domingo, 1 de março de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Passou da hora de encerrar inquérito das fake News

Por O Globo

Instrumento criado para defender ordem democrática se transformou em risco para a própria democracia

É incontestável o papel crucial que o Supremo Tribunal Federal (STF) desempenhou na preservação da democracia brasileira, quando submetida a abalos e ameaças. Sem a ação do Supremo, é provável que o desfecho da intentona golpista tivesse sido outro. Esse é um fato que a História reconhecerá para sempre. É justamente para honrar essa trajetória que o STF deve finalmente pôr fim a um instrumento jurídico heterodoxo que, desde 2019, tem dado à Corte poderes excepcionais que não cabem numa democracia: o inquérito 4.781, apelidado “inquérito das fake news”.

Freire deixará comando do Cidadania e indica Alex Manente seu sucessor, Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

“O velho líder comunista encerra sua trajetória com melancolia e perda de dimensão histórica. Seu gesto sucessório, em vez de estabilizar, implodiu a legenda”

A literatura latino-americana já descreveu com precisão clínica o momento em que um ciclo de poder se encerra. A cena de abertura de O Outono do Patriarca, de Gabriel García Márquez, permanece como uma das metáforas mais contundentes da decomposição política: “Durante o fim de semana os urubus entraram pelas varandas da residência presidencial, bicaram as telas metálicas das janelas e o alteio de suas asas agitou o tempo estagnado lá dentro, e na madrugada de segunda-feira a cidade acordou de sua letargia de séculos com a brisa morna e macia do grande homem morto e apodrecido…”.

A passagem simboliza o fim do “tempo interminável” do caudilho. O que parecia eterno já estava morto — apenas ninguém ousava admitir. Guardadas as proporções entre ficção e realidade, a metáfora de Gabo ilustra a crise do Cidadania, que ultrapassa a disputa sucessória. Tornou-se existencial.

Acordões com gosto de pizza, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Até onde o Supremo Tribunal Federal vai se lambuzar com ‘pizzas’ mal assadas?

Brasília evolui, a olhos vistos, do surrado “toma lá, dá cá” para o “você me livra, eu te livro e todos nós nos livramos”. Um método se abastece do dinheiro público e o outro abusa das brechas que garantem a impunidade geral, mas ambos têm a ver com corrupção e mobilizam mundos e fundos, tudo e todos, em torno de “negociações”.

Objetivo desta vez é substituir o regime, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

Incapacitado, Irã poderia conduzir guerra assimétrica, que incluiria ataques terroristas

O bombardeio lançado na manhã de ontem no Irã por Estados Unidos e Israel tem escopo fundamentalmente distinto daquele realizado na chamada “guerra dos 12 dias” em junho: desta vez, o objetivo não é apenas conter os programas nuclear e de mísseis iranianos, mas criar as condições para a população substituir o regime.

Trata-se de ameaça existencial, da óptica da teocracia em Teerã, à luz dos protestos de dezembro e janeiro, os mais contundentes desde a Revolução Islâmica de 1979, esmagados com o massacre de milhares de manifestantes. Os bombardeios visaram à decapitação do regime.

A aposta mais arriscada de Trump, por Oliver Stuenkel

O Estado de S. Paulo

Operação sem objetivos claros expõe EUA a retaliações, instabilidade regional e pressão inflacionária

Ao atacar o Irã e conclamar os iranianos a derrubarem o próprio governo após o fim da operação, o presidente Donald Trump assumiu um risco elevadíssimo, sobretudo porque o Irã não representava uma ameaça iminente aos EUA. Pelo contrário: avaliações recentes da inteligência americana indicavam que o país está militarmente enfraquecido após os bombardeios do ano passado. Diferentemente de ataques pontuais no passado, desta vez trata-se de uma campanha aberta, com risco real de escalada. O próprio Trump admitiu que pode haver baixas americanas — linguagem típica de guerra declarada, mas sem autorização formal do Congresso.

