sábado, 22 de agosto de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Nossas escolhas

Por CartaCapita

CartaCapital aponta suas preferências eleitorais

Desde 1994, quando a edição número 1 chegou às bancas, esta publicação tem por hábito indicar os candidatos que considera mais habilitados a conduzir os rumos do País. CartaCapital fia-se, em primeiro lugar, na tradição das mais prestigiosas publicações do mundo. Há 174 anos, em todo ciclo eleitoral, The New York Times informa aos leitores as razões de seu “voto”. A partir dos anos 1960, o principal jornal dos Estados Unidos passou a apoiar de forma sistemática os presidenciáveis do Partido Democrata. O costume havia se solidificado na mídia norte-americana ao longo do século XX, mas sofreu um revés na última eleição, quando alguns novos magnatas dos meios de comunicação, oriundos do Vale do Silício, decidiram trocar a opinião dos editoriais pela fila do gargarejo na posse de Donald Trump. Qualquer semelhança com repúblicas de banana não é mera coincidência.

Na Europa, o britânico The Guardian nasceu alinhado aos trabalhistas, enquanto The Daily Telegraph integra as fileiras dos conservadores. Os liberais da revista The Economist ultrapassam fronteiras: escolhem seus preferidos não só no Reino Unido, dão pitacos nas disputas em países considerados fundamentais para o triunfo dos valores capitalistas defendidos pela redação.

Captura de precedentes, por Oscar Vilhena Vieira

Folha de S. Paulo

Advocacia de compadrio e múltiplas outras formas de aproximação indevida entre magistrados e partes interessadas têm se tornado cada dia mais efetivas

A transferência de poderes e prerrogativas aos tribunais brasileiros não veio acompanhada dos devidos cuidados

A batalha pela conformação de precedentes judiciais não chega a ser uma novidade, especialmente em países de common law, onde os precedentes sempre constituíram uma fonte essencial do direito, com enorme relevância na organização e uniformização do sistema de justiça. Precedentes são decisões judiciais que não se limitam a resolver um caso concreto, mas que projetam as regras estabelecidas no caso concreto para a solução de novos casos no futuro.

Jogos de poder, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Pela lei e pela lógica, inquéritos contra Lulinha deveriam estar na primeira instância

A tendência, porém, é ministros do STF manterem as investigações sob sua guarda

Pelo que foi vazado até aqui, as suspeitas contra Fábio Luís Lula da Silva, o popular Lulinha, ganharam embaraçosa materialidade. Não acho que o caso levará muitos petistas a desistir de votar em Lula, mas poderá custar votos entre eleitores desalinhados, que tendem a ser decisivos num eventual segundo turno. O que serve de consolo para a campanha de Lula é que seu principal adversário, Flávio Bolsonaro, também está envolvido em suspeitas e muito mais diretas —não é mesmo, irmão Vorcaro?

Sem o clamor das ruas, campanha do filho 01 se reduz às redes, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Fiasco do ato inaugural em Copacabana reforça estratégia no digital

Primeira tentativa deu errado: sunga branca de Flávio B foi desaprovada por seguidores

Flávio Bolsonaro soma aproximadamente 17,6 milhões de seguidores em suas redes sociais. Mesmo sem postar há 13 meses, o pai tem 67,2 milhões; a prisão quase não alterou o número. No mundo digital o filho do peixe continua a ser um peixinho.

Daí que a campanha bolsonarista, tentando repetir o terremoto que abalou as redes em 2018 e afastar o incômodo com o desempenho tímido do senador, se esforça para fazer com que a tropa de aliados replique os posts. O primeiro a ser intimado a participar do esquema foi o deputado Nikolas Ferreira (44,2 milhões de seguidores).

Lula liga para Trump e diz que tarifaço contra Brasil é baseado em alegações infundadas

Folha de S. Paulo, por Isadora Albernaz , Ricardo Della Coletta , Caio Spechoto e Mônica Bergamo

Presidentes do Brasil e dos Estados Unidos conversaram por telefone nesta sexta (21)

Americanos impuseram tarifas que chegam a 37,5%

Brasília e São Paulo O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) telefonou na manhã desta sexta-feira (21) para o presidente dos Estados UnidosDonald Trump, e disse que o mais recente tarifaço aplicado contra o Brasil é baseado em "alegações infundadas" envolvendo o Pix, o etanol brasileiro e importações com trabalho forçado.

