domingo, 19 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Copa do Mundo sai vitoriosa com diversidade

Por O Globo

Ponto negativo do torneio ocorreu fora de campo, com Fifa cedendo à pressão de Trump por anulação de cartão

Quando a Fifa anunciou a realização da Copa do Mundo de 2026 com 48 seleções — a maior da História — nos Estados Unidos, Canadá e México, havia dúvidas se o aumento do número de participantes, que levaria a campo equipes de pouca ou nenhuma tradição, funcionaria. Depois de 39 dias e mais de cem partidas em que jogadas antológicas de craques como Lionel Messi, Kylian Mbappé, Lamine Yamal, Harry Kane, entre outros, se misturaram a pisadas de bola do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e do comandante da Fifa, Gianni Infantino, parece certo que, ao menos dentro de campo, a maratona do futebol passou no teste.

O Brasil entre soberania, democracia e seus velhos problemas sociais, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

A retaliação de Trump pode fortalecer uma narrativa nacionalista, mas o custo de vida, a insegurança, os juros, a qualidade dos serviços e a esperança continuarão orientando o voto

Quem quiser que se iluda, estamos diante de um novo ciclo político de longa duração, no qual os velhos problemas do país já não podem ser enfrentados da mesma forma, num contexto de crise da democracia ocidental, revolução tecnológica e desestruturação dos pactos diplomáticos pós Segunda Guerra Mundial. É nesse contexto que o Brasil chega às eleições de 2026, com uma combinação complexa de problemas sociais e econômicos, de radicalização política e de mudança da ordem internacional.

Ninguém pode desconsiderar que o nosso subdesenvolvimento, para usar uma expressão clássica, decorre da baixa produtividade, da desigualdade de oportunidades, da precariedade da educação básica, da expansão do crime organizado, dos deficits de saneamento e de habitação, do alto custo do capital e da fragilidade fiscal. Esse é o diagnóstico que alimenta o debate e divide opiniões por parte de quem busca soluções para o país em bases democráticas.

Ciranda política, por Merval Pereira

O Globo

Vença quem vencer a eleição deste ano, seremos reféns do passado até pelo menos 2030, quando haverá uma nova safra de políticos à disposição dos eleitores.

Vença quem vencer a eleição deste ano, seremos reféns do passado até pelo menos 2030, quando haverá uma nova safra de políticos à disposição dos eleitores, o que não acontece desde 1994, quando Fernando Henrique, um presidente ocasional como ele gosta de se definir, surgiu no cenário nacional fruto de uma visão moderna da política trazida pelo PSDB, que rompeu com o desgastado MDB devido aos mesmos problemas que vivemos hoje, especialmente a corrupção.

O hoje presidente Lula envelheceu no poder, de um renovador apresentado ao eleitorado em 1989 a um velho oligarca que hoje comanda um partido político, o PT, que caminha para a obsolescência assim que seu único líder se retirar da política, pela derrota este ano ou até 2030, ao terminar um possível quarto mandato presidencial. Se alguma intercorrência, de saúde ou política, impedir que termine o eventual mandato, seu substituto será o vice Geraldo Alckmin, outra raposa política vinda dos tucanos para o petismo, capaz de cantar a Internacional Socialista com a mesma entonação monocórdica com que acusava Lula de ter roubado na eleição presidencial que disputaram entre si em 2006.

Novo primeiro-ministro britânico, Andy Burnham critica neoliberalismo e promete guinada à esquerda, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Fantasiado de lixeira, candidato de protesto ameaça derrotar líder da ultradireita populista

Nesta segunda-feira, Andy Burnham cruzará os portões do Palácio de Buckingham para uma audiência com o rei. Charles III vai perguntar se o novo líder do Partido Trabalhista aceita formar um governo em seu nome. O rito se repete há mais de três séculos — mas nunca foi encenado tantas vezes em tão pouco tempo.

Ex-prefeito de Manchester, Burnham se tornará o sétimo primeiro-ministro britânico em uma década. A instabilidade começou quando a população da ilha foi às urnas e tomou uma decisão estúpida: abandonar a União Europeia.

