terça-feira, 17 de março de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Robôs de IA violam leis de direitos autorais

Por O Globo

De sete chatbots testados, Grok foi o mais contumaz no desrespeito a produtores de conteúdo jornalístico

O Grok, robô de inteligência artificial da xAI, de Elon Musk, violou de forma contumaz os direitos autorais de conteúdos jornalísticos em teste realizado pela reportagem do GLOBO. O teste foi aplicado com a versão gratuita de sete chatbots diferentes — além do Grok, ChatGPT (OpenAI), Gemini (Google), Claude (Anthropic), Perplexity, DeepSeek e MetaAI. Os sete foram submetidos a indagações sobre conteúdo restrito a assinantes dos jornais O GLOBO, Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo e Zero Hora. Em todos os casos, o Grok entregou o texto completo escrito por colunistas, sem alterações. Em apenas um outro caso o DeepSeek reproduziu uma coluna literalmente, enquanto nos demais os robôs em geral ofereceram resumos detalhados, muitas vezes com paráfrases pouco diferentes do original. Apenas Perplexity e Claude informaram que o acesso às colunas era restrito aos assinantes ou estava bloqueado por barreira (paywall), procurando resumir fatos a partir de conteúdos abertos. A ferramenta da Meta alegou impossibilidade técnica para obter o conteúdo.

Habermas e a Reconstrução ética da economia, por Giovanni Beviláqua*

Correio Braziliense

Sob essa perspectiva, os pequenos negócios não são meras unidades estatísticas ou engrenagens de baixa produtividade; eles são, em essência, os últimos redutos do Mundo da Vida na economia.

A partida de Jürgen Habermas, em 14 de março de 2025, aos 96 anos, não representa apenas o fim da trajetória de um dos últimos gigantes da filosofia do século XX, mas marca o momento em que sua obra deixa de ser uma promessa teórica para se tornar uma necessidade prática urgente. Em um mundo fragmentado por crises de alteridade e pela tecnocracia asfixiante, Habermas nos legou a bússola da racionalidade comunicativa, uma ferramenta indispensável para quem busca repensar a economia a partir de sua base: os pequenos negócios e o desenvolvimento territorial.

O núcleo da provocação habermasiana reside na tensão dialética entre o "Sistema" e o "Mundo da Vida". Para o pensador, o Sistema — composto pelo mercado e pelo Estado — opera sob uma lógica instrumental, centrada na eficácia, no lucro e no poder. Já o Mundo da vida é o espaço da cultura, da identidade e da solidariedade, onde a linguagem serve ao entendimento e não apenas ao resultado. O grande drama da modernidade, segundo ele, é a "colonização do mundo da vida", um processo patológico onde a frieza dos números e a burocracia tentam silenciar as relações humanas espontâneas e os valores compartilhados.

Habermas e a imprensa, por Merval Pereira

O Globo

Habermas definia como dupla função do que chamava de “imprensa de qualidade” atender à demanda por informação e formação

Esfera pública é um conceito difundido pelo filósofo alemão Jürgen Habermas (falecido no sábado aos 96 anos). Define o espaço em que os assuntos públicos são discutidos pelos atores, públicos e privados, levando à formação da opinião pública, que reflete os anseios da sociedade civil, pressionando os governos. Esse conceito é fundamental para compreendermos o papel do jornalismo, que Habermas entendia como mediação entre Estado e sociedade civil. Ele definia como dupla função do que chamava de “imprensa de qualidade” atender à demanda por informação e formação.

Eleições de 2026, cenário e riscos, por Míriam Leitão

O Globo

Em pouco mais de seis meses, o Brasil irá às urnas. Será uma eleição com temas difíceis e, se a guerra continuar, a conjuntura econômica será adversa

Faltam sete meses, um pouco menos, para as eleições. É cedo para o senador Flávio Bolsonaro achar que os acontecimentos continuarão a favorecê-lo e é tarde para o governo não ter uma estratégia eficiente de campanha. Será uma eleição com temas difíceis e, se a guerra continuar, uma conjuntura adversa. A oposição já começou a manipular o assunto da classificação das facções de traficantes como organizações terroristas. Se adotada pelos Estados Unidos será perigoso para o Brasil e pode reduzir a cooperação entre Polícia Federal e FBI, mas a oposição dirá que o governo defende bandidos. O presidente Lula é o favorito nesta eleição, porém tem muito trabalho pela frente, e não haverá espaço para erros.

