sábado, 28 de março de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Decisão do Supremo sobre ‘penduricalhos’ foi frustrante

Por O Globo

Apesar de criar regra objetiva, Corte agiu corporativamente, preservou distorções e recriou regalia extinta

É até possível enxergar méritos na decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que tenta disciplinar as verbas indenizatórias que inflam os supersalários de juízes e procuradores, popularmente conhecidas como “penduricalhos”. Ao menos, ela estabelece critérios objetivos para regular os auxílios que proliferam sem controle e extingue algumas barbaridades. Mas é evidente que o resultado, a pretexto de corrigir as distorções, preserva um sistema de remuneração iníquo e injusto.

Misoginia não é opinião; é violência, por Juliana Diniz

O Povo (CE)

É interessante observar as reações de grupos conservadores contrários à criação de uma plataforma legal que criminalize a misoginia. Elas mostram como é limítrofe e nebulosa a diferença entre defesa do tradicionalismo patriarcal e o desapreço às mulheres

O Senado Federal aprovou por unanimidade um projeto de lei que equipara a misoginia ao crime de racismo e abriu caminho para tornar o ódio às mulheres uma nova modalidade de crime de preconceito no Brasil. De acordo com o projeto, considera-se misoginia toda conduta que exteriorize ódio ou aversão às mulheres. Além de criar um novo crime, o projeto altera o tratamento legal da injúria quando ela é praticada por motivações misóginas.

A esquerda neoliberal, por Cristovam Buarque

Veja

Não há real preocupação com a erradicação da pobreza

As transformações tecnológicas e geopolíticas nos século XX e XXI deram força eleitoral ao chamado neoliberalismo conservador. Provocaram, no caminho, o surgimento de uma esquerda mais comprometida com a defesa dos direitos individuais para alguns do que a ampliação de direitos sociais para todos. É como se uma esquerda sul-africana defendesse os interesses dos trabalhadores brancos sem a bandeira do fim do apartheid. No Brasil, o propósito dessa esquerda neoliberal, chamemos assim, tem sido aumentar renda e consumo de trabalhadores, não a abolição da apartação social, a erradicação da pobreza, assegurando serviços sociais básicos com qualidade e equidade a todos.

Uma disputa acirrada, por Murillo de Aragão

Veja

Lula é favorito, mas a situação dele está longe de ser confortável

As eleições presidenciais deste ano são um evento propício a surpresas. O presidente Lula (PT), na condição de dono da caneta e do poder de fazer benesses, é o favorito, mas com evidentes fragilidades, que podem comprometer o seu favoritismo. Quais são elas? São tantas que poderiam compor um dicionário. O primeiro aspecto reside no próprio governo, que é desunido, não se comunica bem, polemiza sem necessidade e não sabe aproveitar as boas notícias que produz. Não há simpatia nem coleguismo dentro do governo. É cada um por si e Lula por todos. Sem sombra de dúvida, não deveria ser assim. Até porque falta energia e falta disposição por parte do presidente para unir o governo em torno de si, tendo em vista a campanha. Nem mesmo as boas notícias são comunicadas eficientemente. Não basta entupir a TV de anúncios. Comunicar estrategicamente é muito mais do que isso. Tempos atrás, em 2019, atribuiu-se o fracasso do PT nas urnas à sua falta de familiaridade com as redes sociais. O tempo passou e Lula tem hoje apenas a metade dos seguidores de Jair Bolsonaro (PL). Claramente, é uma questão de narrativa, em que se busca configurar a sociedade ao discurso, e não o discurso às circunstâncias do mundo.

A hora da decisão se aproxima, por Marcus Pestana

O próximo presidente da República terá que dar um choque transformador no país, se quisermos ter ambições maiores em relação ao futuro do Brasil. Algumas questões estão chegando ao limite do sustentável e exigirão respostas eficazes e profundas.

Cito três. O estrangulamento fiscal atingirá seu ápice no próximo mandato, com o engessamento quase pleno do orçamento constrangendo a capacidade de investimento em ações que poderiam estimular o crescimento acelerado e sustentado, e a permanência de déficits primários e do incômodo crescimento da dívida pública rumo ao arriscado patamar de 100% do PIB, em 2030.

A crise silenciosa no PSD a 6 meses das eleições, por Vinicius Nunes

CartaCapital

A saída abrupta de Kassab do governo paulista, a desistência de Ratinho Jr. e a fragilidade nas pesquisas expõem dificuldades do partido para sustentar uma candidatura própria

A seis meses da eleição presidencial, o PSD entra em uma fase decisiva no calendário eleitoral sem um rumo definido para sua candidatura nacional e acumulando sinais de enfraquecimento.

