domingo, 24 de maio de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Lula não encontra limite em sua gastança eleitoreira

Por O Globo

‘Bondades’ se sucedem em ritmo desenfreado e deixarão conta altíssima para o próximo governo

A obsessão do governo em distribuir “bondades” para melhorar a popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva até as eleições começou no ano passado e não parece ter fim. Basta acompanhar a sucessão de programas ou medidas de objetivo nitidamente eleitoreiro anunciadas em ritmo a cada dia mais frenético. Todos os governos costumam ampliar gastos às vésperas das eleições. Mas Lula parece não encontrar limites.

Em novembro, o governo sancionou a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil mensais. Em 12 março, voltou à carga eliminando impostos federais sobre importação e venda de diesel, usando a guerra no Oriente Médio como pretexto. Menos de duas semanas depois, retomou o Plano Brasil Soberano, com crédito barato do BNDES a empresas exportadoras. Mostrando estar disposto a agradar diferentes perfis de eleitor, em abril lançou novo pacote com isenção de combustíveis e ampliou em R$ 20 bilhões os recursos do programa habitacional Minha Casa, Minha Vida, estendendo o foco à classe média. Também em abril, o Conselho Monetário Nacional (CMN) criou linha de financiamento a empresas do setor aéreo. O vice-presidente Geraldo Alckmin anunciou R$ 10 bilhões em crédito para máquinas e implementos agrícolas, e Lula ampliou o programa para compra de ônibus e caminhões.

Entrevista| 'Timing do escândalo com Vorcaro foi bom para Flávio Bolsonaro, dará tempo de se recuperar', diz Marcos Nobre

Por Vinicius Mendes – BBC News Brasil, publicada em 22 de maio de 2026.

Em entrevista à BBC News Brasil, o filósofo e pesquisador Marcos Nobre afirma que terceira via é uma 'ilusão' e contesta a ideia de que exista uma polarização no país hoje.

Embora a revelação das conversas entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master, hoje preso, tenha afetado negativamente a campanha à Presidência do filho de Jair Bolsonaro (PL), ela não será suficiente para impedi-lo de chegar, competitivo, ao segundo turno das eleições de outubro.

A leitura do cenário atual pelo filósofo e cientista político Marcos Nobre, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), porém, não vai na direção de que a polarização calcifica os polos antagônicos de forma a blindá-los de crises como essa.

Ao contrário, seu argumento é que, na estrutura da divisão social que o Brasil vive hoje, Flávio lidera a coalizão que busca interromper políticas de redistribuição de renda iniciadas nos anos 1990.

Essa coalizão, conformada por uma parte da direita tradicional e da direita radical, tem angariado votos desde, pelo menos, a eleição de 2018 — e reúne muitas condições para seguir disputando o pleito desse ano, na avaliação de Nobre.

Para ele, embora a relação de proximidade de Flávio com Vorcaro prejudique sua imagem de alguma forma, não abala sua campanha.

"Além disso, o timing da crise foi bom para o Flávio, porque dará tempo de ele se recuperar. Tem muito tempo até outubro", diz Nobre em entrevista à BBC News Brasil.

Flávio conta, para isso, com um novo ator da política brasileira, na visão de Nobre: um partido digital. Este é eixo central de O partido digital bolsonarista, livro que ele lançará em junho, ao lado da cientista política Ana Cláudia Chaves, pelo Centro para Imaginação Crítica (CCI) do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).

Do outro lado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é apontado por Nobre como o líder de uma coalizão distributivista, que tem o desafio de não ter mais como acomodar o conflito pela distribuição da riqueza como fazia antes: por meio de um acordo entre as classes sociais. Foi por isso que, no atual mandato, ele partiu ao confronto com o Congresso, aponta o filósofo.

Para Nobre, é por isso que a tentativa de criar uma "terceira via" para o pleito de outubro é uma "ilusão". "Ela é como um estacionamento em que as pessoas ficam ali esperando se vão para um lado ou para o outro. É uma ideia fantasiosa", afirma.

Confira os principais trechos da entrevista.

