segunda-feira, 4 de maio de 2026

Dez vezes sem juros: o custo invisível do empréstimo, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

O problema do endividamento excessivo é uma consequência do aumento da oferta de crédito no país

Muitos pais já ouviram dos filhos, quando diziam que aquele brinquedo, aquele tênis era muito caro:

— Mas aceita cartão.

No tempo em que se usava dinheiro vivo, ouvi de uma senhora rica que não gostava de cheque, nem de cartão. Dizia:

—A gente compra, compra e parece que não gastou nada.

Pois é, a gente sabe que não é assim, mas o cartão de crédito dá aquela sensação de que depois se arranja o dinheiro. Ou se joga a dívida mais para a frente.

Tem mais: a maravilhosa invenção do pagamento em dez vezes sem juros, no cartão. Ou mais. Outro dia, comprei um celular pagando em 24 vezes. Parece que tudo fica acessível. Sabemos que não é sem juros, nem de graça, mas com frequência a tentação fala mais alto.

As big techs e o ECA Digital, por Irapuã Santana

O Globo

Responsabilidade das empresas é técnica e sistêmica, enquanto a dos pais é ética, afetiva e pedagógica

Com o advento do ECA Digital, o ecossistema jurídico brasileiro vive uma mudança de paradigma, entrando num modelo de responsabilidade compartilhada em outro nível. No entanto surge um ponto crucial: a transferência do dever de cuidado às big techs não pode, nem deve, anular a centralidade do poder parental.

Historicamente, as plataformas de tecnologia se protegiam sob a égide de ser meras intermediárias de conteúdo. Com a chegada da nova lei, esse escudo é derrubado, e as big techs assumem o “dever de cuidado”. Isso significa que são juridicamente responsáveis por projetar ambientes que, por padrão, protejam a integridade física e psíquica dos menores.

O golpe do Senado, por Miguel de Almeida

O Globo

Os militares de 1964 tiveram ajuda dos americanos para dar um golpe de Estado, mas eram nacionalistas

Parece ser mais uma operação do Banco Master. O PL deverá lançar em São Paulo a candidatura do deputado André do Prado ao Senado. E, como suplente, se a lei permitir, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro. Eleito, Prado poderia ocupar uma secretaria de Estado ou um ministério, caso Flávio Bolsonaro vença as eleições. Com isso, Eduardo assumiria o mandato de senador.

Assim como as debêntures de Vorcaro até meses atrás tinham valor no mercado, a artimanha do PL e de Eduardo é permitida pela legislação eleitoral. Tem sido praticada para dar cobertura a personagens sem voto, muitos deles milionários ou aqueles com dívidas ainda não julgadas pela Justiça. O filho de Jair está nesse último bloco, atingido por inquéritos diversos. Depois de desejar chantagear o país pela absolvição de seu pai, vive nos Estados Unidos. Não volta ao Brasil por recear ser preso ao colocar o pé no aeroporto. É um bom candidato para representar São Paulo no Senado?

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Discursos farsescos de Lula e Flávio

Por Folha de S. Paulo

Petista posa de antissistema, e filho de Bolsonaro renega ajuste fiscal discutido com empresários

É provável que radicalismo e moderação venham a ser apresentados conforme as conveniências, sobretudo ao tratar das contas públicas

Com índices de aprovação frágeis, más notícias nas pesquisas de intenção de voto e uma derrota histórica em sua indicação para o Supremo Tribunal Federal (STF), Luiz Inácio Lula da Silva (PT) abraçou o populismo em seu pronunciamento por ocasião do Dia do Trabalho.

"Cada vez que damos um passo adiante para melhorar a vida do povo brasileiro, o sistema joga contra. O andar de cima, os bilionários, a elite que só pensa em manter privilégios às custas do povo. Se dependesse do sistema, nem a escravidão teria sido abolida no Brasil", discursou.

Parece cômica a retórica antissistema vinda de um político com o histórico de Lula —em seu terceiro mandato presidencial graças à anulação pelo Supremo Tribunal Federal, por questões formais, de suas condenações por relações promíscuas com grandes empreiteiras. Mas a escolha da palavra não é por acaso.

Duas semanas atrás, falando em um evento de esquerda na Espanha, o petista reclamou da perda da bandeira antiestablishment para a ultradireita. "Nós nos tornamos o sistema. Por isso, não surpreende que, agora, o outro lado se apresente como antissistema", disse, conforme reportou O Estado de S. Paulo.

