sábado, 23 de maio de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais /Opiniões

O filme e a caneta

Por Revista Será?

O tabuleiro eleitoral do Brasil registrou uma importante inflexão nos últimos dias pelo efeito combinado do filme de Bolsonaro e da caneta do presidente da República, combinação que favorece a reeleição de Lula. Se, até outubro, não houver nenhuma grande surpresa no jogo eleitoral, o Presidente Lula da Silva tem tudo para ser conduzido ao seu quarto mandato. A candidatura de Flávio Bolsonaro tende a afundar depois da lambança que evidenciou a sua intimidade com o tóxico banqueiro Daniel Vorcaro, com a visita em prisão domiciliar e o pedido de dinheiro para financiar um filme que contaria a vida política do seu pai. Curioso que depois de toda incompetência de Jair Bolsonaro e do seu desastroso governo, o que vai desmontar o projeto de poder da família de extrema-direita é um filme que conta a sua lamentável biografia. E que estava sendo produzido para constituir uma peça de propaganda eleitoral de Flávio.

Master fere, mas não mata campanha do senador, por Vera Magalhães

O Globo

Revelação de pedido de dinheiro a Daniel Vorcaro não inviabiliza candidatura de filho de Bolsonaro, e presidente abre frente modesta, mas polarização segue intocada

A revelação de que Flávio Bolsonaro pediu R$ 134 milhões a Daniel Vorcaro para financiar o filme sobre seu pai feriu a pré-candidatura do senador do PL à Presidência, mas, passada uma semana, o estrago não é suficiente para inviabilizá-lo e obrigar o bolsonarismo a buscar um novo nome. Esta é a principal conclusão que se pode extrair da pesquisa extraordinária que o Datafolha realizou, menos de uma semana depois da divulgação de sua rodada regular, agora depois de o caso já ser amplamente conhecido.

O instituto voltou a campo na quarta e na quinta-feiras e, no intervalo de menos de uma semana, captou uma discreta movimentação nos cenários de primeiro e segundo turnos que têm Lula e Flávio Bolsonaro. O presidente oscilou de 38% para 40% na simulação de primeiro turno, enquanto Flávio caiu de 35% para 31%.

Bolsonarismo vivo, por Flávia Oliveira

O Globo

Jair escolheu o filho e vai com ele, na vitória e na derrota

A relação — pessoal e financeira — do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro cobrou seu preço na pesquisa Datafolha pós-revelação do áudio e das mensagens pelo Intercept Brasil. À primeira vista, quem se beneficiou com o episódio foi o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), na briga por um quarto mandato. De uma semana para outra, a distância entre o incumbente e o filho içado a candidato pelo pai condenado pela trama golpista aumentou de 3 para 9 pontos percentuais na simulação de primeiro turno. O bolsonarista perdeu competitividade, não posição. A pouco mais de dois meses da formalização das chapas, não parece haver fato capaz de tirar o Zero Um da disputa.

Cala-boca renasceu, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

O Direito xandônico, perversor do verbo “atacar”, molda os costumes, tornado normal entre nós o recurso à censura prévia. O recurso à censura prévia, com seu custo depredador sobre a democracia, em nome da saúde da democracia. Censura prévia pelo bem, para sacrifício do ambiente garantidor das liberdades. Censura prévia do bem, claro. É o que aliados de Lula pedem formalmente ao TSE contra o filme-exaltação a Jair Bolsonaro: que não seja exibido antes das eleições, para proteger a pureza do nosso voto contra o perigo de a obra nos corromper – neste país em que milhões de pessoas votam sob o fuzil do crime organizado.

O mundo está se abrasileirando, por Fabio Gallo

O Estado de S. Paulo

O mundo rico começa a descobrir que estabilidade monetária não é algo permanente

O mundo rico passou décadas ensinando estabilidade monetária ao resto do planeta. Entre os anos 1990 e 2020 prevaleceu um ambiente relativamente estável – a chamada Grande Moderação – sem eliminar crises ou recessões. O que mudou naquele período foi a forma como os mercados passaram a reagir aos choques: após cada crise, inflação e juros tendiam a cair, enquanto bancos centrais estabilizavam o sistema com liquidez abundante. A crise de 2008 reforçou essa lógica. O problema atual é diferente.

