segunda-feira, 3 de agosto de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Ilusão estatística pode mascarar violência maior

Por O Globo

Homicídios caíram 21%, mas houve salto de 26,5% em desaparecimentos, despertando suspeita sobre os dados

É muito provável que as estatísticas sobre violência no Brasil estejam subestimadas. O alerta foi dado pelo aumento na quantidade de “desaparecidos”. Há cinco anos vive-se um período auspicioso de queda nos homicídios. De 2021 a 2025, houve redução de 20,2%, para 31.448, segundo o Sinesp, plataforma de dados de segurança pública do Ministério da Justiça. A taxa de assassinatos por 100 mil habitantes caiu de 18,7 para 14,7. No mesmo período, aumentou o contingente de desaparecidos. Os dados do Sinesp mostram que eles passaram de 67.362 para 85.233, ou 234 por dia, um salto de 26,5%. A taxa por 100 mil habitantes subiu de 32 para quase 40. O dado levanta a suspeita de que muitos assassinatos sejam classificados como desaparecimentos, provocando uma ilusão estatística nas taxas de homicídio.

Moderação mira nos indefinidos por 1º turno, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Em 1h13 min de discurso Lula não menciona “soberania” uma única vez e diz que idade favorece reconhecimento de erros e omissões

Ao ser oficializado como candidato à reeleição, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva terceirizou o discurso da soberania para o vice, Geraldo Alckmin (“a urna é tão competente que não aceita voto de argentino e americano”). Não foi por falta de tempo. Lula falou, sem teleprompter, apenas com pontos de um roteiro anotados em uma folha de papel, durante uma hora e 13 minutos.

Preferiu focar na defesa das mulheres (“homem que bate em mulher não precisa votar em mim”), na comparação com Pelé (“ele disputou quatro copas e esta é minha sétima”) e no reconhecimento de seus erros e omissões (“Peço desculpas pelos erros que cometi e pelo que deixei de fazer”).

Lula e Flávio chegam à reta final das convenções sem ampliar alianças, por César Felício

Valor Econômico

Neutralidade dos partidos do Centrão é uma das principais características desta eleição presidencial

Em 2022, apenas 69 deputados pertenciam a partidos que não lançaram e nem apoiaram nenhum dos candidatos a presidente da República. Neste ano, salvo algum movimento de última hora, serão 178. A decisão dos partidos do Centrão de se ausentar da eleição presidencial é uma das principais características desta sucessão. Nem o presidente Luiz Inácio Lula da Silva conseguiu ampliar a sua frente, nem o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) conseguiu a adesão de partidos que compuseram o governo do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, e nem as demais candidaturas presidenciais de direita, como Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo), saíram do isolamento.

São Paulo e Pernambuco, prévia para o futuro? Por Bruno Carazza

Valor Econômico

Eleições para governador apontam para novos rumos da política brasileira

Antes de iniciar a leitura, deixo aqui um alerta: esta coluna em particular contém alta dose de “wishful thinking”, aquele desejo íntimo do autor que às vezes contamina a análise racional dos fatos.

Caminhamos para a terceira eleição seguida em que se colocam frente a frente os dois líderes mais populares do Brasil pós-ditadura. Embora só tenham se enfrentado diretamente em 2022, Lula e Bolsonaro mediram forças em 2018, com Haddad assumindo o lugar do líder petista, que estava preso. Em 2026, os papéis se invertem; com Jair em prisão domiciliar, é Flávio quem substitui o pai nas urnas que eles próprios contestam.

Piora o desequilíbrio das contas públicas, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Um ajuste fiscal também exige redução de gastos com saúde e educação e corte substancial nas emendas parlamentares

Quando o arcabouço fiscal foi lançado, em agosto de 2023, comentamos aqui que o novo sistema só alcançaria o equilíbrio das contas públicas com forte aumento da arrecadação tributária. Pois o governo conseguiu significativo aumento das receitas — e, mesmo assim, a dívida entrou numa trajetória de alta. A despesa cresceu ainda mais que a receita.

