Nas últimas décadas o Brasil se esmerou em
diversificar o elenco de alternativas para despistar o eleitor e tornar-lhe
difícil a tomada de decisões racionais e propriamente políticas na hora de
votar
Em alguns dias o eleitorado se defrontará,
com razoável consciência, com o dilema de decidir em quem votar. Não será o de
decidir entre candidatos de esquerda ou de direita. Aqui essas designações são
em boa parte rótulos. Para saber se alguém é de direita ou de esquerda é
preciso muito mais competência do que é próprio do nosso pobre senso comum.
O dilema será o de decidir qual é a fonte
legítima do perfil do candidato. Se pela biografia ou pela folha corrida. Temos
tido políticos, de biografias honradas e respeitáveis, de histórias pessoais
limpas e límpidas, provadas em funções políticas ao longo do tempo.
Outros, porém, se notabilizam por terem a
biografia reduzida a mera e suspeita folha corrida. Com anotações decorrentes
de processos de investigação motivados por dúvidas em relação não só a atos
fora das pautas límpidas da tradição, mas também por histórias cheias de
meandros sombrios e anômalos que as tornam suspeitas e que não recomendam seus
titulares ao exercício de poder em nome da democracia.
Expectativa é de que a apuração dos votos
revele um Congresso com a direita ainda mais fortalecida
A coluna quis saber de um consultor
experiente, que acompanha a política desde a “CPI do Collor” e que já viu de
tudo em Brasília, o que esperar do segundo turno da eleição presidencial, caso
a disputa não termine no domingo. Ele respondeu com outra pergunta: “Você se
lembra quem nocauteou Mike Tyson?”
Depois, prosseguiu: “A única certeza sobre
domingo é que o Brasil que sairá das urnas não será o mesmo”. A expectativa é
de que a apuração dos votos do primeiro turno, que indicarão as novas
composições do Senado e da Câmara dos Deputados, revele um Congresso com a
direita ainda mais fortalecida, mais dissonante do que convergente em relação
ao atual governo e mais combativa em relação ao Supremo Tribunal Federal (STF).
Isso porque a principal pauta dos candidatos de direita ao Senado foi o
compromisso com o impeachment de ministros do STF, começando por Alexandre de
Moraes. Dessa forma, se o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se
reeleger, no primeiro ou no segundo turno, terá de lidar com uma
governabilidade ainda mais precária do que a atual.
O saldo da campanha eleitoral em ternos de
propostas de governo é muito negativo; pode ser que, no segundo turno, as duas
visões de Brasil sirvam para discutir os problemas reais
A eleição brasileira chega à reta final sob pressão internacional, um cenário
muito diferente daquele de 2022. Há quatro anos, Joe Biden ocupava a Casa
Branca. Embora não fosse aliado ideológico de Lula, seu governo trabalhou para
desencorajar uma ruptura institucional e reconheceu rapidamente a vitória do
petista. O diretor da CIA chegou a ser enviado ao Brasil, antes da eleição,
para advertir Jair Bolsonaro contra a manipulação do processo eleitoral. Agora,
o sinal emitido por Washington mudou: o governo americano mantém afinidades
políticas com o bolsonarismo, e Lula enfrenta um ambiente regional cada vez
mais hostil.
No Senado, possível avanço da extrema direita
eleva risco de crise institucional em 2027
Mais de 120 milhões de brasileiros devem ir
às urnas no domingo. A maioria está preocupada com a disputa presidencial, mas
ainda não sabe em quem votar para o Congresso.
De acordo com o Datafolha, 57% dos eleitores
não escolheram candidato a deputado federal. Para o Senado, a incerteza também
é regra: 59% não decidiram em quem votar, e outros 14% só definiram o primeiro
dos dois votos a que têm direito.
O que acontece quando aprendemos sobre as
injustiças e, em vez de nos opormos a elas, nos rendemos, aceitando ser assim
que o mundo funciona? O filósofo Peter Sloterdijk chamou essa postura cínica de
“falsa consciência esclarecida”, uma consciência que aprendeu sobre os
problemas do mundo, mas se entregou ao estado de coisas denunciado.
