segunda-feira, 18 de maio de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Delação de Daniel Vorcaro não pode ser seletiva

Por O Globo

Proposta omitiu fatos conhecidos pela polícia. Não faz sentido ele entregar menos do que já se descobriu

É compreensível que a proposta de delação premiada de Daniel Vorcaro venha cercada de expectativas. Afinal, Vorcaro está no centro do escândalo do Banco Master, liquidado no ano passado pelo Banco Central (BC) depois da descoberta de um esquema bilionário de fraudes — e é conhecido pelas relações com altas figuras da República e pelo acesso aos gabinetes do poder em Brasília. Não há dúvida de que sua colaboração com a Justiça pode dar contribuição inestimável às investigações. Mas é fundamental que ele realmente esteja disposto a falar tudo o que sabe e a fornecer provas do que disser.

Crise na pré-campanha de Flávio Bolsonaro dificulta escolha de vice, por Beatriz Roscoe

Valor Econômico

Nomes de Romeu Zema e de Tereza Cristina perdem força para compor chapa depois da operação contra Ciro Nogueira e ligação de presidenciável com Daniel Vorcaro

Se a operação contra o senador Ciro Nogueira (PP-PI) abriu um dilema na campanha ao Palácio do Planalto de Flávio Bolsonaro (PL) há algumas semanas, o vazamento de conversas do senador com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master, embaralhou ainda mais o cenário para a definição da vaga de vice. Com os dois episódios, os principais cotados para compor a chapa presidencial - Romeu Zema (Novo) e Tereza Cristina (PP-MS) - mergulharam a articulação da pré-campanha em impasses estratégicos.

Apesar dos imbróglios, interlocutores do pré-candidato do PL afirmam que a definição da vice ainda está longe de acontecer, mas admitem que os últimos episódios devem impactar na configuração da chapa. A orientação agora é tentar dizimar desconfianças em relação ao nome de Flávio para evitar impacto negativo nas pesquisas eleitorais.

Do Mensalão ao Master, corrupção multiplicada, por Bruno Carazza

Valor Econômico

Lista de pagamentos de Daniel Vorcaro eleva exponencialmente os patamares da corrupção na política brasileira

Em 2003, a esposa do então presidente da Câmara dos Deputados, João Paulo Cunha, sacou R$ 50 mil na agência do Banco Rural em Brasília. Esse valor teria sido transferido pelo publicitário Marcos Valério, operador de um grande esquema de corrupção batizado dois anos depois por Roberto Jefferson de “Mensalão”.

O nome vinha de uma suposta rotina de pagamentos periódicos para parlamentares e partidos da base aliada no primeiro mandato de Lula para se posicionarem a favor do governo em votações importantes.

De acordo com reportagens da época, o “valerioduto” abastecia os bolsos de políticos no varejo com dezenas ou centenas de milhares de reais. Já os líderes partidários foram destinatários de quantias mais expressivas. Valdemar Costa Neto levou R$ 8,8 milhões para o PL, o falecido José Janene e seus colegas Pedro Henry e Pedro Corrêa teriam movimentado R$ 11 milhões em nome do PP e o próprio Roberto Jefferson conseguiu R$ 4 milhões para o PTB.

Pleno emprego ou subutilização? Por João Saboia

Valor Econômico

Uma análise mais profunda dos dados da Pnad Contínua mostra que alguns problemas antigos permanecem, embora em menor escala

O mercado de trabalho tem apresentados alguns indicadores bastante favoráveis nos últimos meses. Forte capacidade de geração de empregos, desemprego em queda, renda em alta e redução da informalidade são atributos desejáveis em qualquer mercado de trabalho. E isso tem acontecido no Brasil a ponto de até mesmo se ouvirem comentários de que estaríamos em situação de pleno emprego, ou quase lá.

Mas uma leitura mais cuidadosa dos dados da Pnad Contínua do IBGE mostra que nem tudo são flores. Alguns problemas antigos permanecem, embora em menor escala, mas estão aí para serem reconhecidos e enfrentados.

Política ou cancelamento? Por Denis Lerrer Rosenfield*

O Estado de S. Paulo

A política no sentido nobre do termo se define pelo diálogo, pela persuasão, pelo não emprego da coerção e da violência

As universidades, sobretudo as públicas, federais e estaduais, têm sido vítimas da intolerância e do apagamento das diferenças, senão da violência. Perdem elas com isso a sua função primordial de debate de ideias, de respeito à diversidade e de exercício da racionalidade. E foram tomadas por grupelhos, autodenominados políticos, que destroem prédios, proíbem aulas e palestras discordantes de seus pontos de vista partidários e dogmáticos. É o dogma transformado em “verdade”. Há maior perversão acadêmica do que essa?

