sexta-feira, 24 de abril de 2026

Brasileiros mandados de volta, por José de Souza Martins*

Valor Econômico

Deportações nos EUA em condições deploráveis ignoram o fato de que esse imigrante, mesmo irregular, cria riqueza por preço muito menor que o cobrado pelos nativos

A cada tantos dias, um avião fretado pelo governo americano traz de volta ao Brasil algumas dezenas de brasileiros que desembarcam em diferentes aeroportos. Um deles é o de Confins, em Belo Horizonte. A mídia tem descrito as não raro deploráveis formas de detenção dessas pessoas nos EUA e igualmente deploráveis condições da viagem de volta à pátria.

Isso não é propriamente muito diferente do que foi a vinda para cá de ancestrais, até não muito antigos, de milhões de brasileiros de hoje. As viagens em navios cuja terceira classe trouxe para o Brasil milhares de imigrantes europeus e asiáticos, durante décadas, para trabalhar nas fazendas brasileiras em condições que não eram propriamente muito diferentes das dos escravizados da escravidão recém-abolida. Não eram viagens turísticas. Meus avós maternos e meus tios lembravam dos penosos detalhes da travessia, em 1913.

Congresso do PT definirá diretrizes e estratégia eleitoral

Por Andrea Jubé / Valor Econômico

Desafio é atualizar o discurso para a nova realidade geopolítica e tecnológica

A cinco meses das eleições, o PT reunirá em Brasília, a partir desta sexta-feira (24), dirigentes e delegados no 8º congresso nacional, instância máxima decisória da sigla, a fim de debater a conjuntura política, definir estratégias para a disputa eleitoral e aprovar diretrizes para o futuro do partido, que completou 46 anos em fevereiro.

Tendo como prioridade a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o desafio é atualizar o discurso para a nova realidade geopolítica, a revolução no mundo do trabalho diante das novas tecnologias, e as mudanças nas demandas sociais e econômicas, a fim de tentar convencer os brasileiros de que o partido merece continuar no poder. Lula irá discursar no encerramento do evento no domingo (26). O presidente nacional da legenda, Edinho Silva, abre o congresso com uma análise do cenário político, e o lançamento de nova campanha de filiação.

Dirceu vê Lula ajustando a rota com ‘autocrítica’, por Andrea Jubé

Valor Econômico

Partido se depara com um fantasma do passado que assombra forças progressistas no mundo todo

No momento em que se reúne para debater o seu futuro, o PT se depara com um fantasma do passado que assombra não apenas o partido, mas as forças progressistas no mundo todo. Instado a elaborar um roteiro com experiências internacionais de partidos de esquerda para o 8º Congresso Nacional do PT, o diretor de Cooperação Internacional da Fundação Perseu Abramo, Valter Pomar, sugeriu a leitura de “O Alfaiate de Ulm”, do intelectual e dirigente comunista Lucio Magri.

Obra de referência de intelectuais da esquerda, o livro reconstitui a história do Partido Comunista Italiano (PCI), da sua criação ao apogeu, até o fim melancólico em 1991, junto com a dissolução da União Soviética. No auge do poder, em meados dos anos 1970, o PCI era o maior partido comunista do Ocidente.

Na Segunda Guerra, o partido lutou na Resistência Italiana ao lado de socialistas, católicos e liberais para derrubar o fascismo de Mussolini. Mas em pleno apogeu, no ano de 1978, prestes a firmar uma aliança histórica com a Democracia Cristã (DC) para governarem juntos a Itália, o assassinato do líder da DC, Aldo Moro - atribuído aos comunistas - deflagrou uma fase de decadência da sigla. Anos depois, a história mostrou que os comunistas não estavam envolvidos no crime.

