segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Desordem promovida por Trump enche o Brasil de dólares

Por Folha de S. Paulo

Até 21 de janeiro, estrangeiros injetaram R$ 12,35 bi na Bolsa brasileira, 46% do total de 2025

Republicano alimenta insegurança; Brasil, grande exportador de petróleo, minério de ferro e produtos agrícolas, beneficia-se diretamente

A política "America First" (em primeiro lugar) de Donald Trump, que prometia fortalecer os EUA, tem se revelado, paradoxalmente, "America Last" (por último) no universo dos ativos financeiros.
Enquanto Wall Street oscila neste início de ano em meio a incertezas, a Bolsa brasileira vive dias efervescentes, com entrada maciça de capital estrangeiro.

Até 21 de janeiro, investidores não residentes injetaram R$ 12,35 bilhões na B3, quase a metade do total aportado em todo o ano de 2025 (R$ 26,87 bilhões). Com esse impulso, o Ibovespa já subiu mais de 9% neste mês, superando S&P 500, Nasdaq e mesmo o índice de emergentes. Entre os principais mercados, é o americano que fica para trás.

Entrevista | Suspeitas podem ‘lançar sombra’ sobre o STF, diz Vilhena

Por Lillian Venturini / Valor Econômico

Jurista avalia que retorno do caso Master à 1ª instância diminuiria pressão, mas investigação e código de conduta são necessários

O retorno do caso Master para a primeira instância do Judiciário poderia tirar do foco o Supremo Tribunal Federal (STF), hoje pressionado diante dos questionamentos sobre a atuação do ministro Dias Toffoli na condução do processo. As suspeitas de irregularidades, no entanto, ainda exigirão uma resposta institucional, sob risco de abalar a imagem da Corte, avalia Oscar Vilhena Vieira, professor da FGV Direito SP.

“As notícias sobre eventuais conflitos de interesse precisam ser apuradas sob o risco de se lançar uma sombra sobre o próprio tribunal”, diz o jurista, em entrevista ao Valor.

Vilhena integra uma comissão organizada pela OAB-SP para elaborar uma proposta de reforma do Judiciário. O episódio, acrescenta, reforça a importância de um código de ética para os magistrados, defendido pelo presidente do Supremo, ministro Edson Fachin. Na Corte, no entanto, há resistência à ideia.

Para o professor, a transparência será fundamental para dar as respostas necessárias ao episódio. “O caso trouxe luz a um problema enorme e vamos ter que enfrentar esse problema”, afirma.

A presença de ministros do Supremo na teia de relações do comando do banco é um dos problemas. A menção ao nome do deputado João Carlos Bacelar (PL-BA) no inquérito justificou a transferência do processo da Justiça Federal do Distrito Federal para o STF. Pouco após assumir a relatoria, Toffoli impôs sigilo severo ao caso, em dezembro.

Naquele mês, o jornal O Globo revelou uma viagem internacional feita pelo ministro em um jatinho particular em que também estava um dos advogados do Master. O jornal também mostrou que o escritório de advocacia da esposa de Alexandre de Moraes tinha um contrato de R$ 129 milhões com o banco. Moraes não atua na investigação.

Nas últimas semanas, reportagens mostraram a existência de transações financeiras entre irmãos de Toffoli e fundos de investimento ligados ao Master e investigados por suspeita de envolvimento com uma organização criminosa.

A sucessão de fatos novos aumentou a pressão para que o ministro deixe o caso. Em nota divulgada na sexta-feira por seu gabinete, Toffoli disse que atua de forma regular. Edson Fachin também defendeu o colega, mas acrescentou que eventuais irregularidades serão investigadas. Nos bastidores, discute-se a devolução da investigação para a primeira instância.

A seguir os principais pontos da entrevista ao Valor:

Flávio tem desafio de falar ‘além da bolha’. Por Joelmir Tavares

Valor Econômico

Filho de Bolsonaro amplia diálogo para tentar consolidar candidatura após recuo de Tarcísio

A pré-candidatura à Presidência do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tem como principal desafio, no momento, abrir caminho em setores que o rejeitam e dialogar “além da bolha bolsonarista” para se consolidar no cenário eleitoral, segundo a avaliação de entusiastas da campanha e aliados que pressionam o senador por movimentos de ampliação.