A frágil virada à direita da América Latina, por Oliver Stuenkel

O Estado de S. Paulo

A onda conservadora que varreu a América Latina nas eleições de 2025 – simbolizada pela derrota da esquerda na Bolívia e pelos triunfos de líderes conservadores no Equador, no Chile, na Argentina e em Honduras – tem sido interpretada, por vários analistas, não como mais um capítulo de um pêndulo político movido por insatisfação econômica e rejeição aos governantes, mas como um reordenamento ideológico mais duradouro. Essa transição seria movida por uma preocupação crescente do eleitorado latino-americano com a segurança pública, o crescimento da população evangélica e a volta de Trump à Casa Branca, entre outros fatores. Vários apostavam, portanto, em uma consolidação da tendência em 2026, nas eleições no Peru, na Colômbia e no Brasil.

Relação de Flávio com Vorcaro afeta palanques de aliados, que tentam evitar contaminação da crise do Master nas campanhas

Por Lauriberto Pompeu e Luísa Marzullo / O Globo

Negociação entre senador e banqueiro já provoca desgastes em Santa Catarina, reforça afastamento em estados do Nordeste e provoca constrangimentos em São Paulo e Minas

BRASÍLIA - A crise provocada pela revelação das negociações entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o banqueiro Daniel Vorcaro interrompeu negociações para a formação de palanques nas eleições deste ano. Enquanto aliados do bolsonarismo tentam conter publicamente os danos do caso envolvendo o Banco Master, outros partidos e líderes estaduais passaram a recalcular o custo eleitoral de atrelar suas campanhas ao projeto presidencial do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Dirigentes partidários, governadores e parlamentares discutem estratégias para evitar que o desgaste nacional da crise contamine disputas locais consideradas competitivas.

O movimento já produz reflexos em estados como Minas Gerais, Rio de Janeiro, Santa Catarina, Ceará e Distrito Federal e acelerou disputas internas dentro do próprio campo bolsonarista.

Quando um ministro caía por US$ 830, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Hoje, quando apanhado, o corrupto se declara vítima. Quando não tem mais jeito de negar, vai para a delação premiada

Estamos em 1993, o presidente da República é Itamar Franco, e seu ministro da Fazenda é Eliseu Resende. Vaza a informação de que Resende recebera vantagens impróprias de uma empreiteira durante viagem a Nova York. Itamar o demite. A empreiteira era a Andrade Gutierrez, que pagara uma conta de hotel de Resende. Valor: US$ 830!

Reparem. O ministro, técnico respeitado, caiu por aceitar uma cortesia de míseros US$ 830. E mais: a viagem havia sido feita antes de Resende assumir o Ministério da Fazenda. Em dinheiro de hoje, esse valor paga uma diária no hotel Península de Londres, onde algumas autoridades se hospedaram por alguns dias, comeram e beberam por conta de Daniel Vorcaro. E acharam tudo muito normal.

A tortura que os EUA viram no Brasil, por Miguel de Almeida

O Globo

Diplomatas temiam que o governo dos Estados Unidos fosse envolvido na trama

Em passeatas e na porta dos quartéis, os “patriotas” pediram a volta da ditadura. Com alguns cúmplices, generais entre eles, Jair Bolsonaro cumpre pena por tentar um golpe de Estado. O capitão nunca escondeu seu apreço pelo regime militar. O livro “Olhares ianques: a ditadura brasileira nos arquivos norte-americanos”, de Felipe Loureiro, merece ser lido e decorado pelos bolsonaristas e simpatizantes da direita radical. Não é certo que a leitura os transforme em democratas — mas sempre há esperança.

O Brasil da desconfiança Master, por Irapuã Santana

O Globo

Instituições nunca tiveram credibilidade. A população brasileira nunca confiou de fato nas autoridades

O escândalo do Banco Master tem sido objeto de intensos debates na intelectualidade. É foco de reflexões no Direito, na economia, na sociologia e na ciência política. Todos os dias aparecem novos fatos que inundam o noticiário. Mas já parou para pensar como, na prática, isso realmente gera impacto no povo?

Explico.

