terça-feira, 21 de abril de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Política mudou após impeachment de Dilma; PT, não

Por Folha de S. Paulo

Em 10 anos, polarização se acentuou com bolsonarismo; partido mantém teses econômicas que geraram a crise

Congresso ganhou protagonismo ao longo de uma sequência de presidentes da República com índices de aprovação, quando muito, sofríveis

Esta Folha não apoiou o impeachment de Dilma Rousseff (PT), ocorrido há dez anos. Como apontou no dia em que a Câmara dos Deputados aprovaria o afastamento da então presidente, tratava-se de medida traumática, fundada em premissas jurídicas passíveis de discussão, "projetando para o futuro divisões e inconformismos".

Isso não significa que Dilma não tenha dado motivos para sua deposição, muito menos que tenha havido algum tipo de golpe, como quer a mitologia petista.

Ter ideias pode ser perigoso, Por Jorge J. Okubaro

O Estado de S. Paulo

Flávio Bolsonaro deixa claro seu desprezo pelos interesses nacionais e sua sabujice diante de alguém como o presidente Trump

O desempenho do senador Flávio Bolsonaro (PLRJ) nas pesquisas eleitorais talvez seja surpreendente até para ele. Numa das mais recentes, o pré-candidato presidencial da ultradireita aparece numericamente à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, embora em situação considerada de empate técnico. Como uma figura que, até há pouco, só era conhecida por ser filho de quem é (do ex-presidente Jair Bolsonaro) e de quem herdou o sobrenome, mas não por ideias ou atuação parlamentar, conseguiu chegar tão alto e tão depressa?

Juízes corruptos no alvo, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Reforma do Judiciário, antes tarde do que nunca, mas o corporativismo e as eleições deixarão?

Se um código de ética para o Supremo não foi longe, o debate sobre uma reforma do Judiciário caminha a passos largos, agora sob a liderança do ministro do STF e ex-ministro da Justiça do atual governo Flávio Dino. A proposta é mais do que necessária, seu risco é ser engolida pela suspeita de interesse eleitoral, já que é encampada pelo PT e por Lula, para se descolarem da crise do STF.

Passa década, entra década, uma reforma do Judiciário continua em pauta, sob a resistência interna, dos demais poderes e de uma mídia cheia de dedos. Isso vem mudando a partir das notícias sobre o submundo do Judiciário e do desgaste do Supremo com o envolvimento de ministros com o Banco Master. A hora é agora.

Delação sem caô, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo 

Fundos de investimentos criavam empresas de fachada, dirigidas por laranjas

O modo como Daniel Vorcaro operava – o sistema por meio do qual comprava burocratas, políticos e autoridades públicas – já é conhecido, desconhecida não raro a origem da grana empregada para as aquisições; a impossibilidade de explicar de onde viera a bufunfa sendo a razão por que a teia se ramificava até perder de vista. (Ramalhar cuja informalidade talvez lhe tire o sono agora: será quase impossível – o outro lado da moeda – que recupere os bilhões todos que espalhou paraísos afora, sob confiança em inconfiáveis.)

Contrastes, por Merval Pereira

O Globo

Flavio não fala nada, joga em sua zona de conforto, só vai aonde sabe que será bem acolhido. Lula fala pelos cotovelos, como de hábito

Os dois candidatos favoritos nas pesquisas eleitorais para a Presidência da República, o presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro, apresentam comportamentos distintos neste começo de campanha. O segundo não fala nada, joga em sua zona de conforto, só vai aonde sabe que será bem acolhido. Lula fala pelos cotovelos, como de hábito, e aproveita a permanência no cargo para explorar sua imagem pública. Ao não se expor muito, Flávio preserva a vantagem competitiva e explora o contraste entre um homem de 44 anos e um idoso de 80, mesmo que este aparente um bom vigor físico e o exiba nas redes sociais.

Trump mostra desprezo pelo Papa, por Fernando Gabeira

O Globo

Presidente dos Estados Unidos revelou arrogância ao afirmar que o pontífice é fraco e não entende de política externa

Quantas divisões tem o Papa? A pergunta, atribuída a Stálin, mostra o desprezo que os políticos em guerra têm pela autoridade moral de um Papa. Donald Trump revelou essa arrogância ao afirmar que o pontífice é fraco e não entende de política externa. Os Estados Unidos são uma nação religiosa e, pela primeira vez na História, o Papa é um americano. Nada disso inibiu Trump, apesar de os Estados Unidos continuarem dando um verniz religioso à sua política de conquista de regiões ricas em petróleo.