Segundo o comunicado do Planalto, a ligação durou 1 hora e 20 minutos e ocorreu "em tom amistoso e cordial" entre Lula e Trump, que teria sugerido que os negociadores dos dois países voltassem a se reunir "o mais brevemente possível" —sem detalhar uma data.

A conversa se deu em um momento em que autoridades do governo Lula, que é candidato à reeleição, têm repetido que temem interferência estrangeira dos EUA nas eleições brasileiras. A gestão Trump é próxima do principal rival do petista, o candidato do PLFlávio Bolsonaro.

Largada acirrada, por Bernardo Mello

O Globo

Levantamento divulgado nesta sexta-feira, o primeiro desde a definição das candidaturas, mostra uma relativa estabilidade nas intenções de voto

Com a campanha ao Palácio do Planalto oficialmente em curso desde o último fim de semana, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aparece em vantagem em um eventual embate direto contra o senador Flávio Bolsonaro (PL), mas começa a corrida à reeleição pressionado pela piora da avaliação de seu governo. Pesquisa Datafolha divulgada ontem, a primeira desde a definição das candidaturas, mostra uma relativa estabilidade nas intenções de voto de Lula, Flávio e de outros aspirantes à Presidência. A imagem negativa do governo petista, no entanto, supera neste momento a percepção positiva, e o levantamento sugere um aumento do desgaste da gestão que é incomum em períodos eleitorais.

Linchamento em Copacabana é o fundo do poço, por Flávia Oliveira

O Globo

Há responsabilidade de um Estado que, detentor do monopólio da força, se mostra incapaz de dar segurança aos cidadãos

Não chega a ser novidade a banalização da vida. No Rio de Janeiro. No Brasil. No mundo. Discute-se intensamente quais são os corpos suscetíveis à morte, deixados para morrer, matáveis. Cartão-postal carioca, território do maior réveillon do planeta, cenário de atrações internacionais todo mês de maio, bairro do hotel mais famoso do país, Copacabana agora é também palco da barbárie nua e crua. Cláudio Rafael Landeiro, de 37 anos, foi espancado até a morte, em via pública, por quatro assassinos, por supostamente ter subtraído a bicicleta com que saíra para passear na noite de terça-feira, 11 de agosto.

Se essa livraria fosse minha, por Eduardo Affonso

O Globo

Jamais terei uma: me contento com ir trazendo um pouco de cada uma para dentro de casa

Alguém um dia olhou para uma livraria e disse: “É uma janela”. Talvez pensasse no Drummond de “O mundo é grande e cabe nesta janela sobre o mar”. Ou, mais modestamente, no clichê das janelas da alma. Não importa: numa livraria cabe o mundo, por grande que ele seja. Por ela se enxerga a invisível, intangível, inexistente alma humana.

Mas janela é uma portinhola, uma januella — a pequena janua, como os romanos chamavam a porta da rua, passagem do reino de dentro ao de fora, numa evocação ao deus de duas caras, Janus, que vê ao mesmo tempo o futuro e o passado. Janela é por onde se espia; livraria é mais: é por ali que se entra. Para avistar o já feito — na estante dos fundos, destinada aos clássicos — e vislumbrar o por fazer, na banca da entrada, território do que só existirá depois de lido.

O que Odisseu pode ensinar ao liberalismo, por Fareed Zakaria*

O Estado de S. Paulo

Desafio é preservar dignidade humana enquanto recuperamos nossa capacidade de ambição heroica

As nações ocidentais nos séculos 19 e 20 foram, em sua época, as sociedades mais liberais da história

Finalmente fui assistir ao novo filme de Christopher Nolan, A Odisseia, para curtir um grande sucesso de bilheteria – e ele superou todas as expectativas. Não tinha a intenção de comentar as várias polêmicas em torno do filme, desde as críticas de que ele é “woke” até as alegações de que é historicamente impreciso (pelo amor de Deus, trata-se de uma história de quase 3 mil anos repleta de deuses e deusas, gigantes caolhos e magia!). Mas o comentário de Ezra Klein sobre o filme me levou a refletir sobre as questões mais amplas que ele levanta, as quais me parecem interessantes e importantes.

