segunda-feira, 6 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editorais / Opiniões

Não faz sentido renovar subsídio ao carvão mineral

Por O Globo

Transição energética exige plano para desativar geração elétrica dessa fonte poluente e superada

É um paradoxo que o Brasil, país onde 88% da eletricidade é gerada por fontes renováveis — um dos percentuais mais altos do planeta —, ainda mantenha em sua matriz energética usinas térmicas a carvão mineral, que estão entre os maiores emissores de gases de efeito estufa. Embora respondam por algo como 1,4% da geração no país, elas custaram no ano passado R$ 1,22 bilhão em subsídios. Para piorar, um Projeto de Lei (PL) que tramita no Congresso, dos deputados Afonso Hamm (PP-RS) e Lucas Redecker (PSDB-RS), pretende estender tais subsídios até 2050, sob a alegação de que as usinas são um instrumento de segurança energética e econômica nas regiões carboníferas do Sul do país.

Disputa expõe rearranjos do bolsonarismo, por Joelmir Tavares

Valor Econômico

Conflito entre Flávio e Michelle Bolsonaro acelera corrida pelo espólio político do ex-presidente

A troca pública de críticas entre o senador Flávio Bolsonaro e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro expôs uma disputa pelo espólio eleitoral do ex-presidente Jair Bolsonaro e lançou dúvidas sobre o futuro do bolsonarismo, no momento em que sua principal liderança está impedida de atuar publicamente como um árbitro e a pré-candidatura do clã à Presidência, liderada por Flávio, enfrenta obstáculos.

Na visão de especialistas que pesquisam movimentos de direita, a crise não deve significar o esvaziamento do bolsonarismo como força política, mas acirra a briga por espaço e reorganiza segmentos que se aglutinaram em torno de Bolsonaro - hoje em prisão domiciliar, determinada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), após a condenação por tentativa de golpe de Estado.

Numerologia já definiu quem será eleito, por Bruno Carazza

Valor Econômico

Escolha de números de urnas é muito mais do que um recurso mnemônico para o eleitor

Num evento político no mês passado, o pré-candidato a governador subiu no palanque improvisado de um restaurante para declarar seu apoio a um correligionário. E afirmou: “Você será o meu candidato a deputado federal, e a prova disso é que o seu número de urna será XYXY”, onde XY é o número do partido deles.

Numa eleição em que centenas ou milhares de políticos se engalfinham pelas poucas cadeiras em disputa, ter um número de urna fácil de ser lembrado pelo eleitor é um ativo importante - ainda mais num país em que candidatos e partidos em geral têm baixa conexão com os cidadãos.

Mudanças no cenário indicam PIB mais forte em 2026 e mais fraco em 2027, por Sergio Lamucci

Valor Econômico

O quadro de mais crescimento, mais inflação e mais juros neste ano terá consequências importantes para as projeções de desempenho da economia no ano que vem

Após um primeiro semestre atribulado, o cenário que se vislumbra hoje para a economia brasileira em 2026 tem algumas diferenças significativas em relação ao que se via há seis meses, o que deverá ter efeitos não desprezíveis sobre o quadro que se desenha para 2027. Neste ano, o PIB tende a crescer mais do que se imaginava no fim de 2025, avançando perto de 2%, a inflação será mais alta, atingindo um nível um pouco acima de 5%, e os juros deverão ficar perto de 14% ao ano - consideravelmente acima dos 12% a 12,5% projetados em dezembro do ano passado.

As reformas são necessárias, mas falta liderança, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

O Estado é disfuncional: gasta mais do que arrecada; gasta mal; é ineficiente na maior parte de suas políticas

‘Hoje nós temos uma convicção muito grande de que a República está podre. Hoje os Poderes estão contaminados com ineficiência, e isso acaba abalando a confiança da sociedade brasileira na República.’ O diagnóstico, contundente, é de Gilberto Kassab, presidente do PSD. Foi enunciado na semana passada, quando o político assumiu a posição de vice na chapa do ex-governador Ronaldo Caiado, pré-candidato a presidente. Caiado não deixou por menos. Disse que a política brasileira está tomada por práticas de corrupção, negociatas e acordos ilegais e imorais. A imprensa registrou, o mundo político tomou conhecimento... e ficou por isso mesmo.

