terça-feira, 1 de setembro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Adiar privatização dos Correios custa cada dia mais caro

Por O Globo

Governo prevê aporte de R$ 6 bilhões na estatal que fechou primeiro semestre com prejuízo recorde

Em abril de 2023, menos de quatro meses depois de assumir a Presidência, Luiz Inácio Lula da Silva retirou os Correios da lista de privatizações preparada pelo governo anterior. Na visão do PT, a empresa deveria cumprir sua “função social”. De lá para cá, a sangria da estatal só fez aumentar. No primeiro ano do mandato, o prejuízo foi de R$ 597 milhões. No ano seguinte, pulou para R$ 2,6 bilhões. No ano passado, chegou a R$ 8,5 bilhões e, tendo fechado o primeiro semestre deste ano em R$ 5,5 bilhões, deverá bater novo recorde até dezembro. Os Correios não sabem o que é um resultado trimestral no azul desde setembro de 2022. Para completar, a proposta de Orçamento para 2027 enviada pelo governo ao Congresso prevê um aporte de R$ 6 bilhões do Tesouro na estatal. Toda essa cegueira ideológica custa a cada dia mais caro ao país.

O problema da dívida pública, por Míriam Leitão

O Globo

O cenário de incerteza é menos pelo tamanho da dívida e mais pela falta de sinalização de um ajuste fiscal do presidente e do principal concorrente

A dívida pública brasileira não caminha para bater no muro. Mas parece, pelos números da dívida bruta e pela intensidade do debate em torno do tema. O Tesouro tem como rolar sua dívida, apesar de o total ter chegado a 82,5% do PIB em julho, o maior nível desde abril de 2021. Há erros técnicos que podem ser corrigidos tornando mais barata a rolagem dos títulos. E é fundamental dar ao investidor alguma perspectiva de que o próximo governo fará um ajuste nas contas públicas.

O que gera este cenário de incerteza no mercado é menos o tamanho da dívida ou sua trajetória recente, e mais a percepção de que nada será feito para conter a continuidade da alta. O atual presidente não se compromete com um ajuste, nem seu principal concorrente. A boa notícia é que não é um problema impossível de ser resolvido, porém, é preciso passar um sinal na direção correta.

Por que se fala tanto em terras-raras? Por Fernando Gabeira

O Globo

Elas são uma promessa para o Brasil, desde que se invista na tecnologia e haja rigor no respeito ao meio ambiente

Afinal, o que são essas terras-raras que os americanos querem, os chineses refinam, e os brasileiros veem como recurso para a economia futura?

Para começar, não são tão raras assim. Existem em abundância na China e no Brasil. Nem são propriamente terras. Esse nome era dado, nos séculos XVIII e XIX, a qualquer óxido metálico insolúvel em água.

Foram chamadas de raras quando descobertas num mineral em Ytterby, na Suécia. Elas ocorriam em minerais incomuns e eram consideradas raras porque era difícil a separação dos 17 elementos químicos que compõem o grupo. O nome desses elementos é meio curioso: cério, neodímio, disprósio, praseodímio, európio e por aí vai.

Perfis de fofoca turbinam crescimento de Augusto Cury nas redes, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Páginas de humor e entretenimento passaram a veicular mensagens favoráveis a candidato, que fala em 'movimento incontrolável'

Não foram só os chamados influenciadores que turbinaram o crescimento de Augusto Cury nas redes sociais.

Na última semana, perfis especializados em fofocas também passaram a difundir mensagens favoráveis ao candidato do Avante.

Páginas como Tricotei (4,2 milhões de seguidores no Instagram) e Futrikei (2,5 milhões de seguidores) transformaram Cury em tema de debate.

Esse tipo de perfil costuma ser usado por empresas de marketing digital para gerar engajamento em torno dos anunciantes.

Sintoma e diagnóstico, por Merval Pereira

O Globo

Cury diz ser de direita na cabeça, mas de esquerda no coração e tira no momento votos de vários candidatos, um pouco de Lula e Renan, a maior parte de Flávio.

O sonho de Ronaldo Caiado, o candidato a presidente da República do PSD, era chegar a esta altura da campanha com dois dígitos nas pesquisas de opinião. Achava que, a partir daí, subiria para enfrentar Lula no segundo turno. Quem chegou lá, pelo menos pelas pesquisas digitais e telefônicas de opinião, foi o escritor Augusto Cury, candidato do Avante, um azarão verdadeiro — não confundir com o filme “Dark Horse”. Pelo menos até agora, não há indicação de que Cury tenha alguma ligação com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, mas, como ele acaba de entrar no jogo, sua vida será revirada pelo avesso.

Cury chega a dois dígitos na pesquisa e se coloca como terceira via, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

A novidade é a velocidade com que o candidato do Avante assumiu o terceiro lugar na disputa. Cury passou a ser lembrado como opção presidencial

Nas primeiras rodadas de debates e entrevistas, marcadas pelas dificuldades de Lula e Flávio Bolsonaro para explicar seus passivos políticos, Augusto Cury se projetou como candidato menos interessado em prolongar a guerra entre os dois campos e mais empenhado em associar tecnologia, eficiência administrativa e cuidado com as pessoas. A pesquisa BTG/Nexus divulgada nessa segunda-feira mostra que sua estratégia deu certo. No cenário estimulado sem Pablo Marçal, Cury saltou de 2% para 11% em uma semana. Lula oscilou de 41% para 39%, enquanto Flávio recuou de 37% para 33%. Ronaldo Caiado permaneceu com 5%; Renan Santos, com 3%; e Romeu Zema passou de 3% para 1%.

De que valem os votos da Faria Lima, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Aval é carimbo para formação de equipe capaz de confirmar ou dissipar o medo do eleitor de mudar

Ainda que votasse unida, a avenida Faria Lima teria dificuldade de eleger um vereador na capital. A atenção de um punhado de seus eleitores mobilizou a cúpula das duas principais campanhas por um único motivo. Este é o momento em que o eleitor olha para o lado, se dá conta de que tem uma eleição e faz o cálculo se a mudança vale a pena ou pode piorar o que está aí. O apoio naquela avenida serve de aval para o desafiante atrair uma equipe capaz de minorar a desconfiança do eleitor em relação a uma mudança para pior. Simples assim.

Há um mês, no auge da repercussão do “Dark Horse”, o senador Flávio Bolsonaro (PL) não conseguia ser recebido pela banca. Nunca houve muita dúvida da maior proximidade da pauta econômica, mas o custo institucional de um retorno do bolsonarismo mantinha a cancela fechada. Com a entrada da dupla Fabio Luís/Marco Aurélio Ribeiro nas paradas de sucesso dos vazamentos da PF, a diferença se estreitou, a perspectiva de poder se tornou real, e, em uma semana, Flávio teve três encontros importantes.

A válvula de escape mudou de lugar, por Luiz Schymura

Valor Econômico

Talvez esteja na hora de ampliar o campo de visão da regra, reconhecendo os efeitos fiscais das operações financeiras e tornando mais visíveis os canais para os quais o estímulo migra

A relação entre finanças públicas e ciclos eleitorais é conhecida: o gasto público tende a subir em anos de eleição, na tentativa de gerar sensação de bem-estar e sustentar a popularidade do governo. O ciclo de 2026 não foge à regra: os gastos primários federais partiram com força bem maior que em pleitos anteriores. O impulso do gasto público, federal mais estadual, superou a própria variação do PIB tanto em 2022 quanto no primeiro trimestre deste ano. Mas há uma regularidade adicional, menos discutida: regras fiscais não eliminam a pressão política pelo gasto, apenas ajudam a determinar por onde ela vai escapar. Sob o teto de gastos, uma das válvulas foi a desoneração tributária, que funcionou como um expediente para conceder benefícios a setores sem violar formalmente o limite de despesas. Sob o Novo Arcabouço Fiscal, em vigor desde 2024, o canal mudou: são as despesas financeiras.

O Tempo e a Lógica, por Luiz Gonzaga Belluzzo

Valor Econômico

O primeiro implica a incerteza, o segundo demanda um sistema de axiomas, envolvendo tudo o que é relevante

No livro “Epistemics and Economics”, George Shackle aborda a questão da racionalidade, tão cara aos economistas. “O tempo e a lógica”, comenta Shackle, “são estranhos um ao outro. O primeiro implica a incerteza, o segundo demanda um sistema de axiomas, um sistema envolvendo tudo o que é relevante. Mas, infelizmente, o vazio do futuro compromete a possibilidade da lógica”.

George Shackle afirma que a economia é uma área do conhecimento submetida às incertezas da vida humana em sociedade. Ela procura estudar o comportamento dos agentes privados em busca da riqueza, nos marcos de um quadro social e político determinado temporalmente, isto é, cada nova decisão de acumular riqueza tem um caráter crucial, porquanto tem o poder de reconfigurar as circunstâncias em que foi concebida.

Lula e empresários debatem cenário fiscal, Trump e dívida pública, por Sofia Aguiar

Valor Econômico

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva se reuniu, na noite desta segunda-feira (31), com empresários e banqueiros para debater o panorama fiscal do país, de olho em atrair o setor a pouco mais de um mês das eleições. De acordo com fontes, o foco principal do jantar foi o diálogo sobre a economia brasileira, mas houve citações ao compromisso fiscal da gestão, à dívida pública e ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Os convidados começaram a chegar ao Palácio da Alvorada, onde foi o jantar, por volta das 19h30, e deixaram o local cerca de três horas depois, a partir das 22h30. Foram 16 empresários e banqueiros convidados, além de integrantes do governo e do presidente do PT, Edinho Silva.

A dívida que se pode conversar, por Giovanni Bevilaqua*

Correio Braziliense

Não são números que se escondem atrás de eufemismo. É gente que abre a loja de manhã sabendo que uma parcela vai vencer antes do fechamento de caixa

Nos últimos dados do Banco Central, a inadimplência das empresas voltou a subir: 3,2% na carteira ampliada, um pouco mais entre as menores. Em pesquisas aplicadas trimestralmente com pequenos negócios em todo o país, 28% já declaram ter alguma dívida em atraso, e mais da metade de quem tem compromisso em aberto vê o pagamento consumir 30% ou mais dos custos mensais do negócio. Não são números que se escondem atrás de eufemismo. É gente que abre a loja de manhã sabendo que uma parcela vai vencer antes do fechamento de caixa.

Dito isso, sem meio-termo: esse retrato não é sinônimo de fracasso pessoal. É sinônimo de um sistema que ainda trata o pequeno empreendedor como um risco a ser precificado, quando deveria tratá-lo como um agente a ser conhecido.

Renan sai, Cury sobe. E daí? Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Toffoli assumiu um poder que não tem e embaralha a eleição para nada. A polarização continua

Renan Santos sai, Augusto Cury sobe, e os dois movimentos excitam as campanhas, a opinião pública e os especialistas, provocando debates, confrontos e as mais diferentes suposições, mas o fato real, que não é nada excitante, é que nada muda na polarização acirrada entre os favoritos Lula e Flávio Bolsonaro. Nem Renan nem Cury têm força para mudar a eleição.

Há duas questões em relação à decisão que praticamente cassou a candidatura de Renan Santos, que já não tinha acesso à propaganda eleitoral na TV e agora fica impedido de fazer campanha digital – que é o seu forte –, de receber fundo eleitoral e de participar de debates e entrevistas. O que sobra?

Luta na lama, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Vazamento para todos! Vazamento para todos já! Só vazam informações sigilosas sobre um lado, seletivamente. Tem de equilibrar essa balança de ilegalidades. Justiça, ministro André Mendonça! Se vaza contra Lulinha, há que vazar contra Flávio Bolsonaro. Alô, Dino! Igualdade!

E então proliferam as plantações na imprensa – feitas por colegas togados – sobre Mendonça estar influenciado por delegados da Polícia Federal lotados em seu gabinete, que seriam lavajatistas-bolsonaristas adversários de Andrei Rodrigues, aquele que bebeu o uísque de Vorcaro com Xandão e Gonet. Na última sexta, Rodrigues reafirmou que a corporação, órgão de Estado, atua de forma independente e sem viés político.

Brasília busca pactos por medo dos escândalos, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Acordos entre instituições de Estado têm sido prática recorrente entre autoridades dos três Poderes

No empenho de contornar atritos está a intenção de controlar investigações para evitar o risco político

Não é de hoje, nem de ontem, que Brasília vive uma fase de acordos inusitados, fora do desenho constitucional de harmonia autônoma entre os Poderes. Foi o caso do acerto entre os presidentes da República, do Senado e da Câmara com mediação do vice-presidente do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes.

Avizinha-se agora uma tentativa de conciliação entre o ministro André Mendonça, do STF, e o diretor-geral da Polícia FederalAndrei Rodrigues, patrocinada pelo presidente Luiz Inácio da Silva (PT), a fim de dirimir divergências na condução dos inquéritos sobre as fraudes no INSS e as trapaças financeiras de Daniel Vorcaro à frente do liquidado banco Master.

Crescimento de Cury entre cristãos atrapalha Flávio e Renan, por Juliano Spyer

Folha de S. Paulo

Autor ocupa a terceira posição segundo BTG/ Nexus

Influenciadores apoiam campanha propositiva e de pacificação

Inicialmente tratada como piada por analistas, a campanha do escritor Augusto Cury parece ter atendido a uma demanda reprimida: o desejo de pacificar a discussão política no país. Ele ocupa o terceiro lugar isolado, com 11% de intenções segundo a pesquisa BTG/Nexus.

Após o debate presidencial na Band, no domingo retrasado (23), o psiquiatra e autor foi quem mais ampliou sua base de seguidores. E o volume de buscas por seu nome aumentou 900% durante a semana, segundo levantamento da Vox Radar citado pela CNN Brasil.

O colunista do PlatôBR Diego Amorim associou o crescimento à atuação do influenciador Pablo Marçal. Se mantiver o ritmo, o avanço de Cury deve atrapalhar sobretudo Renan Santos, candidato da Missão/MBL, e Flávio Bolsonaro, do PL.

Golpes do impeachment, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Afastamento definitivo de Dilma Rousseff completa dez anos

Iniciativa acirrou polarização e facilitou eleição de Jair Bolsonaro

Há dez anos, em 31 de agosto de 2016, Dilma Rousseff (PT) era definitivamente afastada da Presidência da República, depois de ser julgada culpada de crime de responsabilidade pelo Senado. O evento deixou marcas na história do país, algumas das quais ainda se fazem sentir.

Para o PT, o impeachment foi um golpe. A palavra "golpe" é suficientemente polissêmica para permitir essa interpretação. Um de seus múltiplos significados é o de "revés", como na expressão "golpe do destino". E não há muita dúvida de que o afastamento representou um revés para a petista. Já a tentativa de imprimir ao termo "golpe" o sentido mais técnico de "ruptura constitucional ilícita" é mais problemática.

Intervenção no Rio é aprovada pela população, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Pela primeira vez em décadas há um plano de governo sendo realizado

Exonerações de cargos comissionados ultrapassaram a marca de 6.000

O Supremo Tribunal Federal adiou mais uma vez o julgamento que trata do mandato-tampão no Rio de Janeiro. Há divergências sobre o tema: eleição direta, indireta ou a manutenção do desembargador Ricardo Couto no comando do estado até a posse do novo governador. Com a proximidade das eleições, esta última corrente deverá prevalecer.

É uma intervenção velada, pois a letra fria da Constituição estadual determina que, em caso de dupla vacância (Cláudio Castro renunciou em março e o cargo de vice estava vago desde o ano passado), a escolha do novo governador deve ser realizada pela Assembleia Legislativa.

Poesia | Ternura, de Vinicius de Moraes

 

Música | Samba pra Vinicius -Toquinho, Quarteto em Cy e Chico Buarque

 

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Candidatos decepcionam ao desprezar educação

Por O Globo

Brasil não atingirá outro patamar de desenvolvimento sem população preparada para a economia moderna

O período eleitoral traz a eleitores e candidatos a oportunidade de expor sua visão para o futuro do país. É auspicioso que temas importantes como terras-raras, o tarifaço americano, o petróleo na Margem Equatorial, as emendas parlamentares, as altas taxas de juros ou a corrupção tenham entrado na agenda. São assuntos da maior relevância. Infelizmente, o tema mais estratégico para o desenvolvimento do país continua ausente ou em segundo plano: a educação. Nenhuma política industrial, monetária, comercial ou redistributiva tem chance de levar o país a outro patamar de desenvolvimento se a população continuar despreparada para a economia moderna. E a distância para isso continua gigantesca.

Quando a eleição vai engrenar? Por Bruno Carazza

Valor Econômico

Só uma notícia bombástica ou a possibilidade de vitória em primeiro turno de um dos candidatos podem despertar o eleitor da apatia desta campanha

No sábado (29) começou o horário eleitoral gratuito no rádio e na TV dos candidatos à Presidência da República. Numa campanha que parece ter começado há meses, mas que ao mesmo tempo não engrenou, a propaganda eleitoral é o ato que faltava para sentirmos o clima de eleição. Será?

Além de atingir dezenas de milhões de pessoas que assistem à TV aberta e ouvem rádio, o horário eleitoral também serve para gerar conteúdo para as redes sociais dos candidatos. Mas, pelo visto, a repercussão continua limitada.

Ajuste exige reconstruir arquitetura fiscal do país, por Sergio Lamucci

Valor Econômico

O problema já não é apenas produzir um resultado primário melhor, mas limitar o crescimento automático do gasto, reduzir os estímulos parafiscais, baixar o prêmio de risco e devolver eficácia à política monetária

A situação das contas públicas do Brasil exige uma mudança significativa na política fiscal a partir de 2027, num ambiente econômico e político extremamente complexo. Há resistência a novos aumentos de impostos, o cenário externo é mais adverso, com juros globais mais altos, e as taxas internas na casa de 10% acima da inflação elevam os gastos financeiros do setor público e prejudicam famílias e empresas endividadas. O ajuste precisa ser amplo, focado nos gastos e liderado pelo Executivo, mas tem de contar com o Congresso e com o Judiciário. Visto de hoje, porém, parece improvável que uma agenda fiscal ambiciosa seja adotada pelo próximo presidente.

Diversidade perde força no mundo corporativo, por Preto Zezé

O Globo

Empresa não existe para fazer justiça, mas para dar lucro, e convicção moral é terreno que nunca foi dela

A ideia de diversidade dos defensores da causa entrou numa encruzilhada. Empresa não existe para fazer justiça, mas para dar lucro, e convicção moral é terreno que nunca foi dela. Não é acusação, é constatação. Nos conselhos de empresas e marcas de que participo, sempre busquei outro caminho: diversidade na prateleira do investimento. E, se render, parte do lucro volta para reinvestir.

Em 2025, 53% das companhias do S&P 100, as cem maiores da Bolsa americana, mudaram a forma de registrar a diversidade nos relatórios. Poucas encerraram as ações. Levaram a supervisão para a governança e baixaram a visibilidade quando virou custo político. Ninguém tira do relatório o que dá lucro.

Ano que vem será de crise ou estelionato eleitoral, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Lula e Flávio Bolsonaro não apresentaram propostas para atacar o maior problema da economia brasileira hoje

O presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro não apresentaram propostas para atacar o maior problema da economia brasileira hoje, o crescimento constante da dívida pública, equivalente a R$ 10,8 trilhões, ou 82% do PIB. Na entrevista da Globo, escaparam dos números, mas deixaram alguns sinais do que podem fazer.

Lula assegurou, com ênfase:

— Meu compromisso é com o crescimento.

A ideia: com o país crescendo, tudo o mais se resolve.

Brasil garante o hambúrguer subsidiado às vésperas da eleição nos EUA, por Demétrio Magnoli

O Globo

A carne ilumina a servidão voluntária brasileira

O Canadá conta uma história; o Brasil, o reverso dela. Na partida, os dois engajaram-se em negociações comerciais com os Estados Unidos, que implodiram de encontro às exigências imperiais da Casa Branca. Então, um escolheu a via da resistência, ajustando seus atos às palavras, enquanto o outro optou por um servilismo suplicante mascarado por discursos palanqueiros.

As exportações representam quase um terço do PIB canadense — e mais de 70% delas têm os Estados Unidos como destino. O Canadá perde muito, no curto prazo, com a decisão de enfrentar a guerra comercial deflagrada por Trump. Mas, na defesa de seus interesses de longo prazo, a sociedade canadense uniu-se ao redor da estratégia de retaliação, que conta com respaldo de 76% da população.

O pensamento determinista sempre encontra uma justificativa para o poder de quem o formula, por Leandro Karnal

O Estado de S. Paulo

Resta-nos a velha pergunta, agora vestida de geografia: somos livres?

Há uma pergunta que atravessa os séculos e se disfarça em muitas roupagens. Os gregos a conceberam sob o nome de destino. Os medievais a reformularam como Divina Providência. Montesquieu, no século 18, em O Espírito das Leis (1748), já sugeria que o clima determinava as instituições: povos do Sul seriam preguiçosos, os do Norte, vigorosos. No fim do século 19, a tese ganhou sotaque alemão e rosto acadêmico: Friedrich Ratzel, em sua Antropogeografia (dois volumes, 1882 e 1891), sustentou que solo, clima e relevo moldam a história dos povos. Traduzindo para linguagem brutal: diga-me onde você nasceu e eu lhe direi quem você é. Há algo profundamente perturbador nessa afirmação. O mais inquietante é perceber a longevidade da ideia.

O risco Bolsonaro 2.0? Por Carlos Pereira

O Estado de S. Paulo

Legado institucional e multipartidarismo no Brasil limitam aventuras autoritárias

Voltou a ganhar força a ideia de que a democracia brasileira estaria novamente em perigo diante de uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro. O argumento é conhecido: em 2022, teríamos escapado por pouco porque alguns militares se recusaram a embarcar numa aventura golpista. Agora haveria um agravante: diferentemente do pai, Flávio encontraria Donald Trump na Casa Branca.

O risco representado por líderes com inclinações iliberais nunca deve ser desprezado. Berlucchi e Kellam, analisando governos democráticos desde 1970, mostram que populistas no poder estão associados a maior erosão democrática. Mas mostram também que a Presidência, por si só, não basta. A capacidade de transformar intenção em erosão depende dos recursos e constrangimentos encontrados pelo governante.

O bobo da corte e o freio nos dentes, por Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

No 'modo sobrevivência', a relação com a base parlamentar e com o judiciário engendra erosão institucional disruptiva

Não nos depararemos com a morte da democracia, mas com sua crescente degradação institucional

Na sabatina da TV Globo, durante a campanha presidencial de 2022, Lula acusou Bolsonaro de ter capitulado: "Bolsonaro não manda em nada. Ele é refém do centrão". Arrematando: "Bolsonaro parece um bobo da corte, não controla o Orçamento".

A frase retornou como um bumerangue. Hoje, é o próprio Lula quem se vitimiza como refém de um Congresso que capturou o Orçamento. O que, sob Bolsonaro, era descrito como incapacidade pessoal passou, sob Lula, a ser apresentado como patologia institucional.

O avanço da educação étnico-racial, por Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

Sei bem que a educação para equidade racial sempre foi um 'não assunto' nas nossas escola

Bastou o Estado agir com propósito para que essa situação começasse a mudar

Agir com propósito impacta diretamente os resultados alcançados em tudo o que se faz na vida. Quando se trata de políticas públicas, não é diferente. Isso fica evidente ao observar o recente avanço na implementação da Lei 10.639/2003, criada para incluir a história e cultura afro-brasileira no currículo oficial da rede nacional de ensino.

Analisando o cenário atual, a constatação óbvia é que a implementação de políticas para educação das relações étnico-raciais no Brasil só foi pra frente por conta da ação dos movimentos sociais negros, o que levou o Ministério da Educação a assumir as rédeas do processo —passados 21 anos da promulgação da lei, é bom lembrar. Mas é aí que entra o propósito.

Socos e canivetes em sala, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

A maioria dos professores brasileiros já sofreu violência física ou verbal no ambiente escolar

'Nós cuidamos de quase o Brasil inteiro, mas quem cuida de nós?', pergunta uma das agredidas

Se quisermos fazer uma ideia do que espera o Brasil no futuro, basta perguntar aos professores do ensino público e particular. Ninguém como eles tem tantas informações de primeira mão —não raro, na forma de uma arma portada por aquela mão ou de um punho assestado contra o seu rosto. Eis alguns relatos recentes.

Em Planaltina (DF), um professor pediu a dois alunos de 17 anos que entregassem os celulares durante a aula. Os garotos se negaram e tiveram seus aparelhos recolhidos. Terminada a aula, seguiram o professor até o ponto de ônibus e o espancaram. Em Cuiabá, um professor idoso levou rasteiras e pescoções de dois alunos que se negavam a se sentar em seus lugares. Em João Pessoa, um professor foi agredido por um aluno com um martelo por ter-lhe dado nota baixa em um exame.

Poesia | Tabacaria, de Fernando Pessoa

 

Música | Jorge Ben e Gal Costa - Que Pena

 

domingo, 30 de agosto de 2026

Opinião do dia | Hannah Arendt - A mentira (Visão geral criada por IA)

Para Hannah Arendt, a mentira é uma ferramenta poderosa, especialmente na política, que pode ser usada para manipular e controlar, mas também para criar e transformar a realidade. Ela distingue entre mentiras tradicionais e mentiras organizadas ou modernas, destacando que a mentira moderna visa a destruição da verdade, enquanto a mentira tradicional busca a ocultação. Arendt também enfatiza o perigo do autoengano, onde o mentiroso se torna vítima das próprias mentiras. 

Elaboração:

  • Mentira como Ferramenta Política:

Arendt defende que a verdade e a política raramente se encontram, e a mentira tem sido utilizada como um meio de manipulação e controle. Ela considera que o mentiroso é um homem de ação, capaz de imaginar e transformar a realidade, enquanto o que fala a verdade, muitas vezes, não é. 

  • Mentira Tradicional vs. Mentira Organizada/Moderna:

Arendt diferencia a mentira tradicional, que visa ocultar a verdade, da mentira organizada ou moderna, que busca a destruição da verdade. Essa distinção é importante para entender a natureza da mentira no contexto político e totalitário. 

  • Autoengano:

Arendt destaca o perigo do autoengano, onde o mentiroso se torna vítima de suas próprias mentiras. Ela argumenta que a mentira pode corroer a própria capacidade de distinguir a verdade da falsidade. 

  • Mentira no Totalitarismo:

Arendt analisa como a mentira é utilizada como um instrumento central na propaganda e na doutrinação em regimes totalitários. Ela enfatiza como a mentira organizada é utilizada para moldar a opinião pública e criar um mundo fictício. 

  • Importância da Verdade Factual:

Arendt enfatiza a importância da verdade factual, que depende do testemunho e da observação do mundo, para resistir à mentira. Ela distingue a verdade factual da verdade racional, que é baseada em princípios e conceitos. 

  • Mentira e a Educação:

Arendt reconhece a importância da educação na transmissão do conhecimento e da memória, como um meio de resistir à mentira e à propaganda. Ela argumenta que a educação pode ajudar a proteger o mundo comum e a preservar a verdade. 

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Lula ainda não entendeu o trabalho da imprensa

Por O Globo

Ao jornalismo profissional cabe relatar e esclarecer os fatos; não adivinhá-los

Há anos, quando confrontado com escândalos de corrupção, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, hoje novamente candidato à reeleição, cita a Operação Lava-Jato e diz que a imprensa brasileira nunca pediu desculpas a ele. Foi assim na entrevista ao Jornal Nacional na última quinta-feira. É certo que a jornalista Renata Vasconcellos, falando em nome do Grupo Globo, muito apropriadamente rebateu: “O jornalismo da Globo cumpriu sua obrigação de noticiar os fatos durante aquela cobertura”. Vale, porém, aprofundar a questão.

A Lava-Jato foi uma investigação feita por policiais federais e pelo Ministério Público, que resultou em um processo julgado por três instâncias da Justiça. Envolveu cifras bilionárias e confissões da maior parte dos agentes corruptores e daqueles que foram corrompidos. Levou à prisão empresários e pessoas que detiveram cargos públicos, inclusive o próprio presidente Lula, que sempre clamou por sua inocência.

As lições do piano de Thelonious Monk e as entrevistas dos candidatos, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

As sabatinas não definirão o resultado da eleição, apesar da enorme repercussão. Foram apenas os primeiros compassos de uma campanha sujeita a denúncias, erros, improvisações e mudanças de andamento

A frase “não existem notas erradas; algumas são apenas mais certas do que outras — tudo depende da que vem depois”, também atribuída ao trompetista Miles Davis, traduz com precisão a estética de Thelonious Monk, um dos grandes gênios do jazz e autor de Round Midnight, Straight, No Chaser, Epistrophy, Blue Monk e Misterioso, entre outros clássicos do gênero.

Em termos musicais, significa que uma nota não pode ser julgada isoladamente. Uma dissonância aparentemente equivocada pode adquirir sentido conforme a frase prossegue. A nota seguinte pode resolvê-la, reafirmá-la ou transformar o choque inicial numa tensão deliberada. No jazz, sobretudo na improvisação, o valor de cada som depende de sua relação com o acorde, o ritmo, o silêncio e as notas que vêm antes e depois.

Democracia em questão, por Míriam Leitão

O Globo

A questão democrática segue em jogo nesta eleição, com candidatos minimizando o 8 de janeiro e defendendo governos autoritários

Dos cinco entrevistados no Jornal Nacional, até sexta, a apenas um não foi preciso fazer perguntas sobre democracia. Dois subestimaram o ataque aos Três Poderes de 8 de janeiro, um apresentou uma proposta de extremismo autoritário e o quarto é filho de ex-presidente que tentou o golpe.

Romeu Zema disse que houve apenas “vandalismo”. Ronaldo Caiado prometeu anistia, e não condenou em momento algum os graves atos de conspiração de Jair BolsonaroRenan Santos quer um “banho de sangue”, regime de exceção em favelas e descumprimento de ordem judicial. Flávio Bolsonaro nega todos os fatos, prometeu indulto, e ameaçou enquadrar o Supremo Tribunal Federal. O presidente Lula ficou como o defensor solitário do regime que o Brasil conquistou com tantas lutas e dores.

Desesperança, por Merval Pereira

O Globo

Teremos a primeira eleição desde a redemocratização que não traz nenhum traço de esperança ao eleitor.

O desânimo com a eleição presidencial deve-se a que ela é a primeira desde a redemocratização que não traz nenhum traço de esperança ao eleitor. A primeira eleição direta depois da redemocratização, em 1989, trouxe a novidade do “caçador de Marajás”, o então governador de Alagoas Fernando Collor, contra os ícones da esquerda brasileira, Leonel Brizola de volta do exílio, e o líder operário Lula, que enfrentara a ditadura militar com as greves operárias de São Bernardo. Tudo era novidade, e os eleitores motivaram-se, cheios de esperanças.

Deu tudo errado, com Collor cassado por corrupção. Não foi preso na ocasião, mas está em prisão domiciliar atualmente, após reincidir no erro, eleito senador depois de passar anos inelegível. A eleição de 1994 teve a grande novidade até hoje no país, o Plano Real, que levou o ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso ao Palácio do Planalto no primeiro turno. Acabar com a hiperinflação foi o passo mais importante já dado no país, deixando de legado um tripé macroeconômico que resiste até hoje como modelo de boa governança: câmbio flutuante, metas de inflação e superávit primário.

Flávio Bolsonaro mente e distorce com mais convicção que o pai, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Senador afrontou os fatos ao falar de golpe, escândalo do Master e relação com miliciano

Flávio Bolsonaro deu uma nova contribuição à teoria de Darwin. Mostrou-se mais assertivo que o pai ao mentir, distorcer e renegar o que já disse. É a evolução da espécie.

Em entrevista à TV Globo, o candidato do PL fingiu desconhecer os fatos que levaram o capitão à cadeia. Descreveu como “golpe da Disney” a conspiração que destruiu as sedes dos Três Poderes e quase arrastou o país para uma nova ditadura.

O senador ainda chamou de petista o ex-comandante da Aeronáutica que, depois de votar em Jair Bolsonaro, recusou-se a manchar a farda para impedir a alternância de poder.

Questionado sobre o pedido de R$ 134 milhões a Daniel Vorcaro, Flávio descreveu o cambalacho como “relação privada”. “Não tem absolutamente nada de irregular”, recitou. O senador simulou esquecer que exerce cargo público e foi flagrado tomando dinheiro de um especialista em corromper autoridades.

Carlos Lacerda e sua máquina do ódio, por Elio Gaspari

O Globo

Resultado de anos de pesquisas, livro responde perguntas que sobreviveram por muitos anos em torno de uma figura que esteve no centro da política brasileira por décadas

Está nas livrarias “Lacerda — Coração de tempestade”, do repórter Mário Magalhães. É o primeiro volume e vai de 1914 a 1955, quando o golpe do general Henrique Lott levou-o a um breve exílio. Resultado de anos de pesquisas, responde perguntas que sobreviveram por muitos anos em torno de uma figura que esteve no centro da política brasileira por décadas.

Antes de se tornar um expoente da direita, Lacerda foi comunista? Foi. Pertenceu ao Partido Comunista? Não.

Quem feriu o pé de Lacerda no atentado que levou Getúlio Vargas ao suicídio em agosto de 1954? Um dos pistoleiros da guarda pessoal do presidente, financiada pelo caixa dois do Sistema S.

Seu nome — Carlos Frederico — é uma homenagem do pai a Karl Marx e Friedrich Engels? Não.

Seu primeiro amor foi a poeta Cecília Meireles. Ela tinha 28 anos e ele 17 incompletos.

Naqueles anos tumultuados, Lacerda foi da esquerda para a direita. Já Dom Hélder Câmara e Alceu Amoroso Lima foram da direita para a esquerda. Cecil Borer, o ferrabrás dos calabouços do Estado Novo, ficou onde estava, na meganha a serviço do Palácio. Ele prendeu Lacerda aos 19 anos, três dias antes da chegada de Adolf Hitler ao poder.