Os desafios da direita democrática, por Pedro Doria

O Globo

Quando alguém com o sobrenome Bolsonaro se põe em campanha, já surge com pelo menos 20% das intenções de voto

Celso Rocha de Barros, do podcast Foro de Teresina e colunista da Folha de S. Paulo, é um dos melhores analistas políticos brasileiros. Ele vem puxando, nas últimas semanas, um debate muito importante. Em sua opinião, não apareceu uma alternativa à família Bolsonaro pelo flanco direito por responsabilidade da própria direita. Para ele, quando seus principais líderes não condenam com clareza o golpismo do ex-presidente Jair Bolsonaro, não surge alternativa.

Houve resistência. O ex-governador paulista João Doria se bateu de peito aberto contra o ex-presidente. Alguns deputados federais, também. O MBL ensaiou participar de um pedido de impeachment. Agora está distante e muita gente não lembra, mas o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), foi para a rua defender o distanciamento social no princípio da pandemia. Todos os que enfrentaram Bolsonaro sofreram derrotas eleitorais acachapantes. Ou recuaram. Todos sabem que Bolsonaro não é um bom confrade político. É desleal, trai sem dó, não cumpre acordos. Não bastasse, é um paranoico que vê conspirações por toda parte. Todo mundo compreende que Bolsonaro só confia na própria família. Golpista é só um dos adjetivos que cabem a Bolsonaro.

O voo de Pegasus, os jacobinos e a encruzilhada do caso Master, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Se optar pela delação premiada, Daniel Vorcaro poderá revelar conexões entre empresários, autoridades e operadores financeiros, um strike político

A troca de advogados do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, repercute intensamente em Brasília: pode escalar ainda mais o escândalo, que envolve o sistema financeiro, autoridades públicas e o próprio Supremo Tribunal Federal (STF). O empresário passou a considerar a hipótese de uma delação premiada, sobretudo após a formação de maioria no STF para manter sua prisão, e isso deixou seus parceiros à beira de um ataque de nervos. Se isso ocorrer, atingirá o coração da República. É um homem-bomba.

A sedução de Vorcaro, por Fernando Gabeira

O Globo

Seduzir políticos e juízes para o consumo de luxo seria uma forma de viciá-los num estilo de vida do qual não poderiam mais se afastar

A festinha promovida por Daniel Vorcaro em Londres já foi muito abordada nas redes sociais. Não voltarei a ela para fazer considerações morais. Ela custou US$ 640 mil, consistiu na degustação de uísque Macallan, charutos e alguma comida. Deve ter sido financiada com dinheiro roubado aos aposentados e pequenos investidores.

Vorcaro e Mansur unidos contra a República, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

A unificação da defesa mostra que Master e Reag vão jogar juntos contra o sistema financeiro, a política, o judiciário e os reguladores

José Luis de Oliveira Lima já advogava para Daniel Vorcaro em outros processos criminais. Na sexta passou a acumular mais um caso, o do Master. Foi Vorcaro quem indicou o advogado para João Carlos Mansur em 2025 quando dono da Reag foi alvo da Operação Carbono Oculto, que investigou a lavagem de dinheiro no mercado de combustíveis.

Na Compliance Zero, operação na qual Vorcaro estreou o xadrez, Mansur foi alvo de busca e apreensão. Pesou a suspeita de que o Master atribui seu patrimônio a cotas de fundos da Reag, que, pobremente regulada pela CVM, oculta bens e valores.

Esta relação Master-Reag, Vorcaro-Mansur, agora alinhavada pelo mesmo advogado, é um desdobramento nada lateral da investigação em curso. Pierpaolo Bottini, o ex-advogado de Vorcaro, já fez delações mas é, principalmente, advogado de personagens alvos do mecanismo, desde a Lava-Jato.

