quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Prioridade de 2026 deve ser a reforma administrativa

Por O Globo

Dado desinteresse do governo Lula sobre tema, iniciativa cabe ao Congresso. Ele não pode se omitir

É por vezes difícil ao cidadão comum entender as reformas em debate no Congresso. Mas não é o caso da reforma administrativa. Todos os brasileiros convivem diariamente com as deficiências e aberrações nos serviços públicos. Filas, burocracia, decisões equivocadas, obras por fazer e outras dificuldades mil. De um lado, faltam condições mínimas para servidores dispostos a trabalhar. De outro, proliferam funcionários públicos encostados e descompromissados. Para completar, há mordomias e benesses sem fim para a elite do funcionalismo, encastelada no Ministério Público (MP), no Judiciário e nas Forças Armadas. Os problemas são tantos e tão conhecidos que causa espanto a falta de urgência com que a questão é tratada. Por isso o ano de 2026 deveria começar com uma prioridade: a aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da reforma administrativa, relatada pelo deputado federal Pedro Paulo (PSD-RJ). Ela seria o melhor legado que a atual legislatura poderia deixar às futuras gerações.

Mensagem de final de ano do presidente do Supremo Tribunal Federal*

Ao Poder Judiciário e à sociedade brasileira,

O País tem hoje instituições firmes e sólidas que funcionam dentro do Estado de Direito no canteiro de obras da democracia.

Às vésperas de um novo ciclo, renovamos nosso compromisso constitucional e a gratidão pelo caminho percorrido, conscientes do momento decisivo que atravessam, no mundo de hoje, as instituições democráticas e a própria magistratura. É justamente em contextos de incerteza que se afirmam, com maior vigor, a responsabilidade, o diálogo republicano e a fidelidade à Constituição como fundamentos da vida em comum.

O Supremo Tribunal Federal reafirma, mais uma vez, sua lealdade inafastável com a Constituição da República e com a defesa do Estado de Direito, da democracia e dos direitos humanos e fundamentais. Sem esses pilares, não há liberdade possível, nem justiça duradoura, nem dignidade plenamente assegurada.

Reiteramos, igualmente, a imprescindibilidade da autonomia e da independência da magistratura, com integridade institucional e com a promoção contínua da segurança jurídica, da eficiência e da transparência. A confiança da sociedade é construída, dia após dia, pela coerência das decisões, pela responsabilidade das ações e pela abertura permanente ao aperfeiçoamento.

Que 2026 se inaugure como tempo de esperança renovada, fortalecimento institucional e aprofundamento do compromisso republicano. Que nos acompanhem a serenidade para decidir, a coragem para proteger direitos e a convicção de que a Constituição permanece sendo, ao mesmo tempo, nosso limite e nosso horizonte.

Com votos de um final de ano sereno e de um novo ciclo pleno de paz, saúde e realizações, expressamos nossa confiança no futuro do Brasil e no trabalho conjunto de todas e todos que constroem, diariamente, a Justiça e a democracia.

Sabemos que o País ainda tem graves deveres históricos a cumprir. Em tempos de grandes expectativas e intensas demandas, o Poder Judiciário deve ser referência de firmeza, estabilidade institucional e de serviço à sociedade.

Que 2026 nos encontre unidos na defesa da legalidade constitucional, da dignidade da pessoa humana, da justiça social e de uma sociedade realmente livre, justa e solidária."

Brasília, 31 de dezembro de 2025

*Luiz Edson Fachin. Presidente do Supremo Tribunal Federal e do Conselho Nacional de Justiça.

O país em transição. Por Merval Pereira

O Globo

Já estivemos recentemente perto da mudança efetiva em vários momentos, mas os retrocessos sempre vêm a favor da manutenção da situação anterior

Entramos em 2026 em plena crise político-institucional que nada indica se resolverá neste ano. Teremos eleições quase gerais dentro de um quadro de polarização a nos tornar reféns de um passado que envelheceu e de um futuro que ainda não se definiu. A famosa frase do filósofo marxista italiano Antonio Gramsci — “O velho mundo está morrendo. O novo demora a nascer. Neste claro-escuro, surgem os monstros” — pode se referir ao mundo trumpista, mas, se pegamos o recorte do Brasil atual, podemos usá-la como referência à situação de incerteza que outra frase famosa, sem autor determinado, descreve, nos colocando no “mundo pós-tudo e ante-nada”.

