domingo, 5 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Alta da dívida no governo Lula é uma aberração

Por O Globo

Previsão é que ela atinja 84% do PIB até o fim do ano, 12 pontos além do nível registrado no início do mandato

No governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, assessores palacianos descrevem os críticos do crescimento galopante da dívida pública como alarmistas histéricos. Afinal, argumentam eles, não é apenas no Brasil que o endividamento tem aumentado. Usando análises e previsões do Fundo Monetário Internacional (FMI), dizem que a alta em todo o terceiro mandato de Lula ficará abaixo da média dos países emergentes e de renda média. Na quinta-feira, o secretário executivo do Ministério da Fazenda, Rogério Ceron, que liderou o Tesouro nos últimos três anos, descreveu o debate como “superficial”. A equipe econômica esquece, porém, a situação sui generis do Brasil. Entre as grandes economias emergentes, o país tem a segunda maior dívida como proporção do PIB, atrás apenas da China. Mesmo que outros países tivessem margem para dever mais, o Brasil já estava no limite antes de o atual governo começar. E só piorou depois.

Por que não dizer que o escândalo do Master é de direita? Por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

A grande mídia tem medo de ser chamada de esquerdista

Não é mais questão de saber que direitista está envolvido, mas de saber qual não está

Como teria sido uma boa cobertura de mídia sobre o escândalo Master?

A resposta óbvia é: teria mostrado a absoluta predominância de direitistas entre os envolvidos. Por qualquer critério que se queira adotar: o número de envolvidos, o total de dinheiro desviado para o Master por cada lado, o total de dinheiro recebido do Master por cada lado, a importância dos envolvidos dentro de seu próprio campo, o quanto cada lado de fato fez para salvar o Master.

E teria deixado claro: esses são os dados até agora. Se outros dados aparecerem, revisaremos nosso diagnóstico.

Não foi isso que aconteceu.

Como dar sentido ao mundo, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Livro traz dicas para interpretar melhor as estatísticas com que somos bombardeados

Autor é didático e critica pontos fracos da ciência, como baixa reprodutibilidade de experimentos

Tim Harford consegue transformar conceitos difíceis da economia em best-sellers. Seu livro "O Economista Clandestino" vendeu mais de 1 milhão de exemplares no mundo todo, o que não acontece todo dia com obras de divulgação científica.

"How to Make the World Add Up" vai na mesma linha, mas tentando tornar a estatística, mais especificamente as toneladas de dados a que somos submetidos diariamente ao ler um jornal, por exemplo, em algo mais inteligível.

O populismo virou endemia, por Vinicius Mota

Folha de S. Paulo

Direita demagógica sofreu desgaste e trocou virulência por persistência

Excesso de vetos a poderes eleitos e desrespeito à ética republicana nutrem aventureiros

O Sars-Cov 2 já não é mais aquele. Esse coronavírus teve caminho livre para se espalhar na velocidade dos contatos pessoais quando adquiriu a capacidade de ser transmitido entre humanos, no final de 2019. Fez estragos e cadáveres aos montes por uns dois anos até acomodar-se às nossas defesas imunológicas, elas mesmas fortalecidas por anticorpos ativados pelas vacinas e pelas ondas sucessivas de infecção.

De terrível novidade converteu-se num conviva habitual e incômodo. De epidemia virou endemia. Ficará por aí pelos próximos séculos, quiçá milênios, como parte da história natural.

Dá para arriscar que algo similar se passou com o novo populismo global, guardadas as especificidades da política. Há dez anos os vapores de rebeldia que se acumulavam em várias nações democráticas rebentaram no Reino Unido, na façanha do Brexit. A seguir um improvável canastrão atropelou a oligarquia do Partido Republicano e ganhou a indicação e a eleição para presidente dos Estados Unidos.

