sábado, 28 de fevereiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Redução de jornada semanal é equívoco econômico e político

Por O Globo

No Brasil atual, não dá para trabalhador gerar mais riqueza — e ganhar mais — trabalhando menos horas semanais

A proposta populista e demagógica de reduzir a jornada de trabalho sem corte salarial que tramita no Congresso apoia-se em premissas que, embora façam sucesso junto ao eleitorado e a parcelas bem-intencionadas da sociedade, estão erradas. Na leitura mais generosa, traduzem apenas ignorância sobre os princípios básicos da economia.

O primeiro equívoco é supor que a jornada de trabalho no Brasil seja excessiva. Ela tem caído — de 43,8 horas em 1981 para 38,4 horas em 2024, de acordo com análise do economista Fernando de Holanda Barbosa Filho, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), com base em dados do IBGE. Adotando critério diferente — o banco de dados global mantido pelos economistas Amory Gethin, do Banco Mundial, e Emmanuel Saez, da Universidade da Califórnia em Berkeley —, o economista Daniel Duque, também do FGV Ibre, constatou que o brasileiro trabalha menos horas semanais (40,1) que a média mundial (42,7). Na lista de 86 países para os quais há mais de duas décadas de dados, o Brasil ocupa a 38ª posição em horas trabalhadas por semana.

Depois do carnaval, por Marco Aurélio Nogueira

O Estado de S. Paulo

O confronto será, mais uma vez, entre dois ‘mitos’, o lulismo e o bolsonarismo, o que não deixará margem para conversas sérias

Fevereiro teve carnaval durante o mês inteiro. Sem que se saiba bem as razões, ampliaram o “tríduo momesco” para além do calendário. Agora, há um pré e um pós. Patrocinadores e foliões adoraram, mas muita gente reclamou.

Do outro lado da avenida, houve um desfile de sobressaltos e passos trôpegos. Nada de samba no pé. Foi um verdadeiro anticlímax, que estragou a festa de muitos graúdos.

50 anos da transição espanhola: lições para o agora, por Sergio Fausto

O Estado de S. Paulo

A política deve ser feita para construir acordos que permitam à sociedade lidar com seus traumas e conflitos sem recorrer à violência

o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) se afastava do marxismo-leninismo e abraçava a social-democracia. Não foram esses partidos, porém, que assumiram ao início a liderança da transição democrática. E sim uma nova geração de funcionários do regime franquista, cuja principal figura foi Adolfo Suárez, em ascensão dentro das estruturas burocráticas e políticas do regime.

Pouco conhecido até assumir a presidência do governo, em 1976, Suárez mostrou qualidades políticas insuspeitadas. Percebeu a impossibilidade de manter “todo atado y muy bien atado” e intuiu que haveria vida depois do franquismo para uma direita liberal. Ainda mais importante, entendeu que o espaço político que se abria só seria legítimo e duradouro se incorporasse todas as forças políticas do país. Nos primeiros meses de 1977, o PCE e o PSOE retornaram à legalidade, graças à Lei de Reforma Política aprovada no ano anterior.

Chegou o decano, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Gilmar Mendes teve de entrar em campo. Dias Toffoli tentou controlar o bicho; Alexandre de Moraes ainda tenta domá-lo. Davi Alcolumbre mostra que nem o exercício autoritário do poder – o rolo compressor com que governa o Congresso – consegue dirigir o ímpeto imprevisível de uma crise que veio para ficar. Não tem a caneta togada capaz de decidir como bem quiser, quando quiser. Gilmar Mendes tinha de entrar em campo. Foram chamá-lo. Ele veio.

O caso Master veio para ficar. É incontrolável. Empurra-pressiona tudo em Brasília e a partir de Brasília – e desafia a operação abafa contra as investigações.

Crime de homens público, por Flávia Oliveira

O Globo

Julgamento sedimentou a certeza de que, em crimes contra a vida, a justiça é sempre parcial, nunca plena

Chegou ao fim, quase oito anos depois da barbaridade, o longo caminho de punição aos assassinos de Marielle Franco e Anderson Gomes. A Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal condenou, por unanimidade, mais cinco envolvidos no crime. O desfecho, essencial a uma nação que se entende democrática, sinaliza repúdio à impunidade e atenção à cobrança incessante das famílias das vítimas, da sociedade civil e da opinião pública, estrangeira inclusive. Ninguém soltou a mão de ninguém, até que as autoridades fossem capazes de identificar tanto quem matou quanto quem encomendou a morte da vereadora carioca em pleno exercício do mandato.

Vem aí o Ministério da Prosódia, por Eduardo Affonso

O Globo

Talvez o MP escafuasse Guimarães Rosa, por comprometer a norma culta com palavras que não existem

O ano de 2026 começou com tudo. O Rio teve o melhor janeiro de sua história, com número recorde de turistas. Juiz de Fora, em contraste, bateu o recorde de chuvas para o mês de fevereiro.

