domingo, 8 de março de 2026

Entrevista | Alberto Almeida: ‘Lula é favorito para perder, e caso Master afeta mais a esquerda que a direita’

Por Thiago Prado / O Globo

Entrevista com o sociólogo e escritor, que aponta a necessidade do presidente melhorar a avaliação para ser reeleito.

O cientista político e sociólogo Alberto Carlos Almeida costuma ser uma voz que a esquerda considera relevante ouvir para tomar decisões. Antes de lançar seus últimos dois livros, foi recebido em Brasília por petistas como o presidente Lula, os ministros da Casa Civil, Rui Costa, e da Secretaria das Relações Institucionais, Gleisi Hoffman, e os senadores Jaques Wagner e Humberto Costa.

“A mão e a luva: o que elege um presidente” enaltece a importância dos resultados econômicos para um governante ser bem avaliado e, consequentemente, se reeleger. “A cabeça do brasileiro, vinte anos depois: o que mudou” lança luz sobre o perfil conservador do eleitor brasileiro. Em entrevista para a newsletter “Jogo Político”, Almeida explica por que considera em risco a reeleição de Lula em outubro mesmo com o petista na liderança das pesquisas.

Empate entre Flávio e Lula indica campanha eleitoral resolvida antes de começar, por César Felício

Valor Econômico

Os dois provavelmente seguirão assim até o desfecho. Somente a ditadura do imponderável desviará esse curso

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) atingiu o patamar de 33% de intenção de voto para presidente no primeiro turno, de acordo com o Datafolha divulgado nesse sábado. No segundo turno contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, vai a 43%, três pontos percentuais atrás do petista. A rejeição do senador é de 45% e a do presidente, 46%. O cruzamento dos dois indicadores deixa claro que o presidente já bateu no seu teto. O ponto de chegada das eleições, para o qual ainda faltam sete meses, deve ser igual ou menor do que o ponto de partida, Lula não tem outro eleitorado a conquistar.

Já o herdeiro do bolsonarismo ainda tem algum espaço de crescimento no primeiro turno, sobretudo se agregar o apoio do governador Romeu Zema ( Novo), que patina entre 4% e 5%, conforme a simulação, e que é frequentemente lembrado como um bom candidato a vice. A soma de Flavio e Zema no primeiro turno levaria o oponente de direita a empatar com o presidente, que oscila entre 38% e 39%.

No segundo turno a equação está dada: Lula e Flávio já estão empatados e provavelmente seguirão assim até o desfecho, mantidas as condições naturais de temperatura e pressão. Somente a ditadura do imponderável desviará esse curso. A campanha eleitoral ainda não começou e parece já concluída.

Não, Joel, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

A candidatura Flávio Bolsonaro existe porque a estratégia da direita, a moderação do bolsonarismo, fracassou

Flávio e sua quadrilha tentam impichar ministros do STF desde muito antes do caso Master

Em resposta a minha coluna do último domingo (1º), Joel Pinheiro da Fonseca escreveu nesta Folha, no dia 2 de março, que Flávio Bolsonaro não é golpista; que Flávio pedir impeachment de ministros do STF o iguala a quem critica os ministros pela atuação no caso Master; e que a hegemonia bolsonarista dentro da direita brasileira é um fato incontornável, diante do qual tudo que a direita tradicional pode fazer é se adaptar.

Não, Joel.

A candidatura Flávio Bolsonaro nunca foi inevitável. Ela existe porque a estratégia da direita brasileira nos últimos três anos, a moderação do bolsonarismo, fracassou. Você a defendeu explicitamente na coluna "Precisamos do bolsonarismo moderado", de 29 de abril de 2024. Deu errado. Vocês queimaram os governadores de direita, que se sujeitaram às piores perversões de Jair para conseguir um apoio que nunca veio.