Os alvos de Flávio Dino, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Aplausos ao fim de férias eternas para juízes corruptos, mas a crise do STF continua

Pode não ser assim, mas a impressão é de que só no Brasil acontecem coisas inaceitáveis, e à luz do dia, tais como desembargador corrupto ser “punido” com aposentadoria remunerada, filhas de militares serem sustentadas pelo Estado pelo resto da vida, os Poderes rasgarem a Constituição com salários acima do teto e o Legislativo se lambuzar com emendas que chegaram a R$ 31 bilhões em 2025.

Delação no clube do uísque, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Daniel Vorcaro pode delatar – não há restrição formal a que o faça, ainda que seja o líder da máfia. Pode delatar, tanto mais ante a maioria formada para que permaneça preso. O banqueiro, obstrutor da Justiça de almanaque, é a própria encarnação “do perigo da liberdade”, aquele cuja milícia – ainda ativa, segundo André Mendonça – violava sistemas para obter informações sigilosas, e cujos milhões contrataram, direta ou indiretamente, os melhores – os mais infernais – bloqueadores da República. (Não jogavam vôlei.)

Gostar do nosso país não significa gostar de quem fala em seu nome, por João Pereira Coutinho

Folha de S. Paulo

Documentário vencedor do Oscar expõe autoritarismo pós-moderno de Putin

Obra é resultado da ação de um homem comum que se recusou a viver na mentira

É uma grande alegria —e uma grande tristeza– assistir a um documentário como "Mr. Nobody Against Putin", de David Borenstein e Pavel Talankin. Mas quem quiser compreender o autoritarismo pós-moderno terá de passar por ele.

Chamo-lhe autoritarismo pós-moderno por uma razão simples: longe vão os tempos em que regimes totalitários exigiam controle absoluto ou adesão total das populações. Essa ambição jaz hoje entre ruínas. O poder aprendeu. Tornou-se mais econômico, mais ambíguo, mais sutil.

O controle é parcial, não total. A vigilância é difusa, não ostensiva. A autocensura é mais importante do que a censura clássica.

O novo autoritarismo não precisa de entusiasmo totalitário, nem de terror permanente, muito menos de uma ideologia sistemática. Precisa apenas de um verniz de normalidade e de adaptação social.

Há chance para a terceira via? Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Pesquisas sugerem que eleição presidencial será mais uma vez plebiscitária

Polarização se mantém porque eleitor responde mais ao medo do que à esperança

Como sempre digo, tudo o que não é proibido pelas leis da física pode acontecer. Não sou eu, portanto, quem vai cravar que uma candidatura da chamada terceira via está fadada ao fracasso. Receio, porém, que não sejam grandes as chances de algum postulante não identificado nem com o governismo nem com o bolsonarismo romper a polarização.

Impeachment seria saída extrema para crise de confiança do STF, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Se o tribunal não tomar uma providência interna, é provável que seja obrigado a aceitar uma solução externa

Nova maioria no Senado pode levar candidatos a presidente a defender impedimento de Toffoli e Moraes

crise de confiança que assola o Supremo Tribunal Federal (STF) traz à tona um fato: o saber jurídico não é suficiente para fazer frente a circunstâncias de natureza política. É o que se depreende do desnorteio dos ministros na busca por uma porta de saída no labirinto em que se encontram.

Divergem na leitura da cena, não se entendem sobre as razões da erosão de imagem, dividem-se na escolha das maneiras de reagir. A alguns parece que seja melhor apostar no espírito de corpo, na esperança de que o tempo do esquecimento dê seu jeito. Em outros prevalece a visão realista de que a solução reside na correção de condutas.

Lula cai na real: química de Trump é explosiva, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Demandas de combate às organizações criminosas sugerem um Brasil de joelhos

Encontro dos dois presidentes em Washington pode se transformar em reality show

A química entre Lula e Trump azedou. Se é que ela chegou a existir em algum momento ou tudo não passou de jogo de cena. As demandas de combate às organizações criminosas —reveladas em reportagem de Patrícia Campos Mello— sugerem uma republiqueta de joelhos diante de um império.

