domingo, 11 de outubro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Flávio e Lula têm de cumprir promessa de ir aos debates

Por O Globo

Depois da ausência de confronto entre os dois no primeiro turno, ambos afirmaram que comparecerão

Depois da resistência injustificável no primeiro turno da eleição, é bem-vinda a disposição dos candidatos Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de participar de debates nesta segunda — e decisiva — etapa da disputa à Presidência. Numa eleição acirrada, em que Flávio chegou à frente do atual presidente por menos de 2 pontos percentuais, ou pouco mais de 2,2 milhões de votos, o confronto de ideias se torna fundamental para marcar diferenças e permitir ao eleitor fazer sua escolha de forma sensata e informada.

Candidatos e suas campanhas costumam fazer cálculos de perdas e ganhos eleitorais para decidir se participam de debates. Tem sido comum que líderes nas pesquisas se ausentem, por temer perder a dianteira ao se tornar alvos fáceis dos concorrentes. No primeiro turno não houve debates entre os dois líderes nas pesquisas.

Hora última para Lula escolher a voz de comando: militar, militante ou política, por Paulo Fábio Dantas Neto*

Para tudo o que se pode ou escolhe escrever sobre política há, além de um prazo de validade como pensamento, um tempo de serventia para a ação. No caso de comentários, no calor da hora, sobre a campanha do segundo turno dessas eleições, o prazo de validade pode ir muito além do dia 25.10.26, seja como   balanço, interpretação, avaliação, lição ou debate do passado; seja como orientação (e novamente debate) para situações políticas futuras. Portanto, a validade de opiniões dadas agora permanecerá enquanto for possível (institucionalmente) e desejado (social e culturalmente) haver pensamento e debate entre nós. Esse é o critério decisivo para o voto de certas pessoas, inclusive este colunista.

Hamilton, Madison e as ameaças à liberdade de imprensa nas eleições, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Houve 14.182 ataques contra jornalistas e veículos no X e no Instagram. A média diária passou de 188 no início da campanha para 327 nos oito dias anteriores à votação

Alexander Hamilton e James Madison ajudaram a construir a democracia norte-americana, mas divergiram sobre como proteger suas liberdades. Hamilton confiava na limitação constitucional dos poderes do governo; Madison passou a defender garantias expressas contra os abusos. Mais de dois séculos depois, esse debate permanece atual.

Leis são indispensáveis para assegurar a liberdade de imprensa, mas sua eficácia depende também de uma cultura política que rejeite a censura e a intimidação. Os ataques a jornalistas na eleição brasileira mostram como essa proteção pode ser corroída, mesmo sem uma proibição formal de publicar, até pelo Supremo Tribunal Federal (STF), quando um de seus membros se sente ameaçado por revelações indesejáveis.

Nascido no Caribe, Hamilton foi advogado, auxiliar de George Washington na Guerra de Independência e participante da Convenção Constitucional de 1787. Como primeiro secretário do Tesouro, estruturou as finanças do novo país. Defendia um governo federal forte, capaz de preservar a União.

Campanha eleitoral, repositório de desinformação, por Fernando Neves*

Correio Braziliense

Ficção e verdade se entrelaçam em versões contraditórias, estressando a audiência que fica confusa sem saber no que acreditar

A campanha eleitoral transformou-se em um repositório de desinformação. Em vez do momento ser usado como palco para esclarecimentos de propostas, gerando as discussões naturais a respeito de temas relevantes para a sociedade, o que vemos é um festival de obras de ficção. Seria engraçado se não fosse trágico, na medida em que os discursos das campanhas têm potencial, sem exagero, de contaminar a percepção das gerações futuras.

Medo como arma, por Merval Pereira

O Globo

Segundo o sociólogo Manuel Castels, o medo é a emoção primordial imposta pelos poderes para impedir mudanças.

