domingo, 9 de agosto de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Candidatos não podem continuar a ignorar crise fiscal

Por O Globo

Em atitude irresponsável e acintosa, Lula e Flávio agem como avestruzes fingindo que nada de grave acontece

O terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem sido um desastre para os cofres públicos. Em junho, a dívida pública chegou a 81,9% do PIB, maior patamar desde a pandemia. Ao longo dos quatro anos de governo, deverá crescer 10 pontos percentuais. Quanto mais aumenta, maior a insegurança sobre a capacidade do Tesouro de pagá-la e maiores as taxas exigidas para que tome no mercado novos empréstimos e consiga honrar seus compromissos. Sem mudança de rumo, a dívida continuará a aumentar em ritmo insustentável e poderá em breve levar o país à situação trágica que mistura estagnação econômica e inflação alta. Diante disso, seria de esperar que a iminência do abismo fiscal fosse um dos principais temas da campanha eleitoral. Mas não. Até agora, os dois líderes nas pesquisas — Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) — agem como avestruzes, fingindo que nada de muito grave acontece. É uma atitude irresponsável perante o risco e acintosa diante do eleitor.

A reconquista do futuro, por Sergio Fausto *

Revista Piauí, nº 239 – agosto, 2026

A necessidade de líderes com “uma certa ideia do Brasil”

Em seu discurso no lançamento da pedra inaugural de Brasília, Juscelino Kubitschek fala em sua “fé inquebrantável” no grande destino reservado ao Brasil. Lido com os olhos de hoje, o discurso provoca um sorriso irônico, pelo tom superlativo e pelo otimismo sem ressalvas com o futuro do país. Na época, as palavras expressavam um sentimento real. O presidente JK simbolizou, como nenhum outro, a confiança do Brasil em si mesmo, como nação moderna, democrática, tolerante e criativa.

Era um outro país, ainda predominantemente rural, mas em rápida transição para uma sociedade de massas urbana. Crescia a taxas chinesas. A industrialização moldava um horizonte comum para todas as correntes políticas, e a migração do campo para as cidades alimentava sonhos de ascensão social para quem deixava a roça. Urbanização e industrialização rápidas serviam de amálgama para uma sociedade cada vez mais conflituosa e polarizada. Polarização mais intensa que a atual, exacerbada pela Guerra Fria, mas circunscrita às elites e concentrada em algumas poucas capitais do país. A tevê apenas engatinhava, e a comunicação de massa se dava pelas ondas do rádio, ainda assim com restrito alcance regional.

Emendas parlamentares transformaram o Congresso em casa de negócios, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Muitas vezes não se consegue reconstituir o caminho do dinheiro público, identificar o responsável por sua destinação ou comprovar o benefício gerado

O crescimento vertiginoso das emendas parlamentares impositivas produziu uma mudança estrutural nas relações entre o Executivo e o Legislativo e, sobretudo, nas próprias disputas eleitorais. Concebidas originalmente para permitir que deputados e senadores atendessem demandas legítimas de estados e municípios, com essas emendas o Congresso abocanhou parcelas crescentes do orçamento de investimentos.

As emendas passaram a movimentar dezenas de bilhões de reais sem a correspondente comprovação da correta execução financeira, da conclusão das obras e dos resultados efetivamente entregues à população. Esse descompasso fortalece os parlamentares com mandato, blinda o Congresso de renovação e converte o Orçamento da União em instrumento de reprodução do poder político.

Ataque e contra-ataque, por Merval Pereira

O Globo

Os dois candidatos mais rejeitados, os mais odiados, os mais cotados para vencer as eleições não se dispõem a expor suas ideias ao grande público, nem se expor à sanha dos adversários em busca de um lugar no segundo turno.

Dentro de uma semana exata começa oficialmente a campanha eleitoral brasileira, o que não significa que os candidatos estejam parados. Já houve movimentos que indicam tendências, como a de não participar de debates e entrevistas por parte dos dois candidatos mais bem posicionados nas pesquisas de opinião, o presidente Lula e o senador Flavio Bolsonaro. Os mais rejeitados, os mais odiados, os mais cotados para vencer as eleições, exatamente esses não se dispõem a expor suas ideias ao grande público, nem se expor à sanha dos adversários em busca de um lugar no segundo turno. Os dois têm dificuldades próprias, a começar pelos filhos.

