terça-feira, 24 de março de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Aposentadoria especial é distorção sem cabimento

Por O Globo

Quatro em cada dez aposentados brasileiros saem da ativa antes da idade mínima válida para os demais

Uma das principais distorções da Previdência no Brasil é a concessão de aposentadoria a grupos específicos antes do prazo em vigor para todos os demais. É o caso de benefícios concedidos a trabalhadores rurais, professores e profissionais expostos a agentes nocivos. Eles respondem por 38,7% das aposentadorias por idade e tempo de contribuição no Brasil, como constatou reportagem do jornal Valor Econômico. Na esfera estadual brasileira, professores da educação básica são quatro em dez aposentados. Não há paralelo em nenhum país comparável ao Brasil.

Incerteza, ambiente propício para salvadores da pátria, por Pedro Cafardo

Valor Econômico

Empresas e consumidores do Brasil enfrentam há décadas os juros reais mais altos do mundo, e há um silêncio constrangedor entre empresários do setor produtivo atingidos pelos custos desses juros

Incerteza é a palavra do momento. A maior de todas advém da atuação insana do presidente da mais poderosa nação do mundo. A guerra que esse senhor iniciou ao bombardear o Irã em parceria com outro senhor, além de mortífera e devastadora, se mostrou pobre em planejamento. Provocou a expansão do conflito para todo o Oriente Médio e a maior interrupção de oferta da história do mercado mundial de petróleo.

Com o seu erro estratégico, os dois senhores dessa guerra estão matando civis, inclusive muitas crianças, sem medo de serem punidos por seus crimes. Além disso, fizeram disparar os preços do petróleo e ameaçam o mundo com uma nova onda inflacionária, talvez semelhante à que se sucedeu ao grande choque dos anos 1970, quando a alta da commodity atingiu 400% em decorrência da guerra do Yom Kippur. Naquela década, o preço do barril saiu de US$ 3 para US$ 12.

A brigada anti-impeachment no Supremo, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Maior temor é o de que o impeachment de ministros seja “normalizado” como o de presidentes

O procurador- geral da República manifestou-se pela prisão domiciliar do ex-presidente Jair Bolsonaro. Paulo Gonet disse não haver meios, no sistema prisional, de monitorar sua saúde. Por mais bem fundamentada que esteja, a manifestação de Gonet não trata apenas da sobrevivência do ex-presidente, mas também daquela do Supremo Tribunal Federal. Como a Corte ainda não é capaz de delimitar o estrago para sua imagem com o Master, há um consenso de que é preciso evitar novas frentes de desgaste como a custódia prisional de um ex-presidente da República debilitado.

A pedido da PGR, Moraes deve conceder prisão domiciliar para Bolsonaro, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

A ausência de estrutura adequada para lidar com doenças complexas, crônicas ou degenerativas pode transformar a pena privativa de liberdade em pena de morte indireta

A qualquer momento, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), responsável pela execução penal dos condenados pela tentativa de golpe de Estado de 8 de Janeiro, deve acolher manifestação do procurador-geral da República, Paulo Gonet, opinando pelo deferimento do pedido de prisão domiciliar em caráter humanitário de Jair Bolsonaro. O pedido é justificado pela defesa devido ao estado de saúde do ex-presidente, que demanda monitoramento em tempo integral. A PGR reconhece que o ambiente familiar pode fornecer os cuidados ininterruptos exigidos ao paciente.

Ambiguidade como arma de guerra, por Míriam Leitão

O Globo

Trump emite sinais contraditórios sobre o conflito no Oriente Médio: ora de ataque, ora de negociação. O fato é que a guerra atinge a economia e provoca estragos

O anúncio do presidente Donald Trump de que estaria havendo negociações com o Irã causou uma rápida reação positiva do mercado. Mas há pouca certeza de que isso esteja de fato ocorrendo ou venha a ter um bom resultado. O mais certo é que a volatilidade da cotação do petróleo vai continuar, ao sabor das incertezas. O Irã negou conversas diretas, mas admitiu contatos através de mediadores. Para os Estados Unidos, a guerra está provocando mais estragos do que Trump admite ou calculou que aconteceria. O Irã já sabe que consegue afetar o presidente norte-americano aumentando o custo econômico do conflito, porém ele também sabe quais as suas perdas e os seus limites.