Trump pode se render à política antes da rendição incondicional do Irã? Por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Carestia dos combustíveis ainda não abala prestígio do presidente dos EUA, ora sem rumo

Apenas o Japão de 1945 foi caso inequívoco de aceitação total de termos do inimigo

Donald Trump escreveu em sua rede social, na sexta (6), que não haverá acordo ("deal") com o Irã a não ser em caso de "rendição incondicional". Em tese, trata-se de qualquer situação em que uma força combatente deponha as armas e aceite condições quaisquer do inimigo, sem mais, mesmo que não lá draconianas. O assunto poderia dar pista sobre a suspensão da guerra e, pois, do seu efeito econômico (as consequências políticas vão longe).

O caso mais inequívoco, se não único, de rendição incondicional em guerra internacional moderna foi o do Japão de agosto de 1945. O império japonês se rendeu às ordens de depor armas e de desarmamento, entrega de territórios ocupados; aceitou ocupação militar, subordinação do governo ao ocupante e mudança de regime, para resumir exigências da Declaração de Potsdam (julho de 1945).

Os fantasmas que nos regem, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Mente-se na religião, no direito, na política e na economia, e quanto maior a mentira, maior a sedução

Limite é atingido quando se democratiza o grande absurdo na fantasmagoria do cotidiano

"Eu não acredito em fantasmas, não porque sejam invisíveis, mas porque são visíveis demais." Embora esta frase atribuída a Nietzsche não se encontre em nenhum de seus escritos, é bastante coerente com seu pensamento, em que realidade é terra e corpo. Outro tipo de "fantasma" foi abordado por Roland Barthes numa das críticas das mitologias pequeno-burguesas, em meados do século passado. Dessa vez eram os óvnis, também visíveis demais, porque nos relatos eram imaginados como duplos dos humanos. Se existissem, ironizava ele, deveriam ter um Estado, classe dirigente, forças armadas, um papa e as heresias.

Enquanto Israel dormia, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Livro faz necropsia das falhas de segurança que permitiram ataque do Hamas

Excesso de confiança na tecnologia e erros políticos são dois destaques

"While Israel Slept", dos jornalistas Yaakov Katz e Amir Bohbot, é um livro de necropsia. Os autores examinam ao microscópio os erros dos serviços de segurança e do governo que possibilitaram o ataque terrorista do Hamas de 7 de outubro de 2023.

Israel tem o mais poderoso exército e os mais eficientes serviços de inteligência da região e ainda assim foi surpreendido pelo grupo palestino, que era considerado, tanto pelos militares como pelos políticos, o menos ameaçador dos três principais inimigos do país (os outros dois são o Irã e o Hezbollah). Como isso foi possível?

STF paga conta do espírito de corpo, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Ministros reclamam das críticas à corte e reivindicam que se observe a individualização de condutas

Se o colegiado respalda atitudes questionáveis, inevitável que o dano de imagem recaia sobre a instituição

Há ministros do Supremo Tribunal Federal profundamente desconfortáveis, diria até muito irritados e sentindo-se injustiçados com a tomada das partes pelo todo na descrição que tem sido feita do dano de imagem que atinge a corte.

Alegam a necessidade de que se faça a distinção entre condutas e reivindicam a aplicação do critério da existência de 11 (no presente, 10) supremos, ilhas de atuação independente, no lugar de se olhar o tribunal sob prisma único e com isso se desqualificar a instituição.

Congresso não quer aprovar projeto para evitar novos casos Master, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Com todo o estrago provocado por Vorcaro, o mínimo que se esperava era uma resposta célere

O Master era tudo, menos um banco; e depois reclamam da fiscalização do Banco Central

É grave o adiamento da votação do projeto de lei que aperfeiçoa os instrumentos do Banco Central para lidar com instituições financeiras em dificuldades, como aconteceu com o banco Master.