As favas mal contadas, por Muniz Sodré*

Folha de S. Paulo

Uma mesma ilusão de banda podre, na verdade, desprezo de escrúpulos justificados, matéria-prima do pior

Morte moral deu passe livre às perseguições, cassações, torturas e assassinatos que recrudesceram com o AI-5

Do instante da assinatura do Ato Institucional-5 (que passou a legislar por conta própria em 1968, consolidando o golpe militar), ficou marcada na memória social a frase do coronel Jarbas Passarinho: "Às favas os escrúpulos". Meio século depois, essa peça de amoralidade foi incorporada pelo Congresso, ampliando o escopo dos escrúpulos na direção de algo como "às favas o Brasil".

O colunismo social que ilustra o Brasil podre, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Crime financeiro, corruptos, facções ou celebridades se misturam na fofoca das redes

O país parece não se revoltar com a infiltração do crime 'comum' por toda parte

O ex-deputado estadual TH Joias, do Rio, está preso por ser acusado de prestar serviços ao Comando Vermelho etc. Também vendia joias caras a jogadores de futebol, influenciadores e pessoas da música, algumas acusadas de confraternizar com PCC e CV.

Celebridades propagandeiam "bets", essa desgraça. Famosos de internet se enrolaram com "bets", ilegais ou legais, ou foram presos por suspeita de lavar dinheiro para facções, como Deolane Bezerra, com mais de 20 milhões de seguidores no Instagram.

sábado, 4 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Funcionários fantasmas no Rio são um acinte

Por O Globo

É chocante que um a cada três em cargo comissionado recebesse sem trabalhar. Alerta serve a todo o país

São estarrecedores os resultados da auditoria na folha do funcionalismo determinada pelo governador interino do Rio, Ricardo Couto. Praticamente um em cada três funcionários em cargo comissionado no estado — aqueles que devem seu emprego a uma indicação política — recebia sem trabalhar. Constatou-se, ainda, que a prática de pagar salário a quem nem aparece no trabalho, os proverbiais fantasmas, se estendia a todos os 77 órgãos da administração fluminense. É um acinte para o cidadão que trabalha arduamente para pagar suas contas em dia. E um alerta para todo o país.

Luta pelo poder corrói bolsonarismo por dentro, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Ataques de Michelle Bolsonaro deixam o filho 01 sem ação

Ex-primeira-dama dá a entender que conhece os segredos mais bem guardados do enteado

A menos de cem dias das eleições, o poder destrutivo da ex-primeira-dama Michelle se mostra maior que as defesas do filho 01. Este, embora mantenha o ar de arrogância, está acuado, quase a ponto de desmaiar, sem respostas para a crise que ameaça a candidatura presidencial. O objetivo da guerra, que vai corroendo o bolsonarismo por dentro, é assegurar a liderança da extrema direita no país. Nem que para isso seja preciso um familicídio.

O que quer Alcolumbre para tirar a PEC 6x1 da geladeira? Por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Presidente do Senado barganha proposta do fim da 6x1 para garantir sobrevivência

Sinalização de que congressista vai deixar tema para depois das eleições anima setores empresariais contrários à PEC, que querem mais tempo para negociar mudanças após o pleito de outubro

Os empresários dos principais setores da economia contrários à votação da PEC do fim da escala 6x1 com bom trânsito no Senado estavam certos ao confiar que Davi Alcolumbre iria segurar a votação.

Antes da aprovação na Câmara essa era a única esperança que restava a eles, em meio ao barulho nas redes pela aprovação do texto e à adesão maciça dos deputados à proposta.

O melhor negócio do mundo, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Primeiro ano de segundo mandato presidencial rendeu a Trump US$ 2,2 bilhões

Conflitos de interesses se multiplicam e erodem confiança em políticos e instituições

Tornar-se presidente dos EUA é um bom negócio. Donald Trump obteve uma renda de US$ 2,2 bilhões em 2025, seu primeiro ano de segundo mandato presidencial. A maior parte do próspero ano trumpiano, US$ 1,4 bilhão, vem de criptomoedas, um mercado em que ele atuou como investidor e regulador. Mesmo que não haja delito aí, é um caso de conflito de interesses.

