quarta-feira, 28 de outubro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais\Opiniões

Lula não tem mais como adiar plano de ajuste fiscal

Por O Globo

Mais importante que especular sobre nomes para Fazenda é uma proposta confiável para conter a dívida pública

Como era esperado, o mercado ficou estressado com a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Bolsa caiu, juro futuro subiu, dólar disparou — e o Tesouro teve de intervir. A tensão diminuiu ontem, mas a incerteza persiste. O motivo é, na imagem feliz do colunista do GLOBO Carlos Alberto Sardenberg, a “herança maldita” de Lula para si mesmo. No atual governo, ele tratou com desdém a explosão da dívida pública, passou a campanha empilhando promessa sobre promessa sem nem querer ouvir falar em custo ou ajuste. Quem sabe fazer a conta constatou: ela não fecha. Sem ajuste, o país quebra.

O Zero Um sumiu: para onde vai a direita? Por Vera Magalhães

O Globo

Fuga de Flávio abre vácuo de liderança e expõe dificuldade da oposição a Lula de se desvencilhar do bolsonarismo

Quando parece que o Brasil vai curar a ressaca da comemoração ou do luto, o roteirista surpreende e oferece uma fuga espetacular de Flávio Bolsonaro do país, com plano ainda incerto e em tempo recorde depois da decisão de Alexandre de Moraes para que ele entregasse os passaportes.

E, como tudo no país é passível de interpretações opostas, o filho Zero Um de Jair é, para 64 milhões de brasileiros, um covarde que tem o que temer e, para boa parte dos 59 milhões que votaram nele, um perseguido por Moraes.

Se é verdade que o timing da decisão de Moraes foi coincidente com a eleição e que ela foi tomada sem que ele consultasse o Ministério Público ou que Flávio tivesse sido indiciado, também são concretos os argumentos da Polícia Federal (PF) para pedir a medida preventiva. A PF enumerou os seguintes fatos: o amigo e provável sócio de Flávio, Willer Tomaz, investigado no mesmo inquérito, já está na Flórida; o envio de vultosas quantias de recursos ainda não explicadas aos Estados Unidos pelo ex-candidato a presidente; e a declaração do irmão já foragido, Eduardo, de que, se perdesse, Flávio deveria se juntar a ele.

Da fuga fez sua verdade, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Direção Nacional de Migrações afirma que senador entrou no país às 22h50 desta terça

A Direção Nacional de Migrações, órgão do governo argentino, informou que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) entrou no país por via terrestre e decolou na madrugada desta quarta num jato particular rumo ao Equador.

De acordo com o plano de voo informado às autoridades locais, a aeronave decolou de Puerto Iguazú e deve pousar em Guayaquil, no Equador.

De lá, é esperado que o ex-presidenciável e a família sigam viagem rumo aos Estados Unidos, com autorização do presidente Donald Trump.

O Brasil voltou ao normal, por Elio Gaspari

O Globo

A ameaça do candidato do PL durou uma noite

Para quem se lembra do pesadelo vivido pelo Brasil há quatro anos, a decisão de Flávio Bolsonaro de desistir de batalhar pela anulação do pleito foi um alívio. Sinal de que a direita, derrotada por uma margem de 4,4 milhões de votos, decidiu aquietar-se nos Estados Unidos.

Há quatro anos, vivandeiras acampavam diante de quartéis, pedindo um golpe de Estado. O afastamento dos militares da política foi uma das maiores realizações do Lula 3.0.

Ele conseguiu isso porque, ao contrário de seu antecessor e de alguns çábios do mercado, não opera jogando na tensão. A vitória de Lula foi um poderoso sinal de que, em quatro anos, ele recolocou o Brasil no caminho da normalidade. Até Donald Trump e presidentes latino-americanos deram-se conta disso.