A vontade de Deus influencia o seu voto? Por Juliana Diniz*

O Povo (CE)

Vivemos em um estado laico, mas isso não significa dizer que Deus está totalmente aposentado da política. Uma pesquisa interessante conduzida pelo Laboratório de Estudos Socioantropológicos em Política, Arte e Religião (LePar), da Universidade Federal Fluminense, revelou que, para 81% dos eleitores, é fundamental que um candidato acredite em Deus. O número sobe para 89% na faixa de quem ganha até um salário mínimo.

Para 74% dos eleitores, acreditar em Deus torna as pessoas melhores, e mais de 80% acreditam que as escolas devem ensinar crianças e jovens a ter fé. Os números são reveladores de um país profundamente crente, que não aceita a tese de uma separação entre assuntos religiosos e questões de estado.

Petróleo no Amapá, por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

A Amazônia brasileira surgiu de maneira inesperada para o Império e mais ainda para a República. O governo federal ignorou as populações do Norte ao longo de várias décadas

A Amazônia esconde mistérios. Em fevereiro de 1500, Vicente Yanes Pinzón, que havia comandado a caravela Nina na expedição de Cristovam Colombo, navegou pelo litoral do território que seria depois chamado de Brasil. Singrou as águas do rio gigante que batizou de MarDulce. Em agosto de 1542, Francisco Orellana, acompanhado de soldados e índios, iniciou a descida do Rio Napo, no atual Equador, após fundar a cidade de Guayaquil. Ele navegou toda a extensão do Rio Amazonas. O frei Gastar de Carvajal foi o escrivão da improvisada aventura.

Eleições e desenvolvimento, por Marcus Pestana

Faltam 43 dias para elegermos o novo presidente da República. Em tese, cada candidatura carrega princípios, valores e programas diferentes. Temos 6 semanas para entender o horizonte que cada uma oferece, suas ideias e propostas, e aí, fazer a escolha. Muitas vezes o programa de governo fica eclipsado pelo escândalo da vez, por uma gafe ou frase mal colocada, uma fake news bem fabricada. Pena. Porque são as diretrizes estratégicas governamentais que vão determinar o impacto do governo eleito nos próximos quatro anos, e quem sabe?  até mesmo sobre uma geração.

Nas sombras, por José Casado

Revista Veja

Operador da extrema direita preso na Bolívia foi acusado de conspirar no golpe de Bolsonaro

Três tiros a menos de dois metros de distância. Disfarçados com capacetes e parecendo entregadores de comida, atirador e cúmplice logo desapareceram. Um vídeo mostra a mulher jovem, em saia branca e blusa bege, cambaleando na entrada do hotel plantado à beira da reserva florestal de Santa Cruz de La Sierra, principal cidade boliviana. Não havia sangue visível, mas, diz a polícia, balas calibre 9 milímetros foram extraídas do pescoço, tórax e braço direito da vítima.

Nadia Beller é uma ativista do Movimento ao Socialismo (MAS), partido que governou a Bolívia por duas décadas até o ano passado. Ela ainda estava no hospital quando seu namorado foi preso no aeroporto, em aparente fuga. O argentino Fernando Cerimedo, 45 anos, foi acusado de contratar a dupla de pistoleiros para matá-la. Seria mais um caso na epidemia de violência contra mulheres, não fossem os vínculos políticos do protagonista dessa história de crime sob encomenda.

A República dos vazamentos, por Murillo de Aragão

Revista Veja

O eleitor pode não distinguir denúncia legítima de operação política

O Brasil, país criativo, coleciona apelidos para si mesmo com a devoção com que outros povos colecionam vitórias. Já escrevi aqui sobre a “República da Atenção” — aquela em que capturar o olhar, com verdades ou mentiras, é o que importa. Acrescento uma expressão que faltava: a “República dos Vazamentos”.

Brasília não é uma caixa d’água com furos. É uma caixa d’água projetada com furos, cujos escoamentos podem ter destinatário e horário nobre. Pelas aberturas escorrem investigações sigilosas, disputas entre ministros, mensagens de aplicativos e boatos plantados com o esmero de quem cultiva orquídeas.

