sexta-feira, 5 de junho de 2026

Breves notas sobre a política de Maquiavel, por Antonio Gramsci*

O caráter fundamental do Príncipe é o de não ser um tratado sistemático, mas um livro “vivo”, no qual a ideologia política e a ciência política fundem-se na forma dramática do “mito”.  Entre a utopia e o tratado escolástico, formas nas quais se configurava a ciência política até Maquiavel, este deu à sua concepção a forma da fantasia e da arte, pela qual o elemento doutrinário e racional personifica-se em um condottiero, que representa plástica e “antropomorficamente” o símbolo da “vontade coletiva”. O processo de formação de uma determinada vontade coletiva, para um determinado fim político, é representado não através de investigações e classificações pedantes de princípios e critérios de um método de ação, mas como qualidades, traços característicos, deveres, necessidades de uma pessoa concreta, o que põe em movimento a fantasia artística de quem se quer convencer e dá uma forma mais concreta às paixões políticas. (Deve-se pesquisar, nos escritores políticos anteriores a Maquiavel, se existem textos configurados como o Príncipe. Também o final do Príncipe está ligado a este caráter “mítico” do livro; depois de ter representado o condottiero ideal, Maquiavel — num trecho de grande eficácia artística — invoca o condottiero real que o personifique historicamente: esta invocação apaixonada reflete-se em todo o livro, conferindo-lhe precisamente o caráter dramático. Nos Prolegomeni de L. Russo, Maquiavel é chamado de artista da política e, numa ocasião, chega-se mesmo a encontrar a expressão “mito”, mas não exatamente no sentido acima indicado).

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

CNJ adota medida bem-vinda contra supersalários

Por Folha de S. Paulo

Contracheque único para juízes é avanço contra penduricalhos, mas solução definitiva depende do Congresso

A desfaçatez é tanta que, enquanto o STF debatia o tema, magistrados de SP embolsaram em média R$ 132 mil em março, quase o triplo do teto

O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) enfim adotou uma providência bastante óbvia para aumentar a transparência no Judiciário: trata-se da criação do contracheque único para magistrados, cujo objetivo é padronizar rubricas e vedar folhas de pagamento paralelas.

Por trás dessa resolução, aprovada de forma unânime no fim de maio, está a necessidade de centralizar em um mesmo documento diversas remunerações que hoje têm aparecido dispersas, como diárias, ajuda de custo, gratificações, indenização de férias e valores retroativos pendentes.

Bolsonaros são soldados do trumpismo, por Fernando Luiz Abrucio

Valor Econômico

Família atua como parte de um movimento global maior, que podemos chamar de Internacional de Extrema Direita

A movimentação política dos irmãos Bolsonaro em busca do apoio do governo Trump para enfraquecer o governo brasileiro, por meio da destruição da economia do país, é mais do que um plano para ganhar as eleições presidenciais. Esse objetivo se submete a outro maior: garantir a hegemonia da extrema direita no continente. E as duas dimensões anteriores se vinculam a um projeto mais forte que comanda ambas: a política trumpista de intervenção na política latino-americana. Flávio Bolsonaro é um soldado nesta história, não o comandante.

Jornada de trabalho ou de liberdade? Por José de Souza Martins*

Valor Econômico

O tempo social do que disseram na Câmara veio dos tempos da escravidão, um embate situado em tempos longínquos: a justiça social é aqui tardia e pendente

Na votação contra a jornada de 6 x 1, na Câmara dos Deputados, o projeto acabou sendo aprovado. A principal questão em debate não foi a da duração da jornada semanal de trabalho. Os que ganham com a jornada arcaica foram derrotados economicamente para não perder politicamente. Os desencontros foram sociologicamente reveladores, na função desconstrutiva dos avessos.

Nesse caso, o tempo social do que as pessoas disseram veio dos tempos da escravidão. Um embate situado em tempos longínquos. E nos diz que a justiça social é aqui tardia e pendente.

Trump prende o Brasil no ‘Dia da Marmota’, por Andrea Jubé

Valor Econômico

Bolsonaro não tem apoio, mas a agenda de reformas tem

E por falar em Estados Unidos, a sensação é de que estamos presos em um looping, nós, brasileiros, sob a ofensiva tarifária, que se repetiu quando parecia superada; eles, americanos, movidos por uma megalomania que um mundo multipolar já não comporta mais. A sensação é de que, há tempos, dormimos e acordamos no mesmo Dia da Marmota, como naquela reprise da Sessão da Tarde. Com a singularidade de que não existem marmotas no Brasil. Quem não se lembra de Bill Murray no filme “Feitiço do tempo”, de 1993, que, no papel de um jornalista especializado em clima, vai cobrir o Dia da Marmota - Groundhog day, no original, em inglês - festa que leva milhares de turistas a uma pequena cidade da Pensilvânia.

STF é panela prestes a explodir, por Vera Magalhães

O Globo

Para além das divergências sobre o papel do Judiciário, existe o caso Master

Passada a semana do feriado, a volta ao trabalho presencial deverá ser acompanhada por um clima para lá de pesado no Supremo Tribunal Federal (STF). As tensões que vêm se acumulando entre os ministros nos últimos meses, em razão de divisões internas e discordâncias quanto ao papel do Judiciário no jogo institucional, tendem a deixar os bastidores e resultar em algum tipo de confrontação explícita.

O globetrotter dos direitos humanos, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Brasileiro se despede da ONU após 15 anos à frente de comissão que investiga crimes de guerra na Síria

Em março de 2011, a Primavera Árabe chegou à Síria com manifestações pacíficas pelo fim da ditadura de Bashar al-Assad. O regime reprimiu os protestos com violência, e o país mergulhou numa sangrenta guerra civil.

Em Genebra, o Conselho de Direitos Humanos da ONU acionou um brasileiro para observar o conflito. “No início, os refugiados queriam saber em quantos dias os filhos poderiam voltar à escola. Pensavam que a guerra não iria durar muito. Durou quase 14 anos”, espanta-se Paulo Sérgio Pinheiro, presidente da Comissão de Investigação Internacional Independente sobre a Síria.

Assimétrico sim, mas por que? por Pablo Ortellado

O Globo

A saída para a crise é torná-las mais plurais e discutir amplamente orientações normativas, buscando um nível maior de consenso social antes de passarmos a impor regras

Tornou-se lugar-comum em meios de esquerda dizer que a polarização política “não existe” — ou, se existe, que é “assimétrica”. O argumento é que, nos últimos anos, a esquerda não foi para a extrema-esquerda, mas para a centro-esquerda, enquanto a direita se moveu para a extrema direita. Não cabe, desse ponto de vista, falar em polarização. Ou deveríamos chamar essa polarização de “assimétrica”, já que um lado está no meio, o outro no extremo.

O argumento chama a atenção para um fato: enquanto a referência estabelecida da direita é hoje o bolsonarismo, tido como ultraconservador e com posições antidemocráticas, a referência da esquerda é o PT, visto como partido moderado e democrático. O equivalente do bolsonarismo na esquerda, em termos de distância do centro, seriam partidos muito pequenos como UP, PCB ou PSTU.

Tempo fechado nas relações EUA–Brasil, por Fernando Gabeira

O Estado de S. Paulo

Será preciso reativar o esforço comercial no mundo, abrir novas frentes e trabalhar com a hipótese de que os EUA já não serão o mesmo parceiro do passado

As relações entre Brasil e Estados Unidos pareciam caminhar bem. De repente, o tempo fechou. As duas medidas emanadas de Washington – a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas e um tarifaço adicional de 25% – têm de ser analisadas com frieza. No mesmo dia em que Jamieson Greer, o representante comercial, anunciava o tarifaço, Trump anunciou um novo embaixador para o Brasil, preenchendo uma lacuna desconfortável na relação entre os dois países. Agora temos com quem conversar num nível oficial um pouco mais alto.

Tudo, menos mexer no Pix! Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Ao encenar que defende o Pix com Trump, Flávio admite o risco para sua campanha

Os EUA podem até ameaçar duplamente com mais tarifas, pela Seção 301 e por alegação de “trabalho forçado”, mas não se atrevam a mexer com uma coisa: o Pix, que mais de 170 milhões de brasileiros (93% dos adultos do País) usam e não aceitariam voltar para as velhas notas amassadas, desagradáveis, que exigem troco, algo cada vez menos disponível.

Gente que faz negócio sujo é que gosta de dinheiro vivo, gente trabalhadora ou empreendedora não abre mão do Pix. Donald Trump tende a dividir o Brasil, na mesma proporção da polarização política, ao declarar PCC e CV como “terroristas” e se autoconceder o direito de pintar e bordar por aqui, como fez na Venezuela. Mas ameaçar o Pix não divide, e sim une de lulistas a bolsonaristas.

Trump não olhou o próprio umbigo, por Raquel Landim

O Estado de S. Paulo

Maior escravizador das Américas, Estados Unidos querem punir o Brasil

No seu afã protecionista, o presidente Donald Trump decidiu remontar seu arsenal tarifário, mas se esqueceu de olhar para o próprio umbigo.

Partiu de uma premissa louvável: punir países que produzem ou importam mercadorias que utilizam trabalho escravo.

Porém, produziu um absurdo: taxou em cerca de 12,5% mais de 80 países, incluindo Noruega, Suíça e todos os europeus. Lá no meio da lista está o Brasil.

O cálculo de risco de Flávio, a oposição e a política de Trump, por Carlos Alexandre de Souza

Correio Braziliense

Responsabilizar Lula pelos ataques provenientes dos EUA mostra-se uma estratégia perigosa, pois coloca no palanque eleitoral questões ligadas aos interesses nacionais, e não propriamente à batalha partidária

A estratégia de pegar carona na política norte-americana para abafar o envolvimento no escândalo Master e turbinar a disputa eleitoral contra o presidente Lula é uma jogada perigosa de Flávio Bolsonaro. O cálculo do senador repete a estratégia adotada no ano passado, quando o governo Trump lançou um conjunto de medidas que atingiam não apenas a economia brasileira, mas igualmente autoridades do Executivo e do Judiciário. É incerto, todavia, se essa articulação internacional resultará no objetivo final de Flávio Bolsonaro em 2026: sair vitorioso das urnas.

Gente grande ainda acredita que a crise do petróleo vai ser feia, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Guerra e suas consequências econômicas vão sumindo do notíciário, mas ainda são veneno

OCDE, FMI, OMC, Banco Mundial e negociantes de petróleo alertam para baixa de estoques

Na segunda-feira, terão passado cem dias desde que começou a guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã. Os mortos mereceram pouca atenção desde o início da desgraça, mas por algum tempo o choque econômico era assunto. Agora, resiste em governos, rodas de economistas e similares. A história vai sumindo do noticiário.

Um choque estaria nos espiando escondido, na próxima esquina? Grandes empresas negociadoras de petróleo têm dito por estes dias que a calmaria relativa abafa alertas de risco de escassez depois de junho, caso o estreito de Ormuz continue praticamente fechado.

Trump é pé-frio eleitoral, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Interferência em pleitos no exterior já levou a derrotas históricas de candidatos apoiados pela Casa Branca

Em eleições na América Latina, placar é um pouco mais favorável ao presidente norte-americano

Tratando-se de Donald Trump, presumir intenções e cálculo estratégico é um exercício arriscado. Não que ele não tenha preferências e objetivos políticos, mas nem sempre é capaz de hierarquizá-los e definir rotas coerentes para efetivá-los.

Embora Trump tenha desenvolvido um relacionamento até cordial com Lula, não há dúvida de que seu coração é bolsonarista. Tivemos uma prova disso na semana passada, quando o presidente americano não só recebeu Flávio Bolsonaro na Casa Branca como também acedeu a seu pedido para classificar PCC e CV como organizações terroristas.

Troca de insultos entre candidatos rebaixa o debate eleitoral, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Candidatos põem Trump no centro de uma campanha que deveria se concentrar nos problemas do Brasil

A real defesa do Pix pode ser feita com apoio à emenda que amplia a autonomia do Banco Central

O aguado caldo de racionalidade que ainda poderia haver no debate eleitoral entornou de vez com a divisão da cena entre Luiz Inácio da Silva (PT) como defensor da soberania, antagonista de Trump, e Flávio Bolsonaro (PLno lugar de entreguista, traidor da pátria a serviço do americano.

Nossos ingratos amigos, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Marco Rubio disse que o Brasil não está entre os amigos dos EUA e continuou no emprego

Nos últimos 130 anos, ninguém se beneficiou tanto da amizade do Brasil quanto os EUA

Marco Rubio, secretário de Estado americano, afirmou que o Brasil não faz parte da lista de "amigos dos EUA". Disse isso e continuou no emprego. Seu cargo exige tato diplomático e conhecimento de história, coisas que não se compram nas drugstores de Miami. Mas Rubio é um ministro de Donald Trump —só existe porque existe Trump. Se não fosse uma alimária, saberia que, em qualquer época, nenhum outro país foi tão amigo dos EUA.

Bolsonaro y las consecuencias de una traición, por Fernando de la Cuadra

El Clarin (Chile)

Para salir del centro de las atenciones por sus vínculos con el “banquero” Daniel Vorcaro, jefe del grupo criminal asociado a la mayor estafa financiera de la historia republicana, el senador Flavio Bolsonaro recurrió a un encuentro con Donald Trump para discutir –según él- algunos temas importantes para el país. Después de la mentada visita, el gobierno de Estados Unidos tomó 3 medidas que afectan de lleno en la soberanía e independencia de Brasil.

La primera de ellas fue atribuirle el estatus de terroristas a dos facciones del narcotráfico local, el Comando Vermelho (CV) y el Primer Comando de la Capital (PCC), lo cual puede significar que las instituciones norteamericanas, como la DEA, pueden intervenir en territorio brasileño para combatir a ambos grupos, caracterizados ahora por el gobierno Trump como narcoterroristas.

Uma lúcida e oportuna ponderação, por Ivan Alves Filho*

Sérgio Augusto de Moraes é autor de duas obras importantes para a compreensão da marcha da História nas últimas décadas. Vamos lá, pela ordem cronológica. A primeira delas é Viver e morrer no Chile, um relato pungente a respeito da experiência da Unidade Popular (UP), movimento capitaneado por Salvador Allende entre 1970 e 1973, voltado para a construção do socialismo pela chamada via democrática. Sérgio Moraes analisa as dificuldades enfrentadas por Allende e seus companheiros de luta, em uma época marcada pela truculência política norte-americana e seu fascismo de exportação. Não deu outra: a investida golpista de Augusto Pinochet, a 11 de setembro de 1973, mergulharia o Chile em uma repressão das mais sangrentas, acarretando na morte, por fuzilamentos e torturas, de milhares de pessoas.