Janela para rearranjos das forças de esquerda e direita, por Fernando Exman

Valor Econômico

Nos bastidores, há também uma cobrança para que Lula prestigie novas lideranças locais

Concluída a eleição, esquerda e direita devem passar por processos de reorganização de suas forças políticas. À esquerda, o que se espera é que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) lidere pessoalmente o processo e não repita o “erro” dos últimos quatro anos de não aproveitar o comando do governo central para fortalecer novas lideranças e partidos aliados - não apenas o PT. A avaliação é que, em caso de derrota no domingo (25), a esquerda só voltaria ao poder em um horizonte de longo prazo, o que não ocorreu por muito pouco. Em relação à direita, o desafio é distinto: aproveitar a fuga de Flávio para os Estados Unidos e abrir caminho a uma liderança que não tenha o sobrenome nem dependa do crivo do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Cenário cria fissura na extrema direita, diz pesquisador, por Lucas Monteiro

Valor Econômico

Para Odilon Caldeira Neto, campo bolsonarista terá que disputar com esquerda mais organizada nas redes

A possível fuga do senador e candidato derrotado à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ), do Brasil para os Estados Unidos, provoca uma fissura e abre espaço para novos nomes na extrema direita, mas o bolsonarismo tem pela frente o desafio de disputar as ruas com o que chama de campo democrático, avalia Odilon Caldeira Neto, professor de História na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e coordenador do Observatório da Extrema Direita.

“Com Jair Bolsonaro preso; Eduardo e possivelmente Flávio nos Estados Unidos e a incógnita na articulação política que representam Carlos e Jair Renan, foram criadas fissuras no campo da extrema direita, que podem se refletir numa reorganização das alas desse grupo”, afirma o professor. As alas às quais Odilon se refere são a evangélica, a feminina e a de segurança.

O homem que viu o trem passar e a fuga de Flávio Bolsonaro para os EUA, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Flávio Bolsonaro recebeu 48% dos votos. A votação não lhe concede imunidade penal, mas aumenta a responsabilidade das autoridades de explicar suas decisões

 George Simenon foi um dos mais importantes e produtivos escritores de romances policiais, a maioria deles tendo como protagonista o Comissário Maigret. “O homem que via o trem passar” (1938) é um célebre romance psicológico do autor, cujo principal personagem é Kees Popinga, holandês pacato, burguês e exemplar chefe de escritório na cidade de Groningen, que pira quando descobre que seu patrão faliu e fraudou a empresa.

Lula usará a sua força popular para garantir a governabilidade? Por Pedro Neiva*

Correio Braziliense

Lula pode mobilizar apoio público para aumentar o custo político da resistência parlamentar e melhorar suas condições de negociação

Depois da vitória do presidente Lula no domingo, a pergunta que fica é: como irá governar com um Legislativo dominado pelo Centrão e pela extrema-direita? Será ele um “pato manco” ou será capaz de fechar a sua biografia de forma triunfante? Difícil dizer com certeza, mas podemos especular. 

Desde os anos 1990 até 2014, o país vinha sendo governado por meio de uma composição governamental baseada na distribuição de ministérios e cargos entre os partidos e na execução de emendas orçamentárias de interesse dos parlamentares. A forma centralizada de funcionamento do Congresso em torno das lideranças partidárias permitia que o presidente negociasse a sua agenda com as bancadas partidárias, e não com os deputados individualmente. A iniciativa exclusiva do presidente em determinadas matérias, a solicitação de urgência legislativa e a possibilidade de editar medidas provisórias completavam o quadro, dando ao Poder Executivo a capacidade de pautar e acelerar a sua agenda no Congresso.

Fuga de Flávio é problema para a direita e para Lula, por Igor Gielow

Folha de S. Paulo

Senador repete pai e irmão, agindo como culpado de crimes enquanto alega sofrer perseguição política

Aliados serão obrigados a optar entre solidariedade e distância; episódio pode gerar crise com os EUA

Dois dias após receber 59.826.041 votos, credenciando-se como ator central da direita brasileira, Flávio Bolsonaro comportou-se como culpado dos crimes pelos quais é acusado, optando pela fuga e pela fácil retórica da perseguição política.

O senador pelo PL do Rio fez jus ao sobrenome. No penúltimo dia como presidente da República, seu pai Jair embarcou para um autoexílio conveniente nos Estados Unidos, tendo fracassado em arregimentar os militares para dar um golpe e fingindo nada ter a ver com a intentona bolsonarista do 8 de Janeiro.

Depois, já bafejado pela condenação inevitável no julgamento daquela trama, cumprindo medida cautelar, Bolsonaro protagonizou o inacreditável episódio em que tentou romper sua tornozeleira eletrônica com um ferro de solda e escapulir da prisão domiciliar.