A economia no ano eleitoral. Por Míriam Leitão

O Globo

Há certezas sobre 2026: um ano com volatilidade, mas bons indicadores na economia e uma safra boa. Uma bolha pode estourar nos EUA

O ano eleitoral de 2026 começa com algumas certezas. A volatilidade de ativos será grande. Juros futuros, Bolsa e dólar vão oscilar ao sabor das notícias, das pesquisas e dos debates. O ano agrícola não será tão bom quanto em 2025, mas não será ruim. Haverá uma queda dos juros, lenta, mas constante. A inflação ficará dentro do intervalo da meta, e o PIB terá crescimento moderado. No exterior a grande incerteza é a bolha que pode estourar na Bolsa americana. Por ser ano eleitoral, haverá mais pressão fiscal e o novo ministro da Fazenda, qualquer que ele seja, não terá nem de longe a força de Fernando Haddad no governo Lula.

Em mensagem de fim de ano, Lula celebra "resultados históricos"

Por Iago Mac Cord / Correio Braziliense

Com menor taxa de desemprego da história e o maior volume de investimentos estrangeiros desde 2012, presidente celebra indicadores e projeta novos avanços para 2026

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou em seu perfil no X (antigo Twitter), nesta quarta-feira (31/12), que o Brasil termina 2025 com resultados históricos, destacando que o país atingiu a menor taxa de desemprego da sua história, fixada em 5,2%. Segundo Lula, o governo federal alcançou marcos inéditos no mercado de trabalho e na atração de capital estrangeiro, projetando a continuidade dessas políticas para 2026.

De acordo com os dados trazidos pelo presidente, o país atingiu o maior número de pessoas ocupadas da história, totalizando 103 milhões de trabalhadores. Deste total, 39,4 milhões possuem carteira assinada, o que também representa um recorde nacional.

2026: travessia para o novo. Por Felipe Salto

O Estado de S. Paulo

O primeiro passo é tratar a coisa pública de modo transparente e amparado na Constituição

Neste 1.° dia do ano, renovam-se as promessas. Mas é tempo, sobretudo, de resgatar as esperanças na construção de uma sociedade mais justa e republicana. Assim, que este ano seja uma verdadeira travessia para o novo.

As instituições democráticas são fundamentais na sustentação do Estado de Direito. O tenebroso caso do Banco Master é uma vergonha para o País. O Banco Central agiu firmemente e precisa ser defendido. Tentativas de reversão do caso só serviriam, possivelmente, para amenizar as penas dos que lesaram o País.

O sistema financeiro nacional foi reestruturado e fortalecido com o Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional (Proer), ainda no governo FHC, sob a liderança do então presidente do Banco Central, Gustavo Loyola. A regulação e a transparência encontraram lugar. Hoje, não há sistema financeiro mais sólido no mundo do que o brasileiro. Ainda assim, as peripécias, a ousadia e a crença na impunidade estimulam movimentos como o do Master.

O Supremo e o aceitável. Por William Waack

O Estado de S. Paulo

O principal resultado até aqui da operação montada no STF para tratar do escândalo do Banco Master é acelerar o descrédito da instituição. Um fator que as agências de risco político internacionais já apontam como relevante para a campanha eleitoral do ano que começa.

Nesse acentuado processo de desgaste continua sendo decisiva a “contribuição” de alguns de seus integrantes, pois é a partir da conduta deles que a instituição está sendo vista como um todo. Nesse sentido foi especialmente danoso o noticiário em torno da “acareação” de implicados no escândalo.

Caso Master pauta ano-novo do STF. Por Carolina Brígido

O Estado de S. Paulo

Pressão pública deve tornar inevitável aprovação de regras de conduta; Corte será alvo nas eleições

Mais do que chacoalhar o mercado financeiro e a política, a investigação sobre fraudes do Banco Master expôs condutas no mínimo questionáveis de integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF). A suspeita levantada sobre a isenção da Corte para conduzir o caso deve produzir dois resultados em 2026.