O grande Rio de Janeiro, por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

Com suas trapalhadas e suas amizades escandalosas, Flávio Bolsonaro sugere que o Brasil se transforme no grande Rio de Janeiro, onde o poder público foi envolvido pela corrupção

Chico Buarque disse, com sua boa música e melhor poesia, que o Brasil poderia se transformar em imenso Portugal. A brincadeira poético-musical era elogiosa, porque a pátria mãe, que durante muitos anos foi vista como um país no norte da África, foi aceita pela União Europeia e se transformou. Passou a contar com bons hotéis, melhores restaurantes e grandes centros de compras. O país deixou de ser o local apenas para comer bacalhau e passou a oferecer múltiplas oportunidades. Os brasileiros fazem a festa por lá.

O carma político de Ciro Gomes, por Juliana Diniz*

O Povo (CE)

É provável que Flávio Bolsonaro não suba no palanque cearense ao lado de Ciro. Também se evitará a qualquer custo a imagem ou o nome do presidenciável no material de campanha. Em um estado simpático a Lula, não convém mostrar muita amizade ou aliança com um aliado muito enrolado, hoje incômodo a seus aliados

Ciro Gomes foi apresentado como pré-candidato ao governo do estado nas eleições deste ano, pondo fim a qualquer especulação sobre eventual candidatura ã presidência. O timing do anúncio não poderia ser mais infeliz, ocorrendo a dias da divulgação dos áudios em que Flávio Bolsonaro pede dinheiro ao banqueiro preso Daniel Vorcaro. A toxidade da aliança é notória: como candidato do PL no estado, é hoje impossível para Ciro se dissociar do bolsonarismo e do filho do ex-presidente.

Datafolha: Lula abre vantagem sobre Flávio após 'Dark Horse', por Igor Gielow

Folha de S. Paulo

Distância no 1º turno sobe de 3 para 9 pontos; no 2º turno, petista agora supera senador por 47 a 43

Nome cogitado na crise, Michelle Bolsonaro tem desempenho semelhante ao do senador no tira-teima

Na primeira pesquisa do Datafolha feita integralmente após a eclosão do caso "Dark Horse" na campanha de Flávio Bolsonaro, o presidente Lula (PT) ampliou de 3 para 9 pontos a vantagem sobre o senador pelo PL do Rio na simulação de primeiro turno, marcando 40% ante 31% do rival.

Há uma semana, Lula estava em empate técnico dentro da margem de erro de dois pontos percentuais do levantamento: 38% a 35%. No cenário do segundo turno, a igualdade em 45% virou agora uma vantagem de 47% a 43% para o petista.

Na semana passada, o instituto havia divulgado um levantamento cuja maioria das entrevistas havia sido feita antes da revelação de que Flávio havia pedido dinheiro para o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, sob a justificativa de financiar um filme sobre a vida de seu pai, o ex-presidente condenado por tentativa de golpe Jair Bolsonaro.

Flávio, entre a polícia e a política, por Demétrio Magnoli

Folha de S. Paulo

Colapso da narrativa anticorrupção é a ameaça mais grave à candidatura

Com Vorcaro como fonte provável das revelações, corrida eleitoral se abre para o inesperado

Desde a divulgação de seus pactos com Vorcaro, Flávio Bolsonaro enfrenta um duplo dilema. Numa ponta, a investigação policial e judicial; na outra, o colapso de uma narrativa política. No crítico estado atual do STF, o segundo representa ameaça mais grave.

Provocada, a PGR autorizou a PF a seguir o dinheiro. Tudo ali é suspeito: os valores multimilionários associados ao filme; o papel dos dois irmãos na gerência da transação; o trajeto alegado da grana, via um fundo gerido pelo advogado de Eduardo Bolsonaro; o suposto sigilo contratual absoluto sobre a participação do Master no patrocínio da obra. Crimes possíveis: lavagem de recursos do Master e financiamento da aventura americana do 03.

Datafolha dá respiro para Lula, mas sem salto alto, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Resultado de pesquisa após caso 'Dark Horse' não legitima clima de já ganhou

Desafio do governo é fazer medidas econômicas acontecerem a tempo de o eleitor colocar o voto na urna

O resultado da primeira pesquisa do Datafolha feita integralmente após a eclosão do caso "Dark Horse" mostrou vantagem para o presidente Lula frente a Flávio Bolsonaro, mas não legitima o clima de já ganhou que circulava nos bastidores dos gabinetes de aliados do governo em Brasília nesta semana.

