terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Descontrole de gastos aflige programas sociais

Por O Globo

Despesa subiu 500% desde 2004, sem que haja avaliação de eficácia para evitar desperdício

É inegável a importância dos programas de Estado no combate à vulnerabilidade social, mas as boas intenções das gestões petistas têm sido acompanhadas de descontrole, traduzido na explosão de gastos que deteriora o equilíbrio das contas públicas, reduz o espaço orçamentário para outras demandas e prejudica as próprias populações que se pretende beneficiar. É sinal eloquente desse descontrole a constatação de que a despesa com programas e benefícios sociais subiu 500% desde 2004, já descontada a inflação, de acordo com cálculo da Instituição Fiscal Independente do Senado realizado a pedido do GLOBO. O mais grave é não existir monitoramento sobre a eficácia das políticas sustentadas por tais gastos.

Entrada de Flávio Bolsonaro não muda o jogo, por Christopher Garman

Valor Econômico

Com Flávio ou Tarcísio na oposição, ainda é difícil apostar contra a reeleição do presidente

Há cerca de três meses, era consenso entre políticos e comentaristas que o nome escolhido pelo ex-presidente Jair Bolsonaro para disputar a Presidência como candidato da direita seria a variável-chave para prever o resultado das eleições de outubro. Se Bolsonaro escolhesse o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, a oposição caminharia para uma vitória em 2026; caso optasse por alguém de sua família, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva seria reeleito de forma razoavelmente tranquila.

O raciocínio se baseava na percepção sobre a competitividade dos candidatos. Tarcísio tem baixa rejeição e um perfil mais moderado e de bom administrador; já os Bolsonaro carregavam os altos índices de rejeição do pai e, supostamente, seriam bem menos competitivos.

Os projetos contra a venda de mais terrenos na lua, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

O cerco sobre os sócios do Master na política impedirá que resistam aos projetos que evitam a alavancagem excessiva do sistema financeiro

Depois de anos de omissão, que abriram as portas para o Master produzir o maior escândalo financeiro da história do país, o Senado e a Câmara, em menos de 24 horas, apresentaram duas alternativas para evitar novos rombos.

A quaresma regulatória do Congresso começou no fim da tarde da quinta-feira, quando o senador Renan Calheiros (MDB-AL), enviou, de Maceió, um novo projeto, o PLP 30, para evitar que evitar que o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) seja usado como isca para a venda de papéis em operações excessivamente alavancadas. Quando o FGC começou a pagar os clientes do Master lesados, em janeiro, ainda havia corretoras vendendo terrenos na lua.

Causas não convencionais para os juros altos, por Pedro Cafardo

Valor Econômico

Valor pago aos rentistas representa 8% do PIB no Brasil e 2% nos países da OCDE

A grande mídia publica frequentemente artigos e reportagens que justificam as elevadas taxas de juros básicos do Brasil, atualmente em 15% ao ano. Antes do Carnaval, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, disse que precisam ser “melhor debatidas com a sociedade” as razões pelas quais o país tem de sustentar juros tão elevados, muito maiores do que os de seus pares.

Críticas à atuação do BC são menos frequentes. É oportuno, portanto, resumir uma didática opinião não convencional de um dos maiores economistas brasileiros - o nome dele está no pé da coluna, tente adivinhar quem é apenas lendo as ideias.

Questionamento da OAB mostra o esgotamento do inquérito das fake News, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Com o passar do tempo, o procedimento passou a incorporar fatos distintos, conexões sucessivas e objetos cada vez mais amplos

O ofício encaminhado pela Ordem dos Advogados do Brasil ao presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Édson Fachin, marca um ponto de esgotamento do Inquérito 4.781, conhecido como Inquérito das Fake News, como instrumento efetivo de defesa da democracia. Sempre houve contestação à forma como foi instalado de ofício pelo então presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli, bem como à designação do seu relator, o ministro Alexandre de Moraes, sem obedecer aos critérios regimentais de distribuição. Entretanto, o inquérito acabou legitimado pela tentativa de golpe de 8 de janeiro, cuja preparação foi iniciada no dia 7 de setembro de 2021, e serviu de instrumento efetivo para a condenação dos golpistas, entre os quais o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Quando os bichos falavam, por Merval Pereira

O Globo

São 11 integrantes que, em tese, podem errar por último. Não há mais ninguém, ou nenhuma outra instituição, acima deles

A democracia é o pior dos regimes com exceção de todos os demais, já reconhecia o grande estadista e primeiro-ministro inglês Winston Churchill, especialista em ler a alma humana. Se não fosse assim, como seria possível que a mesma instituição reconhecida como fundamental pela defesa da democracia brasileira seja vista, pouco depois, como responsável por seu desfiguramento?

