sábado, 17 de janeiro de 2026

Opinião do dia - Karl Marx* - Democracia

“Dignidade pessoal do homem, a liberdade, seria necessário primeiramente despertá-la no peito desses homens. Somente esse sentimento que, com os gregos, desaparece desse mundo, e que, com o cristianismo, se evapora no azul do céu pode de novo fazer da sociedade uma comunidade dos homens, para atingir seus fins mais elevados: um Estado democrático.”

*Karl Marx (1818-1883), Euvres, III, Philosophie, p. 383, citado em “A democracia contra o Estado”, p.54. Editora UFMG, 1998.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Transferência de Bolsonaro foi uma concessão sensata

Por O Globo

É justificável oferecer-lhe condições melhores na cadeia, sobretudo levando em conta seu estado de saúde

Foi sensata a transferência do ex-presidente Jair Bolsonaro da Superintendência da Polícia Federal (PF) para a instalação do quartel da Polícia Militar do Distrito Federal conhecida como Papudinha, onde ficará em condições melhores. A mudança foi determinada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. Advogados e a família defendiam prisão domiciliar, alegando problemas de saúde e más condições da prisão. Mas na PF ele já recebia tratamento digno e tinha acompanhamento médico em tempo integral, como acentuou Moraes em sua decisão. A transferência foi uma concessão a Bolsonaro. Voltar à prisão domiciliar não se justificaria, pois ele tentou romper a tornozeleira quando estava detido em casa.

Lula sai na frente do acordo entre Mercosul e EU

Por Victor Correia, Francisco Artur de Lima e Fabio Grecchi / Correio Braziliense

Presidente se reúne com Ursula von der Leyen, no Rio de Janeiro, e antecipa assinatura do pacto entre blocos

Apesar de o acordo de livre comércio entre Mercosul e a União Europeia ser oficialmente assinado hoje, em Assunção, Paraguai, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva antecipou-se à celebração e assumiu o protagonismo ao receber, ontem, a presidente da Comissão Europeia (CE), Ursula von der Leyen, para uma reunião no Rio de Janeiro. O encontro entre eles, no Palácio do Itamaraty, foi interpretado como uma forma de destacar a preponderância do Brasil nas negociações. Exceto no governo de Jair Bolsonaro, em 25 anos de negociações, os maiores esforços para que o acerto entre os dois blocos saísse foram nas presidências de Lula e de Dilma Rousseff.

O encontro com a presidente da CE embute, também, uma insatisfação. O Paraguai, que agora preside o Mercosul, havia convocado para a celebração da assinatura apenas os ministros de Relações Exteriores dos países do bloco, mas mudou os planos na última hora para incluir os presidentes, o que desagradou Lula — que decidiu não comparecer ao evento de hoje. O Brasil será representado pelo chanceler Mauro Vieira, mas os demais chefes de Estado estarão no evento: Santiago Peña (Paraguai), Javier Milei (Argentina), Yamandú Orsi (Uruguai) e Rodrigo Paz (Bolívia) confirmaram participação.

O fim da inocência. Por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

Trump tirou a fantasia. Ele não defende o livre comércio. O mundo retornou ao mercantilismo brutal e objetivo. O negócio é grana, ganhar dinheiro, fazer caixa em dólares. Todo resto é fantasia

A espetacular ascensão de Donald Trump à condição de dono do mundo modifica o entendimento de muitos observadores e coloca alguns especialistas na embaraçosa condição de aprendizes diante de tanta novidade. O presidente dos Estados Unidos não hesita em utilizar a força para sequestrar um presidente da República, anunciar a incorporação da Groenlândia, como Hitler fez com a Áustria nos anos 1930, além de ameaçar bombardear aliados que não façam comércio com seu país. Prática curiosa, semelhante a que os portugueses utilizaram contra cidades da Índia no século das grandes navegações.