Saber do país vai além do ‘soft power’, por Preto Zezé

O Globo

Brasil desenvolveu formas originais de organizar pessoas, gerar confiança e resolver problemas complexos

Nos últimos meses, uma cena tem se repetido nas redes sociais. Vídeos sobre o Brasil viralizam em diferentes idiomas. Milhões falam de nossa música, nosso futebol, nossas festas e jeito de viver. Em Bangladesh, a Seleção Brasileira mobiliza uma paixão que atravessa gerações. O funk domina pistas na Europa. O samba continua sendo um idioma universal. Norte e Nordeste passam a ocupar um novo lugar no imaginário global, como territórios de cultura, turismo e inovação.

Mais fuzis do que pás na Venezuela, por Demétrio Magnoli

O Globo

A segurança da camarilha no poder, não o auxílio às vítimas dos terremotos, é a prioridade absoluta do governo

Não faltou ajuda internacional. No socorro às vítimas dos terremotos na Venezuela, engajaram-se 17 países com equipes de resgatistas, especialistas, equipamentos, hospitais de campanha. Mas, diante de tragédias naturais de grandes proporções, nenhuma operação humanitária externa substitui eficientemente os recursos internos. À medida que passavam as horas e os dias, ficou patente o colapso estatal venezuelano.

O regime chavista dilapidou sistematicamente os bens públicos ao longo de anos. Na hora da catástrofe, as vítimas foram deixadas à própria sorte por uma camarilha habituada apenas a roubar e reprimir. Faltou tudo, inclusive combustível, num país que se jacta de possuir as maiores reservas petrolíferas do planeta.

Por que esquecemos em quem votamos? Carlos Pereira

O Estado de S. Paulo

Não é memória curta, mas um sistema eleitoral que torna lembranças pouco relevantes

A pesquisa Datafolha que revelou que 75% dos brasileiros não conseguem citar o nome de um senador e 68% não se lembram de um deputado federal provocou uma enxurrada de diagnósticos pessimistas sobre a democracia brasileira. Para muitos, os números seriam prova do desinteresse dos cidadãos pela política, da baixa qualidade do voto ou da incapacidade do Congresso de se conectar com a sociedade.

Em vez de perguntar por que o eleitor esquece em quem votou, deveríamos perguntar por que o sistema eleitoral lhe daria incentivos para lembrar. A memória política não é apenas uma característica individual. Ela é, em grande medida, produzida pelas instituições.

Os EUA inventaram o presidencialismo, so what? Por Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

Medeiros e Albuquerque viu na abolição brasileira e na Guerra Civil americana os efeitos de dois sistemas de governo

Aos 250 anos, a mais influente invenção institucional americana continua a dividir os estudiosos da democracia

Os Estados Unidos inventaram o presidencialismo e difundiram-no quando o modelo parlamentarista ainda não havia se consolidado na Inglaterra, onde surgiu. Os 250 anos dos EUA servem para perguntar se sua exportação institucional foi uma boa ideia. Tocqueville reverenciou o modelo institucional do país em "A Democracia na América" (1835). Mas a América aqui era a Nova Inglaterra, uma sociedade fortemente igualitária de camponeses livres, não o Sul escravocrata, que mais se parecia com o Brasil.

O Sul, à época, representava apenas 28% da população total dos EUA, e sua população livre, apenas 16%. O Sul permaneceu, assim, um enclave na democracia americana. E a escravidão, o contencioso central da Constituição que, com as dez primeiras emendas (Bill of Rights), é um marco do constitucionalismo moderno. Embora minoritários, os estados do Sul lograram vetar mudanças no status quo na região.