A difícil arte da frente ampla, por Luiz Sérgio Henriques

O Estado de S. Paulo

Mais uma vez, e por toda parte, a esquerda pós-comunista, uma mancha ainda indecisa de tendências díspares, depara-se com o enigma da ampla coalizão democrática

Um mergulho no imaginário das esquerdas, em plena modernidade, permite identificar a questão recorrente de alianças e frentes. Com quais aliados contar para reformar o capitalismo, segundo os socialistas, ou para derrubá-lo, segundo os comunistas? A relação entre esses dois irmãos-inimigos atravessou boa parte do século passado, apontando o caminho seja de derrotas fragorosas, seja de momentos de resistência e avanço.

O feroz antagonismo entre os irmãos assumiu tons retóricos contundentes. Por um lado, os comunistas eram acusados de ser adeptos de soluções violentas, inviáveis no Ocidente político; os socialistas, por seu turno, não passariam de traidores da revolução, quando não de fraudulenta ala “social” do fascismo.

Fantasmas do passado, por Merval Pereira

O Globo

Lula, assim como Bolsonaro fez, está fazendo “o diabo” com o dinheiro público, e se arrisca a receber uma herança maldita, verdadeira, dele mesmo

Todo governo “faz o diabo” para continuar no poder, como já admitiu a ex-presidente Dilma Rousseff, e essa é uma das várias razões para que a reeleição seja muito contestada, tanto aos governos regionais quanto à presidência da República. Lula, assim como Bolsonaro fez, está fazendo “o diabo” com o dinheiro público, e se arrisca a receber uma herança maldita, verdadeira, dele mesmo. Já a eleição para a Câmara e o Senado obedece a uma outra concepção. Quase ninguém lembra em que candidato votou na última eleição, e o que funciona mesmo são as máquinas eleitorais regionais que, na maioria das vezes, não coincidem com quem está no comando nacional.

Um presidente, dois Brasis, por Bernardo Mello Franco

O Globo

País que elegeu Lula em 2022 era bem diferente do que elegeu Lula em 2002, afirma cientista político Jairo Nicolau

O Brasil que elegeu Lula em 2022 era bem diferente do que elegeu Lula em 2002. A conclusão é do cientista político Jairo Nicolau, que analisa duas décadas de disputas presidenciais em “O país dividido”.

O livro cruza dados e esquadrinha pesquisas para examinar as mudanças no perfil e no comportamento do eleitor. “Para onde quer que olhemos, veremos profundas transformações”, resume o professor do CPDOC da Fundação Getulio Vargas.

Em 20 anos, o eleitorado ficou mais velho, mais escolarizado e mais feminino. Ao mesmo tempo, uma revolução tecnológica mudou a forma de receber notícias e acompanhar campanhas. O horário eleitoral na TV perdeu importância, e milhões de brasileiros passaram a se informar — ou a se desinformar — pelas redes sociais.

A semana da insensatez, por Míriam Leitão

O Globo

Em uma das semanas mais sombrias do Legislativo, Congresso impõe agenda de destruição ambiental e institucional

A pesquisa eleitoral chegou na sexta-feira mostrando os efeitos do abalo sísmico que atingiu o candidato da extrema direita e os dias se passaram com notícias sucessivas em torno de Daniel Vorcaro. Neste contexto, o Congresso passou a semana impondo ao país a agenda Bolsonaro no governo Lula. Na área ambiental, a Câmara aprovou medidas que reduzem o tamanho de uma estratégica floresta nacional, transferem para o Ministério da Agricultura atribuições do Ministério do Meio Ambiente, diminuem o alcance da tecnologia como parte da vigilância ambiental e abrem a porta para a destruição de campos naturais em todos os biomas.

O experimento, por Dorrit Harazim

O Globo

Atletas se submeteram a um intensivão de treinos e doping individualizados, sob supervisão de um corpo médico

Começa hoje em Las Vegas um experimento humano criado por um punhado de venture capitalists obcecados em retardar a finitude da vida — no caso, a deles em primeiro lugar. Batizado por seus fundadores de Enhanced Games (algo como jogos aprimorados, ou turbinados), o experimento em forma de competição esportiva reúne 50 atletas de alto rendimento que disputarão provas de atletismo, natação e levantamento de peso. Mas apenas as modalidades mais extremas e cintilantes desses esportes: a corrida de 100m rasos, os 50m e 100m nados livre e borboleta e o levantamento de até 510 quilos. Tudo movido a um inédito regime de doping declarado, com premiação milionária aos atletas-cobaias.

