sexta-feira, 20 de março de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Desafio do ECA Digital está na implementação

Por O Globo

Nova legislação é avanço indiscutível, mas seu êxito dependerá da adesão das plataformas

É sem dúvida um avanço a entrada em vigor da lei conhecida como Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) Digital. O simples fato de começar a vigorar uma legislação de proteção aos menores de idade na internet é auspicioso. A dúvida, como em qualquer nova lei, é se as novas regras funcionarão na prática — e até que ponto as plataformas digitais contribuirão para evitar seu esvaziamento.

A partir de agora, as redes sociais e qualquer outro fornecedor de conteúdo ou serviço para menores deverão oferecer aos pais ferramentas de controle. Será preciso também manter mecanismos confiáveis de aferição de idade, para coibir o acesso dos menores a ambientes e conteúdos inapropriados — não basta mais a simples autodeclaração. Todas as plataformas terão de oferecê-los, mesmo que não sejam identificadas explicitamente como espaço infantojuvenil — caso de bancos, sites de entretenimento ou comércio eletrônico.

Um nome feio e exato para a crise: ‘aporia’, por Andrea Jubé

Valor Econômico

Palavrinha em desuso mas que se encaixa como luva na crise atual, em que os escândalos Master e do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) arrastaram quase tudo e quase todos

Na literatura, é conhecida a obsessão do escritor francês Gustave Flaubert pelo “mot juste”, ou seja, a “palavra exata”. O autor de Madame Bovary era famoso pela caderneta que levava no bolso para anotar a cirúrgica palavra que surgiria a qualquer momento. No Brasil, igual obsessão era atribuída a Guimarães Rosa, que também mantinha à mão papel e caneta para anotações repentinas. Mas para o autor de Sagarana, foi Carlos Drummond de Andrade quem associou com maestria a palavra à trama.

A guerra do Irã pode virar uma tempestade política perfeita nas eleições, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

A oposição, liderada por Flávio Bolsonaro, tende a explorar o aumento do custo de vida como narrativa central, independentemente de sua origem externa

O impacto da guerra do Irã na conjuntura política brasileira pode provocar uma tempestade perfeita nas eleições e alterar profundamente o cenário atual de polarização entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, candidato à reeleição, e Flávio Bolsonaro, seu principal oponente. Embora favorito, Lula enfrenta um candidato em ascensão, e não é possível prever o impacto da alta dos combustíveis na inflação geral e na popularidade do governo. Acrescente-se a isso a grande insatisfação popular com a violência e o envolvimento de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), além do distanciamento do Congresso em relação a medidas que possam mitigar os efeitos da guerra.

Revoada no Rio, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Paes descumpre promessa de concluir mandato, e Castro tenta escapar de condenação

Num intervalo de poucos dias, o Rio deve assistir à debandada do governador e do prefeito da capital. O primeiro a renunciar será Eduardo Paes. Ele deixa o cargo hoje para concorrer ao Palácio Guanabara pela terceira vez.

Paes foi reeleito há menos de dois anos, com a promessa de cumprir o mandato até o fim. Gaiato, jurou pelo Vasco e pela Portela que não abandonaria a prefeitura. A lorota talvez explique os infortúnios que afligem o clube e a escola de samba.

É preciso defender a democracia, não o Supremo, por Pablo Ortellado

O Globo

A missão democrática hoje é sustentar que apesar dos muitos erros da Corte, as condenações dos golpistas foi justa e precisa ser mantida

A crise gerada pelo envolvimento de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) com Daniel Vorcaro pode comprometer o pouco apoio público que resta ao Supremo, lançando o país em crise institucional grave. Num futuro não distante, isso poderia levar à revisão das punições às mobilizações antidemocráticas, produzindo impunidade, fragilidade democrática e a liberação do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Em alta, endividamento, inadimplência e recuperação, por Roberto Macedo

O Estado de S. Paulo

Mesmo vindo a redução de juros, é preciso resolver a falta de educação financeira, que é estrutural e de difícil solução no curto prazo

Nos últimos dias, os jornais publicaram notícias sobre esses temas. E notícias fortes, como a de que o endividamento das famílias bateu recorde em fevereiro, conforme levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

Em números, 80,2% das famílias entrevistadas declararam possuir alguma dívida, e esse é o maior nível de endividamento da série histórica mensal, que começou em 2010. A pesquisa revelou também que a inadimplência é alta, com 29,6% das famílias declarando ter dívidas em atraso e 12,6% delas dizendo não ter condições de pagar as dívidas vencidas. Por que, então, as tomaram?

