Correio Braziliense
Acertar algumas apostas não transforma
o torcedor em alguém capaz de vencer continuamente uma empresa que define as
cotações e algoritmos para obter lucro
Um homem ganhou na loteria espanhola com um bilhete terminado em 48. Explicou
sua escolha: sonhara com o número 7 durante sete noites; logo, 7 vezes 7 seriam
48. A conta está errada, mas o prêmio era real. O físico norte-americano Leonard
Mlodinow abre o livro O andar do bêbado: como o acaso determina nossas vidas
(Zahar) com esse episódio para mostrar uma fraqueza humana: depois de conhecer
o resultado, inventamos uma lógica que parece explicá-lo. Nas loterias, cada
sorteio é independente; números atrasados não ficam mais próximos de sair, e
uma vitória não comprova a eficácia do palpite. O vencedor aparece nas
notícias. A multidão que fez contas igualmente fantasiosas e perdeu permanece
invisível.
Mlodinow, autor de livros de divulgação científica, assina uma coluna para o
The New York Times e escreveu roteiros das séries MacGyver e Star Trek. Com o
falecido Stephen Hawking, é coautor de “Uma nova história do tempo” (Ediouro),
um best-seller traduzido em 25 idiomas. Seus pais foram ambos sobreviventes do
holocausto, e se conheceram em Nova York depois da guerra. Casado e pai de três
crianças, entre as quais uma menina adotada na China, Leonard Mlodinow é um
sortudo: estava no World Trade Center, no dia 11 de setembro de 2001, e sobreviveu
ao ataque terrorista.
O Andar do Bêbado é um tratado sobre o poder do acaso em áreas da nossa vida
que vão de jogar futebol, conseguir emprego e receber um diagnóstico médico.
Mlodinow percorre a história das probabilidades e usa exemplos do esporte, das
finanças e da vida cotidiana para explicar por que confundimos sorte com
talento, coincidência com padrão e uma sequência passageira de acertos com uma
regra confiável. Seu livro ajuda a entender o fascínio das bets.
Quem acompanha futebol pode conhecer os times, avaliar jogadores e antecipar
tendências. Ainda assim, uma partida conserva muita criatividade e
imprevisibilidade; acertar algumas apostas não transforma o torcedor em alguém
capaz de vencer continuamente uma empresa que define as cotações e programa os
algoritmos para obter lucro.
A loteria tradicional vende a esperança de uma mudança de vida concentrada em
um sorteio. As plataformas digitais multiplicaram essa promessa. Estão no
celular, aceitam pagamentos em segundos e oferecem novas oportunidades a cada
jogo, lance ou rodada de cassino virtual. A derrota convida à tentativa de
recuperar o dinheiro; uma pequena vitória alimenta a impressão de que o próximo
grande prêmio está perto. Publicidade, influenciadores e patrocínios esportivos
deram à aposta a aparência de hábito comum. O cassino entrou em casa sem
precisar abrir as portas.
É nesse ambiente que a epidemia das bets se tornou uma questão de saúde pública
e de economia doméstica. O custo não se resume ao dinheiro transferido para as plataformas:
inclui sofrimento psíquico, conflitos familiares, perda de produtividade e
tratamento. Estudo citado pelo Ministério da Saúde estima em R$ 38,8 bilhões
por ano o custo social associado aos jogos, dos quais R$ 30,6 bilhões estariam
ligados à saúde. É uma estimativa que não deve ser confundida com o total
apostado ou com a perda financeira direta dos jogadores.
Chegou atrasado
O governo demorou a acordar para o problema. Regulamentou o mercado, autorizou
empresas, cobrou outorgas e tentou impor mecanismos de fiscalização e proteção
ao apostador. Foram concedidas 85 autorizações, com pagamento total de R$ 2,55
bilhões em outorgas. Agora, abruptamente, o presidente Luiz Inácio Lula da
Silva decidiu encerrar a atividade por meio da Medida Provisória nº 1.394,
assinada na sexta-feira, 25 de setembro. A decisão impede novos depósitos e
prevê o bloqueio dos sites e aplicativos a partir de 6 de outubro, dois dias
depois do primeiro turno. O governo associou a proibição a um pacote de
renegociação de dívidas.
Faltam nove dias para a votação. A proximidade das urnas torna a decisão uma
aposta política de alto risco, embora seus fundamentos sociais sejam sérios.
Para famílias atingidas pela dependência, Lula poderá aparecer como o
presidente que enfrentou um negócio poderoso. Para quem aposta sem identificar
prejuízo na própria rotina, a proibição poderá soar como perda de liberdade e
abuso de poder. Clubes, empresas de comunicação e outros setores que recebem
dinheiro das plataformas têm motivos para resistir e capacidade de levar essa
reação ao debate eleitoral.
O eleitor também poderá perguntar: por que o governo autorizou a expansão de um
mercado que agora considera intolerável? Há um risco prático por trás do
cálculo eleitoral. Proibir a oferta legal não elimina a vontade de apostar.
Sites clandestinos continuam acessíveis. O governo anunciou bloqueios de acesso
e de pagamentos, mas a eficácia dessas medidas dependerá de fiscalização
contínua. Operações da Polícia Federal já identificaram plataformas ilegais
divulgadas por influenciadores, inclusive com sinais falsos de regularidade.
E como reagirá o Congresso, onde o lobby das bets tem sua própria bancada? Uma
medida provisória produz efeitos imediatos, mas precisa ser aprovada para se
tornar definitiva. Entre a assinatura e a eleição, porém, haverá pouco tempo
para medir seus resultados. Defender as famílias do vício pode render apoio.
Convencer o país de que a proibição funcionará, depois de ter regulamentado as
bets, é a parte mais difícil dessa aposta.