BRB e a luta contra o tempo, por Míriam Leitão

O Globo

A solução proposta pelo GDF para capitalizar o BRB tem vários obstáculos, um deles é que o governo não tem capacidade de endividamento

A proposta apresentada pelo governo do Distrito Federal pode não ser realizada em tempo hábil o suficiente, e a ideia de o acionista controlador tomar um empréstimo para capitalizar o banco esbarra no fato de que o governo do DF não tem capacidade de endividamento. O governo enviou uma lista de 12 imóveis à Câmara Legislativa para servirem como garantia a um pedido de empréstimo ao Fundo Garantidor de Créditos. O FGC dificilmente aceitará dar um empréstimo no valor total do aporte que passará de R$ 5 bilhões. A solução não foi apresentada formalmente ao Banco Central.

A histórica luta de Vini Jr. por Fernando Gabeira

O Globo

Creio que, apesar de sua simplicidade, esse garoto de São Gonçalo figurará nos livros de História

Por onde você olha, vê notícias de Jeffrey Epstein e do Banco Master. Não estou reclamando, pois sou um dos primeiros a pedir transparência para que todos os detalhes sejam conhecidos, inclusive as festas orgíacas em Trancoso, se houver autoridades no meio.

Não custa nada tomar uma pequena distância e constatar também que estamos muito dependentes de grandes escândalos, novas e grandes emoções. Sempre me interessei por esse tema, também no trabalho de roteiristas de streaming, buscando suspense, choques, incríveis reviravoltas.

O homem de US$ 1 bilhão, por Pedro Doria

O Globo

A Microsoft chamou o desenvolvedor austríaco Peter Steinberger para conversar, a Meta mandou um envelope com proposta

Um bilhão de dólares por uma contratação. Isso é novo. Semana passada foi a primeira vez em que a imprensa de economia que olha para o mundo digital falou de compra de passe como se fosse jornalismo esportivo. E teve disputa. A Microsoft chamou o desenvolvedor austríaco Peter Steinberger para conversar, a Meta mandou um envelope com proposta. Ao fim, ele topou o convite da OpenAI. E o valor do contrato foi este: US$ 1 bilhão. A OpenAI pode parecer rica, mas, no jogo das três líderes do mercado de inteligência artificial, que inclui também Anthropic e Google, é a que está com o caixa mais pressionado. Não é dinheiro gasto com facilidade. Ainda assim, pagou. Por quê?

O fator Trump em outubro, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Flávio tem potencial para trazer Trump de volta para a política e a eleição no Brasil?

A expectativa de Flávio Bolsonaro corresponde, na mesma proporção, ao temor do presidente Lula e do Planalto: o de que o imprevisível Donald Trump dê mais uma de suas guinadas e volte a se meter não apenas em assuntos políticos, jurídicos e econômicos no Brasil, mas também, e diretamente, nas eleições presidenciais.

Trump comandou a primeira reunião do Conselho de Paz de Gaza, idealizado por ele, montado por ele e presidido por ele ao seu bel-prazer, cercado de líderes mais do que conservadores e batendo no peito para enaltecer seu próprio papel na vitória desses convidados.

Barbas de molho, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

André Mendonça será agente contrário à investigação sobre Dias Toffoli? Essa é a questão. Porque pesa sobre o STF – pressiona o STF – o relatório da Polícia Federal que reúne indícios de crimes cometidos pelo ministro-hoteleiro. Pesa sobre a indolência de Fachin. Pesa sobre a omissão do PGR Xandão Gonet.

Mendonça formará com eles? A propaganda corrente-influente nos dá conta de que chegou chegando à relatoria do caso Master. Cheio de providências etc. Há mesmo boas gestões; aquelas que levam a investigação aos trilhos de alguma legitimidade, restituída à PF a prerrogativa de apurar-periciar.

