sábado, 30 de agosto de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Regulação de fintechs precisa ser mais rigorosa

O Globo

Operação que descobriu elos com crime organizado impõe urgência a medidas da Receita e do BC

Receita Federal acertou ao passar a exigir que empresas voltadas para produtos financeiros digitais, as fintechs, informem dados para monitoramento de transações, como fazem todos os bancos tradicionais. Além do controle do Fisco, o Banco Central (BC) deveria antecipar o prazo para regular esse mercado, atualmente fixado para 2029.

A megaoperação policial deflagrada para asfixiar as finanças do Primeiro Comando da Capital (PCC) revelou como o crime organizado está infiltrado por toda a sociedade. Não se trata mais de atividade concentrada em presídios, comunidades pobres, no interior ou em regiões de fronteira, mas de conglomerados sofisticados, com presença até no coração financeiro paulistano, a Avenida Brigadeiro Faria Lima, capazes de aproveitar brechas do mercado de fintechs para lavagem de dinheiro e blindagem de patrimônio. Uma das instituições investigadas é suspeita de ter, entre 2020 e 2024, movimentado R$ 46 bilhões, hoje impossíveis de rastrear.

Crise e mal-estar, por Marco Aurélio Nogueira

O Estado de S. Paulo

Falta, no Brasil atual, uma força democrática que se qualifique para apresentar um amplo programa de reformas para a sociedade

Não é nova a percepção de que a vida moderna traria consigo ondas seguidas de mal-estar. Freud se referiu a isso em O mal-estar na civilização, no qual enfatizou que os indivíduos modernos reprimiriam (ou sublimariam) seus desejos e vontades (sua liberdade) para não contestar a segurança e as normas sociais.

No início dos anos 90, o filósofo Charles Taylor revisitou o tema, para se referir ao “desconforto” que haveria nas sociedades modernas, invadidas pelo lado sombrio do individualismo e pela afirmação de um egocentrismo avesso ao interesse pelos demais. Mais tarde, Zygmunt Bauman aproveitou a tese de Freud para constatar que “o mal-estar na pós-modernidade” viria do fato de que os indivíduos se soltam de sua segurança para abraçar dimensões crescentes de liberdade, com as quais não sabem o que fazer.

Um fantasma assombra o Centrão, por Thaís Oyama

O Globo

Há o temor de que o núcleo radical do bolsonarismo se rebele contra o nome escolhido pelo grupo e produza um ‘outsider’

Ciro Nogueira abriu a picada, mas não a facão. Segundo relatou o presidente do PP a interlocutores, a conversa que teve com Jair Bolsonaro no dia seguinte à decretação da sua prisão domiciliar foi eivada de delicadezas e volteios destinados a não melindrar o ex-presidente. Com o objetivo principal de pressioná-lo a definir o seu candidato para as eleições de 2026, o colóquio começou pela entrada oposta: Ciro reiterou seus esforços para viabilizar no Congresso a votação do projeto de anistia que, quase ninguém acredita, levaria Bolsonaro de volta às urnas. Cumprida essa etapa, o dirigente do PP passou à que interessava: apontou a necessidade de Bolsonaro indicar um nome de sua confiança com chances reais de derrotar Lula para o caso de todos os esforços destinados a fazer dele próprio o candidato fracassarem. Embutido nessa hipótese estava, desde já posto e garantido por qualquer nome por ele escolhido, o compromisso com o indulto presidencial — a chave que, embrulhada no discurso fino da “necessidade de pacificar o país”, poderia abrir para o ex-presidente a tranca da cadeia.

Sinceramente, Dona Economist, por Flávia Oliveira

O Globo

Sabe lá o que é ser uma nação nascida da brutalidade colonial e, sistematicamente, golpeada?

A revista britânica The Economist escreveu sobre o exemplo de maturidade democrática que o Brasil de Lula dá aos Estados Unidos de Trump. Só pensei em Vinícius de Moraes. Não se trata de “poesia a esta altura”, mas das situações em que brasileiros nadamos de braçada. No livro “Para viver um grande amor” (1962), Vinícius dedicou poema “a um americano simpático, extrovertido e podre de rico” que encontrara em Los Angeles (Califórnia) dias antes de retornar ao Brasil, depois de meia década nos Estados Unidos. Mister Buster não compreendia por que o poeta preferia voltar à Latin America, com prejuízo financeiro, mesmo podendo ficar um ano mais na América. Na resposta em poesia lambuzada de ironia, o brasileiro enfileira bens e serviços, propriedades e angústias que cercam a vida boa do gringo. E finaliza exaltando experiências que só o Brasil proporciona:

