domingo, 18 de janeiro de 2026

Opinião do dia - Jürgen Habermas*

"Será interessante observar como a tomada de poder por Trump afetará a política interna de Taiwan. Mas, além desse ponto crítico, não são apenas a China e seus aliados regionais de um lado, e os EUA e os países da região com inclinação ocidental —sobretudo Japão, Coreia do Sul e Austrália — que se enfrentam.

A Índia também está em estreita proximidade, buscando agora suas próprias aspirações de se tornar uma potência mundial. A mudança nas relações de poder geopolítico se reflete não apenas na região do Pacífico, mas também na ascensão de potências médias como Brasil, África do Sul e Arábia Saudita, que buscam, com autoconfiança, maior independência. Muitos desses países em ascensão estão buscando admissão na associação mais ampla e flexível dos BRICS. O fim da hegemonia ocidental também é indicado pelas profundas transformações geoeconômicas da ordem econômica mundial liberal que os EUA criaram desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Não que essa ordem comercial mundial baseada em regras — agora também pressionada pelo próprio Trump — possa ser simplesmente liquidada, como se vê hoje na interessante disputa sobre o fornecimento de “terras raras”; mas dificilmente algo ilustraria melhor as restrições de política de segurança, agora rotineiras, ao comércio mundial do que a recente decisão do governo alemão — que se orgulha de ser o campeão mundial das exportações — de sustentar com fundos estatais a indústria siderúrgica alemã, que já não é competitiva internacionalmente.

Embora essas mudanças nas relações de poder geopolítico já fossem evidentes há algum tempo, e embora a reeleição de Trump não pudesse ser descartada quando a guerra na Ucrânia começou, os governos ocidentais não conseguiram compreender, após a invasão russa, que esse conflito — uma vez que seu início não pudesse ser evitado — precisava ser concluído durante o mandato de Joe Biden.

Enquanto isso, o segundo mandato de Trump trouxe o que já havia sido anunciado no documento programático da Heritage Foundation: o desmantelamento, agora praticamente irreversível, do mais antigo regime liberal-democrático, seguindo um padrão que nós, na Europa, já conhecíamos pelo exemplo da Hungria e de outros países."

*Jürgen Habermas (1929),é um filósofo e sociólogo alemão que participa da tradição da teoria crítica e do pragmatismo, sendo membro da Escola de Frankfurt. De palestra proferida na Fundação Siemens em 19 de novembro de 2025: Será que a UE ainda consegue escapar da influência autoritária dos EUA?

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Disputa entre China e EUA exige nova estratégia do Brasil

Por O Globo

Doutrina Trump desafia Itamaraty a renegociar termos que tragam benefícios ao país

A nova doutrina geopolítica de Donald Trump impõe desafio não trivial à diplomacia brasileira. A captura do ex-ditador Nicolás Maduro pelos americanos e a intenção declarada de Trump de assumir o controle do petróleo venezuelano deixaram claro para a América Latina que a reedição da Doutrina Monroe com seu Corolário Trump não é bravata.

Enquanto os Estados Unidos mantinham distância do continente, a China aproveitou para fincar raízes. Passou a financiar projetos de infraestrutura, a erguer fábricas e a firmar parcerias em setores estratégicos, como energia, mineração ou agronegócio. Agora, o Itamaraty será testado na defesa dos laços brasileiros com a China, maior parceiro comercial brasileiro, mas também na negociação de termos vantajosos na maior aproximação com Washington.

Conversas vãs. Por Merval Pereira

O Globo

Bem que o Ministro dizia que estamos numa cleptocracia.

Mas ele disse isso quando apoiava a Lava-Jato.

Mas, pelo jeito, tinha razão. Tá todo mundo envolvido nos Três Poderes.

No Legislativo também?

Você não viu aquele deputado que apresentou um projeto para colocar o limite do Fundo Garantidor de 250 mil para 1 milhão de reais? Do nada.

Já era para prevenir. Sabia o que ia acontecer.

Mas o caso de agora tem a ver com a Lava-Jato?