Nesta semana, vimos críticos da desinformação
empregando todos os subterfúgios e estratagemas das campanhas de desinformação.
Deixarei para os juristas a discussão sobre se houve ou não violação da lei
eleitoral. Os efeitos sobre nossa cultura política me parecem mais importantes.
O boato de que Flávio Bolsonaro retiraria de
Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil é um caso de
livro-texto. A história começa com o boato plantado por um militante no
Twitter:
— Católico não vota em nenhum Bolsonaro e nem
em nenhum candidato que queira retirar o título de Nossa Senhora Aparecida de
Padroeira e Rainha do Brasil.
Na eleição mais acirrada de todos os tempos,
quem é o eleitor ou a eleitora que vai desempatar o jogo entre o presidente
Luiz Inácio Lula da Silva e o candidato do PL, Flávio Bolsonaro?
Dados da pesquisa Meio Ideia nos ajudam a
traçar um perfil daqueles que ainda estão indecisos e se tornaram o principal
palco de batalha da eleição.
Boa parte dessas pessoas são mulheres da
classe C, que vivem nas franjas das grandes cidades, principalmente São Paulo,
Rio e Belo Horizonte. Também existe um porcentual desses eleitores nos
arredores de Salvador e do Recife.
Os números nos ajudam a confirmar essa
hipótese. Entre os indecisos, 63,3% são mulheres, 44,1% da classe C e 51,3%
estão no Sudeste.
Perdem o presidente Lula, o senador Flávio,
os eleitores e, principalmente, a Justiça brasileira
O debate da TV Globo, o mais importante e
tradicional das eleições presidenciais há décadas, foi boicotado pelos dois
candidatos favoritos, e não só por eles, neste cada vez mais chocante 2026,
onde os absurdos se acumulam, numa disputa frenética sobre a autoridade mais
audaciosa ao produzi-los.
O presidente Lula já tinha dito que não iria
e, na última hora, Flávio Bolsonaro também decidiu cair fora, diante de duas
decisões bastante questionáveis, uma da ministra Estela Aranha, do TSE, outra
de Gilmar Mendes, do STF, supostamente, para dar “equilíbrio” de condições.
Zero a zero para Lula e Flávio. E as regras democráticas, onde ficam?
No domingo, vamos viver a nossa festa
democrática, com quase 160 milhões de eleitores chamados às urnas para celebrar
esse pacto entre o governo e o povo
Aqui em São Paulo, no Hospital Sírio-Libanês,
onde ainda me encontro brigando com uma indigesta pneumonia que resolveu me
perturbar nesta semana da eleição, mas já me preparando para voltar ao
Maranhão, escrevo estas apressadas linhas.
Nestes 41 anos da Nova República, exercemos a
democracia pelo voto do povo. No domingo próximo, dia 4, o país irá às urnas
para escolher seus representantes no Poder Executivo e nas Casas Legislativas,
estaduais e federais. Em quatro dos meus cinco anos na Presidência, realizamos
eleições: um dos meus primeiros atos ao assumir foi restaurar as eleições
diretas em todos os níveis no Brasil (Emenda Constitucional nº 25), uma vez que
o país estava saindo do regime de eleições indiretas via Colégio Eleitoral, que
Tancredo dizia serem as últimas a serem realizadas no Brasil. E foram.
Diante da interferência política da Justiça e das violações à Constituição e à liberdade de imprensa, a TV Globo tomou a única decisão cabível: cancelou o debate entre candidatos à Presidência da República previsto para hoje. Atendendo a uma demanda do PT, a ministra Estela Aranha, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), determinou horas antes do debate que a Globo retirasse do palco o púlpito reservado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que havia desistido de participar, e que impedisse os demais candidatos de dirigir perguntas ao púlpito vazio, como determinavam as regras. De acordo com a ata da reunião que estabeleceu tais regras, assinada por representantes de todas as campanhas – inclusive a de Lula –, caso algum candidato decidisse não comparecer, o púlpito ficaria vazio, e os demais teriam direito a dirigir uma pergunta por bloco ao ausente.