Elisabeth, a menina de Renoir, por Elio Gaspari

O Globo

Acaba de sair no Estados Unidos o livro “The Renoir girls”, com a trágica história das irmãs retratadas pelo pintor francês

Um dos mais admirados quadros do Museu de Arte de São Paulo é do pintor francês Renoir: chama-se “Rosa e Azul”. Retrata duas meninas: Alice (a de vestido rosa), de 5 anos, e Elisabeth (de azul), de 6, filhas do casal Louis e Louise Cahen d’Anvers, estrelas da granfinagem parisiense. Renoir recebeu 1.500 francos pelo serviço, não ficou muito satisfeito, mas o quadro foi bem de crítica. Acaba de sair no Estados Unidos o livro “The Renoir girls”, com sua história.

No fim do século XIX os Rothschild, com seu banco e seus castelos, eram conhecidos como os reis dos judeus, e os d’Anvers (também judeus) estavam ligados aos Ephrussi, os reis do trigo. Faziam parte da elite francesa ou supunham fazer parte dela, pois o ranço antissemita sempre estava pronto para mais um bote.

O mais importante sobre o novo tarifaço não é a tarifa, por Matias Spektor*

O Globo

O objetivo não pode ser apenas exportar mais, mas usar a integração comercial para elevar a produtividade da economia

O erro mais comum na discussão sobre as novas tarifas americanas contra o Brasil é tratá-las como mais um episódio da turbulenta relação entre Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva. Essa dimensão existe. Mas ela esconde a transformação mais importante.

Os Estados Unidos passaram a reorganizar sua política comercial em torno do poder nacional. O comércio tornou-se instrumento de competição estratégica — controles de exportação de tecnologia sensível, exigências de conteúdo local para subsídios industriais, triagem de investimentos por segurança nacional. Quando a Suprema Corte anulou parte das tarifas de 2025, o governo Trump reconstruiu sua política tarifária sobre bases jurídicas mais sólidas. As novas tarifas contra o Brasil são parte dessa estratégia mais ampla.

EUA apostam em testosterona para vencer, por Dorrit Harazim

Por O Globo

Esteroide é a receita de Pete Hegseth para reverter a incapacidade de Trump de ganhar as guerras que inicia

O operador de teleprompter Gabriel Pérez trabalhou para Donald Trump por dez anos. Conseguia engordar o salário de US$ 170 mil anuais fazendo apostas na Kalshi (maior concorrente da Polymarket) sobre a duração, os temas e determinadas palavras que o chefe usaria em discursos. A barbada tinha lucro garantido, pois são notórias a esqualidez, vulgaridade superlativa e previsibilidade do vocabulário de Trump.

A jogatina do funcionário foi descoberta poucas horas antes da fala presidencial da semana passada, levando à sua demissão. De todo modo, Pérez teria perdido a aposta. O discurso anunciado por Trump como de importância capital e com revelações tonitruantes durou menos de meia hora em horário nobre —uma merreca para a verborragia habitual. Sequer foi transmitido na íntegra por Fox News, ABC e CNN. É possível que o próprio Trump não aguentasse ouvir por mais tempo sua ladainha de que houve fraude na eleição de 2020, em benefício do democrata Joe Biden. Em fala arrastada, listou um cipoal de “evidências novas” de interferência da China, com respingos até contra a infeliz Venezuela, e deu o recado central: diante da falência do sistema eleitoral americano, será preciso antecipar-se às inevitáveis fraudes no pleito de novembro próximo. Tradução: vale tudo para impedir que os democratas reconquistem maioria na Câmara e/ou no Senado, como apontam as pesquisas de opinião mais recentes.

A inegável motivação política de Trump, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Os Bolsonaros atacaram, Lula tentou defender e perdeu. Trump ganhou a guerra

A palavra de ordem na crise das tarifas entre Brasil e EUA é negociação, mas isso depende de algo básico: combinar com os adversários. Não há conversa se um dos lados fecha portas e ouvidos e esse é o caso de Donald Trump e Marco Rubio, que não estavam e não estão dispostos a conversar governo a governo. Quando um não quer, dois não brigam. Quando um não quer, ninguém negocia.

O presidente Lula não passa ileso de críticas, desde que, apesar da “química” com Trump, insistiu em dar caneladas no presidente americano. Uma ou outra eram indispensáveis, mas a insistência foi além do necessário. Isso, porém, não significa que o Brasil não tenha se esforçado para negociar.

