terça-feira, 18 de agosto de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Descoberta na Margem Equatorial é promissora

Por O Globo

Indícios de petróleo são apenas passo inicial. Ibama deve acelerar licenças para pesquisa em novos poços

A descoberta de hidrocarbonetos em poço exploratório na Bacia da Foz do Amazonas significa que há indícios de petróleo ou gás natural numa região que pode vir a ser a nova fronteira petrolífera do país, a Margem Equatorial. Por enquanto, porém, são apenas indícios. É fundamental que a Petrobras continue o trabalho de pesquisa para investigar a extensão da descoberta e se a exploração é viável economicamente. Qualquer decisão depende dessa análise.

O anúncio acontece dez meses depois de o Ibama ter concedido licença para a estatal perfurar o primeiro poço, em meio a debates sobre impactos na fauna, na flora e nos povos da floresta. A área de prospecção fica a 175 quilômetros da costa do Amapá, numa profundidade de 2.886 metros. A Petrobras aguarda autorização do órgão ambiental para perfurar outros três poços. “Não vejo razão para negar a licença”, diz a presidente da estatal, Magda Chambriard.

Por que juros extorsivos e metas irrealistas destroem o Brasil sem baixar a inflação, por José Luís Oreiro*

Correio Braziliense

Essa narrativa, embalada por jargões técnicos para impressionar o leigo, tenta convencer a opinião pública de que o remédio amargo dos juros reais mais altos do mundo é a única alternativa para conter os preços

Tornou-se um dogma quase religioso entre analistas e economistas ligados ao sistema financeiro a tese de que a desaceleração da atividade econômica é um "efeito desejado" do aperto monetário e que o Banco Central precisa manter a taxa de juros nas alturas para "reconstruir sua credibilidade". Essa narrativa, embalada por jargões técnicos para impressionar o leigo, tenta convencer a opinião pública de que o remédio amargo dos juros reais mais altos do mundo é a única alternativa para conter os preços. Trata-se, contudo, de um diagnóstico profundamente equivocado, que confunde a doença com o remédio e sacrifica o desenvolvimento nacional no altar do rentismo.

O vício de origem desse arranjo reside na fixação de uma meta de inflação em 3% ao ano. Nos últimos 27 anos de vigência do sistema de metas no Brasil, a média histórica do IPCA acumulado em 12 meses situou-se acima de 5,5%. Essa diferença não é mero detalhe estatístico: reflete a realidade de uma economia dotada de forte memória inflacionária e mecanismos arraigados de indexação formal e informal.

Vila Euclides, São Januário e Pacaembu, palcos da história política do Brasil, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Os maiores comícios foram os das Diretas Já, que empolgaram o país, mas nem por isso garantiram a aprovação da Emenda Dante de Oliveira. A ditadura caiu no Colégio Eleitoral, com eleição indireta de Tancredo Neves

O primeiro comício a que assisti foi o da Central do Brasil, realizado em 13 de março de 1964, na Praça da República, no Rio de Janeiro, que reuniu entre 150 mil e 200 mil pessoas. O presidente João Goulart (Jango) e Leonel Brizola lideraram o evento para defender as reformas de base e pressionar o Congresso.

Era apenas um menino, levado pelos pais ao ato político no qual Jango anunciou que faria reformas por decreto, entre as quais a agrária. Carrego poucas recordações de criança: pessoas no teto das plataformas de bonde, penduradas nos postes e nas árvores; eu sobre os ombros de meu pai. Aquele comício era um “apelo às massas” para que apoiassem Jango. Talvez seja o mais famoso da nossa história política porque, semanas depois, houve o golpe militar de 1964.

Os maiores foram os das Diretas Já, que empolgaram o país, mas nem por isso garantiram a aprovação da Emenda Dante de Oliveira. A ditadura caiu no Colégio Eleitoral, com a eleição de Tancredo Neves, cuja campanha também promoveu grandes comícios. Tão grandes que, em determinado momento, o velho pessedista resolveu suspendê-los, porque temia perder o controle do povo nas ruas. Dois outros são históricos: o de Getúlio Vargas, em São Januário, e o de Luiz Carlos Prestes, no Pacaembu.

Lula e Flávio traçam rotas opostas, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Presidente apela à memória do eleitor e senador, à tecla do antipetismo

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro partem quase empatados e se assim continuarem daqui a 45 dias não é porque terão seguido a mesma rota. Aquelas traçadas no lançamento de suas campanhas foram opostas.