A disputa feroz em que se transformou a campanha presidencial no segundo turno tem revelado mais dos candidatos do que a totalidade da curta campanha eleitoral anterior, que terminou com a vitória de Flavio Bolsonaro sobre Lula. Para o bem e para o mal. Os candidatos passaram a apresentar suas propostas de governo, o que evitaram fazer na primeira etapa da disputa. A correria com que foram buscar jovens petistas para ajudar no segundo turno teve seu lado bom, com os estudantes de diversas cidades promovendo manifestações públicas de apoio que energizaram a campanha. Mas a descoberta da deputada federal eleita Ana Elisa, de 21 anos, tão controversa quanto não necessitava Lula nesse momento em que procura os votos do centro e dos independentes para virar o jogo, trouxe de volta para o PT a imagem de radicalização repelida justamente por esse eleitorado mais centrista.

Teatro da barbárie, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Presidente americano autoriza primeira execução pública em 90 anos; no Brasil, bancada da bala avança no Congresso

Depois de 90 anos, os Estados Unidos voltarão a promover uma execução em público. Desta vez, com transmissão ao vivo na TV e nas redes sociais. A notícia foi confirmada pelo Departamento de Defesa, que Donald Trump mandou rebatizar de Departamento de Guerra. “Eu aprovo, com certeza”, sentenciou o 47º presidente americano.

Em entrevista a um canal de extrema direita, o secretário Pete Hegseth deu detalhes sobre o espetáculo da morte. O condenado será submetido a um pelotão de fuzilamento em 3 de dezembro. A escolha da data garantirá quase dois meses de debates inflamados sobre o assunto. É a nova aposta de Trump para mobilizar as bases antes das eleições legislativas que ameaçam tirar a maioria republicana no Congresso.

A situação de Lula piorou, por Elio Gaspari

O Globo

Eleitores dos candidatos da terceira via estão migrando mais para Flávio

A primeira pesquisa Datafolha mostrou que Flávio Bolsonaro botou quatro pontos de frente sobre Lula (52% x 48% dos votos válidos). Todas as notícias são ruins. Flávio aumentou seu capital em mais de um milhão de votos. Eleitores dos candidatos da terceira via estão migrando mais para Flávio. Nove milhões de votos que foram para Lula em 2022 estão com Flávio em 2026.

A bola de ferro presa no pé de Lula é a mesma de sempre: ele é rejeitado por 46% dos entrevistados. Desde 2026, seu governo é mal avaliado na faixa dos 40% dos entrevistados e há anos não chega aos 50%.

Lula reagiu com a escala 5x2 (um benefício futuro) e o fim das apostas (um benefício tardio). Deu no que deu.

A falta de plano na economia, por Míriam Leitão

O Globo

O ajuste fiscal será necessário ano que vem. O que Flávio Bolsonaro tem dito não fica em pé. E Lula não esclarece o que fará

A campanha de Flávio Bolsonaro prometeu um ajuste fiscal entre R$ 150 bilhões a R$ 200 bilhões no primeiro ano. Mas as falas dele e de sua equipe são de aumento do gasto. Ele disse que os aposentados terão reajuste acima da inflação. Sua equipe afirmou que aumento real do salário mínimo vai continuar e negou privatizações. Flávio Bolsonaro disse que as emendas parlamentares serão mantidas porque ele sabe “como é suado conseguir voto”. E ainda disse que vai cortar impostos. Tudo somado, vai manter as despesas e diminuir receita. A conta piora.

Nobel nobre, por Dorrit Harazim

O Globo

Prêmio é o inalcançável brinquedo supremo que o presidente dos Estados Unidos cobiça de forma obsessiva, por todos os meios

Bom mesmo foi encerrar a semana de nervosia política no Brasil com a notícia do Nobel da Paz concedido à jurista sul-africana Navanethem Pillay. Ponto para o Comitê Norueguês, que neste ano acertou na premiação. Das cinco categorias existentes há 125 anos (às que foi acrescentada Economia em 1968), o Nobel da Paz é certamente o mais prestigioso, universal e, por isso mesmo, polêmico dos prêmios — qualquer cidadão em qualquer canto do planeta sabe o que é paz ou tem uma concepção para paz.

Acordão à vista? Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Conversas para salvar Jair Bolsonaro, Flávio e Alexandre de Moraes pipocam em Brasília

A guerra continua no Supremo e os sinais trocados dados pelo ministro Alexandre de Moraes chamam a atenção e reforçam uma dúvida nos ares de Brasília: há um acordão à vista para salvar Moraes, de um lado, e Jair e Flávio Bolsonaro, do outro? Moraes precisa mais dos Bolsonaro do que eles dele, mas não seria nada mal para eles jogar o caso Master para segundo plano.