Politização das Forças Armadas (nos EUA), por Rubens Barbosa

O Estado de S. Paulo

A reação das FFAA contra a tentativa de politização por parte de Trump mostra a solidez das instituições e o profissionalismo militar

Uma das questões mais controvertidas que Trump vai deixar como legado de seus dois mandatos presidenciais nos EUA será a tentativa frustrada de politizar as Forças Armadas (FFAA), contrariando um dos pilares fundamentais da democracia americana: o controle civil das Forças Armadas e a neutralidade política dos militares.

Limites à política do porrete, por Jorge J. Okubaro

O Estado de S. Paulo

Por decisões políticas ou judiciais, algum limite está sendo imposto ao uso do porrete como política de Estado que Trump tentou consagrar

O mundo está perdendo o medo de Trump? Enfim, parece que até a Europa Ocidental agora entende os danos que um governo norteamericano chefiado por uma pessoa descontrolada e insensível às relações internacionais pode provocar no cenário mundial. Alguns dos principais dirigentes europeus reunidos na Conferência de Segurança de Munique reconheceram que a ordem mundial, construída logo depois do fim da 2.ª Guerra Mundial e aperfeiçoada nas últimas décadas – e que assegurou um mínimo de paz para o desenvolvimento da humanidade –, acabou. “A ordem mundial baseada em direitos e regras está sendo destruída”, disse o chanceler alemão, Friedrich Merz, durante o encontro. É um reconhecimento tardio dos estragos que Donald J. Trump está espalhando pelo mundo.

Suprema Corte vai conter Trump? Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Decisão sobre tarifas mostra que Judiciário ainda não foi totalmente cooptado

Vamos ver se magistrados reafirmam independência nos próximos julgamentos

Numa rara boa notícia que vem dos Estados Unidos, a Suprema Corte declarou, pelo placar de 6 a 3, que o tarifaço de Donald Trump é inconstitucional. A decisão dos magistrados não põe fim aos desatinos econômicos do Agente Laranja, mas indica que a erosão institucional em curso naquele país ainda não foi tão longe quanto se poderia temer. O tribunal, que em outras ocasiões deu rédeas à hipertrofia dos poderes presidenciais, ainda não se tornou um órgão que apenas carimba ordens da Casa Branca.

Abuso faz a lei cair em desuso, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Campanha eleitoral indevida tem a guarda compartilhada entre políticos do governo e da oposição

Legislação vigente foi revogada pela prática permissiva, enquanto a Justiça se faz de desentendida

Soa a impertinência com o discernimento alheio o embate de argumentos entre "especialistas" para definir se há campanha eleitoral antecipada, seja por parte de governistas ou de oposicionistas.

Evidente que há. As provas jurídicas podem ser insuficientes, mas as comprovações factuais estão à vista. Faz mais de ano que não se fala de outra coisa na política, que partidos e candidatos se movimentam em torno do assunto, que o noticiário tem como referência a eleição de outubro. Pedem votos, sim.

Paes terá palanque com Lula e bolsonarista, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Indicada a vice na chapa, Jane Reis é irmã do cacique de Caxias

Estratégia é ampliar diálogo com evangélicos e avançar na Baixada

Em 2020, a advogada Jane Reis disputou a eleição à Prefeitura de Magé, na Baixada Fluminense, a 50 quilômetros da capital, com população de 228.127 habitantes, segundo o Censo 2022 do IBGE. O município se destaca na produção de mandioca. Jane obteve 7.966 votos, equivalente a 5,92% do total, ficando na sexta colocação, atrás dos candidatos Boneco e Sargento Lopes. Seis anos depois, ela pode se tornar a vice-governadora do Rio de Janeiro, se as pesquisas que indicam o favoritismo de Eduardo Paes nas eleições de outubro se confirmarem.

O cais da marinha – recordações ...Pra não esquecer..., por Alfredo Maciel da Silveira

“(...)Foi quando vi pela primeira vez um jovem advogado, semblante tenso e altivo do guerreiro a "romper o cerco"*. Seu nome: Marcelo Cerqueira(...)”.

