segunda-feira, 30 de março de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

O declínio da democracia americana

Por Folha de S. Paulo

Relatório aponta retrocesso sob Trump, com ataques a instituições e a vozes dissidentes

Avanço do autoritarismo é fenômeno global; no Brasil, documento vê sociedade polarizada e poderia dar mais atenção a abusos do Supremo

O voto popular é o que há de mais essencial em uma democracia, mas não é o bastante para atestar o pleno funcionamento do regime. Para tanto é preciso também haver liberdades civis, igualdade de todos perante a lei, freios e contrapesos ao poder dos governantes. Nesse sentido, a democracia americana, uma das mais longevas do mundo, está fragilizada.

Esse fato, perceptível para a opinião pública global, é mensurado no mais recente relatório do respeitado instituto V-Dem, ligado à Universidade de Gotemburgo, na Suécia. No levantamento dos diferentes graus de soberania popular e autoritarismo no mundo, o grande abalo no ano passado se deu com o início do novo mandato de Donald Trump.

O STF e os supersalários: eine grosse konfusion, Por Bruno Carazza

Valor Econômico

Covardia perante o corporativismo legitimou penduricalhos e ressuscitou privilégios extinto

Desde que comecei minha pesquisa para escrever O País dos Privilégios: os novos e velhos donos do poder, eu esperava o dia em que o plenário do Supremo Tribunal Federal iria se pronunciar sobre o descumprimento do teto remuneratório por juízes, desembargadores, promotores e procuradores. E desde a publicação do livro, em 2024, os pagamentos em desrespeito ao limite constitucional só cresceram, situação que expus em diversas colunas no Valor.

Piora o cenário para a inflação de alimentos, por Sergio Lamucci

Valor Econômico

Alta mais forte dos preços de alimentação no domicílio é má notícia para popularidade do governo, que também sofre o impacto do endividamento das famílias

A inflação de alimentos tende a ganhar força nos próximos meses, um mau sinal para a popularidade do governo. Em março, os preços de alimentação no domicílio já subiram 1,1% no IPCA-15, a prévia do indicador que baliza o regime de metas. Depois de uma variação modesta em 2025, de pouco mais de 1%, o grupo pode ter uma alta próxima de 4,5% neste ano, entre outros motivos pelos efeitos dos combustíveis mais caros sobre fretes e fertilizantes. Não é um aumento explosivo, mas parte de um nível de preços de alimentos já muito alto, devido às elevações observadas desde 2019. Esse fato, aliado ao endividamento das famílias, ajuda a explicar uma aprovação menor do governo do que sugere a força do mercado de trabalho, com desemprego baixo e renda em alta.

O dilema do PSD, por Carlos Pereira

O Estado de S. Paulo

O partido precisa decidir se deve focar no eleitor anti-Lula ou ir além da polarização

A eleição presidencial de 2026 tende a ocorrer em um ambiente marcado por escândalos, investigação e desgaste institucional – um típico “clima de devassa”. Em contextos assim, a indignação se generaliza, a política passa a ser percebida como estruturalmente corrompida e a competição eleitoral se organiza menos em torno de propostas e mais em torno de rejeições.

De um lado, o incumbente paga o custo da crise. De outro, adversários exploram a narrativa de ruptura. Ainda assim, há um elemento novo: a fadiga crescente com os dois polos. A elevada rejeição tanto de Lula quanto do “Bolsonaro da hora” abre espaço para uma candidatura alternativa – desejada por um contingente expressivo do eleitorado, mas ainda sem uma conexão e narrativa clara.

Ronaldo Caiado será lançado pré-candidato ao Planalto por Kassab

Por Lauriberto Pompeu/O Globo

Anúncio será feito hoje em São Paulo

O governador de Goiás, Ronaldo Caiado, será escolhido nesta segunda-feira pelo PSD como candidato à Presidência da República. O presidente do partido, Gilberto Kassab, confirmou ao GLOBO a definição. O anúncio será divulgado em São Paulo.

Além de Caiado, a legenda apresentou o nome do governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, como opção presidencial. O governador do Paraná, Ratinho Júnior, também era uma opção, mas ele abriu mão de ser o escolhido na semana passada.

Como mudam as decisões do STF, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Supremo disse que os penduricalhos, agora legalizados, estão aí até que o Congresso aprove legislação nacional sobre o assunto

O Supremo Tribunal Federal, em duas raríssimas reuniões plenárias na semana passada, criou um novo teto salarial para o funcionalismo, por unanimidade, e decidiu que não pode obrigar o Congresso a prorrogar uma CPI, por 8 a 2.

