sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Entre biografias e folhas corridas, por José de Souza Martins*

Valor Econômico

Nas últimas décadas o Brasil se esmerou em diversificar o elenco de alternativas para despistar o eleitor e tornar-lhe difícil a tomada de decisões racionais e propriamente políticas na hora de votar

Em alguns dias o eleitorado se defrontará, com razoável consciência, com o dilema de decidir em quem votar. Não será o de decidir entre candidatos de esquerda ou de direita. Aqui essas designações são em boa parte rótulos. Para saber se alguém é de direita ou de esquerda é preciso muito mais competência do que é próprio do nosso pobre senso comum.

O dilema será o de decidir qual é a fonte legítima do perfil do candidato. Se pela biografia ou pela folha corrida. Temos tido políticos, de biografias honradas e respeitáveis, de histórias pessoais limpas e límpidas, provadas em funções políticas ao longo do tempo.

Outros, porém, se notabilizam por terem a biografia reduzida a mera e suspeita folha corrida. Com anotações decorrentes de processos de investigação motivados por dúvidas em relação não só a atos fora das pautas límpidas da tradição, mas também por histórias cheias de meandros sombrios e anômalos que as tornam suspeitas e que não recomendam seus titulares ao exercício de poder em nome da democracia.

Eleição terá Lula contra Lula neste domingo, por Andrea Jubé

Valor Econômico

Expectativa é de que a apuração dos votos revele um Congresso com a direita ainda mais fortalecida

A coluna quis saber de um consultor experiente, que acompanha a política desde a “CPI do Collor” e que já viu de tudo em Brasília, o que esperar do segundo turno da eleição presidencial, caso a disputa não termine no domingo. Ele respondeu com outra pergunta: “Você se lembra quem nocauteou Mike Tyson?”

Depois, prosseguiu: “A única certeza sobre domingo é que o Brasil que sairá das urnas não será o mesmo”. A expectativa é de que a apuração dos votos do primeiro turno, que indicarão as novas composições do Senado e da Câmara dos Deputados, revele um Congresso com a direita ainda mais fortalecida, mais dissonante do que convergente em relação ao atual governo e mais combativa em relação ao Supremo Tribunal Federal (STF). Isso porque a principal pauta dos candidatos de direita ao Senado foi o compromisso com o impeachment de ministros do STF, começando por Alexandre de Moraes. Dessa forma, se o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se reeleger, no primeiro ou no segundo turno, terá de lidar com uma governabilidade ainda mais precária do que a atual.

Fator externo complica vida de Lula; para oposição, pode ser a vantagem, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O saldo da campanha eleitoral em ternos de propostas de governo é muito negativo; pode ser que, no segundo turno, as duas visões de Brasil sirvam para discutir os problemas reais

A eleição brasileira chega à reta final sob pressão internacional, um cenário muito diferente daquele de 2022. Há quatro anos, Joe Biden ocupava a Casa Branca. Embora não fosse aliado ideológico de Lula, seu governo trabalhou para desencorajar uma ruptura institucional e reconheceu rapidamente a vitória do petista. O diretor da CIA chegou a ser enviado ao Brasil, antes da eleição, para advertir Jair Bolsonaro contra a manipulação do processo eleitoral. Agora, o sinal emitido por Washington mudou: o governo americano mantém afinidades políticas com o bolsonarismo, e Lula enfrenta um ambiente regional cada vez mais hostil.

A eleição invisível, por Bernardo Mello Franco

O Globo

No Senado, possível avanço da extrema direita eleva risco de crise institucional em 2027

Mais de 120 milhões de brasileiros devem ir às urnas no domingo. A maioria está preocupada com a disputa presidencial, mas ainda não sabe em quem votar para o Congresso.

De acordo com o Datafolha, 57% dos eleitores não escolheram candidato a deputado federal. Para o Senado, a incerteza também é regra: 59% não decidiram em quem votar, e outros 14% só definiram o primeiro dos dois votos a que têm direito.

Um mundo mais cínico, por Pablo Ortellado

O Globo

O que acontece quando aprendemos sobre as injustiças e, em vez de nos opormos a elas, nos rendemos, aceitando ser assim que o mundo funciona? O filósofo Peter Sloterdijk chamou essa postura cínica de “falsa consciência esclarecida”, uma consciência que aprendeu sobre os problemas do mundo, mas se entregou ao estado de coisas denunciado.