O Brasil e outra oportunidade perdida, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

Na ofensiva tarifária de Trump a lição para os brasileiros é: não seja eficiente, seja dependente do governo

A tarifa americana de 25% aprofunda a escolha do Brasil de privilegiar setores ineficientes, sacrificar os eficientes, elevar o protagonismo do Estado, intensificar a transferência silenciosa de riquezas para grupos privilegiados e a dependência da China. Antes da ofensiva de Donald Trump, os EUA impunham alíquota média de 3%; a União Europeia, de 4%; o Mercosul, 11%.

Empresas com mais poder político usufruem de proteções ainda maiores: 18% para o etanol, 20% para produtos industrializados, 35% para automóveis e 63% para resinas termoplásticas, se consideradas as ações antidumping.

Ucrânia e Oriente Médio, por Celso Lafer*

O Estado de S. Paulo

O desafio de calibrar as respostas do País a este cenário internacional é a primeira prioridade da política externa brasileira

As guerras, assim como a paz que delas pode resultar, são camaleônicas. Mudam de aspecto e de caráter em função de sua duração, dos beligerantes envolvidos, da pluralidade das armas, das constelações diplomáticas e da dinâmica do poder e da força em ação.

As guerras na Ucrânia e no Oriente Médio têm especificidades próprias e distintos atores. Representam o paradigma do uso da força como meio de solução de tensões e conflitos.

Ambas têm como horizonte uma reconfiguração geopolítica das regiões em que vêm sendo travadas, e vêm tendo um impacto significativo na dinâmica da vida internacional, que vai muito além do de seus espaços próprios.

Lula chama Trump para guerra no teatro do ufanismo, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

O presidente ganhou o lance do tarifaço, mas corre o risco de passar do ponto na exploração da vitória

O embate da soberania não se sustenta se contraria o interesse nacional e ignora demandas urgentes do país

Flávio Bolsonaro (PL) perdeu de lavada para Luiz Inácio da Silva (PT) no quesito tarifaço e disso deu notícia completa a pesquisa Quaest em que o senador gabaritou negativamente o questionário feito sobre o assunto. O eleitorado deu razão a Lula de A a Z.

No universo da política, a avaliação também foi ruim, a começar pelo candidato que já havia reconhecido o prejuízo no pedido do adiamento para não favorecer o adversário. Quem não criticou, calou, como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).

Se é isso que a direita faz com o Brasil acima de tudo, o Deus acima de todos que se cuide, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Toda vez que Flávio Bolsonaro cai nas pesquisas, pede para a Casa Branca punir os brasileiros

Se tarifaço fosse de esquerda, todas as legendas mais ou menos progressistas já teriam perdido registro

Toda vez que Flávio Bolsonaro cai nas pesquisas, pede para a Casa Branca punir os brasileiros. Do jeito que a coisa vai, temo que o Brasil seja alvo de um ataque nuclear americano se vazarem vídeos do filho do Jair pelado na festa do Vorcaro.

Os sucessivos tarifaços americanos são a maior agressão à soberania brasileira desde que os nazistas afundaram navios em nossa costa. O bolsonarismo é o único movimento da história brasileira que tentou roubar uma eleição presidencial por intervenção aberta de superpotência estrangeira.

E o máximo que pode acontecer a essa turma é perder dois ou três pontos nas pesquisas presidenciais.

Um conto ao pé da letra, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Ficção de Margaret Atwood ganha veracidade na trama político-social dos EUA; alvo inicial é o voto feminino

O mais grave é que as próprias mulheres possam concordar com essa autodestruição da liberdade

"O Conto da Aia", uma das ficções mais influentes da literatura distópica contemporânea, é, em princípio, uma crítica de Margaret Atwood aos regimes totalitários, com foco no controle político sobre o corpo feminino, na perda dos direitos civis e na dominação religiosa. A história: na República de Gilead, teocracia que substituiu o governo americano após um golpe, uma grave crise de fertilidade obriga mulheres férteis a se tornarem "aias", reprodutoras de membros da elite dirigente.