O esforço para manter o BRB, por Míriam Leitão

O Globo

Os próximos dias serão decisivos para o BRB e seu plano de capitalização, que pode incluir um pedido de empréstimo ao FGC

O governo do Distrito Federal colocará 15 imóveis para a operação de capitalização do BRB. Ao todo, esses ativos somariam R$ 10 bilhões em garantia. Eram nove na última versão da proposta que será discutida amanhã na Câmara Legislativa do Distrito Federal. Na sexta-feira, o presidente do Banco de Brasília, Nelson Souza, visitou bancos em São Paulo explicando seus planos. Um deles é tentar um empréstimo no FGC e outro lançar um Fundo de Investimento Imobiliário com a venda de cotas. O banco também avalia negociar subsidiárias integrais e a criação de um banco digital com o Flamengo.

A Cargill foi invadida, e o governo cedeu, por Elio Gaspari

O Globo

Para quem joga com as canetas de Brasília, o caso estaria resolvido. Faltou combinar com a empresa

Em agosto do ano passado, os çábios de Brasília soltaram o decreto 12.600, incluindo milhares de quilômetros de hidrovias em trechos dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins no Plano Nacional de Desestatização. A iniciativa abria o caminho a estudos para avaliar uma eventual concessão de serviços de navegabilidade, dragagem e manutenção dos canais. Há anos, o Arco Norte da Amazônia, com suas rotas fluviais, transporta cerca de 40% das exportações nacionais de soja e milho.

Operação sabotagem, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Sem força para derrotar proposta em ano eleitoral, partidos pedem apoio a empresários para impedir votação

A direita decidiu cerrar fileiras contra o fim da escala 6x1. Na semana que passou, três presidentes de partido atacaram a ideia de mudar a lei para que todo trabalhador tenha direito a dois dias de descanso por semana. As falas revelam mais sobre a mentalidade da turma do que sobre o mérito da proposta.

O chefão do União Brasil, Antonio Rueda, definiu a mobilização como “um desatino”. “É muito danosa para a economia e o setor produtivo”, decretou, sem mencionar os trabalhadores. O dono do PL, Valdemar Costa Neto, disse que o fim da escala 6x1 seria “uma bomba” e se solidarizou com a classe dirigente: “Não é fácil para os empresários que já reclamam dos nossos impostos e tudo mais”.

Hermenêutica neles, por Merval Pereira

O Globo

A disputa de interpretações esbarra em uma mágica jurídica cada vez mais em uso por ministros do Supremo, que superam as leis com seus poderes incontrastáveis para atingir seus objetivos

Mais uma vez a disputa hermenêutica ganha destaque na crise institucional em que vivemos. Hermenêutica é a ciência da interpretação de textos e símbolos para além do sentido literal, vem de Hermes, o mensageiro grego dos deuses. Como há muito tempo a Justiça brasileira vive de interpretar as leis, em vez de cumpri-las, o episódio da quebra de sigilo da família Toffoli tornou-se exemplar dessa tendência. A CPI do Crime Organizado não conseguiu maioria para quebrar o sigilo do ministro Dias Toffoli porque a base do governo, auxiliado pelo Centrão, não deixou, mesmo depois que ele foi obrigado a sair da relatoria do caso por um flagrante conflito de interesses, pois o resort Tayaya, de propriedade da empresa Maridt, dos três irmãos Toffoli, foi comprado por um grupo ligado ao banco Master.

Trump sendo Trump, por Dorrit Harazim

O Globo

Ele embaralhou temas e falsas verdades, desconversou sobre os problemas reais da nação de 250 anos

Discursos do Estado da União fazem parte do rito anual de todo presidente dos Estados Unidos. Costumam ser longos e enfadonhos. Servem, em teoria, para o mandatário prestar contas ao Congresso sobre o que fez e pretende fazer. O desempenho de Donald Trump na noite de terça-feira foi um exercício de embevecimento fascista com a própria voz. Durante uma hora e 47 minutos, embaralhou temas e falsas verdades, desconversou sobre os problemas reais da nação de 250 anos e transformou o plenário do Capitólio em claque de auditório.