Analfabetismo digital, por Flávia Oliveira

O Globo

Os mais velhos passam a depender de familiares, amigos, vizinhos

O jornalista, escritor e imortal Ruy Castro comprou, semanas atrás, a briga em que, agora, me incluo. A digitalização galopante, não só de notícias e relações sociais, mas de serviços financeiros, comércio e até das políticas públicas, está isolando os idosos. Nesta semana, o IBGE informou que, no ano passado, 95% dos lares e nove em cada dez brasileiros contavam com acesso à internet. A proporção alcança o teto de 95%-96% nas faixas etárias entre 20 e 49 anos; entre os maiores de 60 anos cai para 74,5%. Desde 2016, triplicou o percentual de idosos acessando a web, mas dois terços dos que estão fora do mundo virtual alegam desconhecimento. A falta de letramento digital é a nova face do analfabetismo.

A insustentável leveza das autocracias, por Bolívar Lamounier*

O Estado de S. Paulo

Países que não têm uma Constituição respeitada e em que a violência e o tráfico de drogas tenham rédea solta dificilmente se reconstituem de forma ordeira

Donald Trump não é o primeiro nem será o último autocrata empenhado em dominar o mundo.

Desde a Antiguidade, incontáveis construtores de impérios, geralmente agindo com extrema violência, tiveram tal ambição. De Alexandre o Grande (século 4 a. C.) a Átila (século V d.C.), o “rei dos hunos”, a quem é atribuída a frase “a erva não voltará a crescer onde minha cavalaria houver passado”, a estirpe é extensa. A diferença entre Donald Trump e os “bárbaros” da Antiguidade não reside, pois, só na diplomacia do “murro na mesa”, nem na riqueza e outros traços do presidente norteamericano. Reside, desde logo, no fato de haver encontrado um adversário feito sob medida, o Irã. A teocracia iraniana não é um caudilho individual, mas é um Estado. Teerã pleiteia, com uma mão, o controle exclusivo sobre Ormuz, uma estreita passagem de mar por onde transita 20% do petróleo de que o mundo necessita e, com a outra, uma enorme capacidade bélica, inclusive uma formidável quantidade de urânio enriquecido quase até o ponto necessário para fabricar armas nucleares. Entre Teerã e Trump, para onde vão as simpatias? Escolha difícil, não? Assim, Trump retém um nível de apoio e consegue aliados políticos (assunto tratado abaixo) que dificilmente obteria sem o confronto com os aiatolás, que, no fim das contas, lhe é benéfico.

Ponderação de valores na internet, por Miguel Reale Júnior*

O Estado de S. Paulo

Penso ter-se encontrado justa medida na forma de proteger a dignidade da pessoa humana ao se dar meio de enfrentar publicações lesivas a valores essenciais

A internet constitui enorme veículo de transmissão de opiniões, permitindo a manifestação da imensa maioria de pessoas antes destituídas de meio revelador de suas impressões. “L’uomo qualunque” encontrou o caixote no qual sobe para dizer ao mundo o que acha disto ou daquilo.

Se há o benefício da democratização da comunicação, por outro lado, abre-se uma imensa porta para se lançarem opiniões, revelações, fabulações e criações de imagem que têm potencialidade para ofender valores imprescindíveis à sadia convivência social e à tranquilidade pessoal.

O que não será investigado, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

As relações de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro serão – têm de ser – investigadas. As condições estão postas, designado já o relator, André Mendonça, que agora espera a manifestação da PGR. Vai andar. Aquele troço cheira mal, configurado o padrão vorcárico – investidor dedicado na advocacia, no cinema e na hotelaria nacionais – para o fazimento de amizades: a constituição do que parecem fachadas, no Brasil e nos EUA, para a remessa e o recebimento dos milhões de dólares. Foram os dinheiros do banqueiro integralmente destinados à produção do filme Dark Horse?

Com as apurações acerca dos fluxos entre os Bolsonaro e a rede vorcárica tendo afinal trilhos formais sobre os quais avançar, uma questão se impõe: qual será hoje a única porção do escândalo Master – dos trânsitos de Vorcaro e seus zetteis pelos Poderes da República – sem qualquer encaminhamento para que haja investigação? Aquela relativa a ministros do STF.