Um Andrada, na campanha, para pensar o futuro, por Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

Donald Trump, Marco Rubio ou George Washington – quem deverá substituir os Andradas no monumento inaugurado em 1922 na Praça da Independência, em Santos? Talvez as três figuras norte-americanas, juntas? Nenhuma? A resposta, se vier, só deverá aparecer depois de conhecido o vencedor da eleição presidencial no Brasil. Por enquanto, a pergunta é justificável e inquietante, talvez, para uma parte do eleitorado. Para outra, nem tanto, ou talvez até animadora. Pelo balanço possível neste momento, têm peso nas eleições os grupos menos interessados na combinação de valores como soberania e cooperação.

As urnas – e o que a esquerda não soube ouvir, por Karin Koshima

O Estado de S. Paulo

Há resultados eleitorais que surpreendem. Outros apenas tornam visível o que já vinha acontecendo. O resultado deste primeiro turno pertence à segunda categoria. A força do campo político ancorado no bolsonarismo e a sua expansão no Senado não são fortuitos. Para quem acompanha pesquisas qualitativas, as urnas apenas revelaram correntes que nunca deixaram de existir.

Em fevereiro de 2018, antes da primeira eleição de Jair Bolsonaro, apontei um erro recorrente: tratar seu eleitor como radical, isolado ou incapaz de ir além do extremismo. As qualitativas mostravam o oposto. Havia pessoas comuns aproximando-se de Bolsonaro diante de dupla desproteção: o medo da violência e a percepção de que valores familiares sofriam transformações empurradas goela abaixo. Não necessariamente concordavam com ele em tudo, mas encontravam o que outros falhavam em oferecer: identificação, proteção e a sensação de que alguém compreendia seus medos.

Reverter o resultado do 1º turno é possível – e está em nossas mãos, por Roberto Amaral*

“O erro da ditadura foi torturar e não matar”- Jair Bolsonaro (Jovem Pan, Junho de 2016)

“Não houve golpe militar em 1964” - Jair Bolsonaro (Roda Viva, 30 julho de 2018)

“Esta é a encruzilhada que a América enfrenta: ou vocês [os EUA] têm o aliado mais poderoso do hemisfério ocidental, ou um antagonista que se alinha com adversários americanos e torna qualquer política americana para a região impossível.” - Flávio Bolsonaro (Folha de S. Paulo, 28/03/2026)

De um famoso e formoso discurso de Otávio Mangabeira, pronunciado em 1945, a história recolheu uma frase que saltou de seu entrecho para correr mundo. Uma advertência que chega aos nossos dias carregada de dramática atualidade: “A democracia é uma flor tenra que precisa de muito cuidado para crescer e para se firmar”. A advertência do tribuno baiano era uma peça em sua campanha contra o Estado Novo.

Mangabeira era um liberal, fauna de há muito em extinção na política brasileira. Foram-se os liberais, mas o projeto permaneceu vigente, mas hoje manipulado exatamente pelos seus mais insidiosos inimigos. Veja-se a injúria que é a promessa liberal, que já foi a bandeira de Raul Pila, ser utilizada na denominação da sigla que abriga o clã Bolsonaro.

A frase lapidar de Mangabeira, contudo, ganhou vida própria e percorre inumeráveis discursos parlamentares desde 1946. Ganhou força e ilustrou e ainda ilustra a eloquência de tribunos, juristas e jornalistas sempre que a democracia é ameaçada pelos seus inimigos de sempre. Assim, por exemplo, na crise decorrente da renúncia de Jânio Quadros, em 1961, assim em 1964. Assim como agora. Desta feita, porém, a ameaça não chega pela rota dos quartéis, mas por dentro de um dos institutos mais sagrados da democracia representativa, o processo eleitoral.

Flávio está mentindo sobre teu dinheiro, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Auxiliares são economistas de segunda divisão e só prometem bondades; conta não fecha de jeito nenhum

Candidato pode defender programa econômico que achar melhor, mas não pode passar brasileiros para trás

Flávio Bolsonaro está mentindo sobre seu programa econômico. Não sabemos para quem. Meu palpite é que é para você.