Nesta semana, vimos críticos da desinformação empregando todos os subterfúgios e estratagemas das campanhas de desinformação. Deixarei para os juristas a discussão sobre se houve ou não violação da lei eleitoral. Os efeitos sobre nossa cultura política me parecem mais importantes.

O boato de que Flávio Bolsonaro retiraria de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil é um caso de livro-texto. A história começa com o boato plantado por um militante no Twitter:

— Católico não vota em nenhum Bolsonaro e nem em nenhum candidato que queira retirar o título de Nossa Senhora Aparecida de Padroeira e Rainha do Brasil.

Quem vai desempatar o jogo? Por Raquel Landim

O Estado de S. Paulo

Na eleição mais acirrada de todos os tempos, quem é o eleitor ou a eleitora que vai desempatar o jogo entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o candidato do PL, Flávio Bolsonaro?

Dados da pesquisa Meio Ideia nos ajudam a traçar um perfil daqueles que ainda estão indecisos e se tornaram o principal palco de batalha da eleição.

Boa parte dessas pessoas são mulheres da classe C, que vivem nas franjas das grandes cidades, principalmente São Paulo, Rio e Belo Horizonte. Também existe um porcentual desses eleitores nos arredores de Salvador e do Recife.

Os números nos ajudam a confirmar essa hipótese. Entre os indecisos, 63,3% são mulheres, 44,1% da classe C e 51,3% estão no Sudeste.

STF e TSE boicotam debate, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Perdem o presidente Lula, o senador Flávio, os eleitores e, principalmente, a Justiça brasileira

O debate da TV Globo, o mais importante e tradicional das eleições presidenciais há décadas, foi boicotado pelos dois candidatos favoritos, e não só por eles, neste cada vez mais chocante 2026, onde os absurdos se acumulam, numa disputa frenética sobre a autoridade mais audaciosa ao produzi-los.

O presidente Lula já tinha dito que não iria e, na última hora, Flávio Bolsonaro também decidiu cair fora, diante de duas decisões bastante questionáveis, uma da ministra Estela Aranha, do TSE, outra de Gilmar Mendes, do STF, supostamente, para dar “equilíbrio” de condições. Zero a zero para Lula e Flávio. E as regras democráticas, onde ficam?

Democracia de massa, por José Sarney*

Correio Braziliense

No domingo, vamos viver a nossa festa democrática, com quase 160 milhões de eleitores chamados às urnas para celebrar esse pacto entre o governo e o povo

Aqui em São Paulo, no Hospital Sírio-Libanês, onde ainda me encontro brigando com uma indigesta pneumonia que resolveu me perturbar nesta semana da eleição, mas já me preparando para voltar ao Maranhão, escrevo estas apressadas linhas.

Nestes 41 anos da Nova República, exercemos a democracia pelo voto do povo. No domingo próximo, dia 4, o país irá às urnas para escolher seus representantes no Poder Executivo e nas Casas Legislativas, estaduais e federais. Em quatro dos meus cinco anos na Presidência, realizamos eleições: um dos meus primeiros atos ao assumir foi restaurar as eleições diretas em todos os níveis no Brasil (Emenda Constitucional nº 25), uma vez que o país estava saindo do regime de eleições indiretas via Colégio Eleitoral, que Tancredo dizia serem as últimas a serem realizadas no Brasil. E foram.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Sem liberdade não há debate

Por O Globo

Diante da interferência política da Justiça e das violações à Constituição e à liberdade de imprensa, a TV Globo tomou a única decisão cabível: cancelou o debate entre candidatos à Presidência da República previsto para hoje. Atendendo a uma demanda do PT, a ministra Estela Aranha, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), determinou horas antes do debate que a Globo retirasse do palco o púlpito reservado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que havia desistido de participar, e que impedisse os demais candidatos de dirigir perguntas ao púlpito vazio, como determinavam as regras. De acordo com a ata da reunião que estabeleceu tais regras, assinada por representantes de todas as campanhas – inclusive a de Lula –, caso algum candidato decidisse não comparecer, o púlpito ficaria vazio, e os demais teriam direito a dirigir uma pergunta por bloco ao ausente.