O pai dela, que governou entre 1995 e 2002,
foi um dos principais adversários políticos de Lula antes do surgimento do bolsonarismo,
na década passada.
Cálculo exclui brancos e nulos, como faz TSE
para declarar resultado; 17% dizem que ainda podem mudar de voto
Na simulação de 2ª rodada, presidente e filho
de Bolsonaro empatam com 48% e 45%, respectivamente
A corrida eleitoral de 2026 chega às vésperas
do primeiro turno com Lula (PT) somando
45% das intenções em votos válidos, que excluem brancos, nulos e indecisos,
ante 40% de Flávio
Bolsonaro (PL).
Já no segundo turno, em votos totais, há
empate técnico: 48% para o presidente e 45% para senador fluminense.
É o que aponta nova pesquisa do Datafolha,
realizada de terça-feira (29) a esta quinta (1º), com margem de erro de dois
pontos para mais ou para menos.
Há
uma semana, o petista tinha 43% de votos válidos no primeiro turno e 47% de
totais no segundo. Seu principal rival, 39% e 45%, respectivamente.
Disputa não muda faz um mês, indica
Datafolha; decisão de primeiro turno seria improvável
Resultado pode depender de corpo a corpo,
abstenção e dificuldades do eleitor mais pobre
A distância de Luiz Inácio Lula
da Silva (PT)
para Flávio
Bolsonaro (PL)
ficou na mesma desde o início de setembro, praticamente desde o início da
campanha em rádio e TV. Pela
aritmética dos dados da pesquisaDatafolha,
haveria segundo turno. Se a votação ocorresse nesta quinta, resultados
diferentes desses da pesquisa dependeriam do Imponderável da Silva, primo do
Sobrenatural de Almeida de Nelson Rodrigues, o responsável pelas derrotas do
Fluminense (o time do escritor).
Em suma, campanha corpo a corpo, um evento
digital viral ou alguma maluquice extra dos tribunais ditos superiores podem
render décimos relevantes. Mais sobre isso mais adiante. O que se pode dizer
com certeza é o que não será relevante, pois não vai acontecer.
Democracia não se presta a favorecer boas
escolhas para governantes
Possibilidade real de eleição do candidato do
PL é a melhor prova disso
O ponto forte da democracia é assegurar que
governantes reprovados nas urnas entreguem o poder pacificamente, não favorecer
a escolha de bons líderes —o que, infelizmente, ela não faz. A melhor prova
disso é a possibilidade
muito real de Flávio
Bolsonaro (PL)
ser eleito presidente da República.
O currículo do senador e candidato é uma
longa sucessão de
suspeitas. Começa com as rachadinhas, na Alerj, passa pela incrível
loja de chocolates que, ao contrário de todo o mercado, não via suas vendas
majoradas na Páscoa e pela compra de uma mansão em Brasília por valor
incompatível com seus rendimentos e patrimônio conhecidos. A história de como
as cortes superiores abortaram essas investigações está por ser contada. A
escalada de desconfianças culmina no singelo pedido de R$ 134 milhões ao
famigerado Daniel
Vorcaro. Tirando as suspeitas, o que salta aos olhos no currículo de
Flávio Bolsonaro são suas ligações com milicianos.
'A Vida de Galileu' parte da biografia do
físico italiano para promover reflexão sobre a defesa da verdade
Questões levantadas por Brecht fazem pensar
em temas contemporâneos como a regulação da IA
Concluí recentemente a leitura de "A
Vida de Galileu", do poeta e dramaturgo alemão Bertolt Brecht
(1898-1956).