Problemas de gente branca, por Eduardo Affonso

O Globo

Moro num condomínio da Barra da Tijuca. É mais ou menos como viver num cruzeiro do Wesley Safadão em terra firme

Experimente comentar que foi ao oncologista (eu fui) por causa de uma mancha esquisita, e não são desprezíveis as probabilidades de alguém lembrá-lo de que esse é um típico problema de gente branca. Não porque a incidência de câncer de pele seja menor em pessoas pretas — até é, já que mais melanina oferece maior proteção —, mas porque, comparado a um tumor no pâncreas ou a um AVC, seu mal é, literal e metaforicamente, epidérmico.

O grande teste, por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

O Brasil, por força das circunstâncias, precisou se levantar de seu berço esplêndido para manter o nível de crescimento econômico. O grande teste vai ocorrer a partir da próxima semana, com o julgamento de Bolsonaro

A eleição para o governo do país é o momento de crise do regime presidencialista. O sistema coloca nas mãos de uma única pessoa todo o poder do país, ressalvados os pesos e contrapesos que protegem o cidadão e as instituições. É muita pressão sobre uma só pessoa, que é obrigada a viajar de Norte a Sul, Leste a Oeste, no país de dimensões continentais, fazendo promessas e ouvindo queixas. O candidato fala sobre todos os assuntos, debate todas as questões e se envolve em questões pessoais, paroquiais e transcendentais. É um massacre que, no final, revela um vencedor. Aquele que resistir por mais tempo a cerveja quente, café frio e maionese vencida. 

Perorações pré-eleitorais, por Bolívar Lamounier

O Estado de S. Paulo

Ainda não está no horizonte uma candidatura de centro, honesta, atilada e com efetiva vocação de liderança

Para o texto de hoje, já entrando no ano eleitoral, rememoro alguns fatos e exponho algumas opiniões a esmo, espero que o leitor neles encontre alguma utilidade.

Meu ponto de partida é uma avaliação pessoal: os despautérios perpetrados pelo inquilino da Casa Branca deram a Lula uma chance de ouro de encenar seu papel predileto, o de estadista, e estancaram a queda livre que as pesquisas lhe vinham indicando. De qualquer forma, tenho para mim que a conquista do novo mandato presidencial a que ele almeja manterá a economia brasileira patinando por mais uns 20 anos, ou mais. Deixo aos leitores o encargo de ponderar se tal cenário é concebível.

Imagine as crianças, por Carlos Andreazza


O Estado de S. Paulo

A Economist já fez o foguete do Brasil decolar. A estátua do Cristo ganhava os céus como expressão de destino glorioso e inevitável. Numa época em que foguete não dava ré. Deu.

O País – agora com o mito chifrudo – está novamente na capa da revista. Daria lição de maturidade democrática. O País – do orçamento secreto – daria lição de maturidade democrática. O do juiz empresário, do juiz líder de bancada, do juiz justiceiro – daria lição de maturidade democrática. Etc.

Esse seria exercício infinito; e desnecessário. Bastará ler a reportagem para compreender que a Economist ignora o Brasil. O País – esmagado entre lulismo e bolsonarismo, e com liberdade defendida pelos métodos xandônicos – é retratado como “um exemplo para a recuperação de países afetados pela febre populista”. A febre populista brasileira dura mais de 20 anos e já contaminou as eleições de 2026.

Megaoperação revela que Faria Lima fechou os olhos para os fundos, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Só há duas opções: baixo controle das empresas que fizeram negócios com os investigados ou vista grossa

megaoperação para desarticular a infiltração em negócios regulares da economia formal revelou que há um ponto cego na governança dos fundos de investimentos pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Na lista dos principais alvos financeiros, a maioria é de fundos de investimentos fiscalizados pela autarquia.

A força-tarefa apontou cerca de 40 fundos suspeitos de serem utilizados pelo PCC e suas gestoras. A Reag Investimentos, listada na B3 (Bolsa de Valores brasileira) e uma das principais empresas envolvidas na operação, é gestora de fundos.

A César o que não é de César, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Disputa entre Lula e Tarcísio por protagonismo em ações anti-PCC ilustra um dos problemas da democracia

São importantes as operações policiais deflagradas contra o PCC. A infiltração da economia formal e do próprio poder público pelo crime organizado é um fenômeno que precisa ser combatido com urgência, já que, quanto mais avança, mais difícil se torna seu enfrentamento.