Agora, leitor, me diga, com toda sinceridade: como você pronunciou mentalmente a palavra “recorde” ao ler o parágrafo acima? Ainda bem que não leu em voz alta, nem havia ninguém do Ministério Público Federal por perto, ou o saldo de sua conta bancária poderia superar o recorde negativo anterior. Ops, errou de novo: não é “récorde” (proparoxítona), mas “recorde” (paroxítona, sem acento).

A hora e a vez da resiliência, por Orlando Thomé

Correio Braziliense

O maior desafio frente aos eventos climáticos extremos é construir as chamadas cidades resilientes, que são aquelas capazes de enfrentar, resistir e se adaptar a choques e tensões — sejam eles climáticos, sociais ou econômicos — sem colapsar 

Dia 21 de dezembro de 2025 teve início o verão no Hemisfério Sul do planeta que se encerrará em 20 de março deste ano. É de conhecimento público que se trata do período em que nosso país, historicamente, passa por chuvas intensas, provocando desastres em diversas regiões. Nesta semana, estamos assistindo ao drama vivido em Juiz de Fora e Ubá, na Zona da Mata de Minas Gerais. Até o momento que escrevo esta coluna, já foram contabilizados 55 óbitos e 13 desaparecimentos nos dois municípios. No mesmo período, na Baixada Fluminense, a contagem já passou de 2 mil pessoas atingidas, sendo 1 mil em Nova Iguaçu e 600 em São João de Meriti, onde houve um óbito de uma senhora de 85 anos.

A injustificável farra dos penduricalhos, por Juliana Diniz

O Povo (CE)

Os argumentos são surpreendentes, até chocantes para a maioria dos brasileiros. Alguns magistrados alegam que o salário é baixo e a carreira pouco atrativa: os juízes estariam sofrendo uma penúria que justificaria a remuneração indireta fora do teto de R$ 46.3 mil

O Supremo Tribunal Federal colocou em pauta um debate extremamente importante para a saúde orçamentária brasileira e para preservação da moralidade pública: a farra dos penduricalhos em carreiras de estado, sobretudo aqueles pagos pelo Poder Judiciário e Ministério Público aos seus membros. Os chamados penduricalhos compreendem verbas indenizatórias, gratificações e auxílios. Por sua natureza, esses valores não sofrem qualquer limitação do teto de gastos ou tributação de imposto de renda.

Eleições presidenciais: Flávio jogando parado e Lula na zona de rebaixamento, por André Régis

Folha de Pernambuco

Como explicar que, num cenário de primeiro turno, o candidato que lidera entre os mais pobres não seja Lula, mas Flávio Bolsonaro? A Atlas/Bloomberg de fevereiro de 2026 obriga o país a encarar esse dado sem filtros ideológicos. No recorte de renda familiar até R$ 2.000, Flávio aparece com 46,8%, enquanto Lula marca 32,5%. No extremo oposto, acima de R$ 10.000, o desenho se inverte com nitidez: Lula lidera com 57,8% e Flávio fica em 26,7%. É esse cruzamento — fragilidade onde Lula sempre foi mais forte, vigor onde raramente foi hegemônico — que dá ao quadro atual caráter de forte complexidade, não de simples oscilação.

O celular do Vorcaro, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Smartphones facilitaram bastante a atividade de investigação policial

As próprias vítimas produzem e juntam as provas que poderão condená-las

Se os avanços tecnológicos ameaçam vários empregos, eles foram uma bênção para a atividade policial. Um investigador do início do século 20 gastava sola de sapato para entrevistar as sempre pouco confiáveis testemunhas e dispunha de poucas ferramentas científicas para ajudá-lo. Não havia muito mais que datiloscopia, rudimentos da balística e da toxicologia. A partir da segunda metade do século 20, vieram pequenas revoluções na forma de análise de DNA e outras técnicas forenses sofisticadas, além da proliferação de câmeras de vigilância, que fizeram com que as evidências físicas também contassem a sua história.

Magistrada debocha da população em julgamento no STF, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Ela reclamou que juiz não tem carro, apartamento funcional, plano de saúde, refeitório, água e café

Para quem esperava um avanço para barrar os supersalários, a semana não terminou bem

fala da presidente da Associação Brasileira de Magistrados do Trabalho, Claudia Marcia de Carvalho Soares, no julgamento da liminar que limita os supersalários no serviço público, do ministro do STF Flávio Dino, expôs na forma bruta o abismo que existe entre o Judiciário e o resto da população brasileira.

Claudia Soares reclamou que o juiz de primeiro grau não tem carro, paga o combustível do próprio bolso e não tem apartamento funcional, plano de saúde, refeitório, água e café.