Trump exige que o Brasil receba em prisões os brasileiros capturados nos Estados Unidos, sabe-se lá sob quais acusações. Como faz El Salvador. O país da América Central é governado por Nayib Bukele, o queridinho da extrema direita global, que aparelhou as instituições e negociou uma trégua —ora vejam só— com gangues de traficantes.

Givaldo Siqueira, o Giva, por Ivan Alves Filho

Com Givaldo Siqueira, pernambucano de Serra Talhada radicado desde menino no Rio de Janeiro, tive conversas pautadas sempre pelo humor e pela inteligência. Paulinho da Viola dizia ser o Givaldo o maior papo do Rio de Janeiro e com toda razão. As conversas com ele, velho dirigente do Partido Comunista Brasileiro (PCB), iam muito além da política inclusive. O nosso querido Clube de Regatas do Flamengo, por exemplo, rendia muito assunto.

Eu me recordo que certa vez – isso se deu no início dos anos 90 – nós tivemos um encontro na Praça Mauá, no centro do Rio de Janeiro, às nove e meia da manhã e conversamos até às seis da tarde. Eu nem fui trabalhar naquele dia, e peço perdão tardio à Editora Terceiro Mundo por isso. Matei o trabalho. Acontece nas melhores famílias. Mas a causa era nobre: repassamos toda a História do Brasil, desde o período pré-colonial até a redemocratização, nada mais nada menos... 

Giva, como todos nós o chamávamos, foi um velho amigo de meu pai. Era sobrinho do grande músico José Siqueira, fundador da Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB). Givaldo frequentava a nossa casa já nos anos 50, na fase do Governo JK, e me conheceu ainda guri, de calça curta. Enfrentou uma clandestinidade pesada, que durou de 1964 a 1979. Viveu em várias partes do mundo, a começar pela ex-União Soviética e pela Itália. 

Poesia | Elegia para a adolescência, de Carlos Pena Filho

 

Música | Chico Buarque e João do Vale - "Carcará" (1982)

 

segunda-feira, 16 de março de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Brasil não está a salvo de ataques jihadistas

Por O Globo

Prisão de brasileiro que planejava atentado inspirado pelo Estado Islâmico traduz ameaça crescente

Embora até hoje não tenha havido nenhum ataque de inspiração jihadista no Brasil, isso não quer dizer que o país esteja imune. Com a facilidade de comunicação e aliciamento trazida pela internet, o terrorismo se globalizou, as iniciativas de recrutamento por grupos radicais se ampliaram, e o conflito no Oriente Médio cria um terreno fértil para a disseminação das narrativas perniciosas que tentam justificar a violência.

O elo perdido entre a máfia do INSS e o Banco Master, por Bruno Carazza

Valor Econômico

Farra com consignado lesou milhões e indica que outras instituições financeiras possam ter seguido o mesmo caminho do Master

O sinal de alerta me soou lendo a coluna de Jairo Saddi, aqui no Valor. No artigo de 02/03, o advogado chamou a atenção para dados de uma pesquisa acadêmica sobre o padrão de disputas judiciais envolvendo instituições financeiras. Como o tema me interessa, fui atrás da fonte. E acabei encontrando aquele que pode ser o elo perdido entre as fraudes bilionárias da máfia do INSS e do Banco Master.

E mais: talvez seja um problema que vá além do Careca do INSS e de Daniel Vorcaro. Em vez de obras de gênios do mal, podemos estar diante de uma prática sistêmica que lesa milhões de pessoas e compromete a estabilidade do sistema financeiro nacional.

As incertezas no cenário externo e as perspectivas para a Selic, por Sergio Lamucci

Valor Econômico

Mesmo com alta do petróleo, parece fazer sentido o BC começar o ciclo de cortes com uma redução de 0,5 ponto, acompanhada por um comunicado cauteloso

O cenário para a economia brasileira tornou-se mais incerto após o começo do conflito no Oriente Médio, especialmente devido à alta dos preços do petróleo. A expectativa de que a Selic, hoje em elevados 15% ao ano, cairia ao longo de 2026 até a casa de 12% a 12,5% está em xeque. Um corte de 0,5 ponto percentual na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) desta semana passou a ser visto como menos provável por um número maior de analistas. Uma redução de 0,25 ponto ganhou adeptos, com a avaliação de que o Banco Central (BC) deverá ser mais cauteloso, existindo até quem aposte na manutenção da taxa. Cortes muito modestos da Selic ao longo do ano seriam uma má notícia, embora possa ser um desfecho necessário. Juros altos por muito tempo seguram o investimento, castigam empresas e pessoas físicas endividadas e têm um pesado custo fiscal.

