sexta-feira, 24 de abril de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Como não fazer uma legislação sobre jornada de trabalho

Por Folha de S. Paulo

Tramitação do fim da escala 6x1 é apressada por disputa entre governo e Congresso em ano eleitoral

As piores ideias incluem uma compensação a ser paga pelo governo aos empregadores; vale dizer, a conta seria repassada ao contribuinte

Governo e Congresso Nacional dão um exemplo didático de como não se deve elaborar uma legislação em suas tratativas para a redução da jornada de trabalho.

Uma mostra disso é a tramitação simultânea de propostas de emenda constitucional (PECs) sobre o tema —duas das quais foram aprovadas na quarta-feira (22) pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara— e de um projeto de lei enviado em regime de urgência pelo Executivo.

Mais força à democracia, não menos, por Fernando Abrucio*

Valor Econômico

Melhorias do sistema político têm de se ancorar na aceitação do dissenso, construção de negociações, valorização de controles democráticos sobre governantes e crença na verdade das urnas

O Brasil nunca viveu período democrático tão longo e sólido como o inaugurado em 1985 com o fim da ditadura militar. A consolidação do novo regime veio com a Constituição Cidadã, como Ulysses Guimarães a definiu. Além dela, o aperfeiçoamento incremental das regras, muita negociação e controles dos governantes foram as chaves do sucesso. Crises também ocorreram, mas a democracia permaneceu. A tentativa de golpe liderada por Bolsonaro fracassou e ele foi preso. O quadro atual, porém, é marcado pelo crescimento do discurso antissistema e pela dificuldade em respondê-lo.

Muitas críticas podem ser feitas hoje ao sistema político brasileiro, mas a grande questão é saber se o caminho de quem as faz é pelo fortalecimento da democracia ou para gerar seu enfraquecimento. Não basta apontar os erros e problemas. É preciso propor medidas cujo objetivo seja o aperfeiçoamento democrático. A história mostra, ademais, que muitos movimentos que captavam anseios populares e propunham discursos antissistema redundaram em autoritarismo ou totalitarismo. Assim foi com o fascismo italiano ou com o nazismo.

Brasileiros mandados de volta, por José de Souza Martins*

Valor Econômico

Deportações nos EUA em condições deploráveis ignoram o fato de que esse imigrante, mesmo irregular, cria riqueza por preço muito menor que o cobrado pelos nativos

A cada tantos dias, um avião fretado pelo governo americano traz de volta ao Brasil algumas dezenas de brasileiros que desembarcam em diferentes aeroportos. Um deles é o de Confins, em Belo Horizonte. A mídia tem descrito as não raro deploráveis formas de detenção dessas pessoas nos EUA e igualmente deploráveis condições da viagem de volta à pátria.

Isso não é propriamente muito diferente do que foi a vinda para cá de ancestrais, até não muito antigos, de milhões de brasileiros de hoje. As viagens em navios cuja terceira classe trouxe para o Brasil milhares de imigrantes europeus e asiáticos, durante décadas, para trabalhar nas fazendas brasileiras em condições que não eram propriamente muito diferentes das dos escravizados da escravidão recém-abolida. Não eram viagens turísticas. Meus avós maternos e meus tios lembravam dos penosos detalhes da travessia, em 1913.

Congresso do PT definirá diretrizes e estratégia eleitoral

Por Andrea Jubé / Valor Econômico

Desafio é atualizar o discurso para a nova realidade geopolítica e tecnológica

A cinco meses das eleições, o PT reunirá em Brasília, a partir desta sexta-feira (24), dirigentes e delegados no 8º congresso nacional, instância máxima decisória da sigla, a fim de debater a conjuntura política, definir estratégias para a disputa eleitoral e aprovar diretrizes para o futuro do partido, que completou 46 anos em fevereiro.

Tendo como prioridade a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o desafio é atualizar o discurso para a nova realidade geopolítica, a revolução no mundo do trabalho diante das novas tecnologias, e as mudanças nas demandas sociais e econômicas, a fim de tentar convencer os brasileiros de que o partido merece continuar no poder. Lula irá discursar no encerramento do evento no domingo (26). O presidente nacional da legenda, Edinho Silva, abre o congresso com uma análise do cenário político, e o lançamento de nova campanha de filiação.