A embalagem era passadista, do nome com que foi batizado - “Onde tudo começou”-, às camisetas dos velhos companheiros, “ó nóis (sic) aqui outra vez” -, mas o candidato à reeleição, desta vez, tinha foco. Não foi apenas na duração, cortada pela metade, que o discurso se diferenciou do emaranhado de ideias da convenção do PT.

Como Trump revitaliza a democracia, por Jan-Werner Mueller*

Valor Econômico

Testemunhamos um efeito global inesperado do trumpismo: um governo que se alia ao governo mais corrupto da história dos EUA corre o risco de abrir espaço para que adversários internos se levantem contra ele

Na capital da Albânia, os recepcionistas dos hotéis fazem questão de ressaltar que os protestos em andamento do lado de fora são totalmente pacíficos. Aparentemente, houve um número considerável de cancelamento de reservas desde que as manifestações em massa começaram no segundo trimestre. Mas, se perguntados diretamente, eles podem insinuar discretamente que veem com bons olhos a participação de turistas nos protestos. Todas as noites, pessoas de todas as idades se reúnem diante do escritório do primeiro-ministro Edi Rama para denunciar a corrupção e exigir sua renúncia.

A chamada “Revolução dos Flamingos” foi deflagrada por um acordo que muitos consideram questionável entre o governo albanês e Jared Kushner, genro do presidente americano Donald Trump. Assim, estamos testemunhando um efeito global inesperado do trumpismo: um governo que se alia ao governo mais corrupto da história dos Estados Unidos corre o risco de abrir espaço para que adversários internos se levantem contra ele.

Caminhos tortuosos, por Merval Pereira

O Globo

É inacreditável que um ministro do STF possa servir de mediador de um encontro político.

O presidente da República visitou o Amapá para ver de perto o local onde a Petrobras descobriu indícios de petróleo na Foz do Rio Amazonas. A seu lado, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, que até há poucos dias estava rompido com Lula, mas se acertou com ele após um encontro de reconciliação promovido pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes. Mas, advertem seus assessores, fez a viagem não na qualidade de candidato à reeleição, mas com o chapéu (literalmente) de presidente.

Na estação das escolhas, por Míriam Leitão

O Globo

É fundamental lutar contra o desalento das generalizações indevidas. Há pessoas que querem sinceramente servir ao país 

Todos os políticos devem estar sob o mesmo escrutínio popular, eles representarão o país inteiro e, por isso, têm contas a prestar. Porém, não se pode tratar todo mundo com a mesma desconfiança. Há uma convicção disseminada de que eles e elas estão nesse caminho para ter vantagem pessoal. Esse sentimento difuso não surgiu à toa. Veio na esteira dos inúmeros escândalos políticos, das desculpas esfarrapadas dadas por muitos, e das imagens dos dinheiros em caixas, malas, bolsas, cofres, cuecas. No país das altas taxas de juros, nenhum dinheiro guardado em casa, em grande quantidade, parecerá inocente. No banco estaria rendendo.

Quando as máquinas falham, por Fernando Gabeira

O Globo

Reflexões não são uma oposição ao desenvolvimento tecnológico. Ele deveria obedecer às necessidades humanas e sociais de segurança

A morte da menina de 13 anos numa transmissão ao vivo na plataforma Discord trouxe um grande e importante debate. Apesar de tantas intervenções esclarecedoras, fiquei com muitas dúvidas.

O Discord comunicou ao governo que suas máquinas de aprendizagem detectaram o problema, mas foram incapazes de mensurar sua gravidade e acionar o alarme. Na verdade, quem parece ter acionado o alarme foi a vigilância humana de um núcleo digital da Polícia Civil de São Paulo.

De quem é o poder da IA? Por Pedro Doria

O Globo

Mark Zuckerberg propõe que a solução é colocar inteligências artificiais poderosas nas mãos de todo mundo

Mark Zuckerberg soltou, na semana passada, um manifesto para tratar de inteligência artificial. A esta altura, deve ser o quinto ou sexto ensaio ou manifesto que algum figurão do Vale do Silício divulga para tratar do tema. Há um aspecto nisso que passa pelo encontro do marketing e da antropologia — o Vale passou a se comunicar com o mundo por ensaios e manifestos, como costumam fazer os movimentos políticos. Mas, no caso de Zuck, há algo de diferente. É, incrivelmente, um manifesto com um tom liberal que não se ouve faz tempo vindo daquele canto da Califórnia.

