sábado, 25 de abril de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Antagonizar Trump convém a Lula

Por Folha de S. Paulo

Petista, que já se beneficiou da oposição ao tarifaço, agora se vale da rejeição ampla à guerra no Irã

Segundo o Datafolha, 70% são contrários ao conflito; Flávio Bolsonaro terá dificuldade em se dissociar das trapalhadas do americano

O antiamericanismo, amparado em momentos da história nos quais Washington exerceu sua vocação colonialista na América Latina, tornou-se há muito muleta retórica da esquerda brasileira.

Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sempre manipulou tal sentimento com um misto de cinismo e pragmatismo. Enquanto o mundo rejeitava as guerras de George W. Bush, o petista fez do republicano um aliado próximo.

Com a volta de Donald Trump à Casa Branca, o conflito era esperado, já que seu direitismo populista sempre foi farol de Jair Bolsonaro (PL) e seguidores.

Tempos movediços, por Marco Aurélio Nogueira*

O Estado de S. Paulo

O mundo exige que saibamos pensar, agir e dialogar, articulando a luta pelo que é comum com a luta pela democracia

A derrota eleitoral de Viktor Orbán na Hungria, em 12 de abril de 2026, mostrou que governantes autoritários também são, um belo dia, alcançados pela fadiga de material.

Depois de 16 anos sucessivos no poder, o primeiro-ministro “iliberal” foi esmagado nas urnas. Do interior de seu círculo sombrio, marcado por dissidências e silêncios forçados, irrompeu Péter Magyar, flexível o suficiente para organizar uma coalizão política aberta ao centro.

Somado às patacoadas seriais de Donald Trump no mundo, o afastamento de Orbán quebrou uma das joias da coroa da extrema direita global. Não se sabe o que decorrerá disso, mas o fato mostra que a vida segue, driblando padrões tidos como fixos.

A situação mundial segue complexa e imprevisível. Está impulsionada por duas determinações perturbadoras.

O que um editorial não diz, por Vanessa Ribeiro Mateus*

O Estado de S. Paulo

Os magistrados brasileiros não têm privilégios, tampouco são os mais bem pagos do mundo

O debate sobre o regime remuneratório da magistratura e do Ministério Público resultou, nos últimos dias, em ataques infundados, que desviam a atenção dos verdadeiros problemas do Poder Judiciário. Defende-se a extinção de pagamentos legítimos, como se um juiz com o salário cortado pudesse, de repente, oferecer melhores serviços. Os magistrados brasileiros, ao contrário do propagado, não têm privilégios, tampouco são os mais bem pagos do mundo: a remuneração é simplesmente compatível com a responsabilidade da função – que incide sobre o futuro das pessoas – e com a demanda por justiça num país de conflitos sociais permanentes.

Julgar acarreta um custo pessoal elevadíssimo. Exemplo de fácil visualização é o dos juízes que lidam com o crime organizado. Ameaças à vida e à integridade física tornaram-se rotineiras, com duros impactos sobre a família do magistrado. Soma-se a isso a apreensão gerada pelas decorrências de uma sentença. Quem impõe a prisão de um agressor de mulheres, a obrigatoriedade do fornecimento de um remédio ou a oferta de um leito de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) não pode errar, nem se deixar influenciar pelos interesses e pressões das partes.

Um case do Supremo, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Gilmar Mendes botou o bloco na rua para defender – não o STF – a bancada de que é líder no Supremo. Quer reafirmar quem governa o tribunal; e sobretudo socorrer o senador-togado Delegado Xandão, o que equivale a proteger o instrumento de que não podem prescindir – o inquérito xandônico das fake news.

Não será exagero depreender, do conjunto concentrado de entrevistas, que o problema do STF, segundo o decano, seria a presidência de Fachin, cuja campanha por código de ética alimentaria o vilipêndio à Corte. Sempre se chega a este mesmo lugar, o do 8 de janeiro permanente, em que, golpe à espreita, mesmo modestas tentativas de autocorreção sobre as práticas dos ministros serão ataques aos nossos salvadores.

