sábado, 14 de fevereiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Maquiagem não disfarça alta no rombo das estatais

Por O Globo

Governo obteve autorização para gastar 14,2 bilhões fora da meta fiscal, além do déficit de R$ 1 bilhão previsto

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem sido contumaz em maquiagens contábeis, retirando gastos da contabilidade oficial para mascarar a realidade. O maior exemplo disso foi o esvaziamento do arcabouço fiscal que o próprio Ministério da Fazenda criou, mas cujas metas só consegue cumprir excluindo um sem-número de despesas do cálculo (e nem por isso o dinheiro deixa de ser gasto). Outro exemplo aconteceu nesta semana, quando o Ministério do Planejamento divulgou decreto com a programação orçamentária para 2026. À primeira vista, a estimativa de déficit de R$ 1 bilhão para as estatais, sem contar pagamento de juros, parece um avanço incontestável, já que em 2025 o rombo foi de R$ 5,1 bilhões.

Renan Calheiros arrasta o centrão para a crise do Master, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Lideranças como Ciro Nogueira, Arthur Lira e Hugo Motta têm passado ao largo do escândalo

Se Alcolumbre não barrar, senador alagoano pode gerar artilharia para todos os lados

A crise do Banco Master vai voltar com força depois do Carnaval. São pelo menos três frentes de erosão: no STF, após a suspeita de ministros de que foram gravados por Dias Toffoli na sessão que decidiu pela saída dele da relatoria do caso; na pressão política sobre o chefe da Polícia Federal, Andrei Rodrigues; e na movimentação do senador alagoano Renan Calheiros.

Aliado do presidente Lula e presidente da poderosa CAE (Comissão de Assuntos Econômicos) do Senado, Calheiros vai agitar Brasília com as audiências que está marcando como parte do trabalho do grupo que criou para monitorar as investigações do banco de Daniel Vorcaro.

Dá para confiar nos sorteios do STF? Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Sistema de distribuição de processos já foi testado sem que se encontrassem vieses

Corte ganharia credibilidade se adotasse um algoritmo mais aberto a escrutínio público

O caso Master no STF foi redistribuído, por sorteio, para o ministro André Mendonça. Antes disso, fora sorteado para Dias Toffoli, justamente um dos juízes que tinha ligações com o banco. Devemos desconfiar do algoritmo do STF que define qual processo vai para qual ministro?

O fato de o caso ter inicialmente caído com Toffoli não basta para sugerir tramoia. O STF tem apenas dez ministros que participam dos sorteios (o presidente fica de fora). E uma probabilidade de 10% está longe de ser uma anomalia estatística. Eu não entraria num avião que tem 10% de chance de cair.

O caso Orelha e o ‘ódio do bem’, por Thaís Oyama

O Globo

Os justiceiros tapam os ouvidos aos fatos porque a regra número um do linchamento moral é a crença automática no acusador

Em 1994, a mãe de um menino de 4 anos ficou alarmada ao surpreender seu filho fazendo gestos que imitavam o que a criança descreveu como sendo algo que “homem faz com mulher”. À pergunta sobre onde ele havia aprendido aquilo, o menino respondeu ter sido numa casa a que teria sido levado por adultos. Contou ter chegado lá transportado pela mesma Kombi em que ia à escola — a Escola Base.

Cuidado para não cair, por Flávia Oliveira

O Globo

Faz alguns anos que o carro, velho de guerra, tornou-se objeto de desejo valorizado e cultuado Brasil afora

Jorge Benjor lançou o álbum “23” em 1993, ano seguinte ao da última fornada do Opala pela Chevrolet. Os dois acontecimentos se cruzam neste 2026, às vésperas do carnaval, pela faixa “Engenho de Dentro”, terceira do disco. “Prudência e dinheiro no bolso; canja de galinha não faz mal a ninguém”, compôs e cantou o mestre. Foi cautela que faltou ao pré-candidato emergente nas pesquisas ao tripudiar com metáfora automobilística sobre o adversário nas eleições de outubro. Flávio Bolsonaro, senador pelo Rio de Janeiro, ungido como herdeiro político do pai, Jair, preso na Papudinha por atentar contra a democracia, comparou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a um “Opala velho”. Metáfora é para quem sabe usar.

Quem tem medo das escolas de samba? Por Jorge Santana

Correio Braziliense

O pecado original das escolas de samba é que elas foram, e ainda são, uma pedra incômoda no sapato de muita gente. Nascidas nas periferias, subúrbios e favelas, sempre deram um jeito de subverter os podres poderes

As escolas de samba sofrem de um pecado original. Essas instituições que nasceram poucas décadas após o fim da escravidão tornaram-se um "perigo" para o Estado. A Primeira República brasileira (1889-1930), fundada em 15 de novembro de 1889, teve como metas o progresso e o desenvolvimento — leia-se excluir tudo aquilo oriundo de África ou dos povos originários. Tal busca pelo branqueamento da nação não significava apenas eliminar os povos não brancos, mas também extirpar todas as práticas, culturas, religiosidades, traços africanos e ameríndios.