É notável que, entre uma declaração e outra do líder, o PT tenha realizado um congresso em que mostrou o objetivo de evitar polêmicas e atrair setores do centro político. Afinal, se discursos radicais inflamam seguidores fiéis, a disputa presidencial pode ser decidida, mais uma vez, por eleitores avessos à polarização.

Cálculo semelhante é feito nas hostes de Flávio Bolsonaro (PL), hoje empatado com Lula nas simulações de segundo turno —e empenhado na missão inglória de parecer mais moderado que o pai condenado por tentativa de golpe de Estado.

Flávio embarca no golpismo paterno ao lançar dúvidas sobre a lisura do processo eleitoral brasileiro em um evento extremista nos Estados Unidos, mas por aqui procura parecer um candidato responsável ao discutir com empresários propostas para reformas fiscais vigorosas em 2027, como noticiou a Folha.

Nem isso, porém, ele se dispõe a defender abertamente, por temer que ideias como interromper o aumento acima da inflação do salário mínimo e dos gastos com saúde e educação lhe custem votos. Ao que parece, pretende prometer reequilíbrio orçamentário sem detalhar medidas difíceis, como na proverbial omelete sem quebra de ovos.

Não espantam os malabarismos retóricos numa corrida em que os líderes na preferência dos votantes são também campeões em rejeição. É provável que radicalismo e moderação venham a ser apresentados conforme as circunstâncias e conveniências, sobretudo ao tratar do imperativo ajuste das contas públicas.

Perdem os eleitores, aos quais serão oferecidos, em vez de opções programáticas, discursos farsescos —e, muito possivelmente, um governo tumultuado.

O cenário complexo diante dos bancos centrais

Por Folha de S. Paulo

Americano Fed e congêneres optam por manter juros inalterados devido aos riscos inflacionários da guerra

Nos EUA, a política fiscal expansionista de Trump aguça a demanda para além do ciclo de investimentos em inteligência artificial

A esta altura, é ocioso apontar que a guerra no Oriente Médio turvou o cenário econômico mundial que se anunciava positivo neste 2026. O aumento do custo de energia elevou os riscos de inflação e mudou a conduta dos principais bancos centrais, que até então planejavam cortar seus juros.

É o caso do americano Federal Reserve, que decidiu manter a taxa básica entre 3,5% e 3,75% ao ano na reunião da semana passada, com a justificativa da inflação elevada pelo choque de oferta, ainda num contexto de solidez da atividade econômica.

O diagnóstico é compartilhado por alguns de seus principais congêneres, que também optaram por não alterar o custo do dinheiro, casos do Banco Central Europeu, do Banco da Inglaterra, do Banco do Canadá e do Banco do Japão.

Diante das crescentes incertezas globais provocadas pela guerra no Irã, as autoridades monetárias priorizam neste momento a vigilância sobre a inflação.

Os mercados de energia ilustram bem os riscos. Na semana passada, os preços do petróleo Brent atingiram as máximas desde o início do conflito, superando US$ 126 por barril em determinados momentos.

As estimativas para o segundo semestre apontam cada vez mais para cotações acima de US$ 90, diante da possibilidade de disrupções prolongadas. O impacto se espalha pela cadeia de derivados, elevando os preços de insumos industriais em cascata.

Além da guerra, há fatores que sugerem baixo risco recessivo por ora e que podem amplificar as pressões inflacionárias.

Nos Estados Unidos, a política fiscal expansionista do governo Donald Trump, com pacote de cortes de impostos, aguça a demanda na economia para além do ciclo de investimentos em inteligência artificial. Na Europa, os gastos com rearmamento e infraestrutura fazem o mesmo.

Não surpreende, portanto, que o comitê do Fed tenha registrado incomum dissenso na decisão. Três membros se posicionaram contra a sinalização de afrouxamento da política monetária, defendendo uma visão dos riscos que inclua a possibilidade de elevação de juros caso a inflação não retorne à meta de 2%.

O cenário, de fato, é de complexidade excepcional. A interrupção do fornecimento de energia pode trazer escassez de insumos. Já a geopolítica e a corrida tecnológica apontam para um dinamismo econômico persistente, a despeito das incertezas. Não por acaso, os mercados globais de ações operam nas máximas históricas, mesmo em meio à guerra.