(*)“Romper o Cerco” é referência ao título de panfleto eleitoral da vitoriosa campanha de Marcelo Cerqueira em 1978  a Deputado Federal. Em célebre passeata pela Av Rio Branco, proibida pela Ditadura, Marcelo caminhou ao lado do Senador Nelson Carneiro, à frente da multidão, literal e simbolicamente “rompendo o cerco”!

Dois alagoanos: Paulo Elisiário Nunes e Adalberto Timóteo da Silva, por Ivan Alves Filho

Paulo Elisiário Nunes foi uma das figuras mais extraordinárias que conheci em toda minha vida. Alagoano, descendente de índios e negros, dedicou toda sua existência à libertação do povo brasileiro, e isso desde a juventude. 

Paulinho, como nós o chamávamos, aproximou-se do PCB logo após a Declaração de Março de 1958, partindo, em 1963, para Moscou, onde cursaria a Escola de Quadros do PCUS. Ao retornar ao Brasil, em 1965, mergulhou imediatamente na clandestinidade. Viveu parte da vida escondido, sem contato com a família de origem, ou na cadeia. Mas nunca esmoreceu, nem durante as torturas terríveis que sofreu, em Juiz de Fora. Ao seu lado, sempre, sua companheira Geralda, a querida Baixinha. Certa vez - lá se vão algumas dezenas de anos - eu comentei com sua filha em Belo Horizonte, em um encontro partidário, que, se eu fosse mencionar cinco pessoas extraordinárias que conheci na vida, seu pai estaria entre elas. Mantenho tranquilamente o que digo até hoje. 

Poesia | Mãos Dadas, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Lucinha Lins - Mar de Espanha ( Sueli Costa Capinan)

 

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Crescimento dos ‘penduricalhos’ revela descontrole

Por O Globo

Verbas no Judiciário subiram 43% além da inflação em um ano. Questão exige ação urgente do Congresso

A cada minuto, um acréscimo de R$ 5.700. A cada hora, R$ 342 mil. Foi nesse ritmo que a conta das verbas indenizatórias do Poder Judiciário, popularmente conhecidas como “penduricalhos”, aumentou no ano passado. Considerando apenas os vencimentos dos juízes que receberam acima do teto estipulado pela Constituição — R$ 46,4 mil, o salário de um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) —, o gasto subiu de R$ 7,2 bilhões para R$ 10,3 bilhões entre 2024 e 2025, como revelou reportagem do GLOBO com base em dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Isso corresponde a um aumento real de 43%, já descontada a inflação.

No ano passado, um estudo do Movimento Pessoas à Frente e República.org tentou levantar quanto o país gasta com pagamentos acima do teto em todos os Poderes. Um levantamento apenas parcial revelou gastos de R$ 20 bilhões em 12 meses, 21 vezes o gasto na Argentina, segundo país que mais gasta acima do limite entre os avaliados.

Receitas para se ganhar supersalários, por Bruno Carazza

Valor Econômico

Plenário do Supremo decide nesta quarta-feira sobre a liminar do ministro Flávio Dino que suspendeu os penduricalhos nos Três Poderes

Bacharéis em direito, com pelo menos três anos de experiência, eles foram aprovados num concurso difícil que envolveu provas objetiva, discursiva, de sentença cível e criminal, exame oral e avaliação de títulos. Além disso, cada aprovado demonstrou conhecimento suficiente para vencer uma concorrência de 18,65 candidatos por vaga. O salário era atraente: o edital anunciava um subsídio bruto de R$ 32.250,05 por mês.

A trajetória do câmbio e o efeito sobre a inflação, por Sergio Lamucci

Valor Econômico

No curto prazo, dólar pode chegar perto de R$ 5, mas proximidade das eleições e volatilidade externa podem levar a moeda a subir, especialmente no segundo semestre

O fortalecimento do real em relação ao dólar continua neste ano, num cenário em que a moeda americana perde força no mercado global e o Brasil é um dos emergentes favorecidos pelo movimento de diversificação de parte das carteiras dos investidores internacionais. O juro alto por aqui também tem contribuído para a valorização do câmbio. Na sexta-feira, o dólar fechou em R$ 5,1758, a cotação mais baixa desde maio de 2024. No ano, a queda é de 5,7%; em 12 meses, de 9,26%.