Daniella Marques e Adolfo Sachsida, os dois auxiliares que Flávio designou para defender suas propostas para a economia, são economistas de segunda divisão que foram escalados para mentir durante a campanha eleitoral.

Só prometem bondades: um ajuste fiscal grande e completamente indolor, sem cortes de salários, aposentadorias, programas sociais, benefícios fiscais para os ricos, enfim, nada além de salários de funcionários públicos acima de R$ 200 mil, fraudes e ineficiências.

Para entender o risco de estelionato eleitoral de Flávio Bolsonaro na economia, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Parte que vazou do programa do candidato não faz sentido sem corte social ou mais imposto

Negativas da equipe bolsonarista podem esconder outros tipos de corte ou contenção

Flávio Bolsonaro (PL) e equipe desautorizam versões do plano econômico que vazam por aí. Parecem negar o pacote mínimo de quase qualquer adepto da contenção de despesa.

Isto é: 1) negam que o reajuste do piso de benefícios previdenciários e assistenciais venha a ser desvinculado dos reajustes do salário-mínimo; 2) negam que a despesa federal mínima obrigatória em educação e saúde seria desvinculada da receita do governo; 3) dizem que o salário-mínimo continuará a ter reajuste real, acima da inflação.

Suponha-se que seja assim. Nem essas negativas dizem tudo.

A infestação moral dos ratos, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

A infestação na vida política agrava-se com a corrupção transformada em lepra moral, que já se naturalizou

O que seria o 'coração' da Pólis republicana, por arritmia burocrática com a nação, infartou.

A recordação de uma leitura da pequena infância ajusta-se ao dito de Machado de Assis de que "o menino é o pai do homem" (em "Memórias Póstumas de Brás Cubas"). Na reminiscência, desfia-se uma parlenda: "Ratusca Boduça de Rafo Rafuça / morava na roça / Por voracidade quis ir à cidade com toda essa troça / os quatro fedelhos de Rafo Rafelhos / que filhos lhe são / pois lá na cidade tem uma comadre / que habita o porão / da gorda ricaça Fifica Fogaça / que tem na despensa / mui ricas pitanças pra suas papanças / e nem sequer pensa / que os quatro fedelhos de Rafo Rafelhos / de noite aí vão..."

Dá para adivinhar o resto, uma fábula de predação.

PT dorme no ponto, acorda tarde e corre na última hora, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Lula esperou levar um susto para captar e se render à mensagem do desejo do eleitorado pela mudança

Agora é difícil a tarefa de em 15 dias convencer a maioria sobre o que não foi feito em vários mandatos

As primeiras pesquisas da campanha rumo ao segundo turno confirmam a vantagem de Flávio Bolsonaro (PL) sobre Luiz Inácio da Silva (PT), mas não registram uma dianteira correspondente à série de fatos positivos que marcaram a semana do candidato de oposição.

O vencedor da etapa inicial viveu dias de celebração aos acertos e atração de apoios políticos que, embora não signifiquem necessariamente votos, sinalizam expectativa de poder. Já o perdedor teve frustradas as tentativas de conquista de alianças, precisou se ocupar dos erros e da reorientação de rota.

Poesia | Meio do caminho, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | ESPECIAL ALDIR BLANC 80 | 9ª Temporada | 08/10/2026

 

sábado, 10 de outubro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Brazil, o Filme

Por CartaCapital

A continuação da distopia prestes a entrar em cartaz 

Sam Lowry é o herói acidental de um país inoperante, regido por ordens desconexas de uma burocracia obtusa emitidas por computadores obsoletos. Enquanto uma elite cafona se esbalda em festas nababescas na cobertura, tal qual os irmãozãos de Daniel Vorcaro, o couro come nas ruas. Funcionário do quarto escalão de uma repartição pública, oprimido pela mãe dominadora, Lowry acaba confundido com um terrorista ao se apaixonar por uma mulher “suspeita”. Para a sua sorte, ou azar, o Estado que o persegue é incompetente e indolente. Por isso, mais perverso.