É pena que a boa notícia institucional tenha sido maculada pelo que parece ser uma disputa eleitoreira entre Lula e Tarcísio de Freitas, que provavelmente se enfrentarão no pleito presidencial de 2026, pela paternidade das ações.

Nome do centrão, Tarcísio enfrenta o presidenciável Eduardo, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Filiação do governador de São Paulo ao PL ameaça implodir maior partido de direita do país

Parece que agora não tem volta: Tarcísio de Freitas é candidatíssimo ao Planalto. O movimento se dá em função da desgraça de sua principal inspiração política, Bolsonaro, que está preso em casa, com monitoramento da polícia para evitar qualquer ensaio de fuga, às vésperas do julgamento no STF por arquitetar um golpe de Estado.

Hoje o ex-presidente é considerado, no campo da direita e até em covis da extrema direita, carta fora do baralho no jogo contra Lula. Este, usando boné nacionalista e a máquina estatal, está em plena campanha, com gás renovado após as pesquisas que lhe são favoráveis.

Viva o intelectual orgânico Raduan Nassar, por Roberto Amaral*

“Considero-me de esquerda sim e fico com a bela definição de Pepe Mujica: ‘é uma posição filosófica perante a vida, onde a solidariedade prevalece sobre o egoísmo’”.
— Raduan Nassar

O intelectual orgânico dos trabalhadores, necessariamente de esquerda, denuncia a luta de classes; o intelectual orgânico da classe dominante, necessariamente conservador ou de direita, também procura intervir na realidade, mas para impedir o parto do futuro. Muitas vezes não lhe basta a conservação do statu quo: intervém para reaver o passado. 

Presentemente assistimos ao assalto ideológico da direita.

Embora não possa escolher o seu tempo, aquele no qual terá de realizar sua existência, é imperativo para o escritor, intelectual orgânico, representante sempre de uma visão ideológica do mundo, definir-se diante da luta de classes e, assim, definir o caráter de seu papel como agente histórico.

O escritor reproduz sua visão de mundo toda vez que escreve ou deixa de escrever. Baudelaire definiu-se diante das revoluções de 1848. Combateu-as e, pelo resto da vida, fez-se adversário das noções de progresso e liberdade, construindo visível contradição entre vida e obra, entre o intelectual e o poeta. Balzac permaneceu indiferente diante da Comuna de Paris. Sartre — ele mesmo intelectual permanentemente engajado — lembra o silêncio de Flaubert e de Goncourt diante da repressão à Comuna, para mostrar como ambos se definiram optando pela omissão, que, numa tábua de valores, tem tanto significado quanto a intervenção de Zola, o qual, sem temer a força das circunstâncias, optou pela defesa da liberdade do capitão Alfred Dreyfus, como antes se havia definido Voltaire — talvez um dos  primeiros dos intelectuais engajados — no caso Calas.

O Sobrenatural de Almeida na política brasileira, por Marcus Pestana

A história coloca limites para a ação humana. A liberdade de criação depende das condições econômicas, sociais e históricas objetivas. Mas os líderes têm o poder efetivo de potencializar as possibilidades abertas pela realidade. A política não pode ser apenas “a arte do possível”.  Mas além da ação subjetiva dos grandes líderes, há outro elemento importante nos caminhos e descaminhos da história: o acaso.

O grande dramaturgo e cronista carioca Nelson Rodrigues criou, entre tantos personagens geniais, o Sobrenatural de Almeida, que em suas aparições fantasmagóricas levava maus agouros ao Fluminense de seu coração. Depois começou a assombrar também outros times, produzindo viradas espetaculares, gols sensacionais, resultados improváveis, desmentindo os “idiotas da objetividade”. Apesar de habitar o mundo do futebol brasileiro, tudo indica que o Sobrenatural de Almeida teve intensa atividade na política brasileira, dados os múltiplos exemplos de eventos inesperados e surpreendentes que foram determinantes para os rumos do país.

Os economistas e a sociedade, por Luiz Gonzaga Belluzzo e Nathan Caixeta

CartaCapital

Especialistas no ofício antes delegado aos profetas, não raro eles propõem formulações econômicas suicidas

Stanislaw Ponte Preta registrou nas páginas de seu Festival de Besteiras Que Assola o País (Febeapá) um diálogo entre dois invisíveis auxiliares de produção de um programa de televisão que foi ao ar, provavelmente, nos idos de fevereiro de 1967, com o propósito de propagandear o Cruzeiro Novo, parte da reforma monetária do já nomeado presidente Costa e Silva.

