domingo, 14 de junho de 2026

Os problemas que a Copa não resolve, por Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

Depois da Copa do Mundo, que tal olhar um pouco mais para a economia frágil?

Copa do Mundo, eleição e desemprego contido, embora distante da meta, têm garantido alguma animação no Brasil, apesar da inflação de 3,20% de janeiro a maio e de 4,72% em 12 meses, muito acima do alvo oficial de 3%. Se o governo insistir na gastança, o quadro pode piorar. Segundo projeções do mercado, a alta dos preços ao consumidor poderá superar 5% neste ano e 4% no próximo, pressionando mais duramente, como sempre, as famílias pobres e também as de renda média baixa. Essas famílias têm sido favorecidas muito mais pelo assistencialismo e pelo populismo do que pelas oportunidades de avanço profissional, de modernização econômica e de conquista de maior independência.

Uma Copa como nunca se viu, Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Cadê nossa bandeira, o nosso verde e amarelo? A polarização comeu

Cadê o nosso verde e amarelo? Onde estão as bandeiras do Brasil, que sempre encheram de luz, alegria e esperança o País em época de Copa do Mundo, fosse na ditadura militar, no início da redemocratização, nos governos de esquerda, de direita ou de qualquer coisa?

Não foi o gato que comeu e nada disso subiu na árvore. Aliás, nem é por desconfiança na seleção do Ancelotti, nem pelas dúvidas sobre o Neymar, nem mesmo pela aposta do comentarista Juca Kfouri de que o Marrocos iria vencer na estreia brasileira. Então, o que aconteceu com as nossas cores, a bandeira, as camisetas, a torcida interna? A polarização política tragou. Milhões de brasileiros e brasileiras, inclusive aqui na capital da República, onde eu testemunho ao vivo, têm medo de serem confundidos com seus adversários. É o que se ouve por aí: “Eu? Eu, não. Para acharem que sou bolsonarista?”

Acordo à vista no Oriente Médio, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

Um memorando de entendimento para a reabertura do Estreito de Ormuz parece prestes a ser assinado por EUA e Irã. O acordo obedece às condições impostas por Teerã: liberação de depósitos congelados no exterior, extensão do cessar-fogo por dois meses e adiamento da negociação sobre o programa nuclear iraniano para uma segunda etapa.

Os Emirados Árabes Unidos teriam concordado em liberar até US$ 20 bilhões de depósitos iranianos retidos em bancos de Dubai, segundo fontes ouvidas pela agência Reuters. Funcionários iranianos e dos Emirados teriam visitado Abu Dhabi e Teerã, respectivamente.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Juros de títulos do Tesouro expõem gasto insustentável

Por Folha de S. Paulo

Taxas chegam a superar 8% acima do IPCA; inflação em alta trava abrandamento

Cenário deixa poucas opções ao próximo governo além de ajuste rigoroso. Alternativa será fechar as contas com alta de preços, à custa dos mais pobres

Como tem sido a regra na gestão de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a conduta perdulária com as contas públicas cobra seu preço na forma de juros cada vez mais altos.

Desde maio, dispararam as taxas futuras no mercado, que já não consideram haver mais espaço para cortes na estratosférica Selic, hoje em 14,5% ao ano.

A profecia do messias Elon Musk tem agora crentes que rezam com trilhões de dólares, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Abertura de capital da SpaceX deu valor de US$ 2,1 tri para a missão do empresário

Prospecto do negócio tem estilo messiânico e plano de salvação da humanidade

As crianças dos anos 2030 talvez não se espantem de ver um céu de muitas luas quando olharem para o poente ou para o nascente. Coletores de energia solar e radiadores de calor de supercomputadores de inteligência artificial, os data centers orbitais, brilhariam como a Lua, mas com um quarto do tamanho.

Parece paisagem de contos de Arthur C. Clarke dos anos 1960, o autor de ficção científica que então imaginou também uma rede mundial de computadores que teria tantas conexões que se tornaria um cérebro com vontade própria.

Eduardo Bolsonaro mandou salvar o Master? Por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Quando o ex-deputado fugiu para os EUA, indicou Filipe Barros para substituí-lo na presidência de comissão

Subitamente, o órgão começou a se meter na regulação do setor financeiro, algo completamente fora de sua alçada

Leitores desta coluna já sabem que o deputado bolsonarista Filipe Barros (PL-PR) apresentou um projeto de lei (PL 4395/2024) para elevar a cobertura do FGC e salvar o Banco Master. Graças à coluna da jornalista Malu Gaspar, agora sabemos que sua atuação a favor do banco de Vorcaro foi muito mais longe. E pode ter envolvido Eduardo Bolsonaro.

O projeto de lei de Barros, é bom lembrar, era exatamente igual à proposta de Emenda 11 à PEC 65/2023, redigida pelo Banco Master e apresentada no Congresso Nacional pelo ex-chefe da Casa Civil de Bolsonaro, Ciro Nogueira. Se tivesse sido aprovado, o rombo deixado pelo Master no sistema financeiro teria sido muitas vezes maior do que foi.

Quando zero quer fazer sentido, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

É que perderam relevância marcadores de sentido que orientavam a percepção pública, a exemplo da economia

Sem nada dizer, erige-se como totem de uma espécie humana atormentada pela falta de esperanças, vulnerável ao marketing do nada

Era um júri no interior nordestino, desses a que se assistiam por obrigação acadêmica, quando o advogado de defesa contestou o promotor: "A minha objurgatória é peremptória no rechaço às ilações vitriólicas de Vossência". Exatamente assim. É difícil saber por que não se esquece linguagem de sentido obscuro, mas sonoramente marcante. Acontece, porém, mesmo quando se trata da empolação verbal que relega significação ao segundo plano do som. A palavra nua, o nome, para além de uma etiquetagem prática, guarda velado poder simbólico.