O primeiro deles é pavimentar a votação de um código de ética para os ministros. A pressão da opinião pública tornará inevitável a aprovação de parâmetros de comportamento para os integrantes do tribunal. Edson Fachin, defensor da ideia, quer dar maior transparência a uma Corte que não divulga sequer a agenda de compromissos públicos de todos os ministros.

Partidos de centro mais fortes tornariam o Brasil mais governável? Por Carlos Pereira

O Estado de S. Paulo

A ausência de um centro programático não é um acidente do sistema político brasileiro, mas uma consequência de seus incentivos institucionais

Tem se tornado comum atribuir as dificuldades governativas no Brasil à suposta ausência de partidos políticos de centro ideologicamente fortes e programáticos. A conclusão parece intuitiva: faltaria ao sistema político brasileiro um “centro responsável”, capaz de moderar extremos, oferecer previsibilidade e garantir estabilidade.

Mas vale inverter a pergunta: se os partidos de centro fossem de fato ideológicos e programáticos, o governo eleito teria mais ou menos governabilidade?

Nesse sistema, é praticamente inexorável que o partido do presidente não detenha maioria nas duas Casas do Congresso. Governar, portanto, exige a construção de coalizões amplas e heterogêneas. Se os partidos de centro fossem fortemente orientados por programas e ideologias, a dificuldade e o custo de formar e sustentar essas coalizões seriam significativamente maior.

O quieto paradoxo da democracia. Por Maria Hermínia Tavares

Folha de S. Paulo

A desconfiança generalizada nas instituições políticas alimenta os populismos de diferentes cores

De fato, existe no Brasil amplo reservatório de eleitores dispostos a acreditar que um líder providencial pode, sozinho, mudar o rumo do país

O último governo eleito antes do golpe militar de 1964 resultou de uma disputa que levou ao Palácio do Planalto um líder populista de direita, Jânio Quadros. O primeiro presidente eleito depois da ditadura foi outro, Fernando Collor. O populismo —especialmente o direitoso— não é incomum na política brasileira, mas algo recorrente. Quem assistir ao ótimo documentário "Caçador de Marajás", de Charly Braun (Globoplay), sobre a ascensão e queda de Collor, não deixará de notar o muito que ele tem em comum —no discurso antissistema e na imagem messiânica do Salvador da Pátria— com personagens tão diferentes quanto Quadros, e, naturalmente, Jair Bolsonaro.

Farol da Integridade Judicial 2026. Por Conrado Hübner Mendes

 Folha de S. Paulo

Magistrado que proferiu sentença do caso Vladimir Herzog ensina o que decência significa

STF poderia contribuir para punir torturadores com entendimento sobre a Lei de Anistia

É urgente apontar a integridade judicial onde ela apareça. A integridade praticada, não recitada. Integridade despretensiosa e anti-heróica que revela compreensão inteligente e sincera do papel do bom juiz no estado democrático de direito.

O aniversário de 50 anos da morte de Vladimir Herzog, em 2025, teve dois momentos marcantes. Primeiro, em culto ecumênico na Catedral da Sé, a ministra presidente do STMMaria Elisabeth Rocha, pediu desculpas por mortes e torturas no regime militar.

As entranhas do Master. Por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Segunda denúncia do BC ao MPF mostra que investigações estão só no começo

Master não pode virar um novo caso Americanas, sem punição a todos os envolvidos

segunda denúncia do Banco Central ao Ministério Público Federal com indícios de irregularidades na atuação do banco Master com fundos administrados pela gestora de investimentos Reag é emblemática por apontar que as investigações estão apenas no começo.

Vem muito mais bomba por aí. É isso que deixa Brasília e o mercado financeiro em chamas. O mundo político nem se fala. Não tem lado ideológico.

O volume de R$ 11,5 bilhões envolvido na nova denúncia do BC é escandaloso. Mas é a data da comunicação, relatada em documentação encaminhada ao Tribunal de Contas da União, que chama atenção.