De acordo com dados divulgados pelo Banco Central (BC) na última sexta-feira, a dívida bruta de todos os níveis de governo (federal, estaduais e municipais) alcançou em junho R$ 10,8 trilhões, o equivalente a 81,9% do PIB. Subiu R$ 190 bilhões só em maio. Para comparar: o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) recomenda que países emergentes como o Brasil tenham dívida em torno de 40% do PIB.

O discurso que Lula não fará, por Demétrio Magnoli

O Globo

“Trump pretende dobrar o Brasil. Fracassará. Meu governo decidiu encarar o tarifaço como oportunidade de modernização econômica. Movemo-nos pelo interesse nacional, não pelo interesse eleitoral.

Desisti do programa Brasil Soberano. Os setores tarifados abrangem, largamente, a ‘indústria Paulo Skaf’: empresas pouco competitivas, historicamente protegidas. Não receberão subsídios do governo. Concedê-los seria ampliar a dívida pública, pressionando ainda mais a taxa de juros. Não agiremos como seguradora de empresários, transferindo-lhes a renda do povo em nome do protecionismo.

Deixemos o protecionismo para Trump. Nosso caminho é o inverso: como fizeram Indonésia e Vietnã, baixaremos taxas alfandegárias para estimular a importação de bens de capital e insumos, impulsionando a modernização industrial.

É preciso saber onde nasce o ressentimento do eleitor, por Preto Zezé

O Globo

Eleição será decidida por quem conseguir devolver ao trabalhador a sensação de que vale a pena acordar cedo

Por que tanta gente anda votando com raiva? A política brasileira continua procurando a resposta nas estatísticas, quando ela está no ônibus lotado, na fila do posto de saúde e na mesa de quem trabalha, mas não fecha as contas. Quem olha apenas para os indicadores encontra motivos para comemorar. O desemprego está em 5,4%. Mas basta conversar com quem dirige por aplicativo, vende comida na rua, faz entregas de bicicleta ou acumula dois ou três trabalhos para perceber que há outro Brasil, onde o emprego voltou, mas a tranquilidade não.

Quem controla a burocracia? Por Carlos Pereira

O Estado de S. Paulo

As regras criadas para controlar servidores fortalecem sua influência

Por que governos tão diferentes quanto os de Bolsonaro e de Lula acabaram entrando em conflito com as mesmas burocracias do Estado?

Bolsonaro acusou o Ibama de travar o desenvolvimento, confrontou a Anvisa na pandemia e frequentemente atribuiu aos servidores de carreira a resistência às suas políticas. Lula, por sua vez, criticou o Banco Central pela condução da política monetária, contestou pareceres técnicos da área econômica e também entrou em atrito com órgãos ambientais e agências reguladoras em torno de projetos considerados prioritários pelo governo.

A explicação mais comum é ideológica. Mas ela é insuficiente. Há uma razão institucional para que governos de orientações tão distintas esbarrem nos mesmos atores. Nas últimas décadas, democracias passaram a exigir que decisões públicas fossem justificadas por estudos técnicos, análises de impacto, consultas públicas e pareceres especializados. Ao exigir justificativas técnicas, o sistema fortaleceu justamente quem produz essas justificativas.

Lula expõe dilemas do legado e da sucessão em discurso, por Igor Gielow

Folha de S. Paulo

Na convenção do PT, presidente de 80 anos surge como político buscando manter relevância e inovação

Petista sugere Haddad como herdeiro, mas cita condicionantes difíceis de serem cumpridas pelo aliado

Naquele que deve ser seu último discurso aceitando uma candidatura à Presidência, Luiz Inácio Lula da Silva expôs sua condição de líder da esquerda brasileira que busca manter relevância enquanto lida com a noção de legado e a falta de uma sucessão organizada.

Na convenção do PT neste domingo (2) em São Paulo estava o narcisista usual dos palanques. A primeira metade de sua fala, de improviso, abusou do tom íntimo e autocentrado do "Lulinha da dona Lindu", que tudo venceu.

A hagiografia acompanha a carreira do petista, de resto única. Até uma foto sua como criança foi parar na camiseta de Janja, primeira-dama resgatada pelo marido do papel de acessório de palco —uma escorregada da organização, admoestada pelo próprio presidente.