A delação aceitável de Vorcaro, por Raquel Landim

O Estado de S. Paulo

Chegamos a tal nível de desconfiança sobre as relações dos ministros do Supremo Tribunal Federal Dias Toffoli e Alexandre de Moraes com Daniel Vorcaro que é inaceitável uma delação premiada do ex-banqueiro que não esclareça o que realmente aconteceu. A cobrança não é apenas da opinião pública, mas da legislação. Qualquer seletividade de Vorcaro, caso tolerada pelas autoridades competentes, corre o risco de desmoralizar de vez o instrumento de colaboração premiada no Brasil.

Toffoli só abriu a fila... por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Com citação a filho de Kassio Nunes Marques, só 50% do STF passa ao largo do Master

Brasília está lotada de craques, e não é de hoje. O presidente Lula já comparava o filho Lulinha a Ronaldo Fenômeno nos primeiros mandatos e os filhos e parentes de um ministro atrás do outro do Supremo Tribunal Federal (STF) parecem não ficar atrás. Timaço, regiamente tratado pelo agora liquidado Banco Master e a já famosa JBS.

A escalada do choque do petróleo, por Celso Ming

O Estado de S. Paulo

A escalada dos preços do petróleo é o impacto produzido por outra escalada, a da guerra do Irã. Nesta quinta-feira, as cotações chegaram a ultrapassar os US$ 119 por barril e só voltaram a ceder depois que os países ricos anunciaram a liberação de suas reservas.

Se Israel se dispôs a atacar o campo de gás de South Pars, um dos maiores do Irã, é porque não está interessado em conter a alta do petróleo e todos os seus desdobramentos para a economia mundial. Isso mostra, também, que, ao respaldar o bombardeio produzido por Israel sobre a infraestrutura do petróleo da região, o presidente Trump não se limita a restringir os efeitos do fechamento do Estreito de Ormuz. Permite a escalada da guerra e o aprofundamento do choque da energia. Destruição da infraestrutura do petróleo da região é de reparo mais difícil e mais demorado do que simplesmente o de reabrir o Estreito. Produz distorções mais prolongadas e mais dolorosas para a economia mundial.

Eleição Presidencial: decisão no primeiro turno? Por André Régis*

Folha de Pernambuco

Diante da leitura das últimas pesquisas, no contexto dos escândalos do INSS e do Banco Master, a eleição presidencial de 2026 já admite uma hipótese antes remota: desfecho no primeiro turno. Todas indicam erosão do favoritismo de Lula e mostram que a direita passou a ter incentivos claros para trocar dispersão por coordenação. Nelas, o centro volta a dar sinais de inclinação à direita, enquanto Flávio Bolsonaro busca ampliar sua aceitação com gestos nessa direção.

A cautela histórica continua necessária. Desde a redemocratização, apenas Fernando Henrique Cardoso venceu a Presidência no primeiro turno, em 1994 e 1998. Basta esse registro como advertência: trata-se de desfecho raro, que exige condições políticas muito específicas.

Ocaso da democracia dos EUA sob Trump é má notícia para o Brasil, por Ana Luiza Albuquerque

Folha de S. Paulo

Pela primeira vez, Brasil supera EUA nos índices do instituto V-Dem, que produz ranking da democracia global

Acentuada aceleração da crise na nação americana pode atrapalhar recuperação da democracia brasileira

Novo relatório anual do instituto sueco V-Dem, maior referência no monitoramento da democracia global, chancela o diagnóstico a respeito da acelerada deterioração da democracia nos Estados Unidos sob o governo Donald Trump.