O risco das delações cruzadas, por Merval Pereira

O Globo

Um delatado que resolve colaborar depois pode querer redistribuir culpas ou minimizar o próprio papel

A delação premiada no caso do Banco Master será a senha para o esclarecimento das entranhas da relação não apenas do ex-banqueiro Daniel Vorcaro com autoridades e políticos em Brasília, mas também de seus sócios, ou cúmplices, como o cunhado Fabiano Zettel e o empresário João Carlos Mansur, da Reag Investimentos, investigado por relações financeiras ilegais, inclusive com facções do crime organizado, como o PCC paulista. Mas há conflitos de interesse entre as eventuais delações, pois o atual advogado de Vorcaro também assumiu a defesa de Mansur, que necessariamente será implicado numa eventual delação do ex-banqueiro.

O país da delação séria, por Fernando Gabeira

O Globo

Como para muitas outras coisas no Brasil, temos uma versão leve. Sem açúcar, sem gordura, sem glúten, sem agrotóxicos

O advogado de Daniel Vorcaro procurou a PF e disse que seu cliente queria fazer uma delação séria. São coisas do Brasil. A delação premiada existia em alguns países antes de chegar aqui. Tivemos várias. Mas, bem cedo, chegamos a essa categoria de delação séria, pois, como para muitas outras coisas no Brasil, temos uma versão leve. Sem açúcar, sem gordura, sem glúten, sem agrotóxicos.

A guerra da IA, por Pedro Doria

O Globo

A guerra que Estados Unidos e Israel travam contra o Irã traz duas novidades que a tornam, nas palavras de Michael Horowitz, do Council on Foreign Relations, a primeira “guerra de precisão em massa”. A última vez em que uma transformação tecnológica radical desse nível ocorreu foi em 1991, na Guerra do Golfo. Lá, os mísseis Tomahawk e aviões bombardeiros que sumiam no radar permitiram que ataques tivessem um nível de precisão jamais visto. Agora é diferente. A precisão é plena e quase total. O que mudou foram duas tecnologias em paralelo. Do lado americano e israelense, é a primeira vez que inteligência artificial é usada para escolher alvos. Do lado iraniano, sua principal arma são drones que enxergam onde pretendem atacar. Por diversas razões, isso quer dizer que esta é uma guerra imprevisível.

O ‘centro’ flopou mais uma vez, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

As articulações do Centrão deram em nada, resta saber para onde vai o eleitor de centro

A desistência de Ratinho Jr. tem significados fortes e consequências claras: Gilberto Kassab desaba do pedestal de gênio da política, as opções do tal “centro” definham, o cenário de polarização se consolida e Flávio Bolsonaro conquista uma vitória relevante, enquanto o presidente Lula é quem tem mais a lamentar.

A frente articulada por Kassab, liderada pelo PSD e engrossada por partidos do Centrão, reunia três ou quatro candidatos à Presidência, mas Tarcísio de Freitas fugiu da raia, Ratinho Jr. recolheu-se à sua insignificância, Eduardo Leite parece sempre um peixe fora d’água.

As consultorias de Vorcaro, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

O crescimento do Banco Master – o livre e célere erguimento de sua pirâmide – é produto também da rede de relações costurada por Daniel Vorcaro, tessitura em que se destaca o zelo por ter várias e boas consultorias. Ele sabia selecionar prestadores de serviços cujo serviço teria valor, como se diz, subjetivo. Quase como se montasse uma coleção de arte, fomentou espécie de startup de consultorias – e, claro, consultores. Consultores influentes, inclusive jurídicos. Tudo a milhão.

Uma nova política de Defesa, por Rubens Barbosa

O Estado de S. Paulo

A melhoria da capacidade de atuação das Forças Armadas tem de ser vista como uma questão de Estado, com uma visão estratégica de médio e longo prazo

Em janeiro passado, o presidente Lula convocou uma reunião com o ministro da Defesa, os comandantes das três Forças e o chefe do Estado-Maior Conjunto para analisar as vulnerabilidades do Brasil no caso de uma ameaça externa. A preocupação, oportuna neste momento, mas muito atrasada do ponto de vista da defesa da soberania, tem de ser também entendida pela sociedade e pela classe política, distantes desse problema, cada vez mais urgente diante das incertezas globais e pela insegurança interna.

Ruim, mas deve piorar, por Jorge J. Okubaro

O Estado de S. Paulo

Se o diretor-geral da AIE prevê que a crise atual do petróleo pode ser a pior da história, pode-se imaginar o que está a rondar a economia mundial

“A maior ameaça à segurança energética global da história.” Foi assim que, em entrevista ao jornal britânico Financial Times na semana passada, o diretor-executivo da Agência Internacional de Energia (AIE), Fatih Birol, avaliou os impactos sobre a economia mundial da guerra entre os Estados Unidos-Israel e o Irã. Segundo Birol, dirigentes políticos e agentes dos principais mercados mundiais estão subestimando a dimensão da crise causada pelo fato de que, na prática, com o fechamento do estreito de Ormuz, cerca de um quinto do petróleo consumido no mundo está retido na área do conflito.