Ser ou não ser candidato à reeleição, o drama shakespeariano de Lula, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Essa hipótese está nas cabeças dos aliados de Lula e de muitos petistas, a favor ou não da candidatura. Quem ficou na berlinda foi o ex-ministro Fernando Haddad

Na versão da peça Hamlet, de William Shakespeare, filmada para a tevê pela emissora estatal britânica BBC, o ator escocês David Tennant aparece sozinho em cena no começo do terceiro ato. Com ar de quem reflete profundamente e com grande sofrimento, murmura lentamente: “Ser ou não ser: eis a questão”. A frase foi imortalizada porque serve de analogia para todos os momentos de decisões difíceis. É a síntese de um drama humano e político ao mesmo tempo.

Me engana que eu gosto, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Dos ‘outsiders’ de 2018, dois caíram em desgraça e outro virou candidato a presidente

Três ilustres desconhecidos, que surgiram do nada, lançaram-se na política e foram eleitos governadores em 2018, na onda do bolsonarismo e contra o “sistema, a política, a corrupção e a violência”, tornam-se hoje ótimos “cases” sobre “outsiders” na política. Dois caíram em desgraça, um virou candidato a presidente.

Os dois que não deram certo vieram da área jurídica, hoje tão abalada por revelações chocantes, e apresentaram-se como impecáveis cumpridores da lei e impolutos guerreiros contra a corrupção. Ibaneis Rocha, advogado muito bem-sucedido e ex-presidente da OAB-DF, foi eleito e reeleito no DF, mas... E Wilson Witzel, ex-juiz federal (vejam só!), foi tão efêmero como governador quanto meteórico como candidato no Rio.

Master: fila de delatores enfrenta barreira, por Raquel Landim

O Estado de S. Paulo

Com investigações avançadas, o que mais Vorcaro, Zettel e Costa podem entregar nesse núcleo central?

Formou-se uma fila de possíveis delatores do caso do Banco Master: o banqueiro Daniel Vorcaro, o cunhado e operador financeiro dele, Fabiano Zettel, o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa.

À medida que as investigações apertaram o cerco, todos adotaram a mesma estratégia. Trocaram de advogado e passaram a buscar um acordo.

Seus advogados, porém, têm ouvido a mesma coisa de interlocutores na Polícia Federal, na Procuradoria-Geral da República (PGR) e no gabinete do relator do caso, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça. Não vai ser fácil.

A sinceridade de Lula na Espanha, por Fernando Gabeira

O Estado de S. Paulo

Pena deixar reflexões tão importantes para o exterior: o discurso foi recebido aqui, no Brasil, como mais um discurso. Mas tem contornos históricos

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez um discurso histórico em Barcelona. Ele descreveu a essência do momento político mundial, caracterizado pelo declínio da social-democracia e a ascensão do populismo de direita. Muitos pesquisadores e estudiosos já o fizeram. Mas a fala de Lula, com palavras simples, tem o valor existencial de alguém que detém o poder por muitos anos.

“O progressismo não conseguiu superar o pensamento econômico dominante. O projeto neoliberal prometeu prosperidade e entregou fome, desigualdade e insegurança. Provocou crise atrás de crise. Ainda assim, sucumbimos à ortodoxia. Temos sido os gerentes das mazelas do neoliberalismo. Governos de esquerda ganham as eleições com discurso de esquerda e praticam austeridade. Abrem mão de políticas públicas em nome da governabilidade. Nós nos tornamos o sistema. Por isso, não surpreende agora que o outro lado se apresente como antissistema.”

Um beija-mão fora de moda, por José Roberto Batochio*

O Estado de S. Paulo

No figurino em que está talhada, a peregrinação aos senadores costura-se fora das linhas da Constituição e da compostura republicana

Aromaria que todos os indicados do presidente da República para o Supremo Tribunal Federal (STF) fazem aos gabinetes dos senadores é um beija-mão tão anacrônico quanto inapropriado. Nessa jornada, tem se movimentado o advogado-geral da União, dr. Jorge Messias, em visita aos gabinetes do Senado enquanto aguarda a sabatina a que se submeterá na Casa em 29 de abril. Se há inquirição, arguição pública para que os parlamentares possam perguntar (em rigor, discursar...) o que bem entendam, para avaliar a qualificação do indicado ao cargo, por que razão manter esse ritual prévio com os senadores que nada mais simboliza do que um pleito de voto a quem mais tarde poderá ser julgado pelo ministro?