Flávie dará golpe de estade, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Se eleito, filho de Bolsonaro tem boas chances de governar com maioria golpista no Senado

Tudo que queremos é uma eleição em que possamos, em caso de derrota, ficar chateados, culpar o neoliberalismo, e voltar à vida normal

O debate de hoje será sobre o tema "o golpe de Estado empatou com a democracia na última pesquisa Atlas". Podem perguntar.

"Mas isso não é um exagero? Flávio Bolsonaro outro dia fez um post direcionado à comunidade LGBT usando linguagem neutra. Ele não está moderando?"

Ok, Flávio não dará golpe de Estado, dará golpe de estade. Mas será golpe de todo o jeito. Elu já prometeu soltar os membros da quadrilha golpista de que é membre. Se eleite, tem boas chances de governar com maioria golpiste no senade, o que lhe possibilitaria impichar ministres do STF em um momento em que a imagem do tribunal está fragilizade. Nenhuma outra instituição, além do STF, atuou contra a última tentativa de golpe.

Regra de transição cheira a embromação, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Pactos de aperfeiçoamento não se realizam porque há resistência para corrigir distorções nos três Poderes

De adiamento em adiamento, o fim das regalias indevidas corre o risco de ficar para o dia de são nunca

A cada vez que os Poderes se reúnem para combinar pactos de aperfeiçoamento nos respectivos comportamentos criam-se expectativas que em geral não se realizam por completo. Acontece quando há distorções a serem corrigidas, mas há resistências quase impossíveis de serem vencidas.

Aconteceu assim com o acordo sobre as emendas parlamentares, firmado num encontro entre representantes do Judiciário, Executivo e Legislativo, em agosto de 2024.

O neoterrorismo dos notáveis, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

É que há muito tempo vivemos no desencantamento do mundo, outro modo de falar do niilismo total

Uma rede depravada como a de Epstein é reveladora porque ataca fragmentos de sacralidade humana

Numa mensagem ao potentado árabe Sultan Ahmed bin Salayem, delicia-se Jeffrey Epstein: "Adorei o vídeo de tortura". Apesar da repetição cansativa dos horrores nos arquivos Epstein, a cada página a magnitude da aberração ainda faz refletir. A frase tenebrosa sugere algo além de sexo stricto-sensu no círculo de depravação que, desde uma princesa norueguesa até um príncipe britânico, se fechou em torno de figuras notáveis do poder global.

Ataque ao Irã é ilegal e não satisfaz critério de autodefesa imediata, por João Paulo Charleaux

Folha de S. Paulo

Ação contra Teerã distorce conceito de autodefesa previsto na Carta da ONU

Trump ressuscita argumentos que levaram à queda de Saddam no Iraque em 2002

A brecha que os Estados Unidos e Israel têm para defender a legalidade do bombardeio contra o Irã neste sábado (28) é estreita. Pela Carta da ONU, um país só pode atacar outro em caso de legítima defesa ou sob aprovação do Conselho de Segurança. Como nenhuma das duas condições está presente, será preciso contorcionismo para legalizar esses atos.

O conceito de autodefesa previsto no direito internacional é muito estrito. A Carta da ONU não autoriza uma resposta extemporânea contra um ataque sofrido meses antes, nem tampouco permite a retaliação preventiva a uma ameaça hipotética, distante ou presumida.

No Irã, na Venezuela ou em Cuba, terror e negociata são os objetivos da 'guerra de Trump', por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Ataque a iranianos não tem sentido ou fins claros, nem país era ameaça imediata

EUA trumpianos fazem extorsão e recorrem a bombardeios negocistas e impensados pelo mundo

Israel matou 3% dos palestinos e avariou ou arruinou 80% das construções de Gaza. Queria aniquilar o Hamas, que ainda está lá, depois de mais de dois anos de guerra e massacre. A situação política continua indefinida, embora o Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas) tenha decidido em 2025 que Gaza será até o fim de 2027 governada por um "Conselho de Paz" comandado por Donald Trump.