Tragédia grega, por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

A questão que desune Michelle e Flávio, ambos bolsonaros, não é política. É pessoal. Quando a política se mistura com questões familiares, os dois lados perdem

A disputa pública por espaço que envolve filho e madrasta configura uma tragédia grega. Desde tempos remotos, a controvérsia não costuma terminar bem. Um dos lados vai sofrer agora ou no futuro. E as consequências, na maioria das vezes, não beneficiam ninguém. É drama sobre drama. Mágoas, rancores e ciúmes só podem ser resolvidos com muitos anos de psicanálise conduzida por profissional qualificado. A questão que desune Michelle e Flávio, ambos bolsonaros, não é política. É pessoal. Quando a política se mistura com questões familiares, os dois lados perdem.

O bolsonarismo depende das mulheres, por Juliana Diniz*

O Povo (CE)

O caso de Michelle Bolsonaro se torna ainda mais paradigmático porque a ex-primeira-dama ocupa um cenário permeado por escândalos de corrupção e de relações pouco republicanas dos enteados com nomes presentes nas páginas policiais

Uma semana de rupturas importantes no campo da Direita brasileira. Michelle Bolsonaro deixou a liderança do PL Mulher e expôs a falta de acomodação entre seus interesses e os objetivos do grupo capitaneado pelo enteado, Flávio Bolsonaro. Caso persista, o cisma entre os grupos pode representar um desafio estratégico à candidatura bolsonarista, dada a possível rejeição de uma parcela do eleitorado feminino conservador ao nome do filho do ex-presidente.

Déficits recorrentes, dívida crescente, por Marcus Pestana

A Instituição Fiscal Independente (IFI) publicou seu 113º Relatório de Acompanhamento Fiscal (RAF), com a atualização de cenários e projeções macroeconômicas e fiscais para 2026 e o intervalo da década subsequente (2027-2036). São insumos para alimentar o debate em relação à situação fiscal brasileira, tema que deve merecer especial atenção na eleição presidencial.

 Mesmo considerando a antológica frase do ex-ministro da fazenda Pedro Malan de que “No Brasil, até o passado é incerto”, oferecemos projeções consistentes sobre a evolução das principais variáveis econômicas e fiscais, dadas as atuais regras do jogo, sem evidentemente considerar mudanças e reformas estruturais que possam ser introduzidas no futuro.

Entre trancos e barrancos, por Murillo de Aragão

Revista Veja  

Eleição não será decidida por méritos, mas pelos erros de cada um

A campanha segue entre trancos e barrancos. Tudo indica que será decidida menos pelos méritos dos candidatos e mais pelo volume de erros que cada um cometer. Quem errar menos, ganha. Não há abundância programática. Ao contrário: o debate é paupérrimo.

Lula se apoia no que foi e no que diz ter feito. Flávio Bolsonaro se ampara no que o pai representa. Um disputa a memória de governos anteriores. O outro disputa a herança política do sobrenome. Um pede ao eleitor que se lembre. O outro pede que transfira.

Após governar o país por três vezes, Lula flerta com a velha explicação segundo a qual obstáculos externos impedem o desenvolvimento nacional. O argumento lembra Brizola e sua insistência nas perdas internacionais como explicação para os males brasileiros. Ataca ricos, o mercado financeiro e o agronegócio. Enquanto isso, bate recordes o número de brasileiros que mudam de residência fiscal.

Trem para o futuro, por Cristovam Buarque

Revista Veja

A elite dirigente brasileira freia a ideia do bom ensino para todos

Nos anos 1840, o príncipe herdeiro de Hanôver, que depois se tornaria rei Ernesto Augusto, opôs-se à implantação de ferrovias em seu país porque “não queria qualquer sapateiro ou alfaiate viajando tão rápido quanto ele”. A frase é citada por Orlando Figes no livro Os Europeus, ao tratar do impacto da revolução ferroviária na política, na cultura e na economia da Europa. Pois o príncipe mudou de posição e transformou-se em defensor das ferrovias, colocando a Alemanha na vanguarda do desenvolvimento. Não tivesse adotado os trilhos, o país teria ficado para trás entre as nações do continente.

