domingo, 30 de novembro de 2025

Opinião do dia - Norberto Bobbio* (Democracia)

“Na memória histórica dos povos europeus, a democracia apresenta-se pela primeira vez através da imagem da agorá ateniense, a assembleia ao ar livre onde se reúnem os cidadãos para ouvir os oradores e então expressar sua opinião erguendo a mão. Na passagem da democracia direta para a democracia representativa (da democracia dos antigos para a democracia dos modernos), desaparece a praça, mas não a exigência de “visibilidade” do poder, que passa a ser satisfeita de outra maneira, com a publicidade das sessões do parlamento, com a formação de uma opinião pública através do exercício da liberdade de imprensa, com a solicitação dirigida aos líderes políticos de que façam suas declarações através dos meios de comunicação de massa.”

*Norberto Bobbio (1909-2004), filósofo político, historiador do pensamento político, escritor e senador vitalício italiano. Teoria Geral da Política - A Filosofia Política e as Lições dos Clássicos. P.387.Editora Campus, Rio de Janeiro. 2000.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Supersalários são combustível da desigualdade

Por O Globo

Remuneração acima do teto recebida pela elite do funcionalismo custa R$ 20 bilhões ao ano, conclui estudo

Não é surpreendente, mas nem por isso deixa de ser estarrecedor o quadro exposto pelo estudo a respeito de supersalários no poder público realizado pelo pesquisador Sérgio Guedes-Reis para as organizações da sociedade civil República.org e Movimento Pessoas à Frente. O gasto brasileiro com pagamentos acima do teto salarial estipulado na Constituição somou nada menos que R$ 20 bilhões entre agosto de 2024 e julho deste ano — ou dois terços do que o governo busca para cumprir a meta fiscal do ano que vem. Por qualquer parâmetro, o Brasil é o país que mais gasta com a elite do funcionalismo numa amostra de 11 países.

O gasto brasileiro com supersalários — cerca de US$ 8 bilhões pelo critério de conversão adotado — equivale a 21 vezes o que gasta a Argentina, segundo país com mais pagamentos acima do teto. Depois vêm Estados Unidos e México,únicos com gastos acima de US$ 200 milhões. França, Itália, Colômbia, Portugal e Alemanha despendem menos de US$ 4,2 milhões, ao redor de 0,05% do total brasileiro. A distorção é tão grande que o excedente do teto constitucional pago no Brasil a 40 mil servidores públicos daria para financiar um salário mensal de R$ 2.200 a 9,1 milhões de brasileiros — ou 18,8% dos empregados com carteira assinada.

Crise de lógica, por Merval Pereira

O Globo

Para punir o governo, a Câmara aprovou o projeto que concede gratificação especial para agentes de saúde, sem dizer de onde vai sair o dinheiro.

A escolha pelo eleitor de candidatos a deputado estadual ou federal deveria ser feita pelo partido ou coligação de que ele participa, e não por suas qualidades pessoais. Essa escolha pessoal serve mais para as disputas majoritárias, especialmente Governador ou presidente da República. Se o eleitor desse prioridade à organização partidária, tenderia a votar para dar aos candidatos majoritários o apoio necessário para que governassem. Se as legendas partidárias significassem alguma coisa lógica com seu programa oficial, não aceitariam certos candidatos, por fragilidade moral ou desencontro ideológico. Mas o que importa é o voto na urna, que aumenta os fundos de financiamento.

No Brasil, dificilmente o governante tem a maioria na Câmara dos Deputados ou na Assembleia Legislativa. Esse desencontro obriga a que o candidato majoritário eleito tenha que fazer alianças fora de seu arco partidário, o que invariavelmente inclui acordos com parlamentares de campos opostos, e mesmo distintos ideologicamente. Esses acordos são regidos por interesses pessoais, que desvirtuam o sentido da coalizão partidária estendida, muitas vezes sem nenhuma lógica.