Ainda que falhe, mesmo barbarizando, a cúpula de Israel costuma saber o que faz ou quer. O que Trump quer no Irã? No discurso em que declarou a guerra, aliás ilegal, afirmou que quer acabar com o programa nuclear, mísseis balísticos e marinha do Irã. Que quer a queda do regime, tarefa que terceirizou para os iranianos.

Extrema direita canalizou ódio contra imigrantes, mas ele é bem mais antigo, por Vinícius Mendes

Folha de S. Paulo

Historicamente visto como anormal, quem migra tem sua saída questionada e, no destino, não é plenamente aceito

Mesmo com cidadania, estrangeiro é visto antes de tudo como um outro, condição que persiste além de direitos nacionais

[RESUMO] O autor sustenta que o imigrante é historicamente construído como um outro, estranho e marginal, resultado de anomalias sociais e econômicas. O texto argumenta que sociedades e governos canalizam esse estranhamento em políticas de exclusão e controle, exemplificadas por muros em fronteiras, novas tecnologias de vigilância, leis restritivas e atuações policiais como as do ICE.

"Essas pessoas que cresceram quase sem conhecer os benefícios da civilização, (...) grosseiros, bebedores, despreocupados do futuro, chegam trazendo seus costumes brutais a uma classe da população que tem, para falar a verdade, pouca inclinação para a cultura e a moralidade".

Essa percepção seria atribuível a Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria que já ameaçou levar os imigrantes —sírios, afegãos, filipinos— até a porta do prédio da União Europeia, em Bruxelas, na Bélgica.

Mas essa frase também poderia ter saído da boca de José Antonio Kast, presidente do Chile que ganhou as eleições de 2025 prometendo sancionar empresas que contratarem imigrantes indocumentados, a maioria venezuelanos.

Quando o recuo vira destino, Roberto Amaral*

“A inação diante de Cuba repete o erro fatal de Munique: apaziguar o agressor só adia a guerra e a torna mais devastadora — a história não perdoa os que se calam diante do fascismo renascente”.  
Gabriel Cohn (Cuba, a Espanha no século XXI)

Em 1938, regressando de Munique, aonde fora negociar com Adolf Hitler, o primeiro-ministro Neville Chamberlain declara ao Parlamento britânico haver conquistado o que denominava como “a paz para o nosso tempo”. Enganado ou não, enganava os ingleses e despistava o mundo, em especial o mundo europeu, mal saído da Primeira Guerra Mundial e já se vendo ameaçado por um novo conflito para o qual não estava preparado, como se veria logo depois.

Poesia | Pátria Minha - Vinicius de Moraes

 

Música | Xande - Faroeste Caboclo - Versão exclusiva com o Revelação

 

sábado, 28 de fevereiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Redução de jornada semanal é equívoco econômico e político

Por O Globo

No Brasil atual, não dá para trabalhador gerar mais riqueza — e ganhar mais — trabalhando menos horas semanais

A proposta populista e demagógica de reduzir a jornada de trabalho sem corte salarial que tramita no Congresso apoia-se em premissas que, embora façam sucesso junto ao eleitorado e a parcelas bem-intencionadas da sociedade, estão erradas. Na leitura mais generosa, traduzem apenas ignorância sobre os princípios básicos da economia.

O primeiro equívoco é supor que a jornada de trabalho no Brasil seja excessiva. Ela tem caído — de 43,8 horas em 1981 para 38,4 horas em 2024, de acordo com análise do economista Fernando de Holanda Barbosa Filho, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), com base em dados do IBGE. Adotando critério diferente — o banco de dados global mantido pelos economistas Amory Gethin, do Banco Mundial, e Emmanuel Saez, da Universidade da Califórnia em Berkeley —, o economista Daniel Duque, também do FGV Ibre, constatou que o brasileiro trabalha menos horas semanais (40,1) que a média mundial (42,7). Na lista de 86 países para os quais há mais de duas décadas de dados, o Brasil ocupa a 38ª posição em horas trabalhadas por semana.

