sábado, 28 de março de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Decisão do Supremo sobre ‘penduricalhos’ foi frustrante

Por O Globo

Apesar de criar regra objetiva, Corte agiu corporativamente, preservou distorções e recriou regalia extinta

É até possível enxergar méritos na decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que tenta disciplinar as verbas indenizatórias que inflam os supersalários de juízes e procuradores, popularmente conhecidas como “penduricalhos”. Ao menos, ela estabelece critérios objetivos para regular os auxílios que proliferam sem controle e extingue algumas barbaridades. Mas é evidente que o resultado, a pretexto de corrigir as distorções, preserva um sistema de remuneração iníquo e injusto.

Perguntas aos candidatos, por Marco Aurélio Nogueira

O Estado de S. Paulo

A indignação é um combustível enigmático e volúvel. Pode levar à construção ou à destruição

O que esperar da temporada eleitoral de 2026? Teremos barulho, emoção e atrito. Mas e em termos de ideias e diretrizes de governo?

A polarização Lula-Bolsonaro permanece. Seus candidatos têm altos índices de rejeição. No atual formato, a polarização é mau negócio para quem deseja um projeto democrático e inclusivo para o País. Ganhe um polo ou ganhe o outro, o Brasil seguirá engessado. O ritmo do avanço não será dado pela política, mas pelos “fatos”, como costumava dizer o saudoso Luiz Werneck Viana.

Governo derrota oposição na CPI do INSS e rejeita relatório

Por Augusto Tenório e Laura Scofield / Folha de S. Paulo

Comissão que apurou descontos indevidos em benefícios deve terminar sem conclusão de investigação

A base do governo derrotou a oposição na CPI Mista do INSS ao rejeitar o relatório do deputado Alfredo Gaspar (União-AL) na madrugada deste sábado (28). O texto sugeria o indiciamento de 216 pessoas, entre elas Lulinha e o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS.

Apesar da oposição deter os cargos chaves da CPI, que é presidida por Carlos Viana (Podemos-MG), o governo obteve maioria e o relatório foi rejeitado por 19 votos a 12. A sessão começou por volta das 9h30 de sexta (27) e seguiu até 1h de sábado, data-limite para a conclusão dos trabalhos. O texto analisado foi apresentado minutos antes do início da sessão.

O vaivém das pesquisas, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Processo de tomada de decisão do eleitor é cheio de hesitações e reviravoltas

Lula é altamente competitivo mesmo que economia piore com guerra no Irã

Reviravoltas em pesquisas eleitorais nunca me comoveram muito, especialmente quando as sondagens são feitas vários meses antes do pleito. O processo de tomada de decisão dos eleitores não é linear. Eles hesitam, mudam de ideia e respondem a estímulos que ganham destaque nos jornais e nas redes sociais, mas que costumam revelar-se efêmeros.

No mais, políticos, marqueteiros e jornalistas tendemos a supervalorizar os eventos de campanha. Muitas vezes é mais exato prever o voto de um eleitor submetendo-o a um teste de personalidade do que perguntando-lhe com grande antecedência qual candidato ele escolherá.

Bolsonarismo afunda seu próprio berço, o Rio de Janeiro, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Máquina estatal está nas mãos da família há quase oito anos

O resultado é corrupção, clientelismo e associação ao crime organizado

Que coincidência, não? No julgamento do TSE que condenou Cláudio Castro por abuso de poder político, econômico, irregularidades em gastos de campanha e conduta proibida a agentes públicos no período eleitoral de 2022, Nunes Marques votou a favor do réu. E André Mendonça divergiu da maioria, rejeitando a aplicação de inelegibilidade ao ex-governador. Os dois ministros foram indicados por Bolsonaro.

Ministro do TCU segura a bola em processo do Master, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

A serviço de quem o relator do processo Master na Corte de Contas segurou o julgamento do processo?