O Congresso não derrotou o governo. Derrotou o país, por Míriam Leitão

O Globo

Na semana em que o Brasil puniu golpistas pela primeira vez, parlamentares impõem um retrocessos brutal, com ameaças ao meio ambiente

A democracia brasileira não permite descanso. Na mesma semana em que o Brasil atravessou uma fronteira histórica para fortalecer os pilares do regime das liberdades, o Congresso humilha o país mostrando que é capaz de tudo para atender a interesses menores. Não foi o governo que o Congresso derrotou com suas pautas-bomba e destruição das leis de proteção ambiental e do patrimônio histórico. Foi o país.

O Brasil nunca havia punido golpistas. Passou toda a história republicana assombrado por golpes, tentativas de golpes, quarteladas e pela ideia dos militares de que lhes cabia tutelar o poder civil. Prender generais e um ex-presidente condenados após o devido processo legal por tentativa de golpe é um passo gigante. Os que têm a democracia como valor supremo poderiam, quem sabe, depois disso, descansar um pouco da grande batalha.

As encrencas de Augusto Heleno, por Elio Gaspari

O Globo

O general Augusto Heleno, condenado a 21 anos de prisão, revelou durante um exame médico que convive com o mal de Alzheimer desde 2018. Um ano depois desse diagnóstico, ele passou a ocupar a chefia do Gabinete de Segurança Institucional (GSI).

A trama golpista de 2022/2023 não foi a única encrenca pela qual Augusto Heleno passou. Na manhã de 21 de outubro de 1977, o capitão Augusto Heleno era ajudante de ordens do ministro do Exército, general Sylvio Frota, que acabara de ser demitido pelo presidente Ernesto Geisel. Por volta das 10 horas da manhã, do carro de seu chefe tentou telefonar para o general Fernando Bethlem, comandante das guarnições do Sul, convocando-o para reunião do Alto Comando na qual Frota pretendia emparedar Geisel. Não o achou, pois Bethlem foi para o Palácio do Planalto, onde recebeu o convite para assumir o ministério.

Um ano depois, Augusto Heleno era vigiado pelo Serviço Nacional de Informações: “Vale lembrar que o capitão de cavalaria Augusto Heleno, ex-ajudante de ordens do general Sylvio Frota e que com o mesmo continua a manter estreita ligação, e o capitão de infantaria paraquedista Burnier (filho do brigadeiro Burnier) e ligado ao general Hugo Abreu, irão cursar a Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais.”

Homens ocos, por Dorrit Harazim

O Globo

Melhor sair logo da escuridão e da indignação fácil. E encarar quem somos nós, que aceitamos o que vemos

Três meses atrás, no Festival de Veneza, a estreia mundial do filme “A voz de Hind Rajab” recebeu ovação histórica de 23 minutos. A diretora tunisiana desse longa híbrido acredita que ele consiga ser um dos favoritos ao Oscar de Melhor Filme Internacional em março de 2026. Ele reconstitui as últimas horas de vida da menina palestina Hind, de 6 anos, passadas dentro de um automóvel que acabara de ser perfurado por 335 disparos. O tio, a tia e três primos espremidos nos dois bancos do carro familiar foram morrendo a seu lado. E a menina, agora sozinha, aciona o número de emergência do Crescente Vermelho que toda criança ou adulto de Gaza sabe de cor. A voz infantil tem urgência adulta e é indelével:

— Estou com medo, por favor, venham.

O fato ocorreu em 29 de janeiro de 2024. Como se sabe hoje, ninguém veio —ou melhor, os dois socorristas que tentaram chegar até Hind de ambulância foram igualmente metralhados pelas Forças de Defesa de Israel (FDI). O conjunto de corpos em carcaças retorcidas ali ficou por 12 dias até ser recolhido.

A Igreja dos pobres, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Movimento chacoalhou a América Latina ao aproximar o catolicismo das lutas populares

No fim dos anos 1970, os militares que mandavam em El Salvador adotaram um lema macabro: “Seja patriota, mate um padre”. O país era refém da miséria e da ditadura. Na ausência de uma oposição livre, a tarefa de defender os mais vulneráveis sobrava para a Igreja Católica.

