terça-feira, 30 de junho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

STF piora regra que já era ruim para ‘penduricalhos’

Por O Globo

Congresso tem obrigação de corrigir distorções criadas pela Corte, em especial o novo quinquênio

A última decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre os “penduricalhos” deveria tirar o Congresso da letargia. Era esperado que a Corte moralizasse os abusos. O que se viu foi frustração. Em março, o Supremo criou por unanimidade um novo teto para a remuneração da elite do serviço público. Definiu que as verbas indenizatórias que inflam os supersalários de juízes e procuradores poderiam exceder em até 70% o valor estipulado na Constituição (R$ 46,4 mil, o salário de um ministro do STF). Eliminou os “penduricalhos” mais escandalosos, mas permitiu que até metade do excesso de 70% possa ser concedida na forma de aumentos salariais automáticos a cada cinco anos — o quinquênio, extinto pelo Congresso há 20 anos. Não tem justificativa nem cabimento.

Em meio à Copa do Mundo, Lula e Flávio absorvem desgastes com aliados, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Militantes-raiz fazem a blindagem tanto do presidente quanto do candidato de oposição nas redes sociais, indiferentes aos fatos negativos que surgem

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva absorveu o desgaste provocado pelo envolvimento do líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), no caso Master, enquanto seu principal adversário nas eleições, Flávio Bolsonaro (PL-RR), administrou a crise com a ex-primeira-dama Michele Bolsonaro, que havia gravado um vídeo se dizendo desrespeitada e humilhada pelo filho do ex-presidente Bolsonaro. Talvez porque tenham se posicionado corretamente para estancar a crise, talvez porque o foco de atenção dos eleitores tenha se deslocado para a Seleção Brasileira na Copa do Mundo.

É o que mostra a pesquisa BTG Pactual/Nexus divulgada nessa segunda-feira: ambos atravessaram as últimas semanas sob intenso desgaste político, mas nenhum deles sofreu abalo eleitoral significativo. Ao contrário, os números indicam que ambos permanecem sustentados por bases eleitorais altamente consolidadas, tornando a disputa cada vez mais dependente da conquista do eleitorado moderado e da transferência dos votos dos candidatos hoje situados na chamada terceira via.

Lógica do 2º prejudica lulismo na disputa pelo Senado, por César Felício

Valor Econômico

Segundo Carlos Melo, esquerda se fragiliza por não ter ampliado alianças nos Estados

A falta de amplitude do palanque do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pode prejudicar seus aliados na corrida para o Senado, especialmente nos Estados em que o bolsonarismo lançou nomes fortes, na visão do cientista político Carlos Melo, do Insper. O arco formal de alianças em defesa da reeleição de Lula está restrito a partidos de esquerda ou centro-esquerda. Pontualmente há acordos com partidos mais ao centro ou à direita no espectro político.

O Senado renova duas vagas por Estado neste ano. Os eleitos são os dois melhores votados, independentemente se estão ou não na mesma coligação; e o eleitor vota em dois nomes. O desafio que um candidato ao Senado precisa superar para ser eleito é ser capaz de atrair o chamado “segundo voto”. Já houve muitos casos em que um nome forte, mas polarizador, ficou de fora por não ser preferencialmente a segunda opção.

Michelle traz à tona fenda que põe em xeque o bolsonarismo, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Reação a Michelle revela que a base da divisão vai além do “mulher não sabe votar” e atinge pautas caras às mulheres conservadoras como o ECA Digital que o bolsonarismo raiz ataca

O embate entre a ex-primeira-dama e o pré-candidato do PL à Presidência não é apenas uma treta entre madrasta e enteado como quer fazer crer seu partido. Criou uma tensão interna de gênero, até então pouco relevante para o bolsonarismo.

Quem deu o mote foi Paulo Figueiredo em seu programa de quinta-feira no YouTube. Ao longo de 1h46m, o influenciador, que é o principal interlocutor bolsonarista com o secretário do Departamento de Estado dos EUA, Marco Rubio, abriu seu coração: Michelle é feminista e, portanto, marxista. A ex-primeira-dama, disse, defende cotas para mulheres que, por personalidade, são menos atraídas pela política e isso custa um caminhão de dinheiro. Foi ela quem colocou o PL Mulher no mesmo espectro ideológico de um travesti marxista como Erico Hilton. Todas as palavras são de Paulo Figueiredo, inclusive a maneira de se referir à deputada Erika Hilton (Psol-SP).