Sem futuro? Por Felipe Augusto Machado*

CartaCapital

Se não repensarmos a estratégia nacional, muitas gerações morrerão sem viver o sonho de um Brasil desenvolvido

No fim dos anos 1980, um chinês próximo dos 50 anos chamado Chen Yizi acompanhou uma delegação do seu país em visita oficial ao Brasil. Ele era uma pessoa influente e respeitada na China. Assessor especial do primeiro-ministro e do secretário-geral do Partido Comunista, foi protagonista nas reformas econômicas de Deng Xiaoping naquela década.

Em 2013, em exílio após demitir-se em protesto pelo Massacre da Praça da Paz Celestial, Yizi escreveu um livro de memórias, no qual contou detalhes daquela visita ao Brasil. Segundo ele, a delegação chinesa ficou fascinada com a capital modernista Brasília, as rodovias, os prédios estilosos, as fábricas, as moradias de vanguarda, os carros compactos para as massas. Especulou que o Brasil deveria ter, naquele momento, uma renda per capita dez vezes superior à da China. Não era para tanto, mas a reação é reveladora.

Bolsonarismo 2.0, por Pedro Serrano

CartaCapital

Associados ao trumpismo e com grande capacidade de mobilização, os discípulos de Bolsonaro dissimulam o autoritarismo de outrora com singulares artifícios

A história humana não ocorre através de fases estanques, como às vezes a descrição didática em períodos transparece ao inadvertido. Ao contrário, ela se revela por meio de processos complexos, nos quais elementos de conformação política e social do período anterior podem ser – e comumente são – identificados nos subsequentes. Não há, inclusive, garantias contra retrocessos e involuções civilizatórias. Só há ordem na mera descrição histórica, bem como nas tentativas de sua compreensão pelos manuais da didática clássica. Na história vivida prevalece o caos.

Flávio foi para a frigideira, por Maria Inês Nassif

CartaCapital  

Michelle e Valdemar Costa Neto ganham mais se o filho 01 de Jair perder a eleição

O que está em jogo no lar bolsonarista não é quem vai disputar as eleições presidenciais de outubro – o príncipe ou a rainha, o peão ou o cavalo. Hoje, e depois do Escândalo Master, ninguém consegue definir o verdadeiro valor de face do bolsonarismo. O ex-capitão está na cadeia, cumprindo pena por golpe de Estado. A ideia de um líder forte, encantador de serpentes, sumiu atrás das grades. A reiterada exposição de suas fragilidades físicas desmonta a imagem do Mussolini jabuticaba, do super-herói que vai “livrar o País” de alguma coisa. Seu filho Flávio, autodenominado sucessor político do pai, registra nas pesquisas perdas crescentes entre eleitores antes cativos de Jair. Aquele que se nomeia candidato a presidente por direito de sucessão foi engolido pelo mar de lama do banco de Daniel Vorcaro e de uma relação antipatriótica com os Estados Unidos, a quem só falta pedir explicitamente que lidere um golpe de Estado no Brasil.

Pacote de bondades, por André Barrocal

CartaCapital

Em um esforço para melhorar a imagem, Lula faz um sprint final no lançamento de obras e programas de apoio

A campanha presidencial começa só em agosto, com o registro das candidaturas na Justiça e o início da propaganda eleitoral, mas a pré-campanha entra em nova fase. De 4 de julho em diante, exatos três meses antes de os brasileiros irem às urnas, os postulantes à reeleição ficam proibidos de inaugurar obras, contratar servidores ou fazer publicidade dos atos de gestão. Daí o presidente Lula ter se empenhado nos últimos dias nos derradeiros anúncios de novas medidas do governo. Agora, terá de combinar o expediente burocrático no Palácio do Planalto com atividades político-partidárias fora da agenda oficial, em particular à noite e nos fins de semana. Com palanques definidos em 24 estados, o petista dedicará parte do tempo a reuniões com candidatos a governador e senador que o apoiam e a gravar vídeos para eles, entre outras.