O arcebispo de San Salvador, dom Óscar Romero, era a face pública da resistência. Chamado de “porta-voz dos que não têm voz”, notabilizou-se por criticar a violência do regime e defender uma Igreja solidária aos pobres. Em março de 1980, foi assassinado em plena missa por um atirador do Exército.

Um novo ciclo político se abre diante de uma onda reacionária global, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Mas falta direção estratégica. Falta o movimento político mais profundo do que a agitação radical, que permita avançar na modernização em bases democráticas

A percepção de que há uma corrida mundial para reinventar o Estado não é nova, mas nunca foi tão flagrante e urgente. As mutações tecnológicas, a reconfiguração das subjetividades na chamada “sociedade líquida” e a crise dos mecanismos tradicionais de representação, como os partidos, o parlamento e a imprensa, colocaram os países diante de escolhas dramáticas. No turbilhão, democracias representativas parecem correr atrás dos acontecimentos, enquanto regimes autoritários, por concentrarem poder, reprimir dissensos e eliminar freios e contrapesos, conseguem produzir respostas mais rápidas e, em certos casos, mais eficazes à necessidade de modernização.

A Arábia Saudita talvez seja o exemplo mais eloquente dessa contradição: moderniza sua economia com velocidade quase futurista, mas à custa de liberdades civis, participação política e direitos humanos. Já no Ocidente, democracias centrais como a França se contorcem diante da pressão das ruas, da polarização ideológica, da erosão de partidos tradicionais e da incapacidade de produzir reformas que mobilizem consenso.

Chega de intermediários! Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Grande vitorioso com a prisão de Bolsonaro, Centrão se torna principal adversário de Lula

O grande vitorioso com a prisão de Jair Bolsonaro é o Centrão, que se descola do ex-presidente e pega em armas contra o presidente Lula no Congresso para fazer jus ao próprio apelido, tornar-se alternativa à polarização política e aventurar-se por mares nunca dantes navegados: a disputa da Presidência da República. Chega de intermediários! É hora de candidatos próprios.

Assim, o grande adversário de Lula em 2026 deixa de ser o bolsonarismo e passa a ser o Centrão, que nada mais é do que direitão e ocupa o vácuo eleitoral criado pela prisão, soluços e delírios de Jair Bolsonaro, a beligerância antipatriótica de Eduardo Bolsonaro e o salve-se quem puder na turma e na família.

Hora de pensar no interesse nacional, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

Trump elevou de 25% para 50% a tarifa sobre a Índia por causa da importação do petróleo russo

A fragilidade da ordem mundial se tornou ainda mais evidente nos últimos dias, com as tensões entre China e Japão e os obstáculos a um cessar-fogo entre Rússia e Ucrânia. O Brasil importa 90% dos fertilizantes que consome, dos quais 25% vêm da Rússia e 20% da China.

Estudo do Insper Agro Global lista os riscos comerciais, geopolíticos e logísticos dessa dependência. O Brasil, cuja economia é fortemente impulsionada pelo agronegócio, responde por 23% das importações mundiais de fertilizantes. Dessa maneira, a economia fica exposta às variações de preços, que dependem diretamente do custo do gás e do carvão. De 2020 para cá, a energia subiu 105% e os fertilizantes, 129%.

A urgência do crescimento, por Ana Paula Vescovi*

Folha de S. Paulo

Brasil precisa criar consensos mínimos, capazes de orientar reformas

Falta engajar a sociedade no desafio de crescer mais e de modo sustentado

Europa discute um dos temas mais relevantes desde a criação da União Europeia. O relatório Draghi e o estudo da London School of Economics recolocaram no centro da agenda uma pergunta que deveria ser simples, mas que raramente recebe respostas claras: o que precisa ser feito para que o continente volte a crescer de forma sustentada? A partir disso, formou-se algo novo: os movimentos em busca de um consenso de longo prazo, capaz de sobreviver a governos, orientar investimentos estratégicos e manter a coesão entre os países.

O diagnóstico europeu claramente é que, sem crescimento, não há como financiar a transição energética, a defesa do continente, lidar com o envelhecimento populacional e garantir autonomia tecnológica em um mundo mais competitivo. Tudo passa por produtividade e inovação, integração de padrões industriais e segurança institucional. A região escolheu discutir um novo projeto; se vai prosperar, a história há de contar.