O inusitado Dias Toffoli. Por Míriam Leitão

O Globo

A maneira com que Dias Toffoli tem conduzido o caso Master mostra que ele não tem condições de continuar à frente do processo

O ministro Dias Toffoli não se cansa de tomar decisões inusitadas. Elas se tornaram diárias. Na última semana, o país viu estarrecido o ministro perseguir a Polícia Federal, depois de ter tentado intimidar o Banco Central. Ele escolheu os peritos que vão trabalhar no material recolhido na segunda fase da Compliance Zero. Deu à PF dois dias para ouvir 11 envolvidos e dentro do Supremo Tribunal Federal. É bizarro e desrespeitoso. Quem tem que escolher peritos, fazer as oitivas no prazo mais eficiente para a investigação é a Polícia Federal e, por óbvio, nas instalações da polícia que as pessoas têm que ser ouvidas.

Vergonha alheia. Por Dorrit Harazim

O Globo

María Corina Machado jogou pela janela um sólido currículo de combate às práticas ditatoriais do regime Maduro

Somente um paspalho vaidoso e inseguro em relação à própria estatura pensaria em chantagear alguém para receber um Nobel de segunda mão, resumiu Paul Krugman, ganhador de um Nobel de Economia legítimo em 2008. A cena da semana passada, que teve a Casa Branca por testemunha, é quase o registro histórico de um apogeu — a era do cinismo político agudo, desmesurado, sem vestígio de culpa ou vergonha. Na foto que rodou mundo, vê-se o presidente americano Donald Trump, sorridente, agarrado à imensa moldura dourada que, entre placas de agradecimento, continha a cobiçada medalha-símbolo do Nobel da Paz de 2025. A seu lado, sorriso também fixo, a líder oposicionista venezuelana María Corina Machado, sacramentando o inédito revezamento da honraria que recebera do Instituto Nobel em Oslo no mês passado. Sobre o bolão de 11 milhões de coroas suecas (cerca de R$ 6,1 milhões) que acompanharam a outorga do prêmio, nada se ouviu. À época a agraciada o dedicou ao povo venezuelano,

— Que gesto maravilhoso de respeito mútuo. Obrigado, María — postou Trump, sem corar, no dia seguinte.

Êxitos e fracassos EUA no mundo. Por Elio Gaspari

O Globo

Lista reúne desde a invasão no Iraque, como destaque negativo, até o Plano Marshall, como positivo

As dez piores decisões

1) Iraque, 2003

A invasão do Iraque foi considerada a pior decisão da política externa dos Estados Unidos. Deu tudo errado.

2) Vietnã, 1965

No dia 8 de março, 3.500 fuzileiros navais americanos desembarcaram em Da Nang, no Vietnã do Sul.

3) 1838, EUA x Cherokees

O presidente Andrew Jackson conseguiu aprovar a lei que permitia a remoção dos nativos de suas terras. O Exército levou 100 mil Cherokees para as terras a Oeste do Rio Mississippi.

Morte de Manoel Fiel Filho escancarou a tortura nos quartéis do regime militar. Por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Alagoano de Quebrangulo, Fiel vivia em São Paulo desde os anos 1950. Tinha trabalhado como padeiro e cobrador de ônibus antes de se tornar operário metalúrgico

Há exatamente 50 anos, num sábado, às 22 horas, um Dodge Dart parou em frente à casa do operário metalúrgico Manoel Fiel Filho, no Bairro da Moca. Ato contínuo, diante de sua mulher, Thereza de Lourdes Martins Fiel, um desconhecido disse secamente: “O Manoel suicidou-se. Aqui estão suas roupas”. Em seguida, jogou na calçada um saco de lixo azul com o macacão do operário morto. “Vocês o mataram! Vocês o mataram!”, gritou desesperada a esposa do operário metalúrgico morto em 17 de janeiro de 1976.

Entrevista | Guilherme Boulos: ‘Esquerda precisa dialogar com nova classe trabalhadora’

Guilherme Caetano e Vera Rosa / O Estado de S. Paulo

Ministro da Secretaria-Geral faz autocrítica, mas concentra artilharia em Flávio e Tarcísio Ministro da SecretariaGeral, é deputado federal pelo PSOL e está licenciado. Foi líder dos sem-teto e disputou a Prefeitura duas vezes

“O time da Faria Lima adora um bolsonarismo envernizado. Tudo o que eles querem é um Bolsonaro que coma de garfo e faca, que é o Tarcísio. Mas a Faria Lima não tem voto. Na direita, quem tem voto é o Bolsonaro. Então, na pratica, quem o Bolsonaro indicar como candidato, será candidato.”

