domingo, 18 de janeiro de 2026

Master: pimenta para todo lado. Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Toffoli resvala para o perigoso terreno da obstrução de Justiça, usando a própria Justiça

O ministro Dias Toffoli, relator do Caso Master, resvala para um perigoso terreno usado por investigados: obstrução de justiça. No seu caso, usando a própria Justiça e a sua posição excepcional dentro dela. Sem consenso, o STF não sabe como reagir e não se ouve uma palavra do seu presidente, Edson Fachin, que está acuado.

O impedimento de Toffoli no caso Master é óbvio e cristalino, após revelações sobre sua amizade e o voo com advogado do grupo, e agora as relações financeiras de seus irmãos com o braço operador e cunhado de Daniel Vorcaro, pastor Fabiano Zettel.

O mundo às avessas. Por Celso Lafer

O Estado de S. Paulo

Os Estados vêm manifestando sua inconformidade com a derrogação do Direito Internacional por meios diplomáticos

A mensagem mais explícita que vem sendo comunicada na atual dinâmica da vida internacional é a da desconsideração do Direito Internacional e, neste âmbito, de suas normas mais relevantes voltadas para balizar o quadro de referências no qual normalmente opera a densidade da convivência interestatal no espaço da interdependência do mundo contemporâneo.

Essas normas, elaboradas pelos Estados no pós-2.ª Guerra Mundial, foram consagradas na Carta da ONU. Preconizam condições de coexistência entre os Estados. Entre elas: o não recorrer à ameaça ou uso da força contra a integridade territorial ou a independência política de qualquer Estado; a obrigação da não intervenção em assuntos de jurisdição interna dos Estados; e o respeito à igualdade soberana dos Estados.

Os limites de uma ação no Irã. Por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

Assim como fez na Venezuela, Trump também precisa ajustar seus objetivos no Irã

Donald Trump e sua equipe exibiram criatividade e habilidade na Venezuela, considerando seus anunciados objetivos econômicos. No Irã, sejam quais forem os objetivos, é difícil vislumbrar como poderão ter êxito. Antes de capturar Nicolás Maduro e Cilia Flores, Trump colocara ênfase no combate ao narcotráfico, para justificar a campanha contra o regime bolivariano. Depois da captura, a ênfase se deslocou para o ganho econômico decorrente do controle do petróleo venezuelano.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Disputa entre China e EUA exige nova estratégia do Brasil

Por O Globo

Doutrina Trump desafia Itamaraty a renegociar termos que tragam benefícios ao país

A nova doutrina geopolítica de Donald Trump impõe desafio não trivial à diplomacia brasileira. A captura do ex-ditador Nicolás Maduro pelos americanos e a intenção declarada de Trump de assumir o controle do petróleo venezuelano deixaram claro para a América Latina que a reedição da Doutrina Monroe com seu Corolário Trump não é bravata.

Enquanto os Estados Unidos mantinham distância do continente, a China aproveitou para fincar raízes. Passou a financiar projetos de infraestrutura, a erguer fábricas e a firmar parcerias em setores estratégicos, como energia, mineração ou agronegócio. Agora, o Itamaraty será testado na defesa dos laços brasileiros com a China, maior parceiro comercial brasileiro, mas também na negociação de termos vantajosos na maior aproximação com Washington.

Tarcísio ameaça decolagem de Flávio, um avião já bem vagabundo. Por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Se o governador anda conspirando com Michelle, não é para ser candidato em São Paulo

Ele só se destacou porque, para os bolsonaristas, CEO quer dizer Carluxo, Eduardo e Olavo

última pesquisa Quaest mostrou que a candidatura de Flávio Bolsonaro vem se tornando um fato consumado dentro do eleitorado de direita. Seus números ainda são piores que os de Tarcísio, mas melhoraram. O número de eleitores que acha que Jair errou em indicá-lo ainda é alto, mas caiu.

Ainda é pouco para ganhar de Lula, mas Flávio tem esperança de que a tendência de crescimento continue. É uma aposta arriscada.

Em primeiro lugar, porque Tarcísio continua candidato.

Na semana passada, a primeira-dama de São Paulo postou uma mensagem dizendo que o Brasil (e não São Paulo) precisa de "um novo CEO, meu marido". Michelle Bolsonaro "curtiu" a mensagem. Bolsonaristas suspeitam que Tarcísio mandou a primeira-dama postar e combinou com Michelle a demonstração de apoio.

Toffoli, acordões, centrões e o novo sistema de corrupção institucional do Brasil. Por Vinicius Torres Freire

Por Folha de S. Paulo

Quem é o juiz final quando está todo mundo no rolo, da roubança à exorbitância de poder?

Queda de Dilma e ascensão de Bolsonaro levaram corruptos sistemáticos ao centro do poder

Quem ainda se preocupa com a República está a se perguntar o que fazer, por exemplo, de Dias Toffoli. Esse ministro do STF toma decisões que encrencam a investigação do Master e da roubança do INSS; tenta meter medo em instituições que procuram esclarecer mutretas, como o Banco Central e a Polícia Federal.

As decisões de Toffoli chegam à fronteira nebulosa do que seria legal. Esticar a lei até esse limite de névoa de guerra tem sido a maneira mundial de avacalhar instituições republicanas, seja jogando duro a fim de usar as normas contra desafetos ou amolecendo a divisão de poderes a fim de se aboletar indevidamente em outras cadeiras do sistema de governo.