sexta-feira, 3 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Sanção contra brasileiros desperta preocupação

Por O Globo

É bem-vinda colaboração americana no combate a facções criminosas. Risco são medidas arbitrárias

No fim de maio, o Departamento de Estado americano anunciou que as facções criminosas brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) seriam classificadas como organizações terroristas a partir de 5 de junho. Menos de um mês depois da entrada em vigor da medida, o Departamento do Tesouro impôs sanções financeiras a dois cidadãos brasileiros e três empresas instaladas aqui, sob suspeita de ligação com o PCC. O governo americano acusa o empresário Victor Henrique de Oliveira Shimada de liderar uma estrutura de lavagem de dinheiro com atuação nos Estados Unidos que movimentou mais de US$ 30 milhões de origem ilícita e de usar criptomoedas para transferir fundos ao PCC no Brasil. Sua secretária Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira é acusada de atuar como intermediária na coleta do dinheiro.

Carta de Flávio a Trump é tiro no pé que favorece Lula, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Ao pedir apenas o adiamento da punição, e não sua imediata revogação, Flávio legitima a sanção norte-americana. Passa a mensagem de que o tarifaço pode ser aceitável

A carta enviada por Flávio Bolsonaro a Donald Trump, pedindo o adiamento por 180 dias do tarifaço contra produtos brasileiros, eleitoralmente é um tiro no próprio pé para o pré-candidato do PL, além de muito tóxica para as negociações diplomáticas do Brasil com a Casa Branca. O senador atropelou a linha de negociação conduzida pelo Itamaraty e pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), deslocou o contencioso do terreno técnico para o palanque eleitoral e mostrou falta de coesão política do país na defesa dos interesses brasileiros que estão em jogo.

Rejeição do PL à urgência para projeto da misoginia põe em xeque discurso de Michelle em defesa das mulheres, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Dos 158 votos contrários ao regime de urgência de votação, mais da metade (83) vieram do PL

A votação da urgência do PL da misoginia na Câmara dos Deputados na noite de quarta-feira (1) colocou em xeque o discurso da ex-primeira-dama, Michelle Bolsonaro, de eleger uma bancada no PL pautada pela defesa das mulheres. Dos 158 votos contrários ao regime de urgência de votação, mais da metade (83) vieram do PL.

Das 11 deputadas do partido que se manifestaram na votação, 10 o fizeram pela rejeição da urgência, entre elas Caroline de Toni (SC), cuja postulação ao Senado levou Michelle a confrontar o enteado Carlos Bolsonaro.

Palanques capengas no Sudeste, por Vera Magalhães

O Globo

Palanques capengas do petista em Minas e do filho de Bolsonaro no Rio indicam problemas na região mais disputada da eleição

A eleição de 2026 será um teste para a validade de vários axiomas tradicionais da política, como a importância da propaganda em rádio e TV, os efeitos da inteligência artificial e, no plano mais concreto, a centralidade da montagem de palanques regionais para fortalecer candidaturas presidenciais e, no limite, decidir uma disputa que tende a ser apertada.

Nesse quesito, o Sudeste brasileiro é o cenário em que as candidaturas de Lula e Flávio Bolsonaro concentram as fichas. Mas, a menos de um mês do início formal da corrida eleitoral, ambos enfrentam problemas bastante sérios para largar com um time promissor e um discurso condizente em colégios importantes da região.

Os desdobramentos consecutivos da Operação Unha e Carne — que atingiu fortemente o grupo do ex-governador Cláudio Castro no Rio de Janeiro — jogam uma dose enorme de imprevisibilidade para o comando bolsonarista “em casa”.

Cenas de uma campanha, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Presidente faz maratona de inaugurações e reclama de limites ao uso da máquina

Aconteceu ontem em Luís Gomes, município de 9 mil habitantes no interior do Rio Grande do Norte. Na correria para entregar obras no limite do prazo legal, Lula inaugurou um túnel de irrigação sem uma gota d’água.

“Cadê o dono da empresa que fez esse túnel?”, perguntou, do alto do palanque. O presidente disse que programou a viagem para ver a água chegar, mas “houve um erro de cálculo”. “E esse erro de cálculo fez com que eu chegasse aqui e a água ainda não chegou”, justificou-se.