Há três meses no cargo, o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, levou um tom mais político para o núcleo do governo. Na lista de suas missões neste ano eleitoral de 2026 está a de dar uma “chacoalhada” na base social da esquerda perdida para a direita e atrair trabalhadores que têm flertado com o bolsonarismo, como aqueles das plataformas de aplicativos.

“A esquerda precisa aprender a dialogar com a nova classe trabalhadora”, disse Boulos em entrevista ao Estadão, fazendo uma autocrítica global. “No mundo, a esquerda está lidando com esse mesmo dilema. E nós temos que repensar, inclusive, a relação de resistência que se construiu entre a esquerda e o povo evangélico”.

Ex-líder dos sem-teto, o novo ministro virou um dos principais nomes do Palácio do Planalto para enfrentar a artilharia bolsonarista. O estilo combativo aparece até mesmo na parede de seu gabinete, onde há um brasão com a frase Madeira que Cupim não Rói, uma homenagem ao escritor Ariano Suassuna.

Nesta temporada, os dois principais alvos de Boulos são o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Na sua avaliação, ainda não está certo qual deles será o desafiante de Lula.

Master: pimenta para todo lado. Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Toffoli resvala para o perigoso terreno da obstrução de Justiça, usando a própria Justiça

O ministro Dias Toffoli, relator do Caso Master, resvala para um perigoso terreno usado por investigados: obstrução de justiça. No seu caso, usando a própria Justiça e a sua posição excepcional dentro dela. Sem consenso, o STF não sabe como reagir e não se ouve uma palavra do seu presidente, Edson Fachin, que está acuado.

O impedimento de Toffoli no caso Master é óbvio e cristalino, após revelações sobre sua amizade e o voo com advogado do grupo, e agora as relações financeiras de seus irmãos com o braço operador e cunhado de Daniel Vorcaro, pastor Fabiano Zettel.

O mundo às avessas. Por Celso Lafer

O Estado de S. Paulo

Os Estados vêm manifestando sua inconformidade com a derrogação do Direito Internacional por meios diplomáticos

A mensagem mais explícita que vem sendo comunicada na atual dinâmica da vida internacional é a da desconsideração do Direito Internacional e, neste âmbito, de suas normas mais relevantes voltadas para balizar o quadro de referências no qual normalmente opera a densidade da convivência interestatal no espaço da interdependência do mundo contemporâneo.

Essas normas, elaboradas pelos Estados no pós-2.ª Guerra Mundial, foram consagradas na Carta da ONU. Preconizam condições de coexistência entre os Estados. Entre elas: o não recorrer à ameaça ou uso da força contra a integridade territorial ou a independência política de qualquer Estado; a obrigação da não intervenção em assuntos de jurisdição interna dos Estados; e o respeito à igualdade soberana dos Estados.

Os limites de uma ação no Irã. Por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

Assim como fez na Venezuela, Trump também precisa ajustar seus objetivos no Irã

Donald Trump e sua equipe exibiram criatividade e habilidade na Venezuela, considerando seus anunciados objetivos econômicos. No Irã, sejam quais forem os objetivos, é difícil vislumbrar como poderão ter êxito. Antes de capturar Nicolás Maduro e Cilia Flores, Trump colocara ênfase no combate ao narcotráfico, para justificar a campanha contra o regime bolivariano. Depois da captura, a ênfase se deslocou para o ganho econômico decorrente do controle do petróleo venezuelano.

Tarcísio ameaça decolagem de Flávio, um avião já bem vagabundo. Por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Se o governador anda conspirando com Michelle, não é para ser candidato em São Paulo

Ele só se destacou porque, para os bolsonaristas, CEO quer dizer Carluxo, Eduardo e Olavo

última pesquisa Quaest mostrou que a candidatura de Flávio Bolsonaro vem se tornando um fato consumado dentro do eleitorado de direita. Seus números ainda são piores que os de Tarcísio, mas melhoraram. O número de eleitores que acha que Jair errou em indicá-lo ainda é alto, mas caiu.

Ainda é pouco para ganhar de Lula, mas Flávio tem esperança de que a tendência de crescimento continue. É uma aposta arriscada.