Stanislaw verifica o desencontro entre o objeto das análises econômicas e os seres comuns e invisíveis submetidos aos conselhos da Velha Ciência:

“Depois que o senhor Ministro do Planejamento terminou sua palestra pela televisão… falando em aritmética frívola, conjuntura econômica, retração monetária e outros bichos”, sai de cena o Ministro acompanhado de seus cupinchas, entram os invisíveis.

Notou e anotou Stanislaw:

Homens de bens, por Wilson Tosta

CartaCapital

Deputados ricos e milionários vão decidir sobre a isenção de IR para quem ganha até 5 mil reais por mês

Uma das principais apostas do presidente Lula, o projeto de isenção de Imposto de Renda para os contribuintes que ganham até 5 mil reais mensais e o aumento, como compensação, da taxação para quem recebe mais de 50 mil reais caminha para virar um problema para o Palácio do Planalto. A contradição entre uma Câmara de Deputados com patrimônio médio dezenas de vezes superior ao dos eleitores, apontada em estudo do INCT/ReDem (Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia – Representação e Legitimidade Democrática), reforçou o alerta para uma possível nova derrota legislativa do Executivo. A hipótese de aprovar a isenção sem elevar os tributos do topo da pirâmide animou as recentes conversas da oposição. Se a isenção for aprovada sem uma contrapartida, Lula não terá recursos para sustentar a bandeira da “justiça tributária”.

Assalto ao BB, por André Barrocal*

CartaCapital

O
 plano bolsonarista para desestabilizar o Banco do Brasil tem várias frentes

Em 1986, Jair Bolsonaro estava no Exército e publicou um artigo em uma revista a reclamar do salário. Pegou 15 dias de cadeia por transgressão da disciplina militar. Seu terceiro filho, Eduardo, tinha 2 anos. O presidente do Brasil era José Sarney, a quem coube assinar na época uma legislação de combate aos crimes contra o sistema financeiro, a 7.492, a popular Lei do Colarinho Branco. Em autoexílio nos Estados Unidos desde fevereiro, o hoje deputado Eduardo afrontou a lei escancaradamente, na impatriótica cruzada montada com mesada do pai em solo norte-americano para tentar salvar o capitão de ir em cana de novo, agora como condenado por tentativa de golpe. Ele disse no YouTube que o Banco do Brasil será cortado das finanças internacionais pelos EUA, sofrerá fuga de capitais e irá à falência. “Tenho certeza que já tem gente nesse momento preocupado, querendo descobrir para onde levar o dinheiro.” Divulgar informação falsa ou prejudicialmente incompleta sobre instituição financeira é crime. ­Custa de 2 a 6 anos de prisão. Está lá no artigo 3º da Lei do Colarinho Branco. A Polícia Federal e o Supremo Tribunal Federal foram instados a tomar providências.

sexta-feira, 29 de agosto de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Asfixia financeira é melhor método para combater PCC

O Globo

Operação contra a facção mostra que, com inteligência e cooperação, é possível sufocar crime organizado

Foi exemplar a operação deflagrada nesta quinta-feira por uma força-tarefa incluindo Polícia FederalReceita Federal e Ministério Público de São Paulo, com o objetivo de asfixiar financeiramente a facção criminosa paulista Primeiro Comando da Capital (PCC). A ação, considerada a maior do tipo já realizada no país, visa a desmantelar redes usadas para lavar dinheiro do crime organizado. A operação mobilizou mais de 1.400 agentes em oito estados e mirou 350 alvos de busca e apreensão, alguns no centro financeiro paulistano, a Avenida Faria Lima.

Bolsonaro vai mesmo morrer politicamente? Por Fernando Luiz Abrucio*

Valor Econômico

Os rumores do ocaso político do chefe do clã podem ser exagerados, seja porque muita gente acredita no radicalismo, seja porque os governadores ditos moderados estão esperando herdar o espólio sem custos políticos

A morte política de Jair Bolsonaro tornou-se a aposta do momento. Sua possível condenação e prisão, somada à sua inelegibilidade, retiraram seu nome das urnas eletrônicas de 2026. Além disso, sua maquinação com o filho Eduardo em prol de sanções americanas contra o Brasil, especialmente o tarifaço, aumentaram sua toxidade entre políticos e eleitores. Para piorar, pesquisas têm demonstrado uma queda em sua popularidade, especialmente quando comparada à do presidente Lula. Diante desse inferno astral, é possível decretar o funeral político do ex-presidente?

