domingo, 28 de junho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Rever isenções tributárias é imperioso

Por O Globo

É preciso extinguir o que não funciona para destinar benefícios a atividades com retorno comprovado

Faltando pouco mais de três meses para as eleições, governo e oposição fazem de tudo para fugir de temas fundamentais, mas impopulares. Nenhum candidato quer nem ouvir falar de reduzir isenções tributárias. Ninguém quer ser acusado de “prejudicar” algum setor ou “ameaçar” empregos em alguma região. Nem mesmo instaurar alguma política para avaliar a eficácia dos programas. Uma vez concedidos, isenções e benefícios têm permanecido doravante inalterados para sempre, e o país tem pagado custo cada vez mais alto.

Pelas contas do próprio governo, a renúncia fiscal da União equivale a 4,4% do PIB, embora a legislação tenha estabelecido um limite de 2%, há muitos anos desrespeitado. Graças à sanha inesgotável de grupos de interesse por toda sorte de isenção, essa proporção tem aumentado consistentemente desde 2011, quando estava ao redor de 3,5%. Considerando o desequilíbrio crônico das contas públicas brasileiras, abdicar de tanta receita — R$ 613 bilhões neste ano, ou 20% da arrecadação administrada pelo Fisco — não faz o menor sentido. A situação é ainda mais dramática por não haver avaliação sistemática dos benefícios, apesar dos movimentos nessa direção.

Usos e abusos do trumpismo, por Luiz Sérgio Henriques*

O Estado de S. Paulo

A face política do trumpismo se delineia numa reatualização da Doutrina Monroe mediante um ‘corolário’ intervencionista

Quem lê o excelente Leonardo Padura frequentemente encontra o elogio de uma vida menos assombrada pelos grandes dramas da História, reais ou supostos. O escritor cubano refere-se, acima de tudo, à situação intensamente sofrida pelos seus conterrâneos desde a criação do moderno mito revolucionário latino-americano, formado em torno da guerrilha dos idos dos anos 60. Para eles, tudo teve, ou ainda tem, imediata dimensão histórico-universal, quer congressos partidários ritualizados, quer eventos muito graves, como invasões frustradas e até uma catástrofe nuclear abortada no último momento.

Padura deseja a todos, não só aos que lhe são próximos, uma existência mais equilibrada entre o privado e o público, o cotidiano e a História. Não sabe o que acontecerá com seu país, constrangido como está entre a necessidade de amplas reformas internas e a agressiva pressão do grupo dirigente trumpista. Para este último, como se sabe, mudanças radicais são necessárias na ilha e, de resto, em toda a América Latina. O que Padura sabe com certeza é que entre tais mudanças não se conta a defesa ou a reconstrução da democracia, mas, antes, a disseminação de governos e coalizões de extrema direita promotores de um mercado sem regras. E pelo visto, respeitadas as devidas particularidades, daqui por diante todos compartilharemos sobressaltos comuns.

A ‘generosa oferta’ de Flávio a Trump, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Senador do PL vai aos EUA para discutir ‘business’ com Donald Trump

A mensagem de Marco Rubio para Flávio Bolsonaro foi cheia de recados subliminares, mais grave do que parecia à primeira vista e pode transformar a ida de Flávio ao país para uma audiência pública com o Escritório de Comércio, no dia 6, em mais um tiro no pé. Ou em mais uma peça de marketing, não para a campanha dele, mas para a de Lula.

O que importa é que Rubio agradeceu “a generosa oferta” de Flávio de, se eleito, montar uma equipe de transição exclusiva entre Brasil e EUA. Soa como uma hipoteca. Trump interfere a seu favor nas eleições e ele “paga”, depois, entregando os interesses e a independência do Brasil às conveniências dele.

Inflação desafia trunfo do emprego, por Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

Governo entra na campanha com emprego alto, mas inflação elevada

O governo fechou o primeiro semestre com uma notícia animadora – desemprego menor do que o de um ano antes – e uma preocupante, embora positiva – prévia da inflação mensal em queda, mas com taxa anual, 4,8%, ainda acima do teto da meta. Se a produção continuar em alta, mesmo com a expansão econômica perto de 2%, uma taxa medíocre para um país emergente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva poderá lucrar na busca pela reeleição. Falta saber como o governo reagirá se a alta de preços continuar superando com folga a meta oficial, 3% em 12 meses com tolerância de até 4,5%.