Dirceu vê Lula ajustando a rota com ‘autocrítica’, por Andrea Jubé

Valor Econômico

Partido se depara com um fantasma do passado que assombra forças progressistas no mundo todo

No momento em que se reúne para debater o seu futuro, o PT se depara com um fantasma do passado que assombra não apenas o partido, mas as forças progressistas no mundo todo. Instado a elaborar um roteiro com experiências internacionais de partidos de esquerda para o 8º Congresso Nacional do PT, o diretor de Cooperação Internacional da Fundação Perseu Abramo, Valter Pomar, sugeriu a leitura de “O Alfaiate de Ulm”, do intelectual e dirigente comunista Lucio Magri.

Obra de referência de intelectuais da esquerda, o livro reconstitui a história do Partido Comunista Italiano (PCI), da sua criação ao apogeu, até o fim melancólico em 1991, junto com a dissolução da União Soviética. No auge do poder, em meados dos anos 1970, o PCI era o maior partido comunista do Ocidente.

Na Segunda Guerra, o partido lutou na Resistência Italiana ao lado de socialistas, católicos e liberais para derrubar o fascismo de Mussolini. Mas em pleno apogeu, no ano de 1978, prestes a firmar uma aliança histórica com a Democracia Cristã (DC) para governarem juntos a Itália, o assassinato do líder da DC, Aldo Moro - atribuído aos comunistas - deflagrou uma fase de decadência da sigla. Anos depois, a história mostrou que os comunistas não estavam envolvidos no crime.

Ser ou não ser candidato à reeleição, o drama shakespeariano de Lula, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Essa hipótese está nas cabeças dos aliados de Lula e de muitos petistas, a favor ou não da candidatura. Quem ficou na berlinda foi o ex-ministro Fernando Haddad

Na versão da peça Hamlet, de William Shakespeare, filmada para a tevê pela emissora estatal britânica BBC, o ator escocês David Tennant aparece sozinho em cena no começo do terceiro ato. Com ar de quem reflete profundamente e com grande sofrimento, murmura lentamente: “Ser ou não ser: eis a questão”. A frase foi imortalizada porque serve de analogia para todos os momentos de decisões difíceis. É a síntese de um drama humano e político ao mesmo tempo.

Me engana que eu gosto, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Dos ‘outsiders’ de 2018, dois caíram em desgraça e outro virou candidato a presidente

Três ilustres desconhecidos, que surgiram do nada, lançaram-se na política e foram eleitos governadores em 2018, na onda do bolsonarismo e contra o “sistema, a política, a corrupção e a violência”, tornam-se hoje ótimos “cases” sobre “outsiders” na política. Dois caíram em desgraça, um virou candidato a presidente.

Os dois que não deram certo vieram da área jurídica, hoje tão abalada por revelações chocantes, e apresentaram-se como impecáveis cumpridores da lei e impolutos guerreiros contra a corrupção. Ibaneis Rocha, advogado muito bem-sucedido e ex-presidente da OAB-DF, foi eleito e reeleito no DF, mas... E Wilson Witzel, ex-juiz federal (vejam só!), foi tão efêmero como governador quanto meteórico como candidato no Rio.

Master: fila de delatores enfrenta barreira, por Raquel Landim

O Estado de S. Paulo

Com investigações avançadas, o que mais Vorcaro, Zettel e Costa podem entregar nesse núcleo central?

Formou-se uma fila de possíveis delatores do caso do Banco Master: o banqueiro Daniel Vorcaro, o cunhado e operador financeiro dele, Fabiano Zettel, o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa.

À medida que as investigações apertaram o cerco, todos adotaram a mesma estratégia. Trocaram de advogado e passaram a buscar um acordo.

Seus advogados, porém, têm ouvido a mesma coisa de interlocutores na Polícia Federal, na Procuradoria-Geral da República (PGR) e no gabinete do relator do caso, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça. Não vai ser fácil.

A sinceridade de Lula na Espanha, por Fernando Gabeira

O Estado de S. Paulo

Pena deixar reflexões tão importantes para o exterior: o discurso foi recebido aqui, no Brasil, como mais um discurso. Mas tem contornos históricos

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez um discurso histórico em Barcelona. Ele descreveu a essência do momento político mundial, caracterizado pelo declínio da social-democracia e a ascensão do populismo de direita. Muitos pesquisadores e estudiosos já o fizeram. Mas a fala de Lula, com palavras simples, tem o valor existencial de alguém que detém o poder por muitos anos.