A política externa do império: projeção e produto de sua história. Por Roberto Amaral *

Nada do que estamos assistindo é estranho à história da formação da sociedade estadunidense, marcada pela violência da colonização, que é a semente de suas relações com o mundo, dos tempos ingleses e espanhóis dos primeiros aventureiros até aqui: animus de beligerância à beira da barbárie sem descanso, que, aos olhos da humanidade de hoje, apenas se aprofunda, pragmaticamente desapartada de limites éticos ou de cuidados semânticos, aposentado o vencido cinismo liberal do discurso “politicamente correto”.

O big stick permanece a postos; variável é tão-só a fala.

Urgência sob o sol. Flávia Oliveira

O Globo

A preocupação com moradores em situação de rua é imensa, bem como com trabalhadores de ofício ao ar livre

Enquanto Brasília, a partir do Legislativo, do Supremo Tribunal Federal (STF), do Tribunal de Contas da União (TCU), dá sinais claros do desejo de manter na sombra o escândalo do Banco Master — que o próprio ministro da Fazenda, Fernando Haddad, disse que pode ser “a maior fraude bancária da História” —, parte do país derrete sob o sol. As ondas de calor extremo no verão que nem completou um mês já causam impacto no sistema de saúde, no abastecimento de água e energia elétrica, no mercado de trabalho, na educação e no meio ambiente. Brasil afora, Rio de Janeiro em particular, são perceptíveis os efeitos das mudanças climáticas: vendavais no Sul, chuvarada em São Paulo, calor inclemente na metrópole carioca.

O mal que a Ideologia faz. Thaís Oyama

O Globo

Não dá para falar de esporte sem falar em desempenho físico, e é por isso que o sexo biológico importa na discussão

Em 2021, na Olimpíada de Tóquio, a halterofilista neozelandesa Laurel Hubbard acabou sem medalhas, mas recebeu honras de estrela por ser a primeira mulher trans a participar do torneio. Na entrevista coletiva com as levantadoras de peso que subiram ao pódio — a chinesa Li Wenwen, medalha de ouro; a britânica Emily Campbell, prata; e a americana Sarah Robles, bronze —, um repórter americano pediu-lhes para dizer como se sentiam naquela “noite histórica” em que uma atleta trans estreava numa Olimpíada, e na modalidade delas. Nenhuma das três abriu a boca. Nove segundos de silêncio depois, Sarah tomou um gole de água, pegou o microfone e disse “Não, obrigada”. A frase viralizou nas redes sociais como um meme aplicável a situações em que se dá uma resposta polida para evitar o preço de proferir uma sincera.

O agente secreto. Por Eduardo Affonso

O Globo

Não é possível um governo que condenou com veemência o ataque a instalações nucleares apenas “acompanhar com preocupação” a chacina de milhares

Não é segredo que, contrariando o que declarou na campanha de 2022, Lula se candidatará a um quarto mandato. Secretas tampouco devem ser suas novas promessas — certamente as mesmas descumpridas desde que subiu a rampa, escoltado por um indígena, uma catadora, um afrodescendente, um portador de deficiência, uma cozinheira, um metalúrgico, um professor, um artesão e uma cachorra sem raça ou ideologia definidas.

Purgatório ou inferno: é pegar ou largar. Por Bolívar Lamounier

O Estado de S. Paulo

A democracia que conhecemos, por pior que seja em dezenas de países, não é uma reles caixinha de papelão

Com um tresloucado na Casa Branca e as duas outras principais potências tendo chefes de Estado com robustas credenciais totalitárias, não estranha que praticamente todo dia intelectuais e jornalistas anunciem o fim do regime democrático representativo.

Qualquer dos três – Trump, Putin e Xi Jinping – dispõe de mísseis nucleares suficientes para espatifar o planeta e deixar 1 trilhão de caquinhos voando eternamente pelo universo. Com um milésimo do que qualquer deles dispõe, a bomba lançada sobre Hiroshima em 1945 pulverizou, fez desaparecer instantaneamente, cerca de 50 mil pessoas, o mesmo fez a outra, lançada sobre Nagasaki. Havia uma terceira cidade nos planos, mas a bomba reservada para ela não foi lançada devido ao mau tempo. Reparem que empreguei o verbo “lançar”. Foi literalmente isso o que aconteceu: lançadas em caixas (suponho que de ferro) pelas janelas dos aviões.