Filha de FHC declara voto em Lula e cita defesa da democracia, por Gabriela Echenique

Folha de S. Paulo

Beatriz Cardoso afirma que valor democrático é indispensável para 'sociedade mais justa'

Declaração reforça posicionamento público adotado no segundo turno de 2022, quando Lula disputava com Jair Bolsonaro

Filha do ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso, Beatriz Cardoso declarou que votará em Lula (PT) nesta eleição e que escolheu defender a democracia brasileira.

O pai dela, que governou entre 1995 e 2002, foi um dos principais adversários políticos de Lula antes do surgimento do bolsonarismo, na década passada.

Datafolha: Lula tem 45% e Flávio Bolsonaro, 40% em votos válidos no 1º turno, por Igor Gielow

Folha de S. Paulo

Cálculo exclui brancos e nulos, como faz TSE para declarar resultado; 17% dizem que ainda podem mudar de voto

Na simulação de 2ª rodada, presidente e filho de Bolsonaro empatam com 48% e 45%, respectivamente

A corrida eleitoral de 2026 chega às vésperas do primeiro turno com Lula (PT) somando 45% das intenções em votos válidos, que excluem brancos, nulos e indecisos, ante 40% de Flávio Bolsonaro (PL).

Já no segundo turno, em votos totais, há empate técnico: 48% para o presidente e 45% para senador fluminense.

É o que aponta nova pesquisa do Datafolha, realizada de terça-feira (29) a esta quinta (1º), com margem de erro de dois pontos para mais ou para menos.

Há uma semana, o petista tinha 43% de votos válidos no primeiro turno e 47% de totais no segundo. Seu principal rival, 39% e 45%, respectivamente.

O imponderável, as omissões, as baixezas e os azares que podem definir a eleição acirrada, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Disputa não muda faz um mês, indica Datafolha; decisão de primeiro turno seria improvável

Resultado pode depender de corpo a corpo, abstenção e dificuldades do eleitor mais pobre

A distância de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para Flávio Bolsonaro (PL) ficou na mesma desde o início de setembro, praticamente desde o início da campanha em rádio e TV. Pela aritmética dos dados da pesquisa Datafolha, haveria segundo turno. Se a votação ocorresse nesta quinta, resultados diferentes desses da pesquisa dependeriam do Imponderável da Silva, primo do Sobrenatural de Almeida de Nelson Rodrigues, o responsável pelas derrotas do Fluminense (o time do escritor).

Em suma, campanha corpo a corpo, um evento digital viral ou alguma maluquice extra dos tribunais ditos superiores podem render décimos relevantes. Mais sobre isso mais adiante. O que se pode dizer com certeza é o que não será relevante, pois não vai acontecer.

O currículo de Flávio Bolsonaro, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Democracia não se presta a favorecer boas escolhas para governantes

Possibilidade real de eleição do candidato do PL é a melhor prova disso

O ponto forte da democracia é assegurar que governantes reprovados nas urnas entreguem o poder pacificamente, não favorecer a escolha de bons líderes —o que, infelizmente, ela não faz. A melhor prova disso é a possibilidade muito real de Flávio Bolsonaro (PL) ser eleito presidente da República.

O currículo do senador e candidato é uma longa sucessão de suspeitas. Começa com as rachadinhas, na Alerj, passa pela incrível loja de chocolates que, ao contrário de todo o mercado, não via suas vendas majoradas na Páscoa e pela compra de uma mansão em Brasília por valor incompatível com seus rendimentos e patrimônio conhecidos. A história de como as cortes superiores abortaram essas investigações está por ser contada. A escalada de desconfianças culmina no singelo pedido de R$ 134 milhões ao famigerado Daniel Vorcaro. Tirando as suspeitas, o que salta aos olhos no currículo de Flávio Bolsonaro são suas ligações com milicianos.

Peça de Brecht sobre Galileu interroga o exercício do poder e os limites da ciência, por Juliana de Albuquerque

Folha de S. Paulo

'A Vida de Galileu' parte da biografia do físico italiano para promover reflexão sobre a defesa da verdade

Questões levantadas por Brecht fazem pensar em temas contemporâneos como a regulação da IA

Concluí recentemente a leitura de "A Vida de Galileu", do poeta e dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1898-1956).

