sexta-feira, 10 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Agenda de austeridade é bem-vinda no Rio

Por O Globo

Governador interino propõe enxugar máquina, sanear finanças e impor regras fiscais próprias

São sensatas e bem-vindas as medidas de austeridade defendidas pelo governador interino do Rio de Janeiro, desembargador Ricardo Couto, em entrevista ao GLOBO. O estado, frequentador assíduo de programas de recuperação fiscal, aderiu recentemente ao Propag, socorro federal a entes endividados. Certamente isso trará alívio necessário às contas estaduais. Mas a situação hoje é crítica. O Orçamento deste ano prevê um rombo de R$ 19,5 bilhões. São questão de bom senso o saneamento das finanças e o enxugamento da máquina pública promovidos por Couto.

Lições da Copa, por José de Souza Martins*

Valor Econômico

Julgamo-nos vitoriosos já antes do jogo. Vitoriosos do engano e da ilusão

Não ganhar a Copa do Mundo de 2026 estava no destino de todas as seleções que dela estão participando, menos no de uma, a que a vencerá. Desta vez não seremos nós. Como não fomos em várias Copas anteriores. No esporte, ganhar não é uma certeza, como perder também não o é.

A incerteza em tudo na vida é uma derrota. Essa é uma das mais fortes concepções do senso comum do povo brasileiro. Um povo que até hoje não se tornou um povo de verdade, a não ser na mera formulação jurídica. Somos um conjunto disperso de diversidades que não se juntam nem se encontram.

Michelle insiste e avisa que é ‘imparável’, por Andrea Jubé

Valor Econômico

Ex-primeira-dama agora se coloca como líder de um movimento político amplo, e quer dialogar com homens e mulheres

Se o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) é o autodeclarado “imbrochável”, com direito a distribuir medalhas com o título aos aliados, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro dobrou a aposta na rebeldia, e avisou que será “imparável”.

O presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, declarou na quarta-feira (8) que em até 20 dias fincaria a bandeira branca no partido, reconciliando-a com o enteado, o presidenciável da sigla, senador Flávio Bolsonaro (RJ). Contudo, a ex-presidente do PL Mulher foi a público comunicar que tem outros planos. Para além de liderança feminina, ela agora se coloca como líder de um movimento político amplo, e quer dialogar com homens e mulheres.

Alcolumbre não se entende com Lula e congela a agenda do Congresso, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O rompimento entre o presidente Lula e o presidente do Senado e do Congresso, Davi Alcolumbre, ocorrido após a rejeição do nome de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal, tornou-se o principal fator de bloqueio da pauta legislativa.

Com o Brasil fora da Copa e a política retomando o centro da cena, o Congresso Nacional entrou definitivamente em modo eleitoral. A sessão do Congresso prevista para essa quinta-feira foi cancelada por falta de acordo entre seu presidente, senador Davi Alcolumbre (União-AP), e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O Legislativo não deve votar mais nada de relevante antes do recesso e, muito provavelmente, tampouco antes das eleições de outubro.

A paralisia atinge temas como a PEC da Segurança Pública e a regulamentação da exploração de terras raras. Na prática, a agenda institucional foi sequestrada pela disputa de poder entre o Executivo e o Congresso. O rompimento entre Lula e Alcolumbre, ocorrido após a rejeição do nome de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal, tornou-se o principal fator de bloqueio da pauta legislativa.

Nos ouvidos do rei, por Simon Schwartzman

O Estado de S. Paulo

Formular propostas certas é a parte fácil. Fazê-las atravessar a desconfiança política e a real capacidade de execução é o verdadeiro trabalho

Com a aproximação das eleições de outubro, é curioso observar dois movimentos que parecem contraditórios. Por um lado, um sentimento generalizado de fatalismo. A polarização política, confirmada e reforçada pelas pesquisas de voto, indica que estamos fadados a ter que escolher entre os candidatos menos ruins, responsáveis, cada qual à sua maneira, pela situação em que a maior parte do País se encontra, com a economia se arrastando, as contas públicas fora de controle, a má qualidade das políticas sociais e as instituições em frangalhos.

