sábado, 14 de março de 2026

Sororidade seletiva, por Thaís Oyama

O Globo

Ataques a jornalista são o que grupos feministas chamam de ‘violência política de gênero’, e nenhum desses grupos a defendeu

Malu Gaspar é até aqui a jornalista responsável pelas revelações mais relevantes sobre o escândalo do Banco Master. Desde que passou a expor no GLOBO as ligações do ministro do STF Alexandre de Moraes e de sua família com o ex-dono do banco, Daniel Vorcaro, tornou-se alvo de ataques abjetos, maciços e incessantes nas redes sociais.

Pelo exercício de seu ofício, vem recebendo ameaças e insultos que tentam constrangê-la e humilhá-la, muitas vezes com base em referências a sua condição de mulher. Tais ataques configuram precisamente o que grupos feministas chamam de “violência política de gênero”. Ainda assim, nenhum desses grupos veio a público defendê-la. Nenhuma nota ou carta aberta — nem mesmo um reles vídeo no TikTok.

D. Norma, a culta, por Eduardo Affonso

O Globo

Se esse menino Vorcaro tivesse estudado comigo, não estaria passando vergonha ao ver expostas suas mensagens

D. Norma foi professora de português a vida inteira. Começou por volta dos 4 anos de idade, corrigindo o irmãozinho caçula, que dizia “gugu dadá” em vez de “Augusta, dê-me a mamadeira”. E não parou mais.

Estudou letras na época em que regência e concordância ficavam no capítulo de sintaxe, não no de opressões linguísticas. Aposentada há décadas, anda horrorizada com os zaps do Vorcaro.

— Se esse menino tivesse estudado comigo, não estaria passando vergonha ao ver expostas suas mensagens. Que semântica bisonha! Que vernáculo comezinho!

É que D. Norma é desconectada do mundo real e apegada a tecnicalidades.

Governo diz que seu pacote para combustível evitou os erros dos governos Bolsonaro, Temer e Dilma, por Míriam Leitão

O Globo

Com o pacote anunciado nesta quinta-feira, o governo não pretende congelar os preços da Petrobras. O que o governo não quer, me explicou uma fonte, é um repasse automático das variações internacionais, como ocorria na gestão de Pedro Parente, que presidiu a Petrobras durante o governo de Michel Temer. Mas também não se trata de congelamento ou de segurar preços artificialmente como aconteceu no governo Dilma Rousseff. Nem quer criar um rombo nas contas, como fez Jair Bolsonaro. A ideia é ir repassando os aumentos de forma gradual — criando uma espécie de “colchão” de amortecimento e ajustando os preços aos poucos. O pacote é para atenuar a alta.

Brasil pode virar peça-chave na crise, por Fabio Gallo

O Estado de S. Paulo

O Brasil é um dos poucos produtores capazes de aumentar a oferta de petróleo fora da zona de conflito

O Estreito de Ormuz é hoje o ponto de estrangulamento energético mais importante do planeta. Sua relevância resulta de uma combinação rara de geografia, concentração de petróleo e ausência de rotas alternativas eficientes. Uma região estratégica como rota comercial há milênios.

Segundo dados da International Energy Agency (IEA), cerca de 20 milhões de barris de petróleo passam pelo estreito por dia – 20% do comércio global. Também é crítico para 20% do comércio mundial de gás.

Apertou? Chame Xandão, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

O ministro Flávio Dino é líder de um grupo político no Maranhão; e usa o poder do STF para acertar contas e se impor no Estado. Ministro do STF líder de grupo político; que perverte a condição de juiz de Corte constitucional para investir contra o sigilo da fonte.

Apertou? Chame o Xandão bloqueador. É o que faz poderoso com medo ou apenas pressionado. Recorre ao gestor do inquérito infinito e onipresente que corrompeu o sentido das palavras ataque, perseguição etc. Foi o que fez, em 2019, o ex-sócio de Fabiano Zettel (cunhado de Daniel “conseguiu bloquear?” Vorcaro), o ministro Dias Toffoli: sentindo-se desonrado com reportagem que o identificara como “amigo do amigo do meu pai”, ganharia de Moraes uma censura à revista Crusoé.