A Apple aposta na IA, por Pedro Doria

O Globo

Empresa aposta que, rapidamente, inteligência artificial virará hardware

A Apple anunciou ontem seu novo CEO. Será um dos atuais vice-presidentes seniores, John Ternus. Ele assume no dia 1º de setembro. É uma mudança gigantesca. Tim Cook, o atual CEO, sucedeu a Steve Jobs, o carismático fundador, que morreu precocemente de um câncer particularmente agressivo. Cook pegou a empresa e a transformou na primeira companhia americana a cruzar o valor de US$ 1 trilhão no mercado e, ainda hoje, aquela que se alterna com a Microsoft como negócio mais valioso do mundo. Quando não é uma, é a outra, e muda toda semana com o flutuar do preço das ações. Mas a escolha de Ternus não tem relevância apenas por isso. Na verdade, sua maior importância é o sinal que ela representa. A Apple acaba de fazer, nele, uma aposta sobre onde está o futuro da inteligência artificial.

As eleições, a politização do STF e o iluminismo fora de lugar, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Com mais de 75 milhões de processos em tramitação, milhões de novas ações, especialmente nas execuções fiscais, o Judiciário perde aderência à sociedade

No pequeno grande ensaio antropológico A Identidade Cultural na Pós-Modernidade (DPA&A Editora), o sociólogo anglo-jamaicano Stuart Hall descreve a evolução do conceito de identidade a partir de três conceitos: o ser iluminista, o ser sociológico e o ser pós-moderno. Hall argumenta que a identidade humana passa por um processo de descentramento e fragmentação. O ser iluminista é o indivíduo centrado, unificado, dotado de razão, consciência e ação; acredita que um núcleo interior nasce com o indivíduo, desenvolve-se e permanece o mesmo ao longo da vida. Trata-se de uma concepção individualista, na qual a pessoa é autônoma e sua identidade é fixa e constante: "Penso, logo existo" (Cogito, ergo sum) é a célebre frase do filósofo René Descartes, publicada em 1637. Ou seja, se basta.

Trump e as palavras, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Presidente americano é tão hiperbólico que o que ele diz não significa nada

Eleição de líderes carismáticos mas destrutivos é ponto fraco da democracia

Donald Trump já proferiu tantas barbaridades que fica difícil eleger a frase mais escabrosa. Uma séria candidata é a declaração de que destruiria em uma noite a civilização persa, "para nunca mais ressuscitar". Se qualquer outro presidente americano tivesse dito algo parecido, teria sua sanidade seriamente questionada e teria deflagrado uma crise política potencialmente fatal. Sendo Trump o autor da máxima, até encontramos comentários indignados, mas parece pouco provável que a ameaça de genocídio ao vivo lhe encurte o mandato.

PT defende aliança com direita liberal contra bolsonarismo, por Fábio Zanini

Folha de S. Paulo

Partido diz que distinção entre extrema direita autoritária e direita liberal é decisiva para tática política

Programa político deve ser aprovado durante congresso nacional que começa na sexta-feira (24)

Em seu novo programa político, que deve ser aprovado em congresso partidário nesta semana, o PT defende a aliança com setores liberais comprometidos com a democracia, e diz que ela é importante para isolar a extrema direita.

"É necessário reconhecer que o avanço da extrema direita não eliminou a existência de setores liberais comprometidos, ainda que de forma limitada, com a legalidade constitucional e com a estabilidade democrática", afirma o documento, que é resultado de uma comissão coordenada pelo ex-ministro José Dirceu.

A polarização ainda navega no mar das incertezas, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Os favoritos de lulismo e do bolsonarismo ainda são alvos do descrédito no campo decisivo do centro

Nenhum dos dois consegue ainda ultrapassar a barreira da falta de confiança firme em ambas as candidaturas

Não há hoje no horizonte razões substantivas para se temer pela continuidade da vigência do regime democrático no Brasil, ao menos no que concerne às candidaturas presidenciais já apresentadas.

O presidente Luiz Inácio da Silva (PT) faz jus ao histórico de respeito à legalidade em derrotas anteriores quando diz que, se perder, nada lhe cabe a não ser aceitar o resultado. O principal oponente, Flávio Bolsonaro (PL), sinaliza só aceitar como legítima a vitória, mas a prisão do pai confere ao discurso o tom de bravata desprovida de lastro na realidade.