Os Bolsonaro, como os peixes, morrem pela boca, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Jair & filhos acabam prisioneiros da camisa de 11 varas que produzem com o que fazem e falam

Michelle, ao contrário, pensa no que diz, tem roteiro, frieza e, sobretudo, visão estratégica

Característica marcante em Jair Bolsonaro & filhos é a incapacidade de prever o efeito de seus atos. Acabam quase sempre prisioneiros da camisa de 11 varas que produzem com o que falam. São como peixes: morrem pela boca.

O pai perdeu a reeleição porque passou quatro anos falando e fazendo absurdos sem medir consequências. O primogênito vai pelo mesmo caminho da inconsequência, cujo exemplo mais recente é a tentativa vã de se livrar da jactância do irmão Eduardo batendo no peito e diante do tarifaço de Donald Trump ao Brasil, dizendo: "Fui eu".

A barreira do nojo, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Técnicos precisarão convencer habitantes da Grande São Paulo que é ok abastecer represas com água (tratada) de esgoto

Repulsa a coisas que consideramos sujas tem valor adaptativo para prevenir doenças e dá base a nossas intuições morais

Eu não queria estar na pele dos técnicos que precisarão convencer os habitantes da Grande São Paulo de que é legal usar água de esgoto, tratada, frise-se, para irrigar as represas de onde tiramos o líquido que chega a nossas torneiras. Eles terão de enfrentar uma das mais poderosas emoções humanas, o nojo.

Encastelado num planalto, o conurbado paulistano fica perto demais das nascentes dos rios adjacentes, onde a vazão de água tende a ser baixa. Compensamos isso nos abastecendo em mananciais cada vez mais distantes. Não é uma solução que possa ser estendida indefinidamente.

Ideia da seleção como alma da brasilidade perdeu sentido, por Marcos Augusto Gonçalves

Folha de S. Paulo

O futebol já cumpriu seu papel na formação de um ethos nacional marcado pela cultura imaginosa e mestiça

Continuar a ver no desempenho da seleção uma promessa ou um fracasso de nação é mecanicismo

A ideia do futebol, em especial aquele apresentado pela seleção, como uma espécie de expressão da nacionalidade, da alma brasileira e das capacidades e características do país já cumpriu seu papel. Houve um momento histórico, ao longo do século 20, que o nobre e rude esporte bretão ganhou novos contornos entre nós, como observaram alguns de nossos intérpretes –o mais recente e fulgurante deles, José Miguel Wisnik, em seu livro "Remédio Veneno".

Todas as fichas no Senado, por Vera Magalhães

O Globo

A composição daquela que é considerada a Câmara Alta do Congresso definirá se os quatro anos até 2030 serão marcados por uma grave e prolongada crise entre os Poderes

Jair Bolsonaro deu a largada antes na montagem de seu time para a disputa ao Senado, mas a estratégia derrapou nos últimos meses graças às disputas internas da própria direita. A dúvida quanto à candidatura de Michelle Bolsonaro é apenas a mais visível das fissuras no casco do navio com que o ex-presidente esperava dominar a Casa e, a partir dela, pôr em marcha seu plano de subjugar o Poder Judiciário, dando andamento a processos de impeachment contra ministros e a medidas para manietá-lo e, se possível, acelerar a mudança da composição do Supremo Tribunal Federal (STF).

Cartola de toga, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Francisco Mendes é favorito para assumir confederação antes da próxima Copa

No último domingo, a seleção perdeu para a Noruega e encerrou sua pior campanha em Copas do Mundo desde 1990. Dois dias depois, Gilmar Mendes foi às redes expressar “gratidão” aos jogadores. “Meu agradecimento a cada atleta pela dedicação e pelo compromisso com que honraram (sic) a camisa do Brasil”, escreveu.

O supremo ministro aproveitou para anunciar o início de um “novo ciclo”. “A permanência de Carlo Ancelotti à frente da equipe dá solidez a esse recomeço, e a seleção que se renova encontrará no torcedor, uma vez mais, a sua maior força”, pontificou. Ao pé do tuíte de estadista, usuários do X acrescentaram uma nota informativa: “Gilmar Mendes não mencionou, mas ele próprio e o filho têm grande influência na CBF”. As 15 palavras expuseram o conflito de interesses que o decano do STF preferiu omitir.