Aventureiros e larápios, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Livro traz perfil de 15 pessoas responsáveis por quebras espetaculares de mercados

Há desde visionários que agiram com boa-fé até facínoras que recorreram a métodos mafiosos

Os manuais de direito penal asseguram que não existe estelionato ou fraude culposos. Não é possível aplicar um golpe "sem querer". A própria definição do crime já exige a intenção de cometê-lo. Mas "Aventureiros e Larápios", de Roberto Teixeira da Costa e Fábio Pahim Jr., mostra que o mundo tende a ser mais complicado do que querem nossas teorias.

O livro traz o perfil de 15 personagens que quebraram os mercados. Alguns, os aventureiros, eram visionários que cometeram erros de boa-fé e tentaram sair honradamente da encrenca. Um bom exemplo é Irineu Evangelista de Souza, o barão de Mauá. Apesar da espetacular falência, deixou um legado positivo para o país.

A grande final, por Tostão

Folha de S. Paulo

Seleção argentina joga com lucidez e troca passes com precisão, superando adversários

Espanha pode colocar Argentina na roda com posse de bola e passes em círculo

Contra a Inglaterra, a Argentina foi novamente um time alucinado, sem perder a lucidez, a capacidade de trocar passes, de fazer as escolhas certas, de superar as dificuldades e de ultrapassar os limites.

futebol é muito mais que um jogo de talentos individuais e de planejamento tático. É um jogo de emoções, teatro da vida.

Messi é um supercraque ao lado de excelentes jogadores. Todos se entendem pelo olhar e pela consciência coletiva. Além de genial, Messi é uma pessoa simples, discreta, com muita seriedade profissional e sem os trejeitos e idiotices das celebridades e dos fictícios personagens.

Poesia | Resíduo, de Carlos Drummond de Andrade, voz Paulo Autran

 

Música | Beth Carvalho - O que é o que é, de Gonzaguinha

 

sábado, 18 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Socorro para exportadores deve respeitar limites

Por O Globo

A crise do tarifaço não é desculpa para mais oportunismo do governo e do Congresso em ano eleitoral

Exige cautela a preparação de socorro para as empresas que serão afetadas a partir da quarta-feira pelo tarifaço de 25% imposto pelo presidente americano Donald Trump. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio estima que a nova taxação afetará 18% das exportações para os Estados Unidos, fatia correspondente a US$ 7,4 bilhões. A mudança não deverá ter reflexo macroeconômico significativo, mas é fato que setores fora da lista de exceções, como a indústria de calçados e mobiliário, sofrerão.

Na antessala das eleições, tarifaço aproxima Lula de empresários, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Ministros, que andavam desorientados sobre como ajudar na campanha, agora perguntam aos empresários: 'Do que que vocês precisam?'

Petista pegou carona na janela aberta pelas novas tarifas e aproveitou para reforçar a defesa incondicional do Pix

Um ano após o primeiro tarifaço do governo dos Estados Unidos, o senador Flávio Bolsonaro deu um baita presente para o presidente Lula ao estimular que o balcão de negócios de Donald Trump virasse tema eleitoral no Brasil.

Na antessala do início oficial da campanha política, no dia 16 de agosto, Lula voltou a abraçar o discurso da soberania depois que o pré-candidato do PL foi até os Estados Unidos participar da negociação comercial e pediu ao governo Trump que adiasse a decisão do tarifaço para depois do resultado das eleições.

Bolsonaros se enrolam com tarifas, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Flávio não se livrou de pecha de traidor da pátria e ainda mostrou que tem pouca influência em Washington

Razão principal de nova rodada de sobretaxas é decisão da Suprema Corte que anulou tarifaço do Liberation Day

A vantagem estratégica do Brasil é que sua ultradireita é particularmente incompetente. Flávio Bolsonaro conseguiu duplicar seu prejuízo no imbróglio das tarifas dos EUA.

Os Bolsonaros já carregam a pecha de "traidores da pátria" devido ao lobby que Eduardo vem fazendo para que o governo Trump imponha sanções ao Brasil. No final de maio, Flávio viajou a Washington e foi recebido na Casa Branca. Pediu e obteve do presidente a classificação do PCC e do CV como organizações terroristas. Diz também que tentou nesse encontro sensibilizar Trump para não adotar sobretaxas contra produtos brasileiros.