Flávio, o mártir do pau oco, quer criar nova revolta dos Bolsonaros contra o 'sistema', por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

No padrão da família, candidato derrotado foge da polícia e quer subverter política

Fuga lança tumulto nas fileiras da oposição a Lula 4 e inspira adeptos da 'direita cheirosa'

A fuga de Flávio Bolsonaro dá o que pensar sobre o destino da oposição a Lula 4 e sobre a montagem de um projeto da direita para 2030. Talvez os Bolsonaros se façam de mártires da desdemocratização do Brasil, de vingadores dos oprimidos pelo "sistema", mote fundamental da família e das extremas direitas.

Podem meter os pés pelas mãos se tentarem, com sucesso, apoio do governo americano para campanha qualquer contra o Brasil. Por exemplo, Donald Trump poderia aceitar um processo de asilo político para os Bolsonaros. Diria assim que o regime brasileiro não é democrático, que persegue politicamente cidadãos. Pelo meio do caminho, haveria sanções, políticas ou comerciais.

Lula ganhou a eleição e agora precisa reconquistar a classe C, por Renato Meirelles

Folha de S. Paulo

Petista ganhou porque, diante de Flávio, pareceu a escolha mais segura

Presidente deu motivo ao eleitor para não trocar o certo pelo duvidoso, mas o quarto mandato precisa oferecer mais do que a opção menos arriscada

Há 25 anos ganho a vida escutando os brasileiros. Em cada eleição, aprendo alguma coisa que não cabe no questionário. A deste domingo me lembrou uma lição antiga: é possível reclamar do governo, desejar mudanças e, diante da alternativa, decidir continuar com o presidente. Foi o que fez uma fatia decisiva da classe C. Sem entusiasmo, somando a rejeição ao adversário à segurança de quem já sabe o que tem em casa.

Escutei muita impaciência com Lula. O preço da feira não voltou ao que era, a dívida não desapareceu e o medo de andar na rua continua. Nada disso sumiu na cabine de votação. Mudou a comparação. No primeiro turno, quando Flávio terminou na frente, bastava ao eleitor descontente manifestar a insatisfação, e o bolsonarismo era o endereço mais à mão. No segundo, ele precisava decidir quem colocaria no lugar de Lula.

Final feliz? Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Lula escapou de encerrar carreira perdendo para o pior dos Bolsonaros

Próximos quatro anos não serão fáceis e definirão biografia do petista

Ao conquistar seu quarto mandato, Lula foi abençoado ou amaldiçoado pelos deuses da política? A resposta não é óbvia, e não apenas porque o futuro é contingente.

Atribui-se a Sólon a máxima segundo a qual, diante das reviravoltas da vida, não podemos afirmar que uma pessoa foi feliz até que ela tenha morrido. Divirjo de Sólon. Imaginemos um indivíduo que tenha vivido 80 anos desfrutando de todos os prazeres carnais e intelectuais e em pleno êxtase moral, mas que, em seu último dia de existência, tenha sido torturado e depois degolado. Penso que, objetivamente, pelas métricas mais razoáveis, esse homem foi mais feliz do que infeliz. Falamos de 29.220 dias de bem-aventurança contra algumas horas de dor. Reconheço, porém, e aí convergindo com o sábio grego, que, para efeitos biográficos e de narrativa, finais fazem toda a diferença. E política é narrativa.

País deu recados ao governo e à oposição, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Primeiro turno foi um aviso a Lula, e o segundo alerta à direita sobre malefícios de se atrelar ao bolsonarismo

Antiguidades como fascismo e comunismo não estiveram em disputa na cabeça do eleitorado pragmático

A cena eleitoral de 2026 desenhou com nitidez a escrita de que o segundo turno é uma outra eleição. O primeiro foi um aviso de insatisfação do eleitorado ao presidente Lula (PT); o segundo enviou à direita um recado sobre os malefícios de se manter agarrada ao pé da mesa da família Bolsonaro.

Se o campo que se fortaleceu nos governos estaduais e no Legislativo insistir em lançar desconfiança sobre o resultado das urnas e ficar preso a anistias de golpistas, pode perder o bonde, o controle da agenda e desperdiçar a vantagem no Congresso.

