domingo, 1 de fevereiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Brasil tem de se preparar para seca severa

Por O Globo

Chuvas em certas regiões transmitem sensação falsa de segurança hídrica. Situação dos reservatórios é crítica

As chuvas dos últimos tempos transmitem um recado ilusório. É crítica a situação hídrica do Brasil, como mostrou reportagem do GLOBO. O país sofre escassez de água em boa parte de seu território, sobretudo no Sudeste e no Centro-Oeste. Há 40 anos se registra queda anual nas chuvas, e o período de seca no Sudeste aumentou 25 dias. Além do impacto no abastecimento das cidades, a situação põe em risco agropecuária e geração de energia.

Não é necessário apenas que chova. É preciso que chova nos lugares certos, as cabeceiras dos rios. As bacias hidrográficas de Sudeste e Centro-Oeste estão em estado de alerta, por isso o Centro Nacional de Monitoramento de Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) recomenda que a gestão dos reservatórios no decorrer do ano seja feita considerando o pior cenário. As taxas escandalosas de desperdício de água tratada (da ordem de 40%, segundo os últimos dados do Instituto Trata Brasil) reforçam tal recomendação.

De um transformismo a outro. Por Alberto Aggio

Estado da Arte / O Estado de S. Paulo

Da experiência democrática brasileira construída no contexto da globalização desde 1985 às inflexões recentes que vêm tensionando os avanços das últimas décadas.

É quase um consenso generalizado na literatura de linhagem histórico-política voltada para o tempo presente que, nos últimos 40 anos, o Brasil buscou concretizar o anseio de conjugar democracia política com sociedade democrática, carregando nesse processo êxitos marcantes bem como déficits expressivos.

A vitória no Colégio Eleitoral da ditadura, numa eleição indireta, e a posse do primeiro governo civil, em 1985, comandado por José Sarney, concretizou efetivamente a derrota política da ditadura e a abertura de um novo período que ficou conhecido como Nova República. Para o conjunto da sociedade, a Nova República significou a conquista da liberdade política integral para partidos, associações e movimentos sociais, ampliando de forma inédita a participação política. Substantivamente, de 1985 até os dias que o Brasil viveu o período mais longevo de democracia. 

Miscelânea partidária. Por Merval Pereira

O Globo

As crises do mensalão, e depois do petrolão, levaram ao caos partidário em que vivemos hoje

Não é possível chegar-se a uma conclusão sobre os acordos eleitorais para a eleição presidencial por causa da miscelânea da nossa política partidária. As fotos dos pré-candidatos do PSD podem dar a impressão de que a união deles faria a diferença no segundo turno, pois, nas pesquisas eleitorais, a soma dos candidatos de direita é maior do que os votos dados a Lula. Essa conta simples mostra que a maioria prefere um candidato de direita ao eterno representante da esquerda, o presidente Lula. Mas, se no Brasil até o passado é duvidoso, o que dizer do futuro?

Um palanque na Sapucaí. Por Bernardo Mello Franco

O Globo

A oito meses da eleição presidencial, Sambódromo será palco de desfile chapa-branca

Aconteceu há 12 dias, em solenidade no Rio Grande do Sul. De macacão laranja, o presidente da estatal Transpetro usou o púlpito para exaltar o governo e fazer campanha pela reeleição. “Mesmo diante das ameaças externas, estamos mais fortes”, discursou, dirigindo-se a Lula.

Em clima de comício, Sérgio Bacci arengou a claque e provocou a oposição. “Os brasileiros não vão permitir que os CEOs do atraso voltem a comandar este país”, disse. Em seguida, passou a recitar “um pedacinho do samba-enredo que será sucesso na Sapucaí”.

Hora de rever procedimentos. Por Míriam Leitão

O Globo

Assim como fez o Banco Central, as instituições envolvidas deveriam rever procedimentos para verificar se houve falhas

No dia seguinte à decisão do Copom, de manter juros no elevadíssimo nível de 15%, e avisar que a taxa cairá na próxima reunião, o Banco Central estava nas manchetes dos jornais. O assunto, contudo, não era a Selic. Era a auditoria interna feita para averiguar os procedimentos no caso da liquidação do Banco Master. Na mesma quinta-feira, o ministro Dias Toffoli soltou uma nota tentando se explicar e sinalizando que pode devolver o assunto à primeira instância.