Messias, dosimetria e autopreservação, por Lara Mesquita*

Folha de S. Paulo

Episódios da semana revelam os custos de um governo minoritário diante de um Congresso ideologicamente distante

Caso Master agrava o quadro ao aumentar os incentivos para acordos defensivos

rejeição, pelo Senado, da indicação de Jorge Messias para o Supremo e a derrubada, pelo Congresso, do veto presidencial ao PL da Dosimetria, lei que afrouxa punições e beneficia diretamente os condenados pelo 8 de Janeiro, não são episódios isolados. Expressam os limites de um governo de esquerda minoritário diante de um Congresso com maioria de centro-direita e direita.

E revelam mais: em momentos de crise e autoproteção institucional, a distância ideológica entre presidente e maioria legislativa torna-se ainda mais custosa. O caso Banco Master, com suas conexões políticas e judiciais, agrava esse quadro ao aumentar os incentivos para acordos defensivos entre atores que têm pouco interesse em fortalecer o Executivo.

Lula, o affair Messias e o presidencialismo de coalizão, por Marcus André Melo*

Folha de S. Paulo

A participação ativa de ministros no episódio inaugura uma lógica de facções judiciais

A governabilidade brasileira já não se organiza apenas pela distribuição de ministérios e orçamento, mas também pela disputa sobre o STF

A rejeição da indicação de Messias ao Supremo não pode ser lida apenas como derrota do Executivo, nem apenas como reação do Centrão à escolha unilateral de Lula. Seu aspecto mais relevante é a evidência de uma articulação envolvendo lideranças do Senado e setores do próprio Supremo. O que veio à tona foi uma dinâmica inédita: a Corte não aparece apenas como instância de controle externo sobre Executivo e Legislativo, mas como ator que interfere no processo político de sua própria composição.

Opinião do dia – Alexis de Toqueville*

“Cada um propunha seu plano: este apresentava-o nos jornais, aquele nos cartazes que logo cobriram os muros, o outro, pela palavra, aos quatro ventos. Um pretendia eliminar a desigualdade das fortunas, outro a das luzes, um terceiro aspirava a nivelar a mais antigas das desigualdades, a existente entre o homem e a mulher; receitavam-se medicamentos específicos contra a pobreza e contra o mal do trabalho, que atormenta a humanidade desde que ela existe.”

*Alexis de Toqueville (1805-1859), “Lembranças de 1848”, p. 117, Companhia das Letras, 2011.

Poesia | Não tenho pressa. Pressa de quê? - de Fernando Pesso

 

Música | Gal Costa & Zeca Baleiro - Vapor Barato ( Zeca Baleiro)

 

domingo, 3 de maio de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Lei que redistribui royalties do petróleo é inconstitucional

Por O Globo

Ao julgar caso, Supremo tem de manter liminar que suspendeu legislação aprovada em 2012

O Supremo Tribunal Federal (STF) planeja julgar nesta semana a liminar da ministra Cármen Lúcia que suspendeu, em 2013, a Lei 12.734/2012, sobre a distribuição de royalties e participações especiais auferidos com a exploração de petróleo e gás natural. Trata-se de lei flagrantemente inconstitucional. Não tem cabimento estados que não produzem petróleo quererem confiscar parte dos royalties pagos aos produtores. O parágrafo primeiro do artigo 20 da Constituição é cristalino ao dizer que royalties são uma compensação financeira aos entes federativos pela exploração “no respectivo território, plataforma continental, mar territorial ou zona costeira exclusiva”. É inconcebível que a população dessas regiões arque com os riscos e danos intrínsecos à atividade sem ser devidamente compensada.

Derrotas de Lula e o fantasma da República Velha, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

A rejeição da indicação de um indicado de Lula ao Supremo não ocorria desde Floriano. A ideia de foi fruto de escolha errada e falta de capacidade de articulação não explica tudo

A crise do florianismo, que pôs fim à chamada República da Espada, e a consolidação da República Oligárquica ajudam a iluminar, por contraste histórico, o momento atual da política brasileira. A dificuldade do marechal Floriano Peixoto em exercer plenamente sua autoridade sobre o sistema político — inclusive no que diz respeito à nomeação de ministros do Supremo Tribunal Federal —, não foi um acidente institucional, mas o sintoma de uma correlação de forças em mutação, na qual as oligarquias agrárias emergiam como poder decisivo em relação aos militares e outros setores da sociedade.