O risco Trump, hoje e amanhã, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Com Trump e bandeira americana, Flávio Bolsonaro ameaça o Brasil com outro tipo de golpe

Os Estados Unidos e o presidente Donald Trump estão no centro da campanha eleitoral do Brasil e isso não vai parar, só piorar, com o presidente Lula usando a “soberania nacional” como sua principal bandeira e o senador Flávio Bolsonaro trocando o slogan de “Pátria e Família” por imensas bandeiras americanas nos seus palanques.

Esse contraste pode ser mais um erro de Flávio, um novo tiro no pé, num momento em que Trump e seu franco-atirador Marco Rubio aumentam a pressão e acrescentam ameaças ao Brasil após os tarifaços que causam prejuízos à economia, aos negócios, a empregadores e empregados do Brasil. O que o eleitor independente acha disso?

O vício alcolúmbrico, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Davi Alcolumbre preside o Senado desde 2019, considerados os anos em que teve Rodrigo Pacheco por fachada, período em que dirigiu a Casa a partir da Comissão de Constituição e Justiça. Entre aquele 19 e este 26, o imperador do Congresso movimentaria mais de R$ 1,2 bilhão em emendas parlamentares para o Amapá, Estado de cujo governo tem o guidão. Imperador do Congresso porque um dos controladores-distribuidores dos dinheiros do orçamento secreto, ferramenta autoritária – fundo eleitoral paralelo – por meio da qual exerce poder e impõe desequilíbrios. Não será auspicioso lhe ter como inimigo. É um querido. Irresistível.

Esforço concentrado é clichê de pura enganação, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Recessos informais são tratados como se fosse natural congressistas serem pagos para gazetear

Convocações extras do Parlamento não compensam as folgas em campanhas, festas juninas e feriados

Congresso Nacional foi chamado a um esforço concentrado na semana passada e, como de hábito, se resumiu à jornada 3x4, com muito de concentrado e pouco de esforço. Há nova convocação para a primeira semana de setembro, cuja expectativa é a de que siga o mesmo ritmo.

Esses períodos de recesso informal em épocas de eleição são tratados como se fosse a coisa mais natural do mundo parlamentares serem pagos para se ausentar enquanto cuidam das próprias sobrevivências eleitorais, ao duplo custo do financiamento público das campanhas. Triplo, considerado o papel das emendas no incremento das despesas.

Com a Bíblia aberta, Eduardo Paes mira primeiro turno, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Parque Terra Prometida é um mimo milionário aos eleitores evangélicos

Ex-prefeito inaugura campanha oficial favorecido pelo isolamento do grupo bolsonarista

Em 2024, ao ser eleito prefeito do Rio pela quarta vez, Eduardo Paes disse que iria concluir o mandato, mas não descartava a candidatura ao governo estadual dali a dois anos. Uma mágica simples: seu pupilo Eduardo Cavaliere assumiria; na prática, ele continuaria no cargo, tendo a máquina municipal a seu dispor.

Em 2018, encaixotado pela onda bolsonarista, Paes perdeu a eleição estadual para Wilson "Atirar na Cabecinha" Witzel em cima do laço, depois de liderar as pesquisas durante toda a campanha. O Palácio Guanabara nunca mais lhe saiu da cabeça.

Poesia | Dorme que a vida é nada, de Fernando Pessoa

 

Música | Mulheres de Atenas, Chico Buarque

 

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Fim de moratória da soja representa retrocesso ambiental

Por O Globo

Decisão do STF validou as leis estaduais que, na prática, sepultam pacto para reduzir o desmatamento

Foi frustrante a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que julgou válidas leis dos estados de Mato Grosso e Rondônia contrárias à moratória da soja, o acordo que veta a compra de safras colhidas em áreas desmatadas da Amazônia a partir de julho de 2008. A legislação dos dois estados por onde se expande a fronteira agrícola proíbe a concessão de benefícios fiscais a empresas participantes de pactos privados que criam restrições à produção agropecuária — e é apontada como responsável por esvaziar a moratória.

A decisão do STF foi contraditória. De um lado, a Corte afirmou que a moratória da soja, que vinha sendo questionada em diversas ações, é constitucional. Os ministros determinaram que juízes e autoridades de todo o país, inclusive do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), encerrem todas as ações decorrentes da moratória. Mas reconhecer a legitimidade a esta altura significa pouco ou nada, uma vez que o pacto, firmado em 2006, não existe mais. Nenhuma empresa quer mais participar do acordo por temer perder benefícios fiscais nos estados.