Depois do carnaval, por Marco Aurélio Nogueira

O Estado de S. Paulo

O confronto será, mais uma vez, entre dois ‘mitos’, o lulismo e o bolsonarismo, o que não deixará margem para conversas sérias

Fevereiro teve carnaval durante o mês inteiro. Sem que se saiba bem as razões, ampliaram o “tríduo momesco” para além do calendário. Agora, há um pré e um pós. Patrocinadores e foliões adoraram, mas muita gente reclamou.

Do outro lado da avenida, houve um desfile de sobressaltos e passos trôpegos. Nada de samba no pé. Foi um verdadeiro anticlímax, que estragou a festa de muitos graúdos.

50 anos da transição espanhola: lições para o agora, por Sergio Fausto

O Estado de S. Paulo

A política deve ser feita para construir acordos que permitam à sociedade lidar com seus traumas e conflitos sem recorrer à violência

o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) se afastava do marxismo-leninismo e abraçava a social-democracia. Não foram esses partidos, porém, que assumiram ao início a liderança da transição democrática. E sim uma nova geração de funcionários do regime franquista, cuja principal figura foi Adolfo Suárez, em ascensão dentro das estruturas burocráticas e políticas do regime.

Pouco conhecido até assumir a presidência do governo, em 1976, Suárez mostrou qualidades políticas insuspeitadas. Percebeu a impossibilidade de manter “todo atado y muy bien atado” e intuiu que haveria vida depois do franquismo para uma direita liberal. Ainda mais importante, entendeu que o espaço político que se abria só seria legítimo e duradouro se incorporasse todas as forças políticas do país. Nos primeiros meses de 1977, o PCE e o PSOE retornaram à legalidade, graças à Lei de Reforma Política aprovada no ano anterior.

Chegou o decano, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Gilmar Mendes teve de entrar em campo. Dias Toffoli tentou controlar o bicho; Alexandre de Moraes ainda tenta domá-lo. Davi Alcolumbre mostra que nem o exercício autoritário do poder – o rolo compressor com que governa o Congresso – consegue dirigir o ímpeto imprevisível de uma crise que veio para ficar. Não tem a caneta togada capaz de decidir como bem quiser, quando quiser. Gilmar Mendes tinha de entrar em campo. Foram chamá-lo. Ele veio.

O caso Master veio para ficar. É incontrolável. Empurra-pressiona tudo em Brasília e a partir de Brasília – e desafia a operação abafa contra as investigações.

Crime de homens público, por Flávia Oliveira

O Globo

Julgamento sedimentou a certeza de que, em crimes contra a vida, a justiça é sempre parcial, nunca plena

Chegou ao fim, quase oito anos depois da barbaridade, o longo caminho de punição aos assassinos de Marielle Franco e Anderson Gomes. A Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal condenou, por unanimidade, mais cinco envolvidos no crime. O desfecho, essencial a uma nação que se entende democrática, sinaliza repúdio à impunidade e atenção à cobrança incessante das famílias das vítimas, da sociedade civil e da opinião pública, estrangeira inclusive. Ninguém soltou a mão de ninguém, até que as autoridades fossem capazes de identificar tanto quem matou quanto quem encomendou a morte da vereadora carioca em pleno exercício do mandato.

Vem aí o Ministério da Prosódia, por Eduardo Affonso

O Globo

Talvez o MP escafuasse Guimarães Rosa, por comprometer a norma culta com palavras que não existem

O ano de 2026 começou com tudo. O Rio teve o melhor janeiro de sua história, com número recorde de turistas. Juiz de Fora, em contraste, bateu o recorde de chuvas para o mês de fevereiro.