O documento reconhece a manutenção da recuperação democrática no Brasil, após um episódio de autocratização liderado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Desde o fracasso da tentativa de golpe de 2022, o país é tratado por acadêmicos, políticos e pela imprensa internacional como um caso de sucesso na resistência ao autoritarismo.

Os riscos de faltar diesel e de paulada nos preços no Brasil, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Com base em referências internacionais, Petrobras teria de fazer reajuste de mais de 30%

Segundo gente do setor, haveria combustível até meados de maio, mesmo sem importação extra

Há boatos, alarmismos e mentiras a respeito do risco de faltar diesel no Brasil. Foi assim também na alta do petróleo nos meses seguintes ao do início da guerra da Rússia contra a Ucrânia, em 2022.

A diferença agora é que há restrição muito grande de oferta de petróleo e derivados —em países da Ásia, há medidas drásticas de redução de consumo. A semelhança com o problema de 2022 é o preço do diesel no Brasil, que precisa de reajuste bastante para atenuar a ameaça de escassez. No limite, aumento de 30%. Improvável.

Deputados condenados vão se dividir entre a Câmara e a cadeia, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

A punição pode ter efeito didático sobre a conduta de parlamentares que abusam do Orçamento

Mas pode ser que suas excelências os protejam de olho nos inquéritos sobre emendas em curso no Supremo

Dois deputados, um suplente e mais quatro condenados por corrupção no uso das emendas é algo a ter algum efeito didático sobre o comportamento dos parlamentares que avançam sem cerimônia sobre o Orçamento da União.

Ao menos assim se espera que ocorra diante do indicativo do ministro Flávio Dino de que outras punições severas virão, no âmbito das dezenas de inquéritos sobre o tema que tramitam ainda em sigilo no Supremo Tribunal Federal.

Com o apoio de 71%, fim da escala 6x1 é civilizatório, por Marcos Augusto Gonçalves

Folha de S. Paulo

Suporte da maioria, revelado pelo Datafolha, contraria discurso reacionário

Não há motivo para deixar de aprovar pelo menos a jornada de 40 horas

Uma consistente maioria de 71% dos brasileiros apoia o fim da escala 6x1, de acordo com recente pesquisa Datafolha. Por esse modelo, o trabalhador é submetido a seis dias de trabalho e um de folga por semana. O resultado é positivo no momento em que vozes reacionárias levantam-se para defender um tipo de arranjo trabalhista retrógrado, que deveria envergonhar o país.

É o caso do deputado federal Marcos Pereira, presidente do Republicanos, partido do bolsonarista Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo.

Leitura comparativa ajuda a entender semelhanças e diferenças entre autores, por Juliana de Albuquerque

Folha de S. Paulo

Fiz duas listas para avaliar a relação entre literatura e filosofia nas obras de Hannah Arendt e Simone de Beauvoir

Não é mais fácil, como eu pensava, escrever sobre o tema a partir dos romances de Beauvoir

Concluí, no último sábado, a redação de mais um artigo acadêmico sobre a relação entre literatura e filosofia na obra de Simone de Beauvoir. Essa será a minha quarta publicação sobre o tema.

Em trabalhos anteriores, ocupei-me dos romances "Todos os Homens São Mortais" (1946) e "Os Mandarins" (1954). Desta vez, no entanto, dediquei-me à análise de "O Sangue dos Outros" (1945) e examinei sua relação com algumas das ideias propostas por Beauvoir em "Por uma Moral da Ambiguidade" (1947), que, no próximo ano, completa 80 anos de publicação.

Parte das questões que abordei no artigo também foi objeto de algumas das minhas colunas mais recentes para a Folha.

'1984' versão hoje, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

No livro de Orwell, a verdade é a mentira, e o povo acredita em tudo que lhe injetam

O país da trama é a URSS de Stálin. Mas os bolsonaristas viveriam muito bem nele

Certos livros deveriam ser lidos todo ano. Exemplo: "1984", de George Orwell. Sei de gente que faz isso. Desde sua publicação, em 1949, já vendeu 30 milhões de exemplares –eu próprio comprei vários, inclusive, num leilão, a primeira edição, da Secker & Warburg, de Londres. Pois, seguindo meu próprio conselho, acabo de relê-lo de novo e fiquei ainda mais assustado que da última vez. Com razão –"1984" nunca foi tão atual. Ou Orwell adivinhou tudo ou está sendo seguido à risca.