Infantino e Trump na final da Copa, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Para desgosto de nossos cartolas, será difícil tirar do presidente da Fifa o título de 'rei do tapetão'

Apoteose de vaias para o dirigente foi um dos momentos inesquecíveis deste Mundial

Em meio ao baile com olé que a Espanha deu na França na semifinal da Copa, os telões do estádio dos Dallas Cowboys, no Texas, mostraram o presidente da Fifa nas tribunas. Imediatamente Gianni Infantino recebeu o carinho da galera: apupos, assobios e xingamentos. Uma apoteose de vaias, para citar Nelson Rodrigues.

Ainda não se sabe se o programador de imagens da Fifa continua no cargo. Se dependesse de mim, o homem ganharia uma gratificação salarial. Foi um dos momentos inesquecíveis da Copa de 2026. E, por sorte, sem a interferência engessante do VAR.

A guerra é um presente, mas não para os EUA, por Fareed Zakaria

O Estado de S. Paulo

Sem disparar um único tiro, a China viu três de seus objetivos de longa data ganharem impulso

A mudança será gradual, mas a tendência é o afastamento da hegemonia do dólar

À medida que a tensão com o Irã oscila de uma semana para outra, uma tendência fica clara: a China é a maior beneficiária do conflito. Pequim não precisou disparar um único tiro, gastar quantias vultosas ou consumir capital político. No entanto, obteve mais ganhos com a crise do que com qualquer outro país nas últimas três décadas.

O conflito acelerou três objetivos de longa data da China: um Oriente Médio menos dependente dos EUA; um mundo mais dependente de tecnologias chinesas; e a consolidação da reputação de Pequim como uma potência mundial séria e estável.

Tarifaço é tentativa de subordinar o Brasil, por Flávia Oliveira

O Globo

As digitais do clã Bolsonaro estão na guerra econômico-financeira de Trump contra o país

O Brasil começa a sentir no bolso os efeitos do bombardeio (não militar) aplicado pelos Estados Unidos para obter rendição política. O Fundo Monetário Internacional (FMI) dedicou a mais recente edição de sua revista quadrimestral “Finance & Development” à ordem global regida pela geoeconomia. Trata-se do uso de sanções financeiras e comerciais em prol de dividendos políticos e econômicos — em outras palavras, a doutrina Donald Trump. Na semana que vem, entra em vigor a terceira onda de retaliações dos Estados Unidos. Em 12 meses, o país já enfrentou tarifaço de 50%, parcialmente revisto; interdição a autoridades, incluindo o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF); e, agora, taxação de 25% como punição contra (supostas) práticas desleais nas vendas externas.

Império no ataque, por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

Os norte-americanos, na era Trump, rasgaram a fantasia. Surgiu um Império, que pretende extrair vantagens de suas colônias, transformadas em vassalos. Vale lembrar Ulysses Guimarães quando disse que "o Brasil não é uma Uganda qualquer"

Donald Trump não hesita em cometer desatinos. Maiores ou menores, ele marca sua passagem pelo poder como exemplo de ganância, revanche contra opositores e desprezo pela vida humana. O presidente dos Estados Unidos utilizou seu enorme poder militar para colocar a Venezuela de joelhos. Invadiu, prendeu e sequestrou o presidente Nicolás Maduro. Em seguida, seus negociadores tomaram, na mão grande, o petróleo do país vizinho. Washington determina quando, como e para quem o produto deve ser vendido. Os lucros, naturalmente, vão para o norte.

A eleição sem mulheres, por Juliana Diniz*

O Povo (CE)

Os partidos seguem tratando a representação feminina como ativo simbólico, sem transformá-la em critério para distribuir o poder

Após uma semana de negociações aceleradas, as chapas da oposição e situação começam a tomar forma no Ceará. O campo governista anunciou uma composição que deve assegurar a tentativa de reeleição de Elmano de Freitas. Para o senado, o nome de Cid Gomes foi confirmado, garantindo-se a primeira suplência para Júnior Mano.

A solução, chancelada por uma foto do presidente Lula com as principais lideranças envolvidas, parece acomodar os interesses de Freitas, Santana e Cid Gomes no estado, evitando-se uma ruptura que poderia comprometer as chances de reeleição petista. PT, PSB e MDB devem caminhar juntos e oferecer um grande desafio ao PL e PSDB.

A terceira face de Janus, por Ricardo Marinho*

A ideia da terceira face de Janus refere-se a uma interpretação filosófica, poética e analítica desse mito romano. Enquanto a representação clássica ele possui duas faces (uma olhando para o passado e outra para o futuro). A terceira face simbolizaria o presente, o momento de transição e a tomada de decisão no agora, na conjuntura.

A terceira face de Janus está aí, convertido num terceiro ator que se une à conjuntura mundial, onde estados e sociedades podem regredir para uma estrutura anacrônica internacional, na qual a força prevalece sobre a razão, e tornou-se mais difícil conviver com base em regras acordadas, que permitem um contexto de acordos multilaterais que geram uma realidade com imperfeições. mas capaz de se desenvolver de forma civilizada, sem a ameaça, o medo e a liquidação do outro.

A globalização e a Copa, por Marcus Pestana

Amanhã, teremos a final da maior Copa do Mundo da história do futebol. Foram 48 seleções dos cinco continentes. O modelo sofreu críticas, mas é inegável, que num planeta abalado por conflitos como os da Ucrânia e do Oriente Médio, patrocinou um momento de grande congraçamento entre os povos. Foi um formato que permitiu a participação de países como Curaçao, Jordânia, Cabo Verde, Catar, Congo e Uzbequistão, que provavelmente estariam fora nas regras anteriores.

Nem tudo foram flores. México e Canadá deram aula de acolhimento e simpatia. Já Trump e seu governo envergonharam a opinião pública internacional com atitudes explícitas de preconceito e xenofobia. Submeteram seleções africanas e asiáticas a revistas humilhantes, impuseram à seleção iraniana uma situação absurda, barraram a entrada do juiz somali Omar Artan, eleito o melhor da África em 2025, por supostas ligações com organizações terroristas. E a subserviência da FIFA foi vergonhosa.

Psicodrama eleitoral, por Murillo de Aragão

Revista Veja

A plateia não está gostando nada do que está assistindo

As eleições percorrem uma trilha novelesca que transita pelo gangsterismo clássico, ora passando pelos crimes de colarinho branco, quase sempre envolvendo histórias de corrupção. Tudo regado a fortes doses de influência política e advocacia administrativa. Em 2026, o enredo vai além: inclui brigas de família no arraial bolsonarista e ameaças entre presidentes. Vale dizer que as relações de Lula com Trump sempre foram permeadas de bravatas de lado a lado.

Permanência com aprendizado, por Cristovam Buarque

Revista Veja

A escola precisa louvar o prazer de estar numa sala de aula

Em 1994, a Editora Paz e Terra publicou A Revolução nas Prioridades: da Modernidade Técnica à Modernidade Ética. Além de formular o conceito das duas modernidades e apresentar um capítulo sobre os dez erros da modernização brasileira, o livro propunha 100 medidas para orientar o futuro do Brasil. A primeira era o pagamento de uma renda mensal às mães para que seus filhos não faltassem às aulas; a segunda, o depósito anual de um valor em poupança ao final de cada ano se o aluno fosse aprovado, a ser liberado quando ele concluísse o ensino médio. Em 1995, o governo do Distrito Federal adotou essas duas medidas, com os nomes de Bolsa-Escola e Poupança-Escola. Cinco anos depois, a primeira foi levada para todo o Brasil pelo governo Fernando Henrique Cardoso; em 2004, o presidente Lula a transformou no Bolsa Família, retirou sua gestão do MEC e ampliou seus beneficiários a todos que precisavam de ajuda; em 2003, seu então ministro da Educação apresentou um projeto de lei para estender a Poupança-­Escola a todo o Brasil, mas somente 21 anos depois, graças à deputada Tabata Amaral, a proposta foi finalmente adotada, com o nome Pé-de-Meia.