Momento é estratégico porque Daniel Vorcaro está prestes a delatar

Estranhamente, Jhonatan mudou de ideia com o argumento de que precisa receber informações sobre as apurações do caso que estão sendo feitas no Supremo Tribunal Federal, onde tramita o inquérito que investiga as fraudes do banco de Daniel Vorcaro.

O vaivém da posição favorece a defesa de Vorcaro e também os políticos aliados que, por ventura, tenham algo a temer por terem mantido relações obscuras e não republicanas com o dono do Master.

Efeitos da guerra no Brasil, por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

O país é sofrido em matéria de crise de combustível, apesar de hoje ser importante produtor de petróleo, o que não acontecia nos anos 70

A renúncia de Carlos Massa, o Ratinho Júnior, de sua candidatura à Presidência da República pegou seus correligionários de surpresa. Alguns até se recusavam, no dia seguinte da decisão, a acreditar na veracidade da notícia. Tudo havia sido combinado, discutido e acertado, nos mínimos detalhes, nos últimos meses. Não havia dúvidas, mas a persistente oposição do pai, dono de poderoso conglomerado de empresas, entre elas o SBT no Paraná, mudou o rumo da conversa. Ratinho Júnior decidiu permanecer no cargo de governador até o fim do mandato, tentar eleger seu sucessor, que ganhou concorrente de peso na pessoa de Sergio Moro, e assumir a presidência dos negócios do pai. Deixou a política para tratar dos próprios interesses.

Estado de golpe, por Flávia Oliveira

O Globo

Todos os artifícios possíveis foram, rigorosamente, usados para manter, à frente do estado, o agora ex-governador e seu grupo político

O Rio de Janeiro experimenta o golpismo continuado desde a corrida eleitoral de 2022, que garantiu ao bolsonarista Cláudio Castro (PL) a reeleição. Todos os artifícios possíveis foram, rigorosamente, usados para manter, à frente do estado, o agora ex-governador e seu grupo político. No julgamento, que decidiria sobre o inédito modelo de escolha de um titular para o Palácio Guanabara, no restante do ano-calendário de 2026, num território sem governador, sem vice e sem presidente da Assembleia Legislativa, coube ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), retirar da farsa o véu numa senha de três palavras:

— Desvio de finalidade.

O desgaste de Lula, por Thaís Oyama

O Globo

A figura mítica que exercia fascínio sobre as massas hoje demonstra dificuldade de compreender os novos hábitos

O presidente Lula disse em Goiás que a economia vai bem, mas as pessoas gastam demais com compras pelo celular e cuidados com seus cachorros. Assim, ficam endividadas e, quando o salário acaba, elas “se zangam” e põem a culpa no governo. Lula disse até pensar em promover uma campanha na TV para ensinar o povo a gastar direito. Deve achar que, se os brasileiros pararem de torrar dinheiro com bobagens, finalmente perceberão os méritos de sua administração e votarão nele.

A próxima vítima, por Eduardo Affonso

O Globo

Nesta semana ele matará, com outro nome, outra arma, outras mãos, por outros meios, outra Dana, outra Daniella, outra Claudia

Ângela está caída na areia de Búzios, com três perfurações à bala no rosto e uma na nuca. Tem 32 anos. Em pé, a seu lado, Doca, empresário, entrega a arma ao engenheiro Roberto, que disparará seis vezes contra Jô, 36 anos, em Belo Horizonte. Outro engenheiro, Márcio, descarregará o revólver em Eloísa, 32 anos, enquanto ela dorme. Nas mãos do paisagista Eduardo, o mesmo gatilho será acionado, e mais seis tiros acertarão Maria Regina. É no palco que Lindomar encontra Eliane, 25 anos, e a abate com cinco disparos.