A candidatura de Flávio desidratou. O deslocamento na pesquisa foi significativo para a campanha.

Como o Jair de 'Dark Horse', Flávio Bolsonaro está à espera de um milagre, por Angela Alonso

Folha de S. Paulo

Filme financiado por Vorcaro propagandeia liberalismo radical, embaralha fatos e ficções e esquece o filho 04

Manifestações pró-Mito são a única referência ao 8 de Janeiro; não espere oração para pneu nem patriota do caminhão

Flávio B. deve estar pedindo misericórdia aos céus. Depois dos chocolates, malogrou no cinema e periclita na política. O perrengue da vez veio de Raleigh, na Carolina do Norte, a terra escravista da qual o roteiro de "Dark Horse" é assinado.

O título alude àqueles tempos por repetir o de livro sobre o reformista James Garfield. Levado à Presidência graças ao racha no Partido Republicano (que fez a abolição) em 1881, levou bala no primeiro ano de governo. Seu assassinato virou série da Netflix. Já a facada em Bolsonaro deu filme. A semelhança acaba aí. Nos dois casos, há um azarão, mas o segundo faz também jus ao apelido juvenil: Cavalão.

Encurralado, filho 01 entra no modo choradeira, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Sem conseguir justificar sua intimidade com Vorcaro, Flávio quer censurar pesquisas

Abacaxi difícil de descascar, caso Dark Horse faz cúpula do PL temer novas revelações

Em abril, quando nem ele acreditava que sua aventura presidencial estivesse sendo levada a sério e se tornasse competitiva em tão pouco tempo, o filho 01 armou com o dono do Paraná Pesquisas para que incluísse o nome de sua mãe, Rogéria, numa sondagem de intenções de voto para o Senado no Rio.

A ideia era dar um chute no ex-governador Cláudio Castro, que, caído em desgraça, não tinha mais serventia para o clã. A ex-mulher de Jair, de quem ninguém ouvia falar desde que tentou sem sucesso se eleger deputada estadual em 2022, surgiu tecnicamente empatada com a petista Benedita da Silva. Um milagre de ressuscitação.

Ruim com Ele, Pior sem Ele, por Orlando Thomé Cordeiro*

Revista Será?

No dia 13 de maio, o site The Intercept tornou pública a relação amistosa e de negócios entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro. Os diálogos entre os dois caíram como um míssil de proporções nucleares sobre a pré-candidatura do filho 01. A coordenação de sua pré-campanha, bem como seus principais aliados, foi pega de surpresa. E cada explicação era seguida da divulgação de novos elementos que a contradiziam, reforçando o clima de desconfiança. Do outro lado, o governo e seus apoiadores, por óbvio, demonstravam contentamento, e começaram a surgir avaliações de que seria o fim da linha para o senador, com a expectativa de uma queda vertiginosa nas primeiras pesquisas que captassem a reação do eleitorado ao fato.

Eletrocardiograma eleitoral, por Murillo de Aragão

Revista Veja

As falhas mudam rapidamente o comportamento do eleitor

As eleições presidenciais brasileiras se assemelham a um eletrocardiograma alterado de um paciente cardíaco. Com súbitas variações inesperadas e transformações no comportamento do eleitor em intervalos curtos. Embora Lula e Flávio Bolsonaro mantenham competição equilibrada, a estabilidade é praticamente ficção estatística. Qualquer falha muda o ritmo da disputa que está submetida a vazamentos, delações e desdobramentos dos escândalos sob investigação.

Nosso outro 13 de Maio, por Cristovam Buarque

Revista Veja

O fim da escravidão não veio com o direito de acesso à educação

Na semana passada, em 13 de maio, a sociedade brasileira lembrou o único gesto revolucionário de sua história, com a Lei Áurea, de 1888: a desapropriação sem indenização dos donos de 800000 seres humanos. Mesmo assim, foi uma revolução incompleta. As algemas foram abertas, mas não se ofereceu a ex-escravizados um caminho. Não lhes coube acesso à educação. Foram soltos, mas não libertados. O abolicionismo foi vitorioso em seu propósito de aprovar uma norma com um único artigo que declarava “extinto o trabalho servil em todo o território nacional”. Contudo, nada se apresentou na direção de um sistema nacional de educação para aquelas pessoas.