“O progressismo não conseguiu superar o pensamento econômico dominante. O projeto neoliberal prometeu prosperidade e entregou fome, desigualdade e insegurança. Provocou crise atrás de crise. Ainda assim, sucumbimos à ortodoxia. Temos sido os gerentes das mazelas do neoliberalismo. Governos de esquerda ganham as eleições com discurso de esquerda e praticam austeridade. Abrem mão de políticas públicas em nome da governabilidade. Nós nos tornamos o sistema. Por isso, não surpreende agora que o outro lado se apresente como antissistema.”

Um beija-mão fora de moda, por José Roberto Batochio*

O Estado de S. Paulo

No figurino em que está talhada, a peregrinação aos senadores costura-se fora das linhas da Constituição e da compostura republicana

Aromaria que todos os indicados do presidente da República para o Supremo Tribunal Federal (STF) fazem aos gabinetes dos senadores é um beija-mão tão anacrônico quanto inapropriado. Nessa jornada, tem se movimentado o advogado-geral da União, dr. Jorge Messias, em visita aos gabinetes do Senado enquanto aguarda a sabatina a que se submeterá na Casa em 29 de abril. Se há inquirição, arguição pública para que os parlamentares possam perguntar (em rigor, discursar...) o que bem entendam, para avaliar a qualificação do indicado ao cargo, por que razão manter esse ritual prévio com os senadores que nada mais simboliza do que um pleito de voto a quem mais tarde poderá ser julgado pelo ministro?

Renata LoPrete (O Globo) entrevista Gilmar Mendes

 

Enredo manjado ameaça Lula 4, por Vera Magalhães

O Globo

Q.G. petista subestimou a capacidade de Bolsonaro de transferir votos depois de condenado e preso

Com as pesquisas mostrando risco concreto de derrota de Lula em outubro, as principais lideranças petistas tentam encontrar um caminho para reconectar o presidente com as forças que compuseram a frente ampla em 2022 e renovar o pacto em novas bases. Mas esbarram num questionamento: como envolver esses segmentos em torno de um projeto de país que olhe para a frente quando o que as pesquisas mostram é cansaço com Lula e a sensação de que governo apresenta um enredo manjado?

Uma escada chamada Gilmar, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Ameaça de processo ajuda pré-candidato do Novo a se apresentar como vítima

Romeu Zema iniciou uma cruzada contra o Supremo para tentar sair da rabeira da corrida presidencial. A tática ainda não produziu efeito nas pesquisas, mas acaba de ganhar um impulso inesperado.

No início da semana, Gilmar Mendes apresentou uma notícia-crime contra o ex-governador de Minas. Pediu que ele seja investigado no inquérito das fake news, conduzido pelo colega Alexandre de Moraes.

O supremo ministro se irritou com vídeos publicados nas redes de Zema. Numa das peças, fantoches satirizam o envolvimento de juízes da Corte, chamados de “intocáveis”, com o escândalo do Banco Master.

STF impede direita de fazer política, por Pablo Ortellado

O Globo

Antes de defender nossas preferências políticas, é preciso defender a democracia, num sentido pluralista

Na semana passada, o plenário do STF considerou inconstitucional a lei catarinense que acabava com as cotas raciais para as universidades no estado, por 10 votos a 0.

Segundo o Datafolha, 83% dos brasileiros apoiam cotas para as universidades na sua dimensão social (para quem cursou escola pública), mas, na dimensão racial, elas têm apoio minoritário (41%). Os críticos das cotas raciais argumentam — a meu ver, sem razão — que elas racializam uma sociedade mestiça e criam privilégios para uma elite negra. É um argumento que existe na sociedade e faz parte do debate público há muitos anos, sobre o qual a Assembleia Legislativa de Santa Catarina deliberou.

