domingo, 15 de março de 2026

Bastidores da guerra no Brasil, por Míriam Leitão

O Globo

Navios com diesel desviam do Brasil por destinos mais lucrativos. Milho e soja começam a subir. Governo age para atenuar alta do petróleo

Navios que estavam vindo para o Brasil com diesel mudaram a rota para outros portos, em busca de preços maiores. Isso foi detectado pelo monitoramento do governo. Uma sala de situação no Ministério de Minas e Energia acompanha o mercado. O petróleo que o Brasil importa da Arábia Saudita, e que passaria pelo Estreito de Ormuz, está vindo em parte pelo Mar Vermelho e em parte pelo Mediterrâneo. Esta segunda rota é exigente. Um trecho do trajeto se faz por caminhão, e depois é preciso usar embarcações menores. O agronegócio brasileiro já havia comprado fertilizantes, mas milho e soja começam a subir. A guerra contra o Irã produziu uma crise complexa. Ela é tudo menos o que Donald Trump tem dito.

Polícia no palanque, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Operação contra vereador aliado de Paes reaviva suspeita de uso político de investigações

Na manhã de quarta-feira, a Polícia Civil do Rio prendeu o vereador Salvino Oliveira numa operação batizada de Red Legacy. Pouco depois, o governador Cláudio Castro foi às redes anunciar a captura do “braço direito do Comando Vermelho dentro da Prefeitura do Rio”.

“Esse é o mesmo vereador que vivia atacando nosso governo e as polícias. Hoje, finalmente, estamos conhecendo o seu real lado: trabalhava para bandido e não para o povo!”, festejou.

Numa das cenas do vídeo publicado pelo governador, um agente vasculha o armário de Salvino e levanta uma placa de campanha com a foto de Eduardo Paes. Era um sinal de uso da polícia para atingir adversários políticos.

De volta ao jogo? Por Merval Pereira

O Globo

O desmantelamento da Operação Lava Jato reafirmou uma longa tradição da Justiça brasileira de reverter resultados de investigações contra a corrupção. Esperemos que o mesmo não aconteça agora.

Duas medidas tomadas em dias recentes recolocaram o Supremo Tribunal Federal (STF) nos trilhos republicanos, proporcionando que o futuro possa recompor o passado recente, pleno de equívocos e abusos de poder. A decisão de manter a prisão do ex-banqueiro Daniel Vorcaro abre caminho para uma delação premiada que certamente desvendará as entranhas do maior golpe financeiro já acontecido no país. Por isso mesmo, teve uma importância não apenas simbólica. A decisão, proporcionada pelo ministro Gilmar Mendes, de levar ao plenário físico a anulação da quebra de sigilo do filho do presidente Lula, adotada monocraticamente pelo ministro Flavio Dino, transforma a ação individual de um juiz em decisão do colegiado, o que dá outro valor ao resultado.

Moraes cria o precedente, por Elio Gaspari

O Globo

Autorização concedida pelo ministro para busca e apreensão contra jornalista tende a ameaçar direito de preservar fontes

O ministro Alexandre de Moraes é experiente. Ele determinou uma operação de busca e apreensão contra o jornalista maranhense Luís Pablo Conceição Almeida. O ministro autorizou a apreensão de celulares, computadores, tablets, documentos e outros dispositivos eletrônicos que possam auxiliar numa investigação sigilosa.

Investigação de que? De um eventual uso indevido de um carro oficial pelo ministro Flávio Dino. Fica combinado assim.

Semana ruim para os EUA na guerra, por Dorrit Harazim

O Globo

‘Sofrimento será de duração curta, mas os ganhos de duração longa’, disse Pete Hegseth. Não está sendo uma coisa nem outra

Enquanto atuou como comentarista de assuntos militares no canal noticioso Fox News, Pete Hegseth disparou certezas sem precisar de fatos. Dono de feições e físico altamente telegênicos, esmerou-se em aprimorar o visual e a oratória ariano-Maga. Acabou por conquistar o presidente Donald Trump, que procurava um garoto-propaganda de impacto para comandar o Pentágono. E foi como secretário de Defesa do colosso militar que Hegseth, aos 45 anos, anunciou, na estreia da Operação Fúria Épica contra o Irã:

Master e o Oscar, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Daniel Vorcaro, Martha Graeff e o sucesso do Brasil no próximo Oscar

São dois, e não um, os personagens-chave e explosivos do caso Master: Daniel Vorcaro, o onipresente, e Martha Graeff, sua namorada da época bilionária e glamourosa, que sabe de tudo, ou de muita coisa, e nos lembra o quanto as mulheres, como Thereza Collor, foram decisivas para esclarecer grandes escândalos nacionais, da Velha à Nova República.

A República de hoje – melhor não adjetivá-la – está em suspense não só diante da muito provável delação premiada de Daniel Vorcaro, mas também do momento em que Graeff decidir botar a boca no trombone sobre ele e quem, quando e onde mergulhou fundo no jogo dele.

