quinta-feira, 11 de junho de 2026

A Cidade Limpa não está à venda, por José Serra

O Estado de S. Paulo

A lei é patrimônio dos paulistanos, é resultado de uma escolha coletiva: o espaço público não seria mais suporte publicitário a serviço do capital privado

Em março de 2006, assinei a Lei n.º 14.223, como prefeito de São Paulo. Muitos disseram que ela não sobreviveria à pressão do mercado publicitário, às liminares que viriam, ao lobby das agências e das empresas de mídia exterior. Sobreviveu. Sobreviveu porque era e é uma lei justa, tecnicamente bem construída e, acima de tudo, profundamente enraizada no interesse coletivo dos paulistanos.

Por isso, vejo com indignação o que a atual gestão municipal tentou fazer em março deste ano: usar o artigo 50 da própria Lei Cidade Limpa, que prevê termos de cooperação para melhorias urbanas, como cavalo de Troia para reintroduzir, pela porta dos fundos, exatamente o que a norma foi criada para eliminar. Refiro-me ao projeto Boulevard São Paulo – Avenida São João, que previa a instalação de painéis de LED de até 1 mil m² nas fachadas de edifícios históricos no cruzamento das Avenidas Ipiranga e São João.

O partido clandestino da extrema direita, por Eugênio Bucci

O Estado de S. Paulo

Acima de tudo e acima de todos, é um fenômeno de organização profissional: um partido amarrado por uma disciplina férrea

Acontece nas famílias mais fofas. Na sua também, pode admitir. Aos poucos, meio assim do nada, vai aparecendo lá um sobrinho amuado, uma tia falastrona ou um primo de segundo grau com sintomas esquisitos. Primeiro, discretos. Depois, desinibidos. Até que, num dia aleatório, numa terça-feira à tarde, num feriado modorrento ou numa noite de domingo, o quadro fica patente e escarrapachado. O cidadão ou a cidadã assume de vez o seu bolsonarismo extremofrênico. Aí, é tarde demais.

Nos primeiros surtos, há quem tente argumentar. E o desmazelo com a covid-19? O familiar em questão desconversa. E o contrabando de joias? Fake news. E o apoio aos torturadores? Olhos baços se desviam na direção do teto. Só resta desistir. Não tem cura. Por favor, não vá falar do Banco Master. É perigoso, pode gerar reações inamistosas. Na dúvida, não arrisque. E nunca, em hipótese alguma, fale disso na frente das crianças. Exorcismo não funciona.

Falta rumo, por William Waack

O Estado de S. Paulo

Não é nada confortável a situação neste instante dos grupos políticos que se articulam para impedir a reeleição de Lula. Ele é hoje um político em situação de rejeição altíssima, porém similar à do nome do seu principal adversário.

Em boa parte, isso se deve ao hábito de “fazer política” perseguindo o ponteiro das pesquisas de intenção de voto. Claro que elas são relevantes como ferramenta tática, mas trata-se aqui de problemas estratégicos.

A pré-candidatura de Flávio Bolsonaro consolidou-se em função de uma série de pesquisas, apesar de as vulnerabilidades dele serem bem conhecidas ainda antes dos áudios com Vorcaro. O que elas evidenciavam não era, necessariamente, um apoio ao nome, mas um desejo enorme de acabar com décadas de lulopetismo no poder.

Como o cenário mudou no TSE, por Carolina Brígido

O Estado de S. Paulo

Ministros do Supremo e costura de bastidores mudaram tendência sobre ação de Flávio contra pesquisa

Na segunda-feira, logo após a decisão de Kassio Nunes Marques de suspender a divulgação da pesquisa AtlasIntel que mostrou Flávio Bolsonaro (PL) em queda, o cenário nos bastidores do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) era de vitória do presidente. A maioria dos sete ministros indicava que confirmaria a liminar na votação em plenário.

Em pouco mais de 24 horas, uma série de fatores provocou mudança no quadro. O primeiro deles foi a repercussão ruim da decisão na imprensa. Ministros do TSE que antes não haviam se atentado para a gravidade do precedente passaram a encarar a liminar não como um caso específico, mas um parâmetro para nortear toda a Justiça Eleitoral no tratamento de pesquisas durante as campanhas deste ano.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

PEC do Trabalho Flexível merece atenção do Senado

Por O Globo

Trata-se de alternativa sensata à proposta aprovada na Câmara em meio a preconceito contra empresários

O debate na Câmara sobre o fim da escala de seis dias de trabalho por um de descanso, ou 6x1, não foi contaminado apenas por interesses eleitoreiros, mas também pelo preconceito injustificável contra os empresários. Nos discursos demagógicos que antecederam a aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC), a escala 6x1 foi comparada à escravidão, enquanto os empreendedores eram tomados por exploradores insensíveis, condenados moralmente apenas por correr o risco de tocar um negócio. É inacreditável que, num país onde vigoram livre mercado e livre-iniciativa, prosperem no Parlamento tais comparações estapafúrdias, demonizando quem gera emprego e responde pelo funcionamento da economia.

O que falta no debate eleitoral sobre segurança pública, por Joaquin Gonzalez-Aleman*

A quatro meses das eleições, é urgente que candidatos e candidatas assumam um compromisso público para não perder mais nenhuma criança para a violência

Um paradoxo marca as eleições brasileiras: crianças estão em todo lugar, em slogans, imagens e discursos, mas nem sempre aparecem efetivamente na disputa eleitoral. Isso é especialmente verdade no debate sobre segurança pública, que é hoje a principal preocupação dos eleitores. Por quê?