Muito se fala que as instituições perderam a credibilidade, mas discordo dessa visão. Infelizmente, nunca tiveram. A população nunca confiou de fato nas autoridades. Não à toa, a figura do “rouba, mas faz” é tão difundida e exitosa em nossa história política. O escândalo deixou de gerar comoção e se tornou comum, sem qualquer capacidade de surpreender.

Entrevista | Parte pequena do Brasil é polarizada, e força do PL é novidade, diz cientista político Jairo Nicolau, por Fabio Victor

Folha de S. Paulo

Professor da FGV lança livro com análise de eleições de 2002 a 2022 e mudança no perfil do eleitorado

Estudioso não vê por ora retirada de candidatura de Flávio Bolsonaro, mas afirma que é cedo para avaliar

Rio de Janeiro - O antagonismo entre lulistas e bolsonaristas marcou as últimas eleições presidenciais, já pauta a próxima e é a primeira coisa que vem à cabeça diante do título do novo livro do cientista político Jairo Nicolau, "O País Dividido", pela editora Zahar. O autor calcula, entretanto, que a tão falada "polarização" atinge uma parcela pouco expressiva do eleitorado, no máximo 20%.

"O Brasil está polarizado? Está, mas uma parte pequena dele. Tem uma grande base da pirâmide que não está nem aí para a política. E que vai decidir o voto, pode cair para um lado ou para o outro", disse Nicolau em entrevista.

Professor titular do CPDOC (Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil) da FGV (Fundação Getúlio Vargas) e um dos principais estudiosos de partidos e sistemas eleitorais do país, o cientista político analisa, no trabalho, dados das seis eleições para presidente nos últimos 20 anos, de 2002 a 2022.

Crises em série com Master interrompem maré positiva de Flávio e testam campanha bolsonarista, por Carolina Linhares

Folha de S. Paulo

Há 15 dias, senador dizia que governo Lula (PT) havia acabado e agora se vê na defensiva

Políticos afirmam que disputa se reequilibrou com reação do Planalto

Em menos de uma semana, a revelação de três casos ligando a pré-campanha de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao Banco Master interrompeu a maré positiva do presidenciável, que passou a jogar na defensiva em um contexto de reação do presidente Lula (PT).

Enquanto comemoravam a consolidação do filho de Jair Bolsonaro nas pesquisas entre dezembro e março, seus aliados ponderavam que a campanha não estava exposta, ainda, à artilharia mais pesada da esquerda e havia conseguido desviar de desgastes. Portanto, não tinha sido devidamente testada —até aqui.

Em 29 de abril, quando a indicação de Jorge Messias ao STF (Supremo Tribunal Federal) foi rejeitada, Flávio afirmou que o governo Lula havia acabado. Dias antes da exposição das conversas entre o presidenciável e Daniel Vorcaro, o senador pregava em suas redes que "o Banco Master é do Lula", dizeres que estampavam sua camiseta em um comício em Florianópolis. Mas a disputa se reequilibrou rápido, afirmam integrantes do centrão.

Das 11 ilhas às facções judiciais no STF, por Marcus André Melo*

Folha de S. Paulo

Surgiram coalizões defensivas em torno da proteção de interesses individuais e da resistência a mecanismos de accountability interna da corte

Trata-se de uma forma nova de politização judicial mais ligada à internalização de disputas sobre reputação

diálogo ríspido entre o ministro Gilmar Mendes e o presidente do STF, Edson Fachin, é revelador de tensões profundas no interior do tribunal e aponta a emergência de "facções judiciais" no âmbito da corte. "Está ficando muito feio, Fachin. Barroso não gostava de perder, mas era mais elegante do que você e reconhecia o resultado. Você não: é mau perdedor, interrompe o jogo e leva a bolinha para casa ao ver que vai ser derrotado", teria afirmado Gilmar.

A discórdia teve origem na decisão de Fachin de estabelecer que petições apresentadas em casos arquivados devem ser previamente validadas pela presidência do STF antes de serem encaminhadas ao ministro relator. Desarquivá-los seria uma teratologia jurídica. Na mensagem enviada ao presidente do Supremo, Gilmar ainda o acusou de atuar como um filibuster —isto é, um agente de obstrução procedimental.