Entrevista: "Melhor estratégia em Minas é candidato fora do PT', diz Camilo Santana

Por Jeniffer Gularte – O Globo

Novo líder do PT no Senado admite que "ficou um arranhão" na relação entre Lula e Davi Alcolumbre após Jorge Messias ser derrotado para a vaga do STF

Ex-ministro da Educação e atual integrante da coordenação de campanha à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o senador Camilo Santana (PT-CE) afirma que o PT não deveria ter candidatura própria em Minas Gerais, sob pena de sofrer um revés eleitoral importante no segundo maior colégio eleitoral do país. Santana admite que a memória de avaliação ruim do governo de Fernando Pimentel no estado dificulta a viabilidade eleitoral da legenda no estado.

O parlamentar defende que o PT apoie um nome de partido aliado e classifica essa indefinição como "a maior preocupação" da definição dos palanques, a poucos dias do início do período das convenções. Enquanto o governo anuncia um pacote de medidas com impacto fiscal às vésperas da eleição, o ex-ministro admite a necessidade de um ajuste nas contas no início de um eventual quarto mandato.

Ao assumir a liderança do PT no Senado, Camilo Santana afirma que tem atuado para distensionar a relação entre Lula e o presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), mas admite que "ficou um arranhão" após Jorge Messias ser derrotado para a vaga do Supremo Tribunal Federal. Defensor de que não se deve "fechar a porta para ninguém", Santana afirma que as sucessivas crises da campanha de Flávio Bolsonaro têm aberto diálogo para uma aliança da federação União-PP com Lula durante a corrida presidencial.

Poesia | O albatroz, de Charles Baudelaire |

 

Música | Paulinha da Viola - Quando bate uma saudade

 

quinta-feira, 9 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Fim do cessar-fogo cria incerteza para economia global

Por O Globo

Entendimento já era frágil. Violações iranianas e rompantes ciclotímicos de Trump ampliam as dúvidas

O fim do cessar-fogo entre Irã e Estados Unidos amplia a incerteza no planeta. Depois de três semanas de indefinição desde a assinatura do frustrante “memorando de entendimento” entre os dois países, o Oriente Médio se tornou mais uma vez palco de hostilidades abertas. Em resposta a ataques iranianos a petroleiros no Estreito de Ormuz, forças americanas atingiram mais de 80 alvos no Irã, incluindo sistemas de defesa, radares e barcos. Depois dos bombardeios, bases americanas no Bahrein e no Kuwait foram atingidas.

Desde o início, parecia evidente que as premissas para o entendimento eram frágeis. O memorando extraído a fórceps de negociações tensas e inconclusivas era vago a respeito do principal — o futuro nuclear do Irã. Nem mesmo todas as concessões feitas pelos americanos foram capazes de apaziguar o regime dos aiatolás. E, de lá para cá, os vaivéns e rompantes ciclotímicos de Donald Trump só contribuíram ainda mais para aumentar as dúvidas.

Escolha de Sofia, por Merval Pereira

O Globo

Uma eleição em que os dois mais rejeitados são os escolhidos continuará levando ao impasse, independentemente de quem ganhar

É surpreendente que todos os esforços que a direita brasileira vem fazendo para perder a eleição presidencial não estejam dando certo. As desavenças familiares; as disputas pelo poder dentro do PL, maior partido do país, máquina de fazer dinheiro gerado por emendas parlamentares e fundos eleitorais; a dúvida entre mais radicalização ou uma aparente moderação — nada disso abala a posição do senador Flávio Bolsonaro, que lidera o voto da direita, que se une em torno dele num eventual segundo turno e o torna competitivo diante do presidente Lula.

Esquadrão suicida da direita, por Paulo Celso Pereira*

O Globo

Aliados provocaram o rompimento de Michelle com o enteado

‘Eu não quero que toda mulher vote. Quero fazer uma transação: faça-se a experiência, e, se ela mostrar que as mulheres não são dignas de exercer o direito do voto, então seja ele cassado’, propôs o deputado Costa Machado na tribuna da Assembleia Constituinte em janeiro de 1891. Representante de Minas Gerais, ele tentava convencer os presentes a incluir na primeira Constituição republicana o direito de voto para mulheres — desde que diplomadas, com bens e casadas.