Eleição nova e a velha sombra, por Míriam Leitão

O Globo

O Brasil perde novamente a oportunidade de discutir seu futuro por causa de candidatos que ameaçam com retrocesso e sombra autoritária

Na eleição de 2022, o principal ponto era enfrentar o golpismo de Jair Bolsonaro. Depois de tudo o que ficou comprovado no julgamento da ação penal, o natural seria que agora o país estivesse discutindo um projeto para o futuro. Contudo, a sombra do autoritarismo continua presente. Um candidato é filho do ex-presidente que liderou a tentativa de golpe. Entre os outros candidatos com menor expressão nas pesquisas, Renan Santos e Romeu Zema querem intervir no STF e defendem o modelo Nayib Bukele; Ronaldo Caiado promete anistiar golpistas e fugiu da pergunta sobre se houve ou não tentativa de golpe.

Na entrevista que concederam às jornalistas Andréia Sadi e Natuza Nery, da Globonews, Renan Santos e Romeu Zema defenderam a adoção do caminho de El Salvador. No entanto, quando foram apresentados à lista de horrores praticados por Bukele — prisão sem mandado, ampliação do tempo de prisão sem ordem judicial, redução drástica de habeas corpus, dificuldade de acesso a advogados, julgamento coletivo de centenas de réus, prisões baseadas em denúncia anônima — eles disseram não concordar. Ou seja, defendem o que sequer conhecem. Constrangedor.

No país da emenda pix, basta um clique para desviar dinheiro público, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Flávio Dino apontou "estado de inconstitucionalidade" ao ordenar novas investigações

O apelido surgiu em 2021. A transferência especial virou emenda pix, um atalho criado por parlamentares para despejar dinheiro em seus redutos eleitorais. O instrumento abriu uma via rápida do cofre da União para estados e municípios. Os recursos passaram a ser transferidos num clique, sem exigência de projeto, convênio ou licitação.

Em julho, uma operação da Polícia Federal expôs o funcionamento da engrenagem. Os agentes cumpriram mandados em quatro estados. Apreenderam R$ 320 mil em espécie, além de anotações sobre desvios e favorecimentos.

De Ed Morgan@edu para Marco Rubio, por Elio Gaspari

O Globo

Crises alimentadas pelo secretário de Estado americano prejudicam relação entre os dois países e levarão tempo para serem resolvidas

Estimado Secretário de Estado Marco Rubio:

Fui o embaixador mais duradouro dos Estados Unidos no Brasil, de 1912 a 1933. Acredite que nunca aprendi a falar português. Temos um ponto em comum, pois vivi três anos em Cuba e de lá eu trouxe o hábito de servir aos convidados uma mistura de suco de limão com aguardente, o daiquiri de lá, a batida daqui.

Sou um diplomata da velha escola, Harvard, colarinho duro e horror aos dias quentes do Rio. Eu vivia em Petrópolis e aqui estou sepultado.

Escrevo-lhe para ponderar que o senhor está armando tantas crises e ressentimentos nas relações com o Brasil que levaremos tempo para remendá-las. Revogar o visto da embaixadora foi uma criancice. Tomar o partido de um candidato à Presidência castra nossa influência em favor dos chineses.

O ‘comunista’ de Trump, por Dorrit Harazim

O Globo

Pelo receituário do presidente dos EUA, saúde pública é commodity, educação é mercadoria, moradia é mercado imobiliário

Cassius Clay tinha só 22 anos e uma insolência já borbulhante quando proclamou, na histórica noite de 25 de fevereiro de 1964:

— Sou o rei do mundo! Sou lindo e malvado! Eu sacudi o mundo.

Era verdade. Ele acabara de derrotar por nocaute técnico o campeoníssimo Sonny Liston, favorito absoluto nas casas de apostas globais. O feito no ringue fez dele muito mais que um fenômeno do boxe — tornou-se força cultural duradoura. Nove dias depois, anunciou ao mundo sua conversão ao islamismo e passou a se chamar Muhammad Ali.

O sanitarista americano Abdul El-Sayed, nascido no estado de Michigan 42 anos atrás, não precisou trocar de nome — Abdulrahman Mohamed El-Sayed é muçulmano de berço. Suas primeiras palavras ao saber que será o nome do Partido Democrata para disputar uma cadeira no Senado, em novembro próximo, foram inspiradas em Ali:

— Nós sacudimos o mundo.