É preciso resistir às tentações, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Educação e sinalizações afetam comportamento humano, mas só até certo ponto

Norma britânica que bane cigarros para novas gerações viola igualdade diante da lei

Eu acredito no poder transformador da educação e de sinalizações, venham elas do Estado ou mais organicamente da própria sociedade. Foi uma combinação desses fatores que levou os temíveis vikings a se converterem nos civilizados escandinavos. E não faz tanto tempo. Até o finalzinho do século 19, a Suécia ainda era um dos países mais pobres e corruptos da Europa. Existem, contudo, limites para a maleabilidade humana. Nem recorrendo à força conseguiremos fazer com que 100% da população siga sempre um mandamento legal, uma diretriz sanitária ou o bom senso.

Dino propõe reforma que se desvia do cerne da crise, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Tensão no STF não decorre de falhas do Judiciário e sim da conduta imprópria de alguns magistrados

O código de ética seria um ponto de partida para o Supremo começar a recuperar a confiança do público

Uma das maneiras de se desviar de um ponto sob questionamento é propor que se olhe o problema por uma lente ampliada. E, neste aspecto, o proponente em geral leva vantagem. Afinal de contas, por que não enxergar o todo no lugar de focar a parte, não é mesmo? Em tese, faz todo sentido.

Na prática, porém, há o risco de a amplitude do debate levar à dispersão e à perda de concentração na questão principal que se dilui no turbilhão de sugestões. Uma reforma ampla do Poder Judiciário, como propõe o ministro Flávio Dino, do STF, soa condizente com as demandas por correções no sistema de Justiça. São muitas as falhas e distorções. O tema é relevante.

Flávio Moderado Bolsonaro, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Se achou importante tomar vacina, por que permitiu que seu pai a sonegasse ao povo brasileiro?

Numa coisa o senador será, com razão, moderado; não dará um pio sobre corrupção

Flávio Bolsonaro apresenta-se ao eleitorado como um "Bolsonaro moderado". Equivale ao círculo quadrado e ao fato imaginário, especialidades da família Bolsonaro. Um de seus argumentos é que se vacinou contra a Covid. E daí? Se achava a vacina tão importante a ponto de tomá-la, o que fez para sustar a política omnicida de seu pai, que sonegou enquanto pôde a vacina à população, mentiu sobre ela, ridicularizou-a e, como um misto de camelô e curandeiro, vendeu um substituto sabidamente ineficaz? Dos 700 mil brasileiros mortos pela Covid, quantos não terão sido crédulos bolsonaristas? E onde estava Flávio Bolsonaro enquanto seu pai, indiretamente, matava em série?

Liberalismo e Sindicato no Brasil, 50 anos, por Fernando Perlatto e Diogo Tourino

Neste dia de São Jorge, santo popular e cheio de significados na cultura urbana carioca, a BVPS traz uma comemoração em torno de um Jorge, grande guerreiro das ciências sociais brasileiras. Luiz Jorge Werneck Vianna publicava há cinquenta anos atrás sua tese de doutorado Liberalismo e sindicato no Brasil. Marco de uma época em que a sociologia enfrentava desafios macros, com coragem e audácia. Contemporâneo de A revolução burguesa no Brasil, de Florestan Fernandes, cujo cinquentenário comemoramos ano passado, e da segunda edição de Os donos do poder, de Raymundo Faoro, por exemplo.

A tese de Werneck tem uma história de escrita que se confunde com a repressão e a resistência à Ditadura Militar brasileira. E, só por isso, mereceria ser lembrada. Mas, ela é mais. Muito mais. O livro forjou uma interpretação original da modernização conservadora brasileira, inserindo um novo olhar e novos recursos intelectuais sobre o problema das relações entre Estado, sindicatos e classe trabalhadora. Não seria exagero nenhum dizer que, nesse sentido, a partir da periferia, Liberalismo e sindicato no Brasil permite interpelar a teoria sociológica em um sentido mais amplo. O livro, além disso, teve ampla recepção, causou controvérsias e disputou direção (moral e intelectual, como, gramscianamente, ele gostava de dizer) nos meios acadêmicos e dos movimentos sociais da transição democrática.

Meio século depois, permanece e se atualiza como referência para pensarmos os impasses da formação social brasileira. Dois dos mais queridos alunos de Werneck Vianna no antigo IUPERJ, Fernando Perllato e Diogo Tourino, ambos professores da Universidade Federal de Juiz de Fora atualmente, fazem o elogio do livro em nome de tantos de nós que tivemos o privilégio de conviver com Werneck e que continuamos a aprender com Liberalismo e sindicato no Brasil.