Combinaram de nos matar, por Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

Pretos e pardos representam 86% dos mortos em razão da intervenção policial

Para vergonha nacional, esse é um padrão que se repete

"O Estado tirou o direito de ver meu filho crescer" (Bruna Silva). "Como confunde marmita com revólver"? (Fabiana Hoytil da Silva); "O Estado acabou com a minha vida." (Rosicleide Cruz Bispo de Jesus).

As declarações saíram das bocas de três mulheres que perderam filhos para a violência policial no Brasil nos últimos anos. Além da juventude, Marcus Vinícius da Silva (14), Gabriel Hoytil Araújo (19) e Michel Cruz (21) tinham outro traço em comum: a negritude.

Para vergonha nacional, esse é um padrão que se repete. Os números falam por si e demonstram, ano a ano, que o futuro é um tempo marcado para não se realizar nas vidas de parcela expressiva de brasileiros.

‘I couldn’t care less’, digo eu, por Ruy Castro

O Globo

Em português educado, significa 'Não dou a mínima'; é como Trump se sente sobre Lula e o Brasil

É como também me sinto sobre ter meu visto recusado e não poder voltar a Nova York

Há pouco ("Trump gagá", 18/6), listei uma série de traços recentes da personalidade de Donald Trump —comportamento aloprado, falas sem nexo, cochilar em público e fazer da Casa Branca um puxadinho de Mar-a-Lago—, típicas talvez do stress provocado pelas guerras sem sentido em que ele mete os EUA e das quais não consegue sair. Ou das medidas presidenciais que toma e que, por acaso, multiplicam sua fortuna e a de seus filhos. Enfim, nada de que a própria imprensa americana não fale diariamente.

Poesia | Revolta, de Guimarães Rosa

 

Música | Monica Salmaso - A terceira margem do Rio (Milton Nascimento / Caetano Veloso)

 

domingo, 5 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Alta da dívida no governo Lula é uma aberração

Por O Globo

Previsão é que ela atinja 84% do PIB até o fim do ano, 12 pontos além do nível registrado no início do mandato

No governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, assessores palacianos descrevem os críticos do crescimento galopante da dívida pública como alarmistas histéricos. Afinal, argumentam eles, não é apenas no Brasil que o endividamento tem aumentado. Usando análises e previsões do Fundo Monetário Internacional (FMI), dizem que a alta em todo o terceiro mandato de Lula ficará abaixo da média dos países emergentes e de renda média. Na quinta-feira, o secretário executivo do Ministério da Fazenda, Rogério Ceron, que liderou o Tesouro nos últimos três anos, descreveu o debate como “superficial”. A equipe econômica esquece, porém, a situação sui generis do Brasil. Entre as grandes economias emergentes, o país tem a segunda maior dívida como proporção do PIB, atrás apenas da China. Mesmo que outros países tivessem margem para dever mais, o Brasil já estava no limite antes de o atual governo começar. E só piorou depois.

O mundo Gilead do Bolsonarismo, por Míriam Leitão

O Globo

A fala contra a mulher não é falácia de um fanfarrão para viralizar. Faz parte de um discurso da ultradireita que cresce mundialmente

Não é apenas uma bizarrice de um fanfarrão grosseiro. É um movimento perigoso pela eliminação do direito do voto da mulher que tem crescido na extrema direita. Há projetos que restringem as garantias civis das mulheres. Eles estão falando sério, por mais que pareça escalafobético. Algumas propostas avançam. Sim, a extrema direita gostaria de impor a nós esta ruína civilizatória.

O que Paulo Figueiredo disse não deve ser entendido como uma grosseria individual e fortuita. Não é apenas uma “treta” condenada a desaparecer quando algo mais absurdo viralizar. Na verdade, falou por uma corrente de pensamento que acredita na inferioridade da mulher.

Uma nova barreira entre Flávio Bolsonaro e o voto feminino, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Ao dizer que 'mulher vota mal pra c...', neto de ditador escancarou o que a turma pensa

No dia em que Michelle Bolsonaro assumiu a presidência do PL Mulher, os homens é que dominaram o microfone. O primeiro a discursar foi Jair Bolsonaro. Depois falaram mais quatro engravatados: Valdemar Costa Neto, Altineu Côrtes, Jorginho Mello e Magno Malta.