O palanque na Sapucaí, por Eduardo Affonso

O Globo

Nossos tribunais jamais permitiriam propaganda antecipada. O enredo sobre Lula é só um tributo desinteressado

Nos últimos carnavais, sem haver novas marchinhas (em extinção, como as cigarras, os tatuís e os liberais), divertido mesmo era acompanhar a problematização de como se fantasiar e do que cantar durante a folia. Seguindo o manual progressista e libertário, dress code e repertório tinham mais restrições que o Jardim Botânico de Curitiba.

Neste ano, o foco mudou. Quando, amanhã, a Escola Cívico-Militar de Samba Patriotas da Barra da Tijuca abrir alas na Sapucaí, um paradigma terá ido pelos ares. Nunca antes na História deste país (e olha que a História deste país teve coisa do arco da velha) uma campanha eleitoral terá sido tão antecipada — e de forma tão espetacular.

Puxando o saco de Lula na Sapucaí, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Enredo chapa-branca é um produto que se destina mais às redes que ao Sambódromo

Acadêmicos de Niterói periga cair, causando efeito desagradável na campanha da reeleição

Enredos qualquer nota e escancaradamente patrocinados não são novidade no Carnaval. A Marquês de Sapucaí já viu homenagens para Silvio Santos, Chico Recarey e Beto Carrero. Em 2012, a Porto da Pedra falou de leite e iogurte; no ano seguinte, a Mocidade se misturou ao Rock in Rio. O que os une, além da bajulação, é o resultado. Não raro, a escola fracassa.

A escola Acadêmicos de Niterói, ex-Sossego, ao contar a história do "operário do Brasil" em sua estreia no grupo Especial, comprou um barulho. Periga cair e o enredo chapa-branca provocar efeito desagradável na campanha de Lula, com piadas e provocações.

E assim se passarão mais dez anos? Por Bolívar Lamounier

O Estado de S. Paulo

A gana presidencial de Lula e a pavorosa entressafra de políticos que governa atualmente o País aumentam as chances de nos mantermos num eterno buraco

Raras vezes em nossa história um candidato à Presidência traçou seu plano político de uma forma tão cristalinamente clara. É de todos sabido que Lula, o atual presidente, está há um bom tempo em campanha. Quer a reeleição. Para tanto, gasta o que pode e o que não pode. Dado que nossa classe política não se entende para identificar um candidato de maior estatura, Lula tem chances de ser reeleito. E se não for? Aí entra a segunda parte do plano. Se não for, quem o suceder já começará o mandato com um buraco fiscal sem tamanho. Péssimo para o Brasil, mas, outra vez, bom para Lula.

PSTF, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

O arranjo-puxadinho para a saída de Dias Toffoli é uma aberração. Se os pares defendem os atos processuais do colega, se consideram não haver razões para impedimento ou suspeição, por que ele deixou a relatoria do caso Master? Porque seguir a regra seria contratar uma epidemia de suspeições. Porque a guilda do Supremo preferiu negociar, na alcova, um acordo de compadres; assim, repare no texto dos togados, como se o ministro nos fizesse uma delicadeza ao se afastar – o cara que foi sócio, até fevereiro de 2025, de fundos geridos pelo cunhado de Daniel Vorcaro, fundos que operaram, em 2024, a transfusão artificial de liquidez para o Master. E que, ainda assim, manteve-se à frente do caso Master no STF. Por meses.

Quando o STF é contra a suspeição, por Juliana Diniz

O Povo (CE)

A crise está longe de ser controlada e pode levar não só um ministro, mas toda a corte para o lugar de suspeita aos olhos da sociedade

As revelações mais recentes do caso Master, que levaram ao afastamento do ministro Dias Toffoli, encancaram a dificuldade que o Supremo Tribunal Federal tem de lidar com o tema da suspeição. Há, no Tribunal, um histórico de resistência ao reconhecimento de conflitos de interesse de seus juízes, como se a corte, para proteger a autoridade do tribunal, identificasse na suspeição uma evidência de mácula moral a ser evitada.

Alfabetização necessária, por Cristovam Buarque

Veja

É preciso cuidar sobretudo da educação de base

Uma recente avaliação do ensino de medicina alertou para os riscos à saúde dos brasileiros caso nossos médicos continuem a se formar nessas faculdades. Faltou denunciar os riscos à saúde do Brasil se continuarmos a educar nossas crianças e jovens nas atuais escolas de base. Os brasileiros precisam cuidar da qualidade das faculdades que formam doutores, sim, mas também da educação que vem desde o início, da infância. Além de outros fatores — protecionismo, burocratismo, insegurança jurídica, custo da máquina estatal e infraestrutura degradada —, a principal causa da estagnação de nossa renda média está na falta dos conhecimentos necessários para nos integrarmos ao mundo moderno. Sem a plena alfabetização de toda a população para a contemporaneidade, o país continuará sujeito a sete enfermidades: baixa produtividade, concentração de renda, pobreza, violência, instabilidade, corrupção e endividamento.