Salve (Luiz) Jorge!

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Poesia | Soneto da doce queixa, de Federico García Lorca

 

Música | Brigas nunca mais - Roberta Sá (Prêmio de Música Brasileira Tom Jobim)

 

quinta-feira, 23 de abril de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Hora da verdade para o BRB

Por Folha de S. Paulo

Banco de Brasília abriga indícios mais claros, até o momento, de corrupção de autoridades pelo Master

Assembleia de acionistas aprovou aumento de capital de até R$ 8,8 bi; governo distrital precisa arcar com os custos sem socorro federal

Enquanto as suspeitas de maior repercussão política e institucional se concentram no Supremo Tribunal Federal, foi no Banco Regional de Brasília (BRB) que se encontraram, até aqui, os indícios mais palpáveis de corrupção de autoridades pelo Banco Master.

O ponto de partida do escândalo, afinal, foi a tresloucada tentativa de compra do Master pela instituição controlada pelo governo do Distrito Federal, em março do ano passado —que despertou desconfiança imediata e levou a Polícia Federal e o Banco Central a aprofundarem investigações sobre o caso.

Descobriu-se que o banco de Daniel Vorcaro vendera ao BRB uma carteira de cerca de R$ 22 bilhões em créditos, dos quais mais de R$ 12 bilhões se mostraram fraudulentos. Neste mês, foi preso o então presidente do banco brasiliense, Paulo Henrique Costa, e nesta quarta (22), a Segunda Turma do STF começou a julgar se a prisão será mantida.

Vorcaro e eleitor vão delimitar pacto entre Poderes, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

PT e PL convergem na necessidade de reformar o Judiciário e pressionam STF a sair da letargia

Num café com um ministro do Supremo Tribunal Federal, um general do Alto Comando enumerou os oficiais das Forças Armadas que estavam a cumprir pena por determinação da Corte. Em seguida, emendou: aqueles que os condenaram também estarão sujeitos às leis da República?

A conversa transcorreu em clima ameno. O general, legalista, continuará a sê-lo. A dúvida é se, no transcorrer do inquérito do Master, se poderá dizer o mesmo do togado. Se os traumas do golpismo, na percepção de um privilegiado interlocutor da farda, foram pedagógicos para as Forças Armadas por muitas gerações de Bolsonaros, ainda não se sabe se a toga pagará para ver as lições de um impeachment.

Caso Ramagem escala tensões com a Casa Branca e vira embate eleitoral, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

É uma estratégia de risco, que somente tem sentido se houver uma avaliação de que Trump apoiará seu adversário e isso pode ter um impacto eleitoral positivo para Lula

O caso Alexandre Ramagem caiu no colo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em pleno ano eleitoral como um episódio em que política interna, diplomacia e disputa de narrativas se entrelaçam. A prisão do ex-deputado e ex-diretor da Abin nos Estados Unidos, seguida da crise envolvendo o descredenciamento do delegado brasileiro Marcelo Ivo de Carvalho, transformou um caso judicial em contencioso diplomático com forte impacto político. Lula vem escalando as críticas ao presidente Donald Trump e parece anabolizar o episódio para criar um incidente diplomático capaz de ser um divisor de águas na disputa eleitoral com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

Eleições 2026: estratégias e narrativas em jogo, por Fabiano Garrido*

Correio Braziliense

Corremos o risco de ver vencer nas urnas em 2026 não quem tiver as melhores propostas, mas quem conseguir impor, com mais eficácia, sua própria versão da realidade

A disputa política nas redes sociais ao longo das últimas semanas revela, com nitidez, como esquerda e extrema-direita vêm organizando suas estratégias narrativas no contexto atual de pré-campanha. Mais do que a circulação de temas, o que está em jogo é a capacidade de enquadramento — isto é, de definir não apenas sobre o que se fala, mas como se interpreta a realidade e se distribuem responsabilidades.

Realidade e fantasia nas eleições de 2026, por Felipe Salto

O Estado de S. Paulo

As fantasiosas e criativas promessas que costumam aparecer nos períodos eleitorais devem – ao menos em parte, que seja – dar lugar ao necessário realismo

O editorial do Estadão de ontem (Campanha medíocre, 22/4, A3) denuncia a ausência de ideias e de projetos estruturantes neste início do embate eleitoral. Formalmente, ainda estamos na pré-campanha, mas o jogo já está armado. Falta aos principais candidatos um programa para chamar de seu. De preferência, esses projetos devem ser realistas e transparentes. Devem partir, na verdade, do diagnóstico que já está muito claro há tempos.

