terça-feira, 26 de maio de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Encíclica de Leão XIV sobre IA reflete realismo e sensatez

Por O Globo

Papa reconhece valor da nova tecnologia, mas aponta os riscos intrínsecos a seu avanço

Leão XIV não é o primeiro papa a se preocupar com as transformações trazidas pela tecnologia à sociedade. A inspiração explícita de Magnifica Humanitas (Magnífica Humanidade), sua primeira encíclica publicada ontem, é Rerum Novarum (Sobre as coisas novas), em que Leão XIII — inspirador também do nome adotado pelo americano Robert Francis Prevost — discorria sobre o impacto das “coisas novas” oriundas da Revolução Industrial e, ao mesmo tempo que reconhecia o valor do avanço científico, rogava pela proteção daqueles cujo trabalho ou vida fossem afetados pelas transformações. É também esse o tom de Leão XIV na encíclica que dedicou à maior revolução tecnológica em curso: o advento da inteligência artificial (IA).

Uma semana para revoltar, por Fernando Gabeira

O Globo

Quando você olha o quadro de votações dessas medidas indecentes, esquerda, direita e centro estão de mãos dadas

Chego a Brasília, e o carro desliza por longas avenidas vazias de gente. Fiz esse trajeto durante 16 anos. Ele termina num lugar onde os hotéis estão próximos uns dos outros. De seu quarto de hotel, você parte para o Congresso, um imenso ringue onde se ataca, se defende, às vezes se insulta e se é insultado, tomando rios de café em copinhos de plástico. Volta para o hotel sem saber direito o que produziu. Toma uma sopa. Amanhã recomeça.

Essas lembranças me ocupavam no caminho até que encontrei uma amiga, jornalista, com décadas de experiência em Brasília. Perguntei se estava tudo bem, e ela me respondeu: parece que vivo noutro planeta. Fiquei preocupado, pois, quando uma antiga moradora de Brasília se sente noutro planeta, o homem comum deve se sentir noutra galáxia.

Nós contra eles, por Merval Pereira

O Globo

Lula e os Bolsonaros têm apoio cego dos eleitores. Nada os abala. Lula ganhou uma eleição no auge do mensalão

Pelas informações que circulam no meio político, o presidente Lula pretende imprimir num eventual quarto mandato uma radicalização à esquerda que não esteve presente em nenhum dos anteriores. Já havia a suspeita de que ele pudesse querer deixar essa marca durante seu governo, embora, na campanha, pudesse vender a imagem de moderado para atrair um eleitor não petista que não pretenda votar em Flávio Bolsonaro. Como sempre se soube, na política uma coisa é o que se diz na campanha, outra é o que se faz durante o governo. Mas os relatos dão conta de que Lula está animado com a queda de Flávio nas pesquisas e pretende acelerar a tática do “nós contra eles”, se apoiando mesmo nas medidas já tomadas de isenção do Imposto de Renda para os que ganham até R$ 5 mil e nos ataques aos “banqueiros e milionários” que diz se aproveitarem da desigualdade social do país para enriquecer mais ainda.

Lula dobra à esquerda, Por Thomas Traumann

O Globo

A campanha para a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai dobrar à esquerda. A estratégia de comunicação para dar a Lula um inédito quarto mandato será reforçar o atual slogan oficial, “um governo ao lado do povo brasileiro”, com um discurso que ataque “os privilégios dos super-ricos”. Será uma tentativa de demarcar para si o território da defesa dos interesses populares e nacionalistas, incorporando o antielitismo como eixo do futuro governo.

Esqueça o “Lulinha, paz e amor” da campanha de 2002 e, em alguns momentos, do segundo turno de 2022. O Lula candidato de 2026 vai falar mais grosso, será mais polarizante e vai cravar no bolsonarismo e na elite financeira as razões para os males do país. Se toda eleição é feita de inimigos, os do PT em 2026 serão quatro “Bs”: Bolsonaro, banqueiros, bets e as big techs.

A mudança na jornada, por Míriam Leitão

O Globo

A proposta é reduzir em dois meses para 42 horas e em um ano para 40. Casos específicos serão tratados por convenção coletiva e lei ordinária

No último fim de semana o deputado Leo Prates (Republicanos- BA), relator da PEC do fim da escala 6x1 ouviu o caso dos barqueiros no Amazonas. Há 62 municípios no estado, só em dez dá para ir de carro. Os barqueiros demoram, às vezes, oito dias para chegar no seu destino. Como cumprir uma escala cinco por dois? Diante de fatos concretos assim, ele foi formulando uma proposta para se adaptar às diversas especificidades. Por isso, colocou o teto e o piso. O teto é 30 dias. A cada 30 dias o barqueiro terá que ter oito folgas. A convenção coletiva vai dispor como serão distribuídas essas folgas.