A virtude está no meio, por Marcus Pestana

O conselho veio de longe, três séculos antes de Cristo. Aristóteles, na Grécia Antiga, alimentou a ideia de que nos extremos haveria uma mistura indesejável de excesso e falta e que o centro estaria associado aos conceitos de moderação, diálogo, equilíbrio e não dogmatismo. Em tempos de Trump e da configuração binária da polarização brasileira, provavelmente Aristóteles seria um “influencer” de baixo impacto e pouca audiência no Instagram, TikTok ou X. Afinal, o que mobiliza as bolhas é exatamente a radicalização extremada das opiniões e a destruição dos adversários políticos, transformados em inimigos de guerra.

Nem caneta nem bolsa, por Leonardo Avritzer

CartaCapital

Os riscos de o STF ultrapassar o papel de Corte constitucional

Uma das maiores incertezas que pairam sobre a política brasileira neste ano diz respeito ao papel do Supremo Tribunal Federal. Como se sabe, a Corte foi decisiva não somente na contenção do golpe de 2022 e 2023, mas na condenação dos golpistas, durante o julgamento realizado em setembro do ano passado. Esses fatos reforçaram a importância e a atuação legítima do STF no que diz respeito à defesa da democracia no Brasil. Entretanto, isso não lhe garante sustentação para atuar­ em outras dimensões que ultrapassam seu papel de Corte constitucional.

Código de conduta, por Pedro Serrano

Carta Capital

A adoção de um regulamento tende a representar um mecanismo de defesa e de fortalecimento do Supremo, ao contrário de um mero instrumento de autocontenção

Críticas não são apenas aceitáveis, mas desejáveis em qualquer sistema democrático. A posição assumida pelo Judiciário para a vida em sociedade o coloca, invariavelmente, sob o crivo do questionamento. Ao Judiciário cabe, nas democracias contemporâneas, a última palavra em termos de interpretação da ordem jurídica. Em países como os latino-americanos, providos de Constituições analíticas, diversas decisões sobre da vida pública, em comunidade e dos comportamentos humanos são transferidas para o âmbito jurisdicional.

Imperador impopular, por Jamil Chade

CartaCapital

O mundo demonstra seu desprezo pelo presidente dos Estados Unidos

Donald Trump descobre, aos poucos, a dimensão do desprezo do mundo por seu governo. Durante a abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno, em Milão, a entrada da delegação dos Estados Unidos no desfile foi marcada por uma mistura de aplausos e vaias. A celebração foi para os atletas, alguns dos melhores do mundo em suas modalidades. Mas um sonoro protesto ocorreu quando o telão do estádio de San Siro mostrou o vice-presidente JD Vance, de pé, aplaudindo a delegação. Curiosamente, o público dos EUA jamais soube disso. Na transmissão oficial veiculada nas televisões de milhões de norte-americanos, a NBC cortou o som das vaias. Horas depois, quando a Casa Branca divulgou o vídeo do vice-presidente no evento na Itália, uma vez mais o som das vaias havia sido convenientemente abafado.

Finança e capital, por Luiz Gonzaga Belluzzo

CartaCapital

Na incessante busca de dinheiro, o capitalismo excita esperanças de enriquecimento e solapa as realidades da “economia real”

Reconhecido pelos senhores dos mercados depois da crise financeira de 2008, o economista keynesiano Hyman Minsky, falecido em 1996, escreveu, em 1992, um artigo intitulado “Schumpeter and Finance”. O artigo narra a temporada de Minsky em Harvard na companhia de Paolo Sylos-Labini, então jovem economista italiano, mais tarde referência no mundo acadêmico ao escrever o clássico Oligopólio e Progresso Técnico.

Os dois chegaram em Harvard para a temporada 1948–1949. Labini aportou em Harvard depois de algum tempo em Chicago. “Como completei minha graduação em Chicago, Labini e eu compartilhamos nossas opiniões sobre ­Chicago e Harvard em animada discussão.” Minsky graduou-se em Matemática em 1941. Do mestrado (1947) ao Ph.D. (1954), foi supervisionado por ­Schumpeter, ­Wassily Leontief e Alvin Hansen. Schumpeter morreu em janeiro de 1950.

Marx, um comentário, por Ivan Alves Filho

Marx é um pensador e militante político central da chamada modernidade. Um herdeiro daquilo que o processo civilizatório tem de melhor, do Renascimento ao Iluminismo. Suas formulações têm um duplo caráter, uma vez que estabeleceu tanto um método de análise quanto um guia para a ação.

Não por acaso escreveu uma obra como O Capital, e, ainda, foi a principal figura da Associação Internacional dos Trabalhadores, em 1864.