de Sofia (Sophie’s Choice, em inglês), de William Styron, publicado em 1979.

‘Paredão de Kassab’ terá que sobreviver ao teste das bancadas, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Linha de corte para uma candidatura presidencial, dizem bons fazedores de contas eleitorais, é 10% dos votos

A aposta de que o “Paredão de Kassab”, como já é chamado o processo de depuração da candidatura presidencial do PSD, finde na candidatura do ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado, vale pouco hoje. Para um partido vocacionado a fazer bancadas legislativas e acessar os recursos de poder delas decorrentes, a linha de corte para uma candidatura presidencial, dizem bons fazedores de contas eleitorais, é 10% dos votos. Com menos do que isso, uma candidatura presidencial própria não “puxa” bancada.

A tentação de misturar guerra com eleições, por Lu Aiko Otta

Valor Econômico

Desejo de aproveitar a onda do conflito para robustecer as bandeiras de campanha será grande

“Um mundo instável exige um governo estável” é o novo mantra que se ouve na área econômica diante das incertezas trazidas pela guerra no Oriente Médio. Medidas têm sido tomadas, mas sem afobação, diz uma fonte. A ordem nos bastidores é administrar as reações com base em monitoramento e diagnóstico, a cada dia.

Assim foram decididas as medidas anunciadas há duas semanas: redução a zero do PIS/Cofins sobre o diesel, subvenção de R$ 0,32 por litro, reajuste da tabela dos fretes rodoviários, aperto na fiscalização sobre as distribuidoras e transportadoras. Em contrapartida, instituiu-se uma taxação sobre as exportações de petróleo e diesel - que pode ser judicializada.

Risco de novo desgaste com trabalhador de aplicativo ‘está a caminho’, por Fernando Exman

Valor Econômico

No Palácio do Planalto, a missão é formatar medidas que possam ser consideradas “estruturais” por motoristas e entregadores

O humor dos trabalhadores por aplicativo é uma preocupação de integrantes da equipe econômica quando são analisados os potenciais efeitos no Brasil da guerra no Oriente Médio. O governo tem atuado para combater práticas abusivas na venda de gasolina e anunciar medidas para eles, mas a avaliação é que não se pode desprezar a potencial insatisfação de uma categoria já, em geral, refratária à administração Lula.

Neste momento, isso não é algo que reverbera no Palácio do Planalto. Por lá, dizem fontes, a missão é formatar medidas que possam ser consideradas “estruturais” por motoristas e entregadores. Para apoiadores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, porém, o alento é que pelo menos uma ala do Executivo já esteja vislumbrando esse risco neste período pré-eleitoral.

Tarcísio e a farra dos coronéis, por Marcelo Godoy

O Estado de S. Paulo

Em dezembro, a PM de São Paulo mandou ao governador Tarcísio de Freitas um plano curioso: aumentar de 64 para 94 o número de coronéis sem criar uma única vaga de cabo ou de soldado – o plano inicial do secretário Guilherme Derrite era ter 50 novos chefes sem demonstrar a necessidade operacional da medida.

Pior do que aumentar os caciques era a consequência do plano. Soldados, cabos e sargentos são os policiais que estão nas ruas. Com os novos coronéis, uma companhia de praças seria retirada do patrulhamento para servir aos chefes como motoristas, seguranças e ajudantes. O projeto da farra ficou parado três meses no Palácio dos Bandeirantes. Na sexta-feira, Tarcísio o mandou à Assembleia. Agora, não são mais 30 novos coronéis, mas “só” dez. Cada um terá direito a dois carros novos e a seis policiais para ajudá-los.

Um estranho no ninho, por Fábio Alves

O Estado de S. Paulo

O Banco Central brasileiro destoou do tom de preocupação de outros BCs com os efeitos da guerra

Os investidores correram para refazer suas apostas para a trajetória de juros nas maiores economias do mundo depois que os bancos centrais deixaram um recado mais duro do que o esperado sobre os riscos para a inflação com a alta nos preços dos combustíveis, em razão do conflito no Oriente Médio. Mas um deles destoou desse tom de preocupação: o BC brasileiro.