Escrita originalmente no final da década de 1930, durante o exílio de Brecht na Dinamarca, a peça narra a trajetória do físico italiano Galileu Galilei (1564-1642). Galileu foi julgado pela Inquisição em Roma por defender, com base nas suas observações astronômicas, o modelo heliocêntrico de Nicolau Copérnico (1473-1543) e levado a abjurar as suas posições.

A peça de Brecht parte de elementos da biografia de Galileu não apenas para reconstruir certos eventos com alguma fidelidade, mas também para fazer o público refletir sobre questões urgentes do seu próprio tempo, como o papel social da ciência e a problemática relação entre indivíduo e autoridade.

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

País pagará o preço do debate eleitoral indigente

Por Folha de S. Paulo

Lula se recusa mais uma vez a participar de confronto televisivo, e Flávio foge à tarefa de ser propositivo

O país está diante de uma escolha difícil entre um duro ajuste dos gastos públicos e o risco de agravamento do estresse financeiro

A decisão de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de não participar do derradeiro debate televisivo da campanha presidencial deste ano —e, assim, de nenhum confronto aberto de ideias antes do primeiro turno— evidencia o descaso com o eleitor. Não se pode dizer, infelizmente, que essa seja a única, ou mesmo a maior, mostra da degradação da disputa política nacional.

Flávio Bolsonaro (PL), que na condição de principal postulante oposicionista teria a obrigação de ser mais propositivo, passou a campanha ora fazendo críticas demagógicas ao custo de vida, como se tivesse o poder de fazer os preços baixarem, ora inventando desculpas esfarrapadas para a revelação de suas relações de afeto com o corruptor Daniel Vorcaro.

A indigência do cotejo de programas é o efeito nefasto de uma corrida em que a estratégia mais relevante de cada um dos candidatos competitivos consiste em explorar a enorme rejeição ao adversário. É fato que, em pleitos passados, temas incômodos já foram tratados à base de platitudes e tergiversações; hoje, porém, são quase ignorados.

As últimas 72 horas da guerra eleitoral, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Quatro em cada dez eleitores não têm Lula ou Flávio na ponta da língua. Quer melhoria de vida, mas, nesse tiroteio, terá que escapar de bala perdida

A 72 horas do início da votação, quatro em cada dez eleitores não têm o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ou o senador Flávio Bolsonaro na ponta da língua. São brasileiros que não apenas não sabem quem são Daniel Vorcaro ou Roberta Luchsinger, como tampouco têm qualquer interesse nos personagens. A decisão acontece na virada do mês que mal deram conta de fechar, uma grande parte deles, no prejuízo.

O eleitor típico desta escolha derradeira é mulher, católica, do Sudeste e da classe C (renda familiar de R$ 2 mil a R$ 8 mil). Este é um perfil que tem-se repetido ao longo das últimas disputas. Trata-se de um eleitor que é mais dificilmente captado pelas pesquisas, seja porque não para pra responder quando é abordado na rua e não abre sua casa para pesquisador, seja porque desliga quando recebe uma ligação. Dez anos atrás era preciso fazer 15 chamadas para que se conseguisse um questionário completo. Agora são, em média, 300.

Flávio vai; Lula, não. Faltar ao debate da Globo é decisão de alto risco, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

As polêmicas eleitorais foram deslocadas para o terreno institucional e ideológico: a crise do Supremo, o caso Master, as intervenções da Justiça Eleitoral e a exploração da religião

Lula foi mal no debate do segundo turno da TV Bandeirantes nas eleições de 1989, contra Fernando Collor de Mello, na avaliação de muitos dos próprios petistas. Fora surpreendido por uma referência cifrada a um aparelho de som “três em um” — rádio, vitrola e toca-fitas — que teria dado de presente a uma ex-namorada. Segundo o relato, a história chegara ao conhecimento de Marisa Letícia às vésperas do confronto, provocando uma crise doméstica. Lula já havia sido alvejado pela exploração eleitoral de seu relacionamento com Miriam Cordeiro, mãe de sua filha Lurian. Chegou aos estúdios da Bandeirantes cansado e despreparado, segundo Gilberto Carvalho, um dos coordenadores da campanha.