Lançada em dezembro com o aval do ex-presidente Jair Bolsonaro - que está preso por tentativa de golpe de Estado -, a pré-candidatura se concentrará nas próximas semanas em contornar resistências e se firmar como alternativa competitiva da oposição ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que deve tentar a reeleição em outubro pelo PT.

A melhor ferramenta de compliance é a cadeia. Por Bruno Carazza

Valor Econômico

Enquanto fraudadores do sistema financeiro não passarem longas temporadas na prisão, compliance não deixará de ser conversa para boi dormir

Em 13/07/2001 a gigante de energia Enron divulgou um crescimento de 40% no lucro líquido, com as receitas quase triplicando e chegando a US$ 50 bilhões em 12 meses.

Três meses depois veio a público que a empresa escondera bilhões em prejuízos e dívidas de seus balanços usando operações por uma rede de dezenas de sociedades de propósito específico.

Em poucos dias suas ações viraram pó, o que levou a Enron a entrar com um pedido de falência em 2/12/2001. Pior para os acionistas, que alegaram uma perda de patrimônio de US$ 40 bilhões na época.

Signos sem significado. Por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Os analfabetos veem um texto como uma sequência de símbolos cuja ordem não lhes diz nada

O momento em que se aprende a ler talvez seja, mais que um segundo parto, o real ingresso no mundo

Alguém me falou de um anúncio institucional que a Unesco publicou há tempos para uma campanha pela alfabetização. Consistia de uma frase escrita de trás para a frente —ideia talvez tirada de "Alice Através do Espelho" (1871), o livro de Lewis Carroll em que, por estar "do lado de lá" do espelho, Alice vê tudo ao contrário, inclusive um poema num livro sobre a mesa. É como um analfabeto vê um texto —uma sequência de símbolos cuja ordem não lhe quer dizer nada. Alice resolve o problema botando o poema diante de um espelho. O mundo, no entanto, exige mais: a alfabetização em massa.

Trump e o doux commerce: interdependência, populismo e erosão das regras. Por Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

A teia densificada pela globalização financeira e pelas cadeias produtivas transnacionais pode domesticar o presidente americano?

Sob o americano há uma inversão do padrão clássico de captura do Estado por interesses privados; mas não no Brasil

"Onde os costumes são gentis, há comércio; e onde há comércio, os costumes tornam-se gentis." A máxima de Montesquieu forneceu o mote para a análise de Albert Hirschman em "As Paixões e os Interesses": o comércio é "suave" (doux), civiliza os indivíduos e atenua paixões violentas —guerra, fanatismo, tirania. Ao criar laços e dependências recíprocas, os interesses econômicos substituem a violência por troca, contrato e cálculo, promovendo ordem e paz.

Donald Trump e a hegemonia predatória dos Estados Unidos. Por Roberto Goulart Menezes

Correio Braziliense

Em um ano de governo, Trump tenta impor dominação sobre o mundo e abandona o difícil exercício da hegemonia que foi o que fez dos EUA uma potência mundial

Donald Trump completou um ano do seu mandato à frente da maior potência mundial. E, desde o início da sua presidência, em janeiro de 2025, as políticas externa e comercial dos Estados Unidos têm sido marcadas pela agressividade e pelo unilateralismo. Em seu discurso de mais de uma hora proferido no Fórum Econômico Mundial (Davos, Suíça), em 21 de janeiro, o presidente Trump fez um balanço do seu primeiro ano e discorreu sobre a sua política externa. A plateia, em sua maioria composta por magnatas das finanças, da indústria, das big-techs entre outros, juntamente com a presença de alguns chefes de Estado e de governo de diferentes países, ouviu um discurso sem rodeios, no qual Trump tocou em questões geopolíticas bem delicadas, a começar pela relação com os seus aliados europeus.

Master e o foro privilegiado. Por Diogo Schelp

O Estado de S. Paulo

O caso começou a gerar atritos entre instituições federais após Toffoli ‘puxar’ as apurações ao STF

A encrenca do Banco Master, que transbordou das editorias de Economia para as páginas policiais e de Política, reforça a necessidade de se retomar a discussão sobre a aplicação e a abrangência do foro por prerrogativa de função. O caso de fraude financeira começou a gerar atritos entre instituições federais depois que o ministro Dias Toffoli “puxou” as investigações para o Supremo Tribunal Federal (STF), sob a alegação de que os documentos citavam uma transação imobiliária entre o deputado federal João Carlos Bacelar (PL-BA) e Daniel Vorcaro, dono do banco. O negócio, que nem sequer foi concretizado, não parece ter relação direta com as fraudes sob investigação.