É verdade que a decisão do Copom, iniciando o ciclo de corte de juros com redução mais suave da taxa Selic, de 15% para 14,75%, veio em linha com a projeção do mercado. É verdade também que o Copom admitiu que os riscos para a inflação se intensificaram após o início da guerra no Irã. E ainda reafirmou a postura de “serenidade e cautela”.

Master, diesel, IR e pesquisa, por Vinicius Torres Freire

Por Folha de S. Paulo

Guerra e efeitos sobre combustíveis até agora preocupam parte pequena do eleitorado

Isenção do IR e medidas sociais não ajudam a melhorar imagem e votação de Lula

A cúpula do governo Lula e militantes estão desnorteados com o resultado desanimador das pesquisas de voto e de opinião sobre o desempenho do presidente. A depender do levantamento, entre 45% e 55% do eleitorado diz que de modo algum votaria em Lula 4 —a variação é grande, pois perguntas e metodologias diferem. Os pacotes socioeconômicos não fazem efeito positivo. Agora, o governo teme até que Jair Bolsonaro morra antes da eleição.

Bolsonaro em casa enfraquece discurso de Flávio, por Igor Gielow

Folha de S. Paulo

Imagem do ex-presidente como mártir de perseguição política é pilar da herança do pai ao filho

Por outro lado, é mais difícil fiscalizar eventuais articulações políticas do ex-presidente em casa

A volta de Jair Bolsonaro para casa, na condição de condenado a 27 anos por tentativa de golpe, não é exatamente uma boa notícia para o seu filho Flávio, ungido pelo ex-presidente para disputar a eleição presidencial deste ano pelo PL.

Ainda que inicialmente por 90 dias, uma espécie de "test drive" acerca das intenções do ex-presidente, ela projeta o enfraquecimento do discurso do senador pelo Rio caso seja estendida.

Esbarrões no Master contaram para Ratinho Jr. Desistir, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Governador do Paraná vinha há algum tempo manifestando dúvidas quanto à candidatura presidencial

Caiado é visto no PSD como mais combativo e menos ligado a questões locais que o gaúcho Eduardo Leite

Ratinho Júnior seria mesmo o escolhido do PSD para concorrer à Presidência, mas injunções regionais, familiares e até possíveis esbarrões no caso Master fizeram-no desistir. Seguindo o ditado, melhor prevenir do que remediar.

Uma candidatura adversária às de hoje favoritas e já cercada de desconfianças quanto às chances de êxito afundaria se os citados senões se transformassem em obstáculos intransponíveis. A substituição no curso do processo seria mais complicada.

O paradoxo da moderação, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Com desistência de Ratinho Jr., terceira via fica quase definitivamente afastada

Zema e Caiado são bolsonaristas demais para posar de alternativa à polarização

Com excesso de boa vontade, ainda daria para classificar as candidaturas presidenciais de Ratinho Jr. e Eduardo Leite como uma terceira via, se entendermos esse termo como uma corrente política não automaticamente alinhada nem ao lulismo nem ao bolsonarismo.

Os outros dois principais pretendentes ao título de candidato da terceira via, Ronaldo Caiado e Romeu Zema, estão identificados demais com o ex-presidente e atual presidiário, que não deve em hipótese nenhuma ser confundido com o ex-presidiário e atual presidente.

Pitacos sobre a circunstância, por Gilvan Cavalcanti

Já dizia o filosofo da Grécia antiga, Heráclito: “tudo flui”, resumindo a ideia do mundo em movimento. Na época medieval, o italiano Maquiavel, chamava a atenção para o mundo social e político sobre uma ‘realidade efetivamente existente” no sentido “historicista”, movimentos, mudanças.

Nos tempos modernos, Marx, relembrava que “tudo que é sólido desmancha no ar”. Parece-me que parte de nossos, jornalistas, professores, cientistas políticos, dirigentes de partidos políticos e parlamentares, que buscam interpretar a realidade política, em nosso país, não levam muito em conta essas observações.

Optaram por uma visão dicotômica, entre um chamado “governo de esquerda”, o “lulismo”, o  “lulapetismo”, versos bolsonaristas, extremismo de esquerda versus extremismo de direita. Sugerem o fim dessa “polarização”.  Como? Uma chamada “terceira via”? Nem lulismo, nem bolsonarismo? Nem extremismo de esquerda, nem extremismo de direita?