A história perdida do liberalismo, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Livro faz uma arqueologia do conceito, mostrando sua origem, desenvolvimento e contradições

Liberalismo é compatível tanto com ideias de esquerda como com de direita

Você é liberal? A pergunta é capciosa, porque "liberal" e "liberalismo" podem significar mais ou menos qualquer coisa e o seu contrário. Nos EUA, o termo "liberal" é sinônimo de "de esquerda". Mas o liberalismo também é compatível com as ideias de Von Mises e Hayek, autores de direita. No meio do caminho, temos Adam Smith, Stuart Mill e Keynes. Liberalismo é um conceito não só naturalmente polissêmico como também um que adquiriu diferentes significados em diferentes momentos históricos.

TSE deve garantir lisura sem interferir na eleição, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

A boa notícia é que Nunes Marques não teve o apoio automático de seus pares no tribunal eleitoral

Será péssima notícia se o colegiado resolver prestar um desserviço à liberdade de opinião

A boa notícia é que os ministros do Tribunal Superior Eleitoral não se alinharam automaticamente a Kássio Nunes Marques na decisão que cria um precedente para a censura não só às pesquisas de intenções de votos, mas a análises dos responsáveis pelos institutos sobre o conteúdo dos levantamentos.

Se tivessem aderido aos argumentos do presidente do TSE, daqui em diante estariam vetadas as explicações sobre o significado dos números e proibidas quaisquer referências a informações conhecidas na metodologia de captação de tendências do eleitorado.

Saldanha, entre um cigarro e outro, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Na série 'A Saga do Tri', ele fuma em todos os takes; na vida real, era quase isso mesmo

Seu intérprete Rodrigo Santoro, não fumante, acende 200 cigarros nos cinco episódios

Em clima de Copa, assisti a "Brasil 70: A Saga do Tri", a série de Pedro e Paulo Morelli sobre a seleção no México em 1970. Os personagens principais são um Zagallo enfezado e morrinha, como ele era, um Pelé mais angustiado do que os personagens de Kafka ou Dostoievski —como ele não era— e um delicioso João Saldanha, arguto, debochado, pródigo em bordões, fingindo acreditar nas histórias que contava.

Como todo mundo aqui no Rio, conheci Saldanha, claro. Era figura fácil no Bar do Osmar, um botequim na rua Miguel Lemos, em Copacabana, em que bebuns, ex-craques, jornalistas esportivos (Hans Henningsen, Sergio Noronha, Sandro Moreyra), intelectuais, poetas, ministros do Supremo, todos superbem informados, bebiam em pé e discutiam os segredos da República. Saldanha pontificava sobre a seleção como se treiná-la fosse a coisa mais fácil do mundo. Um dia, em 1969, foi da Miguel que ele saiu para falar com João Havelange, presidente da então CBD, e ser convidado a assumi-la.

Ingerência Inaceitável: o que pode nos afetar, por Abraham Benzaquen Sicsú*

Revista Será?

Como nação autônoma, um princípio basilar de nossa dignidade é a defesa da soberania. Precisamos preservar o direito de decidir nossos próprios caminhos e não admitir interferências indevidas em nosso território ou em nossa vida social.

Duas medidas recentemente adotadas ou discutidas pelos Estados Unidos podem produzir impactos relevantes sobre o Brasil: a classificação de facções criminosas brasileiras como organizações terroristas e as críticas dirigidas ao PIX, sistema de pagamentos instantâneos criado pelo Banco Central.

Em 28 de maio de 2026, os Estados Unidos classificaram o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras. A medida entrou em vigor no início de junho.

Para o leitor desavisado, isso pode parecer apenas uma decisão interna norte-americana ou mais um episódio da intensa polarização política que marca o cenário daquele país. Entretanto, seus possíveis desdobramentos merecem atenção. Não se trata de uma medida irrelevante: ela pode gerar consequências significativas para instituições financeiras, empresas e para o próprio funcionamento de setores da economia brasileira.

O que significa continuar humano? Por Hubert Alquéres*

Revista Será?

A publicação da encíclica Magnifica Humanitas, do Papa Leão XIV, chamou atenção por um motivo incomum. Em vez de tratar de temas tradicionalmente associados à vida religiosa, o documento dedica-se à inteligência artificial, talvez a transformação tecnológica mais importante de nosso tempo.

A escolha não é casual. Em 1891, o Papa Leão XIII publicou a encíclica Rerum Novarum, marco fundador da Doutrina Social da Igreja. Naquele momento, a Revolução Industrial alterava profundamente as relações de trabalho, a organização econômica e a própria vida social. A Igreja entendeu que não poderia permanecer indiferente diante de mudanças capazes de redefinir a condição humana.

Manoel Francisco dos Santos, por Ivan Alves Filho*

Manoel Francisco dos Santos. Assim escrito, o nome talvez não diga muita coisa, sobretudo aos leitores mais jovens. Quem terá sido ele mesmo? A dúvida se dissipa quando substituímos Manoel Francisco dos Santos por Mané Garrincha. Aí, nem Deus duvida mais.

Eu estava na França quando Mané Garrincha tentou jogar por lá, se não me engano no clube parisiense Red Star, no começo da década de 70. Confesso que torci por ele, mesmo se, àquela altura, o nosso Mané Garrincha já estivesse virtualmente acabado para o futebol. Ele bem que tentara uma volta pouco antes aos campos, envergando as cores do Flamengo. Infelizmente não foi muito bem sucedido, apesar de um recomeço promissor. A violência dos adversários – que o perseguiu por toda a vida profissional – acabou de vez com seu sonho.