O limite eleitoral das emendas orçamentárias, por Lara Mesquita

Folha de S. Paulo

Na cidade grande, emenda parlamentar se dilui no orçamento, na paisagem e na disputa por crédito

Força eleitoral não deve ser superestimada porque as pequenas cidades concentram parcela limitada do eleitorado

Até aqui, o debate sobre as eleições gerais de outubro tem se concentrado na disputa presidencial. O tema da semana é se a candidatura de Flávio Bolsonaro vai ser afetada por seu envolvimento com Daniel Vorcaro e o caso do Banco Master. Fala-se pouco das proporcionais, embora a renovação da Câmara seja decisiva para a correlação de forças do próximo governo.

Para muitos analistas, a eleição para deputado federal em 2026 será também um teste da força eleitoral das emendas parlamentares. Fala-se que as emendas serão centrais na estratégia de conexão dos parlamentares com suas bases.

O que vale mais: a ganância ou o direito constitucional? Por Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

Conquistas importantes vêm sendo obtidas pelos movimentos sociais negros a respeito da contribuição para a formação do RS

Na contramão da mobilização por reparação famílias quilombolas estão sendo acuadas por conta da especulação imobiliária.

Rio Grande do Sul, minha terra natal, possui uma população negra significativa (22%, pelo IBGE), com destaque para as cidades de Pelotas e Porto Alegre, a capital. Mas o descompasso entre a realidade e a historiografia oficial criou no imaginário coletivo a falsa ideia de um estado povoado só por descendentes de imigrantes europeus.

Felizmente, o tempo tem se mostrado "o senhor da razão" e, com ele, conquistas importantes vêm sendo obtidas (a duras penas, é verdade) pelos movimentos sociais negros a respeito da contribuição negra para a formação do RS —e do Brasil. Há alguns dias, a Folha publicou que, depois de 20 anos de luta, o cerro de Porongos, no interior gaúcho, está prestes a ser reconhecido como patrimônio histórico nacional. O tombamento, realizado pelo Iphan, deve ocorrer ainda em 2026 e recairá sobre uma paisagem de três hectares de vegetação nativa do pampa.

Mais palavras na ponta da língua, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Leitores ficaram sem palavras para expressar seu entusiasmo pelo dicionário de 500 páginas em branco

Seria o único a poder ser usado livremente em provas e concursos sem suspeita de favorecer fraudes

Na segunda-feira (11/5), falei aqui do "Grande Dicionário de Palavras na Ponta da Língua", que o poeta Antonio Carlos Secchin, meu colega de Academia Brasileira de Letras, está cogitando produzir, composto das palavras que de repente nos fogem quando as tínhamos na ponta da língua. Seria um livro de 500 páginas em branco, por ser formado justamente dessas palavras que nos escapam quando mais precisamos delas. Inúmeros leitores aprovaram a ideia e se disseram sem palavras para expressar seu entusiasmo.

Por que o Brasil não tem um projeto nacional, por Luiz Carlos Bresser-Pereira*

JE – Jornal dos Economistas, nº 440, abril 2026 - Corecon-RJ e Sindecon-RJ.

O Brasil não tem um projeto de nação desde os anos 1980, quando seu desenvolvimento acelerado foi interrompido pela grande crise da dívida externa e a alta inflação inercial que se seguiu. Não tem e não quer tê-lo, porque suas elites econômicas e políticas império-dependentes insistem a se subordinar inteira mente ao Império. 

Entre 1930 e 1980, o Brasil se industrializou e realizou sua Revolução Capita lista adotando uma estratégia nacional--desenvolvimentista, que passou a contar com uma fundamentação teórica a partir de 1949, com o surgimento da teoria estruturalista latino-americana de Raúl Prebisch e Celso Furtado. 

Naquela época, o projeto nacional de desenvolvimento do país era a industrialização. Estava então claro para todos, exceto alguns liberais recalcitrantes, que o liberalismo econômico havia sido der rotado pela Grande Depressão dos anos 1930 nos Estados Unidos e ficara mais uma vez demonstrado que a ideologia da burguesia por excelência – o libera lismo econômico – era incapaz de pro mover o desenvolvimento sustentado de qualquer país e principalmente daqueles que estavam iniciando seu processo de industrialização, cuja necessidade para o desenvolvimento o liberalismo econômico rejeitava. 

Morre Noca da Portela aos 93 anos

Por O Globo — Rio de Janeiro

Velório de Noca será na Portela, diz família do sambista

Compositor morreu aos 93 anos depois de contrair pneumonia no hospital; ele estava internado para tratar infecção urinária

O velório de Noca da Portela será na escola de Madureira que ele defendeu durante toda a vida como compositor. A informação foi confirmada pela família do sambista ao GLOBO.