Eleições ecoam no carnaval, por Irapuã Santana

O Globo

Acadêmicos de Niterói andou sobre a linha tênue que separa a crônica social da propaganda política

O desfile da Acadêmicos de Niterói no carnaval de 2026 se transformou num dos capítulos mais complexos do Direito Eleitoral brasileiro. Ao escolher o presidente Lula como enredo, a agremiação andou sobre a linha tênue que separa a crônica social da propaganda política, gerando uma batalha jurídica que poderá redefinir os limites da liberdade de expressão artística.

A principal acusação que pesa sobre o desfile é de propaganda eleitoral antecipada. Em ano de eleições presidenciais, a legislação proíbe qualquer pedido de voto ou exaltação de candidatos antes de 16 de agosto. Para a oposição, o desfile funcionou como “showmício” financiado indiretamente, em que a biografia do presidente foi apresentada de forma hagiográfica e messiânica. O samba-enredo, as cores e a simbologia (como a onipresente estrela vermelha) foram apontados em representações ao TSE como tentativa de incutir no eleitor a ideia de continuidade administrativa, muito antes do permitido.

Intolerância que não paga imposto, por Miguel de Almeida

O Globo

A renúncia fiscal dada às igrejas representa bilhões de reais que deixam de financiar saúde, educação e segurança

Virou o ano, e os velhos vícios brasileiros continuam em alta. Patrimonialismo, corrupção, imoralidade jurídica, penduricalhos a perder de vista — a lista é extensa. A maravilhosa novidade é que setores evangélicos agora criticam o uso de dinheiro público. O mote partiu do desfile hagiográfico da Acadêmicos de Niterói em torno da vida de Lula.

A hipocrisia é evidente: quem acusa é useiro de isenções fiscais — as igrejas recebem subsídios, não pagam qualquer imposto. Mais: pastores não pagam IR sobre seus vencimentos religiosos. Michelle Bolsonaro também reclamou e esqueceu que seu salário é pago pelo Partido Liberal com verbas públicas do fundo eleitoral. Ô vida fácil.

Os dilemas do financiamento público, por Lara Mesquita

Folha de S. Paulo

Desenho institucional do financiamento público afeta a competição, a organização partidária e os vínculos com a sociedade

Ele pode aumentar a inclusão, mas apenas quando combinado com fiscalização independente e regras de transparência

Passado o Carnaval, a eleição de 2026 já domina o debate público. Lula buscará a reeleição, Flávio Bolsonaro se consolida como principal nome da oposição e, nos estados, multiplicam-se as incertezas sobre candidaturas aos governos e ao Senado. Mas, enquanto os nomes ainda estão em aberto, as regras e o dinheiro da disputa já estão definidos e influenciam decisões sobre o lançamento de candidaturas em todos os partidos e níveis da competição.

O Poder mais perigoso, por Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

O STF avança sobre o orçamento e, o que é muito mais grave, sobre os meios de coerção

A erosão da confiança no árbitro final das regras do jogo afeta o equilíbrio entre os poderes e fragiliza a própria ideia de governo limitado pela lei

É quase um clichê para analistas recorrerem à afirmação atribuída a Alexander Hamilton, no Federalista 78, que o Poder Judiciário é o poder menos perigoso porque não detém o poder da espada nem acesso aos cofres públicos. Ocorre que no momento, em nosso país, o Poder Judiciário é sem sombra de dúvida o poder mais perigoso da República. As cortes superiores corroem o orçamento e, o que é muito mais grave, o STF avança sobre os meios de coerção —a espada. Essa situação é inédita do ponto de vista comparativo.

Xingar uma pessoa negra de macaco desumaniza e nega direitos humanos, por Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

Racismo científico apregoou existência de uma hierarquia racial na qual pretos e pardos encontram-se em condição de inferioridade

Isso explica o fato de o talentoso jogador de futebol Vini Júnior ter sofrido 20 ataques racistas em sua atuação pelo Real Madrid nos últimos oito anos

Macaco. A designação comum aos primatas, excetuando os seres humanos, é uma das manifestações mais explícitas e agressivas de racismo. Chamar, ou melhor, xingar uma pessoa negra usando essa expressão é uma forma de desumanização, animalização, inferiorização e negação de direitos humanos.