Em primeiro lugar, porque Tarcísio continua candidato.

Na semana passada, a primeira-dama de São Paulo postou uma mensagem dizendo que o Brasil (e não São Paulo) precisa de "um novo CEO, meu marido". Michelle Bolsonaro "curtiu" a mensagem. Bolsonaristas suspeitam que Tarcísio mandou a primeira-dama postar e combinou com Michelle a demonstração de apoio.

Toffoli, acordões, centrões e o novo sistema de corrupção institucional do Brasil. Por Vinicius Torres Freire

Por Folha de S. Paulo

Quem é o juiz final quando está todo mundo no rolo, da roubança à exorbitância de poder?

Queda de Dilma e ascensão de Bolsonaro levaram corruptos sistemáticos ao centro do poder

Quem ainda se preocupa com a República está a se perguntar o que fazer, por exemplo, de Dias Toffoli. Esse ministro do STF toma decisões que encrencam a investigação do Master e da roubança do INSS; tenta meter medo em instituições que procuram esclarecer mutretas, como o Banco Central e a Polícia Federal.

As decisões de Toffoli chegam à fronteira nebulosa do que seria legal. Esticar a lei até esse limite de névoa de guerra tem sido a maneira mundial de avacalhar instituições republicanas, seja jogando duro a fim de usar as normas contra desafetos ou amolecendo a divisão de poderes a fim de se aboletar indevidamente em outras cadeiras do sistema de governo.

Que gente é mesmo essa? Por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo  

O preconceito que transparece na fala do prefeito do Rio atende uma população em ascensão eleitoral: os pentecostais

Irritado com os questionamentos sobre favorecimento a palcos evangélicos no réveillon, saiu-se com 'que gente preconceituosa é essa?'

Diz um aforismo afro que "se as palavras lhe queimam a boca, a cura é o silêncio". Aplica-se bem à intemperança verbal do prefeito do Rio de Janeiro, reincidente em ditos trêfegos. No mais recente, irritado com os questionamentos sobre seu favorecimento a palcos evangélicos no réveillon da praia de Copacabana, saiu-se com "que gente preconceituosa é essa?"

Referia-se precisamente à "gente" da qual provém a criação da festa de praia na virada do ano, uma transposição da homenagem a Iemanjá no dia 2 de fevereiro para o réveillon do Rio. Entretanto, aspirante a governador, com a mesma inconsistência com que escorrega de Bolsonaro Lula, já prometeu estátua para o Tata Tancredo, líder umbandista, promotor da festa nos anos 1950.

Michelle muda o rumo da prosa com o Supremo. Por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Confronto com a Justiça é contraproducente na busca pelo benefício da prisão domiciliar para Bolsonaro

O caminho do assédio agressivo foi substituído pela tentativa de vencer pela via do diálogo e do convencimento

Michelle Bolsonaro (PL) parece convencida de que não adianta confrontar o Supremo Tribunal Federal (STF). Para tentar dar ao marido uma chance de obter a prisão domiciliar, ela optou nos últimos dias por substituir o assédio agressivo pela via do diálogo e do convencimento.

Se a estratégia convencerá o ministro Alexandre de Moraes de que "seu Jair" merece o benefício e, em casa, não voltará a desafiar a Justiça, são outros quinhentos. O importante aqui é apontar a inflexão na abordagem da mulher do ex-presidente.

As tripas das palavras. Por Ruy Castro

Por Folha de S. Paulo

Azul, girafa, haxixe, safári, salamaleque, sucata e xerife vieram do árabe, sabia?

E mulato não vem de mula, mas do árabe muladi, o nascituro de um casamento interétnico

Já contei aqui que Tom Jobim não gostava de falar sobre música. Ela só existia em sua cabeça e se destinava ao piano, não a papos de botequim. O que o fascinava nas rodas de amigos era conversar sobre a língua portuguesa discutir a origem das palavras, o uso que fazíamos delas, do que consistiam suas tripas. Em certa época, um de seus assuntos favoritos eram as palavras de origem árabe. E, à menor solicitação, desfiava-as: "Alarido, alambique, alaúde, albornoz, Albuquerque, alcachofra, alcaçuz, alcaide, álcool, alface, alcateia...", não em ordem alfabética, como escrevi, mas à medida que lhe ocorriam.