Agora, leitor, me diga, com toda sinceridade: como você pronunciou mentalmente a palavra “recorde” ao ler o parágrafo acima? Ainda bem que não leu em voz alta, nem havia ninguém do Ministério Público Federal por perto, ou o saldo de sua conta bancária poderia superar o recorde negativo anterior. Ops, errou de novo: não é “récorde” (proparoxítona), mas “recorde” (paroxítona, sem acento).

A hora e a vez da resiliência, por Orlando Thomé

Correio Braziliense

O maior desafio frente aos eventos climáticos extremos é construir as chamadas cidades resilientes, que são aquelas capazes de enfrentar, resistir e se adaptar a choques e tensões — sejam eles climáticos, sociais ou econômicos — sem colapsar 

Dia 21 de dezembro de 2025 teve início o verão no Hemisfério Sul do planeta que se encerrará em 20 de março deste ano. É de conhecimento público que se trata do período em que nosso país, historicamente, passa por chuvas intensas, provocando desastres em diversas regiões. Nesta semana, estamos assistindo ao drama vivido em Juiz de Fora e Ubá, na Zona da Mata de Minas Gerais. Até o momento que escrevo esta coluna, já foram contabilizados 55 óbitos e 13 desaparecimentos nos dois municípios. No mesmo período, na Baixada Fluminense, a contagem já passou de 2 mil pessoas atingidas, sendo 1 mil em Nova Iguaçu e 600 em São João de Meriti, onde houve um óbito de uma senhora de 85 anos.

A injustificável farra dos penduricalhos, por Juliana Diniz

O Povo (CE)

Os argumentos são surpreendentes, até chocantes para a maioria dos brasileiros. Alguns magistrados alegam que o salário é baixo e a carreira pouco atrativa: os juízes estariam sofrendo uma penúria que justificaria a remuneração indireta fora do teto de R$ 46.3 mil

O Supremo Tribunal Federal colocou em pauta um debate extremamente importante para a saúde orçamentária brasileira e para preservação da moralidade pública: a farra dos penduricalhos em carreiras de estado, sobretudo aqueles pagos pelo Poder Judiciário e Ministério Público aos seus membros. Os chamados penduricalhos compreendem verbas indenizatórias, gratificações e auxílios. Por sua natureza, esses valores não sofrem qualquer limitação do teto de gastos ou tributação de imposto de renda.

Eleições presidenciais: Flávio jogando parado e Lula na zona de rebaixamento, por André Régis

Folha de Pernambuco

Como explicar que, num cenário de primeiro turno, o candidato que lidera entre os mais pobres não seja Lula, mas Flávio Bolsonaro? A Atlas/Bloomberg de fevereiro de 2026 obriga o país a encarar esse dado sem filtros ideológicos. No recorte de renda familiar até R$ 2.000, Flávio aparece com 46,8%, enquanto Lula marca 32,5%. No extremo oposto, acima de R$ 10.000, o desenho se inverte com nitidez: Lula lidera com 57,8% e Flávio fica em 26,7%. É esse cruzamento — fragilidade onde Lula sempre foi mais forte, vigor onde raramente foi hegemônico — que dá ao quadro atual caráter de forte complexidade, não de simples oscilação.

O celular do Vorcaro, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Smartphones facilitaram bastante a atividade de investigação policial

As próprias vítimas produzem e juntam as provas que poderão condená-las

Se os avanços tecnológicos ameaçam vários empregos, eles foram uma bênção para a atividade policial. Um investigador do início do século 20 gastava sola de sapato para entrevistar as sempre pouco confiáveis testemunhas e dispunha de poucas ferramentas científicas para ajudá-lo. Não havia muito mais que datiloscopia, rudimentos da balística e da toxicologia. A partir da segunda metade do século 20, vieram pequenas revoluções na forma de análise de DNA e outras técnicas forenses sofisticadas, além da proliferação de câmeras de vigilância, que fizeram com que as evidências físicas também contassem a sua história.

