terça-feira, 3 de novembro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais\Opiniões

Distorções impõem revisão no Bolsa Família

Por O Globo

Reajuste do benefício deixou de lado ganho de foco e retomada do pente-fino contra irregularidades

Ao reajustar o Bolsa Família em 15%, o governo alegou repor a inflação dos últimos anos. Ampliou o gasto com o programa, sem contudo cuidar do mais importante: sua eficácia. O objetivo a perseguir não é apenas garantir subsistência às famílias mais pobres, mas também contribuir para retirá-las da pobreza. Nisso, não faltam evidências de desajustes.

Em 2019, quando a taxa média de desemprego no Brasil era 12%, 19% da população recebia Bolsa Família. Hoje são 23%, para um desemprego de apenas 5,2%. Ao mesmo tempo, o custo para o contribuinte não parou de crescer. Em 2019, o programa distribuiu 0,42% do PIB. Neste ano, o total alcançará 1,18%, já considerando o reajuste concedido. Em 2027, chegará a 1,23%, pela projeção do economista Fabio Giambiagi. Uma auditoria feita em 2023 pelo Tribunal de Contas da União (TCU) concluiu que o efeito do Bolsa Família na redução da pobreza poderia ser até 7,2% maior com mais foco e 9,1% a menos de recursos — cerca de R$ 12,94 bilhões de economia.

O desafio econômico pede passagem a Lula, por Fernando Gabeira

O Globo

Um ajuste fiscal muito severo pode ser entendido como estelionato eleitoral, abrindo espaço à oposição

A fuga de Flávio Bolsonaro e o rescaldo emocional da campanha ocuparam a cena pós-eleitoral. Mas não devem sobreviver por muitos dias. Ao se intitular “presidente eleito” do Brasil, Flávio repetiu aquele venezuelano, Juan Guaidó, que também se declarou presidente e saiu pelo mundo para cair num profundo esquecimento. Flávio terá menos fôlego ainda, porque as eleições brasileiras gozam de crédito internacional muito grande.

No front interno, as constantes ameaças de demissão dos petistas porque votaram em Lula são uma espécie de assédio eleitoral retardado e não devem vingar. A temperatura baixará com o tempo. O que deve surgir com muita força no horizonte é uma discussão concreta sobre a política econômica do novo governo. Isso, sim, diz respeito ao futuro e merece reflexão positiva.

País à flor da pele discute os juros, por Míriam Leitão

O Globo

Lula precisa cumprir as promessas e ajustar as contas públicas. Queda do juros deve vir pela conquista de credibilidade fiscal

O país viveu uma eleição de emoções radicais e estamos todos à flor da pele. Havia muito em jogo. Temos agora a chance de em quatro anos construir uma barreira contra o risco antidemocrático. O Brasil não pode ficar pendurado no abismo a cada eleição. Há muitas variáveis nessa equação, uma delas é a economia com suas emergências, volatilidades e tarefas inescapáveis. Hoje começa a reunião do Copom mais difícil dos últimos tempos.

O mercado mudou suas previsões. Agora a maioria dos bancos acredita que os juros serão mantidos. Na política o assunto é discutido de forma incandescente. Na prática, todos os ativos pioraram muito e talvez a decisão do BC seja de fato manter a Selic.

Com quem será? Por Merval Pereira

O Globo

Lula precisa terminar uma vida política brilhante com um governo que ele pretende será “o melhor governo” que já fez.

A definição do quarto governo Lula sairá da escolha do próximo ministro da Fazenda, assim como a escolha de Antonio Palocci no primeiro mandato foi essencial para a manutenção do sistema econômico montado no governo de Fernando Henrique Cardoso, baseado no tripé câmbio flutuante, metas de inflação e superávit primário. Colocar Henrique Meirelles, deputado federal eleito pelo PSDB de Goiás, na presidência do Banco Central foi outra medida surpreendente que deu o rumo do governo. Tudo isso aconteceu porque Palocci, antigo prefeito de Ribeirão Preto, fundador do PT, tinha o respeito da máquina partidária do partido.