— Ainda não há horário confirmado, mas vamos divulgar nas redes sociais — disse Solange, filha de Noca, por telefone.

Noca da Portela morreu neste domingo, aos 93 anos. Segundo a família, ele contraiu uma pneumonia hospitalar. Ele estava internado no Hospital da Assim, em São Cristóvão, Zona Norte do Rio, para tratar de uma infeção urinária.

"O G.R.E.S. Portela lamenta, com profundo pesar, o falecimento do cantor, compositor e instrumentista Noca da Portela, um dos grandes nomes da nossa história", escreveu a escola em post no Instagram.

Poesia | De que riem os poderosos? de Affonso Romano de Sant'Anna

 

Música | Noca da Portela - Beco sem saída

 

domingo, 17 de maio de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Crime Organizado e a Política no Brasil

Por Revista Será?

Quando se fala em crime organizado, a primeira imagem costuma estar associada aos dois poderosos grupos criminosos — o PCC e o Comando Vermelho — que controlam cerca de 20% do território nacional, como quase Estados paralelos tomados do Estado brasileiro. Esta é a face mais visível do crime organizado no Brasil, marcada pela escala da violência e pelo domínio territorial.

Mas o Estado brasileiro está contaminado por dentro por diversos grupos criminosos que nem sempre precisam de armas, combinando corrupção, fraudes, troca de favores, lavagem de dinheiro, coerção, extorsão e ameaças. A atuação desses grupos penetra em praticamente todas as instituições da República — na política, no Judiciário e no sistema financeiro — irradiando poder e influência nos núcleos duros do Estado brasileiro.

Tempos difíceis para a direita, por Míriam Leitão

O Globo

O envolvimento com Daniel Vorcaro se entranha entre políticos da direita bolsonarista, que já se considerava vencedora da eleição

A direita vive tempos difíceis. Nenhuma explicação do senador Flávio Bolsonaro fica de pé. Ciro Nogueira torce para que a onda sobre Flávio seja tão grande que o país esqueça da mesada que ele recebia. O ex-governador Cláudio Castro foi visitado pela Polícia Federal. Os analistas de mercado suspiram de saudade da candidatura presidencial que não foi e poderia ter sido, a do governador Tarcísio de Freitas. A direita bolsonarista briga com os outros pré-candidatos da direita que criticaram Flávio Bolsonaro. Eduardo Bolsonaro vê a onda que atingiu seu irmão se voltar também contra ele. O ex-governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, finge de morto enquanto o BRB luta para sobreviver. E a família Vorcaro já tem quatro elementos na cadeia.

Cenas de cinema, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Diálogos publicados pelo Intercept Brasil podem ser só início dos problemas do Zero Um

Não teve dancinha, mas teve citação bíblica, pregação patriótica e exaltação à figura do pai. Na noite de sexta-feira, Flávio Bolsonaro fez o primeiro discurso após a revelação de seus negócios com Daniel Vorcaro. Cercado de aliados, tentou passar a mensagem de que o sonho presidencial não acabou.

“Vocês não fazem ideia da minha alegria de estar aqui hoje”, iniciou o Zero Um. “Acordei com um versículo da Bíblia: quem é fraco numa dificuldade é realmente fraco. Nessas veias aqui, tem sangue de Bolsonaro. E eu estou mais motivado do que nunca”, emendou, apontando para o braço direito e segurando uma bandeira do Brasil.

Um dia, a verdade, por Dorrit Harazim

O Globo

Operação abafa procurou desacreditar os testemunhos por se originarem de militantes interessados em difamar Israel

O New York Times não é um grande jornal qualquer. Ainda hoje, aos 175 anos bem vividos, continua sendo leitura obrigatória pelo alcance global do que publica. Nicholas Kristof tampouco é um colunista qualquer. Sua carreira de mais de quatro décadas no jornalão já lhe valeu dois prêmios Pulitzer e reconhecida credibilidade mundo afora. Daí a reação do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, ao longo artigo de Kristof publicado no domingo passado sob o título “O silêncio acompanha o estupro de palestinos”. Diante do que chamou de “uma das mentiras mais hediondas e distorcidas já publicadas contra Israel na imprensa moderna”, Netanyahu anunciou que processará o jornal por difamação.

O poder de uma ilha entre potências, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

Xi Jinping elevou Taiwan ao topo da agenda nas relações com os EUA, de forma ameaçadora. Todos os outros pontos de disputa passam pela ilha aliada dos EUA e cobiçada pela China: o acesso chinês a chips sofisticados, o acesso americano a minerais críticos, o aumento das exportações americanas e a ajuda de Xi na solução do impasse com o Irã.

“Se Taiwan for tratada adequadamente, as relações China-EUA desfrutarão de estabilidade geral”, disse Xi a Donald Trump, em Pequim. “Se for tratada de forma inadequada, os dois países poderão colidir ou até entrar em conflito, empurrando toda a relação ChinaEUA para uma situação extremamente perigosa.”

Se a pré-campanha está assim, o caso Master vai incendiar 2026, por Ana Dubeux

Correio Braziliense

Vamos assistir a cenas surpreendentes de mais esse capítulo da nossa história democrática. Disso não há dúvidas

A campanha eleitoral começa, oficialmente, em 16 de agosto, exatos três meses adiante do dia em que escrevo este artigo. Desde a Constituição de 1988, conto aqui de cabeça 10 campanhas federais. Em todas elas, eu já estava no front do jornalismo e celebrei participar de cada uma das coberturas eleitorais, em papéis diversos, mas sempre com o entusiasmo imenso que a democracia me provoca. Continuo achando fascinante.

O que não acho graça é o escárnio de alguns políticos com o povo. Preocupa-me ainda a falta de senso crítico de tantas pessoas, que parecem zumbis rolando o scroll infinito das telas, consumindo notícia como se fosse propaganda política e fake news como se fosse notícia. Apavora-me a violência no trato com adversários políticos e o desrespeito à verdade, aos fatos.

As forças do atraso não improvisam, por Roberto Amaral*

“O trabalhador vai ter que escolher: menos direitos e emprego ou todos os direitos e desemprego” – capitão Jair Bolsonaro, ex-presidente do Brasil, em discurso na Câmara dos Deputados

É notável, tanto quanto desprezível, o esforço do pensamento conservador brasileiro militando contra a economia nacional e, principalmente, contra qualquer sorte de progresso social. Tudo o que, mesmo remotamente, possa sugerir melhoria das condições de vida das grandes massas é bloqueado por essa corrente retrógada. Ora se diz que a iniciativa é muito cara (por exemplo, a escola pública e o ensino em tempo integral, ou o saneamento básico), ora se diz que é inflacionária — falácia de que foram acusadas, na sua origem, a introdução das férias anuais, lá atrás, e o 13º salário, em 1962, por iniciativa congressual, em lei sancionada pelo presidente João Goulart. 

Os dados brandidos contra essas conquistas sociais revelaram-se meras aleivosias desmentidas pela história. No entanto, seguem sendo arguidas por economistas formados pela tradição deixada por Eugênio Gudin na FGV, ou pela cartilha do monetarismo da Escola de Chicago, envelhecida pelo curso das transformações — agudas e profundas, em alguns aspectos talvez revolucionárias — que vêm moldando o mundo contemporâneo.

Fenômeno óbvio, do qual, todavia, não se dá conta a direita brasileira.

Flávio Bolsonaro ameaça fazer do Brasil um grande Governo do Rio de Janeiro, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Ficha corrida da família Bolsonaro tem paralelos com degradações do estado

Operação da PF mostrou relações de bolsonaristas com crimes da Refit

A decadência do Governo do Rio de Janeiro tem quase a idade de Flávio Bolsonaro ou por aí, 45 anos. "Governo", aqui, inclui Executivo, Legislativo e Judiciário. Mas o comando do Estado vive outra onda aguda de caos e corrupção desde a chegada do bolsonarismo ao poder, em 2018, com a eleição do depois impichado Wilson Witzel, que legou ao monturo da política o seu vice, Claudio Castro, reeleito em 2022. O PL, dos Bolsonaro, e comparsas dominam a política local.

Além disso, a ficha corrida dos Bolsonaro tem paralelos com a governança local: associação com milícias, rachadinha de fundos públicos, funcionários fantasmas, nomeação de perversos e lunáticos para altos cargos, tolerância com o terror do Estado (como o das polícias) etc. Se Flávio Bolsonaro for eleito, o Brasil corre o risco de se tornar um grande Governo do Rio de Janeiro.

Direita se desarruma e abre a cena eleitoral, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Desafio do senador é sobreviver até a convenção do PL sem tornar sua candidatura radioativa

Família Bolsonaro pode ter caído na própria arapuca ao obrigar Tarcísio a deixar passar o cavalo selado

A trombada foi feia, obrigou Flávio Bolsonaro (PL) a sair da inércia, levou o PT a acionar a artilharia antes do previsto, escancarou as divergências na direita e pode mudar o rumo da corrida eleitoral.

Em qual direção, ainda não sabemos. Depende do quão perigosas se mostrem as ligações do senador com o esquema de Daniel Vorcaro.

Decerto, temos apenas a comprovação de que sabem muito bem do que vêm falando olheiros qualificados do humor do eleitorado como Felipe Nunes (Quaest), Renato Meireles (Locomotiva), Antônio Lavareda (Ipespe) Murilo Hidalgo (Paraná) e Maurício Moura (Ideia).

Flávio Bolsonaro, irmão de Vorcaro, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Valor de R$ 134 milhões é troco de padaria comparado aos bilhões de dinheiro público que o bolsonarismo deu ao Master

Palavra de ordem 'bolsomaster' peca por excluir o resto da direita do escândalo

Em 16 de novembro de 2025, Flávio Bolsonaro enviou uma mensagem a Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Dizia: "Irmão, eu estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente, só preciso que me dê uma luz". A luz, no caso, eram R$ 134 milhões que Vorcaro daria para a realização de "Dark Horse", a cinebiografia de Jair Bolsonaro.

Vorcaro prometia essa fortuna para Flávio um dia antes de perguntar a Alexandre de Moraes: "Consegue bloquear?"; um dia antes de ser preso tentando fugir do Brasil. Dois dias antes de o Banco Central liquidar o Banco Master.

A revelação foi feita pelo The Intercept Brasil.

O Master prometeu a Flávio Bolsonaro mais do que prometeu ao escritório de Viviane Barci, esposa de Alexandre de Moraes. No caso de Xandão, a suspeita é de suborno para livrar Vorcaro da cadeia. Por que a suspeita seria diferente no caso de Flávio Bolsonaro?

Perda de vida dos espaços sociais, por Muniz Sodré*

Folha de S. Paulo

A maior ameaça à vitalidade da cidadania está hoje no caos criminogênico dos clãs cuja tendência é a desvitalização

Com a proximidade das eleições, agudiza-se a preocupação com a saúde da democracia entre nós

Daniel Vorcaro: "Fala irmãozão ro (sic) na igreja, terminando te chamo". Flávio Bolsonaro: "Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz!" Nesta troca de mensagens entre o maior fraudador financeiro da história do país e o candidato da ultradireita à Presidência, "luz" tem novo sentido: dinheiro. Mais precisamente, R$ 134 milhões; destes, R$ 61 milhões já haviam sido destinados ao filme sobre Jair Bolsonaro e que, pelo visto, sumiram no caminho. Agora, o rachadão, farisaico: "O que tem demais?"

O Espírito do Tempo, por Elimar Nascimento*

Revista Será?

Os alemães, entre o final do século do Iluminismo e o início do XIX, usavam a expressão zeitgeist[1] para indicar os valores, ideias, sentimentos e percepções dominantes de uma época. O termo refere-se a um contexto específico, com características próprias. Algo próximo ao conceito de episteme, no qual Foucault define o que é pensável e dizível naquele contexto.

O espírito da época ou do tempo não é o resultado de nenhuma decisão particular, nem de um plano de uma organização qualquer, menos ainda de uma intervenção externa; antes, é o resultado de fluxos e dinâmicas que se configuram de forma singular em um determinado momento, em um território povoado por humanos.

As mudanças do espírito do tempo refletem-se nas modificações das linguagens, dos costumes e das leis, nas alterações dos padrões técnicos e econômicos, assim como no conteúdo e nas formas de consumo. São transformações que ocorrem em dimensões distintas, mas todas regidas por uma lógica comum. Elas fazem parte de um sistema único, autoinfluenciam-se e retroalimentam-se. Apontam em uma direção em meio a resistências, pois todo sistema humano é formado por tendências e contratendências. Todo futuro nasce da articulação particular de continuidades e descontinuidades. O rumo dominante não está predefinido; sua regência reside na incerteza, pois todo sistema complexo, como as sociedades humanas, é portador de emergências[2], do surgimento do novo, de disrupções ou “cisnes negros”, como diz Taleb [3].