Efeito Selic, por Emilio Chernavsky*

CartaCapital

A relação entre política monetária e o crescimento da dívida pública no Brasil 

A dívida pública brasileira tem crescido nos últimos anos e, no caso da dívida bruta, passou de 71,7% do PIB no fim de 2022 para 81,9% em junho último. Esse porcentual se situa pouco acima da média registrada nas economias emergentes e em desenvolvimento (74% no fim de 2025), mas segue muito abaixo da média nas economias desenvolvidas (108%). Além disso, a dívida brasileira possui duas características especialmente benignas: mais de 96% de seu total é denominado em reais, emitidos pelo próprio governo, e menos de 10% é detido por investidores externos, o que tende a facilitar o seu financiamento. Isso não significa, todavia, que o crescimento acelerado deva ser ignorado. Ao contrário, medidas devem ser tomadas para contê-lo. Mas, para elaborá-las, é preciso partir de um diagnóstico correto da situação.

Onde as direitas se encontram, por Maria Inês Nassif

CartaCapital

Desde a Constituinte, elas servem ao liberalismo, por ideologia ou fisiologia

O Centrão se inventou como força política em 1987, assim que a Constituinte iniciou seus trabalhos. Nesse período ocorreu o primeiro movimento de reacomodação de parlamentares antes filiados ao PDS, o partido da ditadura, que criaram uma dissidência capaz de dar a vitória ao candidato do PMDB, Tancredo Neves, no Colégio Eleitoral, formada por aqueles que aderiram ao peemedebista quando ele emergiu como o candidato indiscutivelmente favorito nas eleições indiretas e pelo grupo que estreava na política como nomes defensores dos interesses de associações de classe empresariais. Serviram, todos eles, à ditadura e a abandonaram nos seus estertores para continuar no poder.

A grande lacuna da eleição, Paulo Artaxo

CartaCapital

A política ambiental precisa deixar de ser tratada como um capítulo isolado dos programas de governo

As mudanças climáticas estão atingindo em cheio vários países. O Brasil, em particular, está enfrentando crises climáticas frequentes, com impactos significativos na produção agropecuária, na geração de hidroeletricidade e em perdas econômicas. A degradação ambiental torna a vida em nossas cidades cada vez mais difícil, com ondas de calor, tornados, enchentes e outros impactos que acarretam grandes prejuízos à população e à economia. Não há dúvida de que a crise climática se tornou um dos principais fatores de risco para o desenvolvimento econômico brasileiro.

Os desafios de Lula, por Aldo Fornazieri

CartaCapital

Corrupção e segurança estão no topo das preocupações do eleitorado. Qual será a postura do presidente nestes assuntos? 

Lula não começa mal a largada da campanha, mas também não começa bem. A pesquisa Quaest, de 14 de agosto, mostra que a distância em relação a Flávio Bolsonaro na simulação de segundo turno caiu para apenas 3 pontos, recolocando uma situação de empate técnico. Em abril e maio, esse empate era ainda mais evidente. Mas em junho/julho, Lula chegou a abrir 8 pontos de vantagem no levantamento da ­Quaest­, e os agregadores de pesquisas mostraram uma vantagem média de 5 pontos. O presidente caiu de 33% para 29% no eleitorado independente e Flávio subiu de 30% para 33%, justamente na fatia que vai decidir as eleições.

Poesia | A Lucidez Perigosa, de Clarice Lispector

 

Música | Mitos Cariocas: Lan. - (Moacyr Luz e Aldir Blanc)

 

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Opinião do dia – Gilvan Cavalcanti (valores)

“Penso que ser de esquerda, hoje, seria incorporar os valores históricos dos quais ela nasceu: liberdade, democracia, justiça, igualdade, solidariedade, trabalho. Mas, também, acrescentar os novos valores, o abecê do novo século: cidadania, direitos, laicismo, inovação, criatividade, integração, mérito, multiculturalismo, oportunidade, segurança, sustentabilidade e internacionalização. Valores estes, consagrados na Constituição de 1988.

A época atual é tempo novo, em que o caráter da sociedade - modo de produzir, de consumo, de trabalho, de comunicação, relacionamento de conceber e organizar a vida individual e social - está se modificando profundamente. Em outras palavras, a esquerda deveria ser, na essência, do trabalho, do desenvolvimento sustentável, da cidadania e dos direitos civis, da criatividade, da meritocracia, do saber e da consciência, do indivíduo e laico, da democracia representativa, da integração mundial, interdependência, da paz e segurança.”

