quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Aprovação de Lei Antifacção é avanço contra o crime

Por O Globo

Medidas para enfrentar organizações criminosas resultam de diálogo saudável entre governo e oposição

Depois das idas e vindas, a Câmara enfim aprovou em votação simbólica o Projeto de Lei (PL) Antifacção. Embora a proposta original do governo tenha sido bastante modificada ao longo da tramitação, o PL, que seguirá para sanção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, representa um passo importante no combate ao crime organizado. Ele dá ao Estado instrumentos mais consistentes para enfrentar as organizações criminosas que convulsionam o país.

É certo que o relator do projeto, deputado Guilherme Derrite (PP-SP), poderia ter aproveitado melhor as contribuições do Senado, onde a relatoria do senador Alessandro Vieira (MDB-SE) obteve raro consenso entre governo e oposição. Derrite preferiu restabelecer quase integralmente a versão anterior da Câmara. Mesmo assim, o resultado foi satisfatório. O próprio governo afirmou que ele reflete a “essência” da proposta enviada pelo Planalto.

Comércio multilateral e o jogo errático de Trump, por Eduardo Belo

Valor Econômico

A prioridade estratégica brasileira é clara, continuar diversificando, sem ilusões e com pragmatismo

Por volta de 300 a.C., Dâmocles era um bajulador do tirano Dionísio, de Siracusa, o qual era alvo de uma mal disfarçada inveja, devido a seu poder. Dionísio o convidou para um banquete. Dâmocles ocuparia o lugar do governante. Sentado à mesa, diante de uma quantidade formidável de iguarias, o jovem olhou para cima e viu que pendia sobre sua cabeça afiadíssima espada sustentada apenas por um fio de cabelo. Reza a lenda que, diante da cena, Dionísio indagou: “Perdeste o apetite?”.

A metáfora não soa tão perfeita para a ocasião - a não ser pelo que tem de ameaça -, mas é lembrada por Carlos Primo Braga, professor associado da Fundação Dom Cabral e ex-diretor de Política Econômica do Banco Mundial, para retratar a situação do Brasil em relação à imposição de tarifas pelo presidente americano, Donald Trump.

Com a PF desatada, Senado avança sobre o Master, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

CPI reage ao avanço das investigações franqueado pela troca de relator do caso no STF

Foi uma aprovação de baciada a da CPI do crime organizado: 21 convocações, sete convites, sete quebras de sigilo e quatro pedidos de informação. O resultado foi um Fla x Flu entre governistas e bolsonaristas com um Centrão ausente.

A cereja foi o convite a dois ministros do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli Alexandre de Moraes, e à esposa deste, Viviane Barci de Moraes, todas da lavra do senador Eduardo Girão (Novo-CE), mas é nas convocações e quebras de sigilo, que são mandatórias, que está o recheio do bolo.

Lá estão todas as estrelas do Master: Vorcaro, Augusto Lima, Luiz Antonio Bull, Angelo Silva, João Carlos Mansur e Fabiano Zettel. Mas também Paulo Henrique Costa (BRB), os irmãos Toffoli, o advogado da JBS que comprou o Tayayá, os alvos da Carbono Oculto e até os operadores das compras fraudulentas de vacinas da covid-19, que voltaram a dar as caras no escândalo da hora.

O brasileiro é preguiçoso? Por Thiago Amparo

Folha de S. Paulo

Nas entrelinhas da objetividade econométrica, encontra-se escondido o reavivamento acrítico do mito colonial da preguiça

Quando deixamos os números falarem sem contexto, o que nos resta é o mito e não a verdade

Eu li a matéria nesta Folha intitulada "Brasileiro trabalha menos que a média mundial" na voz manhosa de Macunaíma lamentando "Ai! Que preguiça!". Para o estudo que fundamenta a reportagem, o que explicaria o "desvio brasileiro" por menos trabalho seria, nota-se, uma "questão cultural", isto é, "uma preferência por mais quantidade de lazer". Imaginei Macunaíma, o preguiçoso herói sem nenhum caráter de Mario de Andrade, lendo isso sentado numa rede entre dois cajueiros onde dorme por dias a fio. Ai! Que preguiça!

CPI do Crime dribla cúpula do Congresso e improvisa CPI do Master, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

CPI dedicada mais a facções e milícias pode tirar outros crimes do armário, mas tem limite

A quarta teve ainda prisão para a gangue que matou Marielle e mais rolo com fintech e emendas

Os senadores da CPI contra o Crime Organizado tentam improvisar uma CPI do Master, que vem sendo abafada pelos presidentes do SenadoDavi Alcolumbre (UB-AP), e da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), entre outros interessados graúdos no assunto. No mínimo, pode ser uma investigação parcial dos rolos do Master. Se bem-sucedida, pode enfraquecer o acordão para abafar o caso, que vem sofrendo derrotas. Se conseguir depoimentos e documentos relevantes, pode desmoralizar elos da cadeia do pacto de silêncio, que é político e tem conexões empresariais relevantes. Mas tem empecilhos —mais sobre isso mais adiante.