Trump pôs a credibilidade em jogo, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

Ímpeto do presidente de moldar mundo à sua imagem entra em conflito com o desejo de sucesso

A duração da guerra no Irã depende do desfecho de um conflito travado no governo americano. O secretário do Tesouro Scott Bessent e a chefe de Gabinete Susie Wiles advertem para os danos econômicos e políticos. Donald Trump lida com o desejo de deixar uma impressão profunda na história.

Quem observa Trump há muitos anos aponta nele uma obsessão por deixar sua marca, desde os primórdios como empresário do ramo imobiliário. Seus empreendimentos icônicos, assim como os produtos que ele criou, em geral sem sucesso, levam o nome “Trump” em letras garrafais.

As ‘Memórias de Marcos Azambuja’, por Celso Lafer

O Estado de S. Paulo

No âmbito do funcionamento do Itamaraty, a análise das transições faz destas ‘Memórias’ um paradigma do processo decisório diplomático

As Memórias de Marcos Azambuja, uma das mais notáveis figuras da diplomacia brasileira, acabam de ser publicadas. Foram instigadas pelo Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), denso centro de análise sobre a política externa brasileira, ao qual Marcos se dedicou depois de sua aposentadoria no Itamaraty. No Cebri, Marcos encontrou até o seu falecimento, em maio de 2025, um espaço para uma renovada vida diplomática.

As Memórias são abrangentes na reflexão sobre a diplomacia brasileira. Resultam de três longas entrevistas. A primeira, em 1997, ao término de sua notável embaixada em Buenos Aires (1992-1997). Dela deflui uma excepcional análise da importância das relações Brasil-Argentina.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Regulação do uso militar da IA é urgente

Por o Globo

Batalha da Anthropic contra governo americano é a mais relevante para futuro de guerras

A batalha militar mais relevante para o futuro do mundo não é travada hoje no Oriente Médio ou na Ucrânia, mas dentro dos Estados Unidos. Envolve o uso da inteligência artificial (IA) como arma e opõe o governo Donald Trump a uma das líderes no mercado de IA, a californiana Anthropic. O secretário da Guerra — nome ainda não aprovado pelo Congresso —, Pete Hegseth, anunciou a classificação da empresa como “risco à cadeia de suprimentos”, categoria em geral reservada a corporações estrangeiras cujos produtos são vistos como ameaça à segurança nacional. O motivo alegado é a recusa do CEO da Anthropic, Dario Amodei, em permitir qualquer aplicação de seus produtos. Amodei quer vetar uso para “vigilância em massa” ou “armas autônomas”, mesmo que não haja ilegalidade.

Direita pode ganhar eleição por ter quebrado um banco, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Quando Toffoli ou Moraes protegem Vorcaro, quem escapa da cadeia é a direita brasileira

STF só chegou no final do escândalo

Do jeito que as coisas vão, há boas chances de a direita brasileira ganhar a Presidência como recompensa por ter quebrado um banco.

Ah, dirá o leitor, tem gente de esquerda enrolada no Master. Bom, tinha muito mais gente de direita no petrolão do que tem gente de esquerda no Banco Master. É um escândalo de Faria Lima e igreja evangélica, dois ambientes com poucos esquerdistas.

Isso não é um penduricalho, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

No juízo dos juízes gravou-se a bico de pena a retórica de um bacharelismo que sempre fez uso eufemístico da língua para fins de manipulação

Palavras importam, conceitualizar preside à formação dos quadros cognitivos

Na discussão pública sobre a exorbitância salarial no Judiciário, uma juíza embirrou com a palavra penduricalho: "Não se trata disso, fique registrado". Deixou implícita a necessidade de outro nome. É o que a crítica de Roland Barthes chamava de "desnominação", isto é, trocar a palavra certa por um desvio palatável. Algo assim como, no passado, um partido político deveria se chamar "união de latifundiários e conservadores", mas escolhia União Democrática Nacional (UDN).

Michel Temer vê um Brasil disfuncional, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Observador engajado da cena nacional, o ex-presidente confessa que não está gostando nada do que vê

Na opinião dele, há uma indiferença geral nos três Poderes ao que dizem os mandamentos da Constituição

O ex-presidente Michel Temer (MDB) é um espectador engajado da cena nacional que, confessa, não está gostando do que vê: uma completa disfuncionalidade institucional. Na opinião dele, fruto da indiferença dos três Poderes ao que diz a Constituição.

A começar pelo atropelo do preâmbulo que estabelece o compromisso com "a solução pacífica das controvérsias". A dinâmica de uns anos para cá é inversa. Obedece a lógica do atrito permanente e reage mal, com agressividade, às divergências.

O Lula das sortes tem poucos meios de lidar com o azar das sujeiras de Trump, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

No final da semana passada, efeito da guerra no mercado de juros ficou preocupante no Brasil

Petróleo mais alto por mais tempo pode elevar PIB e fazer estrago político na inflação

Em fevereiro, os donos do dinheiro grosso acreditavam que a taxa básica de juros, a Selic, baixaria de 15% para 12% ao ano até fins de 2026.