Em participação por vídeo, o capitão exaltou o crescimento do partido, mas ignorou os temas femininos. Valdemar leu uma longa nominata, e Côrtes cometeu uma gafe ao apresentar a mulher de um deputado gaúcho como sua filha.

Sem medo de soar machista, Jorginho se queixou do “sacrifício” e do “sofrimento” de ter que encontrar nomes para preencher a cota de 30% de candidaturas femininas. “Nós precisamos aumentar essa chorumela de que sempre falta mulher para disputarem” (sic), afirmou.

Dublê de pastor e senador, Malta aproveitou o evento para provocar a comunidade trans. “Mulher é mais forte porque nasceu com uma peça a mais. Mulher tem útero”, bradou, antes de dizer que a distinção não poderia ser superada “nem com cirurgia nem com ideologia”.

Freud explica, por Merval Pereira

O Globo

Casos de corrupção no Brasil repetem comportamentos anteriores de outros casos, como o mensalão, o petrolão, relatados na Operação Lava-Jato e, agora, nesse escândalo do banco Master.

Sempre me causou espanto os casos de criminosos que guardam provas contra si que acabam sendo descobertas pela Polícia, algumas antigas que resolvem questões atuais. Refiro-me especialmente aos casos de corrupção no Brasil, que repetem comportamentos anteriores de outros casos, como o mensalão, o petrolão, relatados na Operação Lava-Jato e, agora, nesse escândalo do banco Master. Mesmo sem a abrangência dos casos de repercussão nacional, os acontecidos recentemente no Rio de Janeiro são provas disso. Foi encontrada na mesinha de cabeceira de um bicheiro a lista de políticos que ele subornava, com as quantias devidas.

Casa Branca vira máquina de fazer dinheiro, por Dorrit Harazim

O Globo

Capítulo das finanças público-privadas da era Trump compõe um dos retratos mais vergonhosos dos 250 anos de independência da nação americana

Tem uma ponte no meio do caminho. No meio do caminho entre Detroit, no estado americano de Michigan, e Windsor, na província canadense de Ontário, tem uma ponte. Ou melhor, tem duas.

Uma delas está estalando de nova, aguardando inauguração. É a maior ponte estaiada da América do Norte, projetada para durar mais de cem anos. Tem 2,5km de comprimento, seis faixas para tráfego transfronteiriço, uma infraestrutura aduaneira ultramoderna e um caminho multiúso de 3,5m de largura, seguro e aprazível, para pedestres e ciclistas. Integralmente financiada pelo governo do Canadá (US$ 5 bilhões), terá pedágio com receita dividida entre o país vizinho e Michigan.

Benjamin Franklin perdeu a vez, por Elio Gaspari

O Globo

Declaração da Independência dos Estados Unidos da América completou 250 anos no sábado

Ontem, há 250 anos, o Ocidente começou a percorrer uma de suas maiores mudanças. Reunidos na pequena cidade de Filadélfia (menos de 40 mil habitantes, como o Rio, enquanto Beijing tinha 1 milhão), representantes das 13 colônias inglesas da América do Norte assinaram a Declaração da Independência de um país que viria a se chamar Estados Unidos da América. Naqueles dias, não sabiam quantos eram, como ganhavam a vida, nem se poderiam ser autossuficientes. Eram mais ricos, mais altos que os europeus (de 5 a 8 centímetros) e mais férteis.

Hoje esse é um texto sacralizado, mas só começou a ser festejado depois de 1812.

Mais de 20 anos depois, em 1789, um volume com uma coletânea de documentos dos “americanos ingleses” foi encontrado com o alferes Joaquim José da Silva Xavier e encorpou as provas da militância sediciosa que levaria Tiradentes ao patíbulo.

Uma história do jazz, a decadência da política e a blindagem eleitoral, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Poucos cidadãos sabem citar o nome de um parlamentar, há um profundo divórcio entre representantes e representados. Mas as emendas garantem a reeleição

No fim dos anos 50, Dale Turner, um saxofonista negro americano, toca todas as noites no Blue Note, em Saint-Germain. É um alcoólatra. Basta que escape à vigilância dos amigos e ele vai parar no hospital. Como é comum nesses casos, num determinado momento entra em colapso. Francis, apaixonado admirador do músico de vanguarda, assume plena responsabilidade sobre ele e Dale aos poucos volta a tocar. Mas as raízes, a sua solidão e seus medos o levam de volta a Nova York, onde morre.

As contas e a ‘reputação ilibada’, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Na Câmara, Jhonatan de Jesus desviava emendas e, no TCU, defende o Master. Alguma surpresa?

O sr. Jhonatan de Jesus é um exemplo pronto e acabado do derretimento das instituições no Brasil e provoca uma pergunta que já embute a resposta: como é possível esse cidadão virar ministro, justamente, do Tribunal de Contas da União (TCU)?

Ninguém fora do Congresso sabia quem ele era, até virar relator do processo no TCU sobre a liquidação do Banco Master e atuar descaradamente a favor dos interesses de Daniel Vorcaro e contra o Banco Central. O que, aliás, pode ser tudo, menos surpresa. Basta dar uma olhada nos seus mandatos na Câmara dos Deputados.

Trump e a apropriação de um marco, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

O aniversário da independência dos Estados Unidos costumava ser um momento de refletir sobre o destino comum dos americanos, acima das disputas políticas e diferenças culturais, que sempre existiram. Mas este 4 de Julho prova que os americanos não são mais capazes de fazer qualquer coisa de alcance nacional acima dessas divisões.

As celebrações foram inteiramente truncadas pelo ímpeto do presidente Donald Trump de vinculá-las à sua figura pessoal e pela frustração e resistência dos americanos em face desse propósito.

Quando a organização do Freedom 250 anunciou em maio a primeira leva de nove artistas para a série de shows da Great American State Fair, no National Mall, cinco deles desistiram em menos de 48 horas, e outros cancelaram em seguida. A justificativa: a percepção de que não seria uma celebração do país, mas de Trump.

• Promessa difícil de cumprir, por Ricardo Della Coletta

Folha de S. Paulo

O problema de enviar um documento ao governo dos EUA com promessas é que, mais cedo do que tarde, elas serão cobradas

Libertar o Brasil das 'amarras do Mercosul' é mais difícil do que o senador sugere no texto enviado ao governo Trump

Se for eleito presidente, Flávio Bolsonaro perceberá que o problema de enviar um documento ao governo dos EUA com uma série de promessas é que, mais cedo do que tarde, elas serão cobradas.

Não foram poucas as promessas (ou paths to remediation) que Flávio listou no texto endereçado ao USTR —o Escritório do Representante de Comércio dos EUA— no qual argumenta que o tarifaço beneficia Lula e sugere o adiamento de qualquer medida contra o Brasil para depois das eleições.

Entre elas, uma desperta sensação de déjà vu: libertar o Brasil das "amarras do Mercosul".

Por que não dizer que o escândalo do Master é de direita? Por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

A grande mídia tem medo de ser chamada de esquerdista

Não é mais questão de saber que direitista está envolvido, mas de saber qual não está

Como teria sido uma boa cobertura de mídia sobre o escândalo Master?

A resposta óbvia é: teria mostrado a absoluta predominância de direitistas entre os envolvidos. Por qualquer critério que se queira adotar: o número de envolvidos, o total de dinheiro desviado para o Master por cada lado, o total de dinheiro recebido do Master por cada lado, a importância dos envolvidos dentro de seu próprio campo, o quanto cada lado de fato fez para salvar o Master.

E teria deixado claro: esses são os dados até agora. Se outros dados aparecerem, revisaremos nosso diagnóstico.

Não foi isso que aconteceu.