Vale tudo para abafar o escândalo Master-BRB, por Ana Dubeux

Correio Braziliense

A cinco meses das eleições, sabemos quem são, como agiram, como votaram e quem tem muito a temer com as revelações do caso Master

As mais recentes votações no Congresso, que culminaram com a não aprovação de Jorge Messias para ocupar a vaga aberta de ministro do Supremo Tribunal Federal e a derrubada do veto presidencial ao projeto que abranda as penas a golpistas e a outros criminosos, têm sido vistas como uma derrota fragorosa de Lula. E é. Mas não é apenas isso. É a pincelada final de um quadro fiel da política brasileira. A obra está pronta e exposta. A nós, cabe interpretá-la.

A rendição do Senado, por Míriam Leitão

O Globo

A imagem é eloquente. Olhos fechados, o senador Davi Alcolumbre, sentado na cadeira da presidência do Congresso, deita o rosto no peito do senador Flávio Bolsonaro e por ele é abraçado carinhosamente. A imagem foi escolha unânime para ilustrar os jornais de sexta e é uma dessas maravilhas de síntese que o fotojornalismo produz. Ela explica a semana. Nos dias que se seguiram ao 8 de janeiro de 2023 as fotos mostraram que aquele mesmo Congresso fora alvo da violência política dos que queriam o golpe. Contra quem? Contra todos os eleitos. Um manifestante pichou no vidro quebrado do Salão Negro do Congresso: “Destituição dos Poderes”. Foi isso que o pai do senador que afagava Davi Alcolumbre estimulou no país.

A despedida do jacobino, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Veterano do PSOL anuncia que não disputará nono mandato de deputado federal: "A idade pesa, e a política precisa de renovação"

No dia 19 de março, Ivan Valente subiu à tribuna da Câmara para pedir a cassação de deputados do PL que desviaram dinheiro de emendas. Conhecido pelo tom combativo, aproveitou para provocar os “capachos da elite”, criticar as guerras de Donald Trump e descer a lenha em Flávio Bolsonaro e Nikolas Ferreira.

O deputado do PSOL não mencionou, mas era seu último discurso após oito mandatos em Brasília. Suplente da federação com a Rede, ele teria que devolver a cadeira à titular Marina Silva. Sem alarde, despediu-se dos aliados e avisou que não seria mais candidato. Estava encerrando a carreira parlamentar.

Pisando com cuidado, por Dorrit Harazim

O Globo

Humilhante situação para um país hospedeiro de Copa do Mundo ser alvo de tantas reticências

Cidadãos americanos residentes no exterior ou temporariamente longe de casa habituaram-se a receber informes atualizados sobre as condições de segurança em terras estrangeiras. Os avisos postados por suas embaixadas e consulados contêm avaliações do Departamento de Estado sobre possíveis riscos à segurança de seus expatriados. Não raro um informe alerta sobre alguma situação de violência no Rio de Janeiro. Mas, em geral, o fluxo constante desses informes foca mais em países sem lei ou conturbados, de regimes fechados ou considerados inimigos.

É o Congresso que precisa agir, por Jessika Moreira

O Globo

Cabe ao Legislativo definir critérios rigorosos para o que constitui uma verba indenizatória

Mais de um mês após a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre supersalários, é imprescindível que o debate se debruce sobre suas consequências para o modelo institucional que começa a se consolidar. O julgamento de 25 de março foi importante: vedou a criação de benefícios por atos administrativos, reforçou a necessidade de transparência remuneratória e reconheceu que a “penduricalhização” do serviço público chegou a um ponto inaceitável. Era hora de dar um basta.

Os saltos altos quebram, por Elio Gaspari

O Globo

A indicação de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal (STF) foi o ponto alto da onipotência petista durante o Lula 3.0. Sua rejeição marcou o momento em que o salto alto do comissariado quebrou-se. No dia seguinte, com a derrubada do veto da dosimetria, quebrou-se o salto do Supremo Tribunal.

Quebrar o salto é uma coisa, andar sem ele é quase impossível. A melhor solução é descalçar o outro pé.

Se Lula tivesse indicado Rodrigo Pacheco nada disso teria acontecido. Ele teria sido aprovado, Lula e Davi Alcolumbre estariam felizes e ninguém estaria triste. Tudo bem, mas se Matisse tivesse embarcado para o Brasil em 1940, os museus teriam as Mulatas do Matisse.