Assista ao discurso de Lula no evento de lançamento de sua campanha presidencial

 

Petista usa comparação com Bolsonaro para responder por futuro, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Campanha do PT coloca como estratégia central a comparação de indicadores das gestões Lula e Bolsonaro para desconstruir Flávio

A cobrança por sinalizações de futuro sobre a campanha do PT deverá vir por meio de comparações entre as entregas do atual governo e aquele que o antecedeu. Foi isso que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sinalizou, ao lançar sua campanha no estádio da Vila Euclides, em São Bernardo do Campo (SP), no domingo (16), num tom de quem se cansa com a cobrança: “Eu vou dizer pra vocês o que é pensar no futuro”.

Saiu, então, comparando indicadores da redução da evasão escolar do ensino médio, enumerando indicadores que, na redução da evasão escolar no ensino médio, inflação, desemprego, geração de postos de trabalho, investimentos públicos, crédito para a indústria e crescimento da economia.

É por aí que a demanda da militância por desconstrução da candidatura de seu principal opositor, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), deve vir. Quando dirigentes petistas falam em “tocar o terror” na campanha do PL, é o apelo, junto ao eleitor, contra a volta ao passado, que enfatizam. A ausência de menções a escândalos como o Master sugere que a desconstrução virá mais da comparação do que pela exploração da corrupção.

A eleição será decidida pelos endividados, por Bruno Carazza

Valor Econômico

Candidatos precisam apresentar propostas para 50% da população que está com nome sujo na praça

Entre vários números preocupantes da economia brasileira, um deles é dramático: o país tem 83,9 milhões de pessoas negativadas no Serasa. Isso significa 51% dos CPFs ativos atualmente. E, à exceção dos menores de 18 anos e dos maiores de 70, a maioria desses endividados vai votar em outubro. São eles que decidirão quem subirá a rampa do Palácio do Planalto em 5 de janeiro de 2027.

Nas eleições americanas de 1992, o consultor político James Carville deu um conselho ao jovem democrata Bill Clinton, que desafiava George H. Bush em sua tentativa de reeleição: “É a economia, estúpido”.

A mensagem, escrita em letras garrafais num cartaz pregado na parede do comitê de campanha em Little Rock, Arkansas, lembrava ao candidato que ele deveria sempre destacar os efeitos da recessão sobre a população durante entrevistas e debates. A tática deu certo. Clinton derrotou Bush e desde então o mote vem sendo repetido a cada pleito, em qualquer lugar do mundo.

Para Rubio, América Latina é o quintal dos EUA, por Demétrio Magnoli

O Globo

O alinhamento dos novos líderes da região à Casa Branca isola regionalmente o Brasil

‘A Doutrina Monroe moldou a política externa dos Estados Unidos por mais de dois séculos. O domínio americano no Hemisfério Ocidental nunca mais será questionado.’ A legenda do vídeo divulgado há uma semana pelo Departamento de Estado incorre num erro histórico e escolhe uma palavra-chave ausente da doutrina original. Assinala, porém, em meio à desordem estratégica do governo Trump, uma nítida prioridade.

O presidente James Monroe delineou o conceito no discurso do Estado da União do final de 1823. A doutrina ganhou uma versão imperial com o Corolário Roosevelt (1904). Finalmente, tornou-se secundária com a Doutrina Truman (1947), que “moldou” a estratégia dos Estados Unidos do Pós-Guerra, baseando-a na aliança com a Europa Ocidental. O vídeo erra de propósito: na hora em que Trump abandona o compromisso com a proteção da Europa, inventa-se uma narrativa em que desaparece a Guerra Fria.

'Sósia' de Alexandre de Moraes circula entre vips em comício de Flávio Bolsonaro, por Bernardo Mello Franco

O Globo

De toga e fraldão, candidato a deputado posou para selfies em área reservada de comício do PL em Copacabana

Um 'sósia' de Alexandre de Moraes chamou a atenção no comício que abriu a campanha presidencial de Flávio Bolsonaro neste domingo, no Rio.

De gravata e toga semelhante à dos ministros do Supremo, Julio Sergio Carneiro Marques, o Julinho Dborais, circulou na área reservada do ato do PL em Copacabana.