Quem será o Jair de 2026? Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Jair Bolsonaro foi beneficiário dos escândalos em 2018; quem será o das denúncias em 2026

A inflação dos escândalos de presidenciáveis disparou de forma estratosférica em menos de dez anos, se comparados os valores envolvidos na prisão de Lula e nos pesadelos de Aécio Neves com os atuais de Flávio Bolsonaro, que mente, desmente e insiste na pré-candidatura à Presidência, mas abre uma janela de oportunidades para a direita tradicional.

Lula passou 580 dias preso no Paraná por um triplex no Guarujá que não estava em seu nome e onde não morava, nunca tinha morado e nunca iria morar. Por quanto o imóvel foi leiloado na Operação Lava Jato? Por R$ 2,2 milhões.

Entre escândalos e baixo crescimento, por Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

Bandidos atrapalham, mas o pior está mesmo na economia insegura longa duração

Milhões de Vorcaro, vexames de um candidato, doações eleitorais, influenciadora ligada ao Primeiro Comando da Capital (PCC) e pressões de Trump contra Cuba encheram o noticiário da semana no País, deixando em segundo, terceiro ou quarto plano as necessidades de um Brasil ainda atolado na estagnação. A economia brasileira cresceu 2,3% no ano passado, com expansão de 11,7% na agropecuária, 1,8% nos serviços e 1,4% na indústria, um setor sem o dinamismo observado nas três décadas finais do século passado. Além disso, o avanço de 2,3% do Produto Interno Bruto (PIB) marcou uma forte perda de impulso em relação ao ano anterior, quando o crescimento chegou a 3,4%.

China se beneficia das crises dos EUA, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

A cúpula Xi Jinping-Vladimir Putin e os últimos movimentos de Donald Trump em relação ao Irã e a Cuba ampliaram os ganhos estratégicos da China em sua disputa por hegemonia com os EUA.

O presidente americano se vê obrigado a ceder discretamente nas negociações com o Irã, conforme se intensificam as pressões econômicas e políticas decorrentes do choque de energia causado pelo fechamento do Estreito de Ormuz. A manutenção de um programa nuclear pacífico iraniano agora está sobre a mesa de negociações.

Para compensar a visível derrota, Trump volta a pressionar Cuba, cuja mudança de regime ele vê como um fruto ao alcance da mão – o que Binyamin Netanyahu o fez acreditar sobre o Irã.

O diretor da CIA, John Ratcliffe, reuniu-se em Havana no dia 14 com o coronel Raúl Guillermo Rodríguez Castro, neto de Raúl Castro e responsável pela segurança do veterano líder revolucionário, com o ministro do Interior, Lázaro Álvarez Casas, e o diretor da inteligência cubana, Ramón Romero Curbelo.

Lula atrai 29% do eleitorado de centro, contra 20% de Flávio, mostra Datafolha, por Fábio Zanin

Folha de S. Paulo

Pesquisa mostra que eleitor moderado se fragmenta; terceira via patina no segmento

Candidatos vêm tentando suavizar a imagem atrás dos votos centristas

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aparece mais bem posicionado do que Flávio Bolsonaro (PL) para receber o votos dos eleitores de centro, mostra a pesquisa Datafolha divulgada na sexta-feira (22).

Ao mesmo tempo, os pré-candidatos que se apresentam como "terceira via" ainda patinam no segmento dos brasileiros mais moderados.

'Dark Horse' abala Flávio Bolsonaro na direita, mas antipetismo é amortecedor no 2º turno, por Bruno Boghossian*

Folha de S. Paulo

Filho de Bolsonaro perde apoio em grupos evangélicos, no Sul e entre bolsonaristas que se declaram moderados

Senador mantém competitividade e continua recebendo votos de eleitores antipetistas em embate direto com Lula

O caso "Dark Horse" não derrubou Flávio Bolsonaro (PL), mas pode ter provocado um abalo em sua pré-candidatura justamente nos segmentos em que o filho de Jair Bolsonaro deposita suas fichas para tentar se diferenciar do pai e superar a derrota da eleição de 2022.