Escrita originalmente no final da década de
1930, durante o exílio de Brecht na Dinamarca, a peça narra a trajetória do
físico italiano Galileu Galilei (1564-1642). Galileu foi julgado pela
Inquisição em Roma por defender, com base nas suas observações astronômicas, o
modelo heliocêntrico de Nicolau
Copérnico (1473-1543) e levado a abjurar as suas posições.
A peça de Brecht parte de elementos da
biografia de Galileu não apenas para reconstruir certos eventos com alguma
fidelidade, mas também para fazer o público refletir sobre questões urgentes do
seu próprio tempo, como o papel social da ciência e a problemática relação
entre indivíduo e autoridade.
Lula se recusa mais uma vez a participar de
confronto televisivo, e Flávio foge à tarefa de ser propositivo
O país está diante de uma escolha difícil
entre um duro ajuste dos gastos públicos e o risco de agravamento do estresse
financeiro
A decisão de Luiz Inácio Lula
da Silva (PT)
de não
participar do derradeiro debate televisivo da campanha presidencial
deste ano —e, assim, de nenhum confronto aberto de ideias antes do primeiro
turno— evidencia o descaso com o eleitor. Não se pode dizer, infelizmente, que
essa seja a única, ou mesmo a maior, mostra da degradação da disputa política
nacional.
Flávio
Bolsonaro (PL),
que na condição de principal postulante oposicionista teria a obrigação de ser
mais propositivo, passou a campanha ora fazendo críticas demagógicas ao custo
de vida, como se tivesse o poder de fazer os preços baixarem, ora inventando
desculpas esfarrapadas para a revelação de suas relações de
afeto com o corruptor Daniel Vorcaro.
A indigência do cotejo de programas é o
efeito nefasto de uma corrida em que a estratégia mais relevante de cada um dos
candidatos competitivos consiste em explorar a enorme rejeição ao adversário. É
fato que, em pleitos passados, temas incômodos já foram tratados à base de
platitudes e tergiversações; hoje, porém, são quase ignorados.
Quatro em cada dez eleitores não têm Lula ou
Flávio na ponta da língua. Quer melhoria de vida, mas, nesse tiroteio, terá que
escapar de bala perdida
A 72 horas do início da votação, quatro em
cada dez eleitores não têm o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ou o senador
Flávio Bolsonaro na ponta da língua. São brasileiros que não apenas não sabem
quem são Daniel Vorcaro ou Roberta Luchsinger, como tampouco têm qualquer
interesse nos personagens. A decisão acontece na virada do mês que mal deram
conta de fechar, uma grande parte deles, no prejuízo.
O eleitor típico desta escolha derradeira é
mulher, católica, do Sudeste e da classe C (renda familiar de R$ 2 mil a R$ 8
mil). Este é um perfil que tem-se repetido ao longo das últimas disputas.
Trata-se de um eleitor que é mais dificilmente captado pelas pesquisas, seja
porque não para pra responder quando é abordado na rua e não abre sua casa para
pesquisador, seja porque desliga quando recebe uma ligação. Dez anos atrás era
preciso fazer 15 chamadas para que se conseguisse um questionário completo.
Agora são, em média, 300.
As polêmicas eleitorais foram deslocadas para o
terreno institucional e ideológico: a crise do Supremo, o caso Master, as
intervenções da Justiça Eleitoral e a exploração da religião
Lula foi mal no debate do segundo turno da TV Bandeirantes nas eleições de
1989, contra Fernando Collor de Mello, na avaliação de muitos dos próprios
petistas. Fora surpreendido por uma referência cifrada a um aparelho de som
“três em um” — rádio, vitrola e toca-fitas — que teria dado de presente a uma
ex-namorada. Segundo o relato, a história chegara ao conhecimento de Marisa
Letícia às vésperas do confronto, provocando uma crise doméstica. Lula já havia
sido alvejado pela exploração eleitoral de seu relacionamento com Miriam
Cordeiro, mãe de sua filha Lurian. Chegou aos estúdios da Bandeirantes cansado
e despreparado, segundo Gilberto Carvalho, um dos coordenadores da campanha.