Cf. Gilvan Cavalcanti de Melo, "A esquerda democrática, compromisso com o futuro”, in O que é ser esquerda, hoje? org. Francisco Inácio Almeida, Editora. Contraponto e Fundação A. Pereira, Rio de Janeiro-Brasília, 2013, p.268

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Rediscutir diploma de jornalismo não tem cabimento

Por O Globo

Causa estranheza a questão ressurgir num momento em que Supremo está desgastado por notícias incômodas

A discussão sobre a obrigatoriedade de diploma para o exercício da profissão de jornalista é anacrônica. Está superada desde pelo menos 2009, quando o Supremo Tribunal Federal (STF) derrubou a exigência por 8 votos a 1. Na ocasião, o STF entendeu que ela era inconstitucional, por violar as liberdades de expressão e informação. A tentativa de ressuscitar a questão agora não tem nexo lógico, sentido jurídico ou pertinência histórica numa sociedade que tanto lutou para restabelecer a democracia.

Inexistente em democracias maduras, a obrigatoriedade do diploma foi imposta no Brasil por decreto de 1969, em plena ditadura militar, com o objetivo indisfarçável de controlar quem poderia exercer a profissão. Há mais de 40 anos, felizmente, sopram no país ventos democráticos. Por isso causa estranheza que o debate tenha ressurgido no mesmo Supremo que extinguiu a exigência, em meio ao desgaste provocado na Corte pelo caso do blogueiro maranhense Luís Pablo — alvo de operações da Polícia Federal (PF) determinadas pelo ministro Alexandre de Moraes, sob acusação de perseguição ao ministro Flávio Dino. Nas investigações, Moraes determinou a quebra do sigilo das fontes de Pablo, em violação flagrante ao que ordena a Constituição.

A força e a fraqueza do status quo brasileiro, por Fernando Luiz Abrucio

Valor Econômico

É preciso discutir o dilema imposto pela necessidade de reformas em um ambiente em que muitos com poder resistem às mudanças

Um grande dilema vai marcar o início do próximo quadriênio (2027-2030). De um lado, o país precisará fazer reformas econômicas, administrativas e político-institucionais para não entrar numa grave crise, o que inviabilizaria o mandato do novo presidente num momento de incerteza internacional e aumento da desconfiança do eleitorado. Por outro, os atores que representam o status quo atual tendem a continuar fortes, especialmente os congressistas sob a hegemonia do Centrão, e mesmo o Judiciário, que tem perdido popularidade, ainda tem muita capacidade de resistir à mudança.

O enfrentamento desse dilema é a questão mais importante após a eleição, mas já deveria ser discutido desde já, pois a sociedade precisa saber dessa dificuldade política e dos custos de não resolvê-la. Ainda mais porque os principais presidenciáveis pouco falam da realidade que enfrentarão no ano que vem, seja a das políticas públicas, seja a da complexa governabilidade.

A herança das políticas públicas de Lula III tem coisas boas e ruins. A política ambiental foi retomada depois da hecatombe bolsonarista. O sucateamento do SUS realizado pelo governo anterior foi estancado, com algumas novidades, como o uso inteligente da telemedicina como instrumento para combater as desigualdades territoriais. O MEC voltou a ter protagonismo, com diversos avanços importantes, com destaque para a política federativa de colaboração com os estados e municípios na alfabetização, com impacto no desempenho escolar já no presente quadriênio.

Diferenças na campanha eleitoral, por José de Souza Martins*

Valor Econômico

A mera consciência partidária dos eleitores bolsonaristas de algum modo arrastou a esquerda para dentro de sua lógica bipolar de poder

No domingo dia 16, os partidos políticos começaram suas campanhas eleitorais de 2026. Mais do que a eleição para a presidência, as eleições para as duas casas do Congresso decidirão o destino político do país. A direita há décadas optou por aumentar sua representação nas duas casas e governar o Brasil indiretamente por meio do Legislativo, emparedando a Presidência da República. O poder político foi desfigurado pela concepção de que o Brasil tem um partido só, o de uma família.