Tirando o melhor de nosso fracasso, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Demografia já passou a jogar contra o enriquecimento do Brasil

Ainda assim, tecnologias e avanços isolados poderão melhorar qualidade de vida

Já me conformei a ver o Brasil como um suave fracasso (a ótima expressão é do embaixador Rubens Ricupero). O adjetivo "suave" é importante. É pouco provável que o país se torne um Estado falido, a exemplo de Sudão, Haiti ou mesmo da Venezuela, mas também me parece difícil que venhamos a dar o tão almejado salto para o grupo de nações mais desenvolvidas. Esse é um bonde que já perdemos. Se tivéssemos tomado decisões melhores algumas décadas atrás, talvez tivéssemos conseguido, mas, agora, a demografia passa a jogar contra. Envelhecemos antes de enriquecer.

Pedido de arquivamento do caso das joias de Bolsonaro é absurdo histórico, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Causa estranheza que solicitação de Gonet tenha sido divulgada quando veio à tona esquema mafioso do Master

O pedido foi entregue ao relator do caso, ministro Alexandre de Moraes, um dos personagens do escândalo

É um absurdo histórico a decisão do procurador-geral da República, Paulo Gonet, de pedir ao STF o arquivamento da investigação sobre as joias árabes recebidas pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Gonet resolveu que não havia nada e pronto. Ignorou tudo o que a Polícia Federal comprovou. A fuga com as joias, as negociatas.

Lula assume riscos ao retomar a briga com Trump, por Igor Gielow

Folha de S. Paulo

Veto a enviado remete ao melhor momento do petista neste mandato, mas arrisca jogar créditos de 2025 fora

Temor de ingerência política no pleito é válido, mas medida ocorre em meio ao debate sobre segurança regional

O imbróglio em torno da visita do enviado de Donald Trump ao Brasil está inserido no contexto da corrida eleitoral deste ano. O presidente Lula (PT) parece disposto a ressuscitar a briga com o americano, mas tal aposta encerra riscos.

Recapitulando, após deixar o Brasil fora de seu radar no começo do segundo mandato na Casa Branca, Trump irrompeu no cenário local às vésperas do julgamento que levou seu aliado Jair Bolsonaro (PL) à cadeia por golpismo.

O caso Master e a encruzilhada do STF, por Juliana Diniz

O Povo (CE)

A autoridade de uma instituição republicana é mais frágil do que se pensa. Depende menos da força da lei do que do reconhecimento público da dignidade, da relevância democrática e da integridade da atuação institucional. O Supremo Tribunal Federal tem nos dado um exemplo muito melancólico do efeito devastador, para uma democracia, da erosão da autoridade de uma suprema corte. Refém de seus próprios equívocos, o tribunal vive uma encruzilhada.

Uma indigestão institucional, por Murillo de Aragão

Veja

Na espera do imponderável, o Brasil fica em suspenso

Não há dúvida de que o sistema institucional brasileiro está sofrendo de oclusão, pois não consegue dar curso digestivo às tensões, episódios e escândalos nos últimos tempos. Vale relembrar a incrível sequência de eventos desde o mensalão, passando pela Lava-Jato, o impeachment de Dilma Rousseff, a eleição de Jair Bolsonaro, o interminável “inquérito do fim do mundo”, os atos golpistas do 8 de Janeiro, a judicialização da política promovida por partidos e governo e o ativismo, algumas vezes desenfreado, do próprio Judiciário. Mais adiante tivemos os escândalos do INSS e do Banco Master. Não é fácil para nenhum sistema político do mundo, ainda menos para a nossa capenga democracia, que claudica a cada episódio mais grave.

Os fins e os meios, por Pedro Serrano

CartaCapital

As quebras de sigilo não podem servir de pretexto para a destruição de imagem

E interessante observar como a sociedade do espetáculo evidencia uma de suas facetas mais perversas em episódios de extrema complexidade e que exigem rigor legal e ético em sua condução. A espetacularização tem dado as caras ao longo das investigações do caso Master, marcadas pelo vazamento de informações sigilosas, de forma criminosa, por agentes públicos.