Entrave lobista impede fim da escala 6x1 e supersalários, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Deputados sentem-se à vontade para dizer ao trabalhador que 'ócio demais faz mal'

Projetos sobre pagamento de penduricalhos estão parados no Congresso

Já tínhamos a lei que não pega, consagrada na expressão popular. Agora temos o projeto de lei, não importando sua urgência, legitimidade ou necessidade moral, cuja aprovação depende da conveniência, da simpatia, do humor, das condições sazonais (o "voto impopular" em ano eleitoral) e sobretudo da influência de lobistas.

Uma ideia insustentável? Por Cristovam Buarque

Veja

A redução da jornada precisa estar acompanhada de reformas

Todas as sociedades que reduziram a jornada de trabalho ampliaram antes a permanência de crianças e jovens em escolas de qualidade. Foram sistemas públicos escolares acessíveis a todos que possibilitaram o aumento de produtividade e a consequente redução na jornada sem perda de competitividade nem redução de renda. Em geral essas reformas estruturais foram possibilitadas por lutas de partidos progressistas. As revoluções das últimas décadas — tecnológica (digital), psicossocial (individualismo) e geopolítica (globalização e queda do Muro de Berlim) — moldaram uma esquerda com propostas voltadas à ampliação de direitos identitários e individuais, sem reformas estruturais que assegurem direitos sociais duradouros. A proposta de redução da jornada semanal de trabalho é justa. No entanto, não altera a estrutura social e, por isso, é insustentável.

Keynes e a esfinge do dinheiro, por Luiz Gonzaga Belluzzo e Manfred Back

CartaCapital

Quando percebeu que transformavam a sua teoria em dogma, ele disse: “Não sou keynesiano”

Em um seminário realizado sobre o livro A Teoria Geral, do Juro, do Emprego e da Renda na Universidade de Campinas, um dos escribas deste artigo teve contato com a grande economista inglesa Joan Robinson, de Cambridge.

Conseguiu através dela o contato de Keynes, que topou fazer uma entrevista por e-mail. Neste artigo, vamos destacar alguns pontos dessa entrevista histórica, sobre um dos capítulos fundamentais da Teoria Geral, o capítulo XII – O Estado da Expectativa a Longo Prazo.

Neste capítulo, Keynes nos brinda com a psicologia, incerteza, estado de confiança, limitação da matemática e importância da liquidez e o mercado financeiro.

Lorde Keynes, ao sair em 1944, da reunião de Bretton Woods, foi visionário ao declarar: I am not a Keynesian (“Eu não sou um keynesiano”), quando percebeu que os ditos keynesianos estavam transformando sua teoria em dogma, ficando marcado como o economista do estímulo de déficit. Essa banalidade não considera que John Maynard rompeu com as simplificações da ortodoxia.

Fardo ou dádiva? Por Pedro Serrano

CartaCapital  

Estudo comprova que a presença de imigrantes é benéfica para a economia dos Estados Unidos

Governos europeus de extrema-direita têm adotado políticas restritivas à entrada e permanência de estrangeiros, utilizando argumentos populistas que associam criminalidade e dificuldades econômicas à presença de imigrantes ilegais. É nesse tipo de narrativa que também se apoia o governo Trump, ao implementar medidas anti-imigração nos Estados Unidos.

Trump tem associado os estrangeiros a ameaças terroristas e os acusa de drenar recursos públicos que, em sua visão, deveriam ser destinados prioritariamente aos norte-americanos. No entanto, a violência empregada na repressão aos imigrantes já resultou em mortes até de cidadãos natos, e tais atos extremos começam a ser cada vez mais rechaçados pela população.

A lei da selva, por Jamil Chade

CartaCapital

Como as sanções de Washington a juízes e promotores emperram o funcionamento do TPI

Pouco mais de um ano após a chegada de Donald Trump ao poder, as sanções adotadas pelo presidente dos Estados Unidos contra as Cortes internacionais e os relatores de direitos humanos asfixiam a Justiça e revelam a ambição da Casa Branca em garantir uma absoluta impunidade das atrocidades cometidos em Gaza. Ao longo dos meses, o republicano adotou medidas contra procuradores e juízes do Tribunal Penal Internacional que “ousaram” denunciar Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, por crimes de guerra e contra a humanidade. As sanções abalaram o funcionamento do organismo, o acesso ao e-mail, viagens, pagamento de salários e a própria investigação contra os suspeitos.

Trump, o anticapitalista, por Marcus Pestana

Donald Trump é um ator político fora da curva. Empresário milionário controverso por seus métodos heterodoxos; apresentador do reality show “O APRENDIZ”, que o projetou como influenciador midiático; outsider político que dominou o Partido Republicano, transformando o conservadorismo clássico no atual populismo iliberal espalhafatoso; surpreendeu, nas eleições de 2016, derrotando Hilary Clinton.