A primeira decisão tinha o objetivo de acabar com a farra dos penduricalhos. E terminou legalizando duas modalidades que, na prática, elevam o teto salarial dos atuais R$ 46 mil, remuneração de um ministro do STF, para R$ 78 mil, em valores arredondados. Para a segunda decisão, o objetivo não estava muito claro. Mas havia uma disposição oculta, digamos assim, de acabar com uma certa farra de investigações.

O Brasil que desafia a política, por Preto Zezé

O Globo

Polarização, embora ainda faça barulho, já não explica tudo. Um grupo crescente de brasileiros começa a escapar dessa lógica

O Brasil chega a 2026 com uma sensação estranha. Os indicadores mostram alguma melhora: desemprego mais baixo e certa estabilidade. Mas a vida cotidiana conta outra história. Nas ruas, o que aparece é desânimo, insegurança e medo. Há descolamento entre os números e o sentimento das pessoas.

Li as últimas pesquisas e as levei para o cotidiano. Cruzei a mais recente do Data Favela, sobre os sonhos das favelas, com outros levantamentos que ajudam a entender o humor do país. Mais que isso, escutei. Conversei com trabalhadores de aplicativos, quem está na ponta da precarização, donos de plataformas e também com gestores públicos. É do encontro de dados e experiência que nasce a leitura desse novo ator social e político.

Trump opera como chefe mafioso, por Demétrio Magnoli

O Globo

Os Estados Unidos tornaram-se um Estado perigoso

"Se o Irã não abrir completamente, sem ameaças, o Estreito de Ormuz, em 48 horas a partir deste momento, os Estados Unidos obliterarão suas várias centrais elétricas, começando pela maior delas." O ultimato de Donald Trump de 21 de março, um blefe como logo se constatou, prova que a maior potência mundial converteu-se à barbárie. Bombardear infraestruturas civis viola as leis de guerra. Estados cometem crimes de guerra, às vezes deliberadamente. Mas nunca prometem cometê-los.

Trump copia Putin, a quem inveja. O autocrata russo nomeou sua guerra de conquista na Ucrânia como “operação militar especial”. O presidente americano batiza sua guerra de escolha no Irã como “excursão”. Seu motivo: circundar as leis dos Estados Unidos que exigem autorização do Congresso para fazer guerra. O governo da potência que patrocinou a criação da ONU e impulsionou a Declaração Universal dos Direitos Humanos coloca-se fora da lei, tanto interna quanto internacional.

Conselho de Segurança ou de Insegurança? Por Luiz Inácio Lula da Silva*

Folha de S. Paulo

Linha que separa o que é permitido do que é proibido foi sendo borrada com a omissão cúmplice da ONU

Quando governos se deixam arrastar para a guerra pela intolerância ou arrogância do poder, plantam a semente do ressentimento que vai germinar mais ódio e violência

Cada situação de descumprimento do direito internacional é um convite para novas violações. Do Afeganistão ao Irã, passando por IraqueLíbiaSíriaUcrâniaGaza e Venezuela, a linha que separa o que é permitido do que é proibido foi sendo borrada com a omissão cúmplice do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Usando o veto ora como escudo, ora como arma, os membros permanentes do órgão agem sem amparo na Carta da ONU. Jogam com o destino de milhões de pessoas, deixando um rastro de morte e destruição.

Até há pouco tempo, tentava-se, pelo menos, conferir às intervenções algum verniz de legitimidade por meio da chancela da ONU. Hoje, o exercício escancarado do poder nem se preocupa em manter as aparências. As balizas das instituições multilaterais estão ficando estreitas demais para conter disputas hegemônicas. Sem o multilateralismo, corremos o risco de trocar um sistema imperfeito de segurança coletiva pela realidade brutal da insegurança generalizada. Quando se eliminam todos os constrangimentos ao uso da força, o caos prevalece.

O TCU, esse desconhecido, por Marcus André Melo*

Folha de S. Paulo

Os juízos de contas com base em auditorias limitadas são, em sua vasta maioria, falsos negativos

Não há similar internacional em termos de seu modelo institucional

Quando Aliomar Baleeiro publicou "O Supremo Tribunal Federal, Esse Outro Desconhecido" (1968), pouco se sabia sobre a instituição. Hoje sabe-se pouco sobre o TCU. Mas ele tem estado nas páginas policiais.