Eleição entre pressão externa e urgência interna, por Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

O novo governo começará com muito trabalho para os ministérios da Fazenda, do Planejamento e das Relações Exteriores

Donald Trump é o desafio diplomático mais duro e mais importante para o governo brasileiro neste momento. Tendo fracassado, até agora, na ambição de ser imperador do mundo, o presidente dos Estados Unidos tenta pelo menos comandar as Américas, desde o território dos ursos polares até o dos pinguins, no extremo meridional. Conquistado o apoio da Casa Rosada, falta submeter o Palácio do Planalto, sede da Presidência do maior país sulamericano. O governo colombiano migrou para a direita, acompanhando os vizinhos de fala castelhana, e quase toda a região combina com o azul de Javier Milei.

Se bastasse dizer não ao governante americano, seria muito mais confortável a situação do presidente brasileiro e de sua equipe. Mas o jogo é mais complicado. O Brasil exportou para os Estados Unidos, até julho, produtos no valor de US$ 20,95 bilhões, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Importou um pouco mais e acumulou um pequeno déficit, US$ 2,27 bilhões, dado incompatível com o discurso protecionista do presidente Trump.

Sucesso chinês: educação, tecnologia e abertura, por Pedro S. Malan

O Estado de S. Paulo

Pena que educação e saúde não pareçam constituir, como deveriam, áreas de obsessivo e construtivo interesse por parte das lideranças políticas do Brasil

Na raiz de nossos problemas de pobreza e de desigualdade de renda e riqueza está a questão fundamental a ser atacada: a desigualdade de oportunidades, que surge já no nascimento. É função de políticas públicas nas áreas de educação (e de saúde) procurar reduzir estes diferenciais nos anos iniciais de vida das crianças, como é hoje amplamente reconhecido por especialistas em educação no Brasil e no mundo.

Em 1981, por iniciativa de Deng Xiaoping, o Banco Mundial aprovou um empréstimo para a China no montante de US$ 200 milhões, equivalentes a cerca de US$ 750 milhões de hoje. Era inteiramente destinado à ciência e educação, e seus objetivos eram claros: formar gente qualificada em ciência, tecnologia, engenharia, matemática, computação; enviar estudantes chineses às melhores universidades dos EUA e da Europa; promover interação entre universidades chinesas e estrangeiras na área científica. Metade dos recursos vinha da International Development Association, braço concessional do grupo do Banco Mundial para países mais pobres, o que era a China à época. A operação contou com a aprovação dos EUA, que tinham (e ainda têm) poder de veto na instituição.

Os poderosos nunca aprendem, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Risco de André Mendonça é dar com os burros n’água, como Sérgio Moro e Alexandre de Moraes

Não se espere que o ministro do STF André Mendonça se envolva em contratos de R$ 130 milhões com quem quer que seja, mas o risco dele é seguir os passos de Alexandre de Moraes na concentração de poderes, decisões autoritárias e litígios com órgãos e agentes que deveriam ser, antes de tudo, parceiros.

Moraes repetiu o tombo histórico de Sérgio Moro e agora é Mendonça quem tem de evitar sofrer o tombo de Moro e do próprio Moraes, que foram do céu ao inferno. O poder sobe à cabeça, mas é efêmero. Os poderosos nunca aprendem.

Assim como Moraes chegou a ser relator de 21 dos 37 inquéritos do STF, no início de 2025, incluindo os de maior impacto e que atingiam Jair Bolsonaro e seu governo, Mendonça é hoje responsável pelos explosivos Banco Master e INSS, resvalando para Lulinha, filho do presidente Lula.

Lula agiu como se o Estado fosse ele, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

O governo brasileiro rebaixou o status das relações diplomáticas com dois de seus principais parceiros, Estados Unidos e Argentina. As hostilidades partiram deles. O Brasil poderia ter manifestado sua reprovação de forma a estancar as crises. Mas preferiu agravá-la, por um cálculo eleitoral, com consequências prejudiciais para o País.

O Departamento de Estado anunciou, no dia 1.º de junho, a designação do deputado republicano Daniel Perez para o posto de embaixador em Brasília. Fez isso sem antes consultar o governo brasileiro, como prevê a Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas.

Tesouraço de Flávio fica entre a vassourinha de Jânio e a motosserra de Milei, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Em público, Bolsonaro filho promete só demagogias e tesourinha em gastos e impostos

Promessas de campanha ou são estelionato eleitoral ou ameaçam crise como a de 2015

Na semana passada, Flávio Bolsonaro (PL) pôs na lapela um broche em forma de tesoura. É um símbolo do "tesouraço", que pode vir a ser um mote da campanha dele, promessa de corte de gasto público, de imposto e de burocracias e intervenções do governo.