A origem da associação criminosa (racismo é crime, vale lembrar) de pessoas negras a símios (macacos, gorilas, chimpanzés…) segue a lógica da teoria (furada) do racismo científico, que apregoou existência de uma hierarquia racial na qual pretos e pardos encontram-se em condição de inferioridade.

Levados à força e se debatendo, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Cada vez mais se adota o recolhimento involuntário de dependentes; mas será que funciona?

Uma terapia que comece na rua, caso a caso e sem tempo para terminar, pode dar mais resultados

Leio no Globo que 30% das capitais brasileiras estão adotando o recolhimento involuntário de dependentes químicos em situação de rua. A justificativa é que se trata de pessoas que põem em risco a própria vida ou a de terceiros. Não se trata de uma medida voluntarista dessas cidades. O Conselho Federal de Medicina já permite que parentes, responsáveis ou servidores públicos de saúde solicitem essa internação, sendo que a restrição da liberdade deve ser "pelo menor tempo possível".

Nunes contra o carnaval, por Diogo Schelp

O Estado de S. Paulo

A Prefeitura da capital paulista, por incompetência ou desinteresse, está dinamitando a festa

Carnaval também é política. O desfile-comício sobre Lula da Acadêmicos de Niterói na Sapucaí, que resultou no rebaixamento da escola, é o exemplo mais óbvio e recente. Além da bajulação ao presidente, os carros alegóricos e as fantasias foram elaborados para ridicularizar uma parcela da sociedade brasileira – e da classe política. O contrário também já ocorreu. Em 2019, o então presidente, Jair Bolsonaro, fez críticas aos blocos de rua, tomando a atitude isolada de alguns foliões como uma prova da degradação moral do carnaval. Seu filho Flávio, como pré-candidato à Presidência, tenta vender uma imagem mais moderada que a do pai e, na semana passada, tratou de enaltecer o carnaval, inclusive os cortejos de rua, como “uma das festas mais populares do planeta” e “um exemplo de como o Brasil pode ser criativo e fazer muito, mesmo com pouco”.

O futuro da Amazônia, por Denis Lerrer Rosenfield

O Estado de S. Paulo

A ausência de um ordenamento fundiário efetivo obstaculiza investimentos e termina sendo um poderoso instrumento de não preservação ambiental

A Amazônia tornou-se uma questão geopolítica, de profundas repercussões militares, diplomáticas, econômicas e ambientais. Com a prevalência das relações internacionais da “lei do mais forte”, não há mais fronteiras asseguradas. O que era reconhecido ontem, pode deixar de sê-lo amanhã. As maiores potências agem estritamente segundo os seus interesses. A invasão da Ucrânia pela Rússia e a operação americana na Venezuela expõem essa nova realidade. O Brasil deve assegurar a defesa do seu território, dando-se os meios para isso.

A Europa e a aliança China-Rússia-EUA, por Oliver Stuenkel

O Estado de S. Paulo

O apoio americano a Orbán, cortejado ainda por Moscou e Pequim, expõe uma convergência anti-UE

A recente viagem de Marco Rubio a Budapeste, após sua participação na Conferência de Segurança de Munique, revela mais sobre política global do que parece à primeira vista. Com a Hungria em plena campanha para as eleições de abril, o secretário de Estado decidiu reforçar o apoio de Washington a Viktor Orbán, um líder que se orgulha de ter construído um “Estado iliberal” e, há anos, corrói a democracia húngara.

Poesia | Agosto 1964, de Ferreira Gullar

 

Música | Nara Leão - O Sol Nascerá ( Cartola)

 

domingo, 22 de fevereiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Mendonça tem impacto positivo no caso Master

Por O Globo

Ao suspender obstáculos à atuação da PF, novo relator contribui para a qualidade das investigações

O novo relator do caso do Banco Master no Supremo Tribunal Federal (STF), ministro André Mendonça, foi feliz nas primeiras decisões que tomou no processo. Mesmo mantendo o caso sob sigilo, autorizou que a custódia, a extração e a análise das provas colhidas pela Polícia Federal (PF) na Operação Compliance Zero seguissem o fluxo normal de todas as operações policiais e determinou que qualquer perito habilitado poderá ser designado para o trabalho. Mendonça também permitiu que a PF voltasse a compartilhar com a CPMI do INSS os dados sigilosos sobre o caso cujo acesso estava restrito à presidência do Senado.

