domingo, 31 de maio de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Debate eleitoral deve ir além dos nomes na urna

Por O Globo

É essencial tratar de questões estruturais, como emendas ou representação na Câmara

As eleições de outubro caminham mais uma vez para um quadro marcado pela polarização. A escolha do próximo presidente será novamente ditada pela preferência por este ou aquele nome, no máximo esta ou aquela linha ideológica. Ao mesmo tempo, por mais que lideranças sejam fundamentais, ninguém terá, sozinho, o condão de resolver as mazelas crônicas que afligem o Brasil.

Do caso Collor ao Banco Master, parece não ter fim a sucessão de escândalos políticos. Tal persistência reflete problemas estruturais. São pífios os incentivos para enfrentar questões relevantes como educação, saúde ou segurança. Em vez disso, a classe política parece preocupada exclusivamente em manter o poder e desfrutá-lo em benefício próprio. Nas palavras do colunista do GLOBO e ex-ministro Pedro Parente, o Brasil “tem um sistema doente”.

A pressa que atropela o verso, por Sérgio C. Buarque*

Revista Será?

A redução da jornada de trabalho é um avanço muito importante para a melhoria da qualidade de vida da população trabalhadora e tem total consistência com as mudanças no mercado de trabalho. Em várias partes do mundo, a média de trabalho já está abaixo das 40 horas semanais e, mesmo, no Brasil, em alguns setores da economia, a jornada contempla dois dias de descanso por semana (cerca de 30% dos trabalhadores formais brasileiros já têm carga horária de 40 horas semanais). Estas mudanças no mercado de trabalho estão relacionadas a dois processos relativamente independentes: 1. a revolução científica e tecnológica, que viabiliza o aumento da produtividade de trabalho (permite produzir mais, com menos tempo de trabalho); 2. o movimento de declínio da População em Idade Ativa, que define o contingente de trabalhadores disponíveis no mercado.

Escala 6x1 é a reforma da vida das pessoas, por Hugo Motta*

Folha de S. Paulo

Desenvolvimento econômico e dignidade humana não são objetivos concorrentes, mas complementares

Redução da jornada não é a vilã da produtividade; empresas já relatam ganhos, melhora do ambiente e redução da rotatividade

Mais de 15 milhões de brasileiros vivem hoje sob a escala 6x1. Homens e mulheres que, durante seis dias da semana, acordam antes do amanhecer e atravessam cidades inteiras para trabalhar. E, ao retornarem para casa, encontram outras tarefas à espera. Essa realidade pesa ainda mais sobre as mulheres, que acumulam jornadas múltiplas e chefiam mais da metade dos lares brasileiros.

São milhões de pessoas que não conseguem usufruir do convívio com os filhos, de lazer, estudos, cuidados com a saúde e do próprio descanso. Trabalhadores que comprimem em apenas um dia de folga uma vida inteira de obrigações pessoais e familiares.

Cachorro do meme do incêndio analisa o crescimento do PIB do Brasil, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Economia melhora no primeiro trimestre, mas desacelera faz mais de ano, em sinal de exaustão

Investimento é muito baixo, país depende de poucos setores e produtividade rasteja

Escrever sobre o PIB do Brasil dá um pouco a sensação de estar no meme do cachorro que bebe café enquanto um incêndio toma conta do ambiente. Sim, seria mais do que exagero dizer que a casa pega fogo. Mas a ilusão quase otimista com números ainda medianos nubla o fato de que, por ora, evitamos apenas queda abaixo da mediocridade e de que a casa precisa de reforma grande, que não está à vista.

"Estou bem com o que está acontecendo no momento", diz Question Hound, o cão, quando as labaredas chegam perto. "Tudo bem, vai ficar tudo bem", insiste, logo antes de sua cara derreter no fogaréu. O quadrinho, publicado em 2013, de K.C. Green, tornou-se meme para a desconsideração de situações que vão do perigo ao desastre.

Flávio Bolsonaro é terrorista? Por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Senador é aliado de Bacellar, apontado como chefe do núcleo político do CV, e se declarou irmão de Vorcaro

Discordo de quem acha que Flávio, CV e PCC são terroristas, mas respeito os argumentos

Flávio Bolsonaro é aliado de Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. A Polícia Federal considera Bacellar "o chefe do núcleo político do Comando Vermelho".