A impressão que fica é que o Congresso Nacional não quer aproveitar o momento de crise para passar a limpo as regras na tentativa de evitar novos casos Master. A esta altura, com todas as evidências do estrago que Daniel Vorcaro provocou ao montar uma engrenagem de fraudes aliada a um arco político de corrupção, o mínimo que se esperava era uma aprovação célere da proposta.

Lula - Pronunciamento à nação: Dia Internacional da Mulher

 

Poesia | Adiamento, de Fernando Pessoa

 

Música | Nara Leão - Samba de uma nota só (Tom Jobim)

 

sábado, 7 de março de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Moraes e Toffoli devem explicações com urgência

Por O Globo

Não podem pairar dúvidas sobre as relações de Daniel Vorcaro com altas figuras da República

As últimas revelações sobre o caso Master impõem aos ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), o dever de dar explicações urgentes e, acima de tudo, convincentes. As mensagens trocadas por Moraes com o banqueiro Daniel Vorcaro, reveladas pela colunista do GLOBO Malu Gaspar, são o desdobramento mais grave do caso desde que ela própria noticiou o contrato milionário do escritório de familiares de Moraes com o Master — jamais desmentido nem explicado. Ao mesmo tempo, as transações imobiliárias de Toffoli e seus familiares com o grupo de Vorcaro seguem envoltas em dúvidas.

PL Antifacção mal atinge o topo do crime organizado, por Daniel Cerqueira*

O Globo

Sem inteligência integrada e sem instrumentos modernos de investigação financeira, polícia e MP continuam enxugando gelo

Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei 5.582, batizado PL Antifacção. Em tom de vitória, o relator anunciou:

— Aprovamos a legislação mais dura contra o crime.

A frase rende manchete, mas não resiste à leitura atenta do texto. Comparada ao substitutivo aprovado no Senado, a versão final representa menos enfrentamento estrutural e mais retórica punitiva. O resultado é um projeto que endurece o discurso, mas enfraquece os instrumentos capazes de atingir o topo das organizações criminosas.

Há cinco décadas, o Brasil insiste na mesma fórmula: aumentar penas e ampliar o encarceramento como resposta automática à violência. O alvo quase sempre é a base da pirâmide — jovens recrutados e integrantes de baixa hierarquia do crime. Enquanto isso, o andar de cima se profissionalizou. Estruturou redes sofisticadas de lavagem de dinheiro, infiltrou-se em mercados formais e investiu em conexões políticas.

É só o começo, por Flávia Oliveira

O Globo

Uma eventual colaboração premiada de um ou mais envolvidos pode desnudar um esquema que o Brasil precisa expor. E superar

O escândalo do Banco Master, que o ministro Fernando Haddad, da Fazenda, já classificou como (possível) maior fraude do setor financeiro na História, é mais que isso. Cada novo capítulo destampa uma vertente da organização criminosa. Não é por acaso que a Polícia Federal (PF) pediu — e o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), concedeu — a prisão de Daniel Vorcaro em unidade federal de segurança máxima. O banqueiro é poderoso a ponto de interferir nas investigações, ameaçar testemunhas ou movimentar bilhões, mas também vulnerável à brutalidade de um sistema carcerário dominado por facções, caso do PCC, em São Paulo, e do Comando Vermelho, no Rio de Janeiro.

André Mendonça salvará o STF? por Thaís Oyama

O Globo

A partir de agora, é sobre ele que recairá o peso de decisões capazes de afetar os rumos das eleições

Mendonça era o “patinho feio” do STF — ou ao menos assim era visto por um grupo de colegas da Corte. Terrivelmente evangélico, indicado por um ex-presidente desprestigiado e condenado por golpismo, isolado e sem traquejo no palco do plenário, levou tempo até delimitar seu território e passar a abrir divergências com o grupo dominante, formado por Gilmar Mendes, Dias Toffoli e Alexandre de Moraes.