De Lacerda a Flávio, Washington ronda a política brasileira, Por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O mundo já não vive a Guerra Fria, o Brasil é uma democracia consolidada e as relações entre Brasília e Washington são marcadas por intensa interdependência econômica

Desde a crise que culminou no golpe militar de 1964, dificilmente um político brasileiro expôs de forma tão explícita sua interlocução com autoridades dos Estados Unidos durante uma disputa política interna quanto o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL). Entretanto, o circunstâncias históricas são distintas. O mundo já não vive a Guerra Fria, o Brasil é uma democracia consolidada e as relações entre Brasília e Washington são marcadas por intensa interdependência econômica. Ainda assim, os acontecimentos recentes recolocaram em debate a influência externa sobre os rumos da política brasileira.

O episódio ganhou dimensão eleitoral após a visita de Flávio a Washington. Ali, reuniu-se com integrantes do governo Donald Trump, incluindo o secretário de Estado Marco Rubio, o vice-presidente J.D. Vance e o próprio presidente norte-americano. O encontro antecedeu duas decisões relevantes: a classificação do Comando Vermelho (CV) e do Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas pelo governo dos EUA e a manutenção do processo que poderá resultar na imposição de tarifas de 25% sobre produtos brasileiros.

A fala de Michelle e seus reflexos, por Míriam Leitão

O Globo

Ela deixa claro que veio para ficar na política e pode se tornar plano B para o PL ou apoio para Flávio. Seja o que for, sai mais forte

A mensagem de Michelle Bolsonaro foi um ato de campanha, bem pensado e bem realizado. É um plano de contingência da extrema direita e de Jair Bolsonaro. O que falou, os símbolos da linguagem corporal, a caneta na mão, a edição de imagens de suporte, a leitura em tom de conversa revelam a minuciosa arquitetura de marketing político. Michelle é a melhor comunicadora da família e tem pontos reais de conexão com os evangélicos. Atrai também a atenção das mulheres, o eleitorado mais arredio ao bolsonarismo. A primeira reação de Flávio Bolsonaro foi a pior possível, a de menosprezo. Mulheres de qualquer lado político já sofreram atos semelhantes.

Farras, caronas e patacoadas, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Políticos seguem mesma cartilha: normalizar o anormal e atacar a investigação

O senador Jaques Wagner se diz indignado com a operação da Polícia Federal que expôs sua proximidade com Augusto Lima, sócio de Daniel Vorcaro. Em entrevista, o ex-governador da Bahia acusou os investigadores de armarem uma “patacoada” para prejudicá-lo. “Fica-se criminalizando qualquer tipo de relacionamento. Óbvio que de vez em quando eu pego carona. O que a polícia tem que comprovar, e não vai, é a relação de troca”, disse à Folha de S.Paulo.

O dito pelo não dito, por Merval Pereira

O Globo

A estratégia de trabalhar com um mundo falsamente compartilhado está na base das fake News.

Outro dia, em palestra da Academia Brasileira de Letras (ABL), o filólogo acadêmico Ricardo Cavaliere dissertou sobre a filosofia da linguagem que, no final do século XIX, na chamada “virada linguística”, definiu que nosso saber não está restrito aos domínios da mente, “pois o conteúdo cognitivo que acumulamos no decorrer da vida é moldado pela linguagem”. Os estudos da filosofia da linguagem destacam dois tipos de linguagem, baseados na “pressuposição” e na “implicatura”.

Sinal de alerta na Americanas, por Elio Gaspari

O Globo

Movimento da Polícia Federal indicam que pode estar sendo reaberto o caso da fraude praticada na empresa

A ida da Polícia Federal aos marqueses da rede varejista Americanas, bem como o bloqueio de até R$ 54 bilhões de seus bens, indicam que pode estar sendo reaberto o caso da fraude praticada na empresa.

Quando os holofotes estavam voltados para a rede e a empresa era vista como “terra arrasada”, um banqueiro chamado Daniel Vorcaro armava sua rede de notáveis para salvar seu banco. Organizava farofas com hierarcas e festas com jovens eslavas.

A sabedoria convencional ensina que o escândalo seguinte abafa a roubalheira anterior. Nesse caso, o banco Master abafaria o caso da Americanas. A ação da PF desmentiu essa urucubaca.

Surfando na Copa, por Dorrit Harazim

O Globo

Enquanto não entrega as mercadorias que o elegeram, o prefeito de Nova York vai surfando nas ondas da sorte no esporte

Para o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, a semana passada foi uma goleada de sabor duplo. Pegou todo mundo de surpresa, a começar pelo próprio alcaide. Começou na terça-feira, com eleições primárias de seu Partido Democrata para saber quem disputará as legislativas de novembro próximo. E terminou com a vitória do Equador sobre a Alemanha, que ele teve o faro político de saudar muito antes de o jogo começar.