Foi assediado por bolsonaristas, posou para selfies e puxou assunto com figurões da direita como o senador Rogério Marinho, coordenador da campanha de Flávio.

Julinho é candidato a deputado federal pelo Partido Novo. Usa um lema inusitado: "Não vote em ladrão, vote no doidão".

Filantropia brasileira enfrenta desafio, por Preto Zezé

O Globo

Quando o recurso chega à ponta, vem preso a rubricas que não pagam gestão nem quem mantém a luz acesa

Participei, na quarta-feira passada, em São Paulo, de um encontro do Think Tank do Bem, a convite de Elie Horn e Aron Zylberman. Desde 2024, o grupo estimula empresários a doar, iniciativa louvável num país com tamanha concentração de renda. Saí de lá com uma inquietação: todo mundo falava de financiamento e quase ninguém falava de território.

Quando falo em território, muita gente entende endereço, pedaço de chão, mancha no mapa. Não é disso que falo. Território é inteligência. É gente que administra crise todo dia sem ter feito curso de gestão, resolve conflito sem chamar mediador, pega o estigma e devolve carisma, trabalha na escassez e, ainda assim, produz abundância, com um saber que não veio dos bancos da universidade e resolve, no cotidiano, o que a teoria não resolveu. Governança territorial é essa inteligência viva dirigindo o que se faz naquele lugar.

O STF fora da lei, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

O jornalismo que as democracias protegem é aquele das notícias que incomodam os poderosos, do setor público ou privado

“Jornalismo é imprimir aquilo que alguém não quer ver impresso. Tudo o mais é relações públicas.”

É preciso atualizar a frase conhecida nas redações. O jornalismo foi muito além do jornal impresso. Mas a prática continua a mesma: apurar e publicar informações. É verdade que há notícias boas, de que todo mundo quer saber. Por exemplo: a chegada ao mercado das injeções emagrecedoras. Nesses casos, quase não é preciso apurar. O dono dos medicamentos quer divulgá-los, e o público espera ansioso. Publicar isso é quase “relações públicas”.

O jornalismo que as democracias protegem — pelo qual o público mais se interessa — é outro, aquele das notícias que incomodam os poderosos, sejam do setor público ou do privado. Ou ainda de uma junção das duas esferas, como o uso de dinheiro público para lucro privado.

Centrão sendo Centrão, por Carlos Pereira

O Estado de S. Paulo

Não escolher um lado é estratégia para continuar relevante depois da eleição

A decisão da União Progressista e do Republicanos de permanecerem neutros na eleição presidencial – e em boa parte das disputas estaduais – parece confirmar uma velha máxima da política brasileira: Centrão sendo Centrão. Mas por que o Centrão se comporta assim? A explicação usual aponta para pragmatismo, fisiologismo ou falta de identidade programática. Há, porém, uma interpretação menos normativa. Em presidencialismos multipartidários, partidos podem seguir duas trajetórias distintas para conquistar poder.

A primeira é majoritária: lançar um candidato competitivo à Presidência e tentar controlar diretamente o Executivo. É uma estratégia de alto risco e alto retorno. Quem vence fica com o maior prêmio. Quem perde pode passar quatro anos amargando a oposição. É a estratégia historicamente seguida por partidos como PT e, durante muitos anos, PSDB. Mais recentemente, o PL passou a ocupar esse espaço à direita.

Mar de lama ou instituições funcionando? Por Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

Cada operação da PF conta duas histórias: a da expansão do crime organizado e a da resistência das instituições

Tensões entre direção da Polícia Federal e o relator do escândalo do INSS no STF são reveladoras

A profusão de operações policiais no país produz simultaneamente uma crise de confiança e uma demonstração de capacidade institucional. Quanto mais o sistema de controle funciona, mais corrupção se torna visível; quanto mais corrupção se torna visível, mais a sociedade pode concluir que o sistema inteiro está apodrecido.

Família deveria ser sinônimo de acolhimento, por Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

Novela escancara toxicidade e ódio quando o assunto é orientação sexual ou identidade de gênero

Teledramaturgia tem o condão de reforçar ou de questionar hábitos e valores tidos como tradicionais

Parei de acompanhar telenovelas há décadas, mas confesso que às vezes me entrego ao impulso de deixar a mente divagar diante da TV enquanto a tela exibe um folhetim. Foi assim que um dia desses assisti a uma cena sobre preconceito, sexualidade e autoaceitação na novela "Quem Ama Cuida".

Observando a angústia e a insegurança suportadas por um dos personagens diante da intolerância do avô, me peguei refletindo sobre o quanto a família, que deveria ser um espaço seguro e de acolhimento, muitas vezes é tóxica e impregnada de ódio quando o assunto é orientação sexual ou identidade de gênero em desacordo com o padrão cis-heteronormativo.

O crime nos trinques, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Nossos bandidos são hoje mais ricos do que os mais famosos gângsteres americanos

Por que então não se vestem de acordo e continuam parecendo pés-de-chinelo?

De vez em quando estouram um reduto do PCC ou do CV, apreendem um caminhão de drogas, armas e dinheiro, e o que vemos de material humano? Um brasileiro normal, de seus 30 anos, baixinho, quilos a mais, barba por fazer, camiseta regata, bermuda e de chinelo, num fundo de garagem de bairro pobre ou de comunidade. Se sua aparência reflete seu estilo de vida, parece incompatível com as toneladas de pó que ele movimenta ou os milhares de narizes sob seu controle em bairros chiques do Rio ou São Paulo. Eu me pergunto para onde vai o dinheiro que esse sujeito ganha.

Via negociada, Frente Ampla e projeto de nação, por Ivan Alves Filho

Diante do perigo fascista, em ascensão na Itália no início dos anos 20 do século passado, o fundador do Estado soviético, Vladimir Lenin, lançou, no quadro da Internacional Comunista fundada em 1919, a chamada Frente Única. Por intermédio dela, ele propôs uma aliança com a social-democracia europeia.   

Para isso, não hesitou em criticar posturas que considerava "esquerdistas" ou irresponsáveis entre alguns setores se reivindicando do marxismo na Alemanha, por exemplo. A crítica não era tanto dirigida ao Partido Comunista recém-formado, mas a grupos que dele se afastaram, recusando-se a participar do Parlamento e dos sindicatos controlados pelos social-democratas.

Em todo caso, o entendimento com a social-democracia era muito difícil. Houve a traição durante a Guerra, a qual custou 15 milhões de mortos, sem aludir aos feridos e mutilados. Além do que, os social-democratas assassinaram Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht. Mesmo assim, Lenin lançou a sua proposta.

Poesia | Mensagem à poesia, de Vinícius de Moraes, - por Paulo Autran

 

Música | Roberta Sá canta no Altas Horas - Mais Alguém

 

domingo, 16 de agosto de 2026

Opinião do dia – Hannah Arendt*

“Hoje sabemos que Platão e Aristóteles foram a culminação, não o início, do pensamento filosófico grego, cujo voo se iniciou quando a Grécia atingiu ou estava prestes a atingir o seu clímax. O que permanece verdadeiro, porém é que Platão e Aristóteles vieram a ser o início da tradição filosófica ocidental e que esse início, diferentemente do início do pensamento filosófico grego, ocorreu quando a vida política grega já se aproximava realmente do seu fim. Talvez não exista em toda a tradição do pensamento filosófico, e em particular do pensamento político, um fator de importância e influência tão avassaladora sobre tudo o que viria depois do que o fato de Platão e Aristóteles terem escrito no século IV a.C. o pleno impacto de uma sociedade política decadente.

Surgia assim o problema de como o homem, se tem de viver numa polis, pode viver fora da política. Esse problema, que por vezes apresenta uma estranha semelhança com a nossa própria época, muito rapidamente se converteu na questão de como é possível viver sem pertencer a nenhuma comunidade politicamente organizada, vale dizer, em condições de apolitismo ou o que diríamos em condições de não-cidadania. Ainda mais sério foi o abismo que imediatamente se abriu, e desde então nunca mais se fechou, entre pensamento e ação. Todo pensamento que não seja o mero cálculo dos meios necessários para se obter um fim pretendido ou desejado, mas se ocupe do significado no sentido mais geral, veio a desempenhar o papel de um ”pós-pensamento”, isto é, um pensamento posterior à ação que decidiu e determinou a realidade. A ação, por sua vez, foi relegada à esfera sem significado do aleatório e do fortuito. “

*Hannah Arendt (1906-1975). ‘A promessa da política’, pp.45-6, Difel, Rio de Janeiro, 2008.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Violência contra mulher resiste a avanços legislativos

Por O Globo

Nos 20 anos da Lei Maria da Penha, feminicídios e estupros em alta ainda impõem desafio à sociedade