O que aconteceu com os jovens? Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Esquerda se institucionalizou e deixou campo da rebeldia livre para a ultradireita

Distanciamento afetivo dos horrores do totalitarismo reduz defesas contra a radicalização

Uma das possíveis explicações para o mau desempenho de Lula (PT) no primeiro turno é que ele perdeu apoio entre os eleitores mais jovens. Pesquisas mostraram que o petista, que antes mantinha confortável vantagem sobre Flávio Bolsonaro (PL) nas faixas de 16 a 34 anos, viu sua dianteira estreitar-se mais perto do pleito. Numa disputa acirrada, esses votos fizeram diferença.

Não é só no Brasil. Jovens, notadamente homens, abraçando posições da direita radical foram um fator relevante para as eleições de Javier Milei na Argentina e de José Antonio Kast no Chile. Não é só na América Latina. Jovens também passaram a engrossar as fileiras da ultradireita nos EUA, França, Alemanha, Espanha etc. Até duas décadas atrás, jovens eram, no Ocidente, um público quase cativo da esquerda. O que aconteceu?

A ascensão política de pautas antifeministas é uma ameaça às mulheres? Sim, por Flávia Biroli*

Folha de S. Paulo

Estratégia promove projetos autoritários e normaliza violências e desigualdades

Movimento rende frutos em tempos de expansão de ideologias anti-igualitárias e de avanço da extrema direita

É preciso avaliar concretamente a atuação política das mulheres. Qual trajetória as levou à política e de que modo ganharam visibilidade? Quais interesses representam? Quais são as consequências do que fazem quando têm espaços e recursos de poder?

Isso significa evitar duas armadilhas. A primeira é a idealização. Os estereótipos de gênero alimentam visões de que as mulheres seriam menos ambiciosas. Podem comportar-se assim, o que decorre tanto de incentivos presentes na socialização diferenciada de mulheres e homens quanto de desincentivos. Entre estes estão obstáculos históricos à participação na esfera pública, resultantes de sua responsabilização pelo trabalho de cuidado, da seletividade de instituições como partidos políticos e de valores machistas.

Esquema bolsonarista define eleição no Rio, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Douglas Ruas nem precisava de canetada do TSE e confusão armada por Garotinho

Impactado por votos na Baixada Fluminense, pleito virou um negócio de família

No Rio de Janeiro, a política é um negócio de família. O método genealógico –uma tradição na história brasileira, basta lembrar dos Andradas de Minas Gerais, que atuam desde antes da declaração de independência do país –domina as relações de poder na atual sociedade fluminense, aí incluídas as igrejas evangélicas e as milícias.

A partir de 2018 o clã Bolsonaro –em torno do qual gravitam os clãs menores– instalou no estado uma espécie de novo chaguismo, sistema baseado no uso da máquina e no desvio de dinheiro dos cofres públicos para a compra de votos e a obtenção de imbatível vantagem eleitoral.

Mais uma vez à beira do abismo, por Juliana Diniz*

O Povo (CE)

Mal saímos do primeiro turno e já temos um rol de preocupações sobre o futuro para administrar. Bem-posicionado nas pesquisas e muito confiante de sua vitória, Flávio Bolsonaro não tem tido pudor ao anunciar suas pretensões para quando se assenhorar da cadeira da presidência da república. Não há, aqui, espaço para o engano, as propostas são claras e merecem toda a nossa atenção.

A mais alarmante de todas é o desejo explícito de mudar a constituição para torná-la, segundo o candidato, "mais democrática". A ambição não é impossível: depois de eleger a maior bancada de deputados federais e de senadores, o Partido Liberal irá despontar como força parlamentar na próxima legislatura, tornando mais desafiadora a defesa das agendas mais associadas à esquerda progressista. O Brasil, ao que parece, vai mesmo "endireitar", o que deveria ser motivo de angústia para trabalhadores, mulheres e demais grupos vulneráveis.