Os indicadores são positivos; a sensação é negativa, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Percepção da população capta a situação real de cada um — e é isso que influencia a decisão de voto

Falta mão de obra em vários setores da economia brasileira, incluindo construção civil e agronegócio. Empresas informam ter criado benefícios especiais para conseguir contratar. A taxa de desemprego, medida pelo IBGE, está em nível historicamente baixo. Portanto o momento só pode ser favorável ao trabalhador. Mas parece que não é. Pelo menos, não para todos.

Pesquisa Quaest divulgada na semana passada mostrou que 50% dos entrevistados declararam estar mais difícil conseguir emprego. E 40%, que está mais fácil. O indicador macroeconômico mostra uma situação que não bate com a percepção efetiva da maioria dos trabalhadores.

Do sertão para o mundo, por Preto Zezé

O Globo

Tauá, no interior do Ceará, decidiu enfrentar limitações climáticas e econômicas com planejamento e inovação

Neste ano eleitoral, escolhi olhar menos para candidatos e mais para experiências de políticas públicas que possam ajudar a qualificar o debate. A ideia é trazer boas práticas de interesse público capazes de inspirar uma agenda de desenvolvimento baseada em resultados reais. Em vez de discutir só promessas, vale observar o que já está funcionando em algumas cidades.

Um desses exemplos vem do sertão cearense. Tauá, conhecida como Capital do Carneiro, decidiu transformar sua identidade econômica tradicional em ponto de partida para um projeto mais amplo de desenvolvimento.

Ser homem com H maiúsculo? Por Joel Birman

O Globo

Feminicídio revela não só desigualdade social, mas crise na própria forma como a masculinidade foi construída

Foi fundamental a proposição de um pacto civilizatório, articulando Executivo, Legislativo e Judiciário, para enfrentar o feminicídio no Brasil. O país figura entre os mais letais do mundo no assassinato de mulheres. Casos diários revelam a brutalidade de homens incapazes de suportar a rejeição feminina, muitas vezes após relações marcadas por violência.

Nos últimos meses, multiplicaram-se episódios em que mulheres foram mortas por ex-companheiros meses depois do fim do relacionamento. Em fevereiro, no ABC paulista, uma mulher foi assassinada nove meses após romper o namoro. Outro caso chocante foi de um homem que matou os filhos e se suicidou, responsabilizando a esposa por suposta traição. Soma-se a isso a perplexidade diante de decisões judiciais lenientes em casos de violência contra meninas e mulheres.

A polarização pode ser derrotada? Por Carlos Pereira

O Estado de S. Paulo

Eleitores cansados dos extremos existem no País. Falta encontrar quem os lidere

Eleições polarizadas frequentemente opõem figuras carismáticas a candidatos que se apresentam como alternativa moderada, técnica ou de união. Em contextos de forte polarização afetiva – quando a rejeição ao adversário pesa mais do que a identificação com um projeto – a disputa tende a girar em torno de personalidades e lealdades emocionais. Ainda assim, a experiência comparada mostra que candidatos moderados podem vencer quando conseguem convencer o eleitorado de que estabilidade e previsibilidade são mais valiosas do que o fervor ideológico.

Cláusula de barreira fica mais rígida e partidos apostam em federações

Pedro Augusto Figueiredo / O Estado de S. Paulo

Nova regra impõe que legendas precisarão ter no mínimo 2,5% dos votos válidos para a Câmara dos Deputados ou eleger pelo menos 13 deputados federais distribuídos pelos Estados

Obrigação. A federação obriga que dois ou mais partidos atuem como uma entidade, reduzindo a fragmentação

A federação Renovação Solidária, formada pelo Solidariedade e pelo PRD, é um dos casos mais emblemáticos até aqui de como a cláusula de barreira tem incentivado a redução dos partidos políticos no Brasil. Criada em 2017, a regra instituiu um desempenho mínimo para as siglas continuarem tendo acesso aos fundos partidário e eleitoral, além da propaganda eleitoral no rádio e na televisão.