A tesoura seria inspirada na motosserra de Javier Milei. Até agora, lembra mais a vassourinha de Jânio Quadros, presidente eleito em 1960 com a promessa de varrer a corrupção, a bandalheira. Jânio renunciou em 1961, em tentativa canhestra de autogolpe. O broche da vassourinha era material de campanha desse outro demagogo de direita.

Mentiras de Nikolas sobre Fauci são boa oportunidade para lembrar de Bolsonaro na pandemia, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

No auge da segunda onda da pandemia, mais de 30% das pessoas que morriam de Covid-19 no mundo eram brasileiras

Foram dois Maracanãs cheios de mães, pais, filhos, avós brasileiros, que teriam sido salvos se Jair tivesse apertado um botão

O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) gravou um vídeo dizendo que os diários de Anthony Fauci provam que Jair Bolsonaro tinha razão quando defendeu a cloroquina e se opôs à vacinação, ao isolamento social e ao uso de máscaras durante a pandemia da Covid-19. Como todo parágrafo que começa com "Nikolas Ferreira gravou um vídeo", esse também termina com "era tudo mentira".

Livro traça uma radiografia da tradição anti-igualitária nos EUA, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

John Adams, o segundo presidente, liderava a ala dos aristocratas naturais

Encarnação mais recente é a dos bilionários do Vale do Silício

"Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas, que todos os homens são criados iguais, dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes estão a vida, a liberdade e a busca da felicidade". Essas belas palavras estão na Declaração de Independência dos EUA, de 1776. Mas entre o que se escreve e o que se pratica pode haver um abismo. O princípio fortemente igualitário que animou a revolução americana não se aplicava a negros, por exemplo. A escravidão só foi oficialmente banida em 1865.

As caras impolíticas do poder, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Grotesco generalizado em Trump, Milei, Espriella, Bukele e seus acólitos naturaliza-se

Abre-se assim o portão a candidaturas antissistema; só que isso é uma astúcia do próprio sistema para se perpetuar

Count Binface ("Conde Cara de Lata de Lixo") é o nome adotado pelo comediante Jon Harvey, candidato ao Parlamento britânico, com ascensão tão meteórica na corrida eleitoral que ameaça a vaga distrital disputada por Nigel Farage, político de destaque da direita. O nome é literal: Harvey catalisa a atenção pública com uma espécie de capacete em forma de lata de lixo, que lhe cobre inteiramente o rosto. Estapafúrdias são também suas propostas: proibir que se coma pipoca nos cinemas, tabelar sorvetes e outras.

Machismo enrustido contraria boas intenções dos candidatos, Dora Kramer

Folha de S. Paulo

É no detalhe, na palavra impensada, que a discriminação se revela em molde de pílula dourada

Ainda que por atenção à maioria, políticos precisam aprender a falar direito com o eleitorado feminino

machismo é um bicho incontrolável que se agarra às mentes e, mesmo quando adormecido por vontades conscientes, faz das suas ao acordar num repente para avisar que tem vida própria.

Um problema para os candidatos a presidente num cenário de prevalência inequívoca do eleitorado feminino. Eles até se esforçam, fazem gestos de reverência, tentam se mostrar vigilantes, mas não escapam da sanha do bicho.

Caracu na Jules Rimet, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

A taça da Copa do Mundo era uma taça de verdade, para se tomar nela o champanha da vitória

Quando o Brasil a ganhou pela primeira vez, ela viajou pelo país e levou todo tipo de bebida

Na sexta-feira (7), falei de uma doce querela da Copa do Mundo da Suécia, em 1958: quem teria gritado para Bellini levantar a taça que o Brasil acabara de conquistar? E por que levantá-la? Porque Bellini estava num palanque e, quando a levou à altura do peito, os fotógrafos brasileiros, espremidos lá embaixo entre seus enormes colegas europeus, não a estavam vendo. Ao ouvir o grito, Bellini então a ergueu acima da cabeça e consagrou o gesto. Dois deles disputavam a autoria do grito: Luiz Carlos Barreto, de O Cruzeiro, e Jader Neves, da Manchete. Já apostei em Jader, mas é possível que todos tenham gritado ao mesmo tempo.

O verdadeiro ponto fraco dos democratas, por Fareed Zakaria

Washington Post /O Estado de S. Paulo

Esquerda tem a paixão, mas centro detém os votos de que o partido precisa para vencer as eleições

Fragilidades estão nas questões sociais e culturais como criminalidade e a agenda ‘woke’

Os democratas estão diante de um dilema, e as primárias para o Senado no Estado de Michigan ilustraram isso perfeitamente. Abdul El-Sayed, o carismático progressista, derrotou a deputada Haley Stevens, a moderada apoiada pela cúpula do partido. A energia estava, sem dúvida, do lado de El-Sayed. Mas uma análise do Washington Post revela que seu apoio se concentrou nos condados com maior nível de escolaridade e nas cidades universitárias do Estado; Stevens teve melhor desempenho em muitas áreas rurais e de baixa renda. O dilema: a esquerda tem a paixão, mas o centro ainda detém os votos de que os democratas precisam para vencer nas eleições gerais.

Americanos, dívidas e eleição, por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

O Brasil está constrangido pela pressão de Washington, eo próximo governo terá que enfrentar o problema das contas nacionais para que o país volte a conviver com taxas de juros civilizadas

As pressões norte-americanas contra o governo brasileiro, nas vésperas da eleição presidencial, não chegam a constituir surpresa. Trump e sua turma não gostam de Lula e seus auxiliares. As ações assustam pela falta de sutileza e pelo primarismo demonstrado pelas autoridades de Washington. A briga por intermédio de meios diplomáticos confunde embaixadores porque os argumentos são inventados e não resistem a exame mais preciso. O argumento de que o nome de Daniel Perez ainda não foi aceito por Brasília como embaixador no Brasil não resiste. Não há prazo para admitir embaixador estrangeiro.

O Brasil está constrangido pela pressão de Washington, que retirou as credenciais da embaixadora Maria Luiza Viotti, representante do país nos Estados Unidos. Ela poderá permanecer no seu atual endereço, mas perdeu a autoridade para falar em nome do governo brasileiro. O secretário de Estado, Marco Rubio, filho de migrante cubano fugido de Fidel Castro, pretende que os líderes latino-americanos estejam alinhados à sua política. E fiquem cada vez mais distantes de Pequim. Dentro dessa moldura, o presidente da Argentina, Javier Milei, abre a boca para xingar o presidente Lula. A Argentina está quebrada, sem dinheiro, e vai suplicar por novas ajudas com objetivo de manter sua economia funcionando.

O martírio cubano no centenário de Fidel Castro, por Roberto Amaral*

Ainda saboreávamos o Ano-Novo — era o réveillon de 1958-1959 — quando nos chegou, em Fortaleza, a notícia de que caíra, em Cuba, a ditadura de Fulgêncio Batista, de quem pouca ou nenhuma notícia tínhamos. O fato era este, tão só, mas sugeria algo de inusitado: não se tratava de mais uma quartelada dentre tantas que faziam e fazem a história do poder da classe dominante latino-americana, interferindo na governança para que tudo permanecesse como dantes no castelo de Abrantes: uma periódica recomposição oligárquica.

Desta feita, surpreendentemente, nos era dado conhecer uma insurgência de base popular que, descendo de Sierra Maestra, encontrava a consagração em Havana. Entre os líderes não se contavam nem sargentos, nem coronéis, nem generais. Este era seu caráter inusitado, principalmente no Caribe e na América Central dos anos 1950-60, uma virtual fazenda da United Fruit Company. 

Poesia | Sobre a velhice, de José Saramago

 

Música | Mariene de Castro - Cirandas

 

sábado, 8 de agosto de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Ministro condenado do STJ deve perder o cargo de juiz

Por O Globo

Punição a Marco Buzzi, acusado de crimes sexuais, será a primeira depois do fim da aposentadoria compulsória

A condenação do ministro Marco Buzzi, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), acusado de assédio e importunação sexual, poderá resultar na primeira exclusão de um juiz da magistratura depois do fim da descabida “punição” com a aposentadoria compulsória. Buzzi foi condenado pelo voto unânime de 28 integrantes do colegiado do STJ. Desses, 24 decidiram pela aplicação da nova pena máxima, propondo a perda do cargo de juiz. Ele continuará recebendo salário, pois o caso não se encerra na decisão do STJ. A Advocacia-Geral da União deverá propor em até 30 dias uma ação ante o Supremo Tribunal Federal (STF). O STF decidirá então os efeitos práticos da condenação, como perda de cargo, salário e benefícios.

Mulheres que contaram suas histórias como forma de lutar, por Flávia Oliveira

O Globo

Angela Davis comoveu ao situar a própria experiência de vida como elemento que pautou tanto sua produção acadêmica quanto seu ativismo

Certas conversas, encontros, palavras reverberam em nós muito tempo depois de ocorridas, vividos, ouvidas. Foi assim com o diálogo que mantive com Angela Davis, em mesa idealizada pelo Sesc-RJ na edição 2026 da Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip. À filósofa, professora e ativista apresentei perguntas a partir do pensamento de grandes intelectuais negras e negros do Brasil, entre os quais Conceição Evaristo. A grande escritora nacional cunhou o conceito de escrevivência, a produção literária extraída da experiência, das cicatrizes, das histórias da própria autora e de seu povo.

A ex-Pantera Negra abraçou a ideia para demonstrar que a obra de autores brancos não é necessariamente universal. E que a de autores negros pode ser.

— Toni Morrison provou isso — ela disse.

Os motivos da transgressão de Marcola, à luz de um Nobel, por Thaís Oyama

O Globo

Ex-assessor de Lula concluiu que o ambiente era propício — e os incentivos para transgredir superavam com folga os freios

Por que as pessoas se suicidam? Por que têm filhos? Por que cometem crimes? O economista Gary Becker se fez todas essas perguntas para, a partir delas, construir modelos matemáticos capazes de gerar previsões. Interessava-lhe, sobretudo, a natureza humana — e como os humanos fazem escolhas. A resposta que formulou para a última questão — por que alguém comete um crime? — foi um dos eixos da obra que lhe rendeu o Prêmio Nobel de Economia, em 1992. No modelo de Becker, três fatores influem na decisão de infringir a lei: o benefício desejado, a probabilidade de ser apanhado e a punição prevista. Quanto maiores o risco e o castigo, menor o incentivo para perseguir o benefício. Mas, se o benefício é grande e as chances de ser pego pequenas, o tamanho do castigo perde importância.

Tráficos de influências, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

A crise entre Supremo e Polícia Federal – entre André Mendonça e Andrei Rodrigues – só existe porque investigado vai Lulinha. Daí o festival reativo de plantações sobre desconfianças da corporação contra o ministro. Não tardaria até que Lula ordenasse a negociação de um cessar-fogo. A um presidente candidato à reeleição – cujos governos anteriores são marcados por corrupções – pegará malíssimo a prosperidade da hipótese de que apurações policiais sobre traficâncias do filho não avancem.

Mendonça comunica que não avançam, insatisfeito com o que seriam manobras da PF para fatiar e redistribuir no STF investigações que, a partir da base de dados da Operação Sem Desconto – que relata – e tratando dos mesmos personagens, não obviamente lhe escapariam à prevenção.

Os políticos e as mulheres, por Juliana Diniz*

O Povo (CE)

As mulheres estão mudando, as conservadoras ou não. Estão amadurecendo sua consciência política, a percepção dos direitos e do preço de sua autonomia. Estão compreendendo que têm um capital próprio, e muito valioso. As mulheres estão, por isso, mais obstinadas

O voto das mulheres é o centro da eleição de 2026. É preciso convencer o eleitorado feminino, conquistá-lo. Eu diria mais: pela primeira vez, os candidatos tradicionais precisam se esforçar para dialogar com as mulheres, olhando-as nos olhos. Cada um usará o repertório de que dispõe. Avaliar seus movimentos será uma aula sobre como nossa sociedade divide os papéis de gênero.

Na convenção do PT, Lula se queixou da falta de representatividade no palanque do partido. Flávio Bolsonaro ressaltou que filhas são cuidadoras em potencial, porque esse é seu papel familiar. Romeu Zema disse que homens precisam trabalhar, e que as mulheres têm seus assuntos domésticos. Ciro Gomes criticou as "mulheres agressivas do PT", defensoras, segundo ele, de um "feminismo vazio".

Morin e o futuro III, por Elimar Nascimento*

Revista Será?

O futuro como construção

Nos dois artigos anteriores apresentamos de forma breve, como este, duas das concepções de futuro do filósofo francês Edgar Morin, falecido aos 104 anos no dia 29 de maio de 2026. A primeira, o futuro inevitável – a morte, cuja recusa alimenta a criação do Homo Sapiens-Demens. A segunda, o futuro como incerteza, que alimenta a obra principal do autor em seis volumes (O Método) sobre o pensamento complexo. Este aborda a concepção do futuro como construção social.

