segunda-feira, 1 de junho de 2026

A mais nova startup da direita disponível na prateleira partidária, por Miguel de Almeida

O Globo

O Missão critica o sistema, mas nasceu dentro dele. No início, o PT também

Jair Bolsonaro tentou e não conseguiu criar seu próprio partido. Semelhante ao que as tendências de esquerda (Convergência etc.) fizeram no PT, teve de fazer um “entrismo” no PL e conviver sob o teto de Valdemar Costa Neto. A turma do MBL chegou lá em novembro passado e pôs na praça o Missão, a mais nova startup da direita disponível na prateleira partidária.

— Somos mais capazes que ele — diz sobre Bolsonaro Renan Santos, presidente do Missão e candidato à Presidência. — Ele é um homem fraco e um traidor. É um mérito que respeitamos.

O leitor certamente já ouviu falar de Romeu Zema e de Ronaldo Caiado, personagens da política regional. Mas dificilmente ouviu algo sobre Renan Santos. Exceto que as pesquisas eleitorais o colocam em empate técnico com os dois ex-governadores. Na Atlas/Bloomberg, a pontuação do novato Missão tem humilhado máquinas poderosas do PSD de Kassab e do volúvel Novo.

— O Novo é o PCdoB do PL — alfineta Renan.

E não sem razão: o candidato do partido, Romeu Zema, recebe puxões de orelha em público sempre que critica Flávio Bolsonaro.

Eleições do medo, por Irapuã Santana

O Globo

A alta disponibilidade de imagens de violência urbana na memória faz com que o eleitorado reaja à possibilidade do perigo com urgência máxima

No último dia 28, foi publicada uma pesquisa do Instituto Ideia em parceria com o Canal Meio apontando que o atual presidente aparece com 46,5% das intenções de voto, ante 41,4% de Flávio Bolsonaro. O cenário se modificou substancialmente, uma vez que o senador tinha 45,3%, ante 44,7% de Lula, em 6 de maio.

Entretanto o quadro possui outros ingredientes importantes para ler o que se passa. Mesmo com essa diferença de 5,1 pontos percentuais, o governo é desaprovado por 51,4% dos eleitores, enquanto outros 51,4% afirmam que ele não merece mais um mandato.

Incerteza política, por Denis Lerrer Rosenfield *

O Estado de S. Paulo

Seria necessário que se consolidasse ou surgisse uma terceira via, voltada para o congraçamento nacional, para além da polarização reinante

Se há algumas semanas podia-se dizer que o senador Flávio Bolsonaro era o favorito na disputa presidencial, num movimento de ascensão, enquanto o seu oponente seguia a curva inversa, não se pode mais sustentar tal posição. O estrago produzido por sua relação próxima com o banqueiro/facínora Daniel Vorcaro é significativo. Lula, por sua vez, viceja em seus erros, embora esteja ele mesmo envolvido por atos passados de corrupção como aconteceu no mensalão, no petrolão, no sítio de Atibaia e no apartamento do Guarujá. A disputa pelo andar de baixo é acirrada, e o Brasil encontra-se cada vez mais à deriva, sem opções claras. E o cenário eleitoral tornou-se ainda mais indefinido.

Limites da diplomacia de facção de Flávio, por Diogo Schelp

O Estado de S. Paulo

O tipo de diplomacia informal que Flávio Bolsonaro foi fazer em Washington depende de afinidade ideológica

O senador e presidenciável Flávio Bolsonaro (PL-RJ) bateu no peito e assumiu o crédito pela decisão do governo americano de declarar o PCC e o Comando Vermelho, facções criminosas brasileiras, como terroristas. Espera, com isso, ganhar a fama de durão e os votos de quem acredita em uma bala mágica capaz de acabar com a bandidagem. No caso, por meio de uma intervenção externa, um Trump ex machina descendo à terra com uma solução milagrosa. Pura demagogia. A nova classificação dos Estados Unidos para o PCC e o CV vai gerar ruído com o governo brasileiro, certamente, e talvez nem cause tanto dano quanto se tem alardeado, mas bem não vai fazer.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Aposentadoria compulsória está com os dias contados

Por Folha de S. Paulo

Supremo confirma voto de Dino contra punição de juízes que garante recebimento de vencimentos

À luz do espírito republicano, é impossível justificar pena tão indulgente; Congresso deve assegurar que decisão se aplique a todos

A Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STFacompanhou o ministro Flávio Dino para proibir o uso da aposentadoria compulsória com vencimentos proporcionais ao tempo de serviço como punição disciplinar para juízes.