A federação obriga que dois ou mais partidos atuem como se fossem apenas uma entidade, reduzindo a fragmentação partidária no Congresso Nacional. No caso da Renovação Solidária, é como se, na prática, quatro siglas tivessem sido reduzidas a apenas uma.

Reforma das Forças Armadas, André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

O Brasil de hoje está ligado por comunicações de norte a sul, de leste a oeste. Mas faltam equipamentos para informar violações das fronteiras nacionais

O presidente Lula descobriu que o Brasil precisa dar mais atenção às suas Forças Armadas para proteger o país de eventual ataque externo. É uma descoberta óbvia, um pouco tardia, porém verdadeira. Os militares brasileiros sempre estiveram mais preocupados com a gestão do país, com a política partidária, com suas próprias vantagens e relegaram a segurança nacional a segundo plano. Mas a invasão da Venezuela, o sequestro de Nicolás Maduro, pelas forças especiais dos Estados Unidos, chamaram atenção dos países do continente para sua fragilidade.  

Fim da 6x1: conceitos, métodos e consequências, por José Pastore*

Correio Braziliense

As leis permitem trabalhar menos horas e isso é acertado pelo método da negociação coletiva entre empregados e empregadores ou seus representantes

A jornada de trabalho se refere às horas trabalhadas por dia, semana, mês ou ano. A escala se refere à distribuição dessas horas no tempo. Uma jornada de 44 horas semanais pode ser trabalhada com uma escala de 6x1, 5x2, 12x36 ou outras. 

Para a jornada, costuma-se fixar em leis o número máximo de horas que as pessoas podem trabalhar. No Brasil, isso é fixado na Constituição Federal. São oito horas por dia e 44 horas por semana. 

As leis permitem trabalhar menos horas e isso é acertado pelo método da negociação coletiva entre empregados e empregadores ou seus representantes. Assim é no Brasil. A Constituição permite às partes negociarem qualquer redução de jornada por esse método. 

Bonita demais, por Ana Cristina Rosa


Folha de S. Paulo

Como cantou Emicida, ser chamada de morena 'camufla o abismo entre si e a humanidade plena'

Bonito demais será o dia em que a noção de que a beleza é exclusividade de quem tem traços caucasianos for superada de vez

Dia desses ganhei na loteria do absurdo mais uma vez —coisa que me acontece com uma certa frequência. Estava quieta no meu canto, esperando uma mesa num restaurante, quando uma jovem loira, que não tirava os olhos de mim, resolveu se aproximar para fazer um suposto elogio: "Parabéns! Você é uma morena muito bonita. Estou impressionada."

Agradeci educadamente, mas não pude deixar de fazer a seguinte consideração: "Me alegra saber que reconheces a minha beleza, mas eu não sou morena, sou negra mesmo."

A moça ficou injuriada, e resolveu retrucar com um "Nossa! Não quis ofender. Chamei de morena porque você realmente é bonita demais para uma negra".

É disso que se trata!

Degeneração institucional, Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

O apoio público às supremas cortes não é baseado em princípios abstratos; em grande medida, é apoio instrumental

Cidadãos tendem a apoiar a corte quando acreditam que suas decisões os favorecem politicamente

A opinião pública importa para as supremas cortes porque sua autoridade depende de um estoque de legitimidade difusa que sustente a disposição dos atores políticos e da sociedade em acatar suas decisões. O verdadeiro armagedon institucional ocorre no day after em que atores relevantes passam a considerar a "opção nuclear" do não cumprimento das decisões judiciais.