Lula reúne aliados para avançar na definição de nomes para a Esplanada, por Andrea Jubé

Valor Econômico

Presidente tem reunião hoje com nomes como Rafael Fonteles, Camilo Santana e Alckmin

Pouco mais de uma semana após a vitória, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) volta a se reunir com o núcleo mais próximo da campanha, nesta terça-feira (3), para dar continuidade à formação do novo governo. Nos últimos dias, evoluíram as conversas com a cúpula do Congresso, a fim de garantir a governabilidade do Lula 4, bem como a confirmação de alguns nomes e de alguns espaços do PT e do PSB.

Ainda nesta terça-feira, Lula deve gravar o pronunciamento sobre a vitória, a ser transmitido em rede nacional de rádio e TV, que ele anunciou em um áudio enviado na semana passada no canal “Exército do Lula”, comandado pelo deputado André Janones (Rede-MG). Ele agradecerá os mais de 64 milhões de votos, e reafirmará o compromisso com as promessas de campanha.

Sonâmbulos do ajuste fiscal, por Luiz Gonzaga Belluzzo

Valor Econômico

Nas recessões, e mais ainda nas depressões, a dívida pública invade os portfólios para garantir o valor e a liquidez da riqueza dos privados

Nas últimas semanas, antes e após as eleições, esquentou a refrega sobre a relação dívida/PIB entre catastrofistas e a turma do “senta-que-o-leão é manso”. Na visão dos catastrofistas, o risco fiscal está associado a uma trajetória “insustentável” da dívida pública. A elevada dívida dos governos, dizem por aí, vai culminar em um calote devastador. Digo devastador porque, se isso acontecer, vai desencadear a desvalorização da riqueza financeira que frequenta os balanços de bancos, fundos, gestoras de ativos.

Em sua trajetória secular, o capitalismo abriu espaço para o surgimento e desenvolvimento de instituições encarregadas de administrar a moeda e os estoques direitos — títulos de dívida e ações — que, diria Keynes, nascem de seu incessante movimento de criação e apropriação do valor.

Desigualdade e perda de poder aquisitivo alimentam insatisfação com republicanos, por Humberto Saccomandi

Valor Econômico

Pesquisas e projeções apontam que o Partido Democrata deve obter a maioria na Câmara e é favorito também no Senado

Os americanos devem votar com a carteira nas eleições de amanhã, o que é um mau presságio para o Partido Republicano, do presidente Donald Trump. A economia dos EUA está crescendo, mas pesquisas indicam que a situação econômica é a principal preocupação dos eleitores e que eles avaliam mal o desempenho do governo Trump nessa área. Essa insatisfação parece estar relacionada à perda de poder de compra no curto prazo e ao aumento da desigualdade no longo prazo.

Os republicanos controlam hoje o Congresso. Mas pesquisas e projeções apontam que o Partido Democrata deve obter a maioria na Câmara e é favorito também no Senado. A mídia americana alerta sobre a possibilidade de uma onda azul (a cor dos democratas), que poderia fazer a oposição a Trump vencer em tradicionais bastiões republicanos, como o Texas.

Ideias de Lara Resende levadas a Lula preocupam equipe econômica, por Alex Ribeiro

Valor Econômico

Temores são de possíveis impactos desestabilizadores no mercado financeiro mesmo que no fim elas não venham a ser implantadas

As ideias do economista André Lara Resende, que têm sido apresentadas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva como possível agenda para o seu quarto mandato, preocupam integrantes da equipe econômica devido aos possíveis impactos desestabilizadores no mercado financeiro mesmo que no fim não venham a ser implantadas.

Lara Resende, considerado um dos "pais" do Plano Real, tem defendido uma baixa da taxa Selic para 7,5% ao ano ao longo de 12 meses para reduzir os juros pagos pelo governo na dívida pública e, assim, viabilizar um ajuste nas contas públicas sem sofrer as dores de cortes de gastos nem de aumento de impostos.

Nas discussões de bastidores do governo, integrantes da equipe econômica têm argumentado que uma baixa de juros que seja entendida pelo mercado como artificial levará a uma forte fuga para a moeda estrangeira e à saída de posições em títulos públicos.

PEC da Segurança é o 1º cabo de guerra pós-eleição, por Danandra Rocha

Correio Braziliense

Matéria deve ser votada hoje no Senado. Principal confronto é relacionado a inclusão da redução da maioridade penal. Bolsonaristas não admitem deixar o tema para depois e aliados de Lula querem aprovação daquilo que veio da Câmara

O primeiro embate pós-eleições entre o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a oposição no Senado será por causa da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública. A matéria está prevista para ser analisada pelo Plenário da Casa hoje, a partir das 16h, em uma sessão que antecipa visões opostas sobre tema como combate ao crime organizado e redução da maioridade penal. Enquanto a base governista trabalha para aprovar o texto tal como foi aprovado pela Câmara dos Deputados, parlamentares bolsonaristas e associados de outros partidos além do PL forçam a incorporação à proposta mudanças que diminuem a idade de responsabilização penal.

Esquerda aguarda derrota de Trump e festeja vitória de Lula, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O Brasil precisa ampliar as pontes, inclusive com republicanos, sem transformar o relacionamento bilateral numa extensão da disputa partidária americana

Donald Trump não está na cédula das eleições norte-americanas de hoje, mas seu governo está em julgamento. Os dois principais cenários desenhados pelas pesquisas representam derrotas políticas para a Casa Branca: perder a Câmara dos Representantes ou entregar também o Senado aos democratas. O segundo seria o pior dos mundos. A expressão "pato manco", usada para definir presidentes em fim de mandato e com influência declinante, ganharia conteúdo imediato. Trump conservaria poderes importantes, mas encontraria obstáculos para transformar suas decisões em políticas duradouras.

Eleições nos EUA podem impor derrota a Trump e fortalecer democratas, por Correio Braziliense

Presidente republicano enfrenta hoje teste das urnas em eleições legislativas disputadas. Última rodada de pesquisas sinaliza vantagem para oposição democrata, na Câmara e no Senado. Se derrotado, líder diz que se tornará o "Senhor Veto"

O Partido Democrata chega, hoje, às eleições legislativas dos Estados Unidos com sinais promissores de vitória nas urnas, mas também num ambiente de grande apreensão em relação à reação do presidente Donald Trump diante de uma eventual derrota. As pesquisas divulgadas na reta final da campanha, encerrada ontem, mostraram que os democratas têm altas probabilidades de assumirem o controle da Câmara dos Representantes e, em menor medida, do Senado.

Em meio à alta dos preços de alimentos, gasolina e moradia, os norte-americanos mostram uma participação excepcional nas eleições de meio de mandato. Mais de 53 milhões votaram antecipadamente, um recorde absoluto.

Ao participar de um podcast do jornal New York Post, Trump sinalizou que não vai assimilar placidamente a perda do controle das Casas legislativas, ambas nas mãos dos republicanos. O presidente abriu a possibilidade de conceder indultos a aliados e deu a entender que vetará iniciativas potenciais do Congresso caso os democratas conquistem a maioria. "Vou me transformar no Senhor Veto", afirmou.

Entre muros e caminhos, por Jorge J. Okubaro

O Estado de S. Paulo

É preciso reforçar que a parcela dos que votaram no candidato derrotado não pode ser esquecida. Nenhum governo decente pode esquecer metade da população

Das dezenas de milhões de brasileiros que suspiraram com alívio e júbilo no momento em que se confirmou o resultado do segundo turno da eleição presidencial disputada em 25 de outubro, um grupo muito restrito teve motivos especiais para celebrar. Trata-se das pessoas que conheceram o que de pior a ditadura militar (19641985) praticou: as prisões arbitrárias, a perseguição política, a tortura, os assassinatos e os desaparecimentos de opositores do regime. Fora outros atributos naturais e familiares que o aproximam das milícias e dos grandes esquemas de corrupção, o candidato derrotado tem um especial, herdado do pai: o de admirar e exaltar as terríveis práticas da ditadura militar. É de ter um tipo desses no principal cargo da República que o País se livrou.