Coube ao pintor Pedro Américo, deputado por Pernambuco, defender a posição, por fim vencedora, de que as mulheres não deveriam participar da vida pública:

— A missão da mulher é mais doméstica do que pública, mais moral do que política. A mulher, não direi ideal e perfeita, mas, simplesmente normal e típica, não é a que vai ao foro, nem à praça pública, nem às assembleias políticas defender os direitos da coletividade, mas a que fica no lar doméstico exercendo as virtudes femininas, base da tranquilidade da família e, por consequência, da felicidade social.

Quando os EUA reclamam do uso do comércio como arma, por Assis Moreira

Valor Econômico

Produtores rurais americanos tornaram-se vítimas colaterais das guerras comerciais de Trump

O governo Trump 2.0 tem se caracterizado pelo uso explícito da força no comércio internacional. A imposição unilateral de tarifaços contra o resto do mundo e de acordos ditos recíprocos, nos quais sai sempre como o grande vencedor, rompeu o sistema multilateral baseado em regras comuns.

Agora, na presidência do G20, que reúne as maiores economias desenvolvidas e emergentes em busca de cooperação na governança econômica global, o governo Trump elaborou uma agenda comercial para trabalhar com os demais membros do grupo “no estabelecimento de uma ordem comercial global baseada em um comércio justo, recíproco e equilibrado”.

O fogo amigo que ameaça a campanha bolsonarista, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Aposta de que a crise na campanha de Flávio leve à sua substituição como candidato esbarra nas evidências de que desfecho desmoralizaria o bolsonarismo

“É fogo amigo”, respondeu o senador Rogério Marinho (PL-RN) em mensagem de celular durante um jantar tão logo recebeu a notícia de que a Gazeta do Povo publicaria pesquisa com quatro alternativas ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Além de Marinho, coordenador da campanha de Flávio Bolsonaro, foram incluídos na pesquisa a ex-primeira-dama, o astronauta e senador Marcos Pontes (PL-SP) e a senadora Damares Alves (Republicanos-DF). Se Marinho apressou-se em dizer ao pré-candidato do PL à Presidência que nada tinha a ver com isso, Damares limitou-se a achar graça.

Flávio Bolsonaro põe o clã acima de tudo, por Maria Hermínia Tavares

Folha de S. Paulo

É clara a intenção dos Bolsonaros de mobilizar o apoio americano a seu candidato

Em julho passado, ele celebrou as tarifas de 50% sobre produtos nacionais

A relação com os Estados Unidos é o maior desafio enfrentado pela política externa brasileira —pela importância que a potência sempre teve para nós e pela imprevisibilidade de seu prepotente presidente.
Desde a volta de Donald Trump, especialistas de diferentes quadrantes discutem a melhor maneira de defender seus países do ocupante de turno da Casa Branca.

Em artigo publicado na Cebri-Revista, há cerca de um ano, o professor da USP Feliciano de Sá Guimarães já defendia que o Brasil adotasse, diante da potência do norte, uma estratégia sofisticada, que combinasse contenção e engajamento em diferentes frentes, evitando seja o confronto total, seja a completa submissão. Discernindo quando e em torno do que é possível negociar e respondendo com firmeza à pressão exorbitante. Sobretudo, procurando não reduzir a relação a um tópico específico —comércio, conflitos mundiais ou segurança regional.

A fadiga de velhas propostas econômicas nas eleições, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Presidenciáveis e auxiliares são pródigos em repetir diagnósticos robustos sobre as razões dos problemas crônicos da economia brasileira, mas falta oxigenação de ideias

Na ausência de propostas, vai sobrar fake news; Pix é candidato número um a alvo

O debate de medidas econômicas pelos presidenciáveis nas eleições deste ano já nasceu pobre antes de começar para valer.

Os candidatos são pródigos em repetir diagnósticos sobre as razões dos problemas crônicos da economia brasileira, mas falta oxigenação de ideias de como resolvê-los por meio de uma abordagem moderna e inovadora.

Há uma fadiga de velhas propostas. É perceptível que as campanhas não estão preparadas para enfrentar o debate de ideias. Desenhar o plano de governo é apenas cumprir tabela.

A audiência, que são os eleitores, também não cobra profundidade e prefere se lambuzar no caminho fácil do Fla-Flu da polarização barata a serviço dos cliques das redes.