Guerra contra a Justiça, por Jamil Chade

CartaCapital

Trump age para desmantelar o Tribunal Penal Internacional

Donald Trump declarou guerra contra a Justiça internacional. Em uma operação diplomática de chantagem e de ameaças, o governo norte-americano colocou em prática a maior ofensiva contra a ideia do direito internacional e a perspectiva de criminosos de guerra não ficarem impunes. Na segunda-feira 13, de maneira solene, o secretário de Estado, Marco Rubio, anunciou que sua missão passou a ser a de desmantelar o Tribunal Penal Internacional, com sede em Haia.

Casos de família, por Pedro Serrano

CartaCapital

O perigo persiste, pois os dramas do clã Bolsonaro tendem a produzir pouca ou nenhuma repercussão em base eleitoral, acometida por uma cegueira deliberada

Nos últimos dias, revivemos, pelo noticiário, os conflitos da família Bolsonaro. Em vez de coalizões republicanas, que naturalmente antecedem os processos eleitorais, as movimentações têm se assemelhado a programas de televisão nos quais as desavenças familiares são expostas de forma crua.

A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro divulgou um vídeo em que expõe desentendimentos com Flávio Bolsonaro, apontado pré-candidato à Presidência da República. Em resposta, o senador tornou pública uma carta escrita pelo pai. O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, entendeu que houve violação da medida cautelar imposta ao ex-presidente Jair Bolsonaro, que o proíbe de utilizar redes sociais, diretamente ou por intermédio de terceiros, e proibiu Flávio de visitá-lo por 90 dias.

Presente de grego, por André Barrocal

CartaCapital

De volta à berlinda por causa das emendas, o Parlamento aprova pautas-bombas e entra em recesso

O Congresso sai de recesso e volta para valer ao batente apenas após a eleição de outubro. Até lá, haverá ­duas semanas de “esforço concentrado”, em agosto e setembro, um costumeiro faz de conta com o qual ­deputados e senadores tentam mostrar ao eleitor que não estão com a cabeça somente na própria campanha. Antes de fechar as portas, o Legislativo aprovou (mais) uma “bomba” financeira para o governo. É a aposentadoria especial para agentes comunitários de saúde. Cerca de 400 mil trabalhadores serão beneficiados, caso o Supremo Tribunal Federal dê sinal verde. A equipe econômica pretende recorrer ao STF pois, em um julgamento anterior, a Corte decidiu que o Legislativo precisa apontar fontes de receita sempre que criar despesa nova, o que não ocorreu neste caso. Estima-se um gasto extra de 2,7 bilhões de reais por ano em uma década com essa inatividade especial. Por se tratar de mudança constitucional, o Parlamento tem de marcar uma sessão para promulgá-la. Ainda não há data, depende do presidente do Congresso, Davi Alcolumbre.

A relação financeira Brasil-China, por Luiz Gonzaga Belluzzo

CartaCapital

A emissão de Panda Bonds pelo mercado brasileiro é mais um passo rumo à mudança do sistema monetário

Registram o China Daily e o ­Global Times, jornais chineses: em reunião em Pequim, autoridades do país e brasileiras celebraram o acordo que permite a emissão de Panda Bonds. Os Panda são títulos, públicos e privados, denominados em renminbi nos mercados financeiros da China. O Brasil foi a primeira nação autorizada a emitir títulos Panda. Outras certamente estão na fila.

Isso nos faz recordar os trabalhos elaborados para as reuniões que precederam as reformas de Bretton Woods em julho de 1944. John Maynard Keynes formulou a proposta mais avançada e internacionalista de gestão da moeda internacional. Com base nas regras de administração da moeda bancária, o Plano Keynes previa a criação de uma entidade pública e supranacional encarregada de controlar o sistema internacional de pagamentos e de providenciar liquidez aos países deficitários. Tratava-se não só de contornar o inconveniente de submeter o dinheiro universal às políticas econômicas do país­ emissor, como observamos agora, mas de evitar que a moeda internacional assumisse a função de perigoso agente da instabilidade financeira internacional.