O reino dividido, por Thomas Traumann

O Globo

Em entrevista ao editor de O GLOBO Thiago Prado, o bispo da Igreja Sara Nossa Terra Robson Rodovalho comparou o candidato Flávio Bolsonaro com o personagem bíblico Roboão, filho do rei Salomão e neto do rei Davi. No primeiro Livro dos Reis, Roboão, ao assumir o trono, contraria os conselhos dos anciãos e decide manter os altos impostos sobre as dez tribos no Norte, gerando uma guerra civil que termina por dividir o reino entre Israel e Judá.

— (Roboão) presumiu que o reino já era dele sem precisar se esforçar. Flávio precisa consolidar a sua própria liderança no segmento (evangélico), ele não pode se considerar absoluto entre nós como foi o pai no passado — alertou o bispo.

A crítica de Rodovalho é perspicaz. Sem os votos, o carisma e a liderança de Jair Bolsonaro, o senador Flávio Bolsonaro é um herdeiro que tenta comandar o antipetismo apenas pela força do sobrenome. Arrogante, ele escuta os irmãos Eduardo e Carlos, mas desdenha da madrasta Michelle e do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, e trata como obrigação o apoio do governador Tarcísio de Freitas e do deputado Nikolas Ferreira.

Clarice Herzog, a heroína da memória, por Míriam Leitão

O Globo

Clarice Herzog, que completa 85 anos, dedicou a vida à luta por memória e justiça em um país que insiste em apagar os fatos

Amanhã, Clarice Herzog faz 85 anos. Ela ainda está aqui. Como Eunice Paiva, perdeu o marido assassinado pela ditadura, lutou por memória e justiça e agora chega ao ocaso em meio ao Alzheimer. Deve haver um significado profundo, que o país ainda não alcançou, o apagamento das lembranças na mente de guerreiras que lutaram para que o Brasil não se esquecesse. O país que insiste em esquecer.

Clarice é uma voz que permanecerá na história do Brasil. Quando Vladimir Herzog morreu, ela foi a primeira a gritar “Mataram o Vlado”. Zuenir Ventura me disse, certa vez, que esse grito dela aos jornalistas foi a hora primeira da resistência à mentira que a ditadura sustentou sobre a morte no II Exército. Quando tentavam enterrar às pressas o corpo do Vlado, ela gritou “Não enterrem”. Assim ela conseguiu que esperassem a mãe do Vlado, dona Zora, chegar para o enterro do filho único.

Em causa própria, por Merval Pereira

O Globo

Não é preciso dizer que a corporação jurídica se mobilizou quanto pôde para pressionar os integrantes do STF que protegeram o retrocesso de Dino votando em conjunto para dizer que foi recuo institucional, não aceitação da pressão de companheiros.

O caso dos penduricalhos do Judiciário é exemplar de como não é possível ter credibilidade diante da opinião pública se mudamos de posição a cada pressão recebida, especialmente quando essa pressão vem da própria corporação. O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino tem se destacado por decisões que tocam em feridas abertas em nossa vida institucional, como as emendas parlamentares ou os penduricalhos. Parecia à opinião pública um ministro independente de panelinhas, mas, à medida que o tempo passa, mais e mais ele vai se inserindo no grupo capitaneado pelo decano Gilmar Mendes.

A decisão de “flexibilizar” sua decisão inicial que restringia duramente os penduricalhos do Judiciário vem com uma pitada de corporativismo. Quatro dos ministros do Supremo votaram em conjunto, inclusive o próprio Dino, contra sua decisão anterior. Não é preciso dizer que a corporação jurídica se mobilizou quanto pôde para pressionar os integrantes do STF que protegeram o retrocesso de Dino votando em conjunto para dizer que foi recuo institucional, não aceitação da pressão de companheiros.

Reflexos da Copa no jogo eleitoral, por Fernando Gabeira

O Globo

Estamos cercados por um clima de guerra, pergunto o que a política pode fazer para acabar com o sofrimento de milhões

Na Copa do Mundo, esquecemos as eleições. No processo eleitoral, esquecemos a Copa. Talvez não sejam tão rigidamente separadas, tão estanques. Há dois temas que podem uni-las, laços tênues, mas que não podem ser esquecidos.

O primeiro já abordei: a necessidade de um esforço nacional para recuperar o prestígio do futebol brasileiro. Recebi algumas sugestões sobre o tema, e uma delas me pareceu interessante. As escolinhas de futebol não são supervisionadas. De modo geral, funcionam na base da experiência de um antigo jogador. Na Alemanha, trabalham com métodos, equipamentos, teoria de formação. Nada contra a criatividade, o talento espontâneo dos brasileiros. Preparação e criatividade podem coexistir, uma fortalecendo a outra.