Desistência de Ratinho Jr. é reconhecimento de que chances da terceira via são diminutas, por Joel Pinheiro da Fonseca

Folha de S. Paulo

Mais um ciclo eleitoral vem e o Brasil continua preso na polarização de lulismo e bolsonarismo

Lula e Flávio são a expressão da nossa democracia, em que poucos eleitores sabem os projetos de seus candidatos

desistência de Ratinho Jr. da corrida presidencial é o reconhecimento de que as chances da terceira via são diminutas. De que vale o desgaste para terminar com 5%? Mais um ciclo eleitoral vem e o Brasil continua preso na polarização de lulismo e bolsonarismo (ou seus ungidos).

Isso contraria muitas intuições de como o eleitor escolhe, ou deveria escolher. Uma ideia muito difundida é a seguinte: o eleitor tem suas preferências de projetos de lei e políticas públicas. Os candidatos apresentam seus planos. Com as propostas em mãos, o eleitor escolhe o candidato que mais se aproxima de suas preferências. Se, futuramente, aparecer um novo candidato cujas propostas são ainda mais próximas das suas, ele mudará seu voto. Será que Flávio e Lula têm as melhores propostas?

Pressões põem em xeque funcionamento de CPIs, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

As comissões parlamentares de inquérito estão sendo gradativamente esvaziadas e desmoralizadas

A desconstrução em parte é obra dos próprios políticos, em parte culpa das interferências por interesses ocultos

Pode ser coincidência ou mera impressão, mas que determinadas atitudes de ministros do Supremo e dos presidentes da Câmara e do Senado espalham um aroma de operação abafa no ar de Brasília, isso é evidente.

No STF anulam-se quebras de sigilo aprovadas em comissões de inquérito e liberam-se convidados e convocados de comparecer a CPIs enquanto no Congresso o deputado Hugo Motta (Republicanos) e o senador Davi Alcolumbre (União Brasil) interditam a prorrogação da CPMI do INSS e impedem investigações sobre o Banco Master.

Lagoinha, igreja de Vorcaro, já foi palco de revolução evangélica, por Juliano Spyer

Folha de S. Paulo

Escândalo reacende críticas à associação entre fé, poder e dinheiro

Nos anos 90, igreja se conecta ao dinâmico evangelicalismo dos EUA

Para quem conheceu a Lagoinha pelo noticiário recente, ela aparece associada a luxo, política e ao escândalo do Banco Master. Mas essa mesma igreja já ocupou um lugar muito diferente no protestantismo brasileiro.

Nos anos 1970 e 1980, em Belo Horizonte, a Lagoinha era uma igreja de bairro. Membros antigos a descrevem como uma extensão da vida doméstica: famílias próximas, crianças crescendo juntas, vínculos duradouros. Era uma igreja batista típica, que incorporou uma liturgia mais viva, próxima ao estilo pentecostal.

Trump e Netanyahu tendem a divergir sobre Irã, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

A americano interessa reduzir danos e encerrar a guerra

Para israelense, só vitória eloquente ajudaria em reeleição

Donald Trump e Binyamin Netanyahu começaram juntos a guerra contra o Irã, mas tendem cada vez mais a divergir sobre o momento de encerrá-la.

É difícil, aliás, entender por que Trump embarcou nessa aventura. É verdade que o Agente Laranja ganharia pontos eleitorais (haverá pleito legislativo nos Estados Unidos em novembro), se tivesse derrubado a teocracia iraniana apenas falando grosso e lançando meia dúzia de bombas. Só que o risco de isso não acontecer sempre foi grande. E, até aqui, não aconteceu.

Trump precisa visitar Rio das Pedras para conhecer as milícias, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Há organizações criminosas de todo o tipo, não só aquelas que negociam drogas

Milicianos ocupam territórios e são tão ou mais perigosos que bandidos do PCC e CV

Como haviam feito com o tarifaço —depois se arrependeram, escondendo o boné Maga—, direita e extrema direita se deliciaram com o argumento de equiparar traficantes a terroristas. A denominação narcoterrorista, adotada por Donald Trump e seus seguidores, como Nayib Bukele, o ditador "cool" de El Salvador, logo foi copiada pelos agentes de segurança do Rio de Janeiro. Serviu para embalar a chacina do Alemão e da Penha. Realizada em outubro, a operação deixou mais de cem mortos, sem alterar a situação nas duas comunidades, cujos territórios continuam ocupados. O alcance midiático, no entanto, foi um sucesso.