Penduricalhos, por Eduardo Affonso

O Globo

O cronista sai de carro, que comprou, financiado, porque o transporte público demora e é inseguro

A diferença entre o cronista e o romancista russo não está na quantidade de caracteres de que precisam para contar uma história, descrever um gesto.

O cronista acorda cedo e toma o café, pago do próprio bolso. Também o pão e a manteiga (possivelmente de um lado só) são por sua conta. No chuveiro, economiza água (que ele mesmo paga) e energia elétrica — a bandeira vermelha não tem esse nome à toa. O aluguel do apartamento (nem um pouco funcional), condomínio, IPTU, nada é subsidiado. Se atrasar, tem multa.

Tragédia moral, por Miguel Reale Júnior

O Estado de S. Paulo

O arcabouço político do País está corroído e a responsabilidade em grande parte se deve ao presidencialismo de cooptação e ao sistema eleitoral

Com aperto na garganta nos perguntamos se o Brasil tem jeito. A resposta, revestida de muitas dúvidas, exige um retrospecto.

A corrupção como forma de obtenção de apoio parlamentar, antes eventual, se institucionalizou com o mensalão. Minoritário na Câmara dos Deputados, o governo conseguiu a partir de 2003 a adesão de parlamentares de outros partidos mediante a entrega a eles de importâncias contínuas advindas de contratos fraudulentos com empresas de publicidade, gerando o conhecido mensalão. Julgado em 2012 pelo Supremo Tribunal Federal (STF), resultou na condenação de vários líderes partidários.

Esse processo não teve o condão de intimidar, pois enquanto se desenrolava o julgamento no STF instalou-se o petrolão, com ramificações em outras estatais. Constitui-se um tripé: empresas construtoras, diretores de empresas estatais e agentes políticos de diversos partidos.

Moraes sob o direito xandônico, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Será investir na incompreensão ler as mensagens de Vorcaro a Alexandre de Moraes – no dia em que seria preso pela primeira vez – sem ter como norte a existência do contrato, de quase R$ 130 milhões, a cerca de R$ 3,5 milhões mensais, entre o Master e o escritório Barci de Moraes, da esposa do ministro. Diga-se que Moraes, um salvador da pátria acessível, respondeu a todos os zaps do banqueiro, conteúdo indisponível porque apagado.

Guerra dá lucro, por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

Os Estados Unidos são um país que vive em guerra. Seu dispositivo militar determina a política externa e provoca conflitos que, para eles, são rentáveis

As duas bombas atômicas que os Estados Unidos jogaram sobre Hiroxima e Nagazaki, no Japão, em 1945, acabaram com a Segunda Guerra Mundial, na sua fase asiática. Mas também serviram para avisar à União Soviética do poder devastador de suas forças armadas. Os russos explodiram sua bomba em 1949 e devolveram o aviso. Agora, a inesperada ação militar combinada de Estados Unidos e Israel contra o Irã tem por objetivo defender a nação judia e avisar a China que o país está cercado por eficientes equipamentos de ataque. É a advertência de que a guerra continua e o Império do Meio enfrenta concorrentes poderosos.

Quem o 8 de Março inclui no Brasil? Por Rosi Costa

Correio Braziliense

A institucionalização do feminismo no Brasil produziu avanços significativos na ampliação de direitos civis, trabalhistas e políticos. No entanto, a incorporação das experiências das mulheres negras nesse processo foi desigual

A narrativa consagrada sobre o Dia Internacional da Mulher situa sua origem nas greves e marchas de operárias europeias no início do século 20. Esse marco é historicamente relevante, mas insuficiente para compreender a complexidade da desigualdade de gênero em sociedades marcadas por colonialismo e escravidão. No caso brasileiro, a leitura do 8 de Março deve considerar o dado estrutural da formação social de nosso país, a qual é organizada pelo trabalho forçado de africanas escravizadas, que sustentaram a economia. 

A institucionalização do feminismo produziu avanços significativos na ampliação de direitos civis, trabalhistas e políticos. No entanto, a incorporação das experiências das mulheres negras nesse processo foi desigual. A intersecção entre gênero, raça e classe é elemento constitutivo da desigualdade brasileira. Políticas formuladas sob o signo da universalidade tendem a reproduzir desigualdades que pretendem combater.

Mulheres livres e a crise da masculinidade, por Juliana Diniz

O Povo (CE)

Na véspera do Dia Internacional da Mulher, precisamos lembrar que os direitos nunca são conquistas definitivas, precisam ser reafirmados e protegidos permanentemente. Há séculos, nós mulheres almejamos o reconhecimento de nossa dignidade e nosso estatuto de sujeitos de direitos. Há séculos, enfrentamos resistência ante a todos os pequenos avanços alcançados.

É importante que esse movimento paradoxal entre avanço e negação dos direitos seja bem compreendido. Por que, ao mesmo tempo em que gozamos de um espaço de liberdade maior que nossas bisavós e trisavós, precisamos testemunhar tanta violência, tanta barbárie contra a mulher, como se nossa liberdade conquistada viesse acompanhada de maior risco? De onde vem tanto ódio quando uma mulher diz "não"? Quando uma mulher decide ir embora, quando uma mulher decide viver sua autonomia à revelia do homem?

Espantos e turbulências do caso Master apenas começaram, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Além da fraude bilionária, há mais a ser descoberto, o que apavora Brasília

Buraco negro da máfia financeira devora de pastores evangélicos a sugar babies

Buraco negro que a todos envolve e devora —golpistas financeiros, pastores evangélicos, magistrados, governadores, parlamentares de diversas cores (com predominância para os de direita e extrema direita), servidores do Banco Central, jornalistas e influenciadores, hackers, sugar babies—, o escândalo Master está longe de terminar. Além da fraude bilionária, há mais jogadas a serem descobertas, e é isso o que apavora Brasília na temporada eleitoral.

Turma de Vorcaro agia como a Máfia, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Era tudo coisa de gângster: Vorcaro e sua turma construíram um cenário de brutalidade de longo alcance

Com nova operação da PF, as suspeitas de que o antigo relator do caso, o ministro Dias Toffoli, atrapalhou as investigações aumentam

As revelações que vieram à tona no rastro da nova fase da operação Compliance Zero, deflagrada na manhã desta quarta-feira (4) pela Polícia Federal, mostraram que a quadrilha montada pelo banqueiro Daniel Vorcaro agia como uma máfia.

Era tudo coisa de gângster. Vorcaro e sua turma construíram um cenário de brutalidade de longo alcance.

Que tal substituir juízes por IA? Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Algoritmos são mais consistentes do que pessoas em todo tipo de julgamento

Menores custos e maior resistência à corrupção seriam vantagens adicionais

E se trocássemos os juízes por um algoritmo de IA (inteligência artificial)? Admito que há algo de capcioso na pergunta. Não tanto pelo conteúdo, mas pelo "timing". O Judiciário brasileiro vive um mau momento, com ministros do STF enrolados no escândalo do Master, o problema dos penduricalhos sob os holofotes da imprensa e o caso da venda de sentenças no STJ, entre outras histórias pouco edificantes.

Supremo em suprema encruzilhada aos 135 anos, por Oscar Vilhena Vieira

Folha de S. Paulo

Corte vive uma das mais graves crises de sua história

O que distingue a atual das anteriores é a sua dimensão interna

Ao completar 135 anos, o Supremo Tribunal Federal vive uma das mais graves crises de sua história.

Desde sua instalação, em 28 de fevereiro de 1891, as crises da República reverberam e se projetam sobre o Supremo. Responsável pela guarda da Constituição, num país marcado por sucessivas rupturas e por uma cultura política avessa ao governo das leis, não foram poucas as circunstâncias em que o Supremo teve sua autoridade afrontada, suas prerrogativas esvaziadas e seus membros ameaçados ou mesmo afastados de suas funções.

Floriano Peixoto, nos primeiros anos da República, descumpriu inúmeras decisões do Supremo que ousaram assegurar direitos a dissidentes. Indignado com a emergente independência do novo tribunal, teria advertido: se continuarem concedendo habeas corpus aos meus adversários, não sei quem amanhã concederá habeas corpus aos ministros do Supremo.

Direita e esquerda: uma distinção que ainda faz sentido? Por Marcus Pestana

A queda do Muro de Berlim e a dissolução da URSS trouxeram à tona a discussão sobre os conceitos de direita e esquerda, nascidos na Revolução Francesa, que haveriam se tornado obsoletos e superados como referências para o debate teórico e a ação política. O cientista político Francis Fukuyama, em seu livro “O fim da história e o último homem”, lançado em 1992, chegou a decretar, com grande repercussão, que os fatos ocorridos no final do século XX configuravam o coroamento da história humana e que o capitalismo e a democracia liberal seriam o ponto terminal e definitivo da civilização para todas as nações.    

O Judiciário no banco dos réus, por Aldo Fornazieri

CartaCapital

A sociedade está farta dos privilégios dos juízes e das decisões que afrontam a lei

A opinião pública colocou o Judiciário no banco dos réus. São pequenos e grandes desatinos, pequenos e grandes abusos dos que se sentem impunes porque se consideram senhores da lei ou acima dela. A crise é extensa, multifacetada e atinge a magistratura de alto a baixo.

A crise é de ineficiência, imparcialidade, morosidade, confiança e também moral. Claro que existem lapsos de eficiência e compromissos, merecedores de elogios, respeito e admiração. A forma como o Supremo Tribunal Federal enfrentou os atos golpistas e defendeu a democracia é um desses lapsos.

Bode na sala, por André Barrocal

CartaCapital

Fábio Luís da Silva, o “Lulinha”, volta a servir de instrumento da oposição para atingir o presidente da República

Em abril de 2020, Jair Bolsonaro era presidente e comandou uma reunião ministerial na qual soltou palavrões feito torcedor na arquibancada. Em certo momento, comentou que não iria “esperar foder” a família dele para mudar peças do governo. Na semana anterior, o filho mais velho, Flávio, tinha sido derrotado no Superior Tribunal de Justiça na tentativa de anular as quebras de sigilo bancário e fiscal decretadas por um juiz de primeira instância do Rio de Janeiro. O senador era investigado pelo Ministério Público e pela Polícia Federal por ter embolsado no passado verba pública que deveria pagar funcionários de seu gabinete de deputado estadual fluminense. No fim das contas, o “zero um” venceria a batalha pelos sigilos e jamais se sentaria no banco dos réus por causa das “rachadinhas”, mas Bolsonaro cumpriria a palavra, ou melhor, o palavrão dado aos ministros. Demitiu o chefe da PF dois dias depois da reunião.

As raízes do trumpismo, por Luiz Gonzaga Belluzzo

CartaCapital

Os EUA e o mundo flertam com o igualitarismo totalitário do “se você não é igual a mim, não tem direito a existir”

Diante de mais um espetáculo empreendido pelo projeto trumpista Make ­America Great Again, não faltam análises que insistem no reducionismo que restringe um fenômeno sócio-histórico às idiossincrasias amalucadas de Donald Trump. No entanto, há quem decrete a prevalência das forças sociais que se movem nos subterrâneos das aparências do individualismo.

Homens e mulheres foram alcançados pelos terremotos recorrentes da vida social submetida às condições políticas e econômicas da sociedade de massa capitalista. A pretendida autonomia do indivíduo, nascida no âmago do projeto iluminista, não resistiu aos percalços desatados pelas turbulências da vida social, econômica e política do capitalismo realmente existente.

Senhor da guerra, por Jamil Chade

CartaCapital

O presidente dos EUA abandona o figurino de “promotor da paz”

Ilegal em todos os níveis possíveis, a guerra iniciada pelos EUA contra o Irã tem o potencial de ser o fato que vai definir a presidência de Donald Trump e a própria posição norte-americana no mundo. Ao violar a Constituição norte-americana por não ter pedido autorização do Congresso e em completo desrespeito à Carta das Nações Unidas, o republicano abriu o que pode ser o ato pelo qual seu mandato será lembrado.

Em termos domésticos, Trump gerou uma crise profunda em sua base mais radical, com a explosão de vozes ultraconservadoras alertando que a ofensiva vai na contramão de sua promessa de campanha de acabar com o envolvimento dos EUA em “guerras sem fim”. O republicano, agora, terá de provar que não será um envolvimento militar como tantas outras guerras que ele mesmo criticou. Determinante, porém, será a duração do conflito.

Poesia | Brisa, de Manuel Bandeira

 

Música | Paulinho da Viola - Filosofia (Noel Rosa)

 

sexta-feira, 6 de março de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

PEC da Segurança trará avanços contra o crime

Por O Globo

Texto aprovado na Câmara representa resultado de concessões intrínsecas a qualquer negociação política

Superando impasses que pareciam incontornáveis, a Câmara enfim aprovou a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança, enviada há quase um ano ao Congresso. O texto aumenta a participação do governo federal no combate à violência, amplia o financiamento ao setor, promove maior integração entre os entes federativos, restringe benefícios a presos acusados por crimes graves, dá segurança jurídica para a Polícia Federal (PF) combater organizações criminosas, aumenta atribuições da Polícia Rodoviária Federal (PRF) e autoriza a criação de polícias municipais de natureza civil para policiamento ostensivo e comunitário. Não há dúvida de que a PEC representa um avanço em relação às lacunas atuais.

Ele fala inglês, por José de Souza Martins

Valor Econômico

Um brasileiro fez um discurso em inglês, em Nova York, e foi aplaudido de pé. Dava a entender que o aplauso era pelo inglês, e não pelo conteúdo do discurso

Manchete de uma chamada num desses canais eletrônicos, em dias passados, dizia que um brasileiro fizera um discurso em inglês, em Nova York, e fora aplaudido de pé. Dava a entender que o aplauso era pelo inglês, e não pelo conteúdo do discurso.

Tive minha estreia na língua inglesa do modo mais estranho e humilhante. Foi pelo fim da década de 1940, quando minha família morava na roça, em Guaianases. Eventualmente vínhamos a São Paulo de trem. Na entrada da estação do Norte, no Brás, havia uma banca de jornal que exibia uma revista americana, com belas fotografias em preto e branco.

Crises Master e INSS levam à eleição ‘antissistema’, por Andrea Jubé

Valor Econômico

Ocorrido com “Sicário” só é comparável, possivelmente, com uma morte suspeita, 30 anos atrás: a de PC Farias

Os novos capítulos do escândalo envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro e o Banco Master comprovam, mais do que a gravidade, o quase ineditismo do tsunami com potencial para destruir a República, ou boa parte das instituições. O ocorrido com Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o “Sicário”, potencial delator, só é comparável, possivelmente, com morte suspeita, 30 anos atrás: a de Paulo César Farias, ex-tesoureiro de Fernando Collor.

A essa altura dos acontecimentos, outra percepção é de que a soma das crises envolvendo o Master e os desvios nas aposentadorias e pensões do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), que dominam o Congresso e contaminam o humor dos brasileiros, deve culminar em mais uma eleição “antissistema”, nos moldes da disputa de 2018, que elegeu o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e vários “outsiders”.