Os indícios de que o ministro do TCU Jhonatan de Jesus agiu em conluio com Daniel Vorcaro para pressionar o Banco Central a cancelar a intervenção no Master são fato gravíssimo. No Rio de Janeiro, cinco ex-conselheiros foram afastados e condenados por receberem propinas; um deles está preso pelo assassinato de Marielle Franco. Em Roraima, terra do ministro, dois conselheiros perderam o cargo e foram condenados a 11 anos atrás das grades.

Por que o Brasil passou à frente dos EUA em ranking global de democracia, por João Gabriel de Lima*

Folha de S. Paulo

Instituto aponta que líderes autoritários pesam mais que escândalos de corrupção na deterioração do regime político

País perdeu status de democracia liberal em relatório do V-Dem, que alertou para a corrosão de instituições sob Trump

[RESUMO] Autor expõe como funcionam e para que servem os rankings que avaliam a qualidade da democracia em todo o mundo. Os relatórios do V-Dem, instituto que produz o levantamento mais utilizado, apontam que líderes com tendências autoritárias como Trump são os grandes responsáveis pela erosão dos regimes democráticos, mais que casos de corrupção e guerra entre Poderes.

A democracia americana está doente. O check-up feito pelo V-Dem apontou disfunção no sistema judicial, falência múltipla de liberdades civis e hipertrofia da Presidência da República, sintomas causados por um vírus chamado Donald Trump.

O instituto rebaixou os Estados Unidos à categoria de democracia eleitoral, uma espécie de segunda divisão dos regimes de liberdade. Na pontuação final, ficou atrás de países como Coreia do Sul, Japão, Portugal e Brasil.

Rankings de democracia como o V-Dem, o mais utilizado em pesquisas acadêmicas na área de ciência política, há muito tempo saltaram o muro das universidades e entraram na corrente sanguínea do debate público. Nas redes sociais brasileiras, nossa colocação à frente dos EUA gerou um questionamento: como podemos ter uma boa pontuação se estamos mergulhados em uma crise institucional, em que um escândalo financeiro abala a credibilidade do Judiciário e joga os Poderes uns contra os outros?

Para responder a essa pergunta, é necessário entender como funcionam os rankings de democracia, para que servem e como, ao longo dos anos, vêm mostrando que nada tem mais peso para a deterioração dos regimes de liberdade que a existência de um líder com tendências autoritárias.

Como a crise de confiança em pessoas e instituições ameaça a democracia no Brasil, por Christian Lynch*

Folha de S. Paulo

Num país em que a desigualdade social e cultural sempre foi a regra, os próprios cidadãos passam a não se perceber mais como parte de uma totalidade

Solidariedade demanda um novo imaginário nacional que reconheça o papel de grupos marginalizados na formação da sociedade

[RESUMO] Autor reflete sobre meios para fortalecer a confiança entre cidadãos no Brasil, país que teve dificuldade em forjar um horizonte comum de pertencimento ao longo da história. Em sua avaliação, é preciso reexaminar o repertório simbólico da construção da nacionalidade brasileira no século 20 e recompor um passado compartilhado que reconheça a pluralidade de origens do país.

Nos últimos anos, se tornou recorrente falar em crise de confiança nas democracias. O tema da confiança ocupa hoje um lugar central na ciência política, porque as democracias dependem não apenas de instituições formais, mas também de expectativas compartilhadas de legitimidade e cooperação entre governantes e cidadãos. Convém, porém, fazer uma distinção.

Alguma dose de desconfiança em relação às instituições não é um problema da democracia, mas uma das suas condições. O povo soberano deve manter vigilância permanente sobre as instituições e aqueles que governam em seu nome.

Memória | Resolução política do CE da Guanabara do PCB (março de 1970)

Caros (as)amigos (as)

Nesta semana, completará 62 anos da instauração, no Brasil, de um regime militar, autoritário, que revogou a Constituição democrática de 1946. Para relembrar, disponibilizo um documento, do qual participei, dos debates, da sua elaboração, como membro da Executiva do Comitê Estadual do PCB, do antigo Estado da Guanabara. O texto foi publicado na revista Temas – de Ciências Humanas, vol. 10, p. 71-91, São Paulo,1981.

Leiam abaixo: