domingo, 2 de agosto de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Deterioração das estatais agrava crise fiscal

Por O Globo

No atual mandato de Lula, elas têm passado a representar custo cada vez maior aos cofres públicos

É preocupante a corrosão da saúde financeira das empresas estatais. O último relatório da Instituição Fiscal Independente (IFI), vinculada ao Senado, constatou deterioração no resultado das empresas federais ao longo dos últimos anos. Entre janeiro de 2020 e maio de 2026, o resultado financeiro primário consolidado passou de um superávit equivalente a 0,2% do PIB para um déficit de 0,07%. A situação se agravou durante o atual mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva — o saldo no início do mandato ainda era positivo, em 0,06% do PIB.

O futuro em jogo, por Merval Pereira

O Globo

Já está ficando claro que a economia, seja qual for o presidente eleito, necessitará de uma ampla reforma para conter o déficit público.

Sempre tivemos uma base de cerca de 40% dos eleitores que escolheram votar contra Lula nas eleições presidenciais de que participou desde 1989. Com candidatos como Collor ou Aécio Neves, esse número subiu, e não havia extrema-direita nessas disputas. Com o surgimento de Bolsonaro, a retórica foi estressada e a essa massa de votantes antilulistas agregou-se uma atuação violenta, tanto física quanto verbal, e antidemocrática, o país ficou claramente dividido.

A eleição de 2026 pode ser a última com essa característica, pois Lula, se eleito, já estará com 85 anos em 2030, e não poderá se candidatar a um quinto mandato. Bolsonaro, sem a anistia que seus aliados prometem, estará fora da disputa política e terá constatado que não basta indicar um candidato para vencer. No PT, não há sinais de que o pós-Lula trará algum líder do seu tamanho, e assim como os partidos que Brizola criou - PTB e PDT - não são forças políticas relevantes hoje, o PT pode continuar existindo, mas não terá importância política. O mesmo aconteceu com o PSDB, que hoje não é o mais pálido reflexo da época de Fernando Henrique Cardoso.

O tira-teima de Lula, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Petista larga como favorito à reeleição, mas não tem folga que esperava nas pesquisas

Luiz Inácio Lula da Silva lança hoje sua sétima campanha à Presidência. Será um tira-teima com a História. O petista foi derrotado nas primeiras três tentativas de chegar ao Planalto, em 1989, 1994 e 1998. Venceu as outras três, em 2002, 2006 e 2022.

Aos 80 anos, o candidato à reeleição lembra pouco o metalúrgico que enfrentou Fernando Collor no início da Nova República. O Lula de 1989 falava em enfrentar a classe dominante e criar condições para o socialismo. O de 2026 promete estabilidade, temperança e defesa das instituições.

O petista já havia vestido o figurino “paz e amor” nas três campanhas vitoriosas. Agora também se apresenta como antídoto ao radicalismo e ao golpismo. “Não vou deixar a extrema direita voltar”, prometeu, na quinta-feira.

A violência como projeto, por Míriam Leitão

O Globo

É importante entender que cada ato de violência política contra mulheres faz parte de um projeto perigoso de retrocesso

A violência contra as mulheres na arena política, os insultos usando imagens sexuais, o ataque que tem como alvo as jornalistas não são fruto apenas dos maus modos ou da sordidez. São parte de um projeto. O avanço das mulheres nas últimas décadas, o protagonismo, a autonomia exasperam quem defende a visão extremada e obsoleta da supremacia dos homens. As pessoas, de qualquer gênero, que preferem o futuro da igualdade e do respeito entre grupos sociais precisam ter esse entendimento. Cada investida não é um ato isolado. É o ronco de um projeto.

Não por acaso as mulheres jornalistas são alvos tão frequentes. Elas avançaram de forma vigorosa nas últimas décadas nas redações de todo o país e em todas as mídias. Não integram os partidos que se enfrentam nas urnas, mas estão no meio do debate e incomodam por existir, por estarem ali, por fazerem perguntas e terem ideias próprias. Para quem tem visão retrógrada, a presença da mulher libera os instintos mais selvagens. E na reação cometem crimes.

A luta de Heleno Fragoso, por Elio Gaspari

O Globo

Advogado acima de tudo, ele foi um destemido defensor de presos políticos

Vem aí um grande livro. Será lançado no dia 26 uma reedição de “Advocacia da liberdade — A defesa dos processos políticos”, do criminalista Heleno Fragoso (1926-1985). Advogado acima de tudo, ele foi um destemido defensor de presos políticos.

Preso em um arrastão intimidatório em 1970, Heleno Fragoso contou alguns de seus casos. Defendia presos num regime que não tinha habeas corpus e que casos políticos eram julgados em tribunais militares.

Passados quase 50 anos, é emblemática sua defesa dos dirigentes dos Sindicatos dos Metalúrgicos de São Bernardo (Lula) e Santo André (Benedito Marcilio) e de outros 11 sindicalistas pela deflagração da greve de 1980. Ela durou 41 dias e Lula passou 31 dias na cadeia. Fragoso entrou nesse caso em sua reta final. Julgados no ano seguinte, quatro dirigentes foram condenados a 3 anos e 6 meses, com direito a recorrer em liberdade. O primeiro julgamento foi anulado no Superior Tribunal Militar e, em 1982, veio outro. Fragoso e os demais advogados sustentavam que a Justiça Militar era incompetente para julgar grevistas. Prevaleceram.

Extrema direita usa medo como arma, por Dorrit Harazim

O Globo

Trump saiu à frente com postagens alarmadas afirmando que os EUA serão Ceuta se os democratas vencerem em 2028

Foi um surto humano que durou 24 horas. Na sexta-feira, quando o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, desembarcou em Ceuta, epicentro do rompante migratório vindo do Marrocos, o número de cadáveres recolhidos chegara a 57 — ontem já eram 67. Eles vêm somar-se aos milhares de corpos que não aguentam travessias muitas vezes mais longas pelo mesmo Mediterrâneo: 31.800 só na última década, segundo o Missing Migrants Project.

Ceuta é um exclave, designação para a parte de um país que fica separada de seu território principal. No caso de Ceuta, trata-se de um exclave espanhol fincado na costa mediterrânea do Marrocos, a pouco mais de 60 quilômetros de Gibraltar — ou da Europa continental. Com Melilla, outra cidade autônoma espanhola encravada na costa norte do Marrocos, forma as únicas fronteiras terrestres legitimadas da União Europeia com a África.

O maior mistério da eleição de 2026, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

‘Neutralidade’ do Centrão custa caro; quem dá mais, o presidente Lula ou Flávio Bolsonaro?

Toda eleição tem lá seus mistérios e o maior de todos em 2026 é a conversa (ou conversas) entre o presidente Lula e o senador Ciro Nogueira, que deu uma cambalhota e tirou o PP e o próprio Centrão da candidatura de Flávio Bolsonaro e empurrou para o que chamam de “neutralidade”. Depois da reaproximação de Lula e Nogueira, a eleição nunca mais foi a mesma.

Nogueira, do Piauí, é um duplo recordista. Apoiou FHC, Lula, Dilma e Temer, até chefiar o que Jair Bolsonaro chamava de “coração” do seu governo, a Casa Civil. E esteve, de alguma forma, envolvido nos mais variados escândalos, desde a Lava Jato até o Banco Master. Foram sete esquemas de corrupção, cinco inquéritos e quatro denúncias formais, nenhuma condenação.

Em Gaza, uma manobra política, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

O acordo de desarmamento do Hamas, anunciado por Donald Trump e confirmado pelo grupo palestino, não representa avanço real rumo à solução do conflito na Faixa de Gaza, mas uma manobra política do Hamas – na qual Trump embarcou, por conveniência – para elevar as tensões entre Israel e os EUA e as pressões sobre o governo de Binyamin Netanyahu.

É a continuação do movimento iniciado pelo Hamas no dia 6, quando o grupo renunciou ao governo civil da Faixa de Gaza, em favor do Comitê Nacional para a Administração

de Gaza (NCAG). Composto por tecnocratas palestinos, o órgão faz parte do plano americano e tem o apoio do Conselho de Paz, presidido por Trump. Israel, no entanto, impede a entrada de seus integrantes no território da Faixa de Gaza.

Milei é o cunhado picareta do Brasil, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Javier assinou a minuta do golpe que Flávio Bolsonaro apresentou

O resto é torcer para que uma hora a Argentina largue o boy lixo e arrume coisa melhor

Na falta de brasileiros que o apoiem, Flávio Bolsonaro segue recrutando estrangeiros que o defendem em troca de sabe Deus o quê.

Na convenção do PL que lançou o filho do Jair para presidente, nem os grandes partidos de direita brasileiros apareceram para declarar apoio. Carluxo preferiu ir visitar Eduardo nos Estados Unidos. Michelle mandou um vídeo em que elogiava Flávio com menos naturalidade do que o Jair de inteligência artificial.

Depois de papai Trump e de tio Netanyahu, Flávio agora trouxe para a campanha Javier Milei.

Do ponto de vista do Brasil, Milei é como aquele cunhado picareta que perdeu tudo em um esquema de criptomoeda e agora está endividado com o agiota.

Macaquice tem lugar de fala, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Decadência, quando afeta moralidade ou ética social imediata, caminha junto com ressentimento e crueldade

'Paris da América do Sul' era epíteto da capital portenha

Guerra não é motivo de orgulho moral e cívico para país nenhum. Bem o sabem os argentinos, modestos em feitos armados, afora a luta pela independência. Nas duas vezes contra o Brasil (Guerra Cisplatina e do Prata), foram derrotados. Depois, ao lado dos brasileiros e uruguaios na Tríplice Aliança contra o Paraguai, foram caso invulgar de indisciplina militar, desertando das fileiras de combate. Reza a crônica que, após a desastrosa batalha de Curupaiti, às vezes tinham de ser amarrados para não fugirem.

No encalço do Congresso, Dino aperta cerco às emendas, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Ministro quer impor responsabilidade jurídica aos parlamentares no uso do Orçamento da União

Eleição atual pode ser a última chance do manejo desses recursos como financiamento de campanhas

O ponto mais recente que Flávio Dino acrescentou à escrita dele sobre a manipulação no uso das emendas parlamentares não mereceu destaque no noticiário voltado às campanhas eleitorais. Conviria, porém, prestar atenção aos movimentos do ministro.

Dino sinaliza introduzir na cena o conceito de responsabilidade jurídica de deputados e senadores no manejo daqueles recursos, hoje na ordem dos R$ 60 bilhões, em ação em curso no Supremo Tribunal Federal que os equipara a ordenadores de despesas do Orçamento da União.

Um ato de lesa-banana, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Há dias, sem pensar, reduzi a banana a fláviobolsonaro; leitores protestaram com razão

Sugiro também o apagamento da ligação injusta e involuntária da banana com Dudu Bananinha

Na quinta (30), cometi um ato de lesa-banana ao definir Flávio Bolsonaro como um político marca banana, por seus espasmos de filhinho do papai, choramingas e entreguista em campanha pela Presidência. Arrisquei que, se Flávio B. já é tão flácido como candidato, como seria no trono, posto que exige maturidade, firmeza e decisão? Ao mesmo tempo, deixei em aberto a possibilidade de ser isso o que a Faria Lima quer: um banana na Presidência, fácil de ser manipulado.

A Indústria Mundial de Petróleo e a Cultura da Paz, por George Gurgel*

Devemos compreender o Mercado, o Estado e a Sociedade em geral de uma maneira sistêmica, em diálogo e conflito, permanentemente.

Por exemplo, argumentamos   que   a Paz é uma variável fundamental a ser considerada nas relações internacionais, inclusive em relação a indústria petrolífera. A indústria petrolífera impacta a cada um de nós como humanidade que direta ou indiretamente participa do amplo fluxo desta indústria. 

Tenho colocado, onde posso alcançar, que a Paz é o fundamento da sustentabilidade humana no planeta.

Portanto, no cenário internacional, histórico, atual e em perspectiva, da Indústria Mundial de Petróleo, uma boa parte dos conflitos   foram e continuam sendo gerados em torno das reservas, produção e distribuição de Petróleo e de Gás Natural. 

Quem se apropriou e se apropria da renda petrolífera, inclusive manu-militare, eis a questão!

Opinião do dia: Manuel Castells*

Em tempos de incertezas costuma-se citar Gramsci quando não se sabe o que dizer. Em particular, sua célebre assertiva de que a velha ordem já não existe e a nova ainda está para nascer. O que pressupõe a necessidade de uma nova ordem depois da crise.

Mas não se contempla a hipótese do caos. Aposta-se no surgimento dessa nova ordem de uma nova política que substitua a obsoleta democracia liberal que, manifestamente, está caindo aos pedaços em todo o mundo, porque deixa de existir no único lugar em que pode perdurar: a mente dos cidadãos.

A crise dessa velha ordem política está adotando múltiplas formas. A subversão das instituições democráticas por caudilhos narcisistas que se apossam das molas do poder a partir da repugnância das pessoas com a podridão institucional e a injustiça social; a manipulação midiática das esperanças frustradas por encantadores de serpentes; a renovação aparente e transitória da representação política através da cooptação dos projetos de mudança; a consolidação de máfias no poder e de teocracias fundamentalistas, aproveitando as estratégias geopolíticas dos poderes mundiais; a pura e simples volta à brutalidade irrestrita do Estado em boa parte do mundo, da Rússia à China, da África neocolonial aos neofascismos do Leste Europeu e às marés ditatoriais na América Latina.

*Manuel Castells, sociólogo espanhol. “Ruptura”, Editora Zahar, Rio de Janeiro, 2018.

Texto Publicado na Folha de S. Paulo / Ilustríssima, 10/6/2018