A mera consciência partidária dos eleitores que a seguem de algum modo arrastou a esquerda para dentro de sua lógica bipolar de poder. O PT, em particular, caiu na armadilha. O que não deixou para a esquerda senão fazer política fora dos marcos do que é propriamente democracia direta e eleitoral.

Crise da Casas Bahia será arma eleitoral contra Lula, por Andrea Jubé

Valor Econômico

Endividamento das famílias atingiu um recorde: 82% dos consumidores disseram ter alguma dívida

“Tá caro, tá caro, a culpa é do Bolsonaro!” foi um dos bordões da campanha do então candidato Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em 2022, que jogou no colo do presidente Jair Bolsonaro a responsabilidade pelos preços altos. Quatro anos depois, estrategistas do candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, afirmam que é hora de revidar. Mais do que corrupção ou segurança pública, a oposição concluiu que o tema central da campanha será o custo de vida, culpa de um governo perdulário.

É nesse contexto que a crise da Casas Bahia, uma das maiores e mais populares varejistas do país, será explorada pela campanha de Flávio como um espelho das famílias brasileiras. Na quarta-feira (19), o candidato do PL gravou um vídeo na porta de uma das lojas da empresa, que aguarda resposta de um pedido de recuperação judicial porque não conseguirá honrar as dívidas com os credores.

STF entrou na eleição e pode sair dela com menos poderes, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Tribunais constitucionais podem rever entendimentos, mas é preciso fundamentação consistente, estabilidade e respeito à segurança jurídica

Não é apenas a nossa política externa que está na berlinda eleitoral, diante da escalada tarifária contra os produtos brasileiros e das interferências dos Estados Unidos na política brasileira. O protagonismo do Supremo Tribunal Federal (STF) também entrou na campanha presidencial e pode converter a eleição de outubro num plebiscito informal sobre os limites do Judiciário. Não se trata apenas das propostas de impeachment, politicamente improváveis, mas na possibilidade de que decisões controversas e atitudes de alguns ministros fortaleçam uma agenda de mudanças constitucionais capazes de alterar o funcionamento da Corte.

Legados ao vento, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

No Brasil, é um erro morrer; assim que encerram o velório, o artista começa a ser esquecido

Tom Jobim, Cazuza, Cartola, Drummond, Guimarães Rosa e Clarice são das poucas exceções

Todo dia morre um artista ou intelectual –jovem ou velho, famoso ou quase, de qualquer ramo. Consternado, vou à internet, às TVs e às reportagens e ouço ou leio a infalível declaração: "Perdemos Fulano, mas seu legado jamais será esquecido". Será? Antes cêsse, mas não ésse, penso eu. Será esquecido, sim, e esse esquecimento começará assim que encerrarem o velório, e o jornal com seu obituário for forrar a gaiola do papagaio. No Brasil, é um erro morrer.

Conto do vigário liberal, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Partido Missão se declara liberal, mas abraça posições iliberais

Credulidade da Faria Lima em relação à sigla é inquietante

Sempre que vejo "Faria Lima" como sujeito de título noticioso que não seja sobre trânsito, fico desconfiado. Utilizar o nome da avenida paulistana como metonímia para "mercado financeiro" é arriscado, entre outras razões porque o tal de mercado não é uno. Reúne desde operadores de day trade até operários que investem o dinheiro de seus fundos de pensão, sem mencionar a viúva aposentada e eventuais clones de Daniel Vorcaro.

Fuga de capital político traduz desagrado com Flávio Bolsonaro, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

O centrão não quis se amarrar a Flávio Bolsonaro como talvez se amarrasse a Tarcísio de Freitas

Insatisfação também aparece nas ruas com esvaziamento e cancelamento de atos públicos

Flávio Bolsonaro (PL) sentiu o golpe da fuga de capital político com a neutralidade do centrão na cena eleitoral. Tanto sentiu que resolveu arrumar uma desculpa para a evasão, dizendo que ficaram na encolha por medo. Do quê ou de quem, o senador absteve-se de informar.