Uma pequena pausa para a cerveja, por Ivan Alves Filho

Construído em 1283, o antigo Refeitório do Convento dos Frades Trinos foi inteiramente destruído durante o terremoto que abalou Lisboa, em 1755.

Mas Deus sabe o que faz: sob as ruínas do convento, alguém teve a luminosa ideia de edificar a Fábrica de Cerveja da Trindade, inaugurada em 1836. Louvado seja. A cervejaria em questão está situada no tradicional bairro do Chiado, frequentado por escritores do porte de Eça de Queiroz e Fernando Pessoa. Ali se localiza também o café A Brasileira do Chiado, casa fundada por Adriano Telles, em 1905.

Poesia | O anel de vidro, de Manuel Bandeira

 

Música | Sueli Costa - Jura Secreta (Original da Autora)

 

quinta-feira, 19 de março de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Copom tenta mitigar reflexos da guerra na inflação

Por O Globo

Diante de sinais ambíguos, autoridade monetária toma decisão menos conservadora do que seria possível

Ao cortar a taxa básica de juros em 0,25 ponto percentual, para 14,75% ao ano, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) transmitiu ao mercado um sinal de cautela diante do cenário inflacionário incerto descortinado pela guerra no Oriente Médio. Diante dos sinais ambíguos dentro e fora do país, a autoridade monetária tomou uma decisão menos conservadora do que teria sido possível com a manutenção da taxa.

Governo enfrenta a serpente de 2018, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

“Quem move o país são os caminhoneiros”. A frase com a qual o ministro dos Transportes, Renan Filho, abriu o comunicado sobre as medidas adotadas para o cumprimento da tabela do frete rodoviário deu o tamanho da necessidade de o governo manter a ponte com os caminhoneiros, cuja ameaça de uma paralisação, como a de 2018, é a mais contudente da temporada de riscos que corre a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Naquele ano, a paralisação de 11 dias atingiu de refinarias aos jogos do campeonato brasileiro. Houve suspensão de aulas em escolas e universidades e desabastecimento nos supermercados. O PIB perdeu mais de um ponto percentual, o Exército foi convocado para a desobstrução de estradas onde, do alto, se liam pedidos de intervenção militar. No ovo daquela serpente, estava em gestação o bolsonarismo.

Guerra expõe elo vulnerável do agro brasileiro, por Assis Moreira

Valor Econômico

Num mundo cada vez mais instável, a agricultura nacional depende em mais de 90% de fertilizantes importados

A guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, e a retaliação iraniana na região, causam estragos também nos mercados globais de fertilizantes, elevando os preços e reduzindo a oferta em todo o setor agrícola mundial. Essa situação expõe um ponto crítico da agricultura brasileira.

Cerca de 25% a 30% das exportações mundiais de fertilizantes nitrogenados passam pelo estreito de Ormuz, que está bloqueado pelo Irã. O estreito liga efetivamente os mercados de fertilizantes da Ásia, América Latina e Europa à temperatura geopolítica do golfo Pérsico, como nota o Rabobank.

Os juros no meio das turbulências, por Míriam Leitão

O Globo

Banco Central reduziu a Selic, mas de olho na guerra, que é inflacionária. O Tesouro recompra papéis para tranquilizar o mercado

Banco Central tinha um cenário quando escreveu a ata da reunião de janeiro. Nos últimos dias, esse cenário mudou. Isso levou à decisão de corte da Selic, em apenas 0,25 ponto percentual. A turbulência internacional tem um canal de transmissão direta para a economia. As empresas já estão refazendo seus cálculos sobre os custos diante dos novos preços dos combustíveis, principalmente diesel. A guerra de Donald Trump bateu na economia de forma rápida. Diante deste ambiente, o Copom cortou os juros, porque afinal eles estão muito altos, mas a redução foi em nível menor do que faria caso nada tivesse acontecido. A nova conjuntura forçou também o Tesouro a mudar a sua atuação no mercado de títulos públicos.