Misoginia não é opinião; é violência, por Juliana Diniz

O Povo (CE)

É interessante observar as reações de grupos conservadores contrários à criação de uma plataforma legal que criminalize a misoginia. Elas mostram como é limítrofe e nebulosa a diferença entre defesa do tradicionalismo patriarcal e o desapreço às mulheres

O Senado Federal aprovou por unanimidade um projeto de lei que equipara a misoginia ao crime de racismo e abriu caminho para tornar o ódio às mulheres uma nova modalidade de crime de preconceito no Brasil. De acordo com o projeto, considera-se misoginia toda conduta que exteriorize ódio ou aversão às mulheres. Além de criar um novo crime, o projeto altera o tratamento legal da injúria quando ela é praticada por motivações misóginas.

A esquerda neoliberal, por Cristovam Buarque

Veja

Não há real preocupação com a erradicação da pobreza

As transformações tecnológicas e geopolíticas nos século XX e XXI deram força eleitoral ao chamado neoliberalismo conservador. Provocaram, no caminho, o surgimento de uma esquerda mais comprometida com a defesa dos direitos individuais para alguns do que a ampliação de direitos sociais para todos. É como se uma esquerda sul-africana defendesse os interesses dos trabalhadores brancos sem a bandeira do fim do apartheid. No Brasil, o propósito dessa esquerda neoliberal, chamemos assim, tem sido aumentar renda e consumo de trabalhadores, não a abolição da apartação social, a erradicação da pobreza, assegurando serviços sociais básicos com qualidade e equidade a todos.

Uma disputa acirrada, por Murillo de Aragão

Veja

Lula é favorito, mas a situação dele está longe de ser confortável

As eleições presidenciais deste ano são um evento propício a surpresas. O presidente Lula (PT), na condição de dono da caneta e do poder de fazer benesses, é o favorito, mas com evidentes fragilidades, que podem comprometer o seu favoritismo. Quais são elas? São tantas que poderiam compor um dicionário. O primeiro aspecto reside no próprio governo, que é desunido, não se comunica bem, polemiza sem necessidade e não sabe aproveitar as boas notícias que produz. Não há simpatia nem coleguismo dentro do governo. É cada um por si e Lula por todos. Sem sombra de dúvida, não deveria ser assim. Até porque falta energia e falta disposição por parte do presidente para unir o governo em torno de si, tendo em vista a campanha. Nem mesmo as boas notícias são comunicadas eficientemente. Não basta entupir a TV de anúncios. Comunicar estrategicamente é muito mais do que isso. Tempos atrás, em 2019, atribuiu-se o fracasso do PT nas urnas à sua falta de familiaridade com as redes sociais. O tempo passou e Lula tem hoje apenas a metade dos seguidores de Jair Bolsonaro (PL). Claramente, é uma questão de narrativa, em que se busca configurar a sociedade ao discurso, e não o discurso às circunstâncias do mundo.

A hora da decisão se aproxima, por Marcus Pestana

O próximo presidente da República terá que dar um choque transformador no país, se quisermos ter ambições maiores em relação ao futuro do Brasil. Algumas questões estão chegando ao limite do sustentável e exigirão respostas eficazes e profundas.

Cito três. O estrangulamento fiscal atingirá seu ápice no próximo mandato, com o engessamento quase pleno do orçamento constrangendo a capacidade de investimento em ações que poderiam estimular o crescimento acelerado e sustentado, e a permanência de déficits primários e do incômodo crescimento da dívida pública rumo ao arriscado patamar de 100% do PIB, em 2030.

A crise silenciosa no PSD a 6 meses das eleições, por Vinicius Nunes

CartaCapital

A saída abrupta de Kassab do governo paulista, a desistência de Ratinho Jr. e a fragilidade nas pesquisas expõem dificuldades do partido para sustentar uma candidatura própria

A seis meses da eleição presidencial, o PSD entra em uma fase decisiva no calendário eleitoral sem um rumo definido para sua candidatura nacional e acumulando sinais de enfraquecimento.

O movimento mais recente foi a saída de Gilberto Kassab da Secretaria de Relações Institucionais do governo de São Paulo. A decisão foi comunicada por mensagem de WhatsApp ao governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) antes mesmo de uma reunião, surpreendendo aliados e encerrando de forma abrupta uma relação que já se desgastava.

Lobo à espreita, por Pedro Serrano

CartaCapital

Precisamos desnudar os artifícios das novas formas de autoritarismo, inclusive aquelas de matriz neobolsonarista

As formas de autoritarismo no século XXI apresentam certas especificidades em comparação com aquelas do século anterior. Embora seja possível identificar elementos de continuidade, as expressões mais recentes, por se diluírem na rotina democrática, tornam o fenômeno ainda mais desafiador.

O autoritarismo deixou de ser a manifestação de um Estado de exceção, em sua acepção clássica, para dar lugar às medidas de exceção associadas à produção fractal e líquida. Ou seja, deparamo-nos com um Estado de exceção que se manifesta por medidas de exceção, e não por governos de exceção.

Menos horas, mais valor, por Paulo Gala

CartaCapital

O verdadeiro debate por trás do fim da jornada 6×1

O possível fim da jornada 6×1, seis dias de trabalho para um de descanso, tem sido apresentado como uma mudança de grande impacto econômico. No debate público, a proposta frequentemente aparece cercada de previsões alarmistas sobre emprego, produtividade e crescimento. Mas, quando analisada com mais cuidado, a evidência sugere um quadro bem mais modesto. Trata-se, essencialmente, de uma redução marginal na jornada formal de trabalho, com efeitos macroeconômicos limitados.

Novos escravos, por Jamil Chade

CartaCapital

Relatório da ONU denuncia o trabalho forçado em presídios, especialmente nos estados do Alabama e da Louisiana

Muitos são obrigados a trabalhar sem qualquer remuneração. Quem tem o privilégio de ser pago, recebe apenas 2 centavos de dólar por hora trabalhada. Aqueles que se recusam, são punidos com a proibição de ver suas famílias. O relato poderia fazer parte de um livro de Frederick Douglas­s ou de documentos sobre os séculos de escravidão nas plantações de algodão em terras norte-americanas. Mas no Sul dos EUA, esta continua a ser a realidade em pleno século XXI. Uma denúncia apresentada por relatores da ONU ao governo dos EUA e obtida pela reportagem de CartaCapital revela as condições desumanas às quais são submetidos detentos de prisões no Alabama, Louisiana e outros estados. As vítimas, como acontecia nos séculos passados, são negros.

Trade-off da pobreza, por Luiz Gonzaga Belluzzo e Manfred Back

CartaCapital

As raízes socioeconômicas do trumpismo e o velório do sonho americano

Começamos com o editorial do New York Times: “Imagine que você tenha de fazer uma aposta. Há duas ­pessoas de 18 anos, uma na China, a outra nos Estados Unidos, ambas pobres e com poucas perspectivas. Você precisa escolher aquela com maior probabilidade de mobilidade ascendente. Qual você escolheria? Não há muito tempo, a resposta talvez fosse fácil. Afinal, o ‘sonho americano’ havia prometido uma caminhada rumo a uma vida melhor a qualquer pessoa que trabalhasse arduamente. Mas hoje a resposta é surpreendente: a China ascendeu com tanta rapidez que as chances de uma pessoa melhorar a situação de vida por lá excedem em muito as de uma pessoa nos Estados Unidos”.

O ataque ao Irã e o colonialismo do século XXI, por Roberto Amaral*

A guerra está aí, se espalhando pelo mundo. O que ninguém ignora foi proclamado como novidade há uns poucos dias pelo Secretário-Geral da ONU, instituição que mais e mais vê ausentes as razões justificadoras de sua criação, em 1945 (manutenção da paz e da segurança internacionais), quando mal saíamos da Segunda Guerra Mundial e os tambores já rufavam no vestíbulo da Guerra Fria — que, aparentemente finda com a autodissolução da URSS, volta à cena, por outros meios e com novos atores.