Michelle contra Flávio, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Ex-primeira-dama diz que senador a humilhou com rispidez e fez alianças com quem chamou a família de ladrões

Ao dizer que só age com concordância do marido, Michelle sugere que Flávio também desautoriza Jair

Depois do irmão Vorcaro, agora é a vez da madrasta Michelle atrapalhar a vida de Flávio Bolsonaro.

Michelle Bolsonaro gravou um vídeo dizendo que Flávio Bolsonaro a apunhalou pelas costas, a humilhou com sua rispidez e faz alianças com que já chamou ele e seu pai de ladrão e de nazista. Também protestou contra a exclusão de mulheres das chapas bolsonaristas para o Senado esse ano: Priscila Costa, preterida no Ceará depois da aliança com Ciro Gomes, e Carol de Toni, que perdeu a vaga de candidata ao Senado pelo PL em Santa Catarina para Carlos Bolsonaro. Ao dizer, repetidas vezes, que só agia em concordância com o marido, Michelle sugeriu fortemente que, quando Flávio a desautorizava, desautorizava Jair. Afinal, se ela só repete o que Jair diz, o vídeo de quarta-feira também deve ter sido feito com a bênção de Bolsonaro.

O barraco de Michelle e o rolo Master de Wagner contam como o país funciona, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

No meio do sururu dos Bolsonaro pode se ver um plano novo para a direita extrema no Brasil

Caso Vorcaro explicita podres do STF, da finança, da política e da operação real do poder

Um assunto político da semana foi o vídeo de Michelle Bolsonaro, que armou salseiro novo na extrema direita. Pode ter relevância nesta eleição apertada, pois ameaça tirar votos de Flávio Bolsonaro. Além do mais, Michelle pode vir a ter posição política maior do que já tem por causa de seu status na família irreal dos Bolsonaro e de seu apelo de palco gospel. Tem presença virtual eficaz e militância real.

Que figura nacional viaja pelo país a organizar células de base, de resto com mulheres, com um comitê político de comando majoritariamente feminino? Que lideranças nacionais de esquerda, que quase inexistem, têm tamanha organização digital e agregam militantes no chão de fábrica político? Mesmo quem não gosta do que diz Michelle deveria prestar atenção ao que ela faz, um plano de entrincheirar a direita. A querela de Michelle com os Bolsonaro é "pop", porém, por misturar fofoca, novela, barraco familiar, BBB e pinimba de influenciadores, paixões nacionais.

Um destino tão funesto, por Muniz Sodré*

Folha de S. Paulo

Episódio chocante na ponte do Esqueleto, em Limeira (SP), provoca reflexão

Detrás de uma aberração individual pode haver uma microestrutura, que funciona pela obliteração despercebida da razão e da atenção, normalizando o anormal

Há algo de funesto, isto é, de mau augúrio e desastroso, no incidente da ponte do Esqueleto em Limeira (SP), quando três homens assistidos por um técnico levantaram nos braços uma jovem para lançá-la "em aviãozinho" do alto de 40 metros. Seria uma experiência de rope jump, em que grossas cordas sustentam a pessoa no ar. Só que, contra toda a razão, esqueceram de amarrar as cordas. "Horribile visu", medonho de contemplar, o chocante episódio provoca uma reflexão.

Fugindo para a fronteira, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Antigamente, os bandidos americanos vinham se refugiar na South America, leia-se o Rio

Hoje é o contrário; nossos bandidos escapam da lei brasileira e se refugiam nos EUA

cinema americano clássico tinha uma fórmula infalível para evitar que seus vilões mais simpáticos fossem presos no fim do filme e pagassem por seus crimes. Era só filmá-los atravessando um marco —a fronteira— onde se via, ao lado de um pujante cacto e de um sujeito roncando sob um sombrero, uma placa dizendo "México". Ou seja, passando para o lado de lá, não apenas os bandidos americanos se viam livres da Justiça como se refugiavam num país habituado a abrigar bandoleiros e que os tratava muito bem. Os mexicanos, como é natural, se magoavam com aquilo.

A Etimologia ensina, por Ivan Alves Filho*

Tenho vivido momentos de muita alegria com o convite feito pelo ator e dramaturgo Deo Garcez de adaptar para os palcos o meu livro Memorial dos Palmares, hoje em sua quarta edição. E como se isso não bastasse, o documentarista José Carlos Asbeg vai registrar, em filme, todo esse processo de montagem da peça. Só posso me sentir honrado com isso. Para quem começou a estudar Palmares no ano de 1975, nada poderia ser mais gratificante. Nunca é demais lembrar que o Quilombo alagoano materializa a maior revolta contra a escravidão na América Latina, e talvez em todo o mundo. Recordar a epopeia palmarina é reconhecer o apelo da dignidade e da liberdade na formação do Brasil e, também, em nossas vidas cotidianas.