Cedo ainda, nos anos 1960, Morin tem clareza de que a humanidade vive uma crise ímpar, de múltiplas dimensões. Em 1965 (Introduction à une politique de l’homme) ele sinaliza a crise do progresso técnico, que produz evoluções e involuções com a fragmentação do saber, a alienação consumista e o risco de autoaniquilação.

Mitigando vulnerabilidades, por Oscar Vilhena Vieira

Folha de S. Paulo

Temos testemunhado um perigoso processo de erosão da confiança da população no Poder Judiciário

É fundamental ampliar os mecanismos para detectar relações privadas que podem afetar a imparcialidade

O Judiciário está sob ataque de movimentos iliberais em diversas partes do mundo, alertou Margareth Satterthwaite, relatora especial da ONU para a Independência do Judiciário, em recente visita ao Brasil. Múltiplas têm sido as formas de minar a independência do Judiciário, como a perseguição e intimidação de juízes, restrição de competências, estrangulamento orçamentário, cooptação de magistrados, mas também a exploração das múltiplas vulnerabilidades do Judiciário.

No Brasil, temos testemunhado um perigoso processo de erosão da confiança da população no Poder Judiciário, exposto tanto a ataques externos, como a vulnerabilidades internas. Às forças comprometidas com a democracia cumpre defender o Judiciário dos inimigos da Constituição, assim como propor reformas voltadas à qualificação do sistema de Justiça.

Sob o fogo da diplomacia Donroe, por Demétrio Magnoli

Folha de S. Paulo

Trump e Milei invadiram a campanha eleitoral brasileira e se converteram em cabos eleitorais de luxo de Flávio Bolsonaro

Seria um erro, contudo, concluir que Lula colhe o que semeou

Trump e Milei invadiram a campanha eleitoral brasileira. Numa operação coordenada pela Casa Branca, converteram-se em cabos eleitorais de luxo de Flávio Bolsonaro. "Presidente não deve se envolver em eleição de outro país", lembrou Alckmin, em meio ao fogo.

São palavras simples, mas sábias. A interferência veicula desprezo pelo princípio da soberania nacional, que se expressa como soberania popular. Só vale no caso de ditaduras, onde os detentores do poder anularam os direitos do povo. Aí, é quase obrigação a solidariedade com dissidentes perseguidos (uma regra, aliás, que Lula ignora quando se trata de "ditaduras companheiras"). 

O cérebro autoritário, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Eduardo Bolsonaro diz que escolha de Gaspar para vice é escudo contra impeachment

Tal visão denota paranoia institucional, que é característica de personalidades autoritárias

Adorei a reação de Eduardo Bolsonaro à escolha do polêmico Alfredo Gaspar para disputar o cargo de vice na chapa do irmão: "Com Alfredo Gaspar não compensará fazer impeachment de Flávio Bolsonaro". Não é uma observação inédita. Bolsonaristas disseram praticamente a mesma coisa quando o general Hamilton Mourão foi escolhido para concorrer como vice de Jair em 2018.

Governo Lula versus BC nas eleições deste ano, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Crítica aponta contradição entre estímulos fiscais e cobrança ao Banco Central

Pressão eleitoral amplia disputa sobre a responsabilidade pelo endividamento

Pressionados pela repercussão negativa da aceleração da dívida pública às vésperas do início da campanha eleitoral, integrantes do governo federal acionaram as baterias para culpar o BC (Banco Central) pelo crescimento do endividamento em mais de 10 pontos percentuais ao longo de três anos e meio do governo Lula 3.

Mas imagine que você foi contratado para um emprego e o seu trabalho envolve apenas uma única tarefa: manter a temperatura da sala de trabalho em 20 graus Celsius.

Jogada de Eduardo Cunha em Minas derruba outsider Cleitinho, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Com 39% nas pesquisas, favorito ao governo do estado teve a candidatura negada

Espelho das eleições presidenciais desde a democratização, cenário mineiro está embolado

Ele brigou, chorou, rezou, apelou ao luto familiar. Mas até agora nada feito. Cleitinho –cuja presença agressiva nas redes o levou de vereador em Divinópolis (MG) ao Senado com 4 milhões de votos– é a primeira grande baixa nas eleições de 2026. Um favorito que foi sem nunca ter sido.