Cada um na sua, por Merval Pereira

O Globo

O escândalo do banco Master é uma ação suprapartidária, que move políticos de todos os quilates e partidos, mais uma vez para tentar estancar a sangria

Daniel Vorcaro é o único que pode esclarecer a barafunda em que se transformou o caso do Banco Master, maior escândalo financeiro do país até hoje, na definição do ministro da Fazenda, Fernando Haddad. Vorcaro, depois de um primeiro momento em que imaginou poder fazer uma delação premiada seletiva, já mandou dizer que está disposto a uma delação completa, sem poupar ninguém. Esse é o momento crucial dessas delações, em que o prisioneiro cai em si e constata estar diante de uma decisão definitiva: ou todos, ou nenhum. Tudo indica que ele tem condições de provar quem estava metido em seu esquema fraudulento.

‘Festinhas’ de banqueiro são de interesse público, por Julia Duailibi

O Globo

Eventuais fotos e vídeos de políticos no celular de Vorcaro podem ser a única prova da relação promíscua entre ele e o poder

Entre os mitos da política, está que a vida privada de autoridades não é de interesse público. Um equívoco que, muitas vezes, serve apenas para acobertar conchavos, tráfico de informação e subornos praticados e recebidos pelos senhores do poder. Negociações pouco republicanas não ocorrem à luz do dia, mas em ‘festinhas’ privadas, jantares com belas mulheres, bate-papo em jatinhos e, reza a lenda, até em sauna dentro de banco na Faria Lima — no caso, o Banco Master. Envolvem, com certa frequência, casos extraconjugais patrocinados por uma camaradagem interessada em arrancar um naco do Estado. É nesses momentos que nascem as negociatas em torno de projetos de lei, licitações e troca de favores — e é justamente por isso que são de interesse público.

Vorcaro e os fantasmas da República, por Malu Gaspar

O Globo

O espanto causado pela extensão dos tentáculos e da ousadia de Daniel Vorcaro e sua desfaçatez com o dinheiro alheio fizeram muita gente repetir uma pergunta que vem à tona toda vez que um grande escândalo se abate sobre Brasília, mais profundo que o de antes. Não aprendemos nada com o caso anterior?

Quando o petrolão começou, a pergunta era feita olhando para o mensalão. Agora, ela se aplica ao legado da Lava-Jato. A pergunta é simples, mas a resposta é complexa como qualquer transformação histórica e não cabe num único artigo.

Quando uma nação se perde da Justiça, por Eugênio Bucci

O Estado de S. Paulo

Quando uma sociedade não sabe mais apontar a direção justa para os seus conflitos internos, sua vida política se perde da própria finalidade

Não é uma instituição, não é um poder, não é uma autoridade. Antes de assumir essas formas, além de muitas outras – uma sentença, um trânsito em julgado, um resultado eleitoral, a lista seria extensa –, a justiça é uma ideia compartilhada por pessoas que se reconhecem partes de uma identidade comum, uma história comum, um futuro comum. Mas dizer isso é dizer pouco, já me apresso em alertar. É necessário que a ideia compartilhada de justiça tenha vínculo direto com aquilo que, num único ser humano, é intuitivo: o sentimento de justiça. Em resumo, é necessário que a ideia compartilhada de justiça, que é uma elaboração cultural coletiva, represente e traduza, com as devidas mediações, o sentimento intuitivo de cada pessoa. Sem isso, nada feito.

(Sei que o parágrafo anterior soou abstrato em demasia. Por isso, peço licença para aprofundar o ponto. Vai ficar mais abstrato ainda, mas talvez fique mais límpido também.)

Fachin e o julgamento de Vorcaro, por Carolina Brígido

O Estado de S. Paulo

Os 50 minutos que separaram o início do julgamento sobre a prisão de Daniel Vorcaro do placar com maioria contra o banqueiro não foram casualidade. O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, atuou nos bastidores para que o resultado da votação fosse sacramentado logo.