A violência preocupa os brasileiros mais do que a corrupção, a saúde ou a economia, segundo pesquisa recente da Genial/Quaest. E não há dúvida de que meninos e meninas são os mais impactados por essa insegurança.

Contra a redução da maioridade penal, por Thiago Amparo

Folha de S. Paulo

Facções criminosas serão as maiores beneficiadas com a medida

Hoje, 11 mil adolescentes infratores já sofrem privação de liberdade

Qual a melhor alternativa para um adolescente de 16 anos que roubou um celular na rua? Alternativa 1: ser preso para crescer no crime nas prisões brasileiras, onde a taxa de reincidência pode chegar a 50%. Alternativa 2: sofrer internação em unidades socioeducativas com reincidência de menos da metade das prisões.

Nesta quarta (10), a CCJ do Congresso mostrou preferir a alternativa 1: fornecer mão de obra para o crime em vez de investigar infrações graves e favorecer a reabilitação de adolescentes.

Direita subestimou trabalhador sobre escala 6x1, Thaísa Oliveira

Folha de S. Paulo

Talvez por prepotência, bolsonaristas acharam que sobreviveriam às redes sociais defendendo o pagamento por hora

Basta conversar com um caixa de supermercado para entender por que só 22 deputados votaram contra redução da jornada

Sensível ao termômetro das redes sociais, o senador Cleitinho (Republicanos-MG) percebeu rapidamente a cilada que é a PEC que autoriza a contratação por hora trabalhada, apresentada pelos bolsonaristas em reação ao fim da escala 6x1.

Correu para o plenário para dizer que sempre defendeu o fim da "maldita" escala e continuaria do lado do trabalhador. Cleitinho admitiu estar apanhando —o que os outros 40 signatários da PEC alternativa ainda hesitam em fazer.

Como as encrencas políticas dificultam o fim da 6x1, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Comando do Senado empurra votação com a barriga, no mínimo para prejudicar Lula 4

Congresso está uma zorra, cheio de pautas-bomba; lobby e barganha baixa estão grandes

No calendário político do governo, o fim da escala 6x1 deveria passar no Senado até 17 de julho —no dia 18, começa o recesso parlamentar, férias oficiais que vão até o início de agosto. A aprovação da redução da jornada máxima de trabalho para 42 horas (depois, 40 horas) e das duas folgas por semana já seria em si vitória da causa governista. Se o calendário oficial der certo, a mudança poderia ter efeito prático ainda antes do primeiro turno da eleição, que será no dia 4 de outubro. Seria vitória oficial com volta olímpica. Seria. O caldo anda azedo.

Esquerda está presa na armadilha da judicialização, por Maria Hermínia Tavares*

Folha de S. Paulo

Recurso à Justiça é estratégia defensiva que traz vantagens e limitações

Medida pode aumentar perigosamente o poder dos 11 magistrados do STF

A Parada LGBT+ é hoje o único movimento progressista que mobiliza e leva multidões de brasileiros às ruas. Talvez por ser singular mistura de alegria de festa com afirmação bem-humorada de identidade e combativo engajamento por direitos.

Outros movimentos mais tradicionais do campo da esquerda —por melhorias urbanas; pelo acesso a moradia e à saúde; contra a discriminação racial ou de gênero; ou por direitos trabalhistas, campo de atuação sindical— certamente continuam aí. Há mais de uma década, porém, disputam as ruas e praças com a extrema direita —quase sempre em desvantagem. O mesmo se pode dizer do PT, cuja militância se confundia em boa medida com ativistas sindicais e de organizações populares. E mais ainda das agremiações partidárias que orbitam em torno da legenda de Lula.

Mão parada no ar, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Às vezes, por educação ou reflexo, apertamos a mão de pessoas que desprezamos

No fim do ano, tive o prazer de recusar a minha ao então governador Cláudio Castro

Num evento de fim de ano aqui no Rio, alguém me alertou para uma pessoa que acabara de adentrar o recinto: o então governador Cláudio Castro, institucionalmente convidado. Vi quando ele cruzou o salão, parando de mesa em mesa e oferecendo sua mão aos participantes de cada grupo. Todos lhe retribuíram, não sei se por educação ou reflexo. De repente, Castro —sem parentesco com o colunista— estava diante de minha mesa.

A inovação além das metrópoles, por Paulo Rocha*

Em ano eleitoral, o Brasil volta a discutir crescimento, emprego e produtividade. Fala-se também em reduzir desigualdades regionais. Mas raramente se pergunta onde o país está construindo sua economia do futuro.

Quando o tema é inovação, o debate público se concentra nos mesmos endereços: Faria Lima, Paulista, grandes polos do Sudeste e do Sul. Como se a tecnologia brasileira tivesse território limitado.

FIFA, una mafia que garantiza el autoritarismo de Trump, por Fernando de la Cuadra

El Clarin (Chile)

Está comenzando la Copa del Mundo 2026 y la fiesta del futbol deja una vez más un sabor amargo entre los amantes de este deporte. Por todo lo visto antes de la inauguración oficial, la actual Copa del Mundo se destaca por la secuencia de barbaridades cometidas en contra de los derechos fundamentales de sus participantes, dentro y fuera de la cancha.

Por cierto, la FIFA cada vez se parece más a un grupo de mafiosos y corruptos que solo se interesan por apropiarse de los millonarios recursos que genera el futbol, no importándole las condiciones restrictivas a la democracia que imponen los países anfitriones. La anterior Copa de 2022 fue realizada en Catar, país administrado por una monarquía absolutista e teocrática que desde mediados del siglo XIX se encuentra bajo el poder discrecional de una única familia, la dinastía Al Thani.