Guinada aparece em materiais que a campanha
passou a distribuir, com propostas mais rígidas no enfrentamento à
criminalidade
A campanha do presidente Luiz Inácio Lula
da Silva (PT) endureceu o discurso sobre segurança pública às vésperas do
primeiro turno, numa tentativa de atrair indecisos e o eleitor de centro e de
desgastar o senador Flávio
Bolsonaro (PL-RJ), adversário do petista na disputa pela Presidência.
Pesquisa Quaest divulgada em agosto mostrou que a violência é a principal
preocupação dos eleitores, com 33% de menções.
A guinada aparece em materiais que a campanha
passou a distribuir, como uma lista com 13 propostas por "mais firmeza
contra o crime". Uma delas endurece regras para a liberação de presos por
crimes violentos após audiência de custódia, numa mudança de tom em relação ao
que a esquerda defende historicamente. O conteúdo também defende mais câmeras
corporais em policiais, ampliação do programa Celular Seguro e construção de
novos presídios federais, entre outros pontos.
Além disso, foi divulgado um vídeo que
apresenta tom mais duro no combate à criminalidade, ao mostrar quatro homens
atrás das grades e falar em "quatro inimigos" que precisam ser
vencidos: "Os traficantes, os agressores de mulheres, os ladrões de
celular e os magnatas do crime". Outra peça no horário eleitoral mostra
uma mulher caminhando pela rua acompanhada do filho, desviando de munições e
exibindo a frase "a família Bolsonaro deixou o Brasil mais violento"
para criticar a flexibilização da política armamentista implementada no governo
passado.
O sentimento do presidente é mais de soberba
que de receio. Ele acha um absurdo estar empatado com Flávio e expor-se a ser
criticado por todos os outros candidatos que têm hoje quase traço nas
pesquisas.
O presidente Lula já teve a experiência, em
outra encarnação presidencial, de faltar a um debate da Globo às vésperas da
eleição presidencial. Foi em 2006, quando o escândalo do mensalão pôs em risco
sua reeleição. Sua cadeira ficou vazia pela primeira vez, e o efeito visual foi
grande. Além disso, os demais candidatos, especialmente o hoje seu
vice-presidente, Geraldo Alckmin, na época um dos líderes tucanos,
aproveitaram-se da situação para criticá-lo. A resposta do eleitorado foi
imediata: Alckmin obteve surpreendentes 40% dos votos no primeiro turno,
deixando tontos os petistas.
Supremo apareceu não porque foi provocado a
agir. Entrou de maneira deliberada, para tentar garantir a sobrevivência
Na terça-feira, o presidente Lula
telefonou de cima de um palanque para o ministro Flávio Dino
em plena campanha eleitoral. Estava em Belém e queria parabenizá-lo por um
projeto criado por Dino, enquanto senador, que prevê controle de qualidade dos
serviços prestados pelos hospitais privados. A iniciativa do ministro,
sancionada por Lula, ocorreu depois da trágica morte do filho dele, de 13 anos,
durante atendimento num hospital privado de Brasília.
Para além da importância da matéria
sancionada, a imagem sintetiza o que foi a campanha de 2026. Uma confusão entre
política, candidatos e ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Tudo junto
e misturado. Uma disputa eleitoral em que se falou muito pouco sobre o que
aflige os eleitores ou o que é fundamental para um projeto de país. Mas foi
dominada pelo STF, que entrou com os dois pés na eleição.
A explicação para o crescimento da dívida
pública não pode ser política ou simplista. Não dá para apenas culpar o governo
ou os altos juros
A dívida pública subiu e ronda o país. Mas
para entender direito o que tem acontecido é preciso se desligar das paixões
políticas. A dívida subiu 11 pontos percentuais no governo Lula e chegou a 83%
do PIB. No período Bolsonaro, chegou ao recorde de 87,66% e caiu no fim do
governo para 71,7%. A queda naquela época foi o resultado de um truque contábil
e dois fatores conjunturais favoráveis. O mandato Lula tem ampliado os gastos
nesta reta final da campanha e isso é ruim. Porém, não é a despesa que explica
toda a alta da dívida pública.