Lula endurece discurso sobre segurança na reta final para buscar indecisos e desgastar Flávio

Por Victoria Azevedo e Jeniffer Gularte / O Globo

Guinada aparece em materiais que a campanha passou a distribuir, com propostas mais rígidas no enfrentamento à criminalidade

A campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) endureceu o discurso sobre segurança pública às vésperas do primeiro turno, numa tentativa de atrair indecisos e o eleitor de centro e de desgastar o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), adversário do petista na disputa pela Presidência. Pesquisa Quaest divulgada em agosto mostrou que a violência é a principal preocupação dos eleitores, com 33% de menções.

A guinada aparece em materiais que a campanha passou a distribuir, como uma lista com 13 propostas por "mais firmeza contra o crime". Uma delas endurece regras para a liberação de presos por crimes violentos após audiência de custódia, numa mudança de tom em relação ao que a esquerda defende historicamente. O conteúdo também defende mais câmeras corporais em policiais, ampliação do programa Celular Seguro e construção de novos presídios federais, entre outros pontos.

Além disso, foi divulgado um vídeo que apresenta tom mais duro no combate à criminalidade, ao mostrar quatro homens atrás das grades e falar em "quatro inimigos" que precisam ser vencidos: "Os traficantes, os agressores de mulheres, os ladrões de celular e os magnatas do crime". Outra peça no horário eleitoral mostra uma mulher caminhando pela rua acompanhada do filho, desviando de munições e exibindo a frase "a família Bolsonaro deixou o Brasil mais violento" para criticar a flexibilização da política armamentista implementada no governo passado.

O fato novo, por Merval Pereira

O Globo

O sentimento do presidente é mais de soberba que de receio. Ele acha um absurdo estar empatado com Flávio e expor-se a ser criticado por todos os outros candidatos que têm hoje quase traço nas pesquisas.

O presidente Lula já teve a experiência, em outra encarnação presidencial, de faltar a um debate da Globo às vésperas da eleição presidencial. Foi em 2006, quando o escândalo do mensalão pôs em risco sua reeleição. Sua cadeira ficou vazia pela primeira vez, e o efeito visual foi grande. Além disso, os demais candidatos, especialmente o hoje seu vice-presidente, Geraldo Alckmin, na época um dos líderes tucanos, aproveitaram-se da situação para criticá-lo. A resposta do eleitorado foi imediata: Alckmin obteve surpreendentes 40% dos votos no primeiro turno, deixando tontos os petistas.

STF na eleição mostra Brasil disfuncional, por Julia Duailibi

O Globo

Supremo apareceu não porque foi provocado a agir. Entrou de maneira deliberada, para tentar garantir a sobrevivência

Na terça-feira, o presidente Lula telefonou de cima de um palanque para o ministro Flávio Dino em plena campanha eleitoral. Estava em Belém e queria parabenizá-lo por um projeto criado por Dino, enquanto senador, que prevê controle de qualidade dos serviços prestados pelos hospitais privados. A iniciativa do ministro, sancionada por Lula, ocorreu depois da trágica morte do filho dele, de 13 anos, durante atendimento num hospital privado de Brasília.

Para além da importância da matéria sancionada, a imagem sintetiza o que foi a campanha de 2026. Uma confusão entre política, candidatos e ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Tudo junto e misturado. Uma disputa eleitoral em que se falou muito pouco sobre o que aflige os eleitores ou o que é fundamental para um projeto de país. Mas foi dominada pelo STF, que entrou com os dois pés na eleição.

O que houve com a dívida pública, por Míriam Leitão

O Globo

A explicação para o crescimento da dívida pública não pode ser política ou simplista. Não dá para apenas culpar o governo ou os altos juros

A dívida pública subiu e ronda o país. Mas para entender direito o que tem acontecido é preciso se desligar das paixões políticas. A dívida subiu 11 pontos percentuais no governo Lula e chegou a 83% do PIB. No período Bolsonaro, chegou ao recorde de 87,66% e caiu no fim do governo para 71,7%. A queda naquela época foi o resultado de um truque contábil e dois fatores conjunturais favoráveis. O mandato Lula tem ampliado os gastos nesta reta final da campanha e isso é ruim. Porém, não é a despesa que explica toda a alta da dívida pública.