Mulheres que me ensinaram a votar, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Paulo Figueiredo disse que as mulheres 'votam mal pra c...'; não livrou nem as bolsonaristas

Eu, ao contrário, sou grato a muitas mulheres que me tornaram mais adulto e responsável

O blogueiro bolsonarista Paulo Figueiredo, condenado no Brasil por fraude financeira e foragido nos EUA, não saiu a seu avô, João Baptista de Figueiredo, o último feitor da ditadura (1979-85). A seu jeito cavalar, o velho Fig gostava das mulheres —até nomeou uma ministra. Já, para Paulo Figueiredo, elas não servem nem para votar. "Mulher vota mal pra c...", declarou. "Devia ser proibida de votar."

Paulo Figueiredo é cabo eleitoral de Flávio Bolsonaro. Antes de sua frase, o asco feminino por Flávio Bolsonaro já era de quase 60%. Agora, as 40% restantes vão pensar se ainda votarão nele, já que Paulo Figueiredo despreza o voto delas. Flávio Bolsonaro, assustado com o prejuízo, "repudiou" a fala de Paulo Figueiredo, mas não o demitiu do cargo de seu guru.

Onde falta cair a ficha, por William Waack

O Estado de S. Paulo

A campanha eleitoral caminha para bater o recorde de mediocridade política

No futebol a ficha para o Brasil caiu logo, pois é impossível ignorar mais uma desclassificação. É consenso que o mau resultado na Copa não foi produto de questões fortuitas. A decadência do futebol brasileiro vem de muito tempo, mas agora a ficha caiu sobre nossa mediocridade.

Falta muito para que isso aconteça também na política. Talvez nem aconteça, apesar da mediocridade da disputa em torno de eleições que prometem tornar ainda mais difíceis os grandes problemas. O mais crítico e imediato é o da crise político-institucional, cujo risco está subindo.

A pátria apostadeira, por Eugênio Bucci

O Estado de S. Paulo

Nosso problema de saúde pública é que a sociedade, hoje, remunera aqueles que levam os filhos dos outros a um vício que não deseja para os seus próprios filhos

A explosão das apostas online durante a Copa do Mundo gerou três efeitos visíveis. Em primeiro lugar, o impulsionamento dos lucros de um punhado de milionários sagazes, tão sagazes que sabem se manter invisíveis (a gente deduz que eles se locupletam, mas não consegue enxergar quem eles são). O segundo efeito visível é a ruína dos mais pobres, tão pobres que ficaram irremediavelmente invisíveis. Em terceiro lugar, surge um debate nas páginas dos jornais acerca da legalidade desse tipo de jogatina e de sua máquina de propaganda. O questionamento que se lê na imprensa é legítimo, mas não tem sido suficiente para mudar a situação. Seu resultado prático não está entre as coisas que são visíveis.

A esticada dos juros da dívida, por Celso Ming

O Estado de S. Paulo

Todos os dias aparece alguém para criticar a política de juros escorchantes do Banco Central. Mas, agora, é também o credor do Brasil que puxa os juros para cima, independentemente da política monetária.

Embora, no dia 17, o Copom tenha reduzido os juros básicos (Selic) em um quarto de ponto porcentual ao ano, nas últimas semanas os juros de longo prazo, que o mercado, e não a Selic, vem definindo, estão aumentando quase todos os dias. Para ficar com os títulos do Tesouro, os ativos mais seguros do País, os investidores vêm exigindo juros reais (acima da inflação) até superiores a 8,0% ao ano.

Isso acontece porque a dívida pública está disparando e já ultrapassa os 80% do PIB e, mais, porque dispara à velocidade de 3,5% e 4,5% ao ano. E, atenção: esse crescimento da dívida não acontece apenas porque o Tesouro tem de incorporar os juros altos definidos pelo Copom, mas porque o Tesouro não consegue juros baixos na rolagem dos títulos de longo prazo.

Isolamento político de Lula pode favorecer oposição no 2º turno, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O presidente Lula continua competitivo, mas seu desempenho está estagnado. A pesquisa Meio/Ideia mostra como esse equilíbrio é mais frágil do que parece

Divulgada nessa quarta-feira, a pesquisa Meio/Ideia de julho permite uma leitura incômoda para o Palácio do Planalto: por ora, o risco para a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva não é o surgimento de um adversário competitivo carismático ou capaz de atrair o centro político e viabilizar a terceira via no primeiro turno, mas a persistência do seu próprio isolamento político.