Há um sentimento de que vivemos um espírito do tempo distinto daquele que imperou durante a segunda metade do século XX. Naquele momento, imaginava-se que o desenvolvimento econômico não tinha limites; que a ciência era a expressão suprema de nosso cérebro; que os direitos humanos eram uma aquisição civilizacional inquestionável; que o Estado de direito era a manifestação mais acabada da sabedoria política e de que o futuro estava ali, à espera de ser moldado por nossas mãos.

Reforma em vez de ruptura, por Hubert Alquéres*

Revista Será?    

São sobejamente conhecidas as mazelas do sistema brasileiro: crise de representação política, baixo crescimento econômico há décadas, serviços públicos de baixa qualidade, corrupção acompanhada de impunidade e persistente incapacidade do Estado de responder com eficiência às demandas da sociedade.

Esse cenário alimenta, há anos, o discurso antissistema, segundo o qual a saída para o país passaria por uma espécie de “refundação” institucional, frequentemente apresentada como superação do arranjo democrático consolidado pela Constituição de 1988.

Comunismo: Uma Metáfora da Ignorância, por Johnny Jara Jaramillo*

Revista Será?

No debate público, certas palavras funcionam como insultos automáticos. Não descrevem nada, não explicam nada, mas servem para encerrar conversas. “Comunismo” é uma delas. Basta pronunciá-la para que alguém faça o sinal da cruz, olhe ao redor procurando fantasmas e comece a falar de Cuba, da Venezuela ou de um primo distante de quem “tiraram tudo”. O comunismo, nesse registro, não é uma teoria nem um horizonte histórico: é uma metáfora do medo e, sobretudo, da ignorância.

Poesia | O Correr da Vida, de Guimarães Rosa

 

Música | Moacyr Luz - Vai Passar (Chico Buarque)

 

sábado, 16 de maio de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Denúncias da PF contra Castro são consistentes

Por O Globo

Defesa nega irregularidades, mas é essencial esclarecer até que ponto ele se envolveu com grupo de Magro

São graves as acusações contra o ex-governador fluminense Cláudio Castro trazidas à tona pela Operação Sem Refino, que investiga fraudes no setor de combustíveis. De acordo com a Polícia Federal (PF), Castro atuou de forma decisiva para blindar e favorecer interesses do grupo Refit, do empresário Ricardo Magro. A PF diz ainda que ele promoveu trocas estratégicas no alto escalão, sancionou leis sob medida e incentivou órgãos estaduais a trabalhar em benefício do grupo de Magro, dono da Refinaria de Manguinhos. “O Rio direcionou todos os esforços de sua máquina pública num engajamento multiorgânico em prol do conglomerado de Ricardo Magro”, afirma relatório da PF. A secretaria estadual de Fazenda, prossegue o texto, “virou extensão da estrutura empresarial do grupo Refit”. A operação representa mais um revés para Castro, menos de dois meses depois de ele renunciar ao cargo e ser declarado inelegível pelo Tribunal Superior Eleitoral.

A gargalhada de Flávio eleva a mentira a um novo patamar de cinismo, por Thaís Oyama

O Globo

A mentira não triunfa só quando convence, mas quando as pessoas já não se dão ao trabalho de separá-la da verdade

A gargalhada que Flávio Bolsonaro deu diante da pergunta do repórter do site Intercept Brasil é daquelas cenas destinadas aos anais da política — evidentemente, não por engrandecê-la.

— Mentira. De onde você tirou isso? — disse o senador quando confrontado pelo jornalista com a informação de que o filme sobre Jair Bolsonaro havia sido financiado por Daniel Vorcaro.

Nas imagens, à disposição na internet, Flávio lança uma rápida olhada para as câmeras simulando incredulidade, então solta a risada de ator canastrão.

— Pelo amor de Deus — desdenha, virando as costas.

Campanha à espreita, por Flávia Oliveira

O Globo

Levantamentos recentes dão pistas sobre o interesse dos brasileiros no escândalo do Banco Master

É certo que o furacão que varreu figuras da direita brasileira neste maio influenciará a posição do eleitorado em consultas vindouras sobre o pleito de outubro. Afinal, não é todo dia que um mandachuva do Centrão é alvo de operação da Polícia Federal, por suspeita de pôr o mandato de senador a serviço do protagonista da maior fraude bancária da História. Tampouco é sempre que um senador içado pelo pai a presidenciável é descoberto em relações financeiras e amistosas com o mesmo ex-banqueiro. Nem que um ex-governador tornado inelegível por fraudar o processo eleitoral sofre busca e apreensão por favorecimento ao maior sonegador de impostos da República.