Com 39% nas pesquisas para o governo de Minas, Cleitinho teve sua candidatura negada pelo presidente do Republicanos, Marcos Pereira, devido à sua "instabilidade". Pereira disse que o partido "não pode submeter o povo a uma situação de insegurança". Conversa. Foi uma rasteira da política fisiológica em quem posa de outsider.

Teoria Geral de Keynes: 90 anos, por Luiz Gonzaga Belluzzo

CartaCapital

A dificuldade não está nas ideias novas, mas em escapar das antigas

No Ano da Graça de 2026, a Teoria Geral de John Maynard Keynes completa 90 anos. A primeira edição do livro seminal do pensador inconformista foi publicada em fevereiro de 1936. Julgo conveniente iniciar este artigo com o prefácio da Teoria Geral:

“A composição deste livro tem sido, para o autor, uma longa luta de fuga, e a leitura dele deve ser, para a maioria dos leitores, um ataque bem-sucedido para escapar dos modos habituais de pensamento e expressão. As ideias expressas aqui, com tanto esforço, são extremamente simples e deveriam ser óbvias. A dificuldade não está nas ideias novas, mas em escapar das antigas, que se ramificam, para aqueles criados como a maioria de nós, para todos os cantos da mente”.

No célebre artigo O Fim do ­Laissez-faire­, Maynard ironizou a ideia de que a busca do interesse privado levaria necessariamente ao bem-estar coletivo. “Não é uma dedução correta, segundo os princípios da teoria econômica, afirmar que o egoísmo esclarecido leva sempre ao interesse público. Nem é verdade que o autointeresse é, em geral, esclarecido.”

O fator Mendonça, por André Barrocal

CartaCapital

O indicado por Bolsonaro ao STF faz de tudo para “equilibrar” o jogo eleitoral

A campanha presidencial começa no dia 16 na web e 28 na tevê. Flávio Bolsonaro chegará a ela com mais rejeição e menos intenção de voto nas pesquisas, tudo obra da revelação de sua intimidade com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, das maquinações da família a favor do “tarifaço” de Donald Trump e da briga com a madrasta. Derrotar Lula ficou mais difícil, arrastá-lo para a lama tornou-se uma necessidade. Para que o rechaço ao presidente suba, o senador planeja usar na propaganda eleitoral supostos áudios em que uma empresária-lobista encrencada cita Fábio Luís da Silva, o Lulinha, filho do petista. Teria munição ainda contra o ex-chefe de gabinete de Lula no Palácio do Planalto, Marco Aurélio Santana Ribeiro, outra figura próxima da lobista. O roteiro de Flávio foi revelado em 31 de julho no ­ex-Twitter por um sujeito que se identifica como “Thom” e tem entre seus seguidores o senador e um blogueiro morador da Austrália, que é uma espécie de porta-voz do clã Bolsonaro nas redes sociais.

Diplomacia às favas, por Cláudio Couto

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O populismo de ultradireita também destrói as instituições internacionais

A semana que passou foi bastante atribulada em nossa política externa, numa amostra opulenta do que ainda vem pela frente nesse âmbito, ao menos até o fim da corrida eleitoral, em outubro. Claro que essas tribulações não começaram agora. Elas ocorrem desde o início dos governos de Donald Trump e seu títere no Cone Sul, Javier Milei. Contudo, não se pode ignorar a intensificação e a coincidência temporal dos ataques ao Brasil pelos dois presidentes populistas de ultradireita.

O baixo clero recua (por ora), por Maria Inês Nassif

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Desde a Constituinte, parlamentares da velha ordem aprimoram técnicas de assalto aos cofres públicos

O baixo clero sempre existiu, inclusive na ditadura. Também antes. Era constituído por parlamentares eleitos por votos clientelistas proporcionados pelos coronéis locais, os verdadeiros donos dos chamados “votos de cabresto” (sim, uma alusão ao arreio usado em animais, para guiá-los ou prendê-los, transposto para o eleitor). O chefe local dava as cartas: era o prefeito ou o escolhia. O chefe estadual mais forte era aquele capaz de arregimentar mais donos de votos. Em algum momento, esse chefão havia sido governador, em outro voltaria a sê-lo. As eleições para o governo de estado eram indiretas e o executivo “eleito” pelos deputados­ estaduais, os ungidos nos redutos sob seu controle. O depositário dos votos de cabresto elegia sempre a maior bancada federal e os senadores – e assim, conquistava o cartão de acesso aos gabinetes oficiais em Brasília, inclusive durante a ditadura, a que se associavam.