Magistrada debocha da população em julgamento no STF, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Ela reclamou que juiz não tem carro, apartamento funcional, plano de saúde, refeitório, água e café

Para quem esperava um avanço para barrar os supersalários, a semana não terminou bem

fala da presidente da Associação Brasileira de Magistrados do Trabalho, Claudia Marcia de Carvalho Soares, no julgamento da liminar que limita os supersalários no serviço público, do ministro do STF Flávio Dino, expôs na forma bruta o abismo que existe entre o Judiciário e o resto da população brasileira.

Claudia Soares reclamou que o juiz de primeiro grau não tem carro, paga o combustível do próprio bolso e não tem apartamento funcional, plano de saúde, refeitório, água e café.

Entrave lobista impede fim da escala 6x1 e supersalários, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Deputados sentem-se à vontade para dizer ao trabalhador que 'ócio demais faz mal'

Projetos sobre pagamento de penduricalhos estão parados no Congresso

Já tínhamos a lei que não pega, consagrada na expressão popular. Agora temos o projeto de lei, não importando sua urgência, legitimidade ou necessidade moral, cuja aprovação depende da conveniência, da simpatia, do humor, das condições sazonais (o "voto impopular" em ano eleitoral) e sobretudo da influência de lobistas.

Uma ideia insustentável? Por Cristovam Buarque

Veja

A redução da jornada precisa estar acompanhada de reformas

Todas as sociedades que reduziram a jornada de trabalho ampliaram antes a permanência de crianças e jovens em escolas de qualidade. Foram sistemas públicos escolares acessíveis a todos que possibilitaram o aumento de produtividade e a consequente redução na jornada sem perda de competitividade nem redução de renda. Em geral essas reformas estruturais foram possibilitadas por lutas de partidos progressistas. As revoluções das últimas décadas — tecnológica (digital), psicossocial (individualismo) e geopolítica (globalização e queda do Muro de Berlim) — moldaram uma esquerda com propostas voltadas à ampliação de direitos identitários e individuais, sem reformas estruturais que assegurem direitos sociais duradouros. A proposta de redução da jornada semanal de trabalho é justa. No entanto, não altera a estrutura social e, por isso, é insustentável.

Keynes e a esfinge do dinheiro, por Luiz Gonzaga Belluzzo e Manfred Back

CartaCapital

Quando percebeu que transformavam a sua teoria em dogma, ele disse: “Não sou keynesiano”

Em um seminário realizado sobre o livro A Teoria Geral, do Juro, do Emprego e da Renda na Universidade de Campinas, um dos escribas deste artigo teve contato com a grande economista inglesa Joan Robinson, de Cambridge.

Conseguiu através dela o contato de Keynes, que topou fazer uma entrevista por e-mail. Neste artigo, vamos destacar alguns pontos dessa entrevista histórica, sobre um dos capítulos fundamentais da Teoria Geral, o capítulo XII – O Estado da Expectativa a Longo Prazo.

Neste capítulo, Keynes nos brinda com a psicologia, incerteza, estado de confiança, limitação da matemática e importância da liquidez e o mercado financeiro.

Lorde Keynes, ao sair em 1944, da reunião de Bretton Woods, foi visionário ao declarar: I am not a Keynesian (“Eu não sou um keynesiano”), quando percebeu que os ditos keynesianos estavam transformando sua teoria em dogma, ficando marcado como o economista do estímulo de déficit. Essa banalidade não considera que John Maynard rompeu com as simplificações da ortodoxia.

Fardo ou dádiva? Por Pedro Serrano

CartaCapital  

Estudo comprova que a presença de imigrantes é benéfica para a economia dos Estados Unidos

Governos europeus de extrema-direita têm adotado políticas restritivas à entrada e permanência de estrangeiros, utilizando argumentos populistas que associam criminalidade e dificuldades econômicas à presença de imigrantes ilegais. É nesse tipo de narrativa que também se apoia o governo Trump, ao implementar medidas anti-imigração nos Estados Unidos.