Meritocracia na base e patrimonialismo no topo, por Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

Profissionalização da base da burocracia pode coexistir com a patrimonialização de seus centros de comando

Mas o que ainda se observa em nosso país são estruturas patrimoniais e familistas

Temos assistido a uma erosão sustentada da capacidade de Estado em nosso país. Em termos comparativos, nós tivemos uma trajetória relativamente bem-sucedida, embora incompleta, de insulamento de certos setores da administração pública em relação à política partidária, ao familismo e ao patrimonialismo.

Uma das peças dessa trajetória tem sido a disseminação dos concursos públicos. O Brasil foi o primeiro país na América Latina a instituir o concurso público (1936) como forma de ingresso para carreiras no governo federal. Na área da diplomacia, os concursos datam de 1919.

A pasteurização do negro, por Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

Identidade é algo que se manifesta pela consciência da diferença de um indivíduo em relação ao outro

Essa negação da alteridade aos negros não é uma exclusividade da imprensa

Cresci ouvindo causos sobre as incontáveis vezes em que pessoas da minha família foram confundidas umas com as outras. As histórias sobre essas reiteradas trocas de identidade acabavam sempre com o comentário "muita gente acha que todo preto é igual".

Essa é uma situação que reflete uma das características do racismo: o apagamento de identidades negras. Coisa que alcança não só cidadãos comuns, mas também figuras públicas, artistas, atletas, magistrados, intelectuais...

O ‘Possesso’ esquecido, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

No Brasil, nem sempre basta a um jogador ser campeão do mundo para continuar lembrado

Os gols de Amarildo, herói de 1962, valem menos que os 19 minutos de Vampeta em 2002

Deu no Globo. Amarildo, meia-esquerda da seleção na Copa do Mundo de 1962, no Chile, está internado há três anos no Hospital Copa Star. Tem 87 anos. Sua saúde começou a decair em 2011, quando a radioterapia para um carcinoma de laringe atingiu a região cerebral. O diagnóstico de Alzheimer veio em 2018. Desde então, Amarildo sofreu três AVCs, está cego e é alimentado por sonda gástrica. Sua internação é acompanhada por sua família e mantida por um plano de saúde da CBF.

Assista ao discurso de Lula na convenção nacional do PT

 

Poesia | Vem Sentar-te Comigo Lídia, de Fernando Pessoa, por Paulo Autran

 

Música | Simone - O Amanhã

 

domingo, 2 de agosto de 2026

Opinião do dia: Manuel Castells*

Em tempos de incertezas costuma-se citar Gramsci quando não se sabe o que dizer. Em particular, sua célebre assertiva de que a velha ordem já não existe e a nova ainda está para nascer. O que pressupõe a necessidade de uma nova ordem depois da crise.

Mas não se contempla a hipótese do caos. Aposta-se no surgimento dessa nova ordem de uma nova política que substitua a obsoleta democracia liberal que, manifestamente, está caindo aos pedaços em todo o mundo, porque deixa de existir no único lugar em que pode perdurar: a mente dos cidadãos.

A crise dessa velha ordem política está adotando múltiplas formas. A subversão das instituições democráticas por caudilhos narcisistas que se apossam das molas do poder a partir da repugnância das pessoas com a podridão institucional e a injustiça social; a manipulação midiática das esperanças frustradas por encantadores de serpentes; a renovação aparente e transitória da representação política através da cooptação dos projetos de mudança; a consolidação de máfias no poder e de teocracias fundamentalistas, aproveitando as estratégias geopolíticas dos poderes mundiais; a pura e simples volta à brutalidade irrestrita do Estado em boa parte do mundo, da Rússia à China, da África neocolonial aos neofascismos do Leste Europeu e às marés ditatoriais na América Latina.

*Manuel Castells, sociólogo espanhol. “Ruptura”, Editora Zahar, Rio de Janeiro, 2018.

Texto Publicado na Folha de S. Paulo / Ilustríssima, 10/6/2018

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Deterioração das estatais agrava crise fiscal

Por O Globo

No atual mandato de Lula, elas têm passado a representar custo cada vez maior aos cofres públicos

É preocupante a corrosão da saúde financeira das empresas estatais. O último relatório da Instituição Fiscal Independente (IFI), vinculada ao Senado, constatou deterioração no resultado das empresas federais ao longo dos últimos anos. Entre janeiro de 2020 e maio de 2026, o resultado financeiro primário consolidado passou de um superávit equivalente a 0,2% do PIB para um déficit de 0,07%. A situação se agravou durante o atual mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva — o saldo no início do mandato ainda era positivo, em 0,06% do PIB.