Messias foi produto do consenso do Palácio, coisa perigosa, porque quase sempre esse apreço nada tem a ver com a vida lá fora. Em outubro do ano passado, logo depois da aposentadoria do ministro Luís Roberto Barroso, Messias já estava em campanha. Seria o jogo jogado se Lula não tivesse adicionado desaforos desnecessários.

O Centrão já tem candidato, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Flávio Bolsonaro foi articulador e grande beneficiário das duas derrotas do presidente Lula

Os efeitos concretos da derrubada do veto do presidente Lula ao PL da dosimetria, como a liberdade dos vândalos de 8/1, ainda vão demorar um bocado, mas o resultado imediato é cristalino: o Congresso entrou na guerra eleitoral a favor do senador Flávio Bolsonaro, contra o presidente Lula. Leia-se: o Centrão, com uma exceção ou outra, já tem candidato.

Enquanto Lula enfrentava uma tempestade de problemas internos e os respingos da guerra do Irã, o rival se consolidava. Flávio viajou, articulou as derrotas de Lula, montou palanques estaduais e avançou nas pesquisas, driblando as encrencas entre familiares e aliados sem estardalhaço.

Trump perde um fator de pressão, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

O emprego de forças terrestres para desobstruir Ormuz seria politicamente destrutivo a Trump

A guerra contra o Irã colocou os EUA em contato com as limitações da superioridade militar. A nova realidade da guerra naval, com o emprego de drones marítimos, o fator geoeconômico e o controle exercido pela democracia desempenham papéis decisivos no curso dessa disputa.

Uma lei de 1973 obriga os presidentes americanos a consultar o Congresso sobre a continuidade de uma guerra no máximo 60 dias depois de seu início.

Esse prazo expirou na sextafeira. Como não pediu aprovação do Congresso, Donald Trump foi obrigado a declarar que a guerra no Irã “está terminada”.

Agregar valor é hoje outra coisa, por Celso Ming

O Estado de S. Paulo

O setor de serviços cresceu, e o conceito de agregar valor ao produto nacional precisa mudar

Uma das obsessões das esquerdas brasileiras é a de que o projeto de desenvolvimento do Brasil tem de focar a agregação de valor ao produto primário nacional: é preciso transformar minérios, petróleo e produtos agrícolas e não exportá-los em estado bruto. O princípio tem seu lado correto, mas os tempos mudaram e, com eles, mudaram a geopolítica e o conceito de valor a agregar.

Até recentemente, a ideia de agregação de valor quase sempre se resumia a avançar na industrialização.

Glória me levou até Ana, por Ignácio de Loyola Brandão*

O Estado de S. Paulo.

Ana Castro: esta autora é para valer. Vai fundo, sabe o que é a vida, ironiza, arrasa

Fui à Flipoços na semana passada. Ela está hoje entre as feiras de livros que deram certo. Consolidou-se. Fiz uma mesa das mais descontraídas sobre crônica, ao lado de um expert no assunto, Humberto Werneck. O bom humor dominou, foi um divertido duelo de boutades (epa!), todo mundo descontraído. Histórias e mais histórias sobre como escrevemos uma crônica. Tive saudades do artista vidreiro Mario Seguso, vindo de Murano, sempre na primeira fila. Morreu aos 92 anos. A surpresa aconteceu quando percorri as barracas com vendas de livros. Na que tem autores locais disseram: “Leve a Ana Castro”. Apanhei o livro Contos de uma Mulher Qualquer. Curto, 38 páginas, fino, sóbrio. A mulher pode ser “qualquer”, as histórias não. Senti que estava diante de algo que chegou diferente. Forte. Daqueles primeiros livros que dizem: esta autora é para valer, vai fundo, sabe o que é a vida, ironiza, arrasa. Então, na primeira orelha do livro, dei com Glória Kalil me dizendo: “Não conheço nenhuma mulher, de nenhuma classe social, de nenhuma idade que não se reconheça em Ana Castro”. Estava dado o aval. Há anos, na verdade décadas, acompanho Glória. Trabalhamos juntos na Claudia, no esplendor da revista. Ali aprendemos a ser sintéticos. Fechávamos uma seção de páginas com notícias curtas, curtíssimas. O designer nos dizia, para cada assunto – Título: 9 letras (ou seja caracteres). Texto: 3 linhas com 23 letras cada uma. Ou Título: 21 letras. Texto: 9 linhas com 17 caracteres. Sofríamos, mas aprendemos a regra fundamental de Graciliano Ramos: sintetizar ao máximo. Dizer sem enfeitar. Normas que ambos aproveitamos em nossos livros. Glória foi uma influencer de nomeada em seu assunto, a moda.