O julgamento começou na sexta-feira, 13, no plenário virtual da Segunda Turma, e só termina amanhã. Mesmo com uma semana de prazo para votar, três dos quatro ministros aptos a se manifestar no colegiado fizeram isso em menos de uma hora, garantindo a maioria pela manutenção da prisão do banqueiro. Dias Toffoli se declarou impedido para julgar o caso.

Os militares e o espetáculo, por William Waack

O Estado de S. Paulo

Lula anda mesmo preocupado com as consequências do escândalo Master. A ponto de querer saber dos comandantes das Forças Armadas “qual é a opinião na tropa” em relação ao STF. A pergunta foi feita num recente encontro de fim de semana em Brasília ao qual compareceram também o PGR, o ministro Cristiano Zanin e o diretor-geral da PF.

Mendonça prorroga inquérito do Master e Vorcaro negocia delação premiada, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

A intensificação de vazamentos e a mobilização de atores ainda não formalmente investigados indicam uma tentativa de redução de danos que pode ter efeito contrário

A decisão do ministro André Mendonça de prorrogar por 60 dias o inquérito sobre o Banco Master consolida o protagonismo do Supremo Tribunal Federal (STF) na investigação, que extrapola o campo financeiro e alcança o coração do sistema político-institucional brasileiro. O caso já é um dos maiores escândalos recentes, tanto pelo volume estimado em mais de R$ 12 bilhões quanto pela complexidade das relações entre agentes públicos e privados.

Banco Master, oposição e governo, por Maria Hermínia Tavares

Folha de S. Paulo

É difícil sustentar que governo e oposição estejam igualmente envolvidos na falcatrua

A opinião pública crê que todos são responsáveis

"Assim é, se lhe parece", peça de Luigi Pirandello (1867-1936), foi encenada pela primeira vez em 1917. Nela, a misteriosa senhora Ponza, forçada pela população de uma pequena cidade a enfim revelar sua controversa identidade, declara ser " aquela que se crê que eu seja". Dessa forma, o dramaturgo italiano sustentava que não há uma verdade única e acessível, mas perspectivas diferentes e irreconciliáveis e que a tentativa de chegar a uma verdade absoluta sobre a realidade é sempre infrutífera.

Liquidante do Master precisa correr para impedir que dinheiro roubado vire pó, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Mesmo com Vorcaro na cadeia, há suspeitas de que obras de arte e imóveis relacionados a ele estão sendo vendidos

A pergunta ainda não respondida é: onde foram parar os mais de R$ 60 bilhões desviados do Master?

As tentativas em curso de desvios bilionários do patrimônio do Master para fundos e bens de luxo de Daniel Vorcaro não têm recebido a atenção e a velocidade necessárias para impedir que o dinheiro roubado no esquema piramidal de fraudes do banco desapareça ou vire pó.

Enquanto as investigações avançam para mostrar o envolvimento de políticos e autoridades na teia de Vorcaro, não se vê a mesma agilidade para a recuperação dos bens dos envolvidos que estavam em nomes de laranjas e já teriam sido identificados nos cruzamentos de informações dos fundos usados no esquema.

Corte de juro do BC vira ninharia diante do arrocho da guerra de Trump, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Copom diminui Selic de 15% para 14,75%, mas problema agora está em outra parte

Guerra e petróleo, além de risco político, ameaçam ano que até começara mais animado

Banco Central baixou a Selic de 15% ao ano para 14,75% nesta quarta (18), como esperado. No texto em que comunicou a decisão, o BC não escreveu novidade notável. Todo mundo sabe da incerteza da guerra. O resto do diagnóstico é o lido em comunicados anteriores: expectativa de inflação alta, desaceleração lenta, mercado de trabalho quente, risco fiscal etc.

Corte de 0,25 já é nada. No meio do tumulto de guerra, menos do que nada. O problema está noutra parte, ora em Hormuz, amanhã na política. O arrocho financeiro aumenta, não importa o que faça o BC.