Pelo menos foi esse o entendimento no caso de um magistrado de Mangaratiba (RJ), acusado de favorecer grupos políticos da cidade e policiais militares milicianos. A despeito da seriedade das condutas atribuídas, ele receberia como pena a possibilidade de ficar em casa sem trabalhar, com direito a vencimentos mensais.

O STF houve por bem se opor a essa mamata corporativista. De acordo com a decisão, restando comprovado que o juiz incorreu em infrações graves, sua sanção deve ser mais firme: a perda do cargo, sem direito a quaisquer montantes ligados à atividade jurisdicional, aí incluídos os de natureza previdenciária.

Corrupção honesta' e criminalidade violenta, por Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

Lavagens de dinheiro oriundas de negociatas políticas e de crimes violentos se entrelaçam no caso Master

No entanto, quanto pior a reputação das instituições brasileiras, menor sua capacidade de efetivamente responder ao desafio que enfrenta

Há mais de dois anos escrevi sobre a Tammany Hall: uma espécie de confraria que dominou o partido democrata em Nova York por 40 anos, inspirou filmes e livros, e acabou virando símbolo de máquina política corrupta. Foi desmantelada nos anos trinta do século passado, mas na literatura especializada em corrupção é o exemplo paradigmático de corrupção política. Ao contrário do que afirmava um dos seus líderes, em uma fórmula célebre, não se tratava apenas do que chamou "corrupção honesta" —ou seja, aquela que envolve apenas "conflito de interesses", fraudes em licitações e blindagem contra punições. O esquema corrupto envolveu paulatinamente "corrupção desonesta" por "saqueadores" (desvios) e se entrelaçou com a criminalidade violenta liderada pelo capo Lucky Luciano.

Elas não? Por Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

Desde a criação do Supremo, em 1891, nunca uma mulher negra ocupou um dos assentos da Corte

Nomear uma mulher negra para o STF demanda interesse e disposição para alterar o equilíbrio de forças no poder

Desde a histórica rejeição do nome indicado pelo presidente da República para ocupar o cargo que se encontra vago no STF, a mobilização em prol da indicação de uma mulher negra para compor a corte suprema voltou a ganhar força.

Mais do que justa, a reivindicação encabeçada pelos movimentos sociais negros é necessária e urgente num país em que a maioria da população é feminina (51,5%) e negra (56%), segundo o IBGE. Contudo, desde a criação do Supremo, em 1891, nunca, nunquinha, jamais uma mulher negra ocupou um dos assentos da Corte.

A votação simbólica não é a vilã, por Lara Mesquita*

Folha de S. Paulo

Verdadeiro escândalo do Congresso é a votação remota, que permite que deputados votem durante sessão de cinema

Votação simbólica é mecanismo amplamente utilizado em democracias com legislaturas profissionalizadas

No último domingo (24), a Folha publicou, com destaque em sua capa da versão impressa, matéria sobre o uso de votações simbólicas pelo Congresso brasileiro, sob o argumento de que esse expediente comprometeria a legitimidade e a transparência do Legislativo.

Como discuti neste espaço em julho de 2025, a ciência política já identificou mecanismos que legislaturas "ocupadas", com alta demanda de temas a serem discutidos e votados, utilizam para organizar o trabalho legislativo e otimizar o tempo escasso. A votação simbólica, também chamada de "unrecorded collective vote", "voice vote" ou "signal vote", é um deles. A distribuição desigual do tempo de discurso entre líderes partidários e deputados ordinários é outro.

Morte de Edgar Morin retoma ousadia de sua obra em pensar o novo

Por Alfredo Pena-Veja e Elimar Pinheiro do Nascimento* - Folha de S. Paulo

Filósofo e sociólogo ficou marcado pela curiosidade do saber

Ele exibiu tanto a sua dúvida quanto a sua crença no humano em obras que interligaram diferentes ciências

Edgar Morin, morto na última sexta-feira, foi um homem marcado pela curiosidade do saber, pela ousadia de pensar o novo e de criar um mundo diferente.

Atraído por muitas questões, foi um homem de muitas facetas. Foi um predecessor em muitas áreas, desde seu primeiro livro, aos 25 anos, em 1946, "O Ano Zero da Alemanha". Com esse trabalho, o sociólogo francês —que escreveria ainda "A Sociologia: Do Microssocial ao Macroplanetário", em 1984—, inaugura o que veio a se chamar a sociologia do presente. Pensamento que, no Brasil, atravessa a obra de Ana Clara Torres Ribeiro e tem celebridades nas ciências sociais como Alain Touraine, Michel Maffesoli, Zygmunt Bauman, Manuel Castells, Richard Sennett, Danilo Martuccelli e Saskia Sassen.

Entrevista: 'Alcolumbre quer sentar com Lula e recompor a relação', afirma o ministro José Guimarães

Por Fabio Graner e Sérgio Roxo - Globo, domingo,31/05/2026

Petista avalia que o presidente do Senado não deve criar dificuldades para avançar até outubro com a PEC do fim da escala 6x1 e vê caminho para aproximar campanha à reeleição das siglas de centro

O ministro José Guimarães (Relações Institucionais) afirma que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), está disposto a recompor a relação com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e não deve criar dificuldades para avançar até outubro com a PEC do fim da escala 6x1, bandeira que será usada na campanha à reeleição. Alcolumbre foi um dos responsáveis pela derrota do advogado-geral da União, Jorge Messias, na indicação ao Supremo Tribunal Federal (STF), mas Guimarães diz que o governo “aprumou o passo” após o revés.

Como o governo vai atuar para que o fim da escala 6x1 avance no Senado?

A Saga do Tri: a Frente Democrática de 70, por Vagner Gomes*

"É numa tal linha de pensamento que se há de fazer a determinação das reformas e transformações constituintes da revolução brasileira. Isto é, não pela dedução a priori de algum esquema teórico preestabelecido; de algum conceito predeterminado da revolução. E sim pela consideração, análise e interpretação da conjuntura econômica, social e política real e concreta, procurando nela sua dinâmica própria que revelará tanto as contradições presentes, como igualmente as soluções que nela se encontram imanentes e que não precisam ser trazidas de fora do processo histórico e a ele aplicadas numa terapêutica de superciência que paira acima das contingências históricas efetivamente presenciadas. A análise e determinação adequadas daquelas contradições nos devem revelar desde logo — sob pena de se infirmar a análise e interpretação efetuadas que se revelariam em tal caso falhas ou insuficientes —, devem revelar por si e sem mais indagações as soluções que naturalmente implicam e em consequência comportam e justificam." (Caio Prado Júnior, A Revolução Brasileira).

A série “Brasil 70: a saga do tri”, que a Netflix lançou há duas semanas da abertura da Copa do Mundo de 2026, tenta furar um mosaico de “bolhas de interesses” a silenciar as ruas brasileiras quando o tema é a confiança num bom desempenho da seleção brasileira. Então, trata-se de uma produção muito didática para que as novas gerações entendam o sentido da frase “a falta de confiança é um sentimento reacionário” nas bocas do jornalista João Saldanha (Rodrigo Santoro numa lindíssima atuação).

Trata-se, sobretudo, de uma aula sobre o que um dia foi o chamado “futebol arte” antes de termos passado pela chamada “era Dunga”. Nas quatro linhas de campo, assim como nas linhas das alianças políticas, os brasileiros tinham uma alma com características semelhantes, pois se deixavam maravilhar com as invenções dos dribles de futebol e com os grandes lances da política. O melhor exemplo dessa interseção da “invenção” no futebol e na política foi a escolha de um reconhecido militante comunista para assumir o comendo da Seleção Canarinho nos “anos de chumbo” da Ditadura Militar.