O que o Desenrola 1 fez por Lula 3 e o que o Desenrola 2 pode fazer por Lula 4, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Primeiro plano de redução de dívida ajudou 15 milhões, mas não mudou situação geral

Avaliação do presidente não melhorou com as renegociações e baixa de inadimplência

O governo anuncia na segunda-feira (4) o Desenrola 2 ("Novo Desenrola Brasil"), programa de incentivo à renegociação e à redução de dívidas com apoio do Tesouro.

Seja lá o que se pense desse tipo de providência, a curto prazo o aperto financeiro de alguns vai diminuir, claro. Assim Lula 3 pretende ganhar décimos de porcentagem de aprovação e votos, de modo a evitar a derrota de Lula 4.

Essa introdução óbvia serve para relembrar que efeito teve o Desenrola 1 em medidas de inadimplência e percepção de dificuldades com dívidas: pouco. Além do mais, não tem dado muito resultado a solução do governo Lula para quase tudo, que é tentar afogar problemas com dinheiro na veia.

Xandão e Bolsonaro derrotaram Messias, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

No conflito entre bolsonaristas e o STF, o Banco Master é a terceira via que superou a polarização

Lula, que não tem a perder com as investigações, indicou ministro antipizza e foi derrotado

O veto a Jorge Messias foi resultado de uma articulação política entre Alexandre de MoraesFlávio Bolsonaro e Davi Alcolumbre. Os três e suas turmas temiam que Messias apoiasse André Mendonça nas investigações do Banco Master. Mendonça apoiava Messias.

Só parece confuso se você ainda não entendeu o PowerPoint das conexões políticas do Banco Master. O resumo está na coluna de 28 de março. É um monte de gente de direita, o pessoal do STF e do TCU enrolado com Vorcaro, e um grupo bem menor de esquerda.

Governo agoniza, mas não morre, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Lula dança na corda bamba, mas ainda tem tempo para despertar da ilusão de que seja o fortão de outrora

O problema do presidente talvez não seja perder a eleição, mas ganhar sem força para governar mais quatro anos

A derrubada de uma indicação do presidente da República ao Supremo Tribunal Federal é ato que reforça e anima a oposição. Mas daí a dizer que isso sela destino de infortúnio para Luiz Inácio da Silva (PT) na eleição, há uma distância de efeitos a serem medidos pelas circunstâncias.

A batida metáfora das nuvens na política poucas vezes foi tão verdadeira como na quadra atual. Lula tem histórico de subidas e descidas, numa oscilação da qual tem mostrado capacidade de se safar com êxito.

Um lapso canhestro de linguagem, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Na imagem de mundo, síntese mais ampla do que o juízo verbal, incorporam-se representações e experiências, sujeitas a juízos de valor

A forma escravista é estruturante de modelagens conscientes ou subconscientes, visíveis ou invisíveis

Embora com alguma lógica, foram açodados os ataques dirigidos à apresentadora televisiva que descreveu a diversidade da tripulação da missão Artemis 2 como "um homem, uma mulher e um negro". A frase é racista, claro, mas não aval automático desse mesmo julgamento a quem a enunciou. A ressalva pode soar como eufemismo acadêmico, mas o esclarecimento é oportuno quando se aborda o racismo no país sem a comodidade da pedra na mão. Açodamento é atitude apressada, irrefletida, que polariza sem dialogar.

Pi, uma autobiografia infinita, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Livro conta a fascinante história da constante ligada a círculos

Autores elucidam alguns dos mistérios associados a esse número

Confesso que comecei "Pi: uma autobiografia infinita", de Mahsa Allahbakhshi, Andrés Navas e Verena Rodríguez, com um pé atrás. É que a premissa do livro, Pi narrando em primeira pessoa a sua história, me pareceu um pouco pueril. Mas o leitor logo se habitua a essa estrutura e passa a deliciar-se com a torrente de informações matemáticas e históricas que se segue. Pi fascina humanos desde que eles juntaram seu gosto por formas circulares com a capacidade de contar.