Essa crença, digamos, pode ser medida pelos preços do atacadão do mercado de dinheiro, que define o custo de financiamento da dívida do governo e uma espécie de piso para as demais taxas de juros, dos bancos ao mercado de capitais.

Morre o filósofo alemão Jürgen Habermas, aos 96 anos

Por O Globo com agências internacionais 

Autor de obra extensa, ele foi um dos nomes centrais do pensamento europeu do pós-guerra

O filósofo e sociólogo alemão Jürgen Habermas morreu neste sábado (14), aos 96 anos, em Starnberg, no sul da Alemanha. A morte foi informada pela editora Suhrkamp. Com uma obra que atravessou a filosofia, a sociologia e a teoria política, Habermas foi um dos nomes centrais do pensamento europeu do pós-guerra.

Considerado uma das vozes mais influentes do debate público alemão nas últimas décadas (e o intelectual alemão mais influente de sua geração), Habermas ficou associado a reflexões sobre democracia, racionalidade e vida em sociedade. Seu trabalho ajudou a consolidar conceitos como o da esfera pública e o da ação comunicativa, que se tornaram referências dentro e fora da academia.

Morre Jürgen Habermas, um dos filósofos mais influentes de sua geração, aos 96 anos

Maurício Tuffani / Folha de S. Paulo

Alemão é dono de obra sobre o conceito de esfera pública

Morte foi confirmada por sua editora, Suhrkamp

O filósofo e sociólogo alemão Jürgen Habermas, um dos pensadores mais influentes do mundo, morreu neste sábado (14), aos 96 anos, em Starnberg, perto de Munique. A informação foi confirmada pela Suhrkamp Verlag, editora que publica seus livros.

Habermas era de uma família simpatizante do nazismo e foi membro da Juventude Hitlerista. Aos 15 anos integrou a milícia de jovens e idosos recrutados para resistir à invasão da Alemanha no fim da Segunda Guerra Mundial. Anos depois, ele se tornou um dos principais filósofos da Escola de Frankfurt, formada por pensadores marxistas e judeus exilados do país para fugir da perseguição nazista.

Nascido em 18 de junho de 1929 em Dusseldorf, em uma família protestante muito tradicional, Habermas era o filho do meio do casal Ernst e Grete. O garoto foi submetido a duas cirurgias corretivas da fissura palatina.

De origem genética, essa má-formação no céu da boca dificultou sua fala e seus relacionamentos, tornando-o um jovem tímido e, mais tarde, um adulto que precisou aprender a lidar com o próprio comportamento retraído. Esse problema o sensibilizou para elaborar uma filosofia voltada para a importância da comunicação em uma sociedade democrática.

Filósofo alemão Jürgen Habermas, teórico da ‘esfera pública’, morre aos 96 anos

Por Matheus Mans / O Estado de S. Paulo

Ele recebeu inúmeros doutorados honoris causa e prêmios, incluindo o Prêmio da Paz da Indústria Livreira Alemã (2001) e o Prêmio Kyoto (2004)

O filósofo e sociólogo alemão Jürgen Habermas, um dos principais pensadores sobre democracia e “esfera pública”, morreu neste sábado, 14, aos 96 anos. A informação foi confirmada pela sua editora, Suhrkamp.

Ele faleceu em sua residência em Starnberg, nos arredores de Munique, na Alemanha. A causa da morte não foi confirmada.

Quem era Habermas?

Jürgen Habermas nasceu em 18 de junho de 1929, em Düsseldorf.

De 1949 a 1954, estudou filosofia, história, psicologia, literatura alemã e economia em Göttingen, Zurique e Bonn.

Lecionou, entre outras instituições, nas Universidades de Heidelberg e Frankfurt am Main, bem como na Universidade da Califórnia, Berkeley, e foi diretor do Instituto Max Planck para o Estudo das Condições de Vida do Mundo Científico-Técnico, em Starnberg.

Jürgen Habermas recebeu inúmeros doutorados honoris causa e prêmios, incluindo o Prêmio da Paz da Indústria Livreira Alemã (2001) e o Prêmio Kyoto (2004).

A segunda morte de Antonio Gramsci? Por Ivan Alves

O italiano Antonio Gramsci teve uma vida trágica. Nascido em 1891, ainda quando criança pastoreava ovelhas nas montanhas da sua Sardenha natal, passando meses a fio isolado de tudo e de todos. Aos 20 anos de idade, partiu para a região do Piemonte, destacando-se como articulista em um jornal socialista, até se tornar um dos fundadores do Partido Comunista Italiano (PCI), ao lado de Palmiro Togliatti e outros companheiros. Participou dos sovietes de Turim, influenciados pelo desenrolar dos acontecimentos que marcaram a Revolução de Outubro de 1917, na velha Rússia. Preso em 1926, quando era secretário-geral do PCI, Gramsci morreu em um hospital militar, após mais de dez anos na prisão. O ditador fascista Benito Mussolini dizia que era preciso fazer com que aquele cérebro parasse de pensar.