Mais do mesmo, por Leonardo Avritzer e Rômulo Paes de Sousa

CartaCapital

Os vazamentos reabrem a lógica lavajatista e tensionam o cenário eleitoral

Os intensos vazamentos referentes aos escândalos do Banco Master e do INSS têm produzido notícias capazes de modificar a conjuntura política do País. Em 4 de março, foi divulgado pelo site Metrópoles o sigilo bancário do filho do presidente Lula, solicitado pela CPMI do INSS. No dia seguinte, também saíram no mesmo Metrópoles e no jornal O Globo o registro de supostas trocas de mensagens entre o ministro Alexandre de Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro.

Lula: líder, mas sem paz, por Renato Meirelles

CartaCapital

A força eleitoral do presidente convive com um desejo relevante de mudança

pesquisa Meio/Ideia de março traz um retrato incômodo para quem torce por respostas simples. Lula lidera, segue competitivo e continua como o nome mais forte do campo governista. Mas isso não significa que tenha convencido o País de que sua permanência é a escolha natural. Ao contrário. A força eleitoral do presidente convive com um desejo relevante de mudança. E exatamente dessa tensão nasce o paradoxo do momento.

Fracking de liquidez, por Luiz Gonzaga Belluzzo e Manfred Back

CartaCapital

Em meio a crédito privado duvidoso, bolha de IA e medo crescente, fundos restringem resgates nos EUA

Uncle Sam tem seus dias de desconfiança no crédito privado, lá como cá.

Uma decisão da Black­Rock suscitou nossa ousadia de recorrer à analogia entre o ­fracking e a química dos mercados financeiros. O fracking quebra a rocha para liberar gás de xisto. Os três ingredientes-chave – água, areia e produtos químicos – são misturados e bombeados para o poço sob pressão extremamente alta, por meio de grandes motores a diesel.

O quintal sob vigilância, por Jamil Chade

CartaCapital

Trump dá curso à ofensiva pela militarização da América Latina

O governo de Donald Trump deu os primeiros passos para implementar uma estratégia deliberada de militarização do continente, incentivado pelo êxito do sequestro de ­Nicolás Maduro e o controle do governo venezuelano. O anúncio da ofensiva regional não poderia ter ocorrido em outro lugar a não ser na Flórida, bunker da extrema-direita latino-americana e foco da busca dos republicanos pelo voto latino.

A política como vocação, por Marcus Pestana

Volta e meia, há uma forte onda antipolítica que ameaça contaminar a alma da sociedade brasileira. Tivemos as decepções no afastamento de Collor e Dilma e as manifestações de rua difusas de insatisfação em 2013. A eleição disruptiva de 2018, fruto das revelações da Lava Jato e da criminalização da política, patrocinou um vendaval de contestação, com a ascensão de outsiders que encarnaram o repúdio ao que foi apelidado de “velha política”. E aí, uma nova safra de frustrações veio ao se constatar que o novo não era tão novo e que tudo que é novo não necessariamente é bom, unicamente por ser novo.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Já vimos esse filme

Por CartaCapital

Como de hábito, a repulsa à corrupção serve a interesses eleitorais e ideológicos

No teatro da indignação calculada, há quem sinta saudades do velho bordão do apresentador Boris Casoy: “É preciso passar o Brasil a limpo”. Nos jornais, sites, tevês e redes sociais, os candidatos a porta-vozes do udenismo continuam, no entanto, disponíveis. Um velho guerrilheiro contra a ditadura propôs o fechamento do Supremo Tribunal Federal. O colunista imortal acordou as vivandeiras dos quartéis. Por ele o País foi informado da “inquietação” nas Forças Armadas, desmoralizadas pela omissão ou conivência com a tentativa de golpe liderada por Jair Bolsonaro e Walter Braga Netto, com o que consideram o êxito da impunidade na Corte. É um truque enfadonho, de tão manjado, as notícias apócrifas na mídia a respeito de um suposto incômodo dos generais em momentos de crise do poder civil, sejam reais ou fabricadas. Quanto ao mal-estar nas casernas e nos clubes militares, recomendam-se gotas de Luftal.