Gigante come gigante, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

A Warner lançou Humphrey Bogart, Doris Daym, James Dean. Agora eles pertencem à Paramount

A um custo de US$ 111 bilhões, a Paramount ditará o que bilhões terão de pagar para assistir

Depois de meses de negociações, uma das marcas gigantes do show business aceitou ser engolida por outra —de histórico nem de longe comparável, mas mais hábil em controlar receitas e despesas. Ao se fundir com a Paramount, a Warner entregou sua dívida de US$ 30 bilhões, suas propriedades (CNN, TNT, HBO Max, Discovery Chanel) e tudo que a Warner Bros., fundada em 1920, representou para o cinema. A Paramount, um estúdio médio no apogeu de Hollywood se comparado à MGM e à própria Warner, já detinha forças consideráveis: a CBS, a MTV, a editora Simon & Schuster. Agora, a um custo total de US$ 111 bilhões, ditará o que bilhões de telespectadores terão de pagar para assistir.

Poesia | Soneto do amor total - Vinicius de Moraes

 

Música | Chico Buarque e João Bosco - Sinhá

 

sábado, 2 de maio de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Inflação e juros enrolam Lula

Por Folha de S. Paulo

Petista chega ao fim do mandato com guerra pressionando preços e Selic elevada pela gastança do governo

Desenrola 2 pode gerar algum efeito prático e imediato para devedores de baixa renda; seu alcance, porém, tende a ser limitado e pontual

Como esperado, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aproveitou seu pronunciamento por ocasião do Dia do Trabalho para anunciar o Desenrola 2, segunda versão de seu programa para refinanciar dívidas de famílias. Um dia antes, também como esperado, o Banco Central deu notícias incômodas sobre a inflação e a taxa de juros.

Por mais bem-vinda que seja a redução da Selic de 14,75% para 14,5% ao ano, evidencia-se o patamar ainda extraordinariamente elevado da taxa, em grande medida causado pela gestão perdulária das contas públicas. As perspectivas de alívio monetário, ademais, tornaram-se mais incertas.

Uma vez golpista... por Flávia Oliveira

O Globo

O bolsonarismo, em conluio com o Centrão, viabilizou um próximo golpe

Sem surpresa. Com duas palavras, o historiador Carlos Fico resumiu a mobilização robusta do bolsonarismo e aliados para demolir, mais que o veto integral de Lula à Lei da Dosimetria, o arcabouço legal de proteção ao Estado Democrático de Direito, aprovado pelo mesmo Congresso Nacional e sancionado em 2021 por Jair Bolsonaro, o ex-presidente condenado e preso por tentativa de golpe e outros crimes. Quem venceu anteontem — de novo — foi a tradição brasileira de tratorar a democracia.

— De acordo com a tradição republicana, o Congresso Nacional se posiciona beneficiando responsáveis por tentativa de golpe de Estado. Sempre foi assim, desde 1905 — escreveu Fico numa rede social.

Ele é professor titular da UFRJ, especialista em História do Brasil República, autor de “História do Brasil contemporâneo” (2015) e “Utopia autoritária brasileira” (2025), entre outras obras.

Numa tabela que tornou pública, enumerou 15 golpes (tentados ou consumados) e pronunciamentos militares. Na meia dúzia que fracassou (1902, 1922, 1924, 1956, 1959 e 1961), houve anistia. A sétima, o Legislativo pavimentou ontem, ao restabelecer a vigência do PL 2162/2023, que reduz tempo de prisão e facilita a progressão de regime dos condenados pela trama golpista de 2022-2023, incluindo Bolsonaro, três generais e um almirante. O Legislativo ressuscitou um projeto que fere os princípios constitucionais da impessoalidade, da proporcionalidade e da isonomia. E que foi sancionado mesmo sem passar pela Câmara após alterações do Senado.

A política minúscula de Brasília, por Thaís Oyama

O Globo

Derrota de um candidato ao cargo na mais alta Corte do país teve origem na suscetibilidade de um único indivíduo

Foram muitas e graves as consequências da memorável rejeição do advogado-geral da União, Jorge Messias, para o STF — a maior e mais eloquente, o risco de o presidente Lula se tornar um pato manco. A derrota, inédita na ocorrência e na magnitude, escancarou a fragilidade do governo diante do Congresso, feriu em grau hemorrágico a autoridade do presidente e, a cinco meses da eleição, dificultou a aprovação de projetos cruciais para a recuperação de sua popularidade, como o da escala 6x1. Na mesma proporção do revés do governo, deu-se o ganho da oposição: Flávio Bolsonaro — que, com seu coordenador de campanha, senador Rogério Marinho (PL-RN), foi responsável por arregimentar ao menos 28 dos 42 votos contrários a Messias — transformou o episódio em vitória da sua candidatura à Presidência e numa “resposta” do Senado aos “excessos do Supremo”, bandeira de que o concorrente Romeu Zema, do Novo, ameaçava se apropriar.