A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, que lhe assegura o inédito quarto mandato presidencial, é, por isso, uma vitória dos que querem um Brasil democrático. A igualmente inédita virada entre o primeiro e o segundo turno deveuse certamente à sua liderança e a seu carisma, mas foi impulsionada por outros fatores, um dos quais o fato de sua candidatura representar o bastião para conter o avanço da extrema direita. Por isso, a reeleição de Lula é muito maior do que um feito do PT ou da esquerda. Ela resultou do apoio de forças democráticas que rejeitaram a extrema direita.

Vorcaro pronto para delatar, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Passada a eleição presidencial, o clima é de ‘ou salvam-se todos ou não se salva ninguém’

Depois das eleições e de duas tentativas fracassadas de delação premiada, a expectativa é que Daniel Vorcaro, do Banco Master, refaça sua estratégia e se disponha a contar, não o que lhe interessa, como tentou fazer, mas o que interessa à Polícia Federal e à verdade: fatos, nomes, locais, valores e o máximo de provas possíveis.

Uma coisa era Vorcaro abrir a boca sem saber quem seria presidente, outra é falar agora, depois da derrota do “irmão” Flávio Bolsonaro e da vitória de Lula para um quarto mandato. Ele pode, por exemplo, sentir-se livre para contar toda a história do Dark Horse. A começar de uma pergunta básica: a grana era mesmo para o filme?

Eventual derrota de Trump nas midterms pode ampliar pressão sobre ele em temas ligados ao Brasil, por Isabella Menon

Folha de S. Paulo

Maioria democrata no Congresso poderia fortalecer pedidos de apuração sobre fuga de Flávio Bolsonaro e tarifas

Especialistas veem possibilidade de mais freios internos às vontades do presidente sem mudança imediata na diplomacia

Washington - As eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, nesta terça-feira (3), podem aumentar a pressão sobre o governo de Donald Trump em temas que afetam diretamente o Brasil, como as tarifas comerciais, as sanções e a atuação americana na América Latina.

Uma eventual vitória dos democratas na Câmara abriria caminho para investigações sobre decisões da Casa Branca, incluindo a concessão de vistos a Flávio Bolsonaro (PL) e a possível participação de autoridades americanas em sua saída do Brasil após a derrota para Lula (PT).

Embora possa não significar necessariamente uma alteração na política do republicano em relação ao seu maior vizinho ao sul, especialistas avaliam que a mudança reforçaria a fiscalização sobre o Executivo.

Parlamentares democratas intensificaram o envio de cartas ao Departamento de Estado, manifestando incômodo com a política americana para o Brasil. Em setembro, um grupo de 31 congressistas cobrou do governo Trump o compromisso de não interferir nas eleições brasileiras e reconhecer o resultado.

IAs enfeiam a matemática, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo 

Algoritmos se valem de força bruta estatística para resolver problemas

Elegância costuma ser usada, talvez indevidamente, como critério de verdade

A matemática está se tornando fascista? Admito que a piada não é das melhores, mas não resisto. A publicação de 370 soluções de problemas matemáticos pela OpenAI, no início de outubro, prenuncia uma era em que o método Monte Carlo, uma espécie de força bruta estatística, prevalecerá sobre as abordagens inspiradas em beleza e elegância que vêm dando o tom das demonstrações desde que a humanidade inventou/descobriu a matemática (cabe ao leitor escolher aqui a palavra que mais lhe agrada) alguns milênios atrás.

Que me perdoem os céticos da IA, mas a essa altura não dá mais para negar que os programas sejam capazes de criar soluções originais para problemas complexos e que o fazem através da força bruta probabilística e estatística, em princípio sem nenhuma consideração para com a dimensão estética.

Câmara exclui eleitor do debate sobre mudança no sistema eleitoral, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Voto distrital misto é tema relevante na discussão sobre a muito falada e sempre evitada reforma política

Questão, contudo, não pode ser resolvida às pressas e muito menos na base do acerto entre cúpulas partidárias

No clima ainda conturbado do pós-eleições, o Congresso levanta um tema relevante para o debate sobre a muito falada e sempre evitada reforma política.

A possibilidade de adoção do voto distrital misto pode inaugurar uma agenda positiva no aperfeiçoamento do sistema eleitoral e partidário.

Antes de embarcarmos em perspectivas otimistas, é preciso conferir se não se trata apenas de uma reação momentânea a votações de deputados em números equivalentes e até superiores aos obtidos em eleições majoritárias.

O STF terá coragem de chamar um 2º turno no Rio? Por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Campanha para retomar a eleição está nas redes, nos moldes do canal Exército do Lula

Declarado governador, Douglas Ruas teme o crescimento do PT na capital

Acostumados nos últimos anos a vencer na cidade do Rio e no interior do estado, os bolsonaristas gozavam os petistas dizendo que estes só tinham maioria na pequena praça São Salvador, em Laranjeiras, único bairro em que Jair Bolsonaro saiu derrotado em 2018. Oito anos depois, o enclave de resistência se expandiu e dominou a capital.

A virada de Lula no Rio acompanhou a tendência do segundo turno. Mesmo assim, não deixa de ser surpreendente. O PT, historicamente de pouca expressão para cariocas e fluminenses, não vencia na cidade desde 2014, com Dilma Rousseff.

Malafaia sinaliza divórcio entre líderes gospel e bolsonarismo, por Juliano Spyer

Folha de S. Paulo

Pastores influentes evitarão atrito com defensores do clã, mas já abraçaram Tarcísio

Lideranças reclamam que a família trata igrejas como currais eleitorais

Foi o pastor Silas Malafaia quem sacramentou a união entre bolsonarismo e evangelicalismo no Brasil ao casar Michelle e Jair Bolsonaro em 2013.

Mas essa relação se tornou insustentável e o próprio pastor Silas sinalizou que o diálogo com o clã se esgotou.

Após a publicação da carta de Flávio Bolsonaro (PL), Malafaia usou palavras fortes para descrever não apenas o 01, mas todos os filhos de Jair: jumentos, babacas e amadores. Esse rancor tem história.

Poesia | Sou um guardador de Rebanhos IX, de Fernando Pessoa

 

Música | Nara Leão - Um chorinho chamado Odeon (Ernesto Nazareth / Vinicius de Moraes)

 

segunda-feira, 2 de novembro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais\Opiniões

Justiça falha ao corrigir seus próprios erros

Por O Globo

Pedidos de revisão criminal crescem, mas análise é lenta, e medidas para acelerá-la ainda são incipientes

A Justiça se legitima perante a sociedade quando pune no tempo certo e revê seus erros com a presteza necessária. No Brasil, o Judiciário fica a dever nos dois aspectos. É lento na apreciação de processos e na revisão de equívocos. O diagnóstico é conhecido. Os pedidos de revisão na Justiça Criminal cresceram de 8.167 em 2020 para 25.487 no ano passado, de acordo com o Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Não há informações consolidadas sobre quantos foram aceitos, mas só nos Tribunais de Justiça do Rio e de São Paulo houve 1.438 revisões no período de 2020 a 2024.

Precisamos de menos Janja e mais cultura, por Miguel de Almeida

O Globo

A bonita ideia de reparação condena o país a uma falsa clivagem, sem incentivar a criação ou a qualidade

“Barreto, essa história de cultura é lá com a Janja, fale com ela”, disse Lula. Barreto é Luiz Carlos Barreto, lendário produtor cinematográfico, responsável pela hagiografia “Lula, o filho do Brasil”. Janja é a primeira-dama Janja da Silva. O diálogo ocorreu no início do Lula 3, e Barretão, desconsolado, o narrou a diversos interlocutores. A insatisfação com a política cultural explodiu num manifesto da classe artística, pouco divulgado, à beira do primeiro turno. Em meio ao apoio, destacam-se as pauladas na orientação praticada pelo MinC:

— Queremos um salto não apenas quantitativo, de orçamento, mas sobretudo qualitativo na visão, compreensão e gestão da cultura e das artes por parte do próximo governo Lula.

Assinado por cerca de 600 nomes da área artística, entre eles Fernando Morais, biógrafo de Lula, as atrizes Glória Pires e Irene Ravache, a carta se posiciona contra diretrizes caras à atual gestão:

— As políticas devem ser mais que meramente simbólicas: devem ter resultados artísticos, econômicos e sociais relevantes.

O que vem primeiro: a dívida ou os juros? Por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Mercado reage na base do medo. Medo de quê? Da crise que pode vir se não for feito o ajuste das contas públicas

‘Desequilíbrio fiscal, pressões inflacionárias, juros altos e baixo crescimento. Romper esse nó górdio deve ser a tarefa número um dentre as ações do futuro governo. Sem um ajuste fiscal consistente, não haverá retomada relevante dos investimentos estratégicos, crescimento acelerado, criação de empregos de qualidade, incremento da renda e dinheiro para financiar políticas públicas essenciais.’

Esse é o resumo do Relatório de Acompanhamento Fiscal de outubro, publicado pela Instituição Fiscal Independente, um órgão de reconhecida credibilidade. O documento descreve a situação econômica como muito grave, podendo piorar se não forem tomadas medidas de corte de despesas.

Entrevista |Tabata apoia Alckmin na Fazenda, admite disputar SP em 28 e quer pressão popular para rever emendas

Reeleita para o terceiro mandato, deputada quer discutir ainda neste ano regras que deem mais transparência ao algoritmo e ao financiamento das redes sociais nas eleições

Por Bianca Gomes e Pedro Augusto Figueiredo\ O Estado de S. Paulo

Reeleita para o terceiro mandato como deputada federal, Tabata Amaral (PSB) faz coro à defesa de Geraldo Alckmin (PSB) para o Ministério da Fazenda, sob o argumento de que o vice-presidente da República tem uma visão que “concilia o social e o fiscal”. Em entrevista ao Estadão, a parlamentar defendeu que a estratégia de mobilização das ruas e das redes sociais utilizada para impulsionar a virada de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL) seja adotada para pressionar o Congresso a aprovar pautas que contrariam o interesse de deputados e senadores, como mudanças nas regras das emendas parlamentares.

Terceira deputada federal mais bem votada na capital, Tabata afirmou que disputar a Prefeitura de São Paulo em 2028 é um “desejo” seu e do PSB, embora a decisão dependa de uma construção política. Na última disputa municipal, marcada pela ascensão do ex-coach Pablo Marçal, ela ficou em quarto lugar, com 9,91% dos votos.

A deputada fez críticas à atuação de Ricardo Nunes (MDB) na campanha deste ano, citando a redução da frota de ônibus no último domingo e a mobilização de servidores municipais em prol de Flávio. Procurada, a Prefeitura de São Paulo não se posicionou

Para Tabata, o crescimento de Lula na capital, com cerca de 800 mil votos a mais no segundo turno, é uma demonstração de que “São Paulo não é bolsonarista”.

Ela afirmou ainda que conversou com o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, para votar ainda nesta Legislatura um código eleitoral para as redes sociais, em paralelo à discussão sobre a adoção do modelo de voto distrital misto. A proposta de Tabata é exigir mais transparência das plataformas sobre seus algoritmos e o financiamento de publicações impulsionadas.

Leia os principais trechos da entrevista:

Bravata contra big techs, por Diogo Schelp

O Estado de S. Paulo

No discurso após sua reeleição, no domingo, dia 25, o presidente Lula prometeu regular as plataformas digitais, que teriam servido de instrumento para uma “intromissão” externa na eleição brasileira. Trata-se, antes de tudo, de levantar uma bandeira cara à esquerda mundial, que defende a aprovação de leis para evitar que o poder das novas tecnologias fique concentrado nas mãos de grandes corporações privadas — insistindo na velha lógica da disputa sobre quem tem o controle dos meios de produção.

Há quem, corretamente, alerte para o risco de exagerar na dose da regulação, permitindo ao Estado praticar censura ou inibir a inovação.

Lula e o mercado, por Denis Lerrer Rosenfield

O Estado de S. Paulo

Decisões baseadas numa compreensão inadequada ou falsa da realidade produzem consequências nefastas para a sociedade

O governo Lula e os petistas em geral padecem de uma grave enfermidade. Desconhecem como controlar o mercado, acreditando que o Estado é uma espécie de demiurgo que tudo pode dominar. Têm uma crença desmedida em suas ações, como se elas obedecessem, em seus efeitos, à sua vontade. Ocorre que decisões baseadas numa compreensão inadequada ou falsa da realidade, como se o mercado fosse constituído por relações pessoais e não por regras impessoais, produzem consequências nefastas para a sociedade. A política, quando bem pensada e conduzida, deveria corresponder a ideias fundadas na racionalidade econômica.

Preservar o social ou fazer ajuste fiscal é um falso dilema, por Marcos Lisboa

Folha de S. Paulo

Principal desajuste é a expansão obrigatória de despesas em meio à distribuição de benefícios para grupos de interesse

Solução depende de debate com sociedade e negociação com a política e é agenda para Presidência

As escolhas de política econômica passaram a dominar o debate depois da eleição.

Existem sinais de problemas econômicos à frente, como, por exemplo, o número recorde de empresas em recuperação judicial, o elevado endividamento privado e as graves dificuldades de algumas companhias em setores como varejo e agronegócio.

As dificuldades se disseminam com o desequilíbrio das contas públicas e as altas taxas de juros.

Os problemas devem se agravar em 2027, mas o tamanho da encrenca dependerá das decisões do governo já na transição para o novo mandato.

No debate, contudo, têm sido criados espantalhos retóricos. Um exemplo é o suposto dilema: ajuste fiscal ou preservar os programas sociais? Isso pode ser verdade em outros países, mas não é o nosso caso.

A conta mudou para o PL: o partido quer tirar Moraes, mas não quer que Lula escolha o substituto, por Lara Mesquita

Folha de S. Paulo

Com o petista reeleito, afastar o ministro do STF significa dar ao presidente mais uma indicação ao Supremo

Sem fatos novos, Moraes tem grandes chances de sobreviver

A partir de fevereiro, o PL terá 29 senadores, a maior bancada de um partido no início de uma legislatura desde 1988. Na campanha, o partido e seus candidatos ao Senado defenderam o impeachment de ministros do STF. Alexandre de Moraes era o alvo preferencial.

O resultado do último domingo mudou a conta. Com Lula reeleito, cada ministro afastado abre mais uma vaga para o presidente preencher. E se há algo que o PL rejeita tanto quanto Moraes, talvez mais, é ver Lula escolher outro nome para o Supremo.

Bolsonaristas enrolam jornais com roteiro típico de Steve Bannon, por Alexandra Moraes - Ombudsman

Folha de S. Paulo

Estratégia para despistar fuga expõe armadilhas do jornalismo declaratório e, mais ainda, do complicado declaratório em off

Vaivém sobre itinerário e trapalhadas de carta golpista de Flávio Bolsonaro repetem receituário do ideólogo de Donald Trump

"O jornalista precisa investigar. Ficar ouvindo fontes sem apurar é burrice. Flávio Bolsonaro não fugiu sozinho, a imprensa ajudou." A mensagem de um leitor resume outras manifestações críticas ao que teria sido o papel dos veículos de comunicação na estratégia montada para que o senador do PL saísse do Brasil, após a Polícia Federal pedir e o ministro Alexandre de Moraes permitir a apreensão do passaporte do candidato derrotado no segundo turno da eleição presidencial.

Nossa Senhora Aparecida, rogai por nós, por Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

Campanha eleitoral de 2026 mostra racismo cada vez mais escancarado no Brasil

PEC da redução da maioridade penal é exemplo mais revelador da situação

A campanha eleitoral de 2026 foi bastante reveladora a respeito do quanto o racismo, essa deformação moral que se instalou na sociedade brasileira, está arraigado e cada vez mais escancarado no Brasil. Para refrescar a memória, cito alguns atos e fatos marcantes.

Teve homem branco conduzindo homem negro acorrentado (vestido de vermelho e carregando um tridente) durante uma manifestação da extrema direita no RJ. Além da clara associação com a escravização, será que se tratava também de uma alusão a Exu, orixá de matriz africana?

Da armadilha da democracia de qualidade média à cleptocracia, Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

Instituições brasileiras são capazes de preservar o regime, mas não de conter sua apropriação pelos próprios ocupantes

Indignação, que pode produzir punição eleitoral, não desfaz, por si só, os mecanismos de captura e abuso

No início da redemocratização, o diagnóstico parecia consensual: o Brasil era ingovernável. Partidos fragmentados impediriam maiorias, presidentes seriam reféns do Congresso e governadores comprometeriam a estabilização econômica. Mas o presidencialismo multipartidário aprovou reformas difíceis, a hiperinflação foi domada e a alternância de 2002 ocorreu pacificamente. O julgamento do mensalão mostrou que integrantes de uma força política ainda no governo podiam ser responsabilizados. Havia motivos para acreditar em um processo cumulativo de aprendizado.

Proposta de Lara Resende para limitar Selic assusta mercado; Durigan nega discussão no governo

Por Tamara Nassif, Douglas Gavras e Catia Seabra / Folha de S. Paulo

Tese de um dos pais do Plano Real prevê conselho conjunto para metas fiscais e monetárias, com 'tabelamento' dos juros

Gestores veem risco de perda de autonomia do BC, desancoragem de expectativas e 'desastre' para ativos brasileiros

Uma proposta do economista André Lara Resende, um dos formuladores do Plano Real, para reduzir a taxa Selic por meio de um novo arranjo entre as políticas fiscal e monetária entrou no radar do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e já provoca apreensão no mercado financeiro.

A possibilidade de aproximação entre o economista e o presidente surge em meio à pressão para que o próximo governo Lula apresente uma agenda fiscal crível.

A preocupação com o rumo das contas públicas levou aliados do petista a defenderem a antecipação da definição da equipe econômica do quarto mandato, para enviar sinalizações mais concretas ao mercado e conter a alta do dólar observada nesta semana após o resultado do segundo turno.

Poesia | É noite. A noite é muito escura, de Fernando Pessoa

 

Música | Marisa Monte - Gentileza

 

domingo, 1 de novembro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais\Opiniões

Lula tem chance de fazer governo mais responsável

Por O Globo

Aceno ao centro depois da vitória foi positivo. Espera-se que, desta vez, ele honre a frente ampla que o reelegeu

Logo depois de confirmada sua vitória na eleição, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fez um discurso em São Paulo. Antes de falar, fez questão de passar a palavra ao vice, Geraldo Alckmin, e de dizer que ele ocuparia espaço maior em seu próximo governo. “Estas eleições me ensinaram muitas lições”, disse. “Posso garantir a vocês que vamos mudar o jeito de governar o país.” Espera-se que, desta vez, Lula honre suas palavras.

Há dúvidas pertinentes, pois não foi o que aconteceu no mandato que se encerra. Em 2022, depois de uma eleição turbulenta, marcada por contestação aos resultados, atos antidemocráticos e até uma tentativa de golpe, Lula foi incapaz de entender que sua vitória sobre o então presidente Jair Bolsonaro (PL), pela margem estreita de 2,1 milhões de votos, só havia sido possível graças à formação de uma frente ampla reunindo setores da sociedade que não orbitavam em torno dele ou de Bolsonaro — e estavam simbolizados na escolha do próprio Alckmin (antes ferrenho adversário do PT) para a Vice-Presidência.

Duas táticas de esquerda: hegemonismo do PT ou aliança com os liberais, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

A mobilização popular do segundo turno compensou a fragilidade da aprovação governamental e devolveu centralidade à defesa da democracia na reeleição de Lula

A discussão sobre a composição do novo governo Lula e sua política econômica remete-se a controvérsias históricas da esquerda: como combinar identidade própria, mobilização popular e alianças com forças que não compartilham seu projeto? Vladimir Lênin, o líder bolchevique, e Antonio Gramsci, o maior marxista ocidental, protagonizaram esse debate na Rússia autocrática de 1905 e na Itália fascista da década de 1930. Entre ambos e a Constituição de 1988, há uma distância intransponível.

Em Duas táticas da social-democracia na revolução democrática (Boitempo), Lênin sustentava que a burguesia liberal russa não levaria até o fim a luta contra o czarismo. Temia mais a iniciativa dos trabalhadores do que a sobrevivência da autocracia. Caberia ao proletariado, aliado ao campesinato, dirigir a revolução democrática. A questão era quem comandaria a transformação, antes mesmo da passagem ao socialismo. Isso admitia convergências circunstanciais com liberais, mas recusava a subordinação política a eles. Essas teses permanecem vivas na esquerda brasileira.