Em clima de Copa, brasileiro é mais apostador que torcedor, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Palpites dão a seleção caindo nas quartas ou nas oitavas

Neymar tem 'aprovação' maior que Lula ou Flávio Bolsonaro

Torcer é passado. Ex-pacheco, o brasileiro encara a Copa do Mundo com enfoque calculista. Adeus ruas embandeiradas, orgulho de vestir a camisa canarinho, aperto no peito na hora do hino, a volta ao mundo da infância em 90 minutos de bola rolando.

O lance agora é, teclando no smartphone, apostar se a seleção cai na semifinal, quartas, oitavas ou mesmo se nem passa da fase de grupos. Trazer o caneco, como se dizia nos velhos tempos, é um palpite arriscado. Jogar dinheiro fora, raciocina aquele que já viveu no país do futebol.

A história ensina que os imperadores passam, mas o papado permanece, por João Pereira Coutinho*

Folha de S. Paulo

Por que Leão 14 não demonstra temor ou deferência diante de Donald Trump?

Não sei se o vice J.D. Vance, em suas aulas de catequese para adultos, aprendeu essas lições

Tempos interessantes. Os Estados Unidos fazem 250 anos em julho. Mas, como lembrou o especialista em assuntos religiosos Damian Thompson na revista Spectator, nunca se viu um conflito aberto entre um presidente americano —Trump— e um papa —Leão 14. Isso é um vício europeu, mais medieval do que moderno, embora existam exceções.

Amantes de história sabem do que estou falando —e, nos últimos tempos, tenho lido comparações inevitáveis para explicar a mais recente bizarrice trumpista.

Alguns lembram Henrique 4º, imperador do Sacro Império, que transformou Gregório 7º em inimigo na famosa "questão das investiduras", a disputa sobre quem podia nomear bispos e outros membros da Igreja. Gregório resistiu e excomungou o imperador.

Não acabou bem para Henrique. Aliás, o imperador terminou de joelhos, em Canossa, pedindo perdão ao papa.

Era Orbán na Hungria foi mais reflexo do que negação da Europa, por Janaina Martins Cordeiro

Folha de S. Paulo

Experiência iliberal no país nos últimos 16 anos reflete contradições europeias no pós-guerra

Ideia de 'retorno à Europa' se baseia em suposta superioridade de um Ocidente civilizado e na inferioridade de um oriente europeu bárbaro

[RESUMO] As eleições parlamentares na Hungria que selaram a derrota de Viktor Orbán foram celebradas como um "retorno do país à Europa", vista como símbolo de democracia e liberdade. Para professora, contudo, seria mais apropriado ver no projeto iliberal húngaro não uma negação dos valores europeus, mas um espelho de suas contradições, afinal o continente foi berço de fascismo, nazismo e guerras que deixaram um legado de destruição.

Em 12 de abril, as atenções do mundo se voltaram para um pequeno país da Europa Central —a Hungria, que, desde 2010, tornara-se uma espécie de laboratório internacional para as direitas radicais.

Naquele dia, eleições parlamentares interromperam o projeto iliberal do partido União Cívica Húngara (Fidesz) e de seu principal líder, o primeiro-ministro Viktor Orbán, no poder há 16 anos.

Com índices de participação eleitoral beirando os 80% —os maiores desde a redemocratização do país, em 1989—, as urnas consagraram a vitória do partido de oposição Respeito e Liberdade (Tisza), de centro-direita, liderado pelo ex-aliado de Orbán, Péter Magyar. A legenda conquistou 138 das 199 cadeiras do Parlamento húngaro, contra 55 do Fidesz.

Igualdade: Significado & Importância, por Ricardo Marinho

Livro resenhado: Thomas Piketty e Michael Sandel. Igualdade: Significado e importância. Tradução de Maria de Fátima Oliva Do Coutto. Prefácio de Laura Carvalho. Primeira Edição. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira: 2025. 144 págs.

A igualdade é um pilar fundamental da Constituição Cidadã Brasileira de 1988, consagrada no Artigo 5º, que estabelece que “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade”. Este princípio da Carta da Democracia finca-se nos direitos e garantias fundamentais e reflete um compromisso com a justiça e a equidade, bem como constitui a base da coesão social e da operação do Estado democrático de direito.