2025 foi o ano do feminicídio em São Paulo. Por Thiago Amparo

Folha de S. Paulo

De janeiro a novembro houve 233 casos no estado e 61,4 mil agressões a mulheres

Sem um plano efetivo, tendência é de mais mortes de mulheres, jovens e negros em 2026

No estado em que homicídios e latrocínios chegaram à menor marca da série histórica, os feminicídios e a letalidade policial explodiram, deixando claro que para o governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos) a vida de mulheres, jovens e negros importa menos. São Paulo encerra 2025 com o maior número de feminicídios e de agressão a mulheres de que se tem registro, desde 2018, e com o segundo pior índice de mortes pela polícia dos últimos cinco anos.

The Economist diz que Lula não deveria disputar reeleição em 2026

Por Folha de S. Paulo

Revista britânica cita idade do presidente, ausência de sucessor e risco institucional

Texto também critica falta de renovação na direita e candidatura de Flávio Bolsonaro

A revista britânica The Economist publicou um editorial afirmando que o presidente Lula (PT) não deveria concorrer à reeleição em 2026. Segundo a publicação, apesar de o Brasil ter demonstrado em 2025 a resiliência de suas instituições democráticas, o país "merece escolhas melhores" no próximo pleito.

Em agosto, a revista trouxe em sua capa Jair Bolsonaro (PL) e o julgamento que o condenou por liderar uma trama golpista. Em texto opinativo intitulado "Brasil oferece aos Estados Unidos uma lição de maturidade democrática", descreveu a condução do processo penal contra o ex-presidente e seus aliados como uma resposta institucional que contrariaria críticas difundidas por setores da direita americana.

No editorial publicado nesta terça-feira (30), a revista argumenta que a principal razão para Lula, 80, abrir mão da disputa é a idade. Segundo o texto, mais quatro anos de mandato seriam um risco no caso de um governante hoje octogenário. A The Economist cita o caso do ex-presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, como exemplo dos custos políticos e institucionais de candidaturas em idade avançada, ainda que reconheça que Lula aparenta estar em melhores condições físicas.

Financial Times cita vitória de Lula nas eleições entre previsões para 2026

Por Lucas Altino / O Globo

Jornal britânico destacou os bons resultados econômicos do governo e os "gols contra" dos bolsonaristas em relação ao tarifaço de Trump

Anualmente, o jornal inglês Financial Times faz, às vésperas do reveillon, 20 previsões do mundo político para o ano seguinte. Nesta quarta (31), a lista publicada traz a vitória de Lula nas eleições de outubro de 2026 como uma das apostas. Segundo a previsão, o atual presidente deve se beneficiar do bom momento econômico do Brasil e dos "gols contra" da direita bolsonarista.

Poesia | Passagem do ano, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Samba Portela 2026 |

 

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Opinião do dia – Nicolau Maquiavel*

“É fácil de entender: não é o bem particular, mas o bem comum o que engrandece as cidades. E, sem dúvida, este bem comum não é observado senão nas repúblicas, porque tudo o que é feito, é feito para seu bem, e embora aquilo que se faça cause dano a um ou outro homem privado, são tantos os que se beneficiam que é possível fazer as coisas contra a vontade dos poucos que sejam oprimidos por elas. O contrário acontece quando há um Príncipe e, na maioria das vezes, o que é feito em seu favor ofende a cidade, e o que se faz pela cidade o ofende”.

*Nicolau Maquiavel (1469-1527), Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio, 2000. p. 139

Poesia | Receita de Ano Novo, de Carlos Drummond de Andrade - Por Marília Gabi Gabriela

 

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Empreendedor brasileiro tem muito a ganhar com IA

Por O Globo

País não tem chance de disputar liderança na nova tecnologia, mas ela abrirá inúmeras oportunidades

As empresas na vanguarda da inteligência artificial (IA) — todas americanas — investiram em 2025 cerca de US$ 400 bilhões. Isso equivale ao quádruplo do que a Petrobras, maior empresa do Brasil, pretende investir nos próximos cinco anos. Na briga para tentar desenvolver um modelo de IA capaz de superar a maioria dos seres humanos em várias tarefas, gigantes como OpenAI, Anthropic ou Google não param de captar capital e aplicá-lo na construção da infraestrutura necessária para desenvolver modelos mais e mais poderosos. Vislumbra-se um impacto transformador em praticamente toda a economia global.