Que gente é mesmo essa? Por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo  

O preconceito que transparece na fala do prefeito do Rio atende uma população em ascensão eleitoral: os pentecostais

Irritado com os questionamentos sobre favorecimento a palcos evangélicos no réveillon, saiu-se com 'que gente preconceituosa é essa?'

Diz um aforismo afro que "se as palavras lhe queimam a boca, a cura é o silêncio". Aplica-se bem à intemperança verbal do prefeito do Rio de Janeiro, reincidente em ditos trêfegos. No mais recente, irritado com os questionamentos sobre seu favorecimento a palcos evangélicos no réveillon da praia de Copacabana, saiu-se com "que gente preconceituosa é essa?"

Referia-se precisamente à "gente" da qual provém a criação da festa de praia na virada do ano, uma transposição da homenagem a Iemanjá no dia 2 de fevereiro para o réveillon do Rio. Entretanto, aspirante a governador, com a mesma inconsistência com que escorrega de Bolsonaro Lula, já prometeu estátua para o Tata Tancredo, líder umbandista, promotor da festa nos anos 1950.

Michelle muda o rumo da prosa com o Supremo. Por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Confronto com a Justiça é contraproducente na busca pelo benefício da prisão domiciliar para Bolsonaro

O caminho do assédio agressivo foi substituído pela tentativa de vencer pela via do diálogo e do convencimento

Michelle Bolsonaro (PL) parece convencida de que não adianta confrontar o Supremo Tribunal Federal (STF). Para tentar dar ao marido uma chance de obter a prisão domiciliar, ela optou nos últimos dias por substituir o assédio agressivo pela via do diálogo e do convencimento.

Se a estratégia convencerá o ministro Alexandre de Moraes de que "seu Jair" merece o benefício e, em casa, não voltará a desafiar a Justiça, são outros quinhentos. O importante aqui é apontar a inflexão na abordagem da mulher do ex-presidente.

As tripas das palavras. Por Ruy Castro

Por Folha de S. Paulo

Azul, girafa, haxixe, safári, salamaleque, sucata e xerife vieram do árabe, sabia?

E mulato não vem de mula, mas do árabe muladi, o nascituro de um casamento interétnico

Já contei aqui que Tom Jobim não gostava de falar sobre música. Ela só existia em sua cabeça e se destinava ao piano, não a papos de botequim. O que o fascinava nas rodas de amigos era conversar sobre a língua portuguesa discutir a origem das palavras, o uso que fazíamos delas, do que consistiam suas tripas. Em certa época, um de seus assuntos favoritos eram as palavras de origem árabe. E, à menor solicitação, desfiava-as: "Alarido, alambique, alaúde, albornoz, Albuquerque, alcachofra, alcaçuz, alcaide, álcool, alface, alcateia...", não em ordem alfabética, como escrevi, mas à medida que lhe ocorriam.

Opinião do dia - Jürgen Habermas*

"Será interessante observar como a tomada de poder por Trump afetará a política interna de Taiwan. Mas, além desse ponto crítico, não são apenas a China e seus aliados regionais de um lado, e os EUA e os países da região com inclinação ocidental —sobretudo Japão, Coreia do Sul e Austrália — que se enfrentam.

A Índia também está em estreita proximidade, buscando agora suas próprias aspirações de se tornar uma potência mundial. A mudança nas relações de poder geopolítico se reflete não apenas na região do Pacífico, mas também na ascensão de potências médias como Brasil, África do Sul e Arábia Saudita, que buscam, com autoconfiança, maior independência. Muitos desses países em ascensão estão buscando admissão na associação mais ampla e flexível dos BRICS. O fim da hegemonia ocidental também é indicado pelas profundas transformações geoeconômicas da ordem econômica mundial liberal que os EUA criaram desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Não que essa ordem comercial mundial baseada em regras — agora também pressionada pelo próprio Trump — possa ser simplesmente liquidada, como se vê hoje na interessante disputa sobre o fornecimento de “terras raras”; mas dificilmente algo ilustraria melhor as restrições de política de segurança, agora rotineiras, ao comércio mundial do que a recente decisão do governo alemão — que se orgulha de ser o campeão mundial das exportações — de sustentar com fundos estatais a indústria siderúrgica alemã, que já não é competitiva internacionalmente.

Embora essas mudanças nas relações de poder geopolítico já fossem evidentes há algum tempo, e embora a reeleição de Trump não pudesse ser descartada quando a guerra na Ucrânia começou, os governos ocidentais não conseguiram compreender, após a invasão russa, que esse conflito — uma vez que seu início não pudesse ser evitado — precisava ser concluído durante o mandato de Joe Biden.

Enquanto isso, o segundo mandato de Trump trouxe o que já havia sido anunciado no documento programático da Heritage Foundation: o desmantelamento, agora praticamente irreversível, do mais antigo regime liberal-democrático, seguindo um padrão que nós, na Europa, já conhecíamos pelo exemplo da Hungria e de outros países."

*Jürgen Habermas (1929),é um filósofo e sociólogo alemão que participa da tradição da teoria crítica e do pragmatismo, sendo membro da Escola de Frankfurt. De palestra proferida na Fundação Siemens em 19 de novembro de 2025: Será que a UE ainda consegue escapar da influência autoritária dos EUA?

Poesia | O albatroz, de Charles Baudelaire

 

Música | Dolores Duran - Castigo