Desafios internos e externos ameaçam projeto de reeleição de Lula, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O petista enfrenta problemas internos que não conseguiu superar no atual mandato, agravados pela mudança geopolítica na América do Sul e pela interferência direta de Trump

“Enquanto eu viver, a extrema direita não voltará a governar este país. Se quiser vir o Trump, que venha. Se quiser vir o Milei, que venha. A única ajuda que eu quero é a ajuda do povo brasileiro para manter a democracia”, disse o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, num misto de voluntarismo e soberba, às vésperas da convenção do PT, em São Bernardo do Campo, neste domingo.

Não se poderia esperar algo muito diferente de quem precisa mobilizar os militantes e aliados para uma eleição difícil. A declaração revela a estratégia de formar um movimento democrático e nacionalista capaz de garantir sua reeleição. O desafio, porém, não se limita a reunir a esquerda: Lula precisa conquistar os eleitores de centro e atrair setores das elites comprometidos com a democracia.

O futuro em jogo, por Merval Pereira

O Globo

Já está ficando claro que a economia, seja qual for o presidente eleito, necessitará de uma ampla reforma para conter o déficit público.

Sempre tivemos uma base de cerca de 40% dos eleitores que escolheram votar contra Lula nas eleições presidenciais de que participou desde 1989. Com candidatos como Collor ou Aécio Neves, esse número subiu, e não havia extrema-direita nessas disputas. Com o surgimento de Bolsonaro, a retórica foi estressada e a essa massa de votantes antilulistas agregou-se uma atuação violenta, tanto física quanto verbal, e antidemocrática, o país ficou claramente dividido.

A eleição de 2026 pode ser a última com essa característica, pois Lula, se eleito, já estará com 85 anos em 2030, e não poderá se candidatar a um quinto mandato. Bolsonaro, sem a anistia que seus aliados prometem, estará fora da disputa política e terá constatado que não basta indicar um candidato para vencer. No PT, não há sinais de que o pós-Lula trará algum líder do seu tamanho, e assim como os partidos que Brizola criou - PTB e PDT - não são forças políticas relevantes hoje, o PT pode continuar existindo, mas não terá importância política. O mesmo aconteceu com o PSDB, que hoje não é o mais pálido reflexo da época de Fernando Henrique Cardoso.

O tira-teima de Lula, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Petista larga como favorito à reeleição, mas não tem folga que esperava nas pesquisas

Luiz Inácio Lula da Silva lança hoje sua sétima campanha à Presidência. Será um tira-teima com a História. O petista foi derrotado nas primeiras três tentativas de chegar ao Planalto, em 1989, 1994 e 1998. Venceu as outras três, em 2002, 2006 e 2022.

Aos 80 anos, o candidato à reeleição lembra pouco o metalúrgico que enfrentou Fernando Collor no início da Nova República. O Lula de 1989 falava em enfrentar a classe dominante e criar condições para o socialismo. O de 2026 promete estabilidade, temperança e defesa das instituições.

O petista já havia vestido o figurino “paz e amor” nas três campanhas vitoriosas. Agora também se apresenta como antídoto ao radicalismo e ao golpismo. “Não vou deixar a extrema direita voltar”, prometeu, na quinta-feira.

A violência como projeto, por Míriam Leitão

O Globo

É importante entender que cada ato de violência política contra mulheres faz parte de um projeto perigoso de retrocesso

A violência contra as mulheres na arena política, os insultos usando imagens sexuais, o ataque que tem como alvo as jornalistas não são fruto apenas dos maus modos ou da sordidez. São parte de um projeto. O avanço das mulheres nas últimas décadas, o protagonismo, a autonomia exasperam quem defende a visão extremada e obsoleta da supremacia dos homens. As pessoas, de qualquer gênero, que preferem o futuro da igualdade e do respeito entre grupos sociais precisam ter esse entendimento. Cada investida não é um ato isolado. É o ronco de um projeto.

Não por acaso as mulheres jornalistas são alvos tão frequentes. Elas avançaram de forma vigorosa nas últimas décadas nas redações de todo o país e em todas as mídias. Não integram os partidos que se enfrentam nas urnas, mas estão no meio do debate e incomodam por existir, por estarem ali, por fazerem perguntas e terem ideias próprias. Para quem tem visão retrógrada, a presença da mulher libera os instintos mais selvagens. E na reação cometem crimes.

A luta de Heleno Fragoso, por Elio Gaspari

O Globo

Advogado acima de tudo, ele foi um destemido defensor de presos políticos

Vem aí um grande livro. Será lançado no dia 26 uma reedição de “Advocacia da liberdade — A defesa dos processos políticos”, do criminalista Heleno Fragoso (1926-1985). Advogado acima de tudo, ele foi um destemido defensor de presos políticos.

Preso em um arrastão intimidatório em 1970, Heleno Fragoso contou alguns de seus casos. Defendia presos num regime que não tinha habeas corpus e que casos políticos eram julgados em tribunais militares.

Passados quase 50 anos, é emblemática sua defesa dos dirigentes dos Sindicatos dos Metalúrgicos de São Bernardo (Lula) e Santo André (Benedito Marcilio) e de outros 11 sindicalistas pela deflagração da greve de 1980. Ela durou 41 dias e Lula passou 31 dias na cadeia. Fragoso entrou nesse caso em sua reta final. Julgados no ano seguinte, quatro dirigentes foram condenados a 3 anos e 6 meses, com direito a recorrer em liberdade. O primeiro julgamento foi anulado no Superior Tribunal Militar e, em 1982, veio outro. Fragoso e os demais advogados sustentavam que a Justiça Militar era incompetente para julgar grevistas. Prevaleceram.

Extrema direita usa medo como arma, por Dorrit Harazim

O Globo

Trump saiu à frente com postagens alarmadas afirmando que os EUA serão Ceuta se os democratas vencerem em 2028

Foi um surto humano que durou 24 horas. Na sexta-feira, quando o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, desembarcou em Ceuta, epicentro do rompante migratório vindo do Marrocos, o número de cadáveres recolhidos chegara a 57 — ontem já eram 67. Eles vêm somar-se aos milhares de corpos que não aguentam travessias muitas vezes mais longas pelo mesmo Mediterrâneo: 31.800 só na última década, segundo o Missing Migrants Project.

Ceuta é um exclave, designação para a parte de um país que fica separada de seu território principal. No caso de Ceuta, trata-se de um exclave espanhol fincado na costa mediterrânea do Marrocos, a pouco mais de 60 quilômetros de Gibraltar — ou da Europa continental. Com Melilla, outra cidade autônoma espanhola encravada na costa norte do Marrocos, forma as únicas fronteiras terrestres legitimadas da União Europeia com a África.

O maior mistério da eleição de 2026, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

‘Neutralidade’ do Centrão custa caro; quem dá mais, o presidente Lula ou Flávio Bolsonaro?

Toda eleição tem lá seus mistérios e o maior de todos em 2026 é a conversa (ou conversas) entre o presidente Lula e o senador Ciro Nogueira, que deu uma cambalhota e tirou o PP e o próprio Centrão da candidatura de Flávio Bolsonaro e empurrou para o que chamam de “neutralidade”. Depois da reaproximação de Lula e Nogueira, a eleição nunca mais foi a mesma.

Nogueira, do Piauí, é um duplo recordista. Apoiou FHC, Lula, Dilma e Temer, até chefiar o que Jair Bolsonaro chamava de “coração” do seu governo, a Casa Civil. E esteve, de alguma forma, envolvido nos mais variados escândalos, desde a Lava Jato até o Banco Master. Foram sete esquemas de corrupção, cinco inquéritos e quatro denúncias formais, nenhuma condenação.

Em Gaza, uma manobra política, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

O acordo de desarmamento do Hamas, anunciado por Donald Trump e confirmado pelo grupo palestino, não representa avanço real rumo à solução do conflito na Faixa de Gaza, mas uma manobra política do Hamas – na qual Trump embarcou, por conveniência – para elevar as tensões entre Israel e os EUA e as pressões sobre o governo de Binyamin Netanyahu.

É a continuação do movimento iniciado pelo Hamas no dia 6, quando o grupo renunciou ao governo civil da Faixa de Gaza, em favor do Comitê Nacional para a Administração

de Gaza (NCAG). Composto por tecnocratas palestinos, o órgão faz parte do plano americano e tem o apoio do Conselho de Paz, presidido por Trump. Israel, no entanto, impede a entrada de seus integrantes no território da Faixa de Gaza.

Milei é o cunhado picareta do Brasil, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Javier assinou a minuta do golpe que Flávio Bolsonaro apresentou

O resto é torcer para que uma hora a Argentina largue o boy lixo e arrume coisa melhor

Na falta de brasileiros que o apoiem, Flávio Bolsonaro segue recrutando estrangeiros que o defendem em troca de sabe Deus o quê.

Na convenção do PL que lançou o filho do Jair para presidente, nem os grandes partidos de direita brasileiros apareceram para declarar apoio. Carluxo preferiu ir visitar Eduardo nos Estados Unidos. Michelle mandou um vídeo em que elogiava Flávio com menos naturalidade do que o Jair de inteligência artificial.

Depois de papai Trump e de tio Netanyahu, Flávio agora trouxe para a campanha Javier Milei.

Do ponto de vista do Brasil, Milei é como aquele cunhado picareta que perdeu tudo em um esquema de criptomoeda e agora está endividado com o agiota.

Macaquice tem lugar de fala, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Decadência, quando afeta moralidade ou ética social imediata, caminha junto com ressentimento e crueldade

'Paris da América do Sul' era epíteto da capital portenha

Guerra não é motivo de orgulho moral e cívico para país nenhum. Bem o sabem os argentinos, modestos em feitos armados, afora a luta pela independência. Nas duas vezes contra o Brasil (Guerra Cisplatina e do Prata), foram derrotados. Depois, ao lado dos brasileiros e uruguaios na Tríplice Aliança contra o Paraguai, foram caso invulgar de indisciplina militar, desertando das fileiras de combate. Reza a crônica que, após a desastrosa batalha de Curupaiti, às vezes tinham de ser amarrados para não fugirem.

No encalço do Congresso, Dino aperta cerco às emendas, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Ministro quer impor responsabilidade jurídica aos parlamentares no uso do Orçamento da União

Eleição atual pode ser a última chance do manejo desses recursos como financiamento de campanhas

O ponto mais recente que Flávio Dino acrescentou à escrita dele sobre a manipulação no uso das emendas parlamentares não mereceu destaque no noticiário voltado às campanhas eleitorais. Conviria, porém, prestar atenção aos movimentos do ministro.

Dino sinaliza introduzir na cena o conceito de responsabilidade jurídica de deputados e senadores no manejo daqueles recursos, hoje na ordem dos R$ 60 bilhões, em ação em curso no Supremo Tribunal Federal que os equipara a ordenadores de despesas do Orçamento da União.

Um ato de lesa-banana, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Há dias, sem pensar, reduzi a banana a fláviobolsonaro; leitores protestaram com razão

Sugiro também o apagamento da ligação injusta e involuntária da banana com Dudu Bananinha

Na quinta (30), cometi um ato de lesa-banana ao definir Flávio Bolsonaro como um político marca banana, por seus espasmos de filhinho do papai, choramingas e entreguista em campanha pela Presidência. Arrisquei que, se Flávio B. já é tão flácido como candidato, como seria no trono, posto que exige maturidade, firmeza e decisão? Ao mesmo tempo, deixei em aberto a possibilidade de ser isso o que a Faria Lima quer: um banana na Presidência, fácil de ser manipulado.

A Indústria Mundial de Petróleo e a Cultura da Paz, por George Gurgel*

Devemos compreender o Mercado, o Estado e a Sociedade em geral de uma maneira sistêmica, em diálogo e conflito, permanentemente.

Por exemplo, argumentamos   que   a Paz é uma variável fundamental a ser considerada nas relações internacionais, inclusive em relação a indústria petrolífera. A indústria petrolífera impacta a cada um de nós como humanidade que direta ou indiretamente participa do amplo fluxo desta indústria. 

Tenho colocado, onde posso alcançar, que a Paz é o fundamento da sustentabilidade humana no planeta.

Portanto, no cenário internacional, histórico, atual e em perspectiva, da Indústria Mundial de Petróleo, uma boa parte dos conflitos   foram e continuam sendo gerados em torno das reservas, produção e distribuição de Petróleo e de Gás Natural. 

Quem se apropriou e se apropria da renda petrolífera, inclusive manu-militare, eis a questão!

Veja o discurso do presidente Lula na convenção Estadual do PT do Ceará

 

Poesia | Os Mortos, de Ferreira Gullar

 

Música | Martinho da Vila e Dona Ivone Lara - Alguém me avisou - Tiê

 

sábado, 1 de agosto de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Contas públicas atestam fracasso do arcabouço fiscal

Por O Globo

Nos últimos 12 meses, rombo alcançou 10% do PIB, o pior resultado desde a pandemia

A irresponsabilidade fiscal do presidente Luiz Inácio Lula da Silva produziu uma tragédia cujo clímax se aproxima. A cada novo retrato da saúde fiscal do Estado, acumulam-se as evidências de que o Brasil está perto de uma crise severa, provavelmente com a temida confluência de inflação em alta e estagnação econômica — situação que os economistas batizaram de “estagflação”. É o que se depreende dos dados divulgados pelo Banco Central nesta sexta-feira.

Nos últimos 12 meses, as contas públicas fecharam com um rombo de R$ 1,3 trilhão, levando em conta o déficit primário (receitas menos despesas do governo) e o pagamento de juros da dívida pública. Tal número — tecnicamente chamado “déficit nominal” — equivale a 10% do Produto Interno Bruto (PIB). Sem contar 2020, ano da pandemia, e o catastrófico ano de 2015, depois da reeleição de Dilma Rousseff, é o pior resultado registrado desde quando Lula subiu a rampa do Planalto pela primeira vez, em 2003. Com a sucessão de contas no vermelho, a dívida pública já alcança 82% do PIB, 8 pontos percentuais acima do início do atual mandato. Não há prova mais eloquente do fracasso do arcabouço fiscal implantado por Lula para controlá-la.

Bolsonarismo põe disputa eleitoral sob estresse democrático, por Flávia Oliveira

O Globo

O golpismo tornou-se variável obrigatória nos cenários de análise política

Desde que o bolsonarismo ganhou protagonismo político no Brasil, a corrida presidencial se desenrola sob estresse das instituições democráticas. O golpismo tornou-se variável obrigatória nos cenários de análise política. Quatro anos atrás, a campanha se iniciava sob o impacto do encontro do então presidente da República com embaixadores estrangeiros para lançar suspeitas sobre o sistema eleitoral e as urnas eletrônicas. A saraivada de ataques — que envolveu até operação da Polícia Rodoviária Federal no Nordeste para impedir eleitores de Lula de votar — deu na inelegibilidade de Jair Bolsonaro e, posteriormente, na condenação dele próprio e de seu grupo por tentativa de golpe de Estado. Em 2026, a trama se repete.

O Brasil ganhou prestígio na política e na opinião pública global por ter sido capaz de preservar o regime e punir os que contra ele atentaram, incluindo o ex-presidente, três generais e um almirante. Em 2022, antes mesmo do início formal da campanha que opunha Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva, acadêmicos e representantes da sociedade civil realizaram ato em defesa do Estado Democrático de Direito no Salão Nobre da histórica Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP).

Bolsonarismo é agora ameaça existencial a Moraes, por Thaís Oyama

O Globo

Renovado em dois terços, o Senado arbitrará entradas e, possivelmente, saídas de juízes do Supremo

Até agora, o conjunto das pesquisas estaduais aponta um claro favoritismo da direita e da centro-direita na corrida deste ano ao Senado. A projeção mais abrangente disponível estima que, juntas, as duas forças políticas poderão reunir pelo menos 40 das 81 cadeiras a partir de 2027 — uma a menos, apenas, da maioria absoluta. Valdemar Costa Neto, com o otimismo regulamentar dos caciques, declarou que só seu PL poderá eleger em outubro 20 novos senadores. Somados aos oito atuais que, em sua conta, permanecerão no partido e no Senado, eles formarão uma bancada de 28 parlamentares. Pela projeção, basta ao PL conquistar 13 votos na centro-direita para reunir os 41 necessários à eleição do presidente da Casa. O presidente do Senado é o único com poder de dar início a processos de impeachment de ministros do Supremo.

Sobre mentiras e tarifas, por Fareed Zakaria

Washington post / O Estado de S. Paulo

Presidente parece ordenar que governo certifique formalmente como fato algo que não é verdade

Em dois anos, Trump converteu os EUA na economia avançada mais protecionista do mundo

Para quem achava que a Suprema Corte havia posto fim à obsessão de Donald Trump por tarifas, é melhor repensar. Em fevereiro, ela derrubou as tarifas abrangentes do Dia da Libertação, determinando que o presidente não possuía poderes de emergência para tributar importações de quase todos os países do mundo. A resposta de Trump foi vasculhar os códigos legais em busca de formas incomuns, obscuras e talvez ilegais de restabelecer tarifas semelhantes.

Primeiro veio uma tarifa global temporária. Quando ela expirou, ele impôs tarifas de 10% a 12,5% sobre 60 economias alegando práticas comerciais desleais. No caso do Canadá, Trump recorreu à Seção 338 da Lei Tarifária Smoot-Hawley de 1930, uma disposição nunca invocada até então.

Em legítima defesa de crianças e jovens, por Miguel Reale Júnior

O Estado de S. Paulo

A sociedade deve, uníssona, em legítima defesa, proteger a infância e a juventude da malvadeza digital

A inteligência artificial (IA), que tantos benefícios tem trazido e trará, pode, no entanto, colocar em risco a mais importante parcela da sociedade: nossas crianças e nossos adolescentes. Tim Wright, dirigente no Reino Unido da Agência Nacional de Combate ao Crime, observa: “As ferramentas de inteligência artificial estão se tornando mais poderosas, mais acessíveis e mais fáceis de usar, e estamos vendo criminosos explorá-las para atingir crianças de novas maneiras. Imagens podem ser manipuladas para criar conteúdo sexualizado sem o conhecimento da criança ou dos pais.”

Filho 01 é um boneco nas mãos da extrema direita transnacional, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

O esquema que sabota o processo democrático é difundido por Trump

O alinhamento golpista se revela nas mentiras de Flávio sobre urnas eletrônicas

Como diria um velho caudilho dos pampas, Donald Trump está costeando o alambrado. Em seu segundo mandato como presidente dos Estados Unidos, nomeou negacionistas eleitorais para postos-chave, alterou regras para dificultar o voto popular e afastou funcionários que desmascararam suas teorias de conspiração sobre o pleito de 2020.

Para lançar dúvidas acerca das eleições legislativas de novembro —as pesquisas indicam que os democratas terão maioria—, usa a derrota de seis anos atrás diante de Joe Biden para afirmar que as votações no país não são legítimas. Claro, só aquelas que ele não vence.

A rivalidade e os estereótipos entre Brasil e Argentina, por Sérgio C. Buarque*

Revista Será?

Os brasileiros têm uma rivalidade histórica com a Argentina que se expressa de forma intensa no futebol, embora reflita também a concorrência dos orgulhos nacionais, a empáfia dos brasileiros diante da soberba dos argentinos, que se acham os europeus da América (mesmo já tendo perdido a majestade). Durante a Copa do Mundo, o confronto futebolístico ganhou conotações políticas com a criação e difusão, pelos brasileiros, de um estereótipo negativo do povo argentino. “Torço contra a Argentina porque os argentinos são racistas” foi a frase mais comum ouvida ao longo do campeonato mundial.

Os brasileiros tornaram-se, de repente, zelosos fiscais do racismo alheio, condenando o racismo dos argentinos, como se o preconceito racial tivesse sido erradicado no Brasil. Não faltam testemunhos de manifestações racistas de parte dos argentinos, e não apenas no futebol. Da mesma forma, não se pode ignorar a persistência do racismo no Brasil e em vários outros países, bastando lembrar os atos racistas sofridos por vários jogadores brasileiros nos campeonatos europeus, como Vinicius Junior.