Muita gente aí do seu lado celebra por
antecipação o vislumbre de que ‘aquilo a que odeia’ será destruído
A frase foi escrita por Baruch Espinosa (ou,
se você preferir, Benedictus de Spinoza), no livro Ética: “Quem imagina que
aquilo a que odeia é destruído, se alegrará”. É a proposição de número 20 da
parte terceira desse clássico essencial. Isso mesmo: o ódio alegra os viventes.
Espinosa nasceu no dia 24 de novembro (data
boa) de 1632, em Amsterdã, numa família de origem judaico-portuguesa (falava o
nosso idioma), e morreu em Haia, aos 44 anos. Esse tempo lhe bastou. Ninguém,
como ele, escrutinou as afecções do espírito que nos aprisiona. Ninguém, como
ele, ensinou que o ódio é inimigo do pensamento e da felicidade. Ninguém, como
ele, foi tão incompreendido.
Salvo o imprevisível a 48 horas das eleições,
o que parece pesar mais são fatores amplos e fora do controle. A saber:
abstenção e a “temperatura”, ou “percepção”, ou “sentimento” em relação à
economia.
Sim, a definição da situação de empate
ocorrerá dentro do que se previa. Junto a uma pequena parcela do eleitorado
concentrada no Sudeste. Como Lula sai mais prejudicado (em termos relativos)
pela taxa de abstenção no Nordeste, a diferença que ele precisa buscar está no
eleitorado mais “sensível”, digamos assim, ao famoso “feel good factor”.
Não importa tanto a camada social, esse
sentimento é contrário ao incumbente, tal como captado em sucessivas pesquisas.
Ele sugere um estado de espírito disseminado segundo o qual tudo é difícil e
caro. Os economistas constatam que a renda aumentou, mas a renda disponível,
não.
Ministros do tribunal se encontram antes das
sessões para tomar café em ambiente tenso
Nos dias de sessão, antes de entrarem no
plenário, os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) se encontram em uma
espécie de antessala. Um biombo de madeira confere alguma privacidade às
conversas diante de uma grande mesa redonda. São servidos café e petiscos. A
crise na Corte alcançou esse espaço e mudou a forma como os ministros interagem
nele.
Se na sessão do dia 15 os ministros trocaram
acusações aos gritos; longe das câmeras da TV Justiça, a atmosfera também está
ruim, mas de um jeito diferente. A sala de lanches, de onde era possível ouvir
gargalhadas, ficou mais silenciosa e menos frequentada. Cármen Lúcia, por
exemplo, evita encontrar os colegas no ambiente. Na semana passada, o clima
estava “ameno”, segundo um dos presentes. Edson Fachin, Cristiano Zanin,
Alexandre de Moraes, Dias Toffoli, André Mendonça, Luiz Fux, Kassio Nunes
Marques e o procurador-geral da República, Paulo Gonet, se encontraram na
antessala.
Voto que ignora tudo de mais cruel e sinistro
no país também ofende a Cristo
Mas tenho direito à ignorância e sou livre
para renunciar à minha liberdade
Eu posso ignorar que Flávio
Bolsonaro alimenta uma perigosa semente de guerra religiosa ao
anunciar que seu primeiro ato, se eleito, será decretar "Brasil é do
Senhor Jesus
Cristo". Guerra dentro do próprio cristianismo.
Posso ignorar que o pastor JB Carvalho,
fundador da igreja onde Flávio foi batizado em 2023, acusa prostituição
religiosa da Igreja Católica, e que o pastor Victório Galli, ex-deputado e
assessor de Jair, apresentou projeto de lei para retirar de Nossa Senhora
Aparecida o título de Padroeira do Brasil. Posso ignorar o ataque a bispos da CNBB
e os riscos à liberdade religiosa.