A eleição dos desafetos, por Eugênio Bucci

O Estado de S. Paulo.

Muita gente aí do seu lado celebra por antecipação o vislumbre de que ‘aquilo a que odeia’ será destruído

A frase foi escrita por Baruch Espinosa (ou, se você preferir, Benedictus de Spinoza), no livro Ética: “Quem imagina que aquilo a que odeia é destruído, se alegrará”. É a proposição de número 20 da parte terceira desse clássico essencial. Isso mesmo: o ódio alegra os viventes.

Espinosa nasceu no dia 24 de novembro (data boa) de 1632, em Amsterdã, numa família de origem judaico-portuguesa (falava o nosso idioma), e morreu em Haia, aos 44 anos. Esse tempo lhe bastou. Ninguém, como ele, escrutinou as afecções do espírito que nos aprisiona. Ninguém, como ele, ensinou que o ódio é inimigo do pensamento e da felicidade. Ninguém, como ele, foi tão incompreendido.

‘Quem ganhar a eleição leva’, por William Waack

O Estado de S. Paulo

Salvo o imprevisível a 48 horas das eleições, o que parece pesar mais são fatores amplos e fora do controle. A saber: abstenção e a “temperatura”, ou “percepção”, ou “sentimento” em relação à economia.

Sim, a definição da situação de empate ocorrerá dentro do que se previa. Junto a uma pequena parcela do eleitorado concentrada no Sudeste. Como Lula sai mais prejudicado (em termos relativos) pela taxa de abstenção no Nordeste, a diferença que ele precisa buscar está no eleitorado mais “sensível”, digamos assim, ao famoso “feel good factor”.

Não importa tanto a camada social, esse sentimento é contrário ao incumbente, tal como captado em sucessivas pesquisas. Ele sugere um estado de espírito disseminado segundo o qual tudo é difícil e caro. Os economistas constatam que a renda aumentou, mas a renda disponível, não.

A sala de lanches e a guerra fria no STF, por Carolina Brígido

O Estado de S. Paulo

Ministros do tribunal se encontram antes das sessões para tomar café em ambiente tenso

Nos dias de sessão, antes de entrarem no plenário, os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) se encontram em uma espécie de antessala. Um biombo de madeira confere alguma privacidade às conversas diante de uma grande mesa redonda. São servidos café e petiscos. A crise na Corte alcançou esse espaço e mudou a forma como os ministros interagem nele.

Se na sessão do dia 15 os ministros trocaram acusações aos gritos; longe das câmeras da TV Justiça, a atmosfera também está ruim, mas de um jeito diferente. A sala de lanches, de onde era possível ouvir gargalhadas, ficou mais silenciosa e menos frequentada. Cármen Lúcia, por exemplo, evita encontrar os colegas no ambiente. Na semana passada, o clima estava “ameno”, segundo um dos presentes. Edson Fachin, Cristiano Zanin, Alexandre de Moraes, Dias Toffoli, André Mendonça, Luiz Fux, Kassio Nunes Marques e o procurador-geral da República, Paulo Gonet, se encontraram na antessala.

O dever cristão de se manter informado, por Conrado Hübner Mendes

Folha de S. Paulo

Voto que ignora tudo de mais cruel e sinistro no país também ofende a Cristo

Mas tenho direito à ignorância e sou livre para renunciar à minha liberdade

Eu posso ignorar que Flávio Bolsonaro alimenta uma perigosa semente de guerra religiosa ao anunciar que seu primeiro ato, se eleito, será decretar "Brasil é do Senhor Jesus Cristo". Guerra dentro do próprio cristianismo.

Posso ignorar que o pastor JB Carvalho, fundador da igreja onde Flávio foi batizado em 2023, acusa prostituição religiosa da Igreja Católica, e que o pastor Victório Galli, ex-deputado e assessor de Jair, apresentou projeto de lei para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. Posso ignorar o ataque a bispos da CNBB e os riscos à liberdade religiosa.

Posso ignorar o desprezo de Flávio por mulheres, sua rejeição à Lei Maria da Penha, seu orgulho de "não ser feministo" e de lutar apenas por "mulheres de verdade". Posso ignorar correntes bolsonaristas que se opõem ao voto feminino, que ganham tração nos porões extremistas do Brasil e dos Estados Unidos.

Bolsonaros propõem caça às bruxas no Itamaraty, por Thiago Amparo

Folha de S. Paulo

Eduardo diz que haverá 'faxina' no órgão se irmão for eleito

E há o risco de a promessa se alastrar para outros órgãos, como PF e BC

Duas reportagens de Patrícia Campos Mello publicadas nesta quarta (30) na Folha detalham como seria a política externa de Flávio Bolsonaro, se eleito.

Depois do isolacionismo implementado durante o governo de seu pai, Jair Bolsonaro, a equipe de Flávio buscará, se bem-sucedida nas eleições, intensificar o alinhamento aos EUA, no estilo e na condução da política externa. O projeto possui um codinome: "reforma do Marco Rubio", referência ao belicoso secretário de Estado americano.

Guerra santa é apenas sintoma do vale-tudo da política de um país sob ameaça de golpes, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Campanha de 2010 também teve questão religiosa oportunista; 2026 é muito pior

Selvageria que tira carne e medula do osso das instituições é a nova regra do jogo

A eleição para presidente de 2010 teve "guerra santa". Era um indício de que o caldo político começava a azedar. A gente não sabia então que se tratava do começo do caminho para o fim da picada.

Uma campanha odienta, início de desarranjo econômico, mudança institucional quase parando e corrupções eram problemas, mas talvez transitórios —até para um pessimista. A "guerra santa" de 2026 é aspecto menor do buraco em que nos metemos.

A última eleição da Nova República, por Maria Hermínia Tavares

Folha de S. Paulo

Direitas optaram por entregar liderança à sua facção mais autoritária

Esquerdas têm que oferecer tradução renovada de seus compromissos

O presidente Lula, seu vice, Geraldo Alckmin, e o ex-governador de Goiás e candidato, Ronaldo Caiado, são os três últimos políticos de projeção nacional que participaram da Constituinte de 1987-88. Todos os seus contemporâneos já saíram de cena. Esta será, por assim dizer, a última eleição da Nova República.

As direitas, em transição geracional, optaram por entregar a liderança à sua facção mais autoritária e mais descomprometida com a democracia e as conquistas sociais dos últimos 40 anos. Tendo, enfim, produzido um líder popular, capaz de transferir votos a seu filho, o direitismo prefere correr com ele o risco de levar o país a parte alguma.

Deus, cabo eleitoral com exclusividade, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Por suas declarações em palanques, é como se Flávio Bolsonaro estivesse fazendo negócios com Deus

Um deles é o de que vai terceirizar seu mandato, entregando-o às mãos de Jesus; pode isso, Arnaldo?

Vivendo e aprendendo. Sempre ouvimos dizer que cargos políticos eram laicos e que Deus nunca se rebaixaria a se misturar com gente que pede votos a quem no fundo despreza. Mas, pelo visto, não é mais assim. Flávio Bolsonaro contratou Deus como cabo eleitoral e usa seu santo nome em comícios, passeatas e sabe-se mais por onde anda como candidato à Presidência. E, ao que parece, é um contrato de exclusividade. Só ele pode invocar Deus e, se quiser, até prometer-lhe um ministério. Eis alguns exemplos.

"Deus está me preparando há 24 anos para ser presidente do Brasil." É um de seus motes favoritos. Significa que foi Deus quem o ensinou a extorquir servidores, condecorar milicianos, mentir como quem respira e suplicar dinheiro a Daniel Vorcaro. "Acredito que Deus colocou uma ‘missão’ em minha vida." Deixa implícito que sua candidatura atende a um chamado de ordem espiritual e que Deus viu nele um novo Cristo, quem sabe até com uma midiática crucificação.