Receio mesmo pareceu ter ele de espaços vazios ao cancelar uma motociata em Juiz de Fora (MG) no dia seguinte ao modesto comparecimento de público em ato inaugural de campanha em Copacabana. A fotografia neutra retrata situação mais pragmática: o centrão não quis se amarrar ao candidato do PL como talvez se amarrasse a Tarcísio de Freitas (Republicanos) fosse ele o antagonista de Luiz Inácio da Silva (PT) na disputa presidencial.

Na eleição suja de 2026, neodireitas se testam e política adia problemas para 2030, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Campanha começa como se previa, sem ideias e discutida na polícia ou na Justiça

Pleito também é laboratório de líderes digitais para a sucessão de quem se aposenta

A campanha para presidente começou bem. Bem do jeito que se previa. Por ora, é caso de polícia: de questões judiciais, de tentativas de artimanhas judiciais e candidatura pirata. Em São Paulo, se batem direitas que vão disputar a cidade daqui a dois anos, prenúncio de projetos de renovação inevitável de métodos e lideranças políticas no caminho da aposentadoria. Isso tem algum efeito na campanha presidencial.

O inelegível Pablo Marçal, um dia candidato a prefeito de São Paulo, lançou-se a presidente com um truque que pode durar até o início de setembro, quando o TSE deve tirá-lo da disputa oficial. Por ora, essa pessoa apenas está sem acesso a recursos oficiais de campanha, mas terá uns 20 dias de mumunha eleitoral. A avacalhação não tem fim.

Lula precisa de adversário? Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Na guerra de lama entre os favoritos, Lulinha brilha, mas ‘Dark Horse’ não é ‘página virada’

Os três inquéritos da PF e o envolvimento de Lulinha no escândalo do INSS atingem em cheio Luiz Inácio Lula da Silva, como presidente e candidato, e aprofundam as divisões do Supremo, jogam dúvidas sobre a PGR e aumentam a pressão sobre a Polícia Federal. De quebra, são um alívio para Flávio Bolsonaro. Com um filho desses, Lula precisa de adversários?

Lulinha é amigo de Roberta Luchsinger, que é amiga e fornecia empréstimos e joias para o Marcola, que é amigo de Lula e, como seu chefe de gabinete no Planalto, recebeu de Roberta uma minuta de contrato, “sem licitação”, para a venda de canabidiol ao governo. Pairando sobre todos, o Careca do INSS, cabeça de um dos maiores escândalos do País.

Estratégia diversionista, por Raquel Landim

O Estado de S. Paulo

Ao discutir exigência de diploma, Moraes e Dino tentam mudar o rumo do debate e fugir das críticas

A estratégia vem sendo utilizada por alguns ministros do Supremo Tribunal Federal em diversas ocasiões. Quando são questionados sobre um ponto sensível, levantam “balões de ensaio” e tentam mudar o rumo do debate público e fugir das críticas.

É exatamente isso que vem sendo feito pelos ministros Alexandre de Moraes e Flávio Dino no suposto embate entre o sigilo da fonte e a exigência de diploma para jornalista – só que uma coisa não tem nada a ver com a outra.

O sigilo da fonte está na Constituição e foi violado no caso do blogueiro Luís Pablo, do Maranhão.

Tesouro dos EUA piscou, por Celso Ming

O Estado de S. Paulo

Na quarta-feira, o Tesouro dos Estados Unidos anunciou a recompra inesperada de seus títulos (treasuries) de longo prazo com o dobro de recursos, coisa de no mínimo US$ 4 bilhões, e divulgou a posição recorde da dívida pública do país, de US$ 40 trilhões, esta já mais ou menos prevista.

O mercado financeiro global foi tomado pela ansiedade. Os preços do ouro saltaram 2,82% num único dia, as cotações do dólar caíram, as Bolsas comemoraram e, como não podia deixar de ser, caiu a remuneração (yield) dos treasuries de longo prazo. Esta manobra do Tesouro diz muita coisa e terá consequências.

A recompra de US$ 4 bi em títulos cujo estoque soma US$ 40 tri é insignificante. Mais significante é a operação em si mesma e o que há por trás dela.