Trabalho que mata, por Flávia Oliveira

O Globo

Por ano, aproximadamente, 840 mil perdem a vida em decorrência dos riscos psicossociais da labuta

A Organização Internacional do Trabalho (OIT), em relatório apresentado no início da semana, jogou luz sobre mazela pouco diagnosticada, mas muito sentida (na pele) por pessoas ocupadas mundo afora. Por ano, aproximadamente, 840 mil perdem a vida em decorrência dos riscos psicossociais da labuta. Mais que viver para trabalhar, mulheres e homens morrem por trabalhar. Penam com doenças cardiovasculares e perturbações mentais, incluindo autoextermínio, provocadas por jornadas exaustivas, insegurança no emprego, exigências descabidas, bullying e assédio, entre outras formas de violência.

O truque do bem, por Thaís Oyama

O Globo

Deputada desloca a discussão de projeto que defende, longe de consensual, para o plano das virtudes universais

Poucas falácias têm prosperado tanto no Brasil quanto invocar um princípio universal para legitimar uma causa de interesse particular. A deputada Erika Hilton, do PSOL, recorre ao expediente quando diz que os críticos de versões do Projeto de Lei (PL) que criminaliza a misoginia tentam tirar “o direito das pessoas à informação” e “manipular o debate contra a luta das mulheres por um país menos violento”.

Ao deslocar a discussão de um projeto que ela defende, longe de consensual, para o plano das virtudes universais (não se tem notícia de que alguém seja contra um país menos violento, contra o direito à informação e a favor do feminicídio), ela rebaixa críticos da proposta à categoria de inimigos da civilidade. Mas não só.

Novíssimo Dicionário de Carioquês, por Eduardo Affonso

O Globo

Graças aos investimentos maciços na linguagem, a cidade não tem mais mendigos, apenas pessoas em situação de rua

Outono: Espécie de verão fora de época; definição aplicável também ao inverno e à primavera.

Faixa de pedestre: Pintura decorativa feita no asfalto para que os pedestres tenham o que admirar enquanto aguardam que um deus ex-machina providencie a redução do trânsito.

Amendoeira: Árvore fetiche da cidade, cantada em prosa e verso, que tem a dupla vantagem de fornecer frutos de escasso valor nutritivo para a fauna nativa e causar danos permanentes a calçadas, muros e tubulações. Só é removível quando desaba, durante um vendaval, destruindo fiação, veículos e tudo o mais que houver à sua volta.

Candidatos em desfile, por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

Este é o momento em que as coisas não são exatamente como aparentam ser. Há um jogo maior no sentido de impressionar a opinião pública

A campanha eleitoral começa a aparecer no horizonte político brasileiro. De várias maneiras. O ex-governador Romeu Zema, de Minas Gerais, candidatíssimo, abriu o verbo e atacou sem meias palavras os poderes dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Alguns deles, por sua vez, continuaram a exibir argumentos em momento que, dia a dia, se torna mais tenso. O governo Trump, que não perde oportunidade de cometer deslizes, despacha policial brasileiro de volta para casa. O presidente Lula enxerga no episódio momento especial para retaliar. Manda retirar credenciais de policial norte-americano que estava em Brasília. Brigar com Washington rende votos no Brasil.

Juventude, redes e extremismo, por Juliana Diniz

O Povo (CE)

Empresas privadas poderosas, com imensa capacidade de lucro e influência, têm moldado sistemas políticos, impactado eleições e transformado o trânsito dos valores na sociedade, redimensionando a juventude e a tolerância com a violência

Durante a semana, uma entrevista com o jovem influenciador norte-americano Nick Fuentes viralizou nas redes sociais, alcançando milhões de visualizações não só nos Estados Unidos, mas em países do arco de influência da democracia americana, como o Brasil. Na entrevista, Fuentes é indagado: que direito retiraria das mulheres se tivesse a chance? Sem titubear, ele afirma que começaria pelo direito ao voto.

Não será trivial Lula negar ajuda ao BRB, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Quando governadora do DF formalizar pedido de aval do Tesouro a empréstimo, presidente será forçado a decidir

Licença é semelhante à que o Tesouro concedeu aos Correios, estatal com histórico de corrupção e má gestão

Não será trivial para o presidente Lula negar o aval do Tesouro Nacional ao empréstimo de R$ 6,6 bilhões que o governo do Distrito Federal pleiteia junto ao Fundo Garantidor de Crédito para salvar o BRB em pleno ano eleitoral.

O senso comum leva a pensar que cabe ao BRB, que se meteu nas falcatruas do Master, sair dessa encrenca sozinho, sem impor ônus à União e ao contribuinte, ou sofrer intervenção do Banco Central.

Que tal uma constituinte exclusiva? Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Acuados, ministros do STF vão dando cada vez mais sinais de destempero

Não parece haver saída para a crise de credibilidade em que a corte se meteu

Não acho que o chilique de Gilmar Mendes com Romeu Zema, em que pese ter vitaminado o posicionamento do mineiro nas redes sociais, bastará para tornar sua candidatura presidencial uma alternativa realista à polarização. Aliás, nem sei se Zema pretende mesmo manter-se na disputa até o fim ou apenas tenta ganhar pontos para pleitear o posto de vice na chapa de Flávio Bolsonaro. Um dos muitos problemas do Brasil é que a direita sem o sobrenome Bolsonaro não foi capaz de colocar-se inequivocamente na defesa das instituições e rejeitar golpismos e anistias.

Sob Castro, Palácio Guanabara virou um puxadinho bolsonarista, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Horas antes de sua condenação, ex-governador destinou R$ 730 milhões a prefeitos aliados

Ex-ministro da Saúde, general Pazuello ensinou a 'logística' da multiplicação de cargos

Cláudio Castro é um desmemoriado. No tempo recorde de um mês, esqueceu que no dia 24 de março o TSE o condenou por uso indevido da máquina pública nas eleições de 2022.

Castro faz caras e bocas de coitadinho. Reclama do governador interino, o desembargador Ricardo Couto, que promove uma faxina no Palácio Guanabara, transformado pelo antigo ocupante num enorme comitê eleitoral bolsonarista, com ramificações no crime organizado —a crise institucional explodiu com a prisão do ex-presidente da Alerj Rodrigo Bacellar, candidato governista à sucessão acusado de envolvimento com o Comando Vermelho.

Pesquisas e a experiencia da vida como ela é, por Marcus Pestana

A raposa política disse: “há dois seres ansiosos na política, os políticos e os jornalistas que cobrem a política”. Todas as semanas somos bombardeados com números de pesquisas de opinião. Lideranças políticas, especialistas, jornalistas, esmeram-se em torturar os números e extrair conclusões brilhantes e definitivas. Cravam resultados inevitáveis, menosprezam candidatos, elegem precocemente vitoriosos.

Enquanto isso o eleitor médio comum toca a vida. Enfrenta a carestia no supermercado, encara a fila na unidade de saúde, pega o carro, o ônibus ou metrô para chegar ao trabalho, leva os filhos na escola, pensa em como melhorar a vida.

A república do medo, por Murillo de Aragão

Veja

O STF, o Congresso, o governo e a sociedade estão paralisados

Em coluna recente no Estadão, Fernando Schüler diagnosticou que nos tornamos uma sociedade do medo. O diagnóstico é preciso, mas pede ampliação: o medo que hoje nos define não é apenas aquele que a sociedade sente diante do crime. É o medo que atravessa o próprio aparelho do Estado, que habita gabinetes, plenários e antessalas das cortes superiores — e que, por isso mesmo, paralisa. É o medo que se instalou nas ruas por conta do crime organizado. Sociedade e estado paralisados pelo medo.

O Supremo temeu as CPIs e os vazamentos relacionados aos escândalos recentes. Ainda que protegido por fragilidades estruturais de fiscalização, teme que revelações possam vulnerar ainda mais a instituição. Por isso se defende com ataques, ações neutralizadoras e atua em tricô silencioso entre ministros, relatores e líderes partidários. Politizado ao extremo, o guardião da Constituição aprendeu a jogar xadrez preventivo com os outros Poderes, antecipando-se a ameaças reais ou imaginadas.

Três anos em trinta, por Cristovam Buarque

Veja

Os planos nacionais de educação são muito frágeis

A frase “50 anos em 5”, do tempo de Juscelino Kubitschek, simboliza o salto do Brasil para a industrialização. O governo da época elaborou um plano de desenvolvimento nacional com objetivos, estratégia, estrutura e ações federais de modo a fomentar o crescimento e a urbanização. Não é o que se pode dizer do resultado dos dois Planos Nacionais de Educação (PNEs), a partir de 1996.

As viagens de Lula, por Luiz Gonzaga Belluzzo

CartaCapital

O conflito social, sempre latente, foi revigorado no Brasil pelo avanço do atraso das classes dominantes e de seus seguidores

Em sua viagem à Europa – Espanha, Alemanha e Portugal –, nosso presidente Lula reafirmou, de modo enfático, seu compromisso com a democracia, o multilateralismo e o combate às desigualdades.

A Agência Brasil nos informa que as reuniões com os chefes de Estado da Espanha, da Alemanha e de Portugal abordaram questões relacionadas ao multilateralismo, incluindo a sucessão da Secretaria-Geral da ONU; desigualdades, com o Brasil defendendo a inclusão de aspectos relacionados à violência política e digital de gênero; e o combate à desinformação.

Os caminhos do debate político em curso, no Brasil, sugerem que a mediação democrática entre os dois polos que se digladiam está em risco. Diante dessa polarização e da forma como está evoluindo, é conveniente imaginar que a eleição de outubro possa acomodar as tensões. Essas tensões são a expressão política de um conflito social, sempre latente nas sociedades modernas urbano-industriais.

Os novos templários, por Jamil Chade

CartaCapital

O governo Trump transforma o Pentágono em um braço armado do nacionalismo cristão fundamentalista

embate entre Donald Trump e o papa Leão XIV tem gerado polêmica e a imagem do presidente norte-americano como Jesus causou indignação, mas a realidade é que os episódios são apenas a ponta do iceberg de um fenômeno muito mais profundo. Nos últimos meses, a administração do republicano tem adotado normas e medidas para permitir que o exército mais poderoso do mundo seja sequestrado por uma ala radical do cristianismo. Essa base não esconde a intenção de fazer do Pentágono o braço armado de um plano global de hegemonia de uma versão da fé cristã. O secretário de Guerra, Pete Hegseth, é considerado um dos líderes dessa ala e, não por acaso, leva tatuado no corpo lemas usados por guerreiros enviados às Cruzadas.

Por uma História do Partido Socialista Brasileiro, por Ricardo Marinho

Livro resenhado: Hecker, F. Alexandre. História do socialismo democrático brasileiro: o Rio de janeiro como centro produtor e difusor. São Paulo: Annablume, 2024. 394 p.

O livro de F. Alexandre Hecker é, hoje, o principal trabalho de história sobre o Partido Socialista Brasileiro (PSB). É o mais recente resultado de anos de pesquisa e estudos de textos e documentos que cobrem períodos da história brasileira. Nos períodos analisados por Alexandre Hecker, estamos sob a perspectiva do confronto pela democracia e da luta pela sua consolidação, em face das dificuldades vividas por um partido peculiar, dentro dos sistemas partidários, nos intervalos do segundo pós-guerra, de 1945-1946 a 1964, e, posteriormente, de 1985-1988 até os dias correntes. Período este em que o PSB se destaca pela atuação do Vice-Presidente da República, que também acumulou o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, diante da complexa conjuntura aberta pela Ordem Executiva 14257 do Presidente dos Estados Unidos (POTUS), bem como da Operação Fúria Épica, de 28 de fevereiro de 2026, no Irã.