Como dar sentido ao mundo, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Livro traz dicas para interpretar melhor as estatísticas com que somos bombardeados

Autor é didático e critica pontos fracos da ciência, como baixa reprodutibilidade de experimentos

Tim Harford consegue transformar conceitos difíceis da economia em best-sellers. Seu livro "O Economista Clandestino" vendeu mais de 1 milhão de exemplares no mundo todo, o que não acontece todo dia com obras de divulgação científica.

"How to Make the World Add Up" vai na mesma linha, mas tentando tornar a estatística, mais especificamente as toneladas de dados a que somos submetidos diariamente ao ler um jornal, por exemplo, em algo mais inteligível.

O populismo virou endemia, por Vinicius Mota

Folha de S. Paulo

Direita demagógica sofreu desgaste e trocou virulência por persistência

Excesso de vetos a poderes eleitos e desrespeito à ética republicana nutrem aventureiros

O Sars-Cov 2 já não é mais aquele. Esse coronavírus teve caminho livre para se espalhar na velocidade dos contatos pessoais quando adquiriu a capacidade de ser transmitido entre humanos, no final de 2019. Fez estragos e cadáveres aos montes por uns dois anos até acomodar-se às nossas defesas imunológicas, elas mesmas fortalecidas por anticorpos ativados pelas vacinas e pelas ondas sucessivas de infecção.

De terrível novidade converteu-se num conviva habitual e incômodo. De epidemia virou endemia. Ficará por aí pelos próximos séculos, quiçá milênios, como parte da história natural.

Dá para arriscar que algo similar se passou com o novo populismo global, guardadas as especificidades da política. Há dez anos os vapores de rebeldia que se acumulavam em várias nações democráticas rebentaram no Reino Unido, na façanha do Brexit. A seguir um improvável canastrão atropelou a oligarquia do Partido Republicano e ganhou a indicação e a eleição para presidente dos Estados Unidos.

As favas mal contadas, por Muniz Sodré*

Folha de S. Paulo

Uma mesma ilusão de banda podre, na verdade, desprezo de escrúpulos justificados, matéria-prima do pior

Morte moral deu passe livre às perseguições, cassações, torturas e assassinatos que recrudesceram com o AI-5

Do instante da assinatura do Ato Institucional-5 (que passou a legislar por conta própria em 1968, consolidando o golpe militar), ficou marcada na memória social a frase do coronel Jarbas Passarinho: "Às favas os escrúpulos". Meio século depois, essa peça de amoralidade foi incorporada pelo Congresso, ampliando o escopo dos escrúpulos na direção de algo como "às favas o Brasil".

O colunismo social que ilustra o Brasil podre, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Crime financeiro, corruptos, facções ou celebridades se misturam na fofoca das redes

O país parece não se revoltar com a infiltração do crime 'comum' por toda parte

O ex-deputado estadual TH Joias, do Rio, está preso por ser acusado de prestar serviços ao Comando Vermelho etc. Também vendia joias caras a jogadores de futebol, influenciadores e pessoas da música, algumas acusadas de confraternizar com PCC e CV.

Celebridades propagandeiam "bets", essa desgraça. Famosos de internet se enrolaram com "bets", ilegais ou legais, ou foram presos por suspeita de lavar dinheiro para facções, como Deolane Bezerra, com mais de 20 milhões de seguidores no Instagram.

Poesia | Vinícius de Morais - O Haver

 

Música | Chico Buarque - "A Bela e a Fera

 

sábado, 4 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Funcionários fantasmas no Rio são um acinte

Por O Globo

É chocante que um a cada três em cargo comissionado recebesse sem trabalhar. Alerta serve a todo o país

São estarrecedores os resultados da auditoria na folha do funcionalismo determinada pelo governador interino do Rio, Ricardo Couto. Praticamente um em cada três funcionários em cargo comissionado no estado — aqueles que devem seu emprego a uma indicação política — recebia sem trabalhar. Constatou-se, ainda, que a prática de pagar salário a quem nem aparece no trabalho, os proverbiais fantasmas, se estendia a todos os 77 órgãos da administração fluminense. É um acinte para o cidadão que trabalha arduamente para pagar suas contas em dia. E um alerta para todo o país.