Ou seja: se o Departamento de Estado americano estiver certo, Flávio é aliado de um importante líder terrorista.

Flávio Bolsonaro também já se declarou "irmão" de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.

O Master tinha relações tão próximas com a Reag Investimentos, acusada de lavar dinheiro do PCC, que, segundo matéria desta Folha de 28 de agosto de 2025, administrava o fundo que era dono da casa de Daniel Vorcaro.

Ou seja, se o Departamento de Estado americano estiver certo, Flávio Bolsonaro ganhou R$ 60 milhões inexplicáveis de um sócio da turma que lavava dinheiro do grupo terrorista PCC.

A mão pesada de Washington, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Não por inocência nem coincidência governo Trump permitiu o uso político/eleitoral da decisão sobre facções

O gesto mostra que a química entre Trump e Lula tem limite e esbarra na preferência ideológica da Casa Branca

É inegável: o governo Donald Trump pôs um trunfo nas mãos de Flávio Bolsonaro (PL) e acrescentou um fato à foto no salão oval da Casa Branca. Ajudou o senador a mudar o rumo da prosa do caso Master, permitindo que ele ligasse o pedido feito dois dias antes à decisão de definir PCC e CV como organizações terroristas.

Não há como separar o gesto do contexto eleitoral nem fugir da constatação de que o Departamento de Estado sinalizou que a química entre Trump e o presidente Luiz Inácio da Silva (PT) tem limite. O debate não foi gratuitamente capturado pelos políticos porque, dado o momento e a forma, a política está no centro da questão.

A recriação ultraprocessada do mundo, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

A modelagem teológico-mercantil do banal consumo cotidiano, grotescos que sejam os seus aspectos, é um primeiro passo corrosivo

Claro já estava que, na pátria celestina dos crentes, o paraíso celestial tinha dado lugar ao paraíso fiscal dos pastores

A mercantilização da existência em bases neoliberais, a forma-empresa, não se dá apenas nos níveis da economia, da inteligência artificial e da política, também na administração de crenças religiosas. Talvez a maior ameaça à mística de um todo-poderoso esteja na IA-2028 anunciada pela Anthropic que, suplantando a inteligência humana, poderá curar doenças terríveis, senão mandar paralítico levantar-se da cadeira. Mas a modelagem teológico-mercantil do banal consumo cotidiano, grotescos que sejam os seus aspectos, é um primeiro passo corrosivo.

Podemos rir disso? Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Livro analisa humor em tempos conflagrados

Autor teme volta de leis de blasfêmia para evitar ofensas

"Can We Laugh at That?", de Jacques Berlinerblau, analisa o humor nos tempos conflagrados em que vivemos. É um livro interessante e paradoxal. Como não poderia deixar de ser, ele traz várias piadas, mas muitos as considerarão ofensivas e não rirão delas. Pelo contrário, ficarão indignados. O autor, porém, não teria como se abster de reproduzir essas anedotas, que são o objeto mesmo de que trata a obra.

Não estou entre os indignados. Devo ser o sonho de consumo dos comediantes, já que rio de tudo, incluindo piadas de judeu e que troçam de outras categorias a que eu possa pertencer. Devo ser um dos últimos, mas introjetei a ideia básica de que o humor não é para ser levado a sério.

Esculpindo palavras, por Ivan Alves Filho*

Jane Austen, Albert Camus, Franz Kafka, Machado de Assis, Tolstói e Jack London são autores celebrados não só pela qualidade de seus escritos como também pela maneira pela qual os iniciam. Impactantes, saborosas. Com esses escritores, aprendemos que as palavras, sem as frases, nada significam de fato. Ou seja, cabe às frases dar um sentido a elas. As frases, esses coletivos das palavras. E o escritor sempre se apresenta como alguém que se vale dessas ferramentas todas, como um artesão das letras. 

Os gramáticos nos ensinam que as frases nada mais são do que "um conceito da camada morfossintática de análise". Certamente estão imbuídos de razão. Mas, há uma certa frieza nesta definição, convenhamos. Daí eu preferir me valer de frases que escapam a qualquer explicação lógica, digamos assim, mas que falam diretamente ao coração de cada um de nós. Um exemplo: "Amai-vos uns aos outros". Outro: "Proletários de todos os países, uni-vos!". Mais um: "Eu tenho um sonho."