Pastelão no gramado, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Craques do passado, ou aprendiam a se defender dos zagueiros durões ou fossem jogar pingue-pongue

Hoje, um contato entre um mindinho e o plexo solar faz com que os canastrões caiam com a mão ao rosto

Não é para me gabar, mas acompanho futebol desde o Terciário, quando as bolas eram de couro, o goleiro era o quíper e o juiz levava o apito pendurado ao pescoço. Às vezes, havia sombras no gramado —eram pterodáctilos sobrevoando o Maracanã. Assim, naquele tempo, vi jogar, ao vivo, Pelé, Garrincha, Didi, Dida (do Flamengo), Doval, Jairzinho, Paulo César, Zico, Dinamite. Todos com a camisa para dentro do calção e este, às vezes, acima do umbigo. A bola não saía do fundo das redes.

Os desafios da Gestão Municipal, o PDDU e a sustentabilidade do Município, por George Gurgel de Oliveira

Os desafios da Gestão Municipal  

As relações políticas, econômicas, sociais e ambientais estabelecidas na maioria dos municípios brasileiros são (in)sustentáveis?

Quais são os valores da Gestão Pública Municipal?  Qual é a importância do Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano -   PDDU, do Mercado e da Sociedade nos processos de construção da sustentabilidade política, econômica, social e ambiental do Município?

Os prefeitos as, os vereadores  e a sociedade municipal em geral estão desafiando-as a construir a sustentabilidade política, econômica, social e ambiental do município para superar a triste e desoladora realidade de uma parcela majoritária das populações dos municípios brasileiros, desrespeitadas, na maioria das vezes, dos seus direitos básicos, constitucionais, a saber: moradia, educação, saúde, saneamento, mobilidade, segurança, trabalho e renda.

As administrações municipais deveriam estar comprometidas com o enfrentamento sistemático dos graves problemas sociais, econômicos e ambientais vividos no cotidiano da maioria dos municípios brasileiros, em diálogo com o Governo Estadual, Federal, o Mercado e a Sociedade, em sintonia com o processo de construção das políticas públicas municipais, dialogando com os governos estadual e federal.

Poesia | Dizes-me: tu és mais alguma coisa, de Fernando Pessoa

 

Música | Paulo Miklos, Roberta Sá e Demônios da Garoa - Os amantes (Luiz Ayrão)

 

domingo, 15 de março de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Regulação do uso militar da IA é urgente

Por o Globo

Batalha da Anthropic contra governo americano é a mais relevante para futuro de guerras

A batalha militar mais relevante para o futuro do mundo não é travada hoje no Oriente Médio ou na Ucrânia, mas dentro dos Estados Unidos. Envolve o uso da inteligência artificial (IA) como arma e opõe o governo Donald Trump a uma das líderes no mercado de IA, a californiana Anthropic. O secretário da Guerra — nome ainda não aprovado pelo Congresso —, Pete Hegseth, anunciou a classificação da empresa como “risco à cadeia de suprimentos”, categoria em geral reservada a corporações estrangeiras cujos produtos são vistos como ameaça à segurança nacional. O motivo alegado é a recusa do CEO da Anthropic, Dario Amodei, em permitir qualquer aplicação de seus produtos. Amodei quer vetar uso para “vigilância em massa” ou “armas autônomas”, mesmo que não haja ilegalidade.

A guerra do Irã, a pneumonia de Bolsonaro e o efeito Trump nas eleições, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

A hospitalização com broncopneumonia bilateral, ocorrida enquanto cumpre pena, humaniza o ex-presidente e produz um efeito emocional e mobilizador entre seus apoiadores

O projeto de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, às vésperas da campanha eleitoral, vive um cenário de incertezas provocadas por fatores externos e inesperados, que influenciam o ambiente político. Em eleições competitivas, o desempenho do governo não depende apenas de suas políticas públicas ou da conjuntura econômica doméstica. Eventos internacionais, crises institucionais ou episódios envolvendo adversários podem alterar a percepção do eleitorado e obrigar à redefinição de estratégias eleitorais. 

No momento, três fatos novos alteram o cenário político: a guerra entre Estados Unidos e Irã e seu impacto no preço do petróleo; a internação do ex-presidente Jair Bolsonaro com pneumonia bilateral; e as tensões diplomáticas entre o governo brasileiro e a administração Donald Trump.