Poesia | A velhice pede desculpas, de Cecília Meireles

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Música | Gal Costa - Camisa Amarela, de Ary Barroso


sexta-feira, 17 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Reação a tarifaço deve centrar em consumidor afetado

Por O Globo

Pressão de empresas e cidadãos americanos prejudicados pode reverter parte da medida

Não causou surpresa a decisão do governo americano de impor novas tarifas de 25% sobre diversos produtos brasileiros. Foram cinco reuniões de alto nível entre representantes dos dois países desde a criação de um grupo de trabalho bilateral em maio, mas os argumentos técnicos apresentados não surtiram efeito. Apesar do revés, o governo e o empresariado devem redobrar os esforços para manter canais de comunicação abertos e informar os consumidores americanos dos prejuízos que terão com a medida. Não está descartada a hipótese de uma nova pressão aumentar o número de itens na lista de exceções, imunes à elevação das tarifas.

Trump como cabo eleitoral de Lula, por Vera Magalhães

O Globo

Novo tarifaço não só dá ao petista chance de reforçar discurso de defesa da soberania como pode possibilitar edição de medidas no período vedado pela lei eleitoral

Parte da recuperação de Lula nas pesquisas se deveu a uma série de medidas adotadas por ele no período pré-eleitoral, mas o presidente também se beneficiou, desde 2025, de decisões do governo dos Estados Unidos e de crises na campanha de Flávio Bolsonaro nas quais soube surfar. O tarifaço 2.0 de Donald Trump dá a ele mais uma janela de oportunidade.

Desta vez, a agressividade adotada por Marco Rubio em sua postagem nas redes sociais, quando tentou imputar a Lula, sem dados, a responsabilidade pela decisão arbitrária do governo americano, permite ao petista não só repetir o discurso da soberania nacional, mas sair como o moderado na discussão.

O amigo americano, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Senador simula indignação com medida de Trump, mas pesquisa mostra que só 30% acreditam em sua versão sobre ataque americano

Depois de um mês de ameaças, o governo americano baixou um novo tarifaço sobre produtos brasileiros. O secretário Marco Rubio não disfarçou o teor político da medida. Num tuíte pouco diplomático, atacou o presidente Lula e disse que ele teria colocado “o próprio ego” à frente das negociações.

É curioso um subordinado de Donald Trump criticar o ego alheio, mas o pior ficou para as justificativas. A Casa Branca voltou a reclamar do Pix, de decisões judiciais que contrariaram big techs e até do desmatamento da Amazônia, que caiu pela metade nos últimos três anos.

Lula se cercou de passado para vender o futuro, por Andrea Jubé

Valor Econômico

Última campanha eleitoral do presidente começará na Vila Euclides, no lugar onde iniciou sua trajetória política

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva enfrenta uma contradição. Prestes a completar 81 anos em 27 de outubro, dois dias após o segundo turno das eleições, ele já tem a retórica contra o etarismo: “Tenho compromisso com Deus para viver até 120 anos de idade”, tem reiterado. Mas o desafio vai além: implica pregar o futuro e vender esperança aos brasileiros após quatro décadas de vida pública, três mandatos presidenciais e alta rejeição.

A mais recente rodada da pesquisa Genial/Quaest, divulgada na quarta-feira (14), mostrou que 50% dos entrevistados conhecem e não votariam em Lula. Este dado atesta o cansaço de metade do eleitorado com o líder petista. Porém, mesmo diante desse obstáculo, o presidente decidiu caminhar rumo ao quarto mandato embalado de passado. Eis o paradoxo.

Tarifaço indica que objetivos de Trump vão além de interferir em política do Brasil, por César Felício

Valor Econômico

Movimentos dos EUA vão compondo uma espécie de avanço na América Latina que potencialmente estabelecem um cerco à maior economia da região

novo tarifaço decretado pelo presidente americano Donald Trump contra o Brasil claramente tem potencial de beneficiar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na corrida eleitoral. Essa correlação foi mencionada pelo próprio senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em sua exposição no início do mês no Congresso americano e evidentemente não é desconhecida da Casa Branca.

A opção de fazê-lo, e fazê-lo agora, e de forma a vinculá-lo diretamente a Lula, como deixou claro a postagem do secretário de Estado Marco Rubio nas redes sociais, indica que seu objetivo vai além de questões políticas conjunturais brasileiras. O que tudo indica é que está em curso uma confrontação de fôlego maior, para os próximos anos. A postagem de Rubio torna improvável um aperto de mãos entre Lula e Trump como houve em outubro do ano passado. Ele responsabilizou nominalmente o presidente brasileiro. Queimou os galeões.