segunda-feira, 23 de março de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Com Master, BC tem oportunidade de refinar controles

Por O Globo

Pela primeira vez, dois altos funcionários da autoridade monetária foram acusados de corrupção

O caso Master tem oferecido ao Banco Central (BC) uma oportunidade única de aperfeiçoar o sistema de supervisão das instituições financeiras. Não é a primeira vez que um banco comete fraudes, nem a primeira liquidação extrajudicial em que diversos investidores perdem patrimônio. O fato preocupante é que esta é a primeira vez, em todas as ondas de intervenção e liquidação de bancos desde a redemocratização, em que dois altos funcionários do BC são acusados de corrupção.

Belline Santana, ex-chefe do Departamento de Fiscalização Bancária, e Paulo Souza, ex-diretor de Fiscalização, se tornaram, de acordo com as investigações, “consultores pessoais” do banqueiro Daniel Vorcaro. Depois de auditoria interna ter constatado um aumento de patrimônio dos dois que só poderia ser explicado pelo recebimento de vantagens indevidas, o BC os afastou do cargo e comunicou à Polícia Federal (PF). O ministro André Mendonça, relator do caso Master no Supremo Tribunal Federal (STF), os afastou do próprio BC.

Delação de Vorcaro: preguiçosa e conveniente, por Bruno Carazza

Valor Econômico

Daniel Vorcaro é um cara arrojado e inteligente. Ao longo da sua trajetória meteórica, ele sempre seguiu uma estratégia racional, orientando suas jogadas pela exploração dos incentivos errados que os sistemas econômico, político e judicial brasileiro oferecem. E a delação é a sua próxima cartada.

No centro do modelo de negócios do Master estava uma falha do sistema financeiro: sabendo que o Fundo Garantidor de Créditos honraria as aplicações de até R$ 250 mil dos investidores, o banco captou um montante estratosférico no mercado. Quando a bomba explodiu, Vorcaro impôs um prejuízo de mais de R$ 50 bilhões a seus concorrentes, que precisarão recapitalizar o FGC.

MDB, 60 anos: nem Ulysses e Tancredo uniram o partido, por César Felício

Valor Econômico

Partido não deve apoiar ninguém para presidente este ano, mas sem o clima de guerra do passado

Mais à direita do que já esteve na maior parte da sua história, muito menor do que já foi no passado, o MDB completa 60 anos nesta terça-feira mantendo uma singularidade: é o partido onde instâncias regionais, estatutariamente, têm mais poder perante a cúpula da sigla.

Esta particularidade está cobrando seu preço agora, em meio às articulações de palanque que ocorrem junto com a janela partidária. Em dois Estados do Nordeste, Paraíba e Piauí, é provável que o partido simplesmente deixe de lançar candidato a deputado federal.

A formação de uma bancada robusta na Câmara dos Deputados é fundamental para qualquer partido conseguir uma fatia mais relevante do fundo partidário. Mas o MDB, ainda hoje, continua podendo ser chamado de “federação de caciques regionais”. No Piauí, a prioridade da sigla é o acordo com o PSD para a reeleição do senador Marcelo de Castro. Na Paraíba, o partido joga mais alto, e quer eleger o prefeito de João Pessoa, Cícero Lucena para governador, e reeleger o senador Veneziano Vital do Rego. Abrir mão na nominata proporcional ajuda na composição.

Campanha tem batalha de rejeições entre Lula e Flávio Bolsonaro, por Joelmir Tavares

Valor Econômico

Parcela de eleitores que rechaça votar em um ou outro será elemento decisivo, se polarização captada nas pesquisas continuar

A liderança de Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro nas pesquisas, a sete meses da eleição presidencial, evidencia o peso da rejeição aos pré-candidatos, que deve se tornar um ingrediente importante da disputa, caso o cenário de polarização continue.

Os percentuais de eleitores que se recusam a votar no atual presidente - que deve ser o representante do PT na corrida - e no senador - indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro para concorrer pelo PL - podem ser decisivos. Segundo especialistas, a possibilidade de que a eleição vire uma espécie de batalha de rejeições é um reflexo da divisão ideológica acentuada, algo que já tinha aparecido em 2022.

Críticas de Lula ao BC partem de mau conselho, por Alex Ribeiro

Valor Econômico

Críticas de Lula partem de um diagnóstico, nos círculos palacianos, de que o BC é um dos responsáveis pela queda da popularidade do presidente

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou, na semana passada, o corte de apenas 0,25 ponto percentual na taxa básica de juros, para 14,75% ao ano. Ele queria 0,5 ponto. Não é o único ataque ao Banco Central, presidido por Gabriel Galípolo, que, durante o período eleitoral, tende a ficar mais isolado.