O Papa e o trabalhador solitário, por Pedro Doria

O Globo

Leão XIV já sabia que teria de atacar, em seu papado, a questão do trabalho no tempo da inteligência artificial

Papa Leão XIV apresentou ontem, no Vaticano, a encíclica Magnifica Humanitas, celebrando os 135 anos exatos da publicação por Leão XIII de outra encíclica, a Rerum Novarum. Quando o cardeal Bob Prevost, cria de Chicago, foi escolhido papa no último conclave, tomou o nome Leão por causa da Rerum Novarum. Foi justamente em virtude do texto que estabeleceu a doutrina social católica perante a exploração absurda do trabalho no primeiro ciclo da Revolução Industrial. Prevost já sabia que teria de atacar, em seu papado, a questão do trabalho no tempo da inteligência artificial. E, cuidadosamente, apresentou o texto ontem enquanto tinha ao lado Christopher Olah, o homem de ética da Anthropic.

A encíclica de Prevost e o tema oculto da eleição no Brasil, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Alerta papal sugere que candidatos à Presidência digam o que pretendem fazer com a regulação de IA no Brasil

Levou um ano para Robert Prevost sair da sombra do carismático Francisco e começar a imprimir, ao seu papado, sua marca. A primeira encíclica, “Humanidade Magnífica”, não é apenas o clamor de uma inteligência artificial guiada pela ética. É uma exortação à sua regulação. Prevost recorre a uma palavra de sua língua materna, sem tradução, para definir o que vê como imperativo das grandes empresas que dominam o setor: “accountability”.

Fez quase um plano de trabalho: “Não basta invocar genericamente a ética. São necessários quadros jurídicos adequados, vigilância independente, educação dos utilizadores, uma política que não renuncie à sua missão. Caso contrário, a mudança será governada somente por lógicas tecnocráticas e apresentada como necessária e inevitável, acabando por impor regras efetivas, ditadas por quem detém dados, infraestruturas e capacidade de processamento”.

Indústria e/ou serviços: como o país pode enriquecer? Por Pedro Cafardo

Valor Econômico

Debate interessa ao Brasil, que busca há décadas um caminho para o desenvolvimento e faz atualmente um grande esforço pela reindustrialização

Desculpem-me, vou escrever um parágrafo na primeira pessoa. Quando estive em Mumbai, em 2003, enviado pelo Valor, fiquei curioso ao ver muitos homens de branco, na hora do almoço, levando enormes pranchas na cabeça, cheias de vasilhas de alumínio. Logo me explicaram que eles eram os “dabbawalas”, que operavam um sistema de entregas de marmitas desde 1890 na megacidade indiana, ex-Bombaim.

Os dabbawalas, de trens ou bicicletas, vão aos subúrbios, coletam as marmitas nas casas de trabalhadores e, a pé, as levam ao local de trabalho das pessoas no centro da cidade. Embora o sistema tenha perdido um pouco do espaço com o home office pós-pandemia e os aplicativos, ainda existem cerca de 5 mil entregadores, que operam sem usar a internet, por meio de um genial esquema logístico quase perfeito de codificação com cores, números e letras. Atualmente, ainda entregam cerca de 200 mil marmitas por dia.

Compra de votos à luz do dia, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Congresso compra votos e decide em causa(s) própria(s), descaradamente, em ano eleitoral

O grande tema da semana é o fim da escala de trabalho 6x1, agora prevendo transição até 2027, como acertado entre os presidentes Lula e o da Câmara, Hugo Motta, e entre governo e oposição, mas essa prioridade não pode apagar os rastros destruidores do Congresso em áreas tão amplas, com um escândalo atrás do outro, sem a devida indignação, especialmente na semana passada, mas não só.

Não olhe para cima, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

A Polícia Federal investigava – investiga ainda – a prática de contrabando por meio do avião do empresário Fernando Oliveira Lima, descobertos então, entre os 16 viajantes do voo em xeque, Hugo Motta e Ciro Nogueira. A notícia é de 28 de abril deste ano. O episódio, de 20 de abril de 2025. Motta já presidia a Câmara. Voltavam da ilha de São Martinho, no Caribe, paraíso fiscal e dos cassinos. Desembarcaram num aeroporto executivo em São Paulo, ocasião em que o piloto da aeronave entraria no País sem submeter cinco bagagens ao raio X. Ninguém sabe o que havia nos volumes.