Banco Central e a pressão de mão dupla. Por Vera Magalhães

O Globo

Se houve negligência ou avaliação incorreta dos riscos oferecidos pelo Master, isso deve ficar claro

A economia brasileira vai terminando 2025 demonstrando resiliência maior que a calculada e descrevendo um pouso bem mais lento que o esperado diante de um choque de juros duradouro como o praticado pelo Banco Central.

Do ponto de vista da economia real, o governo tem muito bumbo para bater, a despeito da permanência dos juros altos. O desemprego fechará o ano na menor taxa histórica, a inflação, mesmo beirando o topo da meta, foi domada, e o PIB deverá crescer acima do projetado pelo terceiro ano consecutivo. Esses deverão ser alguns dos estandartes de Lula na campanha à reeleição, encorpando o discurso de um mandato dedicado a reduzir as desigualdades econômicas e sociais.

O funeral da Bardot. Por Elio Gaspari

O Globo

Brigitte, Marilyn e Greta Garbo, três mulheres do século XX

O ano de 2026 começará com o funeral de Brigitte Bardot, símbolo de uma libertação feminina. Bonita e irreverente, colecionou namorados (dez mais ou menos duradouros), transformou duas aldeias de pescadores (Saint-Tropez e Búzios) em pontos turísticos.

Ao chegar ao Rio, linda, depois de 12 horas de voo, deu uma entrevista coletiva e ouviu uma pergunta do repórter Orion Neves:

— A senhora pretende ter um filho brasileiro?

Resposta rápida:

— Com quem, com você?

Todos os filhos dos presidentes. Por Marcelo Godoy

O Estado de S. Paulo

Lula e Bolsonaro têm de lidar com as novas confusões em torno de suas proles neste decisivo 2026

Desde 1954 a Nação não se debruçava tanto sobre o que se diz e se pensa a respeito de familiares de um presidente. A cena atual tem um complemento único na história do País: as atenções também voltadas para as confusões dos filhos de um ex-presidente.

É notável a insistência com que os nomes da prole de Lula aparecem nas investigações da Polícia Federal. Primeiro foi o enteado, Marcos Cláudio Lula da Silva. Ele surpreendeu os agentes que bateram na porta da casa de sua ex-mulher, Carla Ariane Trindade, em Campinas, para cumprir um mandado de busca durante a Operação Coffee Break. Eram 6 horas, horário incomum para um ex-marido abrir a porta da casa da ex-mulher. Enfim, a ex-nora é suspeita de receber propinas de um empresário preso na operação, em 12 de novembro. Na mesma investigação surgiu um ex-sócio de Fábio Luís, o Lulinha.

Olhar as árvores do caminho. Por Nicolau da Rocha Cavalcanti

O Estado de S. Paulo

Talvez um dos grandes desafios para 2026 seja ter e manter o olhar amplo, não restrito aos nossos interesses imediatos

Aproveito a data para reiterar o que escrevi em alguns cartões de Natal: que, em 2026, faça tempo bom e possamos contemplar as árvores do caminho. Admito: escrevi sobretudo para mim mesmo.

Com frequência, esqueço-me de que, seja qual for o tempo, é muito bom olhar as árvores do caminho. Especialmente nos dias difíceis, este gesto dos olhos – esta atitude do espírito – faz toda a diferença. E, muitas vezes, não é fácil.

Olhar as árvores do caminho é ter calma. É não achar que o que estamos fazendo é a coisa mais importante do mundo. É permitir-se parar: reparar na calçada, nos outros, na arquitetura, no céu, na árvore – em sua sombra, em sua cor, que nunca é a mesma. É aproveitar, no trânsito, o sinal fechado para ver, com olhos novos, a cidade, as pessoas, a vida fora das telas.

Nervosismo com os fundos do Master. Por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Polícia Federal e Ministério Público investigam andanças suspeitas de dinheiro

Sanções contra Moraes também levaram certos bancos a se indispor com o ministro

Há muita gente nervosa desde a prisão de Daniel Vorcaro e da liquidação do banco dele, o Master. Há gente nervosa por vários motivos, alguns ainda pouco claros.