A queixa de Lula não foi improvisada. Ela parte de um diagnóstico, que surgiu nas reuniões palacianas com a ala política e representantes da equipe econômica, de que o BC é um dos responsáveis pela queda da popularidade do presidente e pelo avanço do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) nas pesquisas para as eleições deste ano.

Quando a festa é públicas, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

O caso Master traz de volta a corrupção aos altos círculos de Brasília, de onde o tema fora expulso com os seguidos cancelamentos da Lava-Jato

Nas conversas entre Daniel Vorcaro e sua então namorada, Martha Graeff, lá pelas tantas aparece uma ponta de ciúme. É quando a namorada fica sabendo que havia garotas de programa na lista de contatos do celular de Vorcaro. O ex-banqueiro se explica: eram contatos profissionais. E acrescenta que já havia organizado festas com 300 garotas, pois isso fazia parte de seu “business”. Farra com 300 garotas é certamente um exagero, mas não importa. Que fosse com 30 ou com uma, a cena do crime estava armada.

Crime de ódio, por Miguel de Almeida

O Globo

Nega-se à deputada Erika Hilton o 'lugar de fala': sendo trans, não poderia tratar de questões das 'mulheres biológicas'

Às preocupações do brasileiro com o perigo de um conflito nuclear e ao espanto com as cafonices de Daniel Vorcaro, somou-se a batalha entre Ratinho e a deputada federal Erika Hilton. O apresentador mostrou-se indignado com a eleição da deputada ao cargo de presidente da Comissão da Mulher da Câmara. Irritado, disse-se contrário a que uma pessoa trans ocupe a vaga. E explicitou sua visão de mundo:

— Ela é trans. Para ser mulher tem que ter útero, menstruar, tem que ficar chata três, quatro dias. Eu sou contra [a eleição dela]. Eu acho que deveria deixar uma mulher.

Para não deixar dúvidas, acrescentou:

— Mulher, para ser mulher, tem de ser mulher (...). Quero dizer que não tenho nada contra a deputada, ou deputado, não sei.

O STF injustiçado, por Diogo Schelp

O Estado de S. Paulo

Ministros tentam convencer a opinião pública de que se uma conduta não é ilegal, é aceitável

Mesmo com tudo o que já se descobriu a respeito de situaç ões que indicam conflito de interesses ou coisa pior na atuação de ministros do STF, em especial no que se refere ao caso do Banco Master, a cúpula da Justiça, ou pelo menos parte dela, se sente injustiçada.

Na quinta-feira, o ministro Gilmar Mendes chorou durante homenagem a Alexandre de Moraes, a quem atribuiu “ânimo inquebrantável” para suportar “tantas tribulações”. Na fala de Mendes, o colega emerge como um incompreendido, cujo sacrifício pelo País talvez só venha a ser reconhecido por gerações futuras. Faltou pouco para dizer que os brasileiros somos ingratos por não entender a dívida que temos com ele.

Um novo Oriente Médio, por Denis Lerrer Rosenfield

O Estado de S. Paulo

O projeto teocrático de uma grande potência regional dominando o Oriente Médio foi por água abaixo

O Oriente Médio mudou após o ataque americano-israelense e a reação da teocracia iraniana. Nada voltará a ser como antes, goste-se ou não desta nova realidade. O Irã se apresentava com uma grande potência regional, caminhando para deter a produção de bombas nucleares, almejando a destruição pura e simples do Estado de Israel. Utilizava-se, para isso, de seus satélites: Hamas, Jihad Islâmica, Hezbollah e Houthis. Com exceção dos últimos, enfraquecidos, os outros já foram derrotados militarmente. Graças à guerra atual, o Irã já está militarmente vencido, contentando-se com atacar as nações árabes, inclusive xiitas como o Catar, procurando criar o caos no Estreito de Ormuz e forçar um aumento do preço do petróleo e do gás em escala mundial. Só os simpatizantes do Irã e do terror islâmico resistem a reconhecer a nova correlação geopolítica de forças, a esquerda mundial satisfazendo-se com a areia do ódio que a teocracia lança nos seus olhos.

Sem mais silêncio, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

As pessoas que atracam os fones às orelhas o dia inteiro isolam-se da vida

Eles são um passaporte para a alienação, o individualismo, o não-tou-nem-aísmo

O jovem de fones ao ouvido atravessou a rua fora do sinal, costurando entre os carros em movimento e tirando fino das motos entre eles. Perplexo, eu assistia a tudo da calçada. Mas nada aconteceu. O garoto chegou ao outro lado e retomou tranquilo o seu caminho, como se o asfalto fosse uma extensão de sua casa. Perguntei-me que maravilhas estariam saindo dos fones, abafando tudo e permitindo-lhe ignorar as buzinas. Rockrapforrók-pop?

Qual o maior crime contra a humanidade? Por Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

Para a União Africana a resposta é clara: foi a escravização e o tráfico transatlântico de africanos

Efeitos físicos, psicológicos, econômicos e sociais desencadeados pela escravização são sentidos por milhões até hoje

Qual o maior crime já cometido contra a humanidade? A pergunta é instigante, mas para a União Africana (UA), organismo formado pelos 55 países do continente, a resposta é clara: foi a escravização e o tráfico transatlântico de africanos escravizados.

A entidade está em busca do reconhecimento oficial da Organização das Nações Unidas (ONU) desse entendimento. Uma resolução nesse sentido foi aprovada em fevereiro e encaminhada à apreciação da ONU em busca, ao menos, de um pedido formal de desculpas das nações que lucraram com a prática.

Mais poder, menos confiança: o dilema do STF, por Lara Mesquita

Folha de S. Paulo

Protagonismo do Judiciário levanta questionamentos sobre seus efeitos distributivos e sua legitimidade democrática

Atuação deve ser analisada como a de qualquer outra instituição política, sujeita a limitações, incentivos e pressões

O Supremo Tribunal Federal é destaque no noticiário político, e isso não é novidade. A novidade é que o holofote agora está na erosão de sua legitimidade. Pesquisas de opinião divulgadas neste mês de março por diversos institutos (Datafolha, Quaest, Ideia, Atlas Intel) convergem ao apontar a queda da confiança dos eleitores no STF.

Master: entre a punição de malfeitos e o conluio generalizado, por Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

A diversidade e o grande número de envolvidos aumentam as chances de punição ou de impunidade recíproca?

Quando muitos interesses são afetados, ainda que rivais, e o grau de comprometimento ultrapassa certos limiares, o resultado é o conluio geral

Há perplexidade generalizada diante da estrutura tentacular e de dimensões colossais do affair Master. Sobra (quase) ninguém! A mais recente revelação: o filho de um ministro do STF e a nora do líder do governo no Senado teriam recebido somas milionárias do banco. O envolvimento de um número estarrecedor de atores —de autoridades dos três Poderes a empresários—, para além de qualquer clivagem ideológica, suscita uma questão central: quanto maior e mais diverso o número de implicados, maior a probabilidade de emergirem denúncias cruzadas que alimentem uma dinâmica de incriminação recíproca? A resposta otimista é: sim!

Estado, não livre mercado, forjou o capitalismo, afirma professor de Harvard, por Zander Navarro*

Folha de S. Paulo

Livro extraordinário de Sven Beckert ilumina 900 anos de história e mostra que o regime econômico sempre foi global

Para historiador, economia neoclássica ignora fatos e reduz a diversidade da vida econômica a deserto homogêneo

[RESUMO] "Capitalism: a Global History", livro recém-lançado de Sven Beckert, preenche uma lacuna na bibliografia sobre a constituição do regime econômico e desmente narrativas anteriores. Com uma análise empírica da trajetória milenar do capitalismo, argumenta o autor, a obra retorna à melhor criatividade da economia política e sustenta que o regime econômico não é resultado dos mercados, mas um produto direto do poder do Estado.

Ao examinar a evolução do debate econômico do último meio século —da discussão sobre o desenvolvimento dos países ao desmoronamento da ordem mundial formalizada no pós-guerra, passando pela euforia com a globalização e a crise quase letal de 2008—, se nota uma faceta intrigante: há uma lacuna no diagnóstico das entranhas do capitalismo.

O Brasil nas trilhas, por Ivan Alves Filho

Um dia desses, Luiz Carlos Prestes Filho - uma dessas pessoas de cuja amizade só tenho que me orgulhar há dezenas de anos - me convidou para participar de um encontro virtual sobre uma rede de trilhas envolvendo o espaço territorial brasileiro. Seu nome oficial é Rede Brasileira de Trilhas de Longo Curso, uma proposta cultural, ecológica e sensitiva criada em 2017. Um dos seus objetivos é interligar as unidades de conservação presentes em nosso território. Uma destas trilhas pleiteia, justamente, a Coluna Prestes, comandada por seu pai, o lendário Cavaleiro da Esperança, entre 1924 e 1927, percorrendo partes consideráveis do nosso país.