Jesus é de esquerda? Por Eduardo Affonso

O Globo

Entre os 12 apóstolos, nenhuma mulher, trans ou afrodescendente, logo ele não era assim tão inclusivo

Uma polêmica recente mostrou que há dois tipos de homem: os tóxicos (violentos, abusadores, misóginos) e os mais tóxicos ainda (que se reúnem para discutir masculinidade, paternidade, família, virtudes cristãs). Um dos argumentos contra esse segundo tipo é que ele não pode usar o cristianismo em sua cruzada conservadora, já que Jesus era de esquerda.

Muito adiante do seu tempo, o filho de Deus não teria mesmo dificuldade para se encaixar em conceitos ideológicos nascidos quase 1.800 anos depois de sua morte. Mas há controvérsias. Jesus multiplicou pães e peixes, transformou água em vinho — logo, era um empreendedor. Entre os 12 apóstolos, nenhuma mulher, trans ou afrodescendente — logo, não era assim tão inclusivo. Curou leprosos, cegos e paralíticos, sem perceber que o correto seria chamá-los de portadores de hanseníase, de deficiência visual ou locomotora — afinal, palavras matam. Jesus pode até ter feito o L na Santa Ceia e estar à esquerda do Pai — mas Deus é, com certeza, de direita.

Política, voto e negritude no Brasil: vamos falar de necropolítica? Por Irapoan Nogueira Filho

Correio Braziliense

A política tradicional, com seus cargos, orçamentos bilionários e o poder de legislar, é exatamente o palco onde a engrenagem da necropolítica pode ser desmontada ou, ao contrário, reforçada e atualizada

O ano de 2026 já se anuncia no horizonte político brasileiro trazendo a intensa movimentação das eleições nacionais e estaduais. Mais uma vez, seremos convocados às urnas para escolher quem nos representará nos próximos anos. Para além dos discursos, promessas e embates partidários que costumam dominar o noticiário, a população afro-brasileira — que representa 55,5% dos brasileiros, segundo o IBGE — se depara com uma questão fundamental que transcende a política partidária: a luta cotidiana contra uma necropolítica que, historicamente, estrutura as relações de poder no país.

O novo mundo novo, por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

Lula e seus auxiliares ainda não entenderam o novo mundo novo. O distanciamento da realidade resulta nas derrotas no Congresso e na alta rejeição, em especial, entre os jovens

Os teóricos do Partido dos Trabalhadores têm dificuldades em enxergar as causas de o presidente Lula enfrentar alto nível de rejeição no eleitorado brasileiro. É o que indicam pesquisas de opinião que bombardeiam o eleitor a cada semana. Elas demonstram que o candidato do PT, veterano de sete eleições (venceu três e numa delas emplacou o poste chamado Dilma Rousseff), tem sofrido o natural desgaste dos materiais. O discurso é o mesmo, o populismo radical não se renova, nem percebe a velocidade de mudança para o mundo cibernético e informatizado. Importante alerta veio da derrota no Senado na histórica rejeição de Jorge Messias para integrar o Supremo Tribunal Federal (STF).

Bancada do impeachment, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

A maioria das reações de perplexidade – ante a rejeição a Jorge Messias – derivou da quebra de expectativa sobre o que deveria ser processo de aprovação automático, como se o poder de indicar fosse absoluto, como se o exercício da democracia estivesse contido exclusivamente na plenitude daquele teatro de beija-mãos a que a história de nossa República nos rebaixou-habituou. Trata-se de disfunção – sobre a essência do processo republicano – considerar perigoso que o Senado exerça uma prerrogativa; deturpação que turva a capacidade de análise sobre o que terá se passado.

Preço do petróleo vira aposta geopolítica, por Fabio Gallo

O Estado de S. Paulo

O preço agora depende de variáveis que mudam em velocidades e direções diferentes

Muito se tem comentado sobre as incertezas geradas pelas guerras, com a consequente crise energética – sem falar da pretensa irracionalidade de Trump com suas posições geopolíticas. Em diversos momentos chegamos a pensar que o grau de instabilidade já havia atingido o seu ápice. Nada disso. A turbulência só tem aumentado.