O principal objetivo do País é a elevação das taxas de crescimento econômico. Isso deve se materializar em ações claras, de preferência abrigadas em um plano orçamentário consistente. A principal barreira ao alcance desse objetivo são os juros reais elevados. Por sua vez, eles se explicam por fragilidades estruturais não superadas, em boa medida.

O centro da questão, por William Waack

O Estado de S. Paulo

Determinar o que é centralidade e o que é lateralidade faz toda diferença. Mas é ali que o Supremo Tribunal Federal (STF) se enredou. Disso depende a leitura da realidade e, portanto, como agir diante dos fatos.

Na visão de enorme parcela do público, o que hoje constitui a centralidade na crise de credibilidade (portanto, de legitimidade) do STF não passa de lateralidade na visão de pequeno grupo dentro da Corte. Estamos falando do comportamento individual de integrantes do Supremo.

Guerra fria no Supremo, por Carolina Brígido

O Estado de S. Paulo

Caminho de Fachin ficou mais difícil depois que Dino propôs uma reforma do Judiciário

Edson Fachin terá problemas para aprovar um código de ética do Supremo Tribunal Federal (STF). Ele insiste em colocar o plano em prática até o fim do ano, mas encontra barreiras até mesmo entre os aliados. Hoje, a Corte está dividida entre apoio parcial e nenhum apoio à proposta. Somente Cármen Lúcia subscreve integralmente as sugestões do presidente do Supremo.

O caminho de Fachin ficou mais difícil depois que Flávio Dino, que não concorda com a criação de um código de ética para o tribunal, propôs uma reforma do Judiciário. O texto de Dino faz referência a “certos discursos superficiais”, em uma estocada no presidente da Corte. Dino listou regras para melhorar o funcionamento do Judiciário e combater fraudes e corrupção. Fachin prioriza limites a condutas individuais dos colegas. A guerra fria está posta no tribunal.

O PT contra a autonomia do BC, por Celso Ming

O Estado de S. Paulo

O PT quer que o Banco Central (BC) opere em harmonia com o governo e, nisso, está sintonizado com o presidente Donald Trump, que faz o que pode para controlar o Fed, banco central dos Estados Unidos.

Mas esse é apenas um dos pleitos do Documento de programa para o 8.º Congresso que o PT deve aprovar neste fim de semana. Esse documento é um longo texto de 61 páginas, bem escrito, embora em linguagem acadêmica de mais difícil acesso aos trabalhadores, a quem se destina.

Dedica-se à crítica veemente ao neoliberalismo globalizado, hoje em crise sistêmica, e ao que chama de novas formas de exploração do trabalhador. Entre estas, estão mecanismos de controle baseados no endividamento e na disseminação de trabalho em plataformas, “na uberização e na subordinação algorítmica”, que isolam o trabalhador e dificultam a sindicalização.

Trabalhar menos e produzir mais? por Míriam Leitão

O Globo

Ministro do Trabalho nega uso eleitoral da proposta de fim da escala 6 x 1 e afirma que redução será compensada por aumento de produtividade

O ministro do Trabalho, Luiz Marinho, afirma que se for aprovado o fim da escala 6x1 não haverá compensação para empresários, nem mesmo os pequenos, e diz que empresas que já adotaram a escala tiveram aumento da produtividade e redução das faltas de trabalhadores. Ele revela que o pacote de ajuda às famílias endividadas deve sair na próxima semana e que uma das propostas é permitir o uso de até 20% do FGTS para quitação de dívidas de trabalhadores que ganham até cinco mínimos.

Serão liberados R$ 7 bilhões de recursos do FGTS para os trabalhadores que não puderam sacar quando foram demitidos. Além disso, o pacote em negociação, sob coordenação do ministro Dario Durigan, também prevê novas liberações do fundo. Os trabalhadores que ganham até cinco salários mínimos farão o saque de 20% do FGTS diretamente. Eles mesmos sacam o dinheiro e quitam as dívidas.