O problema central do presidente não é apenas a existência de um campo oposicionista numeroso e ideologicamente alinhado contra ele; é a combinação entre um teto eleitoral aparentemente consolidado e o não surgimento de uma candidatura com a qual possa se alinhar no segundo turno.

Os custos implícitos da comunicação do BC, por Benito Salomão *

Correio Braziliense

A incapacidade de o Banco Central produzir a convergência da inflação para o centro da meta talvez possa ser explicada na escolha das palavras contidas nos seus instrumentos de comunicação

Na sua última reunião, o Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu cortar a taxa básica de juros para 14,25% ao ano. Essa decisão já era esperada pela ampla maioria dos agentes e, portanto, não causou surpresas. Surpreendente mesmo é a imensa dificuldade encontrada pelo Comitê de explicar a sua decisão. A inflação no país voltou a performar acima da meta nos meses recentes, fruto de choques em preços de energia. No entanto, o atual nível de contração da política monetária deveria ser capaz de produzir a convergência em horizonte razoável.

Três lições da Copa, por Cristovam Buarque*

Correio Braziliense

Permitimos que todos joguem futebol com bolas igualmente redondas, mas não oferecemos escolas com a mesma qualidade para todas crianças. O futebol venceu o racismo; a educação ainda não venceu o rendismo

A primeira lição desta Copa é seu papel na luta contra o racismo. Os torcedores brancos europeus tratam seus atletas como heróis, independentemente da raça. Esse reconhecimento ajuda a quebrar o preconceito, na medida em que o país passa a dever suas conquistas a jogadores negros ou árabes. Há algumas décadas, até mesmo no Brasil, exigia-se que jogadores negros usassem pó de arroz no rosto para embranquecê-los. Se esse preconceito tivesse continuado, o Brasil não teria conquistado Copas do Mundo, pois grande parte de nossos jogadores é formada por afrodescendentes.

Personagem de si mesma, por Ivan Alves Filho*

Em 1926, aos 36 anos de idade, uma mulher faz as malas, pega seu carro e sai em viagem. Estamos na Inglaterra. Horas depois, seu veículo é encontrado, dentro de um lago. Não há ninguém dentro, nenhum corpo é achado na água. 

Seu marido, notificado do acidente, inicia uma busca desesperada por sua mulher.  A Polícia inglesa investiga o mistério, a imprensa também se debruça sobre o assunto. Há muita especulação em torno daquele desaparecimento: terá sido um assassinato? Um suicídio? Um sequestro? Ou a mulher simplesmente decidiu sumir no mapa? 

Poesia | O Guardador de Rebanho parte VIII, de Fernando Pessoa, por Paulo Autran

 

Música | Chico Buarque - Sou Eu / Tereza da Praia

 

quarta-feira, 8 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Discussão técnica é essencial para desfazer tarifaço

Por O Globo

Empresas trazem ao debate em Washington elementos mais sólidos do que o oportunismo político

Tem trazido sensatez aos debates a presença de representantes do empresariado e do meio acadêmico nas audiências públicas realizadas em Washington pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) sobre o processo em que o Brasil é acusado pelo governo Donald Trump de práticas comerciais injustas e discriminatórias. No mês passado, o USTR sugeriu a imposição de tarifas de 25% sobre diversos produtos brasileiros. Nesta semana, os afetados puderam apresentar seus argumentos, como já havia ocorrido depois do primeiro tarifaço.

Numa demonstração de como a questão tem implicações políticas, o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato do PL à Presidência, compareceu às audiências para tentar reverter ao menos em parte o estrago provocado pela ação desastrosa de seu irmão Eduardo e de seu grupo de bolsonaristas junto ao governo Trump. Por trazer elementos mais sólidos, porém, é a atuação das empresas que poderá surtir algum efeito sobre as autoridades americanas.

Tarifas embutem interesses eleitorais e negócios da plutocracia de Trump, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Das empresas, entidade e pessoas físicas dos EUA na audiência sobre tarifas, 30 foram contra e 14 a favor; das 34 brasileiras, somente Flávio foi a favor

O imbróglio do tarifaço dos Estados Unidos contra o Brasil é mais do que um contencioso comercial, no qual os dois países negociam tarifas com base em interesses recíprocos. Como ficou evidente nessa terça-feira, com a participação do senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato a presidente da República, na audiência pública promovida pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), há dois eixos cruzados de negociação.

O eixo com o qual o Itamaraty trabalha é econômico-empresarial, no qual pesam os interesses concretos das cadeias produtivas integradas entre Brasil e EUA; Flávio privilegiou o viés ideológico-político, fortalecido pela conjuntura eleitoral nos dois países, que favorece a ofensiva da direita norte-americana contra regulações, instituições e governos que não se alinham à sua agenda.

Relações exteriores no centro da campanha, por Fernando Exman

Valor Econômico

Tarifaço fez com que até mesmo aliados próximos de Flávio reconhecessem que a política externa havia se tornado uma área sensível

Até hoje reverbera na comunidade diplomática a declaração de Mark Rutte, secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), chamando o presidente Donald Trump de “papai”.

Aconteceu durante a cúpula da Aliança Atlântica em Haia, em meados de 2025. Rutte já vinha sendo alvo de críticas por não poupar elogios ao americano, a quem chamava de “querido Donald”, mas naquele momento foi além.

Em um instante de descontração flagrado pelas câmeras, os dois conversam animadamente e Trump comenta a reprimenda que dera na véspera em Israel e Irã: para o republicano, os dois países do Oriente Médio se comportavam como crianças no pátio de uma escola. Com um palavrão, afirmou que eles não tinham noção do problema que estavam criando. E o europeu então emendou, concordando que em algumas ocasiões “papai” precisava usar uma linguagem mais dura.

Trump leva a Fifa de volta aos tempos de Mussolini, por Edward Luce

Financial Times / Valor Econômico

O presidente dos EUA é o primeiro líder de um país desde Benito Mussolini, em 1934, a intervir publicamente a favor de sua seleção (a Itália, então fascista, era a anfitriã e ganhou a Copa)

Podemos chamar de toque de Midas às avessas. Donald Trump adora ouro. No entanto, tudo o que ele toca, desde espelhos d'água até alianças dos Estados Unidos, parece virar outra coisa. Sua última incursão foi na Copa do Mundo. Um torneio que vinha se mostrando um inesperado sucesso desandou depois de Trump ligar para a Fifa, que, em seguida, anulou a suspensão por um jogo de Folarin Balogun, uma das estrelas americanas. Os EUA, de qualquer forma, perderam por 4 a 1 da Bélgica.

A intervenção de Trump na Fifa, comparada a seu ímpeto incansável para multiplicar a fortuna da família ou a seus atos de guerra ou paz, poderia ser classificada como apenas uma nota de rodapé. Ainda assim, é possível apostar com tranquilidade que esteve entre suas atitudes de maior visibilidade no palco mundial.

Trump precisava aparecer na festa do futebol, por Elio Gaspari

O Globo

Ele deu um jeito, entrou na Copa, saiu dias depois

O presidente americano Donald Trump deu um jeito, arrumou uma encrenca com o árbitro brasileiro Raphael Claus e virou personagem da Copa do Mundo. Puro Trump. Afinal, ele continua dizendo que ganhou a eleição de 2020. É verdade que parou de falar que Barack Obama nasceu na África. No primeiro mandato, produziu 30.573 mentiras ou falsidades, 21 por dia. De volta à Casa Branca, seguiu na mesma toada, porque esse é seu estilo, e a encrenca com Claus é um estudo de caso de sua essência.

Na quarta-feira passada, o centroavante Folarin Balogun pisou no tornozelo do zagueiro Muharemovic, da seleção da Bósnia. Depois de ver o vídeo no VAR, o árbitro Claus expulsou-o do campo. (Balogun disse que aceitava a decisão.) Trump contou que, até então, não sabia o que significava a apresentação de um cartão vermelho, com a consequente suspensão para o jogo seguinte, contra a Bélgica.

A pátria sem chuteiras, por Bernardo Mello Franco

O Globo

A cada quatro anos, uma mesma pergunta se repete na política

A pergunta é repetida a cada quatro anos: o desempenho do Brasil na Copa do Mundo influencia a eleição presidencial? Os candidatos parecem apostar que sim. Na dúvida, tentam pegar carona na torcida pela seleção.

Desde a estreia contra Marrocos, todos os presidenciáveis se exibiram com a amarelinha. Lula gravou vídeo para incentivar o “querido Ancelotti”. Flávio Bolsonaro apelou à inteligência artificial para mostrar afinidade com Neymar. Ronaldo Caiado disse que os noruegueses “vivem embaixo do gelo” e jamais ganhariam do Brasil. Entrou numa fria.

Os acenos dos emissários de Lula ao mercado, por Vera Magalhães

O Globo

Ministros e estrategistas do PT refutam comparações entre gastos eleitoreiros de petista e Bolsonaro e usam má fase de Flávio para se aproximar da Faria Lima

Os dissabores da pré-campanha de Flávio Bolsonaro deram a Lula uma condição rara tratando-se do incumbente numa eleição presidencial: jogar no contra-ataque, no erro do adversário. O intervalo proporcionado pela Copa e a sucessão de crises no Q.G. bolsonarista têm sido usados para tentar reverter uma das rejeições mais consolidadas ao petista, a do mercado financeiro.

Os emissários de Lula nessas conversas, entre os quais um dos mais loquazes é o novo ministro da Fazenda, Dario Durigan —que, diga-se, joga com aquela disposição de quem veio do banco e quer garantir lugar no time titular—, procuram desmontar com dados as comparações entre as medidas do atual governo e as de Jair Bolsonaro no período eleitoral.

Sem Michelle, quem convence a Tatiana? Por Renato Meirelles

O Globo

Disputa de 2026 passa pela mulher que trabalha por conta própria e ainda não foi conquistada por nenhum dos dois lados

Na coluna passada escrevi que o voto feminino em 2026 não cabe numa personagem só. Há Dona Maria do Socorro, aposentada no sertão de Pernambuco, que vota olhando para a rede pública que sustenta a casa. Há Vera, em Suzano, cuidadora em tempo integral da mãe acamada, que carrega todo mundo sem que ninguém pergunte quem cuida dela. E há Tatiana, de 33 anos, que faz sobrancelha na garagem em Mauá, paga MEI, racha o aluguel com o marido motorista de app, fecha as contas no susto e se ofende quando alguém trata ela como coitada.

Escolha de dois senadores muda a lógica do voto, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Pleitos que renovam 2/3 do Senado costumam eleger mais influencers e outsiders

Preferências ideológicas tendem a prevalecer apenas na definição do primeiro nome

"De cabeça de juiz e fralda de neném, ninguém sabe o que vem" é um ditado popular entre advogados para designar o elemento de incerteza inerente a decisões judiciais. Poderíamos acrescentar um terceiro item ao provérbio: urnas em eleições de duas vagas para o Senado.

Desde que a Constituição de 1946 reduziu os mandatos de senadores de nove para oito anos e manteve o número de três representantes por estado, alternamos pleitos em que o eleitor vota em dois candidatos e aqueles em que escolhe apenas um nome. Pode parecer um mero detalhe, uma caprichosa imposição da aritmética sobre o processo eleitoral, mas ele tem consequências importantes não apenas sobre a estratégia dos partidos para forjar alianças e definir candidaturas mas principalmente sobre a psicologia do eleitor.

Tribunais dão recado infrator à população, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

A própria Justiça passa à população a mensagem de que ordens judiciais podem ser descumpridas

A cobrança do Supremo por explicações deve ser estendida aos outros TJs que não prestaram informações

A resistência ao cumprimento da ordem para pôr fim aos pagamentos excessivos e indevidos no Judiciário e Ministério Público era esperada. Partiu do Supremo Tribunal Federal e dos conselhos nacionais das duas instâncias que depois da decisão inicial de Flávio Dino afrouxaram a norma, dando aval a alguns penduricalhos.

O que não se esperava era a insubordinação explícita de sete dos oito tribunais de Justiça, cujos dados foram examinados por reportagem da Folha e onde se constataram pagamentos muito acima do teto constitucional a 616 juízes e desembargadores, chegando num caso à exorbitância de R$ 495 mil, em maio.