Poder e saber, por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

Será necessário Lula mergulhar numa autocrítica rigorosa, calçar as sandálias da humildade e enxergar a realidade, reatualizando os saberes. Se Flávio Bolsonaro for eleito, ficará na difícil posição do líder que pode mais do que sabe

O eleitorado brasileiro decidiu aposentar a geração de 1988. Esse time foi para casa. Seus últimos representantes são José Sarney e Luiz Inácio Lula da Silva. Um, curado de uma pneumonia aos 96 anos, faz ginástica todos os dias, está distante da política. O outro, aos 81 anos, tentou sem sucesso a recondução à Presidência da República no primeiro turno. Junto com eles, mais de 30 nomes expressivos na política foram mandados para casa. Foi um massacre.

Puxador sem time não enche bancada, por Amanda Vitoria Lopes*

Correio Braziliense

Em 2026, 19 chapas de partidos e federações perderam ao menos uma cadeira por falta de candidatos com votação mínima. Em 2022, foram 52

A federação PSol/Rede elegeu seis deputados federais por São Paulo em 2026. Pelo quociente partidário (QP), poderia ter elegido nove. Erika Hilton com seus 1.596.472 votos, teria a capacidade de garantir a eleição de três candidaturas da federação. Mas só seis candidatos da chapa passaram do mínimo exigido para ocupar uma vaga. O sétimo, Raul Marcelo, ficou 3.702 votos abaixo do piso. Três cadeiras que a federação tinha votos para ocupar foram para outros partidos.

As distorções do sistema eleitoral para o Congresso, por Marcus Pestana

Há uma semana, encerramos o primeiro turno das eleições gerais de 2026. Ainda teremos a segunda rodada da presidencial e para governador, em alguns poucos estados. Foram eleitos 54 senadores e 513 deputados federais. Houve um expressivo crescimento do Partido Liberal, que abriga o bolsonarismo, com a eleição de 121 deputados e a formação de uma bancada de 28 senadores, quase um terço das cadeiras. A esquerda elegeu 124 deputados, quatro a menos do que em 2022, e perdeu uma cadeira no Senado Federal em relação ao que é hoje, terá 15 senadores. A bancada dos partidos situados ao centro do espectro político é que cederam maior espaço. Portanto, qualquer que seja o presidente da República eleito, Flávio Bolsonaro ou Lula, haverá a exigência de um grande esforço político para formar uma base de apoio estável e sólida para o novo governo. Aí, aparece a primeira distorção, a desconexão entre as eleições presidenciais e as parlamentares. Elegemos um presidente, mas não construímos, no próprio processo eleitoral, as condições de governabilidade, ou seja, maioria parlamentar.

Sempre um alento, por Flávia Oliveira

O Globo

Soa como música que acalma o Nobel da Paz concedido a Navi Pillay

Em tempos de multilateralismo despedaçado, conflitos alongados, misoginia galopante, soa como música que acalma o Nobel concedido a Navi Pillay. O comitê foi explícito ao reconhecer os esforços da jurista sul-africana para “promover a paz e o Direito Internacional”. Não deixou de notar que a ex-alta comissária das Nações Unidas para Direitos Humanos e ex-presidente do Tribunal Penal Internacional, uma advogada que lutou contra o apartheid e denunciou genocídio, hoje com 85 anos, enfrentou na trajetória profunda discriminação, segregação e exclusão. Ainda assim, não perdeu a coragem nem esmoreceu na luta por justiça e dignidade humana. Não por acaso, a secretária-geral da Anistia Internacional, Agnès Callamard, que estava com Navi na Alemanha quando ela soube do prêmio, disse que a escolha foi inspiradora.

Corra, Lula, corra, por Eduardo Affonso

O Globo

Faltam 15 dias para o segundo turno, Lula, e você tem um forte adversário pela frente. Não o que pretende anistiar golpistas e retomar, talvez piorado, o pior governo da nossa história. Você precisa derrotar é o que subiu a rampa em 2023 com gay, mulher, indígena, portador de deficiência, criança — e não aumentou a representatividade feminina, negra ou LGBT em cargos de relevância, não melhorou a educação, não pôs fim à tragédia ianomâmi. O do triplex, das gafes machistas, do mensalão, do petrolão. O das promessas não cumpridas, dos sigilos de cem anos. O que bancou a candidatura de um poste e nos jogou numa recessão. O que apostou no antagonismo entre ricos e pobres, católicos e evangélicos, pretos e brancos — e cujos seguidores quase nos fizeram acreditar que a classe média é odiosa, o ecumenismo é uma ilusão, pardos e mulatos são uma alucinação coletiva.