Os números da primeira pesquisa do Datafolha feita integralmente após a revelação dos diálogos de Flávio com o banqueiro Daniel Vorcaro apontam que o escândalo não causou mais do que um soluço dentro do núcleo mais bolsonarista do eleitorado, que costuma defender o clã mesmo em seus momentos difíceis.

Uma demanda de limpeza ética, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Com os velhos caciques, o Rio de Janeiro era uma feitoria político-social; hoje, uma malfeitoria estrutural

Essa é a saga ominosa de 30 anos de governos cariocas finalizados na prisão

"Malandro demais se atrapalha", rezam as rodas de brasilidade, onde sabedoria é experiência vivida. Isso se revela na profilaxia administrativa operada pelo governo interino do Rio de Janeiro. Pode-se rir ou chorar ao tomar conhecimento, por exemplo, de que o ex-governador Cláudio Castro tinha criado uma Subsecretaria de Gastronomia, com nada menos do que uma "Superintendência de Demandas Cotidianas". E dirigida por ninguém menos que Pazuello, o general-ministro bolsonarista da pandemia.

O rachadão dos Bolsonaro no Brasil embalado pelo pancadão do debate ruim, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

A montanha de novos escândalos de Flávio pariu um rato nas intenções de voto

Discussão nacional segue ruim, entre planos 'Mais Coisinha' de Lula e barbárie da direita

A montanha de escândalos de Flávio Bolsonaro pariu um rato nas intenções de voto, como mostrou o Datafolha. A esta altura do campeonato eleitoral, era previsível. Falta alternativa para quem quer evitar Lula 4, entre outros motivos das profundezas da preferência pelos Bolsonaro. Faz tempo e até agora, o antilula tem uns 40% dos votos.

Não quer dizer que a situação não possa se alterar, para pior ou melhor, a depender do gosto do freguês eleitor. Os motivos deveriam ser óbvios e podem ser relevantes em disputa acirrada.

Flávio Bolsonaro na casa de Vorcaro, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

A única conclusão que não ofende a lógica é que o senador foi discutir sua situação diante de um escândalo que os dois sabiam que seria gigante

Um acordo explicaria a tranquilidade com que o senador falava do Master

Flávio Bolsonaro foi visitar o dono do Banco Master. Poucos dias antes da visita, Daniel Vorcaro havia saído da cadeia com tornozeleira eletrônica. No dia seguinte à visita, segundo o jornalista Igor Gadelha, do portal Metrópoles, Flávio foi anunciado como candidato à Presidência da República.

O que explica esse delivery de político golpista na casa de um banqueiro ladrão?

PL está enredado nos maus lençóis da família Bolsonaro, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

A candidatura do primogênito do ex-presidente está em xeque, sentada na antessala da demolição

O partido que cresceu ao abrigo do clã, queda-se vendido em meio à incerteza sobre o que vem por aí

Jair Bolsonaro não é alguém que se caracterize por ter boas ideias. Uma delas, a de enfrentar a pandemia a golpes de negacionismo custou-lhe a reeleição; outra, a de montar uma rede de ilegalidades para ficar no poder, o levou à prisão. A mais recente, de fazer do primogênito candidato a presidente, está em xeque na antessala da demolição.

Poesia | A Rosa de Hiroshima, de Vinicius de Moraes

 

Música | Paulinho da Viola e a Velha Guarda da Portela

 

sábado, 23 de maio de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais /Opiniões

O filme e a caneta

Por Revista Será?

O tabuleiro eleitoral do Brasil registrou uma importante inflexão nos últimos dias pelo efeito combinado do filme de Bolsonaro e da caneta do presidente da República, combinação que favorece a reeleição de Lula. Se, até outubro, não houver nenhuma grande surpresa no jogo eleitoral, o Presidente Lula da Silva tem tudo para ser conduzido ao seu quarto mandato. A candidatura de Flávio Bolsonaro tende a afundar depois da lambança que evidenciou a sua intimidade com o tóxico banqueiro Daniel Vorcaro, com a visita em prisão domiciliar e o pedido de dinheiro para financiar um filme que contaria a vida política do seu pai. Curioso que depois de toda incompetência de Jair Bolsonaro e do seu desastroso governo, o que vai desmontar o projeto de poder da família de extrema-direita é um filme que conta a sua lamentável biografia. E que estava sendo produzido para constituir uma peça de propaganda eleitoral de Flávio.

Master fere, mas não mata campanha do senador, por Vera Magalhães

O Globo

Revelação de pedido de dinheiro a Daniel Vorcaro não inviabiliza candidatura de filho de Bolsonaro, e presidente abre frente modesta, mas polarização segue intocada

A revelação de que Flávio Bolsonaro pediu R$ 134 milhões a Daniel Vorcaro para financiar o filme sobre seu pai feriu a pré-candidatura do senador do PL à Presidência, mas, passada uma semana, o estrago não é suficiente para inviabilizá-lo e obrigar o bolsonarismo a buscar um novo nome. Esta é a principal conclusão que se pode extrair da pesquisa extraordinária que o Datafolha realizou, menos de uma semana depois da divulgação de sua rodada regular, agora depois de o caso já ser amplamente conhecido.

O instituto voltou a campo na quarta e na quinta-feiras e, no intervalo de menos de uma semana, captou uma discreta movimentação nos cenários de primeiro e segundo turnos que têm Lula e Flávio Bolsonaro. O presidente oscilou de 38% para 40% na simulação de primeiro turno, enquanto Flávio caiu de 35% para 31%.

Bolsonarismo vivo, por Flávia Oliveira

O Globo

Jair escolheu o filho e vai com ele, na vitória e na derrota

A relação — pessoal e financeira — do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro cobrou seu preço na pesquisa Datafolha pós-revelação do áudio e das mensagens pelo Intercept Brasil. À primeira vista, quem se beneficiou com o episódio foi o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), na briga por um quarto mandato. De uma semana para outra, a distância entre o incumbente e o filho içado a candidato pelo pai condenado pela trama golpista aumentou de 3 para 9 pontos percentuais na simulação de primeiro turno. O bolsonarista perdeu competitividade, não posição. A pouco mais de dois meses da formalização das chapas, não parece haver fato capaz de tirar o Zero Um da disputa.

Cala-boca renasceu, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

O Direito xandônico, perversor do verbo “atacar”, molda os costumes, tornado normal entre nós o recurso à censura prévia. O recurso à censura prévia, com seu custo depredador sobre a democracia, em nome da saúde da democracia. Censura prévia pelo bem, para sacrifício do ambiente garantidor das liberdades. Censura prévia do bem, claro. É o que aliados de Lula pedem formalmente ao TSE contra o filme-exaltação a Jair Bolsonaro: que não seja exibido antes das eleições, para proteger a pureza do nosso voto contra o perigo de a obra nos corromper – neste país em que milhões de pessoas votam sob o fuzil do crime organizado.

O mundo está se abrasileirando, por Fabio Gallo

O Estado de S. Paulo

O mundo rico começa a descobrir que estabilidade monetária não é algo permanente

O mundo rico passou décadas ensinando estabilidade monetária ao resto do planeta. Entre os anos 1990 e 2020 prevaleceu um ambiente relativamente estável – a chamada Grande Moderação – sem eliminar crises ou recessões. O que mudou naquele período foi a forma como os mercados passaram a reagir aos choques: após cada crise, inflação e juros tendiam a cair, enquanto bancos centrais estabilizavam o sistema com liquidez abundante. A crise de 2008 reforçou essa lógica. O problema atual é diferente.

O grande Rio de Janeiro, por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

Com suas trapalhadas e suas amizades escandalosas, Flávio Bolsonaro sugere que o Brasil se transforme no grande Rio de Janeiro, onde o poder público foi envolvido pela corrupção

Chico Buarque disse, com sua boa música e melhor poesia, que o Brasil poderia se transformar em imenso Portugal. A brincadeira poético-musical era elogiosa, porque a pátria mãe, que durante muitos anos foi vista como um país no norte da África, foi aceita pela União Europeia e se transformou. Passou a contar com bons hotéis, melhores restaurantes e grandes centros de compras. O país deixou de ser o local apenas para comer bacalhau e passou a oferecer múltiplas oportunidades. Os brasileiros fazem a festa por lá.

O carma político de Ciro Gomes, por Juliana Diniz*

O Povo (CE)

É provável que Flávio Bolsonaro não suba no palanque cearense ao lado de Ciro. Também se evitará a qualquer custo a imagem ou o nome do presidenciável no material de campanha. Em um estado simpático a Lula, não convém mostrar muita amizade ou aliança com um aliado muito enrolado, hoje incômodo a seus aliados

Ciro Gomes foi apresentado como pré-candidato ao governo do estado nas eleições deste ano, pondo fim a qualquer especulação sobre eventual candidatura ã presidência. O timing do anúncio não poderia ser mais infeliz, ocorrendo a dias da divulgação dos áudios em que Flávio Bolsonaro pede dinheiro ao banqueiro preso Daniel Vorcaro. A toxidade da aliança é notória: como candidato do PL no estado, é hoje impossível para Ciro se dissociar do bolsonarismo e do filho do ex-presidente.

Datafolha: Lula abre vantagem sobre Flávio após 'Dark Horse', por Igor Gielow

Folha de S. Paulo

Distância no 1º turno sobe de 3 para 9 pontos; no 2º turno, petista agora supera senador por 47 a 43

Nome cogitado na crise, Michelle Bolsonaro tem desempenho semelhante ao do senador no tira-teima

Na primeira pesquisa do Datafolha feita integralmente após a eclosão do caso "Dark Horse" na campanha de Flávio Bolsonaro, o presidente Lula (PT) ampliou de 3 para 9 pontos a vantagem sobre o senador pelo PL do Rio na simulação de primeiro turno, marcando 40% ante 31% do rival.

Há uma semana, Lula estava em empate técnico dentro da margem de erro de dois pontos percentuais do levantamento: 38% a 35%. No cenário do segundo turno, a igualdade em 45% virou agora uma vantagem de 47% a 43% para o petista.

Na semana passada, o instituto havia divulgado um levantamento cuja maioria das entrevistas havia sido feita antes da revelação de que Flávio havia pedido dinheiro para o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, sob a justificativa de financiar um filme sobre a vida de seu pai, o ex-presidente condenado por tentativa de golpe Jair Bolsonaro.

Flávio, entre a polícia e a política, por Demétrio Magnoli

Folha de S. Paulo

Colapso da narrativa anticorrupção é a ameaça mais grave à candidatura

Com Vorcaro como fonte provável das revelações, corrida eleitoral se abre para o inesperado

Desde a divulgação de seus pactos com Vorcaro, Flávio Bolsonaro enfrenta um duplo dilema. Numa ponta, a investigação policial e judicial; na outra, o colapso de uma narrativa política. No crítico estado atual do STF, o segundo representa ameaça mais grave.

Provocada, a PGR autorizou a PF a seguir o dinheiro. Tudo ali é suspeito: os valores multimilionários associados ao filme; o papel dos dois irmãos na gerência da transação; o trajeto alegado da grana, via um fundo gerido pelo advogado de Eduardo Bolsonaro; o suposto sigilo contratual absoluto sobre a participação do Master no patrocínio da obra. Crimes possíveis: lavagem de recursos do Master e financiamento da aventura americana do 03.

Datafolha dá respiro para Lula, mas sem salto alto, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Resultado de pesquisa após caso 'Dark Horse' não legitima clima de já ganhou

Desafio do governo é fazer medidas econômicas acontecerem a tempo de o eleitor colocar o voto na urna

O resultado da primeira pesquisa do Datafolha feita integralmente após a eclosão do caso "Dark Horse" mostrou vantagem para o presidente Lula frente a Flávio Bolsonaro, mas não legitima o clima de já ganhou que circulava nos bastidores dos gabinetes de aliados do governo em Brasília nesta semana.

A candidatura de Flávio desidratou. O deslocamento na pesquisa foi significativo para a campanha.

Como o Jair de 'Dark Horse', Flávio Bolsonaro está à espera de um milagre, por Angela Alonso

Folha de S. Paulo

Filme financiado por Vorcaro propagandeia liberalismo radical, embaralha fatos e ficções e esquece o filho 04

Manifestações pró-Mito são a única referência ao 8 de Janeiro; não espere oração para pneu nem patriota do caminhão

Flávio B. deve estar pedindo misericórdia aos céus. Depois dos chocolates, malogrou no cinema e periclita na política. O perrengue da vez veio de Raleigh, na Carolina do Norte, a terra escravista da qual o roteiro de "Dark Horse" é assinado.

O título alude àqueles tempos por repetir o de livro sobre o reformista James Garfield. Levado à Presidência graças ao racha no Partido Republicano (que fez a abolição) em 1881, levou bala no primeiro ano de governo. Seu assassinato virou série da Netflix. Já a facada em Bolsonaro deu filme. A semelhança acaba aí. Nos dois casos, há um azarão, mas o segundo faz também jus ao apelido juvenil: Cavalão.

Encurralado, filho 01 entra no modo choradeira, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Sem conseguir justificar sua intimidade com Vorcaro, Flávio quer censurar pesquisas

Abacaxi difícil de descascar, caso Dark Horse faz cúpula do PL temer novas revelações

Em abril, quando nem ele acreditava que sua aventura presidencial estivesse sendo levada a sério e se tornasse competitiva em tão pouco tempo, o filho 01 armou com o dono do Paraná Pesquisas para que incluísse o nome de sua mãe, Rogéria, numa sondagem de intenções de voto para o Senado no Rio.

A ideia era dar um chute no ex-governador Cláudio Castro, que, caído em desgraça, não tinha mais serventia para o clã. A ex-mulher de Jair, de quem ninguém ouvia falar desde que tentou sem sucesso se eleger deputada estadual em 2022, surgiu tecnicamente empatada com a petista Benedita da Silva. Um milagre de ressuscitação.

Ruim com Ele, Pior sem Ele, por Orlando Thomé Cordeiro*

Revista Será?

No dia 13 de maio, o site The Intercept tornou pública a relação amistosa e de negócios entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro. Os diálogos entre os dois caíram como um míssil de proporções nucleares sobre a pré-candidatura do filho 01. A coordenação de sua pré-campanha, bem como seus principais aliados, foi pega de surpresa. E cada explicação era seguida da divulgação de novos elementos que a contradiziam, reforçando o clima de desconfiança. Do outro lado, o governo e seus apoiadores, por óbvio, demonstravam contentamento, e começaram a surgir avaliações de que seria o fim da linha para o senador, com a expectativa de uma queda vertiginosa nas primeiras pesquisas que captassem a reação do eleitorado ao fato.

Eletrocardiograma eleitoral, por Murillo de Aragão

Revista Veja

As falhas mudam rapidamente o comportamento do eleitor

As eleições presidenciais brasileiras se assemelham a um eletrocardiograma alterado de um paciente cardíaco. Com súbitas variações inesperadas e transformações no comportamento do eleitor em intervalos curtos. Embora Lula e Flávio Bolsonaro mantenham competição equilibrada, a estabilidade é praticamente ficção estatística. Qualquer falha muda o ritmo da disputa que está submetida a vazamentos, delações e desdobramentos dos escândalos sob investigação.

Nosso outro 13 de Maio, por Cristovam Buarque

Revista Veja

O fim da escravidão não veio com o direito de acesso à educação

Na semana passada, em 13 de maio, a sociedade brasileira lembrou o único gesto revolucionário de sua história, com a Lei Áurea, de 1888: a desapropriação sem indenização dos donos de 800000 seres humanos. Mesmo assim, foi uma revolução incompleta. As algemas foram abertas, mas não se ofereceu a ex-escravizados um caminho. Não lhes coube acesso à educação. Foram soltos, mas não libertados. O abolicionismo foi vitorioso em seu propósito de aprovar uma norma com um único artigo que declarava “extinto o trabalho servil em todo o território nacional”. Contudo, nada se apresentou na direção de um sistema nacional de educação para aquelas pessoas.

Do próprio veneno, por Jamil Chade

CartaCapital

Apoiadores que ousaram criticar Flávio Bolsonaro são triturados pela máquina de ódio da extrema-direita

Ninguém nasce odiando. O ódio é ensinado. A extrema-direita foi além e colocou o ódio como um instrumento político, como arma de mobilização.

Hoje, com as redes sociais, milícias digitais assassinam reputações, assediam e transformam a vida de jornalistas, acadêmicos, ativistas ou qualquer um que represente uma ameaça ao pensamento reacionário.

Nos últimos dias, foi justamente, porém, a extrema-direita que descobriu a dimensão do seu próprio veneno. Em postagens, personagens ultraconservadores e que por anos têm promovido ideias golpistas e ataques contra a democracia foram alvos de ofensas abomináveis. A operação não veio da oposição. Quem liderou a tentativa de intimidação foi justamente uma ala da extrema-direita brasileira inconformada com o posicionamento dos ex-aliados e vozes que se apresentavam como as grandes referências do movimento autoritário. O motivo: terem ousado dizer o óbvio sobre Flávio Bolsonaro e suas mentiras cinematográficas.

Democracia fiscal, por Eliane Barbosa da Conceição*

CartaCapital

O sistema tributário precisa combater as desigualdades

O debate tributário brasileiro costuma ser apresentado como uma discussão técnica sobre arrecadação, alíquotas ou equilíbrio fiscal. Mas a tributação é, antes de tudo, uma disputa sobre o tipo de país que se deseja construir. O sistema tributário não apenas reflete desigualdades, ele contribuiu para produzi-las, aprofundá-las ou enfrentá-las. Como sintetizaram Liam Murphy­ e Thomas Nagel, mercado, propriedade e riqueza não existem antes do Estado, mas dependem de instituições jurídicas e decisões políticas que tornam possível a sua própria existência. A tributação, portanto, não é mera intervenção externa sobre a economia, ela integra a própria organização social e define quais atividades econômicas serão incentivadas, quais grupos financiarão o Estado e quais interesses serão favorecidos pelas escolhas públicas de tributação e gasto.

Prêmio ao ócio, por Antonio Corrêa de Lacerda*

CartaCapital

As taxas de juro são um dos maiores entraves ao desenvolvimento

O Brasil, assim como os demais países, enfrenta enormes desafios advindos do quadro internacional complexo e incerto, os quais trataremos na sequência. A este fator se acrescenta a inconstância de políticas de longo prazo. Os avanços obtidos no período 2003–2014, governos Lula I e II, e Dilma I e II, o último interrompido, foram descontinuados no período seguinte de Temer e Bolsonaro. O governo Lula III tem desenvolvido importante esforço de reconstituição das instituições democráticas e a retomada do papel do Estado, das políticas públicas para o desenvolvimento.

Delirius economicus, por Luiz Gonzaga Belluzzo e Manfred Back

CartaCapital

Segundo essa escola, o Estado entope as artérias com o gasto e provoca calote, inflação e miséria

Adam Smith, grande filósofo escocês, cunhou a expressão Homo ­economicus, uma herança genética presente em todos os seres humanos: nascem com noções básicas de economia no seu DNA.

Doctor Smith também lançou duas expressões bastante conhecidas e talvez ainda hoje mal compreendidas: o egoísmo aparente, segundo o qual, se cada um buscar o melhor para si, todos ganham, ou seja, uma sociedade mais rica. A outra seria a mão invisível, que faria o mercado funcionar. Nada a ver com a noção de equilíbrio, mas supõe que consumidores e produtores se autoajustem dinamicamente. É importante sublinhar a palavra “dinamicamente” para escapar do enclausuramento da economia capitalista nas masmorras do equilíbrio.

Corrupção de volta à ribalta, por Marcus Pestana

Volta e meia, no Brasil, a corrupção reaparece em cena como tema prioritário. Bastaram vir à tona os escândalos do INSS e do Banco Master, para o assunto saltar de 4º. lugar na lista de maior preocupação dos brasileiros, atrás de violência, problemas sociais e economia, em maio de 2025, nos números da Genial/Quaest, com 13%, para o segundo lugar, atrás apenas da violência, agora em maio de 2026, com 18%.

Poesia | O Rio, de João Cabral de Melo Neto, voz do autor

 

Música | Paulinho da Viola, Elton Medeiros, Jair do Cavaquinho, Anescar do Salgueiro e Nelson Sargento