Aos 20 anos, a Lei Maria da Penha se consolidou como uma das maiores conquistas no combate à violência contra a mulher no Brasil: de janeiro a junho, houve 596 mil novas ações baseadas nela, e a Justiça concedeu 337 mil medidas protetivas, ou duas por minuto, de acordo com levantamento do Conselho Nacional de Justiça revelado pelo GLOBO. O volume de processos instaurados no ano passado passou de 1 milhão, 74,4% acima de cinco anos atrás e número mais alto na série histórica. Mas infelizmente isso não tem bastado para debelar a chaga. Os 1.571 feminicídios cometidos em 2025 também representaram um recorde, e os estupros aumentaram 72% em dez anos — só no ano passado, houve um caso a cada seis minutos.

Astúcia do povo nas urnas eletrônicas é o mais imponderável nas eleições, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O número elevado de indecisos nas pesquisas espontâneas revela que a maioria da sociedade ainda não transformou simpatia ou rejeição em decisão eleitoral

Nos dicionários, astúcia é o mesmo que artimanha, esperteza, malícia e sagacidade. Na política, quase sempre tem um significado negativo, porque é uma das características dos políticos para enganar o eleitor. Entretanto, há uma grande diferença entre a astúcia do povo e astúcia dos políticos. A primeira se baseia no bom senso. Já a segunda recorre ao senso comum para atingir objetivos a qualquer preço, muitas vezes obscuros. Não existe momento em que esses atributos sejam mais utilizados do que as eleições.

O folclorista capixaba Hermógenes Lima Fonseca, advogado, contador e pesquisador da cultura, viveu até 1996, quando morreu aos 80 anos em Vila Velha (ES), aos pés do Convento da Penha, um dos mais antigos no Brasil. Ele sofreu influências de baianos e mineiros, além da forte atração dos cariocas, que consagraram Roberto Carlos, Nara Leão, Sérgio Sampaio e Rubem Braga. Hermógenes dizia que “o povo astucia as coisas”.

O desafio de Lula, por Sergio Fausto

O Estado de S. Paulo

O ajuste fiscal é um meio para defender objetivos que são caros a Lula e fundamentais para o Brasil

Lula se apresenta como defensor da soberania nacional e dos mais pobres. Acumulou credenciais para tanto. Se quiser preservá-las, terá de imprimir novo rumo à política fiscal, na hipótese de vir a ser reeleito. O atual levará o País, cedo ou tarde, a uma crise econômica. Um outro caminho é possível.

A genuína preocupação de Lula com os mais pobres é inquestionável. Trata-se de uma marca dos seus três mandatos, não de oportunismo eleitoral. Com Lula na Presidência, a pobreza se reduziu de maneira importante. É uma obra coletiva, erguida sobre as bases estabelecidas pelo Plano Real.

Suas credenciais na defesa da soberania nacional se reforçaram no último ano. Fora excessos retóricos desnecessários, conduziu bem a reação às arbitrárias medidas adotadas pelos Estados Unidos para forçar o Brasil a seguir as ordens ditadas pela nova doutrina de segurança nacional do governo americano.

Assim começou o petrolão, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Ao conquistar os líderes do Centrão, um a um, risco de Lula é ressuscitar a Lava Jato

Ao colecionar troféus do Centrão, o presidente Lula ganha palanques e tempo de TV na eleição, aumenta as chances de converter o fim da escala 6x1 em votos e já constrói base no Congresso e governabilidade, em caso de vitória. Não custa lembrar que foi assim que mensalão, petrolão e os escândalos de Lula 1 e 2 começaram.

Hoje favorito, mas com margem mínima, Lula jogou a rede para Ciro Nogueira, ex-chefe da Casa Civil de Jair Bolsonaro, Davi Alcolumbre, presidente do Senado, e Hugo Motta, da Câmara. Certamente não pelo Brasil, ideologia, direitos, igualdade social, PIB, ajuste fiscal e ataques de Donald Trump...

Os ajustes regionais pesam, como para Nogueira e Motta, que são do Nordeste, bolsão petista do País, mas isso é só parte da história. A partir daí, voltamos a mensalão, petrolão e à defunta Lava Jato, que começaram quando Lula se jogou nos braços de adversários pragmáticos, para compensar a fragilidade do PT e da esquerda no Congresso. Isso tem custo, e alto.