Antes fosse, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

“Menos Janja e mais Alckmin.” Esse mote – produto da semana de lavação explícita de roupa suja – resume, reúne a campanha de Lula inteira. O “menos Janja” é uma impossibilidade. Janja é o governo que se pretende reeleger. Diagnosticou-se, por exemplo, que a campanha falhara na gestão das redes sociais, envelhecida. Solução: mais janjismo cultural, de imediato inundadas as postagens de Lula com as selfies-consultorias da juventude psolista. Para falar com o eleitor que Lula já tem.

Antes o problema principal fosse de forma. Quer-se atrair o eleitor de Renan Santos com discurso identitário. Quer-se conquistar o eleitor de Augusto Cury com texto woke. Quer-se baixar o índice de abstenção assim.

As eleições e o futuro como desafio, por Marco Aurélio Nogueira

Revista Será?

Entre decepções, surpresas e lamentações, as urnas do primeiro turno impactaram a vida política brasileira. Como interpretá-las?

Os resultados trouxeram perigos e alertas para os atores da política democrática brasileira. Nas eleições legislativas, a maioria formada pelo PL (Bolsonaro) na Câmara e no Senado foi um dado chamativo. Os demais partidos oscilaram. A maioria saiu-se mal, com a exceção do PSOL, que teve bom desempenho e elegeu uma bancada competitiva na Câmara. Já nas eleições para a Presidência, o campo democrático – representado por Lula, pelo PT, pelo PSDB, Rede e Cidadania, além de pedaços do chamado “Centrão” e dos liberais que prezam a democracia — sofreu uma inesperada derrota.

Lula III, o legado, por Paulo Gala

CartaCapital

O governo é marcado pela expansão das transferências de renda, o pleno emprego e o desafio da reindustrialização

A avaliação do desempenho econômico do terceiro mandato do presidente Lula comporta um diagnóstico relativamente claro. O controle das contas públicas pode ser considerado razoável, sobretudo quando comparado aos anos anteriores. Os déficits primários ficaram, em média, abaixo de 1% do Produto Interno Bruto por ano, patamar inferior ao observado durante o governo Temer e o início da gestão Bolsonaro. Esse dado costuma ser ofuscado no debate público, que tende a tratar a política fiscal do período como sinônimo de descontrole, mas os números do resultado primário não sustentam essa leitura.

A democracia em risco novamente, por Pedro Serrano

CartaCapital

A extrema-direita no Congresso seria amplificada com Flávio Bolsonaro, pois teríamos dois dos Poderes capturados por forças golpistas

Os resultados verificados nas eleições parlamentares do último dia 4 de outubro acendem um alerta vermelho para a democracia no Brasil. A ocupação pela extrema-direita de grande parte do espaço político no Legislativo, que vinha sendo preenchido pelo chamado Centrão e pela direita mais moderada, constitui um perigo para o Estado Democrático de Direito. Afinal, Câmara e Senado passarão a ser dominados por uma força política disruptiva, que já tentou um golpe de Estado há relativamente pouco tempo. Ainda é cedo para prever o desfecho das eleições presidenciais. O presidente Lula é um grande líder popular e, sendo pequena a diferença de votos, é ainda possível reverter o resultado desfavorável. Mas é preciso apontar que o risco à democracia já instalado pela nova composição do Congresso certamente seria amplificado com a vitória de Flávio Bolsonaro, uma vez que teríamos dois dos Poderes da República capturados por essas forças golpistas.

Bolsonarismo e sociedade de massa, Luiz Gonzaga Belluzzo

CartaCapital

Os seus adeptos encarnam o “homenzinho” fascista, ansioso por autoridade, mas rebelde

Os trancos e barrancos do comportamento dos seguidores do projeto bolsonarista despertam suposições as mais divergentes, quando não disparatadas, a respeito dos verdadeiros propósitos – ou falta deles – incrustrados no espírito do homem-massa.