Mundo tem de rever suas dependências. Por Oliver Stuenkel

O Estado de S. Paulo

Imprevisibilidade de Trump obriga países a reduzir dependência em relação aos Estados Unidos

A atuação errática de Donald Trump produziu um efeito que vai muito além de disputas comerciais pontuais: governos ao redor do mundo estão sendo forçados a repensar o grau de dependência que mantêm em relação aos Estados Unidos. Governos europeus, latino-americanos e asiáticos, principalmente, discutem como reduzir vulnerabilidades estratégicas diante de um parceiro cada vez mais imprevisível. O caso da Alemanha, um dos países mais dependentes de Washington, é especialmente instrutivo – inclusive para o Brasil.

Trump. Por Denis L. Rosenfield

O Estado de S. Paulo

Com a nova doutrina Trump, alicerçada na força militar, na potência econômica e na diplomacia, a reconfiguração mundial alcança um novo patamar

O mundo geopolítico, tal como o conhecemos desde a 2.ª Guerra Mundial, ruiu. Estamos observando seu desmoronamento, com as instituições que o alicerçavam sendo abaladas em seus fundamentos. De nada adianta recorrer ao “Direito Internacional”, como se fosse algo perene. O próprio conceito de Direito Internacional torna-se problemático, visto que está embasado no acordo entre Estados que assim estabelecem relações jurídicas. Depende da adesão das partes signatárias a tal tipo de contrato, cessando se Estados importantes, tipo grandes potências, se retirarem do acordado.

Desigualdade vira fetiche no debate público. Por Irapuã Santana

O Globo

A ciência nos mostra que o bem-estar psicológico de um país não se conquista apenas achatando o topo da pirâmide

Durante as últimas duas décadas, consolidou-se no debate público uma espécie de dogma inquestionável: a ideia de que a desigualdade econômica é uma “toxina social” que adoece a mente das populações. De editoriais a discursos políticos, a narrativa era que o abismo entre ricos e pobres seria causa direta da depressão, da ansiedade e da erosão do bem-estar. No entanto um estudo recente publicado na revista Nature, por Nicolas Sommet e sua equipe, acaba de pôr em xeque essa crença.

O trabalho é uma síntese estatística de grandes proporções, que analisou 168 estudos abrangendo mais de 11 milhões de pessoas em 38 mil unidades geográficas. Os pesquisadores concluíram que a desigualdade de renda, isoladamente, não tem efeito significativo sobre o bem-estar ou a saúde mental.

Quem desmoraliza o STF? Por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Quem mais tem a explicar é o próprio Dias Toffoli. Mas cabe ao Supremo analisar o comportamento de seus ministros

O presidente do STF, Edson Fachin, gastou quatro parágrafos para descrever as funções do Banco Central, da Polícia Federal, da Procuradoria-Geral da República e do próprio Supremo. O resumo desse trecho da nota divulgada pelo ministro na semana passada é o seguinte: o BC cuida do sistema financeiro, a PF é “indispensável” na apuração de crimes, a PGR denuncia, e o STF garante a Constituição.

Óbvio, não é mesmo? Nas bem traçadas linhas, o sistema parece uma máquina em funcionamento harmônico, com todos cumprindo suas funções constitucionais de modo exemplar, incluindo o ministro Dias Toffoli.

O carro usado de Toffoli. Por Miguel de Almeida

O Globo

Ele nunca desfrutou os momentos heroicos protagonizados por Xandão

Por vezes, no meu travesseiro, sou atormentado pela dúvida: no mercado, qual seria o deságio para desembaraçar os produtos vendidos por Toffoli? É do jogo: quando seu nome perde confiança, nada o salva. O ostracismo de Toffoli encontra na fase complicada de Xandão um ombro amigo. Os dois se protegem mutuamente e trocam passes. Mas Toffoli nunca desfrutou os momentos heroicos protagonizados por Xandão. Longe disso: sempre foi visto como um encostado do PT, premiado pela amizade com José Dirceu e por serviços prestados ao partido. Sem brilho intelectual ou de retórica. Como seu time do coração, o Palmeiras, não tem o Mundial entre as sumidades do Direito.