Flávio fujão, por Mariliz Pereira Jorge

Folha de S. Paulo

Tique-taque soa como bomba-relógio; em fevereiro, senador fica sem costas quentes pela primeira vez em 24 anos

País só vai recuperar a sanidade quando essa família for varrida da política pelo voto e pela lei

Fugiu, desapareceu, escafedeu-se. Para Flávio, o Bolsonaro mais corrupto, era isso ou cadeia o que restava. No domingo, derrotado, engrossou a voz para anunciar que pediria anulação do resultado. Na segunda, intimado a entregar os passaportes, gravou vídeo jurando patriotismo: jamais pensara em deixar o país. Na terça, segundo aliados, já está na Flórida com a família, com asilo garantido.

Para que serve a polarização? Por Roberto DaMatta

O Estado de S. Paulo

No domingo, com o seu voto, você ajudou a adormecer uma forma de polaridade: a oposição, burramente vista no Brasil como irreconciliável, entre a direita e a esquerda. Este dualismo, em tese, impede de maneira estúpida qualquer colaboração. Hoje, porém, com um novo presidente eleito, essa polarização terminou para dar lugar a uma oposição que a esquerda e a direita escamoteavam, a saber: a oposição entre a centralidade dos poderosos que vão para os palácios e a situação dos perdedores que são relegados à periferia. Agora, tranquilos, sabemos quem são os mandões e quem são os mandados. Ou seja, voltamos a viver a oposição rotineira entre os que detêm o poder e aqueles que devem se submeter a ele. Recuperamos a concepção tradicional de autoridade e, assim, restauramos o velho reino imperial iniciado com d. João VI e continuado pelos golpes, ditaduras e governos demagógicos.

Mais Alckmin, menos Janja, por Fábio Alves

O Estado de S. Paulo

O sentimento de vários analistas é de que Lula precisa mudar a postura dos últimos quatro anos

No calor do desfecho da eleição presidencial, no domingo à noite, ao ser perguntado sobre o que esperava da política econômica no quarto mandato de Lula, um renomado economista foi lacônico: “Mais Alckmin, menos Janja”. A conversa parou por aí, mas resumiu o sentimento de vários analistas de que o presidente reeleito precisa mudar a postura dos últimos quatro anos, quando deu ouvidos às opiniões das lideranças do PT em detrimento do que esperava a coalizão de centro que o ajudou a derrotar Jair Bolsonaro em 2022.

Fuga de Flávio abre disputa na oposição, por Vera Rosa

O Estado de S. Paulo

Presidente é aconselhado a ignorar rival e anunciar medidas para conter crescimento de despesas; petista não acredita em nova intentona golpista

A fuga do senador Flávio Bolsonaro (PL) para os Estados Unidos abre uma disputa acirrada pelo comando da oposição ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, reeleito para o quarto mandato. Até agora, o PL não definiu quem exercerá esse papel e há uma briga nas fileiras do bolsonarismo pelo espólio político de Jair Bolsonaro.

Embora o mandato de Flávio termine em 31 de janeiro de 2027, data em que perde o foro por prerrogativa de função, ele próprio anunciou, um dia após a derrota para Lula, que irá “organizar” a oposição ao governo. A portas fechadas, aliados de Flávio dizem que os senadores eleitos Michelle e Carlos Bolsonaro, ambos do PL, não têm esse perfil. Os dois, aliás, nem se falam.

Poesia | Monotonia, de Fernando Pessoa

 

Música | Canta, Canta Minha Gente - Varios Artistas (Sambabook Martinho da Vila)

 

terça-feira, 27 de outubro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais\Opiniões

Flávio precisa reconhecer que perdeu eleição

Por O Globo

Ante resultado incontestável das urnas, senador sairia mais forte se admitisse que nada há a contestar

O resultado da eleição de domingo é incontestável. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) derrotou o senador Flávio Bolsonaro (PL) por 51,8% a 48,2% dos votos válidos, diferença superior a 4,4 milhões de votos. Ainda assim, a exemplo do que fez Jair Bolsonaro em 2022, Flávio não reconheceu a derrota. “É impossível reconhecer o resultado das eleições”, afirmou na noite de domingo, em seu primeiro pronunciamento depois da divulgação dos números pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Ora, o próprio presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, veio a público reafirmar a lisura do pleito e confirmou a vitória de Lula. “Temos absoluta segurança de todo o processo eleitoral”, afirmou. A recusa em aceitar o resultado das urnas viola o princípio mais básico de qualquer democracia.