Do próprio veneno, por Jamil Chade

CartaCapital

Apoiadores que ousaram criticar Flávio Bolsonaro são triturados pela máquina de ódio da extrema-direita

Ninguém nasce odiando. O ódio é ensinado. A extrema-direita foi além e colocou o ódio como um instrumento político, como arma de mobilização.

Hoje, com as redes sociais, milícias digitais assassinam reputações, assediam e transformam a vida de jornalistas, acadêmicos, ativistas ou qualquer um que represente uma ameaça ao pensamento reacionário.

Nos últimos dias, foi justamente, porém, a extrema-direita que descobriu a dimensão do seu próprio veneno. Em postagens, personagens ultraconservadores e que por anos têm promovido ideias golpistas e ataques contra a democracia foram alvos de ofensas abomináveis. A operação não veio da oposição. Quem liderou a tentativa de intimidação foi justamente uma ala da extrema-direita brasileira inconformada com o posicionamento dos ex-aliados e vozes que se apresentavam como as grandes referências do movimento autoritário. O motivo: terem ousado dizer o óbvio sobre Flávio Bolsonaro e suas mentiras cinematográficas.

Democracia fiscal, por Eliane Barbosa da Conceição*

CartaCapital

O sistema tributário precisa combater as desigualdades

O debate tributário brasileiro costuma ser apresentado como uma discussão técnica sobre arrecadação, alíquotas ou equilíbrio fiscal. Mas a tributação é, antes de tudo, uma disputa sobre o tipo de país que se deseja construir. O sistema tributário não apenas reflete desigualdades, ele contribuiu para produzi-las, aprofundá-las ou enfrentá-las. Como sintetizaram Liam Murphy­ e Thomas Nagel, mercado, propriedade e riqueza não existem antes do Estado, mas dependem de instituições jurídicas e decisões políticas que tornam possível a sua própria existência. A tributação, portanto, não é mera intervenção externa sobre a economia, ela integra a própria organização social e define quais atividades econômicas serão incentivadas, quais grupos financiarão o Estado e quais interesses serão favorecidos pelas escolhas públicas de tributação e gasto.

Prêmio ao ócio, por Antonio Corrêa de Lacerda*

CartaCapital

As taxas de juro são um dos maiores entraves ao desenvolvimento

O Brasil, assim como os demais países, enfrenta enormes desafios advindos do quadro internacional complexo e incerto, os quais trataremos na sequência. A este fator se acrescenta a inconstância de políticas de longo prazo. Os avanços obtidos no período 2003–2014, governos Lula I e II, e Dilma I e II, o último interrompido, foram descontinuados no período seguinte de Temer e Bolsonaro. O governo Lula III tem desenvolvido importante esforço de reconstituição das instituições democráticas e a retomada do papel do Estado, das políticas públicas para o desenvolvimento.

Delirius economicus, por Luiz Gonzaga Belluzzo e Manfred Back

CartaCapital

Segundo essa escola, o Estado entope as artérias com o gasto e provoca calote, inflação e miséria

Adam Smith, grande filósofo escocês, cunhou a expressão Homo ­economicus, uma herança genética presente em todos os seres humanos: nascem com noções básicas de economia no seu DNA.

Doctor Smith também lançou duas expressões bastante conhecidas e talvez ainda hoje mal compreendidas: o egoísmo aparente, segundo o qual, se cada um buscar o melhor para si, todos ganham, ou seja, uma sociedade mais rica. A outra seria a mão invisível, que faria o mercado funcionar. Nada a ver com a noção de equilíbrio, mas supõe que consumidores e produtores se autoajustem dinamicamente. É importante sublinhar a palavra “dinamicamente” para escapar do enclausuramento da economia capitalista nas masmorras do equilíbrio.

Corrupção de volta à ribalta, por Marcus Pestana

Volta e meia, no Brasil, a corrupção reaparece em cena como tema prioritário. Bastaram vir à tona os escândalos do INSS e do Banco Master, para o assunto saltar de 4º. lugar na lista de maior preocupação dos brasileiros, atrás de violência, problemas sociais e economia, em maio de 2025, nos números da Genial/Quaest, com 13%, para o segundo lugar, atrás apenas da violência, agora em maio de 2026, com 18%.