O atraso frustrou o petista, mas não constrangeu seus áulicos. O ministro Waldez Góes disse que o povo da cidade deveria “olhar para o céu e agradecer a Deus e a Lula”. O prefeito Carlos Augusto de Paiva, o Tututa, descreveu a visita presidencial como uma “dádiva”.

Soberania em IA é mais importante que regulação, por Pablo Ortellado

O Globo

Temos de deixar de ser meros usuários de modelos estrangeiros

Uma reportagem publicada ontem no Financial Times revelou que a OpenAI, empresa por trás do ChatGPT, ofereceu uma participação de 5% ao governo americano. O objetivo é duplo. Com a participação direta do governo, a OpenAI espera diminuir obstáculos políticos e regulatórios trazidos pela administração Trump. Além disso, a oferta atende parcialmente a uma demanda da esquerda, que defende a nacionalização de metade das ações das grandes empresas de inteligência artificial para socializar os dividendos da automação (a proposta é do senador Bernie Sanders).

A dura realidade aonde a política não chega, por Fernando Gabeira

O Estado de S. Paulo

 Alguma coisa está errada e muitos só vão perceber quando ouvirem o barulho dos tiros ou o domínio territorial do crime chegar às suas cidades

Às vezes, as coisas muito próximas são universais. Hesito em escrever sobre o que vejo no cotidiano no Rio de Janeiro, mas não deveria: é algo importante para o País e com grande possibilidade de espalhar-se por todos os cantos.

Encontrei na rua uma amiga e perguntei se estava tudo bem: “Perto de minha casa, apareceu uma cova com 20 mortos. Sempre procuro sair às cinco da manhã para evitar tiroteios, mas, às vezes, precaução não adianta”. Ela vive numa favela chamada Rio das Pedras, dominada por uma milícia acossada pelo tráfico de drogas que quer o domínio do território.

No Dia de São Nunca? Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

O novo grito de guerra em Brasília é: que tal deixar para depois das eleições?

A carta do senador Flávio Bolsonaro para o governo Trump, via Escritório de Comércio (ou USTR), é um desastre para o próprio Flávio, sob todos os pontos de vista, político, diplomático, até moral. Quer dizer que um novo tarifaço agora não pode, porque é bom para o presidente Lula, mas, depois das eleições, depende de quem ganhar?

O importante para o candidato não é se é bom ou mau para o Brasil e os brasileiros, o que vale é se é bom ou mau para ele e o bolsonarismo, dane-se o resto. Aliás, foi assim em cada passo do bolsonarismo para se aproximar de Trump e se distanciar do Brasil.

Revés para a luta das mulheres, por Raquel Landim

O Estado de S. Paulo

Muitas entram na vida pública, sofrem violência de gênero e se afastam quando não têm mais serventia

Na conversa que tiveram com Michelle Bolsonaro, a senadora Damares Alves e a governadora Celina Leão custaram a demover a ex-primeira-dama da decisão de deixar completamente a política.

Michelle havia acabado de comunicar a Valdemar Costa Neto, presidente do PL, que renunciaria não só à presidência do PL Mulher, como também não concorreria ao Senado pelo DF e se desfiliaria do partido.

Ela estava afastada do núcleo decisório da campanha à Presidência do enteado Flávio Bolsonaro, encontrava dificuldades para emplacar aliadas como candidatas e vinha sendo atacada nas redes por pessoas próximas do também enteado Eduardo Bolsonaro.

As primeiras provas de que o RJ está no rumo de ser o primeiro narcoestado do Brasil, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Com prisão de ex-presidente da Alerj e de bicheiro, surgem mais provas de domínio do crime

Governo e Legislativo eram comandados por PL e parte do centrão, mas corrupção é mais extensa

Tráfico de drogas e de armas, lavagem de dinheiro, Comando Vermelho (CV), Terceiro Comando Puro (TCP), Amigo dos Amigos (ADA), policiais corruptos, bicheiros, padrinhos bandidos do Carnaval, roubança de dinheiro público e seus agregados políticos de direita arruínam o poder estadual do Rio de Janeiro —note-se, porém, que políticos de vários partidos podem estar na lista da mesada do crime.