O Lobo da Faria Lima e as relações perigosas do banqueiro com o poder, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Protagonista do escândalo envolvendo o Banco Master, o banqueiro Daniel Vorcaro e seus parceiros parecem personagens dos filmes de Hollywood sobre a máfia em Wall Street

O filme O Lobo de Wall Street (2013) retrata um tipo de celebridade destrutiva que fascina muita gente por viver no limite: dinheiro fácil, prazer imediato, drogas e ausência completa de escrúpulos. Dirigido por Martin Scorsese e com roteiro de Terence Winter, baseado no livro de Jordan Belfort, o filme acompanha a ascensão e a queda de um corretor que enriquece manipulando o mercado financeiro.

A história começa em 1987, quando Jordan Belfort (Leonardo DiCaprio) se torna corretor em Wall Street. Desde o início, o espectador percebe a atmosfera de cinismo e ganância que domina aquele ambiente. A primeira máscara cai quando Jordan almoça com seu chefe, Mark Hanna (Matthew McConaughey), que lhe apresenta as regras informais do jogo: dinheiro acima de tudo, sem qualquer preocupação moral. A partir daí, o aprendiz se transforma no mestre, mergulhando numa espiral de riqueza, excessos e ilegalidades.

Ministros do STF devem explicações, por Vera Magalhães

O Globo

Notas em tom indignado e camaradagem entre pares não são suficientes para blindar Corte agora que o caso atingiu ponto de não retorno

O caso Master passou, a partir da segunda prisão de Daniel Vorcaro e das revelações que levaram a ela, por aquele ponto de não retorno de todo escândalo, a partir do qual tentativas de abafa e de conter os danos só na base da narrativa costumam fracassar uma após a outra.

Também não é mais possível a Alexandre de Moraes e Dias Toffoli — os dois ministros do Supremo Tribunal Federal cujos nomes aparecem em diferentes circunstâncias associados a Vorcaro, a seus negócios e ao próprio desenrolar das investigações — fingir que não é com eles ou afetar indignação quando cobrados a dar explicações claras e convincentes para essas ligações. Embora não sejam detentores de mandatos populares, os ministros do STF não estão isentos de prestar contas à sociedade.

Uma milícia na Faria Lima, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Talvez não seja preciso esperar delação para conhecer tamanho do lamaçal

A segunda prisão de Daniel Vorcaro acrescentou novas camadas de lama ao caso Master. O banqueiro já era pivô de um escândalo financeiro com conexões na política. Agora desponta como chefe de uma organização de tipo mafioso, que corrompia servidores, roubava dados sigilosos e tramava atos de violência contra desafetos.

De acordo com a Polícia Federal, Vorcaro montou uma “milícia privada” que apelava à coação e à ameaça para proteger seus interesses. O esquema era comandado da Faria Lima, mas se valia de métodos usados em áreas sob domínio armado.

A anarquia do sistema, por Pablo Ortellado

O Globo

Vorcaro e Toffoli se encontraram mais de dez vezes, segundo relatório da PF

Numa troca de mensagens com a namorada, Daniel Vorcaro diz que, apesar da oposição de André Esteves à venda do Master ao BRB, funcionários da XP e do BTG pediam para tirar fotos e davam a ele os parabéns, dizendo que era a “anarquia do sistema”. Nunca uma expressão foi tão apropriada.

Vorcaro não apenas fraudou o sistema financeiro vendendo títulos sem lastro e passando a conta ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Para se proteger, comprou uma rede de aliados tão ampla que sua queda também será vista como a “queda do sistema”.

Mercado de trabalho aquecido, por Celso Ming

O Estado de S. Paulo

A economia brasileira vive um momento que pode ser considerado muito próximo do pleno emprego, situação que tem lá suas consequências, positivas e negativas.

Os levantamentos da Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílio – Contínua) apontou, no trimestre terminado em janeiro, um índice de desemprego que atingiu 5,4% da população ativa, alguma coisa mais alto do que em dezembro, temporada de mais contratação de mão de obra em consequência do aumento do comércio de Natal, quando estava nos 5,1%.