Há realmente motivos para se ter uma sensação de processo sucessório. Em 2026, Jair Bolsonaro será, no máximo, um líder na prisão. Ademais, os efeitos da política trumpista contra o Brasil vão gerar dificuldades eleitorais para o bolsonarismo. Mas o maior sinal dessa crise aparentemente mortal da liderança política de Bolsonaro é a corrida de seus aliados governadores para definir um novo nome à eleição presidencial.

Religião na política do golpe, por José de Souza Martins*

Valor Econômico

Há risco para a democracia em grupos organizados no poder que creem e decidem que a Bíblia se sobrepõe à Constituição

A abordagem pela Polícia Federal, no Aeroporto do Galeão, de um pastor pentecostal carioca que voltava de Portugal lançou luz sobre um dos nossos mais graves problemas políticos. O da promiscuidade entre religião e política ou a infiltração da religião na política e na estrutura do Estado laico.

Até o fim do Império, a Igreja Católica era religião do Estado. Vigia o chamado regime do padroado. O governo nomeava os bispos, e o papa os confirmava. Portanto, o governo controlava a igreja. E a religião controlava as mentes. Os religiosos recebiam a côngrua, um salário, como se fossem funcionários públicos.

A igreja aspirava a independência em relação ao Estado, o que o governo não apoiava. Veio daí a chamada Questão Religiosa, na década de 1870, que culminou com a prisão de alguns bispos.

O Brasil republicano, já antes da Constituição de 1891, havia produzido legislação que fazia do Estado um Estado não confessional.

A batalha das ruas na festa de 7 de Setembro, por Andrea Jubé

Valor Econômico

Julgamento e a tarifa de 50% sobre as exportações brasileiras darão o tom das manifestações neste ano

O julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro pela tentativa de golpe de Estado, com início na próxima semana, terá a festa da Independência no meio do caminho, e o simbolismo da data, tão caro ao bolsonarismo, ofuscado pelo cinza chumbo do tarifaço americano. Haja verde e amarelo para resgatar o azul anil do céu da pátria brasileira.

Os bolsonaristas sairão às ruas no dia 7 de Setembro para protestar em defesa da liberdade, da democracia, e cobrar do Congresso a lei da anistia, que favoreceria Bolsonaro, os demais réus na ação da trama golpista e os presos pelos atos de 8 de janeiro. Da mesma forma, apoiadores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, partidos de esquerda e movimentos sociais sairão às ruas, na mesma data, para protestar em defesa da democracia, da soberania nacional e contra a anistia.

As máfias e a blindagem, por Vera Magalhães

O Globo

Operação Carbono Oculto mandou para o lixo a PEC que visava a tornar parlamentares cidadãos acima de qualquer investigação

Poucas vezes a realidade assolou de forma tão definitiva um plano dos políticos para enfiar goela abaixo da sociedade um projeto inaceitável. A deflagração da Operação Carbono Oculto mandou para a lata do lixo a vergonhosa Proposta de Emenda à Constituição que visava a tornar os parlamentares cidadãos acima de qualquer investigação, ainda que sob suspeita. O que a ação conjunta da Polícia Federal, da Receita Federal e do Ministério Público desnudou foi uma sofisticada engrenagem financeira, com óbvios sustentáculos na política e no próprio aparato estatal ainda por aprofundar, comprovando que não há mais ambiente a salvo do crime organizado.

A coincidência entre a revelação da teia complexa de crimes — com um braço bilionário de movimentação de recursos ilícitos por meio de fintechs bem instaladas em endereços nobres — e a pressa com que deputados agiam para tocar adiante a PEC da Blindagem foi fatal. Jogou por terra a desfaçatez daqueles interessados em impunidade, que, até a véspera, enchiam a boca para evocar a Constituição de 1988 e a pomposa palavra “prerrogativas” para disfarçar os reais objetivos.

Pacote da retaliação, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Assustados com investigações, deputados articulam retrocesso em causa própria

A Câmara prepara um pacote de medidas para blindar parlamentares de investigações. O objetivo é mudar a Constituição para deixar deputados e senadores fora do alcance da Justiça. Se possível, bem longe do Supremo Tribunal Federal.

A votação estava prevista para a noite de quarta, mas foi adiada por risco de derrota. Se depender de Hugo Motta e de seu padrinho, Arthur Lira, voltará à pauta na próxima semana —ou quando os ventos de Brasília soprarem a favor. A articulação não é nova, mas ganhou força com o avanço dos inquéritos que apuram desvios em emendas parlamentares.