Poesia | Não há amor feliz ("Il n'y a pas d'amour heureux”), de Louis Aragon

Nada é definitivo na vida de um homem
Nem a sua força nem a sua fragilidade nem o seu coração
Quando acredita abrir os braços num abraço
A sombra é a de uma cruz
Quando acredita agarrar a felicidade descobre uma ferida
A vida é um estranho e doloroso divórcio

Não há amor feliz

A  vida é um soldado sem armas
Fardado para outros destinos
De pouco serve acordar cedo
Quando ao fim da tarde se é assaltado pelas incertezas
E dizer as palavras Minha Vida para calar as lágrimas

Não há amor feliz

Música | Roberta Sá - A Rosa (Chico Buarque)

 

domingo, 25 de janeiro de 2026

Opinião do dia - Oscar Vilhena Vieira*

“Impossível assistir a esses filmes sem pensar num Brasil que parece incapaz de superar um profundo mal-entendido com a lei. Mal-entendido que transcende os períodos autoritários. Que se encontra enraizado nas relações cotidianas e no modo como são operadas nossas instituições, por meio do "familismo", exposto por Oliveira Vianna, da perversa "cordialidade", descrita por Sérgio Buarque de Hollanda, do "patrimonialismo", de Raymundo Faoro, do "você sabe com quem está falando?", de Roberto da Matta, ou da "grande conciliação", de Michel Debrun. São espectros que não nos abandonam, escancarando uma indisposição de acatar a lei como regra geral.

É paradoxal que num país em que a imensa maioria da população acorda cedo para trabalhar e cumprir suas obrigações sobreviva uma cultura tão forte e arraigada de descumprimento da lei e desrespeito aos direitos mais elementares.

Que as Eunices e Sebastianas nos deem forças para continuar lutando por justiça e por um país melhor.”

*Oscar Vilhena Vieira, do artigo “Um país à margem da lei” Folha de S. Paulo, ontem, 24/01/2026.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Abusos no litoral refletem desprezo pelo turismo

Por O Globo

Se país quer ser potência do setor, precisa tratar civilizadamente quem vai às praias, e não tentar espoliar

A agressão a dois turistas às vésperas do Ano Novo em Porto de Galinhas, litoral de Pernambuco, chamou a atenção para a desordem e para os abusos que afligem a costa do país. Eles haviam se recusado a pagar pelo aluguel de cadeiras de praia e guarda-sol além do combinado. Diante da repercussão, a prefeitura interditou a barraca, multou os responsáveis e proibiu a cobrança de consumo mínimo. Medidas similares de controle já foram tomadas pelas prefeituras de Salvador e Maraú (BA), Guarujá e Santos (SP) e também Rio e Niterói (RJ). A Secretaria Nacional do Consumidor anunciou um manual de boas práticas para vendedores e banhistas e prometeu uma nota técnica voltada à fiscalização.

De volta às veias abertas? Por Luiz Sérgio Henriques

O Estado de S. Paulo

Sintomático, em todo este contexto, o pressuposto de que em nosso tempo a unidade política fundamental é – deve ser – o Estado-nação

Como em toda época de terremoto social, o mundo está de ponta-cabeça. Ninguém, nem mesmo os adversários mais encarniçados de Donald Trump, pode mais lhe negar o caráter rupturista, especialmente neste segundo mandato, vivido por toda parte como tumulto e imprevisibilidade. O experimento “iliberal”, neologismo criado na Hungria de Viktor Orbán, em 2014, para marcar a dissociação autoritária entre democracia e liberalismo, instalou-se de vez no coração do sistema, e daí se espalha agressivamente por todo o Hemisfério Ocidental. Descontada a imprevisibilidade indecorosa dos mapas, é neste hemisfério que estamos politicamente situados – as Américas no seu conjunto e, talvez, a Europa.