A leitura obsessiva de alguns autores irreverentes instigou minha resistência a oposições binárias. Isto ou aquilo? Prefiro a forma “isto e aquilo”. É a estratégia da loucura, o desvario finalista e inconsciente de um certo tipo de gente que deambula nos espaços sociais criados pela sociedade capitalista de massa.

O enterro de uma farsa, por Jamil Chade

CartaCapital

Após o fluxo contínuo de fake news sobre as urnas eletrônicas, Donald Trump elogia o sistema eleitoral brasileiro 

Por anos, ouvimos de bolsonaristas a mesma ladainha: as urnas eletrônicas não são confiáveis. Numa operação que contaminou a credibilidade do processo eleitoral brasileiro, a extrema-direita passou anos conspirando contra a democracia e disseminando a desinformação sobre supostas fraudes no sistema de contagem de votos no Brasil. Numa delas, em 2022, Jair Bolsonaro reuniu embaixadores estrangeiros para apresentar uma suposta denúncia contra as urnas no ­País­, um gesto que lhe valeu a inelegibilidade. Em julho, em mais uma tentativa de alimentar a polêmica, o bolsonarismo convocou para uma live o consultor argentino Fernando Cerimedo, atualmente preso na Bolívia, para promover um ataque às urnas.

Poesia | Saudade, de Clarice Lispector

 

Música | Noel Rosa - Gago Apaixonado

 

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Reforma tributária deve entrar em vigor como promulgada

Por O Globo

Em vez de mudar avanços resultantes de décadas de debate, candidatos têm de se preocupar em implementá-los

Em 20 de dezembro de 2023, numa sessão histórica com a presença de autoridades dos três Poderes, o Congresso promulgou a reforma tributária, proposta discutida havia mais de 30 anos. Foi um momento raro de consenso político em favor dos brasileiros, reféns de um sistema tributário caótico e injusto. Esse avanço não pode ser desperdiçado. Por isso mesmo, os candidatos Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que disputarão o segundo turno em 25 de outubro, precisam se comprometer a preservar o que foi decidido e dar andamento à implementação da reforma.

Disputa do segundo turno se acirra na rua, no Congresso e nos tribunais, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Eleitos com milhões de seguidores têm força própria: à esquerda, Erika Hilton, Ana Elisa e Jones Manoel são as estrelas; à direita, Nikolas Ferreira, Lucas Pavanato e Jessé Sangalli

O segundo turno está na rua, mas uma parte decisiva da disputa ocorre nos corredores do Congresso e nos gabinetes dos tribunais. Enquanto Flávio Bolsonaro procura converter a vantagem sobre Luiz Inácio Lula da Silva em vitória, o resultado de domingo já reorganiza alianças, estimula propostas de mudanças constitucionais e altera as expectativas sobre o futuro do Supremo Tribunal Federal. A eleição presidencial tornou-se também uma disputa pelas regras e pelos limites do poder. Flávio já fala em acabar com a reeleição e aumentar seu mandato para cinco anos.

A direita que dividiu o Centrão, por Karolina Roeder*

Correio Braziliense

É muita ironia do destino a democracia brasileira em 2026 depender do Centrão para sobreviver

 O primeiro turno de 2026 confirmou algo que vinha se desenhando desde 2018. A extrema-direita se consolidou como força eleitoral no Brasil, com quadros, eleitorado e um partido que, mesmo com uma organização frágil, dispõe da maior fatia individual do fundo eleitoral. O capital político de Jair Bolsonaro foi transferido para os filhos, especialmente Flávio, cuja candidatura presidencial funcionou como motor das candidaturas do PL ao Legislativo. O PL elegeu 121 deputados, a maior bancada de um único partido na Câmara desde a redemocratização, e terá a maior bancada do Senado a partir de 2027, com 28 senadores. 

Do outro lado, os seis partidos do Centrão — União Brasil, PP, PSD, Republicanos, MDB e Podemos  — elegeram juntos 13 deputados a menos que em 2022. Isso chama atenção porque parte desses partidos passou os últimos anos ao lado do bolsonarismo em pautas como a anistia aos condenados do 8 de Janeiro e a oposição sistemática ao governo. Com isso, perderam espaço justamente para o campo político que ajudaram a fortalecer.