Trump tem associado os estrangeiros a ameaças terroristas e os acusa de drenar recursos públicos que, em sua visão, deveriam ser destinados prioritariamente aos norte-americanos. No entanto, a violência empregada na repressão aos imigrantes já resultou em mortes até de cidadãos natos, e tais atos extremos começam a ser cada vez mais rechaçados pela população.

A lei da selva, por Jamil Chade

CartaCapital

Como as sanções de Washington a juízes e promotores emperram o funcionamento do TPI

Pouco mais de um ano após a chegada de Donald Trump ao poder, as sanções adotadas pelo presidente dos Estados Unidos contra as Cortes internacionais e os relatores de direitos humanos asfixiam a Justiça e revelam a ambição da Casa Branca em garantir uma absoluta impunidade das atrocidades cometidos em Gaza. Ao longo dos meses, o republicano adotou medidas contra procuradores e juízes do Tribunal Penal Internacional que “ousaram” denunciar Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, por crimes de guerra e contra a humanidade. As sanções abalaram o funcionamento do organismo, o acesso ao e-mail, viagens, pagamento de salários e a própria investigação contra os suspeitos.

Trump, o anticapitalista, por Marcus Pestana

Donald Trump é um ator político fora da curva. Empresário milionário controverso por seus métodos heterodoxos; apresentador do reality show “O APRENDIZ”, que o projetou como influenciador midiático; outsider político que dominou o Partido Republicano, transformando o conservadorismo clássico no atual populismo iliberal espalhafatoso; surpreendeu, nas eleições de 2016, derrotando Hilary Clinton.

Poesia | Gargalhada, de Guimarães Rosa

 

Música | Chico Buarque - Paratodos

 

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Caso Master mostra por que é melhor privatizar BRB

Por O Globo

Banco de Brasília estima rombo por falcatrua em R$ 6,6 bilhões — e ninguém sabe como ele será coberto

A liquidação do Banco Master expôs os problemas enfrentados pelo BRB, banco estatal controlado pelo governo do Distrito Federal. No ano passado, a Câmara Legislativa do DF deu sinal verde para o BRB adquirir parte do Master. O negócio foi vetado pelo Banco Central (BC), que já via como irreversível a derrocada do banco de Daniel Vorcaro. Mas o BRB acabou comprando uma carteira fraudulenta de títulos do Master avaliada em R$ 12,2 bilhões. Uma auditoria do BC constatou que os papéis não existiam ou estavam supervalorizados, e a Polícia Federal abriu inquérito para investigar fraudes.

O Congresso é responsável por nosso futuro, por Fernando Luiz Abrucio

Valor Econômico

O fortalecimento do Legislativo nos últimos dez anos não produziu uma instituição capaz de gerar uma agenda maior ao país

A eleição presidencial já está na rua e vem a pergunta que não quer calar: qual é o plano de governo dos principais candidatos? Será muito importante cobrar os presidenciáveis para que tenham uma plataforma consistente, centrada nos principais problemas do país e voltada para uma construção de uma agenda congruente com os desafios do século XXI. Porém, de nada adianta construir um bom projeto nacional se o Congresso Nacional não acompanhar esse processo, pois uma enorme frustração virá no dia seguinte ao da posse presidencial. Não há como almejar um futuro com essa dissociação.

Aqui está uma das maiores fissuras do sistema político brasileiro: eleitos de forma muito fragmentada e, em sua maior parte, com propostas localistas ou muito voltadas a grupos de interesses específicos, os congressistas em geral não têm uma visão ampla sobre os problemas e possíveis soluções do país. Pode-se retrucar que isso caberia aos partidos políticos. Só que no atual modelo institucional as legendas partidárias não congregam seus candidatos em torno de um programa coerente que enfrente os principais desafios do Brasil.