Posso ignorar o desprezo de Flávio por
mulheres, sua rejeição à Lei Maria da
Penha, seu orgulho de "não ser feministo" e de lutar
apenas por "mulheres de verdade". Posso ignorar correntes
bolsonaristas que se opõem ao voto feminino, que ganham tração nos porões
extremistas do Brasil e dos Estados
Unidos.
Eduardo diz que haverá 'faxina' no órgão se
irmão for eleito
E há o risco de a promessa se alastrar para
outros órgãos, como PF e BC
Duas reportagens
de Patrícia Campos Mello publicadas
nesta quarta (30) na Folha detalham como seria a política externa de Flávio
Bolsonaro, se eleito.
Depois do isolacionismo implementado durante
o governo de seu pai, Jair Bolsonaro, a equipe de Flávio buscará, se
bem-sucedida nas eleições, intensificar o alinhamento aos EUA, no estilo e na
condução da política externa. O projeto possui um codinome: "reforma do
Marco Rubio", referência ao belicoso secretário de Estado americano.
Campanha de 2010 também teve questão
religiosa oportunista; 2026 é muito pior
Selvageria que tira carne e medula do osso
das instituições é a nova regra do jogo
A eleição para presidente de 2010 teve
"guerra santa". Era um indício de que o caldo político começava a
azedar. A gente não sabia então que se tratava do começo do caminho para o fim
da picada.
Direitas optaram por entregar liderança à sua
facção mais autoritária
Esquerdas têm que oferecer tradução renovada
de seus compromissos
O presidente Lula, seu vice, Geraldo
Alckmin, e o ex-governador de Goiás e candidato, Ronaldo Caiado, são os
três últimos políticos de projeção nacional que participaram da Constituinte de
1987-88. Todos os seus contemporâneos já saíram de cena. Esta será, por assim
dizer, a última eleição da Nova República.
As direitas, em transição geracional, optaram
por entregar a liderança à sua facção mais autoritária e mais descomprometida
com a democracia e as conquistas sociais dos últimos 40 anos. Tendo, enfim,
produzido um líder popular, capaz de transferir votos a seu filho, o direitismo
prefere correr com ele o risco de levar o país a parte alguma.
Por suas declarações em palanques, é como se
Flávio Bolsonaro estivesse fazendo negócios com Deus
Um deles é o de que vai terceirizar seu
mandato, entregando-o às mãos de Jesus; pode isso, Arnaldo?
Vivendo e aprendendo. Sempre ouvimos dizer
que cargos políticos eram laicos e que Deus nunca se rebaixaria a se misturar
com gente que pede votos a quem no fundo despreza. Mas, pelo visto, não é mais
assim. Flávio
Bolsonaro contratou Deus como cabo eleitoral e usa seu santo nome em
comícios, passeatas e sabe-se mais por onde anda como candidato à Presidência.
E, ao que parece, é um contrato de exclusividade. Só ele pode invocar Deus e,
se quiser, até prometer-lhe um ministério. Eis alguns exemplos.
"Deus está me preparando há 24 anos para
ser presidente do Brasil." É um de seus motes favoritos. Significa que foi
Deus quem o ensinou a extorquir servidores, condecorar milicianos, mentir como
quem respira e suplicar
dinheiro a Daniel Vorcaro. "Acredito que Deus colocou uma ‘missão’ em
minha vida." Deixa implícito que sua candidatura atende a um chamado de
ordem espiritual e que Deus viu nele um novo Cristo, quem sabe até com uma
midiática crucificação.
Imaginação pútrida do presidente deixa os EUA
expostos a vírus perigosos: digitais, biológicos e diplomáticos
Algo ruim vai nos acontecer como resultado
disso
Donald Trump
é um ser humano tão horrível que até escrever sobre ele parece degradante. Que
presidente menosprezaria seu antecessor diante do líder da China da maneira
como Trump zombou de Joe Biden, que agora sofre de câncer, ao apontar que um
quadro com a imagem de uma caneta automática estava pendurado na Casa Branca no
lugar do retrato de Biden?