O movimento que venceu a eleição, por Míriam Leitão

O Globo

A avalanche que entregou 10 milhões de votos a mais a Lula foi a verdadeira frente ampla. Não a dos partidos, mas a das ruas e das redes sociais

Foi épico e educativo. Nunca se viu uma vitória eleitoral assim. A estratégia do segundo turno não nasceu no comitê de campanha do presidente Lula. Brotou nas ruas. Um movimento espontâneo de estudantes em Niterói, que se espalhou pelo país, comandado por jovens nascidos digitais. Terminou sendo confirmado pelos mais velhos, que foram votar, muitos levados por seus netos. A reeleição de Lula tem muito a ensinar sobre tendências, política, comunicação, sociologia.

Na economia, no primeiro dia, o mercado desabou como era de se esperar. E aí não há mistério. Os operadores estavam com posições montadas para o cenário de vitória de Flávio Bolsonaro. O desmonte está sendo tão grande quanto a aposta. Durante alguns dias, o mercado continuará assim em queda, depois a volatilidade diminuirá naturalmente, mas deve impactar, por exemplo, os próximos boletins Focus, que refletem as expectativas dos gestores do dinheiro. Seria prudente reduzir incertezas fiscais e econômicas. De fato, existem e precisam ser enfrentadas, com esclarecimento sobre o futuro das contas públicas. Se o dólar ficar em alta por muito tempo, eleva a inflação, a queda das bolsas fragiliza empresas, a instabilidade financeira pode ter consequências adversas e aleatórias.

Virada histórica terá impacto nos próximos anos, por Fernando Gabeira

O Globo

A direita poderá se libertar da liderança dos Bolsonaros, o que não significa que eles desaparecerão. Só ocuparão lugar mais modesto

Ainda é cedo para muitas conclusões. A extraordinária mobilização popular que tirou Lula de um segundo lugar no primeiro turno e lhe deu mais 10 milhões de votos no segundo certamente não será esquecida.

Um dos primeiros reflexos deve ser no quarto governo Lula. Ele mencionou algumas vezes que governará de forma diferente e ouvirá mais os outros. Essa abertura tem o potencial de enriquecer seu mandato, salvando-o das armadilhas burocráticas. A derrota da direita no segundo turno também serve para alterar seu destino político. Mesmo quando as pesquisas eram desfavoráveis a Lula, elas já revelavam uma variável crescente: crescia o medo entre os eleitores de uma volta da família Bolsonaro.

Sonho democrático, por Merval Pereira

O Globo

O país deu uma demonstração de que não quer mais a visão autoritária de governo de Bolsonaro. É um bom sinal.

O que saiu vencedor anteontem foi a rejeição à volta ao poder do extremismo de direita, mais que a preferência pelo petismo ou pela esquerda. Não se tratou de ser a favor de Lula, mas contra os Bolsonaros. Os jovens que saíram às ruas buscavam a figura original de Lula, criada pela imaginação da maioria que nem o viu chegar ao poder em 2002, mas herdou a memória da saga do operário que veio de baixo e chegou ao Palácio do Planalto defendendo valores humanísticos e morais que haviam se perdido na luta da velha política contra o novo que chegava.

Um novo Brasil, por Pedro Doria

O Globo

Pela primeira vez em muito tempo, houve um embate político público entre duas grandes ideias de Brasil

Como definimos democracia? Existem dois caminhos. Quando olhamos de cima para baixo, o regime é feito de suas instituições. Os três Poderes operando em sintonia, nenhum ator que abuse da autoridade que tem. Impessoalidade. Por esse ângulo, o Brasil vai mal. Mas há outro jeito de ver, de baixo para cima. Não a democracia dos Poderes, mas a do povo. Uma sociedade engajada, atuante. Atenta. Ciente de que o regime depende dela. Não uma sociedade que diga — “isto é com eles, cuido só do meu”. O contrário. Uma sociedade dedicada ao trabalho comum de construir em conjunto a nação. Vista assim, do chão, da rua, talvez o Brasil esteja bem melhor do que nos habituamos a enxergar. Existe uma saída para nossa crise. Mas nossos líderes a reconhecerão?