A voz do silêncio. Por Dorrit Harazim

O Globo

Os atendentes levam algum tempo para decifrar que a menina de 6 anos está presa num carro metralhado, rodeada de parentes mortos

Quinta-feira é o dia da semana em que novos filmes entram em cartaz. Na semana passada, a sessão das 18h30 na sala 3 do Reserva Cultural, na Avenida Paulista, foi pouco concorrida. Melhor assim, pois permitiu a quem assistiu ao drama documental “A voz de Hind Rajab” permanecer colado na poltrona, mudo e no escuro, antes de sair de cabeça encolhida para não ter de olhar para os outros nem se ver no espelho. Mesmo para quem conhece os detalhes da história real e escreve sobre as investigações do caso, o filme dirigido pela tunisiana Kaouther Ben Hania tem a força de um soco. Na cara.

As boquinhas do Master. Por Elio Gaspari

O Globo

Mantega e Lewandowski, estrategistas de Vorcaro

O Planalto tem feito o possível para se afastar do escândalo do Banco Master. Como bem lembra o ministro Fernando Haddad, em 2024, quando Lula recebeu o banqueiro Daniel Vorcaro (fora da agenda) as malfeitorias eram apenas murmuradas.

Vorcaro foi levado a Lula pelo ex-ministro Guido Mantega. Até aí, o doutor é amigo do banqueiro e levou-o ao chefe. Lula acautelou-se, chamando Gabriel Galípolo, então diretor do Banco Central, e mais duas testemunhas.

A sociedade é toda ouvidos. Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Fachin e Cármen Lúcia para o STF e a sociedade: amigos, amigos, Judiciário à parte

As atenções, nesta segunda-feira, na reabertura do Judiciário pós-recesso, estarão sobre dois personagens, o presidente do STF, Edson Fachin, e a presidente do TSE, Cármen Lúcia, ambos considerados independentes, apolíticos e sóbrios, diferentemente do que se naturalizou nos dois tribunais, e (um menos, outra mais) capazes de dizer o que precisa ser dito, em vez de passar pano no que é errado e a mão na cabeça de quem não merece.

Enquanto o vice-presidente do STF, Alexandre de Moraes, o decano Gilmar Mendes e principalmente o relator do caso Master, Dias Toffoli, se perdem num redemoinho corporativista e de autoproteção, o desafio de Fachin é ajustar o próprio tom, defender firmemente a ética (e não só um código) e cumprir o papel de mostrar ao País que instituições estão acima de homens.

Dissuasão determina ações de Trump. Por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

Se seu alvos não contam com meios que o façam mudar de objetivo, presidente segue em frente

O poder de dissuasão determina desfechos das crises desencadeadas por Donald Trump. Ele jamais ameaça Xi Jinping e Vladimir Putin porque reconhece neles ditadores de grandes potências nucleares e, no caso chinês, econômica, sem limites para usar esse poderio. Com a Coreia do Norte, de status semelhante, embora menor, Trump ameaçou, depois cortejou Kim Jong-un e finalmente desistiu, diante do custo alto demais.

Pelo menos desde o livro A Arte de Negociar, de 1987, Trump tem reiterado que não persegue objetivos fixos, que enfraqueceriam sua posição de negociador. Esse princípio se confirma quando o presidente se apega demais a um objetivo, como o Nobel da Paz.

Mensagem de Lula ao Congresso terá recado central: 2026 será o "ano da entrega"

Por Fernando Strickland e Francisco Artur de Lima / Correio Braziliense

O documento, que deve ser entregue nesta segunda-feira (2/2), deve listar projetos considerados prioritários pelo Planalto para aprovação ainda no primeiro semestre

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva enviará ao Congresso Nacional, amanhã, a mensagem de abertura dos trabalhos legislativos com um recado central: 2026 será o "ano da entrega" de políticas públicas construídas após um período de "reconstrução". O documento deve listar projetos considerados prioritários pelo Palácio do Planalto para aprovação ainda no primeiro semestre, tanto na Câmara quanto no Senado.

A estratégia surge após um 2025 marcado por turbulências na relação entre Executivo e Legislativo. Um dos episódios recentes foi a troca de críticas entre a ministra do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet, e o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), sobre o uso de emendas parlamentares. Tebet afirmou que o Congresso teria feito um "sequestro" de R$ 61 bilhões do Orçamento, enquanto Motta respondeu que a alocação de recursos é uma prerrogativa constitucional do Parlamento.

A dança das cadeiras na equipe econômica de Lula e mulheres no BC. Por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Haddad diz que sai da Fazenda em fevereiro, deixando Dario Durigan em seu lugar

Mudanças incluem vagas abertas do BC, secretarias da Fazenda e Planejamento e Gestão

Fernando Haddad diz desde o ano passado que deixará a cadeira de ministro da Fazenda em fevereiro. Por ora, parece que seu sucessor será seu vice-ministro, Dario Durigan, secretário-executivo, apesar de fracas especulações a respeito de alternativas.