Há gente nervosa porque Polícia Federal e Ministério Público já investigam faz cerca de um mês outro tipo de operação do Master sob suspeita, de acordo com investigadores. O banco fazia empréstimos para empresas, arroz com feijão, nos conformes. Emprestado, o dinheiro parecia ter um destino interessante. Estacionava em certos fundos.

O que será do amanhã em 2026? Por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Perspectivas são especialmente traiçoeiras na política, pois estão submetidas aos movimentos das nuvens

O ano eleitoral será produtivo ou improdutivo, a depender das escolhas de representantes e representados

Retrospectivas são mais fáceis de fazer, já que não se prestam ao cotejo com a realidade e lapsos de memória contam com os auxílios digitais. Perspectivas sobre o ano que começa daqui a pouco, no entanto, é que são elas.

Especialmente traiçoeiras na política, tema submetido aos notórios movimentos das nuvens. Isso quando não mudam ao sabor de tempestades.

Daí que o escrito no apagar de 2025 não necessariamente valerá como previsto no amanhã de 2026. Feita a ressalva, vamos ao que talvez nos reserve o novo ano.

O que 2025 ensinou à democracia. Por Wilson Gomes

Folha de S. Paulo

Autoritarismo e limites ao pluralismo marcaram o ano

Direita e esquerda têm dificuldade com o dissenso

Esta coluna de fechamento de 2025 é uma retrospectiva. Não dos fatos do ano, mas das preocupações que orientaram nossa navegação por eles —sobretudo daquelas ligadas à comunicação política e aos dilemas da democracia brasileira, searas em que me atrevo a opinar.

Ao longo dos meses, diferentes episódios, sob formas variadas, foram sendo lidos —noto agora— à luz de um mesmo campo de problemas: autoritarismo, radicalização eleitoral, crise do pluralismo e dificuldades crescentes de governar e disputar legitimidade em um ambiente polarizado.

Logo no início do ano, já era evidente que a comunicação política não seria um tema lateral, mas um teste da capacidade efetiva de governar sob ataque. A incapacidade do governo de antecipar crises, reagir rapidamente e disputar percepções —como no episódio do Pix— revelou vulnerabilidades profundas em sua comunicação. Ao mesmo tempo, a persistência do bolsonarismo indicava que a conquista do imaginário brasileiro pelos radicais não havia sido superada.

Música | Chico Buarque & Milton Nascimento - O que Será

 

Música - Fafá de Belém canta 'Vermelho'' | Altas Horas 10/05/2025

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Opinião do dia – Antonio Gramsci* (circunstância)

“A técnica política moderna mudou completamente após 1848, após a expansão do parlamentarismo, do regime associativo sindical e partidário, da formação de vastas burocracias estatais e "privadas" (político-privadas, partidárias e sindicais), bem como das transformações que se verificaram na organização da polícia em sentido amplo, isto é, não só do serviço estatal destinado à repressão da criminalidade, mas também do conjunto das forças organizadas pelo Estado e pelos particulares para defender o domínio político e econômico das classes dirigentes. Neste sentido, inteiros partidos "políticos" e outras organizações econômicas ou de outro gênero devem ser considerados organismos de polícia política, de caráter investigativo e preventivo.

*Antonio Gramsci (1891-1937). Cadernos do Cárcere, 3ª Edição,  pp.77-8. Editora Civilização Brasileira, 2007.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Ganho real do salário mínimo semeia crise futura

Por O Globo

Medida faz crescer a dívida pública, alimenta a inflação e corrói a confiança no governo

Ao determinar o valor do salário mínimo para 2026, mais uma vez o governo decidiu conceder reajuste de quase 2,5% acima da inflação, o limite das regras adotadas com base no arcabouço fiscal. O mínimo irá de R$ 1.518 para R$ 1.621, alta de 6,8%. Será o terceiro ano consecutivo em que subirá além da inflação. Nos três anos desde que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assumiu o governo, terá aumentado 24,5%, ante inflação estimada em 14,6% no período — ganho real de quase 10%.

A política de aumento real do salário mínimo é celebrada pelo governo como conquista dos mais pobres. Ela tem sem dúvida impacto na renda do estrato social que Lula enxerga como sua base eleitoral — e de cujo apoio precisará em sua tentativa de reeleição no ano que se avizinha. Na economia, contudo, tal política tem três consequências nefastas com que infelizmente as gestões petistas têm se revelado recorrentemente incapazes de lidar.