Líderes se acovardam em Davos. Por Dorrit Harazim

O Globo

Trump empilhou insultos, amontoou dados fantasiosos, fez exercício de autoglorificação e recorreu a ameaças pouco veladas

Davos 2026 foi um espetáculo pouco virtuoso. À exceção do primeiro-ministro canadense, Mark Carney, que emergiu de lá com aura de estadista por fazer uso decente da palavra e respeitar a História, as demais lideranças pareceram figurantes deprimidos e deprimentes. O mundo que conheciam, e onde circulavam com mediocridade altiva, acabou. E o mundo à sua frente, moldado pelos instintos de um homem só — Donald Trump —, lhes reserva futuro inglório se teimarem em se acomodar nele para não perder poderes diminuídos.

O fim da Vestfália, a exumação de Augusto e o Conselho da Paz de Trump. Por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

A mensagem é “se a ONU não funciona, eu funciono”. E o mundo pode ser tentado a aceitar a promessa de eficácia como substituto de legitimidade

A criação do “Conselho da Paz” por Donald Trump, com pretensão de gerir conflitos e “reconstruir Gaza”, à primeira vista, parece uma excentricidade, que mistura marketing e voluntarismo autoritário. Entretanto, revela algo mais profundo: a substituição do sistema internacional historicamente moldado desde a Paz de Vestfália, que inspirou a criação da Organização das Nações Unidas (ONU) no imediato pós-guerra, por uma gramática de poder antiga e brutal, que nos remete à Roma de Augusto. Ou seja, o mundo da soberania e do equilíbrio pelo da tutela e da hierarquia, com fora a Pax Romana como ordem imperial.

Os vários tentáculos. Por Merval Pereira

O Globo

Na volta do Congresso vamos ter muitas razões para debates de impeachment de ministros, porque, se o processo continuar no STF, vai gerar novos problemas e as revelações seguirão.

Quando, em sua desastrada nota oficial em que chancela as decisões arbitrárias, e até mesmo ilegais, do ministro Dias Toffoli no caso Master, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) Edson Fachin afirma que “a História é implacável com aqueles que tentam destruir instituições para proteger interesses escusos ou projetos de poder, e o STF não permitirá que isso aconteça.”. O ato falho do ministro revela o quanto a questão perturba as mentes brilhantes do Supremo, pois, no caso, quem está sendo acusado de “proteger interesses escusos” ou “projetos de poder” são os que estão tentando blindar o banco Master, no caso, o próprio Supremo, o Tribunal de Contas da União (TCU) e o Congresso Nacional.

Ritmo e risco das mudanças globais. Por Míriam Leitão

O Globo

A velocidade dos acontecimentos mundiais, com Trump e suas ameaças diárias, reforça a sensação de que 2026 começou há meses

Estamos na última semana de janeiro e a sensação é de que se passaram meses desde o início do ano. A velocidade dos acontecimentos e a intensidade dos riscos nos levam a pensar que alguém apertou a tecla que acelerou o ritmo da Terra. Parece que foi há muito tempo que tropas americanas entraram na Venezuela e que o presidente Donald Trump começou a ameaçar a Groenlândia. O estresse em Davos foi tão alto, o discurso de Trump tão pavoroso, que os líderes decidiram guardar uma única frase, aquela na qual ele promete não usar a força para se apropriar da Groenlândia.

As duas faces do Master. Por Elio Gaspari

O Globo

A quebra do banco e de Daniel Vorcaro inovou, como se fossem duas as histórias

A intervenção do Banco Central em instituições de crédito sempre foi novela de um só capítulo. Nos casos dos bancos Econômico, Nacional e Bamerindus os auditores iam lá, arrolavam os malfeitos e, aos poucos, o caso sumia.

A quebra do Master e de Daniel Vorcaro inovou, como se fossem duas as histórias.

Uma é a das fraudes, que podem afetar 1,6 milhão de credores, num montante de R$ 41 bilhões. Segundo o ministro Fernando Haddad, o Master pode vir a ser “a maior fraude bancária” da História do país.

A outra é o que parece ser uma operação para abafar as conexões de Vorcaro e a balbúrdia que se estabeleceu no Judiciário. O ministro Dias Toffoli baixou uma ordem de sigilo nas investigações. Determinou que a Polícia Federal só avançasse nos seus trabalhos depois de obter sua autorização. Finalmente, resolveu que quatro peritos, por ele indicados, tivessem acesso às provas guardadas nos computadores e nos celulares dos investigados. Toffoli foi defendido pelo presidente do tribunal, que considerou “regular” sua atuação.