SP vê disputa que o Brasil adiou, por Vera Magalhães

O Globo

Recusa de Lula e Bolsonaro em passar o bastão para Haddad e Tarcísio transfere para o Estado debate sobre os principais temas nacionais

À medida que a campanha se desenrola, vai ficando claro quanto a disputa travada em São Paulo entre Tarcísio de Freitas e Fernando Haddad tem mais consistência programática do que aquela de que Lula e Flávio Bolsonaro se escondem e representa o que deveria ser a discussão nacional, não fossem os desígnios em grande medida personalistas do próprio petista e do pai e mentor do senador do PL.

Todo mundo lembra a profusão de vezes em que Lula disse, em 2022, que não disputaria a reeleição e que aquela seria uma eleição de “transição”, cuja circunstância principal era preservar a democracia e derrotar o bolsonarismo. Boa parte do poder de atração que teve sobre o eleitor liberal que já tinha prometido nunca mais votar no PT residiu nesse canto da sereia.

A farsa de Pablo Marçal, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Coach subiu no picadeiro para ajudar Flávio Bolsonaro e promover seus próprios negócios; registro deve ser negado pelo TSE

A nova aventura de Pablo Marçal está com os dias contados. Inelegível até 2032, o coach registrou a candidatura a presidente nos últimos minutos do prazo. Conseguiu tumultuar a disputa, mas deve ser barrado pelo TSE.

Com milhões de seguidores nas redes sociais, Marçal tem a receita para bagunçar o coreto. Em seis dias de campanha, berrou palavrões, insultou jornalistas e chorou num podcast.

Ele reapareceu a bordo de um factoide: declarou R$ 7 bilhões em patrimônio. Depois de ganhar as manchetes, alegou erro ao preencher um formulário. Quem o conhece identificou mais uma pegadinha para causar polêmica e reforçar a imagem de novo rico.

Sigilo de fonte está ameaçado, por Pablo Ortellado

O Globo

STF fez esforço para proteger Dino da acusação de uso indevido de carro funcional

O ministro Alexandre de Moraes deu ordem de busca e apreensão contra o jornalista maranhense Luís Pablo Almeida, que publicou reportagem denunciando uso indevido de carro funcional pela família do ministro Flávio Dino para deslocamentos particulares, inclusive ir à praia. A apreensão do celular dele resultou na violação de seu sigilo de fonte. A medida foi condenada pelos três grandes jornais (O GLOBO, Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo) e pelas principais associações jornalísticas.

A investigação contra Luís Pablo foi aberta a pedido do próprio ministro Dino e inicialmente sorteada para o ministro Cristiano Zanin, mas em seguida redistribuída para Alexandre de Moraes sob alegação de que tinha conexão com o inquérito das fake news. Ao autorizar a busca, Moraes registrou que a conduta seguia “modus operandi semelhante” ao da organização criminosa ali investigada — como se uma reportagem sobre carro funcional equivalesse a um ataque à Corte.

Poesia | Quando encontrar alguém , de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Dalva de Oliveira - Hino ao amor(Edith Piaf)

 

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Justiça Eleitoral tem de ser mais célere ao avaliar candidatos

Por O Globo

Apesar de pendências judiciais, nomes como Marçal, Arruda, Cunha e Garotinho registraram candidatura

A pouco mais de um mês das eleições, ainda pairam dúvidas sobre os candidatos que concorrerão. Rostos conhecidos da política obtiveram registro regular de candidatura nos sistemas oficiais, apesar de decisões judiciais que os consideraram inelegíveis — entre eles, o influenciador Pablo Marçal, o ex-governador fluminense Anthony Garotinho e o ex-governador do Distrito Federal (DF) José Roberto Arruda. O registro por si só não significa que estejam aptos a concorrer. Por isso, a Justiça Eleitoral precisa ser ágil na análise desses casos. O eleitor não pode ficar na dúvida sobre a validade do próprio voto.

W.O. em debate deveria custar voto, por Julia Duailibi

O Globo

A ida a esse tipo de confronto deveria ser tratada com mais cerimônia por aqueles que dependem da boa vontade de quem vota

Ser candidato numa eleição significa cumprir algumas obrigações básicas, principalmente quando a candidatura é para inquilino da Presidência da República. Entre os deveres não previstos em lei, está participar de debates. Trata-se não só de demonstração de respeito, mas de evidente obrigação moral com o eleitor. Por isso a ida a esse tipo de confronto deveria ser tratada com mais cerimônia por aqueles que dependem da boa vontade de quem vota para chegar ao poder.