A coalizão anticartéis de Trump, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

Cinco países da América Latina aceitaram o emprego de militares dos EUA em seus territórios para combater o crime organizado. Eles fazem parte de um grupo de 19 países que aderiram à Coalizão Anticartéis das Américas. O presidente Donald Trump tem mantido posição ambígua em relação à possibilidade de intervenção militar sem autorização de governos.

Os países que já assinaram a autorização são Guatemala, Honduras, Jamaica, Colômbia e Equador. Do total de 19 países, apenas dois não estão sob governos de direita: Guatemala e Bahamas.

A Colômbia aderiu depois da posse do presidente Abelardo de la Espriella, no dia 7.

Seu antecessor, Gustavo Petro, rejeitava ação militar americana, da mesma forma que a presidente do México, Claudia Sheinbaum. Mesmo assim, Trump se negou a responder se poderia ou não ordenar ações militares nos dois países.

Os ventos da política, por Merval Pereira

O Globo

É grave a informação do jornalista Caio Junqueira de que setores do STF pressionaram partidos do Centrão a não aderirem à candidatura de Flavio Bolsonaro

O Supremo Tribunal Federal (STF) continua no centro dos debates eleitorais, num péssimo sinal de que se tornou um partícipe importante do jogo político nacional. A direita, que engole a candidatura de Flavio Bolsonaro por não ter alternativa melhor para tentar derrotar Lula, circula nas redes o perigo de um quarto governo do petista pela possibilidade de que ele possa vir a indicar mais quatro ministros para o STF, dominando assim a maioria do plenário onde atualmente se decidem as questões fundamentais do país.

Já foram decididas pelo Presidente da República, quando o Executivo mandava e desmandava. Já foi o Legislativo o dono do jogo, especialmente no período em que o então presidente Jair Bolsonaro, preocupado com a preparação de tentativa de golpe, delegou ao Legislativo as decisões. Veio daí a consolidação das emendas parlamentares como fonte de poder, e o aumento inacreditável dessa receita que sangra os cofres públicos e enfraquece o governo eleito pelo povo.

Um retrato do lobby das bets em Brasília, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Oxfam alerta para 'avanço predatório' da jogatina e 'captura' de instâncias decisórias

Ernildo Júnior debutou no mundo das apostas num salão de sinuca em Campina Grande, no interior da Paraíba. Hoje voa de jatinho, circula entre celebridades e comanda uma das maiores bets do país.

Na quinta-feira, o dono da Pixbet se viu na mira da Polícia Federal. Ele e o advogado Nelson Willians foram os principais alvos da Operação Arena, que apura um esquema de lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio com conexão em Curaçao.

Sócio do cantor Wesley Safadão e dono de uma Lamborghini, o empresário paraibano é um dos novos magnatas da jogatina online, liberada no Brasil desde 2018. Um relatório inédito da Oxfam mostra como as casas de apostas capturaram a renda de milhões de famílias, agravando o endividamento e a concentração de riqueza.

Coitado do Flávio Dino, por Elio Gaspari

O Globo

Constituição Federal diz que é 'resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional'. Pode ser um exagero, mas está lá

Depois que a casa caiu, a decisão de se vasculhar equipamentos eletrônicos de jornalistas parece ser de responsabilidade difusa. O ministro Flávio Dino, do STF, disse que está sofrendo “agressões e injustiças” ao ser vinculado à ilegalidade essencial do procedimento. O artigo 5º da Constituição Federal, no seu inciso XIV, diz que “é assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional.” Pode ser um exagero, mas está lá.

A hora e a vez da diplomacia, por Míriam Leitão

O Globo

Em meio a tensões com diversos parceiros, o Brasil terá que ser o bom negociador que sempre foi e, muitas vezes, ser o único adulto na sala

A decisão do governo brasileiro de iniciar um processo pela Lei de Reciprocidade contra os Estados Unidos foi tomada basicamente para não desmoralizar a lei, segundo fontes do governo. Ela foi criada exatamente para defender o Brasil em casos como esse, em que os países adotem medidas unilaterais e injustificadas. A lei existe, precisa ser acionada. Mas isso é bem diferente de retaliar os Estados Unidos, o que seria um tiro no pé.

— Não pode ser uma lei para inglês ver porque ignorá-la serviria de incentivo a novas medidas contra o Brasil, venham de onde vierem. Mas se vamos adotar as medidas de reciprocidade é outra história — explica essa fonte.