Ibaneis está de pires na mão para salvar o BRB, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Tempo é o maior inimigo, mas é a política que está impedindo governador de enfrentar o problema de frente

Emedebista, que quer se candidatar ao Senado, tenta empurrar a solução com a barriga

Sem apresentar até agora uma proposta consistente para salvar o BRB, o governador da oposição Ibaneis Rocha (MDB) vai ficar de pires na mão e terá que pedir socorro ao governo Lula após o envolvimento do banco público no escândalo de fraudes do Master.

O tempo é o maior inimigo do BRB, mas é a política que está impedindo Ibaneis de enfrentar o problema de frente. O governador quer se candidatar e ganhar uma vaga no Senado e tenta empurrar a solução com a barriga.

A agonia de Cuba socialista, por Maria Hermínia Tavares

Folha de S. Paulo

É equívoco atribuir o desastre ao desumano embargo de Donald Trump

Na ilha só resta o aparato repressor que sustenta o governo

No magnífico romance "O Homem que Amava os Cachorros", de 2009, o escritor cubano Leonardo Padura traça um grande afresco do fracasso do socialismo real, por meio das histórias entrelaçadas de três personagens: Leon Trótski, dirigente da Revolução de 1917, forçado ao exílio pela implacável perseguição de Josef Stálin; o espanhol Ramon Mercader, militante comunista que penetra no refúgio do líder revolucionário russo no México para assassiná-lo; e o escritor cubano Ivan Cárdenas, personagem de ficção, que nos conta a história dos dois primeiros.

Momento decisivo, por William Waack

O Estado de S. Paulo

Lula tem só decisões difíceis pela frente em matéria de eleições. E a inação, sua postura favorita em crises, não é uma opção.

Em boa parte a situação em que se encontra foi criada por ele mesmo. É a de julgar que ferramentas que funcionaram antes vão funcionar sempre. Os sinais de que as coisas não são mais como há 20 anos se acumularam, mas Lula insistiu em mais do mesmo.

A gênese da crise atual do STF, por Carolina Brígido

O Estado de S. Paulo

A coisa fugiu do controle há sete anos, quando foi aberto o inquérito das fake news

A coisa fugiu do controle quando o Supremo Tribunal Federal (STF) escolheu usar o fim para justificar os meios. Mais precisamente há sete anos, quando foi aberto o inquérito das fake news para investigar crimes dos quais as vítimas tinham direito ao foro especial, não o investigado.

Desde que tomou posse como presidente da Corte, no ano passado, Edson Fachin tem recebido de colegas apelos para encerrar o inquérito. “Já passou da hora”, disse um ministro à Coluna em caráter reservado. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) entregou um ofício a Fachin com esse pedido, mas é pouco provável que ele seja atendido.

Uma saída para os supersalários, por Felipe Salto

O Estado de S. Paulo

Não devemos cair na esparrela de demonizar o serviço público. Mas é chegada a hora de combater os excessos, sob pena de desmontarmos o arcabouço institucional erigido a duras penas pela Constituição

O teto remuneratório do serviço público é de R$ 46.366,19. Um valor alto, sim, se cotejado com a renda média do brasileiro, de R$ 3.613, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad Contínua). Contudo, não é correto, simplesmente, comparar a renda de grupos de trabalhadores do setor privado e/ou do setor público sem qualificações. É preciso levar em conta responsabilidades, riscos, importância das funções exercidas, função social e resultados esperados de cada trabalhador/servidor.

O acordo com a União Europeia: hora da verdade, por José Serra

O Estado de S. Paulo

O acordo poderá ser muito favorável ao Brasil se o País conseguir transformar o ambiente econômico interno

O acordo firmado com a União Europeia (UE) representa um passo estratégico de grande relevância para o Brasil, pois possibilita a ampliação de mercados, o fortalecimento das relações comerciais e o acesso a novos investimentos. O acordo dá ao País a chance de aumentar sua competitividade internacional, estimulando a inovação e o desenvolvimento econômico.

A oportunidade de inserção nos marcos da economia internacional é evidente. No entanto, o avanço só poderá se concretizar se a economia brasileira encontrar formas de funcionamento minimamente compatíveis com a realidade europeia. Não há como uma economia submetida a fortes tensões internas sustentar um padrão de desenvolvimento colaborativo com um parceiro externo que desfruta de melhores condições competitivas.

