domingo, 30 de novembro de 2025

Hora de pensar no interesse nacional, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

Trump elevou de 25% para 50% a tarifa sobre a Índia por causa da importação do petróleo russo

A fragilidade da ordem mundial se tornou ainda mais evidente nos últimos dias, com as tensões entre China e Japão e os obstáculos a um cessar-fogo entre Rússia e Ucrânia. O Brasil importa 90% dos fertilizantes que consome, dos quais 25% vêm da Rússia e 20% da China.

Estudo do Insper Agro Global lista os riscos comerciais, geopolíticos e logísticos dessa dependência. O Brasil, cuja economia é fortemente impulsionada pelo agronegócio, responde por 23% das importações mundiais de fertilizantes. Dessa maneira, a economia fica exposta às variações de preços, que dependem diretamente do custo do gás e do carvão. De 2020 para cá, a energia subiu 105% e os fertilizantes, 129%.

A urgência do crescimento, por Ana Paula Vescovi*

Folha de S. Paulo

Brasil precisa criar consensos mínimos, capazes de orientar reformas

Falta engajar a sociedade no desafio de crescer mais e de modo sustentado

Europa discute um dos temas mais relevantes desde a criação da União Europeia. O relatório Draghi e o estudo da London School of Economics recolocaram no centro da agenda uma pergunta que deveria ser simples, mas que raramente recebe respostas claras: o que precisa ser feito para que o continente volte a crescer de forma sustentada? A partir disso, formou-se algo novo: os movimentos em busca de um consenso de longo prazo, capaz de sobreviver a governos, orientar investimentos estratégicos e manter a coesão entre os países.

O diagnóstico europeu claramente é que, sem crescimento, não há como financiar a transição energética, a defesa do continente, lidar com o envelhecimento populacional e garantir autonomia tecnológica em um mundo mais competitivo. Tudo passa por produtividade e inovação, integração de padrões industriais e segurança institucional. A região escolheu discutir um novo projeto; se vai prosperar, a história há de contar.

O Brasil com menos empregados domésticos, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Proporção de trabalhadores domésticos no total cai ao menor nível de que se tem registro

Mercado de trabalho vai bem, mas esfria; mulheres fogem de emprego na casa dos outros

Os empregados domésticos nunca foram tão poucos em relação ao total dos trabalhadores, ao menos desde 2012, desde quando há estatísticas comparáveis, e desconsiderados os números distorcidos da época da epidemia. Em outubro deste ano, eram 5,4% do total. Em março de 2012, eram 6,8% (e sempre mais de 6,3% até a Covid-19). Sim, mais de 1 de cada 20 pessoas ocupadas no país é doméstico. São 5,6 milhões, mas não atraem tanta atenção quanto os trabalhadores por aplicativo, 1,7 milhão. Continuam quase invisíveis no debate público —é secular.

São dados baseados na Pnad do IBGE. Dizem algo sobre mudanças no mundo do trabalho e até sobre a inflação e a taxa de juros do Banco Central.

Direita precisa se perguntar: valeu a pena? Por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Graças a Bolsonaro, morreu todo o trabalho de décadas que PSDB e PFL fizeram para livrar a direita da associação com a ditadura militar

Bolsonarismo atrapalhou processo orgânico de crescimento de uma direita com enraizamento social

Agora que Jair está em cana, opa, calma aí, não consigo abandonar esse começo de frase ainda não, me deixe saborear, agora que o Jair está em cana, rapaz, que gostinho de justiça e bolo da vovó que sinto após dizer isso em voz alta.

Vou ter que dizer de novo, agora que o Jair está em cana, olha só, se o golpe tivesse dado certo, eu teria sido assassinado no pau-de-arara.

Se está achando ruim, vá ler outra coluna, quero mais é dizer de novo, agora que Jair está em cana por ter tentando roubar o voto dos pobres e usar as armas da República para matar seus adversários.

Desculpa, foram anos ouvindo gente dizer sem rir que o charlatão do Guedes era competente, mas OK, parei, agora que o Jair está em cana por ter tentado roubar o voto dos pobres e usar as armas da República para matar seus adversários, Vacina! Vacina!

Legalidade é o melhor remédio, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

O histórico de escândalos nas altas esferas poderia colocar o país no lugar de paraíso de ilegalidades

A boa notícia é que desde a redemocratização muitas malfeitorias explodiram, mas várias foram implodidas

Quatro ex-presidentes presos, dois impeachments em 24 anos, cinco ex-governadores de um só estado (RJ) com passagens pela cadeia é um portfólio e tanto, para o bem e para o mal.

Diz muito sobre a conduta das autoridades, mas diz muito também sobre o histórico nacional de tolerância com os poderosos, não só da política estrito senso, como atividade profissional.

Até o início da década dos 1990, os barões do jogo do bicho no Rio de Janeiro eram tratados como celebridades, financiadores de campanhas eleitorais em cena aberta.

Uma gafe muito instrutiva, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Lapso verbal de Lula é acidente de percurso que deixa claro que o problema da droga é também de linguagem

As estruturas burocráticas de repressão travam uma guerra de enxugar gelo contra a narcocracia internacional

Todo homem de Estado comete gafes. O chanceler alemão Friedrich Merz disse estar "contente" por deixar Belém e retornar a seu país, que "é lindo". Fez feio. Em Bolsonaro, a frase "eu não sou estuprador, mas se fosse não iria estuprar porque ela não merece", a propósito de uma parlamentar, não é gafe, mas exposição de um "self" maligno: ele próprio foi uma gafe republicana.

Lula é reincidente. A sua última merece discussão por um possível mal-entendido. Ele deixou escapar algo como "traficante é vítima do usuário". Literalmente, a frase é um absurdo para o senso minimamente ciente do mal que o narcotráfico inflige à sociedade e às famílias. Cansaço ou falta de concentração prejudicam o processamento mental, levando a lapsos de linguagem.

Opinião do dia - Norberto Bobbio* (Democracia)

“Na memória histórica dos povos europeus, a democracia apresenta-se pela primeira vez através da imagem da agorá ateniense, a assembleia ao ar livre onde se reúnem os cidadãos para ouvir os oradores e então expressar sua opinião erguendo a mão. Na passagem da democracia direta para a democracia representativa (da democracia dos antigos para a democracia dos modernos), desaparece a praça, mas não a exigência de “visibilidade” do poder, que passa a ser satisfeita de outra maneira, com a publicidade das sessões do parlamento, com a formação de uma opinião pública através do exercício da liberdade de imprensa, com a solicitação dirigida aos líderes políticos de que façam suas declarações através dos meios de comunicação de massa.”

*Norberto Bobbio (1909-2004), filósofo político, historiador do pensamento político, escritor e senador vitalício italiano. Teoria Geral da Política - A Filosofia Política e as Lições dos Clássicos. P.387.Editora Campus, Rio de Janeiro. 2000.