Talvez o crime já tenha se infiltrado no comando de outros estados. Não o sabemos. No caso do Rio, temos as primeiras evidências de um narcoestado no Brasil. O termo "narco" talvez seja limitado para descrever o poder de organizações criminosas diversas sobre Legislativo, Executivo e Judiciário fluminenses. O problema, de qualquer modo, é aterrorizante, e tem conexão federal, por meio do PL, o partido do senador Flávio Bolsonaro, e de ramos do centrão.

Uma defesa da ineficiência, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Na regulação de produtos viciantes, como drogas e bets, é preciso evitar estímulos ao uso

Isso significa limitar a publicidade e cuidar para que empresas não consigam expandir mercados

Falar mal da propaganda de bets na CazéTV se tornou uma unanimidade nacional. Não vou, em nome de uma suposta liberdade de expressão comercial, defender o direito dos jovens locutores de convidar telespectadores a fazerem uma fezinha, mas acho importante apontar o dedo para outros atores, mais especificamente para o Congresso Nacional. Desde 2024 está claro que a publicidade das bets se tornou um problema. Desde 1930 sabemos que em 2026 haveria uma Copa do Mundo, evento midiático em que empresas ligadas a futebol, como bets e cervejarias, se esbaldam.

Empurrados para o digital, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Quando o idoso se vê indefeso diante da tela, o Estado lava as mãos e o joga para a família

O atendimento presencial é garantido pelo Estatuto do Idoso. O Brasil finge ignorar isso

É outro vídeo que recebi, este de meu amigo Luiz Fernando Janot. Não sabemos quem o escreveu ou interpretou. Mas sabemos que cada cena e cada palavra que contém são verdadeiras. As imagens mostram idosos em bancos e hospitais, tentando conviver com seu pior inimigo: o smartphone. O texto, na voz de uma mulher, diz:

"Quando uma tecnologia não respeita a biologia humana ela não é inovação. É o descaso fantasiado de modernidade. E a punição para quem não consegue passar pela barreira da tela é o abandono. Agências vazias, portas fechadas e a recusa de um atendimento presencial.

quinta-feira, 2 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Justiça tem de deter roubo de conteúdo por robôs de IA

Por O Globo

Quase 400 jornais americanos abrem processo contra OpenAI por violação de direitos autorais

Editoras de quase 400 jornais e sites em 33 estados americanos abriram processo contra a OpenAI, criadora do ChatGPT, e sua parceira Microsoft pelo uso, sem autorização, de conteúdo protegido por direito autoral no desenvolvimento de seus modelos de inteligência artificial (IA). Na ação, as editoras afirmam que o empreendimento altamente lucrativo da IA cometeu “violação desenfreada” de direitos autorais. “A Microsoft e a OpenAI criaram e distribuíram reproduções das obras” ao usar tais conteúdos “para treinar seus grandes modelos de linguagem” e ao implantar produtos novos. O processo pede uma compensação financeira proporcional ao tamanho do roubo e solicita que a decisão seja tomada por um júri.

O cálculo de Michelle na mira do gabinete do ódio, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Ex-primeira-dama investe em imagem de liderança que foi além do sobrenome e cavou seu próprio espaço

Ao repudiar, num jogo combinado, o libelo medieval de Paulo Figueiredo, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) marchou para preservar alguma chance numa disputa em que o voto das mulheres predomina. A dúvida é se será suficiente. Não apenas para destronar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas também para evitar a fagocitose do espólio bolsonarista.

Desde 2018, o bolsonarismo tornou-se o vetor da direita. O que Flávio Bolsonaro e a ex-primeira-dama estão a fazer é a fratura não apenas deste campo mas do próprio bolsonarismo. Superaram as desavenças do pós-lulismo com o esgarçamento antecipado do pós-bolsonarismo. E, como é do seu feitio, pelas redes sociais.