O movimento mais recente foi a saída de Gilberto Kassab da Secretaria de Relações Institucionais do governo de São Paulo. A decisão foi comunicada por mensagem de WhatsApp ao governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) antes mesmo de uma reunião, surpreendendo aliados e encerrando de forma abrupta uma relação que já se desgastava.

Lobo à espreita, por Pedro Serrano

CartaCapital

Precisamos desnudar os artifícios das novas formas de autoritarismo, inclusive aquelas de matriz neobolsonarista

As formas de autoritarismo no século XXI apresentam certas especificidades em comparação com aquelas do século anterior. Embora seja possível identificar elementos de continuidade, as expressões mais recentes, por se diluírem na rotina democrática, tornam o fenômeno ainda mais desafiador.

O autoritarismo deixou de ser a manifestação de um Estado de exceção, em sua acepção clássica, para dar lugar às medidas de exceção associadas à produção fractal e líquida. Ou seja, deparamo-nos com um Estado de exceção que se manifesta por medidas de exceção, e não por governos de exceção.

Menos horas, mais valor, por Paulo Gala

CartaCapital

O verdadeiro debate por trás do fim da jornada 6×1

O possível fim da jornada 6×1, seis dias de trabalho para um de descanso, tem sido apresentado como uma mudança de grande impacto econômico. No debate público, a proposta frequentemente aparece cercada de previsões alarmistas sobre emprego, produtividade e crescimento. Mas, quando analisada com mais cuidado, a evidência sugere um quadro bem mais modesto. Trata-se, essencialmente, de uma redução marginal na jornada formal de trabalho, com efeitos macroeconômicos limitados.

Novos escravos, por Jamil Chade

CartaCapital

Relatório da ONU denuncia o trabalho forçado em presídios, especialmente nos estados do Alabama e da Louisiana

Muitos são obrigados a trabalhar sem qualquer remuneração. Quem tem o privilégio de ser pago, recebe apenas 2 centavos de dólar por hora trabalhada. Aqueles que se recusam, são punidos com a proibição de ver suas famílias. O relato poderia fazer parte de um livro de Frederick Douglas­s ou de documentos sobre os séculos de escravidão nas plantações de algodão em terras norte-americanas. Mas no Sul dos EUA, esta continua a ser a realidade em pleno século XXI. Uma denúncia apresentada por relatores da ONU ao governo dos EUA e obtida pela reportagem de CartaCapital revela as condições desumanas às quais são submetidos detentos de prisões no Alabama, Louisiana e outros estados. As vítimas, como acontecia nos séculos passados, são negros.

Trade-off da pobreza, por Luiz Gonzaga Belluzzo e Manfred Back

CartaCapital

As raízes socioeconômicas do trumpismo e o velório do sonho americano

Começamos com o editorial do New York Times: “Imagine que você tenha de fazer uma aposta. Há duas ­pessoas de 18 anos, uma na China, a outra nos Estados Unidos, ambas pobres e com poucas perspectivas. Você precisa escolher aquela com maior probabilidade de mobilidade ascendente. Qual você escolheria? Não há muito tempo, a resposta talvez fosse fácil. Afinal, o ‘sonho americano’ havia prometido uma caminhada rumo a uma vida melhor a qualquer pessoa que trabalhasse arduamente. Mas hoje a resposta é surpreendente: a China ascendeu com tanta rapidez que as chances de uma pessoa melhorar a situação de vida por lá excedem em muito as de uma pessoa nos Estados Unidos”.

O ataque ao Irã e o colonialismo do século XXI, por Roberto Amaral*

A guerra está aí, se espalhando pelo mundo. O que ninguém ignora foi proclamado como novidade há uns poucos dias pelo Secretário-Geral da ONU, instituição que mais e mais vê ausentes as razões justificadoras de sua criação, em 1945 (manutenção da paz e da segurança internacionais), quando mal saíamos da Segunda Guerra Mundial e os tambores já rufavam no vestíbulo da Guerra Fria — que, aparentemente finda com a autodissolução da URSS, volta à cena, por outros meios e com novos atores.

Poesia | Quero, de Carlos Drummond de Andrade - voz de Paulo Autran

 

Música | Emílio Santiago - Vai e vem