Os tentáculos do Banco Master. Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Negócio nada ecumênico entre padre e pastor revela o alcance da influência de Vorcaro

A confusa relação do padre José Carlos Toffoli, agora cônego, com o pastor Fabiano Zettel, empresário, não é exatamente ecumênica, após o padre e seu irmão venderem para o pastor metade da participação deles, R$ 6,6 milhões, num resort. É estranho, mas confirma o principal: o alcance de Daniel Vorcaro, do Banco Master.

Vorcaro vai tomando a forma de um polvo. Zettel é cunhado e operador financeiro de Vorcaro. O “padre Carlão” é irmão do ministro do STF Dias Toffoli e do engenheiro Eugênio Toffoli, seu sócio em resorts de luxo que não condizem com o desapego de padres nem com a residência de classe média do engenheiro. A frase mais simbólica vem da mulher de Eugênio, Cássia: “Sócio de resort? Olha a minha casa!”

Navegando na anarquia internacional. Por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

A corrupção e os privilégios obscenos no setor público, em todas as esferas, não podem continuar

Passado um ano de política externa de Donald Trump, já temos elementos mais do que suficientes para traçar uma estratégia de como o Brasil deve navegar na nova anarquia internacional. Os EUA passam a concentrar sua energia geopolítica nas Américas. Significa que os países da região precisam dispor de meios dissuasórios para conter intervenções americanas, que combinam pressão econômica e ameaça militar. Trata-se de elevar o custo dessas imposições para assegurar estabilidade e autonomia.

O imperador do mundo fala de Davos. Por Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

O mundo não precisa de um imperador, muito menos de um imperador acima das leis e inconformado por nunca ter recebido o Prêmio Nobel da Paz

Nem o Vaticano escapou da tentativa de Trump de formalizar uma nova ordem mundial com sede em Washington, ou, mais precisamente, na Casa Branca. O presidente americano aproveitou a reunião do Fórum Econômico Mundial, em Davos, para apresentar seu Conselho da Paz, um projeto liderado por ele, representante da maior potência econômica e militar, e destinado, inicialmente, a levar alguma ordem à Faixa de Gaza. Convidou governantes a participar do grupo. Alguns logo aceitaram o convite. Os do Brasil, e de alguns países desenvolvidos, indicaram a intenção de estudar o assunto. A diplomacia do Vaticano também foi cautelosa, mas deixou logo clara a recusa de participar da ocupação de Gaza.

Colegialidade será princípio organizador do Supremo. Por Edson Fachin

Folha de S. Paulo

Reformas serão conduzidas sem rupturas, com urgência racional e sem açodamento decisório

Em ano eleitoral, o tribunal deve atuar com prudência, preservando a neutralidade institucional e a estabilidade do processo democrático

Encontramo-nos às vésperas do ano judiciário de 2026, período que constitui fase preparatória para a retomada dos trabalhos jurisdicionais, com vistas a conferir previsibilidade, eficiência e coerência jurisprudencial.

De modo especial, o Supremo Tribunal Federal (STF) tem o dever de assegurar segurança jurídica, proteger a ordem constitucional e garantir o funcionamento adequado das instituições republicanas, em observância às expectativas sociais de tutela jurisdicional efetiva.

Trump quer Groenlândia porque sabe que aquecimento global é real. Por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Ilha ganha relevância quando o oceano Ártico torna-se mais navegável

Com EUA, lugar seria mistura de Banco Master com a ilha do pedófilo Jeffrey Epstein

A tentativa trumpista de roubar a Groenlândia da Dinamarca prova que a direita, no fundo, sabe que o aquecimento global é real. Afinal, a ilha dinamarquesa só ganhou relevância política porque, graças ao aquecimento global, o oceano Ártico tornou-se muito mais navegável.

Em um artigo publicado na revista Nature Reviews Earth and Environment de março de 2024, os pesquisadores Alexandra Jahn, Marika M. Holland e Jennifer E. Kay mostraram que o aquecimento global criou uma possibilidade até outro dia impensável: um Ártico sem gelo durante boa parte do ano.