Um hino à vida, por Ricardo Marinho

Livro resenhado: PELICOT, Gisèle com PERRIGNON, Judith. Um hino à vida: A vergonha precisa mudar de lado. Tradução de Julia da Rosa Simões. Primeira Edição. São Paulo, Companhia das Letras: 2026. 239 págs.

Como já é tradição, as ruas do mundo em todo dia 8 de março reúnem um mar de cidadãs e cidadãos cujas vidas diversas se desenrolam em uníssono ao ritmo de uma marcha, suas vozes entoando slogans em comum. Entre elas, um rosto, infelizmente infame, se destacava nas ruas de Paris: o de Gisèle Pelicot. Depois que o acaso revelou, em 2022, que ela havia sofrido mais de 51 estupros durante uma década nas mãos de vários facínoras, orquestrados por seu marido, o rosto dessa septuagenária se tornou um ícone da luta das mulheres contra a violência.

Poesia | Se você me esquecer, de Pablo Neruda

 

Música | Beth Carvalho com Hamilton de Holanda - Água de chuva no mar

 

quarta-feira, 18 de março de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Bolsonaro deveria ser transferido a prisão domiciliar

Por O Globo

Estado de saúde sensível justifica que ex-presidente seja mantido em casa, como pede sua defesa

Seria um gesto de sensatez e humanidade do Supremo Tribunal Federal (STF) a transferência do ex-presidente Jair Bolsonaro ao regime domiciliar de prisão. Internado em Brasília desde sexta-feira com pneumonia bacteriana, ele apresenta recuperação da função renal e melhora do quadro inflamatório, porém ainda sem previsão de alta. Não está em questão sua condenação por tentativa de golpe de Estado. A pena de mais de 27 anos mal começou a ser cumprida. Mas, dado seu quadro clínico sensível, Bolsonaro receberia mais atenção se pudesse ser transferido para casa, mediante uso permanente de tornozeleira — sem prejuízo de voltar à prisão caso desrespeite as medidas restritivas.

Haja 'química' para tanto pepino, por Vera Magalhães

O Globo

Encontro entre Lula e Trump, ainda sem data marcada, tem tanta casca de banana que desfecho favorável ao Brasil parece improvável

O encontro entre Donald Trump e Lula, anunciado, mas até agora não marcado nem confirmado, vai se configurando como evento de consequências imprevisíveis e ganho improvável para o Brasil, dadas as muitas possibilidades de cascas de bananas em que o presidente brasileiro pode tropeçar.

A primeira delas é, obviamente, a guerra deflagrada por Estados Unidos e Israel contra o Irã, já na terceira semana, sem perspectiva de desfecho, com impacto brutal sobre o fluxo de petróleo global e, consequentemente, sobre os preços dos combustíveis e outros derivados.

A bancada da Papuda, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Ao condenar dois deputados por desvio de emendas, Supremo avisou que "haverá outros"

No Brasil, os escândalos se sucedem com tanta velocidade que às vezes o novo trambique vem à tona antes que o anterior tenha sido elucidado.

Ontem o Supremo condenou dois deputados, um ex-deputado e outras cinco pessoas por corrupção passiva. Eles foram os primeiros réus a ser julgados por desvio de emendas do orçamento secreto.

Os parlamentares são Josimar Maranhãozinho e Pastor Gil, ambos do PL. De acordo com a Procuradoria-Geral da República, eles cobravam propina para destinar recursos a municípios maranhenses.

Se Vorcaro quiser falar, por Elio Gaspari

O Globo

Uma delação do ex-banqueiro precisa levar a mares nunca navegados

A substituição do advogado Pierpaolo Bottini por seu colega José Luis Oliveira Lima na defesa de Daniel Vorcaro sinalizou que o dono do falecido banco Master caminha para uma delação premiada. Antes de ser preso, Vorcaro usava sua memória como arma.

Tentando falar com o ministro Fernando Haddad, ele mandou um recado curto e grosso: “Eu preciso falar para ele o que pode acontecer se algo acontecer comigo”. Haddad não o recebeu, e algo aconteceu com ele.