Professor bem preparado para quê? Por Jorge J. Okubaro

O Estado de S. Paulo

‘As plataformas retiram dos professores a essência da atividade docente: o planejamento, a organização e a condução de suas aulas’

Dados sobre o ensino no País animam e preocupam. São uma espécie de resumo das contradições de um país que cresce sem romper sua imensa desigualdade social. Muitos índices de educação dos jovens melhoraram na última década, mas mais de 7 milhões de jovens não concluíram o ensino médio e estão fora das escolas, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O número de alunos cresce, mas milhões deles concluem o ciclo básico com conhecimentos inferiores aos considerados necessários para agir com autonomia, espírito crítico e iniciativa num mundo em rápidas transformações tecnológicas. Superar essa deficiência exige professores adequadamente preparados. É desolador, no entanto, constatar que são escassas as políticas públicas com esse objetivo e, pior, observar que certas ações do poder público enfraquecem o papel do professor, o que pode comprometer o aprendizado e o futuro do aluno.

A Copa derrotou a polarização, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

O desânimo foi substituído por festa e otimismo, com o amarelo dominando estádios lá e cidades cá

Sim, a seleção do Brasil venceu até aqui não só os adversários, mas também a exaustiva polarização política, devolvendo a camisa e as cores verde e amarela para todos os brasileiros. Chegamos às oitavas de final com os estádios americanos e as cidades do nosso país dominados pelo amarelo vibrante, que é de nós todos e ninguém tasca.

A Copa de 2026 pegou o Brasil e os brasileiros desanimados com Ancelotti, a seleção, a saúde do Neymar, as ausências de Endrick, tudo isso em meio a uma montanha de denúncias de corrupção e muita gente temerosa de usar a nossa camisa para não ser confundida com um lado da polarização.

O puro-sanguismo bolsonarista e Michelle, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

É preciso lembrar que a direita brasileira está no pós-Bolsonaro; e que a escolha do primogênito Flávio Bolsonaro como candidato do bolsonarismo, o cavalo puro sangue designado a encarnar o pai, é produto sobretudo da necessidade de a família Bolsonaro manter – reafirmar – a hegemonia sobre essa propriedade.

Jair está fora de combate, perseguido e injustiçado, esse é o texto; Flávio sendo aquele sacrificado cuja matéria incorpora o pai, conjuntura em que a derrota eleitoral se converteria em discurso de vitória, protegido o patrimônio político, defendida a empresa familiar que Bolsonaro

Flávio e Michelle se degladiam hoje pela liderança em 2030, por Juliano Spyer*

Folha de S. Paulo

Senador venceu batalha dos vídeos, mas não condena ataques contra mulheres

Ex-primeira-dama está, sim, alvejando o nome indicado pelo marido

O Brasil continuará a ter os olhos voltados para o Mundial. Mas no país evangélico a disputa entre Michelle e Flávio Bolsonaro continua. O senador saiu por cima do incidente dos vídeos, mas os dois parecem dispostos a sacrificar 2026 pela liderança do PL em 2030.

Para quem não acompanhou essa partida de xadrez eleitoral: na quarta-feira (23), quando o país se acomodava no sofá para assistir à partida entre Brasil e Escócia, a ex-primeira-dama publicou dois vídeos criticando o enteado e dizendo ser ele quem abdicou do apoio dela.

A resposta da pré-campanha de Flávio foi notável do ponto de vista da comunicação e da coordenação. Primeiro, publicou um vídeo defendendo que o momento era de apoiar a seleção. Ganhou tempo. Na quinta-feira (24), sua resposta foi curta e precisa.

Barreira mnemônica, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Responsabilizar políticos por seus erros é um desafio para as democracias

Quando o eleitor não se lembra nem de em que votou, a tarefa fica bem mais difícil

Responsabilizar políticos pelo que eles fazem de errado é um dos grandes desafios das democracias. Não que eles nunca tenham de prestar contas. Quem está à frente do governo acaba respondendo pelo que acontece em sua gestão, às vezes até de forma meio injusta. Reeleições de presidentes ou primeiros-ministros dependem muito do desempenho da economia. Uma crise costuma interromper ou abreviar o mandato do dirigente, mesmo que ela seja totalmente exógena e ele tenha feito tudo o que era possível para reduzir seus impactos.

Figura do Diabo aprimorou o processo criativo de Guimarães Rosa, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Eu fico nu, rolo no chão, luto com o Demo e depois escrevo, revelou o escritor

'Grande Sertão: Veredas' se valeu de conversas com vaqueiros e da leitura de Goethe

O encontro está narrado na excelente biografia de João Guimarães Rosa escrita pelo jornalista Leonencio Nossa.

Em 1966, o escritor viajou a Nova York para participar do 34º Congresso Internacional do Pen Club, ao lado de Arthur Miller, Saul Bellow, Pablo Neruda, Mario Vargas Llosa. O poeta Haroldo de Campos estava lá, e Rosa resolveu conversar com ele sobre sua experiência com o Diabo:

Poesia | Poemeto Irônico, de Manuel Bandeira

 

Música | Nara Leão - Além do horizonte

 

segunda-feira, 29 de junho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Delações seletivas têm mesmo de ser rejeitadas

Por O Globo

PF e PGR acertam ao recusar propostas que nada de novo trazem à investigação do caso Master

Fizeram bem a Polícia Federal (PF) e a Procuradoria-Geral da República (PGR) em rejeitar as propostas de delação premiada de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, e de Paulo Henrique Costa, ex-presidente do Banco de Brasília (BRB). Pelo que veio a público das negociações, elas não acrescentariam nada de relevante ao que já se sabe sobre a maior fraude bancária da História do país. É preciso fechar a porta à tentativa dos acusados de aproveitar os benefícios da lei sem oferecer informações que contribuam para as investigações, já bastante avançadas a partir do material apreendido nas operações policiais.

Apesar da mudança de advogados e das promessas de colaboração, sete meses depois de preso pela primeira vez, Vorcaro ainda não conseguiu convencer os investigadores de que está realmente disposto a falar o que sabe sobre os desmandos do Master e sua atuação nos bastidores da República. Ao contrário. A cada novo episódio que as autoridades trazem a público, sua situação se torna mais constrangedora.

Lula precisa mesmo de palanque em Minas? Por Bruno Carazza*

Valor Econômico

Disputa presidencial tem outras dinâmicas com emendas parlamentares e polarização

Na edição de 19 de junho, a revista The Economist trouxe uma matéria chamando Minas Gerais de espelho do Brasil e termômetro das eleições presidenciais deste ano.

As comparações se prestam a esclarecer ao público estrangeiro dois fatos repetidos na imprensa brasileira a cada quatro anos: a diversidade da composição populacional no segundo colégio eleitoral do país (que possui regiões conectadas com o Nordeste, o Centro-Oeste, Rio de Janeiro e São Paulo) e a coincidência estatística de que até hoje nenhum candidato foi eleito para o Palácio do Planalto sem também se sagrar vencedor em Minas Gerais.

BC tenta calibrar como fala ao mercado, por Alex Ribeiro

Valor Econômico

Banco Central abriu tantas informações que, hoje, é um pouco refém dessa transparência

O problema pode ser que os bancos centrais estão falando demais. Durante as últimas décadas, toda a discussão foi sobre como aumentar a transparência de suas decisões e de suas intenções futuras. Agora, há uma corrente contrária que acha que estão pecando pelo excesso.

A questão central, na verdade, não é se os bancos centrais devem ser mais transparentes ou não - no fundo, é sobre fazer uma boa comunicação e evitar que ela vire uma camisa de força.

O proponente mais radical da tese de que os BCs devem falar menos é o novo chefe do Federal Reserve (Fed), Kevin Warsh, que, na sua primeira entrevista coletiva, disse que, quando os banqueiros centrais falam muito sobre o futuro, os mercados entendem como uma promessa e deixam de fazer o dever de casa de acompanhar a evolução dos dados econômicos.

Feliz aniversário, Fernando Henrique, por Miguel de Almeida

O Globo

O tempo obrigou os brasileiros atentos e honestos a reconhecer a importância de seu governo

Fernando Henrique Cardoso completou 95 anos no último dia 18. Ele vive em seu apartamento, em Higienópolis, acometido por Alzheimer. A doença tornou-o recluso — anteriormente, era visto com frequência nas ruas do bairro e nos seus restaurantes. Personagem da cidade, às vezes caminhava sem qualquer companhia ou segurança. Até há algum tempo, eu o encontrava às quintas na Sala São Paulo, de cujo conselho foi presidente. Era aplaudido em pé pela plateia quando avistado no camarote.

O tempo obrigou os brasileiros atentos e honestos a reconhecer a importância de seu governo. Mais sua elegância e bom humor. Cometeu erros como qualquer governante, porém acertou mais do que a maioria. Com sua autoridade, poderia ter pisado mais fundo. Bem. Seus oito anos de Presidência deixaram duas heranças fundamentais: primeira, a estabilidade econômica; segunda, a desgraça da reeleição. Não esqueço sua indicação de Gilmar Mendes para o Supremo — aquele que matou a Operação Lava-Jato e agora trabalha para aliviar os Vorcaros.

É necessário haver resistência racial, por Irapuã Santana

O Globo

Relutância que temos em olhar para nossa própria origem e para 56,1% da nossa população gera desumanização

Na semana passada, foram divulgadas imagens da câmera corporal de um policial militar em São Paulo referentes a um fato ocorrido em novembro do ano passado numa escola pública. A escola havia proposto uma atividade educacional sobre a cultura afro-brasileira, implementando a determinação da Lei 10.639/03, e o pai de uma aluna discordou do projeto pedagógico por pensar que havia sido ministrada uma aula de religião. Com isso, foi à escola, coagiu a professora e acionou a polícia, que prontamente o atendeu, enviando policiais armados — portando até metralhadora — para averiguar o ocorrido. Entretanto, o que as imagens captaram foi mais um episódio de violência perpetrada pelo Estado.

Problema? Que problema? Por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

No modo à brasileira, os corruptos escapam, a meta de inflação se ajeita, o buraco nas contas públicas desaparece

Tem cada vez mais gente achando que o caso Vorcaro vai dar em nada. Não porque os envolvidos sejam todos inocentes. É bem o contrário: há muitos suspeitos em todo o espectro político e nas mais altas esferas do poder. Assim, tal é a conversa em Brasília, melhor abafar o caso para não criar uma crise institucional em pleno ano eleitoral.

Dirá o leitor: mas não deveria ser o contrário? Se há tantos envolvidos, gente graúda, a crise já está instalada e precisa ser resolvida, com ampla apuração e punição dos culpados, tudo dentro da lei. Faz sentido, mas não pela lógica praticada nos Poderes de Brasília. Lá, funciona mais ou menos assim: um corrupto de esquerda anula um corrupto de direita, de modo que o resultado é zero. Problema resolvido.

Flávio Bolsonaro e o efeito Teflon, por Diogo Schelp

O Estado de S. Paulo

O senador não tem a capacidade do pai de manter o apoio popular apesar de suas falas e dos fatos

O senador e pré-candidato presidencial Flávio Bolsonaro precisa mudar de assunto – de muitos assuntos. O mais recente foi a lavagem de roupa suja em público com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. Flávio, nesse fim de semana, garantiu que o episódio era “página virada”. Conhecendo o histórico de brigas na família, a trégua tende a durar apenas até a próxima desavença.

Mas o problema de Flávio vai além das ambições que Michelle alimenta e do desafio de unir a família em torno do seu projeto presidencial. A verdadeira encrenca é que a dificuldade do senador em “virar a página” de situações desabonadoras se tornou generalizada.

Moralidade pública, por Denis Lerrer Rosenfield*

O Estado de S. Paulo

O bem comum esvai-se na ausência de moralidade pública, nas ‘interpretações legais’ e na irresponsabilidade institucional e governamental

Escrever sobre a moralidade pública no Brasil significa falar de algo inexistente. Pode-se discorrer sobre duendes, contar suas estórias, sem que daí se siga que sejam reais. Por mais que se procure, torna-se cada vez mais difícil encontrar algo que, no passado, foi considerado um fator essencial da vida política, um eixo a guiar a conduta da sociedade e de seus representantes institucionais e políticos. Na vida social, porém, observa-se que os brasileiros prezam os valores morais e familiares, sendo muito frequentemente conservadores e respeitosos no que diz respeito à honestidade e a comportamentos retos.

Puxando a capivara, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Como raramente puxo capivaras para a margem, eu não sabia o significado da expressão

Em breve ela se juntará a subir o sarrafo, virar o fio, ligar o sinal de alerta e outros clichês

Outro dia, num programa de TV sobre futebol, alguém disse várias vezes que era preciso "puxar a capivara". A insistência com que repetia a expressão me fez pensar que estava havendo uma infestação de capivaras nos gramados. Pelo insólito da coisa, resolvi ir aos entendidos. Aprendi que "puxar a capivara" significa "puxar a ficha", "levantar o histórico", "analisar direito". Tem a ver com a capivara que, quando surge à beira d’água e você decide puxá-la para a margem, não imagina como é pesada. Tem que puxá-la inteira para saber. Como raramente puxo capivaras para a margem, como eu podia adivinhar?

Parece incrível, mas é pura verdade, por Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

Racismo só se tornou crime inafiançável e imprescritível com a Constituição de 1988

Injúria racial foi equiparada ao crime de racismo apenas em 2023

Por incrível que pareça, até meados do século 20 qualquer um podia recusar atendimento, serviço, hospedagem, ingresso em estabelecimento comercial a uma pessoa negra pelo mero fato de ela ser negra e não dava nada no Brasil.

É isso mesmo. A primeira legislação brasileira que enfrentou atos excludentes e corriqueiros motivados por puro preconceito de raça ou de cor na nossa fajuta "democracia racial" está completando 75 anos nos próximos dias.

Trata-se da Lei Afonso Arinos (Lei 1.390/1951), promulgada em 3 de julho —data em que atualmente é celebrado o Dia Nacional de Combate à Discriminação Racial.

As lições da crise britânica e os limites da engenharia política, por Lara Mesquita*

Folha de S. Paulo

Primeiro-ministro britânico deixa o cargo menos de dois anos após vitória trabalhista de 2024

Experiência recente mostra que reformas institucionais não blindam governos contra crises

Na última segunda-feira (22), o primeiro-ministro britânico Keir Starmer anunciou que deixará o cargo e a liderança do Partido Trabalhista. Sua saída, menos de dois anos depois da vitória trabalhista de 2024, prolonga a instabilidade política aberta pelo plebiscito do brexit.

Starmer não caiu por falta de maioria parlamentar. O Partido Trabalhista controla ampla maioria na Câmara dos Comuns. A crise veio da perda de autoridade política, da derrota nas eleições locais de maio, da pressão interna evidenciada na renúncia de ministros e da entrada de Andy Burnham na Câmara, após vencer a eleição suplementar de Makerfield. A disputa foi realizada com o objetivo de habilitá-lo para a liderança do partido, uma vez que, segundo a tradição, o primeiro-ministro deve ser membro eleito da Câmara dos Comuns.

O STF em modo sobrevivência, por Marcus André Melo*

Folha de S. Paulo

O escândalo do Master mostrou que o rei está nu

O objetivo dominante para muitos dos membros do Supremo passou a ser proteger a si próprio

STF existe para proteger a Constituição. Mas o que se vê é uma suprema inversão funcional: o objetivo dominante para muitos de seus membros passou a ser proteger a si próprio. Garantir a própria sobrevivência. Este modo sobrevivência é particularmente marcante no caso do Supremo, mas converteu-se em padrão que atravessa instituições brasileiras: Executivo, Congresso, Judiciário, partidos e até órgãos de controle. O affair Master mostrou que o rei está nu. A percepção pública de conflitos internos, de decisões voltadas à autopreservação e de respostas corporativas torna-se suficientemente difundida para que deixe de ser possível sustentar a mesma narrativa institucional usada desde a Lava Jato.

O cerne do lulismo e o realinhamento eleitoral, por Altamir Peterson*

A esquerda contemporânea na América Latina enfrenta a urgência de compreender o "lulismo" em toda a sua complexidade analítica para superar as leituras dicotômicas e reducionistas que dividem e polarizam o debate político. De um lado, deve-se rejeitar a idealização apologética que enxerga o modelo apenas como um projeto redistributivo perfeito; de outro, deve-se descartar a condenação mecânica que o simplifica como mera extensão do neoliberalismo estrito.

O caminho para essa apreensão profunda reside em reconhecer que o modelo de reforma gradual implementado ao longo de cinco governos petistas caminhou essencialmente sob o signo da contradição. O lulismo estruturou-se por meio de uma combinação inédita de opostos: articulou conservação e mudança, promoveu a reprodução sistêmica ao mesmo tempo em que realizava superações parciais, e transitou permanentemente entre a decepção da ortodoxia política e a manutenção da esperança popular. Dominar essa dimensão contraditória é o passo indispensável para que a esquerda latino-americana possa extrair lições reais e avançar programaticamente.

O lulismo é definido como um modelo de reformismo gradual e conciliação de classes. Sua engrenagem principal consiste em reduzir a miséria extrema da população historicamente excluída sem enfrentar diretamente os privilégios econômicos das elites financeiras e da burguesia.

O marco dessa dinâmica foi a eleição de 2006, que operou um grande realinhamento político no Brasil ao desconectar o "subproletariado" (a massa de trabalhadores informais e precarizados) da influência das classes dominantes e da classe média tradicional, transformando essa massa na base fiel do projeto lulista.

Poesia | Futebol, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Nelson Gonçalves - Que bonito é (Luiz Bandeira)

 

domingo, 28 de junho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Rever isenções tributárias é imperioso

Por O Globo

É preciso extinguir o que não funciona para destinar benefícios a atividades com retorno comprovado

Faltando pouco mais de três meses para as eleições, governo e oposição fazem de tudo para fugir de temas fundamentais, mas impopulares. Nenhum candidato quer nem ouvir falar de reduzir isenções tributárias. Ninguém quer ser acusado de “prejudicar” algum setor ou “ameaçar” empregos em alguma região. Nem mesmo instaurar alguma política para avaliar a eficácia dos programas. Uma vez concedidos, isenções e benefícios têm permanecido doravante inalterados para sempre, e o país tem pagado custo cada vez mais alto.

Pelas contas do próprio governo, a renúncia fiscal da União equivale a 4,4% do PIB, embora a legislação tenha estabelecido um limite de 2%, há muitos anos desrespeitado. Graças à sanha inesgotável de grupos de interesse por toda sorte de isenção, essa proporção tem aumentado consistentemente desde 2011, quando estava ao redor de 3,5%. Considerando o desequilíbrio crônico das contas públicas brasileiras, abdicar de tanta receita — R$ 613 bilhões neste ano, ou 20% da arrecadação administrada pelo Fisco — não faz o menor sentido. A situação é ainda mais dramática por não haver avaliação sistemática dos benefícios, apesar dos movimentos nessa direção.

Usos e abusos do trumpismo, por Luiz Sérgio Henriques*

O Estado de S. Paulo

A face política do trumpismo se delineia numa reatualização da Doutrina Monroe mediante um ‘corolário’ intervencionista

Quem lê o excelente Leonardo Padura frequentemente encontra o elogio de uma vida menos assombrada pelos grandes dramas da História, reais ou supostos. O escritor cubano refere-se, acima de tudo, à situação intensamente sofrida pelos seus conterrâneos desde a criação do moderno mito revolucionário latino-americano, formado em torno da guerrilha dos idos dos anos 60. Para eles, tudo teve, ou ainda tem, imediata dimensão histórico-universal, quer congressos partidários ritualizados, quer eventos muito graves, como invasões frustradas e até uma catástrofe nuclear abortada no último momento.

Padura deseja a todos, não só aos que lhe são próximos, uma existência mais equilibrada entre o privado e o público, o cotidiano e a História. Não sabe o que acontecerá com seu país, constrangido como está entre a necessidade de amplas reformas internas e a agressiva pressão do grupo dirigente trumpista. Para este último, como se sabe, mudanças radicais são necessárias na ilha e, de resto, em toda a América Latina. O que Padura sabe com certeza é que entre tais mudanças não se conta a defesa ou a reconstrução da democracia, mas, antes, a disseminação de governos e coalizões de extrema direita promotores de um mercado sem regras. E pelo visto, respeitadas as devidas particularidades, daqui por diante todos compartilharemos sobressaltos comuns.

A ‘generosa oferta’ de Flávio a Trump, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Senador do PL vai aos EUA para discutir ‘business’ com Donald Trump

A mensagem de Marco Rubio para Flávio Bolsonaro foi cheia de recados subliminares, mais grave do que parecia à primeira vista e pode transformar a ida de Flávio ao país para uma audiência pública com o Escritório de Comércio, no dia 6, em mais um tiro no pé. Ou em mais uma peça de marketing, não para a campanha dele, mas para a de Lula.

O que importa é que Rubio agradeceu “a generosa oferta” de Flávio de, se eleito, montar uma equipe de transição exclusiva entre Brasil e EUA. Soa como uma hipoteca. Trump interfere a seu favor nas eleições e ele “paga”, depois, entregando os interesses e a independência do Brasil às conveniências dele.

Inflação desafia trunfo do emprego, por Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

Governo entra na campanha com emprego alto, mas inflação elevada

O governo fechou o primeiro semestre com uma notícia animadora – desemprego menor do que o de um ano antes – e uma preocupante, embora positiva – prévia da inflação mensal em queda, mas com taxa anual, 4,8%, ainda acima do teto da meta. Se a produção continuar em alta, mesmo com a expansão econômica perto de 2%, uma taxa medíocre para um país emergente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva poderá lucrar na busca pela reeleição. Falta saber como o governo reagirá se a alta de preços continuar superando com folga a meta oficial, 3% em 12 meses com tolerância de até 4,5%.

De Lacerda a Flávio, Washington ronda a política brasileira, Por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O mundo já não vive a Guerra Fria, o Brasil é uma democracia consolidada e as relações entre Brasília e Washington são marcadas por intensa interdependência econômica

Desde a crise que culminou no golpe militar de 1964, dificilmente um político brasileiro expôs de forma tão explícita sua interlocução com autoridades dos Estados Unidos durante uma disputa política interna quanto o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL). Entretanto, o circunstâncias históricas são distintas. O mundo já não vive a Guerra Fria, o Brasil é uma democracia consolidada e as relações entre Brasília e Washington são marcadas por intensa interdependência econômica. Ainda assim, os acontecimentos recentes recolocaram em debate a influência externa sobre os rumos da política brasileira.

O episódio ganhou dimensão eleitoral após a visita de Flávio a Washington. Ali, reuniu-se com integrantes do governo Donald Trump, incluindo o secretário de Estado Marco Rubio, o vice-presidente J.D. Vance e o próprio presidente norte-americano. O encontro antecedeu duas decisões relevantes: a classificação do Comando Vermelho (CV) e do Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas pelo governo dos EUA e a manutenção do processo que poderá resultar na imposição de tarifas de 25% sobre produtos brasileiros.

A fala de Michelle e seus reflexos, por Míriam Leitão

O Globo

Ela deixa claro que veio para ficar na política e pode se tornar plano B para o PL ou apoio para Flávio. Seja o que for, sai mais forte

A mensagem de Michelle Bolsonaro foi um ato de campanha, bem pensado e bem realizado. É um plano de contingência da extrema direita e de Jair Bolsonaro. O que falou, os símbolos da linguagem corporal, a caneta na mão, a edição de imagens de suporte, a leitura em tom de conversa revelam a minuciosa arquitetura de marketing político. Michelle é a melhor comunicadora da família e tem pontos reais de conexão com os evangélicos. Atrai também a atenção das mulheres, o eleitorado mais arredio ao bolsonarismo. A primeira reação de Flávio Bolsonaro foi a pior possível, a de menosprezo. Mulheres de qualquer lado político já sofreram atos semelhantes.

Farras, caronas e patacoadas, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Políticos seguem mesma cartilha: normalizar o anormal e atacar a investigação

O senador Jaques Wagner se diz indignado com a operação da Polícia Federal que expôs sua proximidade com Augusto Lima, sócio de Daniel Vorcaro. Em entrevista, o ex-governador da Bahia acusou os investigadores de armarem uma “patacoada” para prejudicá-lo. “Fica-se criminalizando qualquer tipo de relacionamento. Óbvio que de vez em quando eu pego carona. O que a polícia tem que comprovar, e não vai, é a relação de troca”, disse à Folha de S.Paulo.

O dito pelo não dito, por Merval Pereira

O Globo

A estratégia de trabalhar com um mundo falsamente compartilhado está na base das fake News.

Outro dia, em palestra da Academia Brasileira de Letras (ABL), o filólogo acadêmico Ricardo Cavaliere dissertou sobre a filosofia da linguagem que, no final do século XIX, na chamada “virada linguística”, definiu que nosso saber não está restrito aos domínios da mente, “pois o conteúdo cognitivo que acumulamos no decorrer da vida é moldado pela linguagem”. Os estudos da filosofia da linguagem destacam dois tipos de linguagem, baseados na “pressuposição” e na “implicatura”.

Sinal de alerta na Americanas, por Elio Gaspari

O Globo

Movimento da Polícia Federal indicam que pode estar sendo reaberto o caso da fraude praticada na empresa

A ida da Polícia Federal aos marqueses da rede varejista Americanas, bem como o bloqueio de até R$ 54 bilhões de seus bens, indicam que pode estar sendo reaberto o caso da fraude praticada na empresa.

Quando os holofotes estavam voltados para a rede e a empresa era vista como “terra arrasada”, um banqueiro chamado Daniel Vorcaro armava sua rede de notáveis para salvar seu banco. Organizava farofas com hierarcas e festas com jovens eslavas.

A sabedoria convencional ensina que o escândalo seguinte abafa a roubalheira anterior. Nesse caso, o banco Master abafaria o caso da Americanas. A ação da PF desmentiu essa urucubaca.