Lei da Ficha Limpa está de novo nas mãos do STF, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Julgamento em curso no tribunal trata não da flexibilização, mas da anulação da essência da lei

Mudanças feitas pelo Congresso em 2025 facilitam infiltração do crime organizado na política

Há uma ação em processo de votação do plenário virtual que pode contribuir para o Supremo Tribunal Federal (STF) dar um trato na imagem e suavizar a maneira negativa como tem sido visto pela população.

O julgamento em curso não cuida da flexibilização, como se costuma dizer. Refere-se antes à anulação do fundamento que regeu a aprovação da Lei da Ficha Limpa, há 16 anos, que era o de expurgar dos pleitos autores de ilegalidades por longo tempo.

Derretimento de Flávio fragmenta o voto religioso e ajuda Lula, por Juliano Spyer

Folha de S. Paulo

Sem herdeiro da direita bolsonarista, igrejas perdem influência na eleição presidencial

Por falta de tempo, pastores e líderes buscarão seus interesses imediatos

O derretimento de Flávio Bolsonaro abriu uma oportunidade para seus adversários. Evangélicos representam um terço do eleitorado e, nos dois últimos pleitos, votaram consistentemente em Bolsonaro. Agora estão órfãos de candidato.

É equivocado falar em "evangélicos" genericamente —há muitas tensões e diferenças entre igrejas. Esse é parte do nó que Jair Bolsonaro desatou. Ele conseguiu ter apoiadores em todas as igrejas, de presbiterianos a assembleianos. O que mais ele fez?

Cadê a terceira via? Por Joel Pinheiro da Fonseca

Folha de S. Paulo

Flávio Bolsonaro balançou, mas não caiu, e seus rivais à direita têm desempenho pior do que o dele contra Lula

Caiado, Zema e Renan Santos nem discordam da pauta de livrar o ex-presidente da prisão

Foi um arranhão significativo para Flávio. No Datafolha de abril, ele estava numericamente à frente de Lula no segundo turno. No de sexta passada, já aparecia atrás —47% a 43%—, no limite da margem de erro.

Lula ganhou triplamente. Primeiro, porque seu principal adversário piorou sua projeção de votos no primeiro e no segundo turnos. Segundo, porque Lula vai numericamente melhor mesmo nos cenários sem Flávio. Sinal de que não foi só Flávio que caiu; Lula teve um avanço na estima do povo. Quem sabe o Desenrola, o subsídio pro carro novo, o desconto na gasolina, o auxílio gás, o fim da 6x1 e outras promessas do pacote de bondades começam a fazer efeito. Ter a caneta na mão faz diferença.

Campanha da fraternidade, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Primeiras avaliações mostram que Flávio Bolsonaro sai ferido de revelação de envolvimento com irmão Vorcaro

Escândalo, porém, não criou situação que o obriga a abandonar imediatamente a candidatura presidencial

Às vezes, invejo profissões alheias. Nos próximos meses, marqueteiros não ligados a Flávio Bolsonaro vão se divertir bolando alusões ao relacionamento fraterno entre o senador e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. "Você vai mesmo votar no irmão do Vorcaro?" é a minha sugestão para os dias finais da propaganda na TV. Será a campanha da fraternidade.

Além de Vorcaro, filho 01 teme mais escândalos no Rio, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Candidatura bolsonarista dá como certa a prisão de Cláudio Castro

Polícia Federal apura infiltração de múltiplos grupos criminosos no estado

Com as provas obtidas pela Operação Unha e Carne, a Polícia Federal não tem dúvida: Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro —atualmente preso por ter obstruído a Justiça e vazado informações para o Comando Vermelho—, exerceu papel central na estrutura de poder do estado, com mais influência do que o ex-governador Cláudio Castro, a quem pretendia suceder para dar continuidade ao esquema de corrupção.

O Brasil entre o fascismo e a liberdade, por Ivan Alves Filho*

A presença fascista é uma questão concreta na vida republicana brasileira. De um lado, ela toma por base toda uma tradição autoritária desenvolvida no país desde os tempos da escravidão. Tivemos um governo imperial que se prolongou por quase cinquenta anos. E, depois, apresentamos uma prática republicana nem tão republicana assim. E isso desde os seus primórdios. Basta citar a repressão aos revoltosos de Canudos, na última década do século XIX, e também aos comunistas, logo que estes se organizaram em partido político