Enredo manjado ameaça Lula 4, por Vera Magalhães

O Globo

Q.G. petista subestimou a capacidade de Bolsonaro de transferir votos depois de condenado e preso

Com as pesquisas mostrando risco concreto de derrota de Lula em outubro, as principais lideranças petistas tentam encontrar um caminho para reconectar o presidente com as forças que compuseram a frente ampla em 2022 e renovar o pacto em novas bases. Mas esbarram num questionamento: como envolver esses segmentos em torno de um projeto de país que olhe para a frente quando o que as pesquisas mostram é cansaço com Lula e a sensação de que governo apresenta um enredo manjado?

Uma escada chamada Gilmar, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Ameaça de processo ajuda pré-candidato do Novo a se apresentar como vítima

Romeu Zema iniciou uma cruzada contra o Supremo para tentar sair da rabeira da corrida presidencial. A tática ainda não produziu efeito nas pesquisas, mas acaba de ganhar um impulso inesperado.

No início da semana, Gilmar Mendes apresentou uma notícia-crime contra o ex-governador de Minas. Pediu que ele seja investigado no inquérito das fake news, conduzido pelo colega Alexandre de Moraes.

O supremo ministro se irritou com vídeos publicados nas redes de Zema. Numa das peças, fantoches satirizam o envolvimento de juízes da Corte, chamados de “intocáveis”, com o escândalo do Banco Master.

STF impede direita de fazer política, por Pablo Ortellado

O Globo

Antes de defender nossas preferências políticas, é preciso defender a democracia, num sentido pluralista

Na semana passada, o plenário do STF considerou inconstitucional a lei catarinense que acabava com as cotas raciais para as universidades no estado, por 10 votos a 0.

Segundo o Datafolha, 83% dos brasileiros apoiam cotas para as universidades na sua dimensão social (para quem cursou escola pública), mas, na dimensão racial, elas têm apoio minoritário (41%). Os críticos das cotas raciais argumentam — a meu ver, sem razão — que elas racializam uma sociedade mestiça e criam privilégios para uma elite negra. É um argumento que existe na sociedade e faz parte do debate público há muitos anos, sobre o qual a Assembleia Legislativa de Santa Catarina deliberou.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Como não fazer uma legislação sobre jornada de trabalho

Por Folha de S. Paulo

Tramitação do fim da escala 6x1 é apressada por disputa entre governo e Congresso em ano eleitoral

As piores ideias incluem uma compensação a ser paga pelo governo aos empregadores; vale dizer, a conta seria repassada ao contribuinte

Governo e Congresso Nacional dão um exemplo didático de como não se deve elaborar uma legislação em suas tratativas para a redução da jornada de trabalho.

Uma mostra disso é a tramitação simultânea de propostas de emenda constitucional (PECs) sobre o tema —duas das quais foram aprovadas na quarta-feira (22) pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara— e de um projeto de lei enviado em regime de urgência pelo Executivo.

É preciso resistir às tentações, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Educação e sinalizações afetam comportamento humano, mas só até certo ponto

Norma britânica que bane cigarros para novas gerações viola igualdade diante da lei

Eu acredito no poder transformador da educação e de sinalizações, venham elas do Estado ou mais organicamente da própria sociedade. Foi uma combinação desses fatores que levou os temíveis vikings a se converterem nos civilizados escandinavos. E não faz tanto tempo. Até o finalzinho do século 19, a Suécia ainda era um dos países mais pobres e corruptos da Europa. Existem, contudo, limites para a maleabilidade humana. Nem recorrendo à força conseguiremos fazer com que 100% da população siga sempre um mandamento legal, uma diretriz sanitária ou o bom senso.