O Brasil com menos empregados domésticos, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Proporção de trabalhadores domésticos no total cai ao menor nível de que se tem registro

Mercado de trabalho vai bem, mas esfria; mulheres fogem de emprego na casa dos outros

Os empregados domésticos nunca foram tão poucos em relação ao total dos trabalhadores, ao menos desde 2012, desde quando há estatísticas comparáveis, e desconsiderados os números distorcidos da época da epidemia. Em outubro deste ano, eram 5,4% do total. Em março de 2012, eram 6,8% (e sempre mais de 6,3% até a Covid-19). Sim, mais de 1 de cada 20 pessoas ocupadas no país é doméstico. São 5,6 milhões, mas não atraem tanta atenção quanto os trabalhadores por aplicativo, 1,7 milhão. Continuam quase invisíveis no debate público —é secular.

São dados baseados na Pnad do IBGE. Dizem algo sobre mudanças no mundo do trabalho e até sobre a inflação e a taxa de juros do Banco Central.

Direita precisa se perguntar: valeu a pena? Por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Graças a Bolsonaro, morreu todo o trabalho de décadas que PSDB e PFL fizeram para livrar a direita da associação com a ditadura militar

Bolsonarismo atrapalhou processo orgânico de crescimento de uma direita com enraizamento social

Agora que Jair está em cana, opa, calma aí, não consigo abandonar esse começo de frase ainda não, me deixe saborear, agora que o Jair está em cana, rapaz, que gostinho de justiça e bolo da vovó que sinto após dizer isso em voz alta.

Vou ter que dizer de novo, agora que o Jair está em cana, olha só, se o golpe tivesse dado certo, eu teria sido assassinado no pau-de-arara.

Se está achando ruim, vá ler outra coluna, quero mais é dizer de novo, agora que Jair está em cana por ter tentando roubar o voto dos pobres e usar as armas da República para matar seus adversários.

Desculpa, foram anos ouvindo gente dizer sem rir que o charlatão do Guedes era competente, mas OK, parei, agora que o Jair está em cana por ter tentado roubar o voto dos pobres e usar as armas da República para matar seus adversários, Vacina! Vacina!

Legalidade é o melhor remédio, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

O histórico de escândalos nas altas esferas poderia colocar o país no lugar de paraíso de ilegalidades

A boa notícia é que desde a redemocratização muitas malfeitorias explodiram, mas várias foram implodidas

Quatro ex-presidentes presos, dois impeachments em 24 anos, cinco ex-governadores de um só estado (RJ) com passagens pela cadeia é um portfólio e tanto, para o bem e para o mal.

Diz muito sobre a conduta das autoridades, mas diz muito também sobre o histórico nacional de tolerância com os poderosos, não só da política estrito senso, como atividade profissional.

Até o início da década dos 1990, os barões do jogo do bicho no Rio de Janeiro eram tratados como celebridades, financiadores de campanhas eleitorais em cena aberta.

Uma gafe muito instrutiva, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Lapso verbal de Lula é acidente de percurso que deixa claro que o problema da droga é também de linguagem

As estruturas burocráticas de repressão travam uma guerra de enxugar gelo contra a narcocracia internacional

Todo homem de Estado comete gafes. O chanceler alemão Friedrich Merz disse estar "contente" por deixar Belém e retornar a seu país, que "é lindo". Fez feio. Em Bolsonaro, a frase "eu não sou estuprador, mas se fosse não iria estuprar porque ela não merece", a propósito de uma parlamentar, não é gafe, mas exposição de um "self" maligno: ele próprio foi uma gafe republicana.

Lula é reincidente. A sua última merece discussão por um possível mal-entendido. Ele deixou escapar algo como "traficante é vítima do usuário". Literalmente, a frase é um absurdo para o senso minimamente ciente do mal que o narcotráfico inflige à sociedade e às famílias. Cansaço ou falta de concentração prejudicam o processamento mental, levando a lapsos de linguagem.

Poesia | Não se mate, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Simone - O que será