Laboratório Brasil, por Pablo Ortellado

O Globo

Cabe-nos decidir se seremos objeto do experimento ou parte do desenho de sua contenção

Nas últimas semanas, tentamos entender por que, diferentemente dos outros países, as tarifas americanas impostas aos produtos brasileiros foram tão elevadas e tiveram declarada motivação política, e não econômica. Além das tarifas, houve a aplicação da Lei Magnitsky e a restrição de vistos de entrada, imposta a diversas autoridades brasileiras.

Na direita, esse tratamento especial é evidência dos flagrantes abusos da Justiça, que efetivamente transformaram o país numa ditadura judicial, despertando a resposta americana. Na esquerda, é prova do sucesso da reação institucional brasileira às ameaças à democracia, que ativou vínculos de solidariedade política entre trumpistas e bolsonaristas para impedir que essa resposta se torne modelo internacional. Porém talvez o Brasil não seja um caso excepcional, mas apenas um caso-teste, um laboratório da política externa de Donald Trump.

Soberania além da propaganda, por Fernando Gabeira

O Estado de S. Paulo

Seria uma pena se o tema soberania se limitasse apenas ao lado simbólico das manifestações de afeto pelo Brasil

A momentânea crise entre Brasil e EUA colocou a soberania no topo da agenda. É o tema central do discurso do governo, deve se tornar slogan e, possivelmente, ocupar um espaço de destaque na campanha presidencial. Mesmo sem subestimar a importância simbólica da soberania com seus discursos e bonés, é preciso aproveitar a oportunidade para um exame objetivo da real independência de um país. De nada adianta apenas cantar: “Ou ficar a pátria livre ou morrer pelo Brasil”. É preciso examinar, serenamente, os caminhos da soberania, e isso inspira um bom debate para o ano eleitoral que se aproxima.

A União faz a força, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Efeito virtuoso da operação contra as facções criminosas: empurrar adiante o pacote da segurança

Além de ser a maior e mais impactante operação contra o crime organizado no Brasil, a ação conjunta da Polícia Federal, de PMs estaduais, da Receita Federal e das Receitas estaduais tem um efeito colateral virtuoso: joga luzes sobre a necessidade e a urgência do pacote da Segurança Pública que o ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, tenta a duras penas aprovar. Um projeto imprescindível para unir forças – aliás, as forças de segurança – contra uma praga que não é apenas nacional, mas transnacional.

Julgar Bolsonaro é sinal de maturidade democrática, por Marcos Augusto Gonçalves

Folha de S. Paulo

Provável condenação é passo tenso, mas necessário para superar ambiguidades históricas do Brasil diante da democracia

Marcado para começar no próximo dia 2 de setembro, o julgamento dos acusados de tentativa de golpe de Estado no Brasil terá como ápice a decisão que envolverá seu principal personagem, o ex-presidente Jair Bolsonaro. A proximidade do evento, como disse Luís Roberto Barroso, atual presidente do Supremo Tribunal Federal, envolve o país em "momento tenso", o que é compreensível dado o ineditismo da situação.

Afinal, como também pontuou o ministro, trata-se do encerramento de um ciclo "em que se considerava legitimo e aceitável a quebra de legalidade constitucional por não gostar do resultado eleitoral". Na realidade, mais do que um ciclo e mais do que mera insatisfação com escolhas das urnas, o julgamento prenuncia um passo maduro no acerto de contas do Brasil com a estabilidade democrática.

Aos trancos e barrancos, por Orlando Thomé Cordeiro

Correio Braziliense

Nos últimos 30 anos, tem sido possível aprimorar o Código Eleitoral. Tivemos progressos e retrocessos, mas é fundamental reconhecer que o Congresso vem cumprindo seu papel nesse assunto

Semana passada a Comissão de Constituição e Justiça do Senado aprovou o novo Código Eleitoral, consolidando sete legislações sobre o tema. Ele ainda terá que ser submetido ao plenário e, posteriormente, reenviado para a Câmara dos Deputados, sendo que, para valer nas eleições de 2026, precisará ser promulgado até o próximo dia 3 de outubro.

Infelizmente, uma das mudanças mais relevantes foi deixada de lado: a adoção do sistema distrital, puro ou misto, com as candidaturas sendo apresentadas à população em listas partidárias. Dessa forma, continuamos com a anomalia representada pelo sistema proporcional em que a maioria dos votos acaba sendo para quem não se elege, além de dificultar sobremaneira o controle social de cada mandato pelo eleitorado.

