terça-feira, 7 de abril de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Cidades sem receita própria distorcem federalismo

Por Folha de S. Paulo

Em 4 de cada 10 municípios, repasses federais e estaduais respondem por 90% ou mais dos orçamentos

Pior ainda, cidades passaram a receber montantes anômalos oriundos de emendas parlamentares destinados, no geral, a obras paroquiais

Em sistemas federalistas, é esperado que a maior parte da receita pública venha do governo nacional, que tem maior capacidade de tributar em todo o território do país. Também é normal que municípios recebam recursos federais e estaduais, pois arrecadam menos e têm de atender mais de perto aos cidadãos. No Brasil, entretanto, tais relações assumiram proporções disfuncionais.

Quando o crescimento não chega ao eleitor, por Luiz Schymura*

Valor Econômico

Em ano eleitoral, a economia importa, mas principalmente da forma como ela é sentida, e, até agora, ela cresce, mas ainda não convence plenamente

Em ano eleitoral, a economia se torna o principal termômetro político. Quando o PIB avança, o emprego sobe, a inflação recua e a renda real cresce, o governante costuma colher votos. Quando o quadro piora, paga o preço. A lógica parece simples. O problema surge quando os números são bons, mas o eleitor não sente sua vida melhorar.

É o caso do presidente Lula em 2026. Seu terceiro mandato exibe indicadores que, em outros tempos, garantiriam vantagem confortável. O PIB cresceu, em média, mais de 2% ao ano. A taxa de desemprego atingiu 5,6% no terceiro trimestre de 2025, mínima histórica na série do IBGE iniciada em 2012. A massa salarial real segue em alta. A inflação pelo IPCA fechou 2025 em torno de 4% e deve encerrar 2026 no mesmo patamar. São números que qualquer governo exibiria com orgulho. Em condições usuais, esse conjunto sustentaria não apenas avaliação positiva do governo, mas também menor dispersão nas expectativas e maior previsibilidade política.

Do convencional ao conveniente, por Luiz Gonzaga Belluzzo e Manfred Back*

Valor Econômico

A questão que deveria ter um debate amplo e livre é se o regime de metas de inflação trouxe resultados expressivos para o crescimento econômico do Brasil

Nos anos 1980, no início da reforma do modelo econômico chinês liderada por Deng Xiaoping. Promoveu-se um amplo debate na Academia Chinesa de Ciências Sociais (CASS - Chinese Academy of Social Sciences) antes de implementar a grande reforma. De um lado, economistas chineses com formação em universidades americanas e do outro lado, economistas com formação na tradição milenar. Desse debate amplo, venceu a ala não convencional, ou seja, contra a terapia de choque, adotada na Rússia e no leste europeu.

Como renegociar de dívidas pessoais, por Míriam Leitão

O Globo

A proposta mais adiantada é que os débitos sejam consolidados, quitados com desconto e garantia do governo, e substituídos por uma nova dívida, menor e mais barata

O governo e as instituições financeiras estão detalhando o novo programa de renegociação de dívidas. A opção com mais apoio é a de haver uma linha de crédito para que, na renegociação, o devedor quite a dívida antiga mais cara com desconto. E fique com uma nova dívida, menor e mais barata, parte dela assegurada pelo Fundo Garantidor de Operações. Por causa dessa garantia, a taxa de juros poderá ser substancialmente menor. Neste momento, estão identificando qual será o público-alvo. Já se sabe que o foco principal é inadimplentes com renda até três salários mínimos, e se estuda um mecanismo para devedores com renda acima desse valor.

Dança das cadeiras, por Merval Pereira

O Globo

Cerca de 120 parlamentares aproveitaram a janela para trocar de partido, confirmando a tendência direitista do Congresso e dos governos estaduais e consolidando a candidatura à Presidência do senador Flávio Bolsonaro.

O encerramento da janela partidária provocou uma reorganização do sistema político brasileiro, mantendo, porém, a predominância de partidos da direita. Houve crescimento do PL — que está com a maior bancada, próxima dos cem deputados federais —, diminuição significativa do União Brasil e crescimento, em número de parlamentares e em influência nacional, do PSD. Este cresceu no Rio Grande do Sul, no Nordeste e em estados-chave como Minas e São Paulo. Cerca de 120 parlamentares aproveitaram a janela para trocar de partido, confirmando a tendência direitista do Congresso e dos governos estaduais e consolidando a candidatura à Presidência do senador Flávio Bolsonaro.

Mundo mudará com guerra no Irã, por Fernando Gabeira

O Globo

Conflito pode redefinir o panorama internacional como poucos grandes acontecimentos históricos fizeram

O Estreito de Ormuz está fechado. Muitos afirmam que Trump poderia proclamar vitória com sua abertura. Acontece que ele sempre esteve aberto antes da guerra. Nesse caso, o objetivo do conflito seria alcançar algo que já existia antes dele.

Franz Kafka escreveu um conto em que um homem espera muito tempo na porta de uma fortaleza até descobrir que ela sempre esteve aberta. O castelo de Kafka simboliza o poder emaranhado em inúmeras medidas burocráticas. O Estreito de Ormuz, que o Irã partilha com Omã, sempre esteve lá como passagem de um quinto do petróleo mundial.

IAs têm emoções, por Pedro Doria

O Globo

Só não sabemos se também as sentem. Se as sentirem, teremos de repensar toda a relação

Nos últimos dias, a equipe de pesquisa da Anthropic publicou um artigo científico provando que inteligências artificiais (IAs) têm emoções. O verbo é escolhido com cuidado, aqui. Não é que sintam emoções — elas têm emoções. Ou as simulam. Os cientistas testaram 171 emoções diferentes, de felicidade a desespero, passando por um momento taciturno ou mesmo triste. O problema do estudo é que ele abre uma bifurcação na estrada ética das IAs. Precisamos compreender melhor o que são essas emoções. Se, além de as terem, elas também sentem.

Em ‘Política como destino’, uma linha do tempo de Geisel a Temer, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Moreira Franco transita com naturalidade por episódios envolvendo lideranças como José Sarney, Ulysses Guimarães e Tancredo Neves

O ex-governador fluminense e ex-ministro Moreira Franco lançará nesta quarta-feira (8/4), em Brasília, na Fundação Ulysses Guimarães (SHIS QI 15, conjunto 14, casa 18), a partir das 17h30, a autobiografia “Política como destino” (Topbooks), uma longa entrevista concedida à socióloga Aspásia Camargo, com participação especial do filósofo Denis Lerrer Rosenfield. Mergulho nos bastidores do poder, o livro combina memória pessoal, análise política e uma coleção de “causos”, da distensão do governo Geisel ao de Michel Temer (MDB), que assumiu o poder com o impeachment de Dilma Rousseff.

Entrevista | Cristovam Buarque: "divisão enfraquece narrativa progressista"

Por Raphaela Peixoto / Correio Braziliense

Pré-candidato a deputado federal pelo PSB, Cristovam Buarque defende unificação do campo progressista e cobra responsabilização pela crise no BRB. Ele também explica seu retorno à política aos 82 anos: "Uma omissão ficar em casa"

Recém-filiado ao Partido Socialista Brasileiro (PSB), o ex-governador do Distrito Federal Cristovam Buarque afirma que o cenário atual o incentivou a voltar para a política. "Não estava na minha cabeça ser candidato. Mas, diante do que a gente vê hoje, eu, 82 anos, mas com saúde, é uma omissão ficar em casa escrevendo", afirmou aos jornalistas Ana Maria Campos e Luiz Felipe, no Podcast do Correio.

Cristovam relatou que a mudança de partido ocorreu devido a divergências internas no Cidadania, o que classificou como alvo de um "golpe cartorial". "Eu não saio do partido, eu saio da sigla. O meu partido eu levo comigo", declarou o político. O ex-governador integrou um bloco de políticos que buscou abrigo na legenda liderada nacionalmente por Carlos Siqueira e João Campos.

‘A Prática da Estratégia’, por Paulo Hartung

O Estado de S. Paulo

Relevante é um olhar à estratégia em que se conjuguem o desejar e o agir, posto que um sem outro pode redundar em mera perda de tempo

Um mestre do planejamento no Brasil acaba de lançar um livro de referência sobre o tema. Em A Prática da Estratégia, Claudio Porto reúne conceitos fundamentais, dicas e um passo a passo para implementação de iniciativas e estudos de caso – nacionais e internacionais –, a partir de sua experiência de mais de meio século como estudioso e consultor nessa área. Na apresentação, o autor assinala que “o livro foi escrito para pessoas que protagonizam a construção do futuro de algo de interesse comum”. Esses “agentes podem se organizar como entes privados, públicos ou híbridos, formais ou informais”, tendo um “futuro desejado em comum e não efêmero”. Nesse contexto, a estratégia “é o produto ou o instrumento dos agentes para orientar e fazer a construção do futuro que eles desejam”.

Os pobres pagam pela crise mundial, Por Jorge J. Okubaro

O Estado de S. Paulo

São frequentes projeções de crise das finanças públicas em futuro próximo, com risco para a sustentação de importantes programas, especialmente na área social

Para desconsolo de operadores do mercado financeiro, a ganhadora do Prêmio Nobel de Economia de 2019, a francesa Esther Duflo, tem vindo ao Brasil e falado sobre o País com mais frequência do que gostariam. Duflo tem discorrido sobre temas que a tornaram reconhecida mundialmente, como pobres, combate à pobreza, taxação dos muitos ricos, políticas sociais inclusivas. São temas perturbadores aos que se dedicam a acumular riquezas, para si ou para terceiros.