Malabarismos verbais, por Merval Pereira

O Globo

Zema se põe no centro da polêmica eleitoral porque se sente livre para criticar os que considera seus adversários, no papel de franco-atirador, sem “rabo preso”, como gosta de afirmar.

O ex-governador de Minas Romeu Zema dobrou a aposta e voltou a criticar o Supremo Tribunal Federal (STF) depois que o ministro Gilmar Mendes pediu a seu colega Alexandre de Moraes que o incluísse no inquérito das fake news devido a críticas por meio de uma sátira de fantoches. Com isso, Gilmar transforma em realidade a piada que corre pela internet com Moraes ameaçando:

— Vou te colocar no inquérito.

Zema se põe no centro da polêmica eleitoral porque se sente livre para criticar os que considera seus adversários, no papel de franco-atirador, sem “rabo preso”, como gosta de afirmar.

Faroeste institucional, por Malu Gaspar

O Globo

A polícia do Rio de Janeiro acaba de matar com uma saraivada de 20 e tantos tiros Daniel Patrício Santos de Oliveira, de 29 anos, dono de uma loja de produtos eletrônicos, que voltava com os amigos de um pagode. Ele não era procurado pela polícia, não era alvo de ordem de prisão, nem sequer foi abordado antes de ser fuzilado. Seu crime, ao que tudo indica, foi ter um carrão do tipo que os traficantes gostam. Até agora, não há explicação para o fuzilamento, que deixou órfã uma menina de 4 anos.

Dias antes, mais de 200 turistas ficaram presos no alto de uma trilha do Morro Dois Irmãos porque, logo abaixo, a polícia trocava tiros com os donos da área na tentativa de prender um traficante que fugira da Bahia e estava escondido ali na favela do Vidigal.

Prisão pelo ICE tem ponta solta, por Julia Duailibi

O Globo

Campanha de Lula deveria adotar cautela na tentativa de explorar politicamente a prisão de Ramagem

Há uma série de pontas soltas na versão oficial do governo sobre a prisão do ex-deputado Alexandre Ramagem nos Estados Unidos, e a campanha do presidente Lula, à caça de briga com Donald Trump para reeditar o momento de boa popularidade com o tarifaço, deveria adotar cautela na tentativa de explorar politicamente o episódio.

Ontem o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, em entrevista à GloboNews, reafirmou que a prisão de Ramagem se deu em razão de uma cooperação policial internacional entre Brasil e Estados Unidos no combate ao crime organizado. Rodrigues disse também que a abordagem a Ramagem ocorreu pela polícia local por causa de uma infração de trânsito convencional em Orlando. Uma vez verificado que Ramagem estava sem documentos regulares de imigração, o encaminharam ao ICE.

O risco de apostar no populismo moderado, por Maria Hermínia Tavares

Folha de S. Paulo

Derrota de Orbán anima a discussão sobre a profundidade das mudanças promovidas pela extrema direita

A marca dos populistas é o ataque às instituições da democracia liberal

O húngaro Viktor Orbán foi batido por uma coalizão que uniu direita e centro-esquerda em torno da candidatura de Péter Magyar, um dissidente do partido do primeiro-ministro que governou o país por longos 16 anos, a ponto de virar modelo da extrema direita mundial.

Inesperada para os analistas que já davam como favas contadas a inclusão do país no rol das autocracias eleitorais, a vitória de Magyar já anima a discussão sobre a natureza e a profundidade das mudanças políticas promovidas pelo populismo de extrema direita quando chega lá, bem como sobre a continuidade do sistema. Afinal, as mesmas regras eleitorais criadas por Orbán para se garantir no poder permitiram o triunfo arrasador da oposição democrática.

Flávio Bolsonaro não resiste a 24 horas de ajuste fiscal, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

No Congresso, o filho do ex-presidente nunca foi um defensor desse tipo de política durante a gestão do seu pai

Propostas para ajuste de contas são granada no pé de um candidato

O senador Flávio Bolsonaro (PL) não resistiu a 24 horas de ajuste fiscal nas redes sociais. Pré-candidato à Presidência da República, chamou de fake news reportagem da Folha de que fará um ajuste inicial da ordem de dois pontos percentuais do PIB, caso seja eleito.