É hora de esmiuçar quem é o "andar de cima" do PCC, por Roberto Fonseca

Correio Braziliense

A megaoperação desta quinta-feira demonstrou que o foco deve ser a asfixia financeira, pois é o dinheiro que impulsiona a evolução e a expansão do crime

Como a italiana Mãos Limpas, a megaoperação Carbono Oculto, ao lado da Quasar e da Tank, tem tudo para ser um ponto de virada no combate ao crime organizado no Brasil. Mais do que uma simples ação policial, a operação desvendou a mais ambiciosa e sofisticada estratégia de uma organização criminosa que não se limita ao tráfico de drogas e à violência urbana. O que emergiu dessa investigação é a imagem de uma verdadeira máfia brasileira, que opera não nas vielas e morros, mas nas salas de diretoria de empresas e nos corredores do mercado financeiro.

É, sem dúvida, uma mudança de paradigma em relação à atuação do Estado. Ao atingir o "andar de cima" do crime organizado, como enfatizou o ministro Fernando Haddad, as autoridades demonstraram que o combate efetivo não se limita a prisões, mas à desarticulação dos esquemas financeiros. Essa abordagem é a única capaz de enfrentar uma organização que se comporta como uma empresa.

Direita facilita vida do crime, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Operação federal e paulista também deve chegar a políticos envolvidos com o crime

O ataque federal e paulista contra o PCC e seus associados foi a maior e a melhor notícia sobre o combate ao crime em décadas, a perder de vista no passado. Foi grande, bem pensada, recorreu a instrumentos técnicos inteligentes e acertou alvo certo, em investigação de mais de dois anos. Começou com a finança do crime, deve chegar a políticos estaduais e federais dos direitões.

Lamentáveis foram disputas mesquinhas a respeito de protagonismo, além de conflitos mais discretos, mas problemáticos, quanto a atribuições e prerrogativas de cada instituição envolvida na operação.

Esses ciúmes e até discordâncias legítimas são outro sinal de que um programa contra o crime ainda precisa de reorganização institucional. O país civilizado precisa chegar a algum acordo quanto à coordenação nacional.

Conivência do Congresso sobre devedor contumaz abriu brecha ao crime organizado, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Operação Carbono Oculto deixa claro que crime organizado se instalou na brecha legal sobre sonegação

Há oito anos, começaram a tramitar no Congresso os primeiros projetos para tipificação do devedor contumaz. Não são contribuintes inadimplentes ou sonegadores comuns. São contumazes. Quando autuados, passam a operar por outros CNPJs.

Na ausência desta tipificação, o crime organizado se espraiou pela economia formal, principalmente no setor de combustíveis, valendo-se, além da sonegação contumaz, de mercadoria desviada, depósitos clandestinos, fraudes nas alfândegas, venda fictícia e empresas fantasmas. A operação Carbono Oculto deixou claro que o crime organizado se instalou na brecha aberta aos devedores contumazes que contou com a conivência do freio parlamentar.

Operação mostra como PCC virou a máfia brasileira, por Igor Gielow

Folha de S. Paulo

Ação sobre infiltração econômica pode chegar a políticos; até diesel da Rússia foi alvo

Em 1931, agentes do Tesouro conseguiram o impossível: levaram o gângster mais famoso dos Estados Unidos, Al Capone, à cadeia por evasão fiscal. Os dólares falaram mais alto do que o sangue derramado nos incontáveis massacres ordenados pelo bandido.

A história foi romantizada por Hollywood em "Os Intocáveis", premiado filme de 1987, mas inspiração primária permanece para os candidatos a Eliot Ness, o opaco agente fiscal à frente da caça ao bandido.

O espírito de Ness permeia a Operação Carbono Oculto, da Receita Federal com apoio de forças policiais. Trabalhando de forma incisiva em frentes pouco usuais no mundo investigativo brasileiro, ela pretende ir além da captura de um vilão: busca explicitar o caráter de máfia da facção criminosa Primeiro Comando da Capital.

Operação exemplar une entes do Estado, por Míriam Leitão

 

O Globo

megaoperação contra o crime organizado deflagrada nesta quinta-feira mostra como é fundamental que as instâncias de poder no Brasil atuem conjuntamente. Nos diferentes níveis do Estado (governos estaduais, governo federal e suas várias agências), muitas vezes existe competição, e isso atrapalha o objetivo. Nesse caso, a Receita Federal trabalhou com a Polícia Federal.