Vamos pagar a conta da mutreta do Master e do BRB. Por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Banco do Distrito Federal procura dinheiro para cobrir rombo, talvez no cofre do governo

Venda do Master pareceu tentativa de desovar cadáver quebrado no colo do estatal de Brasília

A venda do Banco Master para o BRB pareceu uma tentativa de desovar o cadáver de um banco quebrado no colo do banco estatal do Distrito Federal —tentativa de "abafar o caso". Além disso, o Master vendia terrenos na Lua para o BRB, créditos a receber que não existiam. A venda pareceu também uma tentativa de "dar saída" para alguns haveres de Daniel Vorcaro, da família dele e de sabe-se lá mais quem, haveres que virariam pó em caso de quebra do banco.

É o que se depreende de denúncias do Banco Central e de investigações jornalísticas e de relatos sobre evidências recolhidas pela Polícia Federal.

Direita corre o risco de se afundar nas águas turvas do filhotismo. Por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Flávio Bolsonaro não entendeu que a condição de filho não lhe dá o direito de mandar no governador de São Paulo

Uma das regras da política é que projetos de sucesso não prosperam em ambiente de divergências internas

A julgar pelo modo como Flávio Bolsonaro (PL) conduz sua carruagem, ele ainda não entendeu que a condição de filho de ex-presidente —preso e inelegível— não lhe dá a prerrogativa de mandar no governador de São Paulo.

Já Tarcísio de Freitas (Republicanos) exibiu alguma noção do que significa comandar o maior estado do país e segundo maior orçamento da República, ao se recusar a cumprir as ordens do 01.

Cara de pau metaforiza agora cinismo como política de Estado. Por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Neoextrativismo americano desconhece fronteiras soberanas; prospera em intimidações e ataques pontuais

Sem diplomacia, 'meu limite é a minha moralidade', a guerra cínica faz história

Embora o início da conhecida marchinha carnavalesca seja "Eu sou o pirata da perna de pau...", é oportuno substituir perna por cara no contexto político onde reinam Donald Trump e uma direita sem escrúpulos e recato. No cinema americano, cara de pau era Fred McMurray, uma expressão invariável ao longo de qualquer drama: contrapartida a Victor Mature e suas contorções faciais intensas, paródia de esforço fisiológico a cada cena. Cara de pau metaforiza agora cinismo como política de Estado: "Quero a Groenlândia porque não me deram o Prêmio Nobel".

Uma riqueza de rimas, imagens e humor. Por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Alfredo Del-Penho e Pedro Paulo Malta revivem um formato dos bambas: a dupla de cantores

'Bicudos Dois' vai de clássicos esquecidos e joias perdidas a inéditos por sambistas de hoje

Enquanto houver um microfone para Alfredo Del-Penho e Pedro Paulo Malta, a música brasileira terá presente, passado e futuro. Juntos ou separados, os dois valem por uma equipe de cantores, arqueólogos e campeões do que de melhor se fez em samba, dos primórdios até hoje. Seu repertório vai de clássicos esquecidos de 1935 e joias perdidas de 1955 até inéditos de 2025 —não deles, que não precisam disputar com o gigantesco cancioneiro que têm na cabeça, mas de sambistas de hoje, que, contra todas as marés, continuam a produzir.

A saída pela Democracia. Por Ivan Alves Filho

Aos 73 anos de idade, tendo buscado participar da vida brasileira desde o final da década de 60, devo dizer que raramente estive tão preocupado com o meu país. 

Educação, saúde, malha viária, segurança pública, saneamento básico: os problemas se avolumam a cada dia e o descalabro administrativo parece ter se apoderado do Brasil. 

Poesia | A Música, o Luar e os Sonhos...de Fernando Pessoa

 

Música | Caetano Veloso, Gilberto Gil - Sampa

 

sábado, 24 de janeiro de 2026

Opinião do dia – Antonio Gramsci (A solidez das crenças)

“Referências ao senso comum e a solidez de suas crenças encontram-se frequentemente em Marx. Contudo, trata-se de referências não à validez do conteúdo de tais crenças, mas sim a sua solidez formal e, consequentemente, à sua imperatividade quando produzem normas de conduta. Aliás, em tais referências, está implícita a afirmação da necessidade de novas crenças populares, isto é, de um novo senso comum e, portanto, de uma nova cultura e de uma nova filosofia, que se enraízem na consciência popular com a mesma solidez e imperatividade das crenças tradicionais."