Toffoli age como novo delegado no STF. Por Roseann Kennedy

O Estado de S. Paulo

Ministro atropela autonomia da Polícia Federal na investigação, determina até tempo para depoimentos e quem fará perícias em aparelhos apreendidos

A pressa é inimiga da perfeição. O ditado popular se encaixa nas decisões que o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), está tomando à frente da relatoria do caso Master. Nesta sexta-feira, 16, a novidade foi ele limitar o tempo que os investigadores terão para tomar todos os depoimentos. Apenas dois dias consecutivos.

O cordão de isolamento do escândalo Master. Por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Operação abafa não interessa ao Brasil

Abafadores podem largar a mão de Vorcaro com cordão de isolamento da crise

É preciso um desfecho contundente ao escândalo do Banco Master. Se está em curso uma operação para abafar o escândalo do banco e blindar autoridades e políticos influentes em Brasília (como parece ser), ela não interessa ao Brasil.

As especulações de agentes do mercado financeiro, antes da venda da insituição financeira ao Banco de Brasília, de que havia algo de muito errado no crescimento do Master e na sua atuação agressiva na venda de CDBs e de carteiras de consignado vão se confirmando.

Será que ele é? Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Tarcísio diz que sai para governador, mas mantém uma pontinha de ambiguidade em relação a pleito presidencial

Se Lula vencer, talvez precise agradecer a Trump, pela queda do dólar, e a Jair, por indicar Flávio para sucedê-lo

O governador Tarcísio de Freitas afirma e reafirma que é candidato à reeleição em São Paulo, mas mantém deliberada ambiguidade em relação ao pleito presidencial. É secundado nessa tarefa pela própria esposa e por Michelle Bolsonaro. Não dá para dizer que o cálculo de Tarcísio esteja errado.

Memória da ditadura está viva no Rio, apesar do negacionismo. Por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Tombado, prédio do antigo Dops abrigou tortura e execução de presos

Lei prevê instalação de placas com a identificação de locais ligados aos crimes da repressão

O tombamento do antigo Palácio da Polícia, com a provável criação no local de um centro de debates sobre repressão política e tortura nos anos da ditadura Vargas e sobretudo durante o regime militar, encerra uma disputa de mais de 20 anos. De um lado, a memória que precisa ser lembrada para defender o presente e o futuro da democracia; de outro, o negacionismo e até mesmo, em tempos recentes, a apologia de torturadores.

A democracia de direita. Por Cristovam Buarque

Veja

A esquerda preferiu culpar os eleitores a indagar: por que falhamos?

Há cinquenta anos, a direita chilena precisou de um golpe militar para derrotar a esquerda no poder. No mês passado, uma direita ainda mais conservadora chegou ao governo democraticamente: nem o golpe militar de 1973 nem a vitória democrática de 2025 são exceções chilenas. Por décadas, a esquerda foi eleitoralmente imbatível; agora, vem sendo derrotada em diversas partes do mundo. Em 2018, ocorreu no Brasil, por pouco não se repetiu em 2022 e pode acontecer em 2026.

Sem adjetivos, sem concessões. Por Marcus Pestana

Nunca foi tão urgente. Nunca foi tão necessário. O mundo do século XXI parece, às vezes, teatro do absurdo, realismo fantástico, um sanatório geral.

A sociedade contemporânea é extremamente fragmentada. É possível discordar sobre questões essenciais ou acessórias. A convivência pressupõe o diálogo entre os diferentes, a contraposição de pontos de vista, a abertura para convencer e ser convencido. Mas há limites em relação a princípios centrais que são verdadeiras cláusulas pétreas da existência, onde não cabem adjetivos, relativizações, concessões ou seletividade.