Conquista do 4º mandato liberta Lula do ressentimento, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Foi a descoberta de que poderia falar diretamente com o eleitor para romper com a divisão do país que o libertou

Passados quase sete anos desde que deixou a carceragem da Polícia Federal em Curitiba, só agora, ao conquistar seu quarto mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva parece ter se libertado daquele cubículo de 15 metros quadrados em que passou 580 dias.

Muitos dos problemas que se acumularam em sua volta ao poder em 2022 tiveram como motor a percepção, equivocada, de que havia sido redimido de sua prisão quando, na verdade, foi usado de escudo contra o bolsonarismo. A montagem do governo e, principalmente, da equipe palaciana, refletiu um presidente mais ressabiado que se fiou, sobretudo, na relação de confiança pessoal com seus indicados que lhe traziam sua leitura do país em sua nova prisão, os palácios do poder.

Alckmin ganha protagonismo dentro do governo, por Andréa Jubé

Valor Econômico

Vice-presidente emergiu como cotado para o Ministério da Fazenda, com o apoio de lideranças do PSB e de alas do governo

Com sua relevância reconhecida tardiamente, o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) terá mais protagonismo no quarto mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), no qual se espera que a frente ampla que, novamente, foi decisiva para a vitória petista, tenha mais espaço e voz no governo. Após o empenho no segundo turno, que ampliou a votação da chapa, Alckmin emergiu como cotado para o Ministério da Fazenda, com o apoio de lideranças do PSB e de alas do governo.

Reeleição, boa hora para ajustar o programa industrial, por Pedro Cafardo

Valor Econômico

Estudo mostra que programas para desenvolvimento da indústria no país contribuíram positivamente, mas foram limitados pelo regime macroeconômico

Por que falharam programas para industrializar o país? Como dar continuidade ao NIB (Nova Indústria Brasil)? Depois do resultado da eleição de domingo, essas perguntas já deveriam tirar o sono de postulantes a cargos na área econômica do governo Lula 4.

Bom começo seria a leitura de um robusto trabalho acadêmico feito por quatro economistas brasileiros que estudaram o insucesso dos programas industriais lançados depois das reformas liberalizantes dos anos 1990: André Nassif, da Universidade Federal Fluminense, Carmem Feijó, do CNPq, Eliane Araújo, da Universidade Estadual de Maringá, e Paulo César Morceiro, da Universidade de Johannesburgo.

A conclusão dos economistas, testada com dados estatísticos e econométricos, indica algumas causas desse insucesso. Em resumo, a eficácia da política industrial teria sido limitada pela ausência de um regime macroeconômico de suporte em ambiente caracterizado por juros reais persistentemente elevados e por episódios recorrentes de sobrevalorização cambial. A falta de coordenação entre as políticas monetária, fiscal e cambial limitou os resultados.

Nível do dólar terá influência na definição da resposta fiscal, por Sergio Lamucci

Valor Econômico

Se o câmbio ficar mais pressionado, o governo será compelido a adotar ajuste mais forte

O comportamento do câmbio nas próximas semanas será crucial para definir as perspectivas para a política monetária e para a resposta do governo às incertezas fiscais. Ontem, o dólar chegou a superar R$ 5,60, fechando em 8,21%, a R$ 5,4027, em reação à vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na eleição, que pegou o mercado no contrapé.

Ainda é cedo para saber em que nível a moeda vai se acomodar, mas um dólar que se estabilize num preço mais alto ou entre numa espiral de alta pode interromper ou mesmo reverter o ciclo de queda dos juros, por pressionar a inflação. Numa economia já sem fôlego, o risco seria transformar a desaceleração em recessão, castigando ainda mais famílias e empresas endividadas, um cenário que seria muito ruim para a popularidade de Lula.