*Antonio Gramsci (1891-1937), Cadernos do Cárcere, 4ª Edição, v,1, p.118. Editora Civilização Brasileira, 2006.

 

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

O cinema brasileiro atingiu novo patamar

Por Correio Braziliense

O agente secreto consolida um novo patamar do cinema brasileiro, que deixou de ser tratado como promessa periférica ou surpresa exótica para ingressar no espaço central da indústria global do audiovisual

Com quatro indicações ao Oscar, O agente secreto não é apenas um êxito artístico. É um marco histórico. O filme de Kleber Mendonça Filho consolida um novo patamar do cinema brasileiro, que deixou de ser tratado como promessa periférica ou surpresa exótica para ingressar no espaço central da indústria global do audiovisual. Melhor filme, Melhor filme internacional, Melhor escalação de elenco e Melhor ator, para Wagner Moura — o conjunto das nomeações traduz, em linguagem de prestígio internacional, aquilo que o público brasileiro já vinha percebendo: há uma retomada consistente, madura e competitiva das nossas produções, capaz de dialogar com o mundo sem renunciar às nossas raízes.

Mark Carney, San Tiago Dantas e o mote do outro Ocidente. Por Paulo Fábio Dantas Neto

Demorou um pouco até que uma voz mais firme e positiva surgisse de um país ocidental, reconhecendo com realismo a extensão e profundidade radicais da ofensiva de Donald Trump para decretar, nas relações internacionais, o retorno do império da competição sem regras entre grandes potências. O primeiro ministro Mark Carney, do Canadá, em pronunciamento no Fórum Econômico Mundial, em Davos, além de fazer isso, lançou um facho de luz num mundo que, diante da fera, tem oscilado entre a perplexidade, o medo, a retórica oca e a indignação impotente. Ao reconhecer a falência da ordem mundial do pós-guerra e a impossibilidade de sua refundação, exortou o que chama de potências médias (dentre as quais vê o seu país incluído) a agirem em bloco, política, comercial e diplomaticamente para resistirem à ação das potências hegemonistas e contraporem, ao mundo sem regras que elas estão consagrando na esteira da blitz trumpista, um processo de construção de uma nova ordem, na qual possam ser preservados tanto os interesses soberanos dos países, como valores civilizatórios supranacionais, com destaque aos direitos humanos, à democracia e o pluralismo político.

Fim de uma era. Por André Gustavo Stump

Correio Braziliense

O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, foi objetivo. Disse, em Davos, que "a velha ordem não vai regressar. Estamos no meio de uma ruptura, não de uma transição". Mais claro impossível

A Europa foi o centro do mundo desde que as grandes navegações começaram a moldar a geopolítica em que vivemos. Portugal e Espanha dividiram o mundo por intermédio do Tratado de Tordesilhas, que não foi reconhecido por franceses, ingleses e holandeses. Uns invadiram os outros e começaram a dividir as áreas de interesse. Ingleses se espalharam pelos continentes e criaram o império onde o sol jamais se punha, com a inclusão da Índia, a joia da Coroa. Faz sentido. O diamante Koh-i-Noor, um dos maiores diamantes lapidados do mundo, originário da Índia, é a peça central da coroa britânica. O diamante pertencente à Índia foi "cedido" à rainha Vitória em 1848.

As contradições do fim de uma ordem mundial. Por Juliana Diniz

O Povo (CE)

A ameaça bate às portas da Dinamarca e vem muito nua, muito evidente. Não se pode dizer que o país nórdico represente um risco à democracia ocidental, tampouco que o povo da Groenlândia seja incapaz de se autogovernar de forma livre

A crise em torno da Groenlândia é dramática pelo potencial que tem de demonstrar ao mundo todas as contradições e insuficiências de um arranjo geopolítico. Para a Europa, é a revelação incômoda de que a soberania, um conceito que funda todo o Direito e a Política modernos, é uma ficção, tão frágil quanto parece ser o sistema de freios e contrapesos da democracia americana. Ver-se na posição historicamente reservada aos territórios coloniais é um choque, uma demonstração evidente do fracasso de um modelo de organização do mundo.