Onda da direita terá mais dificuldades no Brasil. Por Christopher Garman

Valor Econômico

O presidente Lula entra no pleito com índices de aprovação mais altos que os de seus pares de esquerda na região

A América Latina está claramente passando por uma transformação política: candidatos da direita venceram nos últimos anos e estão bem posicionados para os próximos pleitos. A tendência começou com a eleição de Javier Milei na Argentina em 2023 e seguiu com as vitórias de conservadores na Bolívia, no Equador, no Chile e em Honduras em 2025. Em 2026, candidatos da direita têm boas chances de vencer na Colômbia, na Costa Rica e no Peru. Após uma onda eleitoral que elegeu várias lideranças de esquerda há cerca de quatro anos, o mapa político da região está claramente em transformação.

No Brasil, a direita certamente entrará em 2026 competitiva — em parte, pelas mesmas razões que têm rendido vitórias aos conservadores. Mas a situação do Brasil difere da de seus vizinhos por uma simples razão: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva entra no pleito com índices de aprovação mais altos que os de seus pares de esquerda na região — fazendo dele um leve favorito e abrindo a possibilidade de que o Brasil contrarie essa tendência regional.

Master exibe viela de Lula entre STF e Congresso. Por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Caso exibe a ocupação, pelo STF e pelo Congresso, do vazio deixado por Lula na arbitragem dos negócios da República

Cinco meses antes da cópia de um contrato entre o escritório de Viviane Barci de Moraes e o Master aparecer no celular do dono do banco, Daniel Vorcaro, o Supremo Tribunal Federal concluiu o julgamento de uma ação que derrubou dispositivo do Código de Processo Penal vedando a participação de juiz em processo de escritório em que atuem seus parentes. A ausência de debates na turma ou no plenário, além de celeridade, costuma revestir esses julgamentos virtuais de discrição. Revisitar seus votos revela o carimbo dos negócios da República às vésperas de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva iniciar o último ano de seu terceiro mandato.

A questão foi suscitada pela Associação dos Magistrados Brasileiros em 2018, três anos depois da aprovação do CPC. De avessos ao corporativismo da AMB, que chegou a acionar o STF contra a criação do CNJ, os ministros passaram, majoritariamente, a convergir com suas pautas. Foi a AMB também quem acionou o STF, ao lado do Solidariedade, contra o impeachment no STF.

Os deuses estão loucos. Por Merval Pereira

O Globo

Os “deuses” do Olimpo jurídico manobram para que ninguém, ou nenhuma instituição, possa limitar seus poderes.

A maior prova de que a acareação marcada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli sobre o caso Master estava tecnicamente errada e era injustificada foi o presidente do banco, Daniel Vorcaro, e o ex-presidente do Banco Regional de Brasília Paulo Henrique Costa, o pretenso comprador, terem sido convocados para um interrogatório que não estava previsto. Continuamos assistindo a um simulacro processual, pois, antes mesmo dos depoimentos oficiais dos envolvidos, pressupõe-se que haverá contradições, justificando a acareação.

Todo o atropelo do processo, desde o momento em que foi transferido ao STF sem razão de ser, dá a impressão à sociedade de que querem acobertar alguma coisa. Não é a primeira vez que o dono de um banco liquidado pelo Banco Central (BC) reclama, alegando prejuízos provocados pela ação saneadora da instituição fiscalizadora do sistema financeiro nacional. A diferença hoje é que o Supremo entrou na briga, aparentemente a favor de Vorcaro, embora o BC tenha se livrado da subordinação aos demais Poderes e seja autônomo legalmente.

STF corre risco com o caso do Banco Master. Por Fernando Gabeira

O Globo

O que aconteceria se os fatos de agora levassem à desmoralização da Justiça, principalmente do Supremo?

Essa história do Banco Master e do STF atravessará o ano. Posso deixar de lado os detalhes e me concentrar agora num tema mais abstrato. Olhando para trás, constato que a Operação Lava-Jato desmoralizou a política e contribuiu para a ascensão de uma proposta radical de direita. O que aconteceria se os fatos de agora levassem à desmoralização da Justiça, principalmente do Supremo?