Teses sobre Feuerbach, por Karl Marx, (escrito, 1845)

I

O defeito fundamental de todo materialismo anterior - inclusive o de Feuerbach - está em que só concebe o objeto, a realidade, o ato sensorial, sob a forma do objeto ou da percepção, mas não como atividade sensorial humana, como prática, não de modo subjetivo. Daí decorre que o lado ativo fosse desenvolvido pelo idealismo, em oposição ao materialismo, mas apenas de modo abstrato, já que o idealismo, naturalmente, não conhece a atividade real, sensorial, como tal. Feuerbach quer objetos sensíveis, realmente diferentes dos objetos de pensamento; mas tampouco concebe a atividade humana como uma atividade objetiva. Por isso, em A Essência do Cristianismo, só considera como autenticamente humana a atividade teórica, enquanto a prática somente é concebida e fixada em sua manifestação judia grosseira. Portanto, não compreende a importância da atuação "revolucionária", prático-crítica

II

A política depois do vazio, por Luiz Sérgio Henriques

O Estado de S. Paulo

A irracional reação nativista, potencializada em 2016 com o Brexit e a vitória de Donald Trump, sabidamente implicou novo e inédito recuo das formas da política

Uma percepção bem difundida, não só entre nós, é que a grande política bateu de vez em retirada, deixando-nos impotentes diante de círculos opacos de poder. Elites globais e nacionais, ou boa parte delas, parecem desfalcadas das personalidades que outrora indicavam rotas seguras em meio às tempestades. Este é um momento em que todos – liberais, conservadores, socialistas – temos motivos reais de queixa e frustração, que não poupam ninguém que se identifique com cada uma dessas áreas clássicas da política moderna.

Suprema Corte blindou a democracia americana contra autocracia de Trump, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Foi o primeiro freio de arrumação ao uso abusivo da autoridade executiva do presidente dos EUA. Outros casos importantes estão na pauta da Corte

Na sexta-feira, três juízes da Suprema Corte americana considerados liberais — Ketanji Brown Jackson, Elena Kagan e Sonia Sotomayor — votaram a favor da derrubada das tarifas anunciadas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em abril de 2025. Três juízes conservadores acompanharam: Amy Coney Barrett, Neil Gorsuch e John Roberts. Somente os juízes Brett Kavanaugh, Samuel Alito e Clarence Thomas discordaram do veredito. Essa virada de mesa é a primeira reação do “Estado profundo” americano às “loucuras” autocráticas de Trump.

Bom começo de ano, mas eleições trazem riscos, por Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

Presidente e equipe certamente percebem a importância de um cuidado especial, nesta fase, com o crescimento, o emprego e a alta dos preços, um risco quase permanente no Brasil

Acorrida eleitoral começa com mercado de trabalho forte, inflação contida, juros elevados, perspectiva de crescimento medíocre e muita incerteza quanto ao controle dos gastos públicos. Com boa produção, a oferta de alimentos deve continuar satisfatória, mantendo preços moderados e deixando às famílias alguma folga para outros gastos. Mas o ano apenas começou, há uma grande insegurança internacional, reforçada pela retórica trumpista, e o quadro brasileiro poderá piorar se o governo cometer imprudências em busca de votos.

Diplomacia do morde e assopra, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Acordo em terras raras com a Índia amplia poder de barganha do Brasil com EUA e Trump

A Suprema Corte dos EUA veta o “tarifaço”, impõe limites e inaugura uma nova fase para Donald Trump, que, mesmo anunciando novas tarifas de 15%, entra em 2026 descendo do trono, caindo na real e carregando o assassinato de dois americanos pelo ICE, protestos internos por toda parte, o show de Bad Bunny e o fantasma de Epstein. Esse enredo confirma o acerto da estratégia de morde e assopra do presidente Lula.

O acordo de cooperação entre Brasil e Índia na área de minerais críticos, justamente neste momento, é um ótimo exemplo de reação a quem se considera “dono do mundo” e, preventivamente, a uma nova guerra fria, agora entre EUA e China, com alto potencial para transformar todos os demais em reféns de seus interesses e suas disputas.