Infelizmente, porém, quando alguém tão
moralmente deformado quanto Trump —cujo primeiro secretário de Estado o chamou
de "idiota"— assume tanto poder sem qualquer controle no alvorecer da
Era da Inteligência
Artificial, não se pode ignorá-lo.
Porque, neste momento, Trump está deixando os
Estados
Unidos expostos a vírus perigosos: digitais, biológicos e diplomáticos.
Algo ruim vai nos acontecer como resultado disso. Nós e nossos filhos pagaremos
por isso, e não apenas na hora de abastecer o carro.
Cinco anos atrás, uma percepção do economista
francês Thomas Piketty, 55 anos, rodou o planeta. Ela defendia que o mundo
estava em condições parecidas às que desaguaram na Revolução
Francesa, no fim do século 18: uma desigualdade extrema em que
elites riquíssimas (a nobreza daquela França) viviam às custas de uma multidão
de pessoas em situações precárias.
Era mais um alerta do
que uma comparação, porque, sempre que isso aconteceu na história, o resultado
foi uma grave crise política capaz de mudar o rumo das coisas.
"Em muitos
sentidos, [a situação] piorou" nesse intervalo de meia década, sentencia
ele agora à BBC News Brasil.
"Estamos em um
período repleto de distopias. Os tecnobilionários, os tecnonacionalistas estão
elaborando visões malucas sobre o futuro", diz ele, alertando para
"uma visão trumpista do futuro que não está funcionando, que não resolve problemas
de desenvolvimento, de meio ambiente, que precisamos resolver".
Piketty retornou à
cena global em junho com um conjunto audacioso de propostas reunidas no
Relatório de Justiça Global. É o resultado do esforço conjunto de uma equipe
liderada por ele, no World Inequality Lab, da Paris School of Economics, na
capital francesa, que se debruçou sobre dados sociais e econômicos de vários
países ao longo dos últimos anos.
No total, cerca de 50 pessoas trabalharam no
estudo, que elaborou propostas como criar uma moeda única internacional, gerida
pela Organização das Nações Unidas (ONU), em substituição ao dólar, e
impulsionar políticas globais que nivelem a renda per capita global em 5 mil euros (cerca de R$ 29 mil,
na cotação do final de setembro) até 2100.
O relatório também
propõe que, até lá, o total de horas de trabalho, na média internacional,
cairia para menos da metade, com um deslocamento das funções ligadas à produção
de alimentos para os setores de educação e saúde.
Além disso, há
propostas historicamente ligadas às pesquisas de Piketty — que se tornou
famoso, nos anos 2010, com seu O
capital no século XXI (Intrínseca, 2013) – como a criação de um imposto
global sobre a riqueza e, especialmente, sobre fortunas dos bilionários.
E aí que, para ele, o Brasil exerce um papel
central. Em 2024, durante a reunião do G20, no Rio de Janeiro, o país conseguiu
incluir uma menção inédita à importância de tributar os super-ricos no
comunicado final da Cúpula, apesar da dura resistência argentina.
Nos fóruns que se
seguiram, a diplomacia brasileira seguiu reforçando o projeto, como nas rodadas
de negociação, no âmbito da ONU, por um sistema tributário internacional. A
próxima reunião do grupo será realizada entre novembro e dezembro, no Quênia.
"Será muito
triste para o próprio país tanto quanto para o mundo se o Brasil seguir na
direção desse nacionalismo trumpista em algumas semanas [nas eleições].
Precisamos do Brasil contribuindo para reconstruir o sistema monetário,
econômico internacional em um sentido mais inclusivo, igualitário, democrático
e consciente sobre o clima", diz.
A seguir, trechos da
entrevista que Thomas Piketty concedeu à BBC News Brasil alguns dias antes do
primeiro turno da eleição presidencial brasileira.