Donald Trump é um ser humano horrível que viraliza das piores formas, por Thomas L. Friedman

The New York Times / Folha de S. Paulo

Imaginação pútrida do presidente deixa os EUA expostos a vírus perigosos: digitais, biológicos e diplomáticos

Algo ruim vai nos acontecer como resultado disso

Donald Trump é um ser humano tão horrível que até escrever sobre ele parece degradante. Que presidente menosprezaria seu antecessor diante do líder da China da maneira como Trump zombou de Joe Biden, que agora sofre de câncer, ao apontar que um quadro com a imagem de uma caneta automática estava pendurado na Casa Branca no lugar do retrato de Biden?

Infelizmente, porém, quando alguém tão moralmente deformado quanto Trump —cujo primeiro secretário de Estado o chamou de "idiota"— assume tanto poder sem qualquer controle no alvorecer da Era da Inteligência Artificial, não se pode ignorá-lo.

Porque, neste momento, Trump está deixando os Estados Unidos expostos a vírus perigosos: digitais, biológicos e diplomáticos. Algo ruim vai nos acontecer como resultado disso. Nós e nossos filhos pagaremos por isso, e não apenas na hora de abastecer o carro.

Piketty prevê fim do dólar como moeda global: 'Muito em breve', por Vinícius Mendes

BBC Brasil

Cinco anos atrás, uma percepção do economista francês Thomas Piketty, 55 anos, rodou o planeta. Ela defendia que o mundo estava em condições parecidas às que desaguaram na Revolução Francesa, no fim do século 18: uma desigualdade extrema em que elites riquíssimas (a nobreza daquela França) viviam às custas de uma multidão de pessoas em situações precárias.

Era mais um alerta do que uma comparação, porque, sempre que isso aconteceu na história, o resultado foi uma grave crise política capaz de mudar o rumo das coisas.

"Em muitos sentidos, [a situação] piorou" nesse intervalo de meia década, sentencia ele agora à BBC News Brasil.

"Estamos em um período repleto de distopias. Os tecnobilionários, os tecnonacionalistas estão elaborando visões malucas sobre o futuro", diz ele, alertando para "uma visão trumpista do futuro que não está funcionando, que não resolve problemas de desenvolvimento, de meio ambiente, que precisamos resolver".

Piketty retornou à cena global em junho com um conjunto audacioso de propostas reunidas no Relatório de Justiça Global. É o resultado do esforço conjunto de uma equipe liderada por ele, no World Inequality Lab, da Paris School of Economics, na capital francesa, que se debruçou sobre dados sociais e econômicos de vários países ao longo dos últimos anos.

No total, cerca de 50 pessoas trabalharam no estudo, que elaborou propostas como criar uma moeda única internacional, gerida pela Organização das Nações Unidas (ONU), em substituição ao dólar, e impulsionar políticas globais que nivelem a renda per capita global em 5 mil euros (cerca de R$ 29 mil, na cotação do final de setembro) até 2100.

O relatório também propõe que, até lá, o total de horas de trabalho, na média internacional, cairia para menos da metade, com um deslocamento das funções ligadas à produção de alimentos para os setores de educação e saúde.

Além disso, há propostas historicamente ligadas às pesquisas de Piketty — que se tornou famoso, nos anos 2010, com seu O capital no século XXI (Intrínseca, 2013) – como a criação de um imposto global sobre a riqueza e, especialmente, sobre fortunas dos bilionários.

E aí que, para ele, o Brasil exerce um papel central. Em 2024, durante a reunião do G20, no Rio de Janeiro, o país conseguiu incluir uma menção inédita à importância de tributar os super-ricos no comunicado final da Cúpula, apesar da dura resistência argentina.

Nos fóruns que se seguiram, a diplomacia brasileira seguiu reforçando o projeto, como nas rodadas de negociação, no âmbito da ONU, por um sistema tributário internacional. A próxima reunião do grupo será realizada entre novembro e dezembro, no Quênia.

"Será muito triste para o próprio país tanto quanto para o mundo se o Brasil seguir na direção desse nacionalismo trumpista em algumas semanas [nas eleições]. Precisamos do Brasil contribuindo para reconstruir o sistema monetário, econômico internacional em um sentido mais inclusivo, igualitário, democrático e consciente sobre o clima", diz.

A seguir, trechos da entrevista que Thomas Piketty concedeu à BBC News Brasil alguns dias antes do primeiro turno da eleição presidencial brasileira.