Golpe dissimulado. Por Pedro Serrano

CartaCapital

O PL da Dosimetria atribui ao Parlamento a função de instância revisora do Supremo, o que é inconstitucional. O presidente Lula fez bem ao vetar o projeto

Existem diversas maneiras de se perpetrar um golpe contra as instituições democráticas – das mais explícitas às mais sutis e ardilosas. Quando, em 8 de janeiro de 2023, um grupo vandalizou o Palácio do Planalto, o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal, em Brasília, a ameaça à democracia no País era clara e manifesta. Por trás daquele ataque revelou-se a articulação inequívoca de uma tentativa de solapar o Estado Democrático de Direito. As punições impostas aos criminosos nos julgamentos realizados pelo STF em 2025 foram exemplares.

Narciso-Fascismo. Por Luiz Gonzaga Belluzzo

CartaCapital

As semelhanças entre os projetos de Trump e do nazismo estão cada vez mais evidentes

imperial-totalitarismo de ­Donald Trump exprime um fenômeno social, apresentado por muitos na mídia como perversidade individual. Não faltam opiniões e análises que privilegiam a personalidade do presidente dos EUA e desconsideram as condições sociopolíticas e econômicas que levaram à emergência do Narciso-Fascismo.

Sigmund Freud, em Mal-Estar da Civilização (1930), desvendou as relações sujeito-objeto em todas as sociedades civilizadas: “Nosso sentimento atual do eu é apenas um resto comprimido de um sentimento de maior abrangência – sim, um sentimento abrangente a que corresponde uma ligação mais íntima do eu com o mundo à sua volta”.

Aliança indecorosa. Por Jamil Chade

CartaCapital

Donald Trump, Xi Jinping e Vladimir Putin unem-se em ofensiva contra os direitos humanos

Se nas últimas semanas a ação dos EUA contra a Venezuela e a retirada de Washington de 66 organismos internacionais foram descritas como “atos trágicos” para o multilateralismo e para um mundo ordenado pelo direito internacional, a crise pode estar apenas começando. A pressão geopolítica soma-se a desafios financeiros na própria Organização das Nações Unidas: a entidade aprovou um orçamento regular para 2026 perto de 7% menor que o de 2025, em meio a propostas para reduzir gastos em quase 15% e cortar em torno de 19% do quadro de funcionários.

Uma teoria e suas mutações. Por Fábio Mascaro Querido

CartaCapital

Por serem “sonhadoras demais”, as ideias marxistas nunca deixam de soar como ameaça para as classes dominantes

Karl Marx (1818–1883) e Friedrich Engels (1820–1895) são conhecidos como os fundadores do “socialismo científico”. Se, antes deles, era comum a elaboração de utopias abstratas, que projetavam o futuro sem considerar as condições do presente, os dois intelectuais alemães inauguraram uma perspectiva socialista fundamentada nas contradições do próprio capitalismo.

Mas isso não significa que, para eles, a vitória do socialismo, assim como o caminho para se chegar até lá, pudesse ser estabelecida de antemão. A teoria é importante porque serve como bússola para a prática. Não cabe a ela, entretanto, definir os contornos exatos de lutas sociais e políticas cujo desfecho é imprevisível.

A revolução pelas beiradas. Por Ivan Alves Filho

A comida é de paz. A palavra companheiro vem do latim cum panis. Platão fez do seu Banquete uma ocasião de confraternização. O próprio Jesus Cristo, um asceta, amava cear com seus apóstolos. Comer é, por excelência, um gesto de convívio humano. E com ares de divindade.

O escritor português José Fialho de Almeida disse uma vez que “um povo que defende os seus pratos nacionais está defendendo o seu território”. Não por acaso, um de seus melhores livros, O país das uvas, uma reunião de contos, se desenrola em parte na área vinícola de Vila de Frades, no seu Alentejo natal.