Papai Noel fora de época, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Pacote de bondades do governo Lula tem dois motivos, a guerra do Irã e a (re)eleição

O presidente Lula assistia ao desmoronamento de sua reeleição de camarote, ou saltitando, para mostrar energia e juventude, mas a realidade e as pesquisas puseram o Planalto e o próprio Lula em estado de alerta. E lá vem o tradicional pacote de bondades de ano eleitoral.

Quem paga não é o coelhinho da Páscoa, que já passou, nem Papai Noel, que só chega em dezembro. Logo, é você!

Onipresente invisível, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Alexandre de Moraes voou em avião de Daniel Vorcaro – sempre será de uma empresa de Vorcaro – e se encontrou com o banqueiro no dia seguinte, de acordo com o Estadão. Embarcou, sem a esposa, em táxi aéreo contratado pelo escritório Barci de Moraes (da esposa) para deslocamento de seus advogados.

Xandão, que não era advogado na banca, viajou em 7 de agosto de 2025, em jato da onipresente Prime Aviation, e esteve com Vorcaro no dia 8, em São Paulo, conforme interpretação da mensagem do banqueiro à namorada: “Tô com Alexandre e tenho reunião depois com Ciro”. (Ciro seria o Nogueira, senador.) Foram algumas as viagens xandônicas nas asas da Prime, conforme levantara Monica Bergamo na Folha.

Preços de combustíveis antecipam eleição inflamável, por André Borges

Folha de S. Paulo

Programas e áreas mais sensíveis do governo são ameaçados por impactos da guerra

Medidas têm efeitos limitados sobre gás de cozinha e combustíveis de aviação e caminhões

As bombas de combustível e os botijões de gás anteciparam as eleições no país. Entre vacinas de efeito econômico, o governo Lula recorre a medidas para se proteger dos estilhaços políticos causados pela guerra no Oriente Médio.

O que está em jogo é o controle da inflação em ano eleitoral e o impacto direto em programas populares. O que se passa no distante Estreito de Ormuz mexe com os botijões do gás de cozinha que sacodem nas carrocerias de caminhões país afora, levando o Gás do Povo.

Direita evangélica racha com apoio de bispo a Caiado, por Juliano Spyer*

Folha de S. Paulo

A cerimônia que lançou Ronaldo Caiado como pré-candidato do PSD à Presidência contou com um gesto politicamente relevante: o apoio público do bispo Samuel Ferreira. O episódio expõe a fragilidade do vínculo entre Flávio Bolsonaro e parte expressiva das lideranças evangélicas.

Ferreira comanda uma das principais estruturas do pentecostalismo brasileiro: a Convenção Nacional das Assembleias de Deus no Brasil Ministério de Madureira (Conamad). Uma rede, como o bispo anunciou, com 42 mil templos distribuídos pelo país e cerca de 102 mil pastores.

Não tem como dar certo, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Coluna lista sugestões que podem ajudar na crise de credibilidade do STF

Reduzir proximidade de ministros com políticos e empresários seria primeiro passo

Não sei como resolver a crise de credibilidade no STF. Mas, inspirando-me na experiência de outros países e instituições, listo algumas sugestões que, se adotadas, poderiam minorar o problema no futuro.

Uma primeira providência seria limitar as oportunidades de interação, sobretudo aquelas em clima festivo, entre ministros do STF e políticos e empresários que possam vir a julgar. É preciso evitar que esbarrões sociais se transformem em belas amizades. O magistrado ideal nem deveria conhecer seus jurisdicionados. Poderíamos nos inspirar no que já fizeram sul-africanos e bolivianos e transferir a sede do Judiciário para uma cidade diferente daquela que abriga os outros Poderes. Proponho Palmas (TO).

Banalizada, corrupção não predomina no debate eleitoral, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Farra das emendas e supersalários estão ausentes da discussão

Candidaturas de direita têm como prioridade indulto a Bolsonaro

Em 1989, os brasileiros puderam escolher pelo voto direto, após 29 anos, um novo presidente. Ganhou Fernando Collor, ligado à ditadura militar, favorito da mídia e da elite econômica, autodenominado "caçador de marajás", com discurso de combate à corrupção e aos privilégios do funcionalismo.

A eleição foi uma festa, com tudo o que as festas podem ter de exagero e ridículo. Na cédula eleitoral havia 22 nomes, entre os quais o de Marronzinho, que se identificava como "analfabeto inteligente". Terminou em 13º lugar, com 0,3% dos votos. Em 10º, ficou Ronaldo Caiado, com 0,7%.

As palavras e as armas, por Ivan Alves Filho

Homens de milho, de Miguel Angel Astúrias, é uma obra escrita com base em uma lenda do Popol Vuh, um estupendo livro da cultura maia. Seu autor, guatemalteco, aborda a cosmovisão indígena de sua terra. Outro grande livro seu seria O Senhor Presidente, publicado em 1946, que disseca o autoritarismo na América Latina. Esta obra começou a ser escrita vinte anos antes de ser lançada e inaugura o chamado realismo mágico, que tanto marcaria a Literatura mundial