Ressaca da virada eleitoral de Lula derruba a bolsa de valores e frustra Trump, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O Departamento de Estado havia preparado um comunicado sobre a eleição, mas sua divulgação foi suspensa depois que Flávio Bolsonaro pediu a anulação do segundo turno

A vitória de virada de Luiz Inácio Lula da Silva deixou uma ressaca que ultrapassa o desconforto dos derrotados. A contestação do resultado por Flávio Bolsonaro, o respaldo de Donald Trump às suspeitas lançadas sobre a votação, o tombo dos ativos brasileiros e uma nova intervenção de Alexandre de Moraes, que cancelou o passaporte do candidato derrotado e proibiu-o de deixar o país, compõem um cenário de instabilidade.

Lula conquistou o quarto mandato, mas recebeu, antes mesmo de encerrar a comemoração, uma advertência sobre as dificuldades de exercê-lo. O primeiro problema é a recusa de Flávio em reconhecer a derrota. O senador anunciou que pedirá a anulação da eleição, questionando a decisão do ministro Cristiano Zanin de ampliar o horário de votação diante de problemas de transporte.

Uma frente ampla pela democracia, por Ysadora Monteiro e Adrian Albala*

Correio Braziliense

Lula necessita abrir o núcleo decisório do governo às forças que autenticamente compuseram essa frente ampla, para que os agentes que falam em seu nome reflitam na prática essa intenção

O deputado André Janones afirmou, em uma das últimas mensagens que dirigiu antes do segundo turno aos apoiadores virtuais de Lula que organizou nas redes sociais, que o próprio Lula dissera a ele que, "nas eleições anteriores, tinha sido eleito por um partido, mas agora seria eleito pelo povo". O futuro da governabilidade do país depende de que Lula esteja realmente convencido do que disse. 

A significativa vitória no segundo turno, com números muito expressivos, não terá sido motivada por adesão a uma agenda apresentada por ele. Se assim fosse, teria impactado as urnas já no primeiro turno. A grande virada decorre, fundamentalmente, da (auspiciosa) rejeição do extremismo autoritário por parte de uma majoritária parcela da população que é muito maior do que o eleitorado de qualquer partido ou coligação. Felizmente, a maioria da população tomou consciência a tempo do risco que corria a democracia e transformou o segundo turno num plebiscito a favor da democracia.

Romper com o bolsonarismo é imperativo para a direita sobreviver e ter nome forte em 2030, por Roseann Kennedy

O Estado de S. Paulo

Derrota de Flávio Bolsonaro (PL) nas urnas simboliza derrota política da família; Michelle Bolsonaro, por sua vez, ensaia carreira solo

O resultado das urnas no segundo turno não simbolizou apenas um tropeço eleitoral para Flávio Bolsonaro (PL). Representou, acima de tudo, uma derrota política para a família Bolsonaro.

O revés significa que o irmão Eduardo continuará foragido nos Estados Unidos, enquanto o patriarca, Jair, seguirá recluso na prisão sem qualquer horizonte de soltura ou anistia.

No Congresso, Carlos Bolsonaro será apenas um entre 81 senadores, desprovido da musculatura política que teria caso o irmão alcançasse a Presidência da República. Assim como Jair Renan, na Câmara, no meio de outros 512 deputados federais.

Correndo por fora, Michelle Bolsonaro avança em uma carreira solo. Sem o sangue da dinastia, a ex-primeira-dama já é aconselhada nos bastidores a adotar apenas o primeiro nome. A estratégia visa consolidar sua trajetória individual e blindar seu capital político junto ao eleitorado feminino e de direita.

Desafios internos e externos para Lula 4, por Rubens Barbosa*

O Estado de S. Paulo

A política externa deve ser vista como política de Estado, sem influência ideológica e partidária

Em seu quarto mandato, o governo Lula, desde o início, terá de enfrentar desafios institucionais, de governabilidade, econômicos, na área de defesa e segurança e na de política externa para atender aos anseios e demandas do eleitorado de centro que o apoiou para não votar em Flávio Bolsonaro. O Congresso, de maioria conservadora, pode dificultar as iniciativas do novo Executivo. A contestação do resultado eleitoral acrescentará problemas internos e externos. A nova geopolítica global impõe uma nova agenda na defesa dos interesses nacionais.

Esquerda fraca, direita desgovernada, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

É com Centrão, não com PT e esquerda, que Lula vai responder sobre a crise fiscal

Passada a festa da vitória e curada a ressaca, o presidente Lula tem de retomar o fôlego para enfrentar adversários de peso: a crise fiscal, o mercado financeiro, o agronegócio e um bolsonarismo forte, mas sem liderança. Logo, uma força à deriva, desgovernada, com o único objetivo de infernizar o governo.

O Brasil caminha para 2027 com um desequilíbrio descomunal entre receitas e gastos, uma herança maldita que Lula deixa para o próprio quarto mandato e dá o empurrão final para a turma da Faria Lima deixar o pragmatismo de lado, apostar errado e perder com Flávio Bolsonaro.

2º turno foi sobre medo de Bolsonaro no poder, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

A mobilização lulojanonista não foi espuma para convertidos. No mundo real, onda convertedora de nulos, arrastadora de votos para Lula, capaz de tirá-los, aos milhões, de Flávio Bolsonaro; de explorar a ressaca daquele eleitor que, rejeitando mais o presidente que o desafiante no primeiro turno, terá passado três semanas diante da própria escolha, condenado a contemplar o que seria um governo do filho de Jair.

A projeção da imagem do Flávio presidencial – subsidiada por um candidato à vontade para exibir o que é – foi-lhe feia, ao que se somaria a campanha que o apregoava como supressor de direitos, enquanto Lula corrompia a máquina para prometer até Pix de R$ 5 mil. Se a eleição no primeiro turno fora sobre Lula e teve como produto uma advertência ao incumbente, a do segundo foi sobre o medo de Bolsonaro no poder. Considere-se a hipótese de o eleitor ter afinal optado por Lula frente ao que seria o capital político na mão de um Bolsonaro: quase autossuficiente no Senado e a indicar três ministros do Supremo.

O que Lula 4 pode fazer para domar o pânico dos donos do dinheiro grosso, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Virada enorme em 'o mercado' era previsível, com volta a uma situação anterior já ruim

Questão agora é se novo governo vai reagir logo para ganhar crédito, perdido sob Lula 3

Os patinetes que congestionam as ciclovias da Faria Lima sabiam que esta segunda (26) seria de pânico. Os donos do dinheiro grosso e os povos dos mercados em geral entraram no final de semana achando que, depois de Lula 3, viria Bolsonaro 2. Houve gente que viajou para a Boa Vista ou para a Grama e nem votou (são nomes de condomínios de lazer para ricos no interior paulista). Para o choque de muitos e surpresa geral (deste jornalista inclusive), veio Lula 4. Muita gente perdeu dinheiro e quase todo mundo teve de mudar as aplicações com medo de perder ainda mais, para dizer a coisa de modo caseirinho.

Ufa! Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Virada histórica de Lula sobre Flávio Bolsonaro reduz riscos para a democracia

Na economia, presidente terá de lidar com herança maldita que ele próprio criou

Entre a sabedoria das massas e a loucura das multidões, o Brasil se pautou, talvez excepcionalmente, pela primeira. A população preferiu reentronizar um Lula enfraquecido a entregar as chaves do Planalto a um Flávio Bolsonaro com representação reforçada no Legislativo. É uma atitude inteligente, considerando o histórico antidemocrático do bolsonarismo. Prova-o a recusa de Flávio em reconhecer de imediato que sofreu uma derrota por mais de 4 milhões de votos de diferença.

Desafio de Lula é corresponder à vitória do esforço coletivo, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Conquista da reeleição foi obra construída a milhões de mãos, às quais será imprescindível retribuir a confiança

Agora o presidente tem dois meses até a posse para dizer realmente o que pretende no quarto mandato

Feita a escolha dos brasileiros, o presidente reeleito terá pela frente pouco mais de dois meses até a nova posse para dizer realmente a que pretende vir em seu quarto mandato, sem a máscara cor-de-rosa das contingências de campanha.

No discurso da vitória, Luiz Inácio da Silva (PT) sinalizou ter absorvido aprendizado dessa eleição ao dizer que mudará "o jeito de governar". Não tendo sido mero reflexo do feito memorável da virada e fruto de alívio diante do susto da sombra da derrota, a frase carrega uma boa mensagem.