Para isso, teria como planos reajustar aposentadorias e despesas com saúde e educação só pela inflação.

O senador esqueceu de combinar o jogo com a equipe a cargo do seu programa econômico. Em busca de apoio, seus assessores têm passado para a Faria Lima e setores empresariais a mensagem de que ele seria o ministro da tesourada das despesas.

Ainda vamos pagar a conta do combustível alto por causa da guerra, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Assunto ficou esquecido por contenção de reajustes de Petrobras, subsídios e pressão sobre empresas

Mesmo que crise continue a esfriar, o que é otimismo, aumento de custos vai durar por meses

O preço médio do diesel no Brasil parou de subir desde a semana encerrada em 28 de março até a semana finda em 11 de abril, dado público mais recente da estatística da Agência Nacional do Petróleo (ANP). O da gasolina ficou praticamente estável. Na média nacional, favor prestar atenção.

Ainda assim, o aumento do diesel por causa da guerra foi o maior desde que a ANP publica estatísticas semanais de preços. Ainda assim, vamos repetir, o tamanho da alta foi a metade daquela que se viu nos EUA. Pressões altistas permanecem. O risco de desabastecimento sumiu do noticiário (e da vida?), mas é problema em muito lugar do planeta, da Ásia à Europa, com problemas mais imediatos com o combustível para aviões.

Guerra de rede social de Trump turva negociação com o Irã, por Igor Gielow

Folha de S. Paulo

Apelidado de grupo de WhatsApp de um homem só, americano emprega tática que dificulta as conversas

Já Teerã ataca navios, apostando também de forma perigosa que os EUA irão piscar primeiro novamente

Após o avassalador ataque nazista à Polônia de 1939, a Segunda Guerra Mundial entrou em um período de estranha calma. Por oito meses, houve apenas batalhas esporádicas e muitas preparações, sem nenhuma paz à vista.

Em sua encarnação como um senhor da guerra virtual, que ataca e recua por meio de postagens, Donald Trump ensaia a versão 2026 do que foi apelidado pela imprensa britânica de 1940 de sitzkrieg, ou "guerra sentada" em alemão, em oposição à blitzkrieg ("guerra-relâmpago") da abertura do conflito.

O presidente americano optou por recuar mais uma vez no seu embate com o Irã, deixando agora em aberto o prazo para que Teerã apresente uma proposta de negociação. Enquanto isso, ambos os rivais mantêm suas posições no teatro de operações navais do estreito de Hormuz, sem ceder.

Guerra de Lego, por Paulo Siqueira

"O sentimento de pertencimento, é o que permeia a nossa troca de afeto, e nos faz querer estar com o outro; ainda que o outro, não seja nosso igual, basta ter sentimentos.” Rossane Correia

Na chamada terceira guerra do golfo, que se inicia com o bombardeio dos EUA e Israel ao Irã a partir do dia 28 de fevereiro de 2026, o Irã empreendeu a chamada guerra assimétrica, quando uma força, se reconhecendo muito inferior em termos militares e econômicos a outra força, utiliza recursos que contornem essa diferença pra conseguir o sucesso político/estratégico.

Poesia | Menino de engenho, de João Cabral de Melo Neto - Por Zé Luiz Rinaldi

 

Música | Diogo Nogueira, Chico Buarque - Homenagem ao Malandro

quarta-feira, 22 de abril de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Do bônus ao ônus demográfico

Por Folha de S. Paulo

Segundo estimativa do IBGE, população de dependentes cresceu 0,9% em 2025, ante 0,1% da faixa etária ativa

Tendência impõe reformar a Previdência Social, fortalecer o SUS e elevar a produtividade; debate, porém, está atrasado no Brasil

Realizado com atraso de dois anos devido à pandemia de Covid-19, o Censo 2022 mostrou que a população brasileira envelhece mais rapidamente do que se imaginava. Desde então, novas projeções reforçam essa percepção —ainda não devidamente captada, infelizmente, pelas políticas públicas.

Estimativas recém-divulgadas pelo IBGE apontam que o estrato de 60 anos de idade ou mais teve expansão de 58,7%, de 2012 até 2025, saltando de 22,2 milhões para 35,2 milhões. No mesmo período, o número de jovens abaixo de 30 anos encolheu 10,4%, de 98,2 milhões para 88 milhões.