O fio inicial foi a Receita desconfiar de lavagem de dinheiro em fintechs. Esse foi o ponto de partida para se descobrir esse esquema enorme. Isso reforça a importância da atuação coordenada. Ao menos 40 fundos de investimentos, com patrimônio de R$ 30 bilhões, controlados pelo PCC, financiaram a compra de um terminal portuário, quatro usinas produtoras de álcool (mais duas usinas em parceria ou em processo de aquisição), 1.600 caminhões para transporte de combustíveis e mais de 100 imóveis pelo Brasil.

Com que boné andas? Eu te direi quem és, por Ruth de Aquino

O Globo

"O Brasil é dos brasileiros" ou "MAGA - Make America Great Again" ? Escolha seu acessório para o verão

“O Brasil é dos brasileiros”. Ou dos americanos? Boné azul ou vermelho? O verão pré-eleição pode alçar o boné a acessório indispensável da moda praia, não pela proteção solar, mas pelo filtro ideológico. O MAGA – “Make America Great Again” – ameaça mofar nas prateleiras tropicais. Até o Tarcísio guardou seu boné no armário, depois que Eduardo o peitou.

Nessa guerra de egos, desconfio que ninguém com o boné vermelho MAGA do Trump tem condições de vencer a eleição presidencial do Brasil em 2026. Não sou estrategista política, mas está na cara – ou na cabeça – que o slogan trumpista se tornou tóxico por aqui após a chantagem do tarifaço. Reduziu em 50% as chances eleitorais da direita extremista e colonizada.

Lula usa e abusa, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Em campanha pela reeleição, presidente flerta abertamente com a transgressão às regras eleitorais

Se o uso que o presidente Luiz Inácio da Silva (PT) faz do cargo para alimentar a campanha à reeleição não é abuso de poder, adiante ficará difícil a Justiça Eleitoral dizer o que é.

Com precisão, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) tornou Jair Bolsonaro (PL) inelegível por entender como abusiva reunião do então presidente com embaixadores estrangeiros, nas dependências do Palácio do Planalto, para desqualificar o sistema eletrônico de votação.

A contribuição de Trump para a ciência, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Ataques do presidente à ordem estabelecida servirão para testar teses de economistas ligados à escola institucionalista

Donald Trump não é muito benquisto no mundo acadêmico, mas ele está prestando um serviço à ciência, mais especificamente à ciência econômica. É que sua administração ataca tantos aspectos da ordem estabelecida e de forma tão espetacular que ela pode, a exemplo de terremotos e outras calamidades, ser vista como um experimento natural, útil para testar as previsões de economistas institucionalistas.

quinta-feira, 28 de agosto de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Intervenção de Trump no Fed trará retrocesso

O Globo

Ao tentar demitir diretora, ele mina confiança no dólar e nas instituições americanas

É temerária a tentativa de Donald Trump de intervir no banco central americano, o Federal Reserve (Fed). Desde que assumiu o segundo mandato, ele tem pressionado publicamente o presidente do Fed, Jerome Powell, a baixar a taxa de juros. Chegou a cogitar demiti-lo, em desafio às regras que lhe garantem estabilidade no cargo até maio de 2026. Nesta semana, Trump anunciou que, em vez disso, demitirá a diretora Lisa Cook, cujo mandato acaba oficialmente em 2038, sob a alegação de que ela cometeu irregularidades em hipotecas imobiliárias (Cook nega). A intervenção de Trump abala a confiança na autoridade monetária dos Estados Unidos, com reflexos negativos em toda a economia global.

Passado, volver! Por Merval Pereira

 

O Globo

O que os parlamentares querem agora é uma blindagem mais completa. Montaram uma legislação que dará condições a que nenhum deles seja sequer processado, quanto mais condenado.

Em meio a uma das maiores crises políticas que o país já viveu, um grupo majoritário de parlamentares, sem que se possa dizer ser formado apenas por representantes da direita e do Centrão — a votação mostrará a cara da esquerda —, está empenhado em salvar a própria pele. Desmoralizando o presidente da Câmara, deputado Hugo Motta, que desmentiu o fato por três semanas, conseguiram programar para votação a mudança do foro privilegiado e os critérios para que sejam processados criminalmente.

Combinados, os dois projetos blindam os parlamentares, que dificilmente serão processados, pois a decisão final dependerá de autorização de seus pares. Se forem, terão foro privilegiado desde a primeira instância, podendo chegar ao Supremo depois de uma série de recursos, restando ainda um último apelo, ao plenário do STF, se condenados nas Turmas. A negociação do texto final entrou noite adentro, sem que a opinião pública soubesse os detalhes negociados.