Dino propõe reforma que se desvia do cerne da crise, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Tensão no STF não decorre de falhas do Judiciário e sim da conduta imprópria de alguns magistrados

O código de ética seria um ponto de partida para o Supremo começar a recuperar a confiança do público

Uma das maneiras de se desviar de um ponto sob questionamento é propor que se olhe o problema por uma lente ampliada. E, neste aspecto, o proponente em geral leva vantagem. Afinal de contas, por que não enxergar o todo no lugar de focar a parte, não é mesmo? Em tese, faz todo sentido.

Na prática, porém, há o risco de a amplitude do debate levar à dispersão e à perda de concentração na questão principal que se dilui no turbilhão de sugestões. Uma reforma ampla do Poder Judiciário, como propõe o ministro Flávio Dino, do STF, soa condizente com as demandas por correções no sistema de Justiça. São muitas as falhas e distorções. O tema é relevante.

Flávio Moderado Bolsonaro, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Se achou importante tomar vacina, por que permitiu que seu pai a sonegasse ao povo brasileiro?

Numa coisa o senador será, com razão, moderado; não dará um pio sobre corrupção

Flávio Bolsonaro apresenta-se ao eleitorado como um "Bolsonaro moderado". Equivale ao círculo quadrado e ao fato imaginário, especialidades da família Bolsonaro. Um de seus argumentos é que se vacinou contra a Covid. E daí? Se achava a vacina tão importante a ponto de tomá-la, o que fez para sustar a política omnicida de seu pai, que sonegou enquanto pôde a vacina à população, mentiu sobre ela, ridicularizou-a e, como um misto de camelô e curandeiro, vendeu um substituto sabidamente ineficaz? Dos 700 mil brasileiros mortos pela Covid, quantos não terão sido crédulos bolsonaristas? E onde estava Flávio Bolsonaro enquanto seu pai, indiretamente, matava em série?

Liberalismo e Sindicato no Brasil, 50 anos, por Fernando Perlatto e Diogo Tourino

Neste dia de São Jorge, santo popular e cheio de significados na cultura urbana carioca, a BVPS traz uma comemoração em torno de um Jorge, grande guerreiro das ciências sociais brasileiras. Luiz Jorge Werneck Vianna publicava há cinquenta anos atrás sua tese de doutorado Liberalismo e sindicato no Brasil. Marco de uma época em que a sociologia enfrentava desafios macros, com coragem e audácia. Contemporâneo de A revolução burguesa no Brasil, de Florestan Fernandes, cujo cinquentenário comemoramos ano passado, e da segunda edição de Os donos do poder, de Raymundo Faoro, por exemplo.

A tese de Werneck tem uma história de escrita que se confunde com a repressão e a resistência à Ditadura Militar brasileira. E, só por isso, mereceria ser lembrada. Mas, ela é mais. Muito mais. O livro forjou uma interpretação original da modernização conservadora brasileira, inserindo um novo olhar e novos recursos intelectuais sobre o problema das relações entre Estado, sindicatos e classe trabalhadora. Não seria exagero nenhum dizer que, nesse sentido, a partir da periferia, Liberalismo e sindicato no Brasil permite interpelar a teoria sociológica em um sentido mais amplo. O livro, além disso, teve ampla recepção, causou controvérsias e disputou direção (moral e intelectual, como, gramscianamente, ele gostava de dizer) nos meios acadêmicos e dos movimentos sociais da transição democrática.

Meio século depois, permanece e se atualiza como referência para pensarmos os impasses da formação social brasileira. Dois dos mais queridos alunos de Werneck Vianna no antigo IUPERJ, Fernando Perllato e Diogo Tourino, ambos professores da Universidade Federal de Juiz de Fora atualmente, fazem o elogio do livro em nome de tantos de nós que tivemos o privilégio de conviver com Werneck e que continuamos a aprender com Liberalismo e sindicato no Brasil.

Salve (Luiz) Jorge!

**********