Lula perde favoritismo e Flávio consolida a candidatura da oposição, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Cenários reforçam essa percepção. Em três simulações contra Flávio Bolsonaro, Lula oscila entre 45% e 45,3%, enquanto o senador varia entre 39,1% e 39,5%

A pesquisa Atlas/Bloomberg, divulgada nesta quarta-feira (25), confirma aquilo que já vinha se desenhando nos levantamentos mais recentes: a eleição presidencial de 2026 está aberta, o favoritismo de Luiz Inácio Lula da Silva deixou de ser confortável e Flávio Bolsonaro consolida-se como o polo da direita na disputa, cristalizando novamente uma polarização dura, de alta rejeição dos dois lados.

Os números falam por si. No principal cenário testado, Lula aparece com 45% das intenções de voto, contra 37,9% de Flávio. O importante é o movimento: em relação à rodada anterior, Lula perdeu 3,8 pontos percentuais, enquanto Flávio cresceu 2,9. No segundo turno, Flávio Bolsonaro alcança 46,3% das intenções de voto, e Lula registra 46,2%, dentro da margem de erro de um ponto percentual. Em comparação ao levantamento anterior, o presidente recuou três pontos, enquanto o senador avançou 1,4 ponto.

Informação e eleições: a questão da credibilidade, por Dulce Baptista

Correio Braziliense

A perspectiva das próximas eleições no Brasil coloca a população votante diante de opções ainda condicionadas pela polarização político-ideológica que se instalou no país e pela influência do mundo virtual sobre o mundo real

Na perspectiva das eleições deste ano e diante da avalanche de notícias e informações que circulam em todas as direções — inclusive com invasão das fake news —, cai por terra a afirmação de que uma imagem vale mais do que mil palavras. Atribuída a Confúcio e muito popularizada no século passado, principalmente nos meios publicitários, a dita afirmação sofre hoje o impacto avassalador das ferramentas de inteligência artificial (IA), que, sob qualquer pretexto, criam situações e flagrantes inverossímeis.

Interpretações perigosas, por Merval Pereira

O Globo

Há no Brasil uma tendência de flexibilizar a lei que pode comprometer a própria ideia do Estado de Direito

Quando o papel da Justiça é questionado em diversos países, como o Brasil, a Suprema Corte dos Estados Unidos tomou uma decisão fundamental para proteger a democracia americana dos arroubos do presidente Donald Trump. O poder de taxação sobre produtos importados, uma das bases de sua política externa coatora, tem de ser referendado pelo Congresso, não bastando decisão pessoal do presidente.

Há uma série de indicativos na decisão que nos remetem à relação do Executivo com o Supremo também entre nós. O jurista Gustavo Binenbojm afirma que, do ponto de vista do mérito, é a reafirmação de que a Suprema Corte, apesar de majoritariamente conservadora, composta por seis ministros indicados por presidentes republicanos, é independente. Essa maioria não significa que venha a tomar partido automaticamente a favor do governo.

Marielle ainda nos ensina, por Míriam Leitão

O Globo

O assassinato de Marielle desnudou o Brasil do racismo, do machismo, da misoginia, da homofobia e dos feudos sob domínio do crime

Quem chorou há oito anos pela morte de Marielle Franco e Anderson Gomes chorou ontem de novo. Nada aplaca a dor, mas o Brasil fez justiça unânime e pesada contra os mandantes do crime. No dia anterior ao julgamento, Luyara disse que sabia da importância da mãe, mas que nos últimos anos foi tendo a consciência da sua enorme dimensão. Sempre ficará contudo o vazio do que não foi, do que não pôde ter sido, e nunca poderá. O assassinato matou uma mulher negra que alçava voo e ela iria muito alto, por merecimento e determinação. É esse vazio impreenchível que está nos corações dos que a amaram e a entenderam.

STJ passa pano para estuprador, por Julia Duailibi

O Globo

Senhores do Direito começaram a achar ok não punir homens que estupram crianças de 10, 11 ou 12 anos

Os tribunais passaram a tratar o intolerável como razoável. Senhores do Direito começaram a achar ok não punir homens que estupram crianças de 10, 11 ou 12 anos. Em diferentes decisões, passaram a entender que o estupro de meninas, principalmente quando engravidam, pode levar à formação de um “relacionamento amoroso” e que, muitas vezes, os homens nem sabiam ter cometido crime. Mandá-los, agora, para a prisão, dizem, seria “estragar a família”.

Marielle e a cegueira da política, por Malu Gaspar

O Globo

Vivemos nesta semana um combo de fatos ao mesmo tempo históricos e simbólicos da tragédia brasileira.

Depois de uma novela criminal e jurídica que muitas vezes pareceu destinada a terminar sem solução, o caso Marielle Franco finalmente chegou ao fim, com a condenação dos acusados de envolvimento no assassinato da vereadora e de seu motorista, Anderson Gomes. Um ex-deputado federal e um conselheiro do Tribunal de Contas do Rio de Janeiro foram condenados a 76 anos de prisão por planejar e encomendar o crime. Um ex-chefe de polícia foi sentenciado a 18 anos por ajudar a acobertá-lo.