Luta pelo poder corrói bolsonarismo por dentro, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Ataques de Michelle Bolsonaro deixam o filho 01 sem ação

Ex-primeira-dama dá a entender que conhece os segredos mais bem guardados do enteado

A menos de cem dias das eleições, o poder destrutivo da ex-primeira-dama Michelle se mostra maior que as defesas do filho 01. Este, embora mantenha o ar de arrogância, está acuado, quase a ponto de desmaiar, sem respostas para a crise que ameaça a candidatura presidencial. O objetivo da guerra, que vai corroendo o bolsonarismo por dentro, é assegurar a liderança da extrema direita no país. Nem que para isso seja preciso um familicídio.

O que quer Alcolumbre para tirar a PEC 6x1 da geladeira? Por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Presidente do Senado barganha proposta do fim da 6x1 para garantir sobrevivência

Sinalização de que congressista vai deixar tema para depois das eleições anima setores empresariais contrários à PEC, que querem mais tempo para negociar mudanças após o pleito de outubro

Os empresários dos principais setores da economia contrários à votação da PEC do fim da escala 6x1 com bom trânsito no Senado estavam certos ao confiar que Davi Alcolumbre iria segurar a votação.

Antes da aprovação na Câmara essa era a única esperança que restava a eles, em meio ao barulho nas redes pela aprovação do texto e à adesão maciça dos deputados à proposta.

O melhor negócio do mundo, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Primeiro ano de segundo mandato presidencial rendeu a Trump US$ 2,2 bilhões

Conflitos de interesses se multiplicam e erodem confiança em políticos e instituições

Tornar-se presidente dos EUA é um bom negócio. Donald Trump obteve uma renda de US$ 2,2 bilhões em 2025, seu primeiro ano de segundo mandato presidencial. A maior parte do próspero ano trumpiano, US$ 1,4 bilhão, vem de criptomoedas, um mercado em que ele atuou como investidor e regulador. Mesmo que não haja delito aí, é um caso de conflito de interesses.

Analfabetismo digital, por Flávia Oliveira

O Globo

Os mais velhos passam a depender de familiares, amigos, vizinhos

O jornalista, escritor e imortal Ruy Castro comprou, semanas atrás, a briga em que, agora, me incluo. A digitalização galopante, não só de notícias e relações sociais, mas de serviços financeiros, comércio e até das políticas públicas, está isolando os idosos. Nesta semana, o IBGE informou que, no ano passado, 95% dos lares e nove em cada dez brasileiros contavam com acesso à internet. A proporção alcança o teto de 95%-96% nas faixas etárias entre 20 e 49 anos; entre os maiores de 60 anos cai para 74,5%. Desde 2016, triplicou o percentual de idosos acessando a web, mas dois terços dos que estão fora do mundo virtual alegam desconhecimento. A falta de letramento digital é a nova face do analfabetismo.

A insustentável leveza das autocracias, por Bolívar Lamounier*

O Estado de S. Paulo

Países que não têm uma Constituição respeitada e em que a violência e o tráfico de drogas tenham rédea solta dificilmente se reconstituem de forma ordeira

Donald Trump não é o primeiro nem será o último autocrata empenhado em dominar o mundo.

Desde a Antiguidade, incontáveis construtores de impérios, geralmente agindo com extrema violência, tiveram tal ambição. De Alexandre o Grande (século 4 a. C.) a Átila (século V d.C.), o “rei dos hunos”, a quem é atribuída a frase “a erva não voltará a crescer onde minha cavalaria houver passado”, a estirpe é extensa. A diferença entre Donald Trump e os “bárbaros” da Antiguidade não reside, pois, só na diplomacia do “murro na mesa”, nem na riqueza e outros traços do presidente norteamericano. Reside, desde logo, no fato de haver encontrado um adversário feito sob medida, o Irã. A teocracia iraniana não é um caudilho individual, mas é um Estado. Teerã pleiteia, com uma mão, o controle exclusivo sobre Ormuz, uma estreita passagem de mar por onde transita 20% do petróleo de que o mundo necessita e, com a outra, uma enorme capacidade bélica, inclusive uma formidável quantidade de urânio enriquecido quase até o ponto necessário para fabricar armas nucleares. Entre Teerã e Trump, para onde vão as simpatias? Escolha difícil, não? Assim, Trump retém um nível de apoio e consegue aliados políticos (assunto tratado abaixo) que dificilmente obteria sem o confronto com os aiatolás, que, no fim das contas, lhe é benéfico.

Ponderação de valores na internet, por Miguel Reale Júnior*

O Estado de S. Paulo

Penso ter-se encontrado justa medida na forma de proteger a dignidade da pessoa humana ao se dar meio de enfrentar publicações lesivas a valores essenciais

A internet constitui enorme veículo de transmissão de opiniões, permitindo a manifestação da imensa maioria de pessoas antes destituídas de meio revelador de suas impressões. “L’uomo qualunque” encontrou o caixote no qual sobe para dizer ao mundo o que acha disto ou daquilo.

Se há o benefício da democratização da comunicação, por outro lado, abre-se uma imensa porta para se lançarem opiniões, revelações, fabulações e criações de imagem que têm potencialidade para ofender valores imprescindíveis à sadia convivência social e à tranquilidade pessoal.

O que não será investigado, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

As relações de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro serão – têm de ser – investigadas. As condições estão postas, designado já o relator, André Mendonça, que agora espera a manifestação da PGR. Vai andar. Aquele troço cheira mal, configurado o padrão vorcárico – investidor dedicado na advocacia, no cinema e na hotelaria nacionais – para o fazimento de amizades: a constituição do que parecem fachadas, no Brasil e nos EUA, para a remessa e o recebimento dos milhões de dólares. Foram os dinheiros do banqueiro integralmente destinados à produção do filme Dark Horse?

Com as apurações acerca dos fluxos entre os Bolsonaro e a rede vorcárica tendo afinal trilhos formais sobre os quais avançar, uma questão se impõe: qual será hoje a única porção do escândalo Master – dos trânsitos de Vorcaro e seus zetteis pelos Poderes da República – sem qualquer encaminhamento para que haja investigação? Aquela relativa a ministros do STF.

Tragédia grega, por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

A questão que desune Michelle e Flávio, ambos bolsonaros, não é política. É pessoal. Quando a política se mistura com questões familiares, os dois lados perdem

A disputa pública por espaço que envolve filho e madrasta configura uma tragédia grega. Desde tempos remotos, a controvérsia não costuma terminar bem. Um dos lados vai sofrer agora ou no futuro. E as consequências, na maioria das vezes, não beneficiam ninguém. É drama sobre drama. Mágoas, rancores e ciúmes só podem ser resolvidos com muitos anos de psicanálise conduzida por profissional qualificado. A questão que desune Michelle e Flávio, ambos bolsonaros, não é política. É pessoal. Quando a política se mistura com questões familiares, os dois lados perdem.

O bolsonarismo depende das mulheres, por Juliana Diniz*

O Povo (CE)

O caso de Michelle Bolsonaro se torna ainda mais paradigmático porque a ex-primeira-dama ocupa um cenário permeado por escândalos de corrupção e de relações pouco republicanas dos enteados com nomes presentes nas páginas policiais

Uma semana de rupturas importantes no campo da Direita brasileira. Michelle Bolsonaro deixou a liderança do PL Mulher e expôs a falta de acomodação entre seus interesses e os objetivos do grupo capitaneado pelo enteado, Flávio Bolsonaro. Caso persista, o cisma entre os grupos pode representar um desafio estratégico à candidatura bolsonarista, dada a possível rejeição de uma parcela do eleitorado feminino conservador ao nome do filho do ex-presidente.