A substituição não deve provocar mudança de política econômica, até porque o grosso do programa da Fazenda, contas públicas, foi decidido por Lula, apesar de sugestões de Haddad. Mas pode haver dança de cadeiras na Fazenda, no Planejamento e no Banco Central. Planejamento e Gestão podem ser fundidos, por exemplo.

O candidato Ratinho Jr.: se PSD quer direita democrática, início não foi promissor. Por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Tanto governador do Paraná quanto Caiado já prometeram anistia aos golpistas de 2022-2023

Se bolsonarismo tivesse sido rejeitado em sua inteireza após 8/1, centro-direita teria opção melhor

PSD de Gilberto Kassab anunciou que terá candidato a presidente da República. Já que Tarcísio se mostrou covarde, o centrão foi cuidar da própria vida.

O anúncio do PSD foi feito durante a filiação de Ronaldo Caiado ao partido, e na presença de outro presidenciável, o governador gaúcho Eduardo Leite. Mas o candidato mais provável é o governador do Paraná, Ratinho Jr..

O bullying da palavra final. Por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Se prevalece a vontade individual num órgão máximo de Justiça, periga o juiz assumir posição de parte litigiosa

Caso Master, que Haddad considera maior fraude bancária do Brasil, é teia de aranha que envolve os três Poderes

Quando presidente dos EUA, Harry Truman exibia na mesa uma plaquinha com os dizeres "here stops the buck". A expressão, originária do jogo do pôquer, sinaliza o ponto de parada das questões públicas, o mandatário assume todas as responsabilidades sem repassar decisão. Era afirmação de poder, não de sono tranquilo: ele, mais ninguém, ordenou despejar duas bombas atômicas sobre o Japão.

Qual é o nosso problema? Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Livro tenta explicar o que deu errado na política norte-americana

Autor traz conceitos úteis, mas superestima estrago causado pelo identitarismo

"What´s Our Problem?", de Tim Urban, é um livro ambicioso. Tenta explicar o que há de errado com a sociedade americana e, a meu ver, acerta na mensagem central, que é a de que é preciso restaurar o liberalismo que já a caracterizou. Receio, porém, que Urban erre na dose dos ingredientes com os quais opera.

Haddad revida com ironia antigas críticas do PT. Por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Depois de apanhar como ministro, o petista é bajulado como salvador da lavoura do partido em São Paulo

Se aceitar ser candidato, precisará deixar a má vontade de lado; do contrário, será difícil entusiasmar o eleitorado

Foi revelador da urgência do PT em ter candidaturas fortes nos estados assistir ao chamado da ministra Gleisi Hoffmann para que todos vistam a camisa do partido na eleição de outubro. Em particular, Fernando Haddad, segundo ela qualificado para encarar o desafio em São Paulo.

Mais sintomático foi ver o sorriso de banda do ministro da Fazenda ao ser instado a comentar a declaração. "Comemoro ser elogiado por Gleisi", disse, para em seguida se desvencilhar dos microfones e entrar na portaria do ministério, deixando no ar a ironia.

A guerra de Trump contra os EUA. Por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

No passado, pela bravura e correção, um indivíduo conseguia se impor a uma maioria hostil

Hoje, um ferrabrás eleito democraticamente se impõe pelo poder e hostiliza e esmaga a maioria

Em "Doze Homens e uma Sentença" (1957), filme de Sidney Lumet, um jurado (Henry Fonda) consegue reverter a decisão de seus dez colegas dispostos a condenar um jovem acusado de matar o pai. Fonda, o jurado nº 8, não está convencido da culpa do rapaz e apresenta objeções que vão dobrando, uma a uma, a certeza de cada um. No fim, todos votam pela absolvição do garoto. São 95 minutos num cenário único, a sala de reunião do júri, e uma esgrima de diálogos em busca da verdade e da justiça.

O vinho do senhor e o bordeaux. Por Ivan Alves Filho

“É preciso estar sempre bêbado”, vaticinou certa vez o poeta Baudelaire. Mas nada de precipitações, pois o autor de As flores do mal, que muitos consideram o maior livro de poesia moderna da França, acrescentou imediatamente: “De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor. Contanto que vos embriagueis”.  

Caso opte por ficar bêbado pelo vinho – o que pode conter, vá lá, a sua dose de poesia, ainda que não implique forçosamente atitude virtuosa – deve o leitor fazê-lo com o máximo de prazer possível. E isso não é muito difícil em se tratando de vinho, a bebida predileta dos deuses, segundo alguns, e também de meros mortais, como os franceses, italianos, espanhóis, portugueses, gregos e afins.