Imagino que estejam preocupados com isso alguns dos milhares que pedem um código de conduta para o STF. A partir de um conjunto de regras claras ficaria mais difícil transgredir e estaria construída, mesmo independentemente delas, uma forte blindagem para um organismo que dá a última palavra em todas as nossas questões.

A jornalista e o ministro. Por Pedro Doria

O Globo

Uma das perguntas que mais tenho ouvido de amigos e familiares, nestes dias de Festas, é: "Qual o objetivo?".

Querem entender o que deseja a imprensa quando traz notícias de que o ministro Alexandre de Moraes pode ter pressionado o Banco Central em favor do Banco Master. A resposta não é complicada. O que a imprensa quer é trazer ao público aquilo que circula nos corredores do poder.

Embutida nessa pergunta — “qual o objetivo?” — existe a presunção de que estamos a serviço de um lado na briga política. Não é isso que nos dá gana um dia após o outro. Francamente, o tesão no trabalho está em ser o primeiro a trazer algo a público. Ao público. O barato está em conseguir explicar com mais clareza como o Brasil funciona, ou o mundo. Em ser útil — e ser lido por ser útil. Pelo ângulo pessoal, essa é a motivação de cada um de nós. Mas, na engrenagem da democracia, a imprensa cumpre um papel fundamental. Ela não julga, não condena. Alerta. Revela à sociedade aquilo que quem tem poder deseja manter em segredo. O jornalismo existe para ligar a sirene e apontar: tem problema ali. É preciso investigar formalmente.

Confusões Master de Dias Toffoli. Por Míriam Leitão

O Globo

Ministro começa a recuar da acareação, anunciando que convocados darão depoimento. Mas continua tratando da mesma forma investigados e fiscalizador

A acareação marcada para esta terça no STF sobre o Banco Master é tão imprópria que o próprio ministro Dias Toffoli começou ontem a mudar o formato e decidiu colher depoimentos prévios dos convocados. Toffoli disse, em nota no sábado, que nem o Banco Centralnem o diretor de fiscalização são investigados. Era só mesmo o que faltava. Mas se não o são, por que o diretor do Banco Central Ailton de Aquino será ouvido por uma autoridade policial, segundo a nota do ministro? A polícia só tem autoridade sobre aquilo que é criminal. O rito do devido processo legal está sendo flagrantemente ferido.

Bem mais do que constrangedor. Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Sensação de que Supremo vive numa bolha do ‘vale tudo’, como se salvar a democracia justificasse qualquer coisa e contrariando a máxima de ‘ninguém está acima da lei’

Do céu ao inferno em um ano, o Supremo Tribunal Federal atravessou 2025 como o salvador da Pátria e das instituições ao condenar um ex-presidente e oficiais de quatro estrelas por tentativa de golpe de Estado, mas morreu na praia, antes do Ano Novo, afogado em suspeitas éticas graves e relações nada republicanas envolvendo o Banco Master.

O vagalhão atingiu em cheio o ícone da defesa da democracia, ministro Alexandre de Moraes, que frequentava jantares na mansão de Daniel Vorcaro e fazia gestões insistentes e não bem explicadas junto a Gabriel Galípolo, do Banco Central, enquanto o escritório de advocacia de sua mulher mantinha um contrato milionário com o Master.

Os nossos heróis dão trabalho. Por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Deveria ser agente perturbador nacional a percepção de que poucos ministros do Supremo estão hoje aptos – como juízes, sob a República, se houvesse uma – a tratar de qualquer questão relativa ao Master. Não me refiro à aptidão formal, decidida por eles mesmos. Podem tudo, como se mede pelas licenças que se dão, palestrantes em eventos patrocinados pelo banco, dublês de juízes e empreendedores, cujos parentes advogam livremente no tribunal em que tomam decisões monocráticas.

Falo do que lhes dá credibilidade. Credibilidade impossível, se um, futuro relator, voa em jatinho com advogado de sujeito implicado na fraude; se o outro, salvador da pátria, frequenta a mansão do banqueiro fraudador; e se a esposa do salvador da pátria tem contrato milionário com o banco do banqueiro fraudador.