Bastidores da guerra no Brasil, por Míriam Leitão

O Globo

Navios com diesel desviam do Brasil por destinos mais lucrativos. Milho e soja começam a subir. Governo age para atenuar alta do petróleo

Navios que estavam vindo para o Brasil com diesel mudaram a rota para outros portos, em busca de preços maiores. Isso foi detectado pelo monitoramento do governo. Uma sala de situação no Ministério de Minas e Energia acompanha o mercado. O petróleo que o Brasil importa da Arábia Saudita, e que passaria pelo Estreito de Ormuz, está vindo em parte pelo Mar Vermelho e em parte pelo Mediterrâneo. Esta segunda rota é exigente. Um trecho do trajeto se faz por caminhão, e depois é preciso usar embarcações menores. O agronegócio brasileiro já havia comprado fertilizantes, mas milho e soja começam a subir. A guerra contra o Irã produziu uma crise complexa. Ela é tudo menos o que Donald Trump tem dito.

Polícia no palanque, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Operação contra vereador aliado de Paes reaviva suspeita de uso político de investigações

Na manhã de quarta-feira, a Polícia Civil do Rio prendeu o vereador Salvino Oliveira numa operação batizada de Red Legacy. Pouco depois, o governador Cláudio Castro foi às redes anunciar a captura do “braço direito do Comando Vermelho dentro da Prefeitura do Rio”.

“Esse é o mesmo vereador que vivia atacando nosso governo e as polícias. Hoje, finalmente, estamos conhecendo o seu real lado: trabalhava para bandido e não para o povo!”, festejou.

Numa das cenas do vídeo publicado pelo governador, um agente vasculha o armário de Salvino e levanta uma placa de campanha com a foto de Eduardo Paes. Era um sinal de uso da polícia para atingir adversários políticos.

De volta ao jogo? Por Merval Pereira

O Globo

O desmantelamento da Operação Lava Jato reafirmou uma longa tradição da Justiça brasileira de reverter resultados de investigações contra a corrupção. Esperemos que o mesmo não aconteça agora.

Duas medidas tomadas em dias recentes recolocaram o Supremo Tribunal Federal (STF) nos trilhos republicanos, proporcionando que o futuro possa recompor o passado recente, pleno de equívocos e abusos de poder. A decisão de manter a prisão do ex-banqueiro Daniel Vorcaro abre caminho para uma delação premiada que certamente desvendará as entranhas do maior golpe financeiro já acontecido no país. Por isso mesmo, teve uma importância não apenas simbólica. A decisão, proporcionada pelo ministro Gilmar Mendes, de levar ao plenário físico a anulação da quebra de sigilo do filho do presidente Lula, adotada monocraticamente pelo ministro Flavio Dino, transforma a ação individual de um juiz em decisão do colegiado, o que dá outro valor ao resultado.

Moraes cria o precedente, por Elio Gaspari

O Globo

Autorização concedida pelo ministro para busca e apreensão contra jornalista tende a ameaçar direito de preservar fontes

O ministro Alexandre de Moraes é experiente. Ele determinou uma operação de busca e apreensão contra o jornalista maranhense Luís Pablo Conceição Almeida. O ministro autorizou a apreensão de celulares, computadores, tablets, documentos e outros dispositivos eletrônicos que possam auxiliar numa investigação sigilosa.

Investigação de que? De um eventual uso indevido de um carro oficial pelo ministro Flávio Dino. Fica combinado assim.

Semana ruim para os EUA na guerra, por Dorrit Harazim

O Globo

‘Sofrimento será de duração curta, mas os ganhos de duração longa’, disse Pete Hegseth. Não está sendo uma coisa nem outra

Enquanto atuou como comentarista de assuntos militares no canal noticioso Fox News, Pete Hegseth disparou certezas sem precisar de fatos. Dono de feições e físico altamente telegênicos, esmerou-se em aprimorar o visual e a oratória ariano-Maga. Acabou por conquistar o presidente Donald Trump, que procurava um garoto-propaganda de impacto para comandar o Pentágono. E foi como secretário de Defesa do colosso militar que Hegseth, aos 45 anos, anunciou, na estreia da Operação Fúria Épica contra o Irã: