terça-feira, 24 de março de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Aposentadoria especial é distorção sem cabimento

Por O Globo

Quatro em cada dez aposentados brasileiros saem da ativa antes da idade mínima válida para os demais

Uma das principais distorções da Previdência no Brasil é a concessão de aposentadoria a grupos específicos antes do prazo em vigor para todos os demais. É o caso de benefícios concedidos a trabalhadores rurais, professores e profissionais expostos a agentes nocivos. Eles respondem por 38,7% das aposentadorias por idade e tempo de contribuição no Brasil, como constatou reportagem do jornal Valor Econômico. Na esfera estadual brasileira, professores da educação básica são quatro em dez aposentados. Não há paralelo em nenhum país comparável ao Brasil.

Incerteza, ambiente propício para salvadores da pátria, por Pedro Cafardo

Valor Econômico

Empresas e consumidores do Brasil enfrentam há décadas os juros reais mais altos do mundo, e há um silêncio constrangedor entre empresários do setor produtivo atingidos pelos custos desses juros

Incerteza é a palavra do momento. A maior de todas advém da atuação insana do presidente da mais poderosa nação do mundo. A guerra que esse senhor iniciou ao bombardear o Irã em parceria com outro senhor, além de mortífera e devastadora, se mostrou pobre em planejamento. Provocou a expansão do conflito para todo o Oriente Médio e a maior interrupção de oferta da história do mercado mundial de petróleo.

Com o seu erro estratégico, os dois senhores dessa guerra estão matando civis, inclusive muitas crianças, sem medo de serem punidos por seus crimes. Além disso, fizeram disparar os preços do petróleo e ameaçam o mundo com uma nova onda inflacionária, talvez semelhante à que se sucedeu ao grande choque dos anos 1970, quando a alta da commodity atingiu 400% em decorrência da guerra do Yom Kippur. Naquela década, o preço do barril saiu de US$ 3 para US$ 12.

A brigada anti-impeachment no Supremo, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Maior temor é o de que o impeachment de ministros seja “normalizado” como o de presidentes

O procurador- geral da República manifestou-se pela prisão domiciliar do ex-presidente Jair Bolsonaro. Paulo Gonet disse não haver meios, no sistema prisional, de monitorar sua saúde. Por mais bem fundamentada que esteja, a manifestação de Gonet não trata apenas da sobrevivência do ex-presidente, mas também daquela do Supremo Tribunal Federal. Como a Corte ainda não é capaz de delimitar o estrago para sua imagem com o Master, há um consenso de que é preciso evitar novas frentes de desgaste como a custódia prisional de um ex-presidente da República debilitado.

A pedido da PGR, Moraes deve conceder prisão domiciliar para Bolsonaro, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

A ausência de estrutura adequada para lidar com doenças complexas, crônicas ou degenerativas pode transformar a pena privativa de liberdade em pena de morte indireta

A qualquer momento, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), responsável pela execução penal dos condenados pela tentativa de golpe de Estado de 8 de Janeiro, deve acolher manifestação do procurador-geral da República, Paulo Gonet, opinando pelo deferimento do pedido de prisão domiciliar em caráter humanitário de Jair Bolsonaro. O pedido é justificado pela defesa devido ao estado de saúde do ex-presidente, que demanda monitoramento em tempo integral. A PGR reconhece que o ambiente familiar pode fornecer os cuidados ininterruptos exigidos ao paciente.

Ambiguidade como arma de guerra, por Míriam Leitão

O Globo

Trump emite sinais contraditórios sobre o conflito no Oriente Médio: ora de ataque, ora de negociação. O fato é que a guerra atinge a economia e provoca estragos

O anúncio do presidente Donald Trump de que estaria havendo negociações com o Irã causou uma rápida reação positiva do mercado. Mas há pouca certeza de que isso esteja de fato ocorrendo ou venha a ter um bom resultado. O mais certo é que a volatilidade da cotação do petróleo vai continuar, ao sabor das incertezas. O Irã negou conversas diretas, mas admitiu contatos através de mediadores. Para os Estados Unidos, a guerra está provocando mais estragos do que Trump admite ou calculou que aconteceria. O Irã já sabe que consegue afetar o presidente norte-americano aumentando o custo econômico do conflito, porém ele também sabe quais as suas perdas e os seus limites.

O risco das delações cruzadas, por Merval Pereira

O Globo

Um delatado que resolve colaborar depois pode querer redistribuir culpas ou minimizar o próprio papel

A delação premiada no caso do Banco Master será a senha para o esclarecimento das entranhas da relação não apenas do ex-banqueiro Daniel Vorcaro com autoridades e políticos em Brasília, mas também de seus sócios, ou cúmplices, como o cunhado Fabiano Zettel e o empresário João Carlos Mansur, da Reag Investimentos, investigado por relações financeiras ilegais, inclusive com facções do crime organizado, como o PCC paulista. Mas há conflitos de interesse entre as eventuais delações, pois o atual advogado de Vorcaro também assumiu a defesa de Mansur, que necessariamente será implicado numa eventual delação do ex-banqueiro.

O país da delação séria, por Fernando Gabeira

O Globo

Como para muitas outras coisas no Brasil, temos uma versão leve. Sem açúcar, sem gordura, sem glúten, sem agrotóxicos

O advogado de Daniel Vorcaro procurou a PF e disse que seu cliente queria fazer uma delação séria. São coisas do Brasil. A delação premiada existia em alguns países antes de chegar aqui. Tivemos várias. Mas, bem cedo, chegamos a essa categoria de delação séria, pois, como para muitas outras coisas no Brasil, temos uma versão leve. Sem açúcar, sem gordura, sem glúten, sem agrotóxicos.

A guerra da IA, por Pedro Doria

O Globo

A guerra que Estados Unidos e Israel travam contra o Irã traz duas novidades que a tornam, nas palavras de Michael Horowitz, do Council on Foreign Relations, a primeira “guerra de precisão em massa”. A última vez em que uma transformação tecnológica radical desse nível ocorreu foi em 1991, na Guerra do Golfo. Lá, os mísseis Tomahawk e aviões bombardeiros que sumiam no radar permitiram que ataques tivessem um nível de precisão jamais visto. Agora é diferente. A precisão é plena e quase total. O que mudou foram duas tecnologias em paralelo. Do lado americano e israelense, é a primeira vez que inteligência artificial é usada para escolher alvos. Do lado iraniano, sua principal arma são drones que enxergam onde pretendem atacar. Por diversas razões, isso quer dizer que esta é uma guerra imprevisível.

O ‘centro’ flopou mais uma vez, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

As articulações do Centrão deram em nada, resta saber para onde vai o eleitor de centro

A desistência de Ratinho Jr. tem significados fortes e consequências claras: Gilberto Kassab desaba do pedestal de gênio da política, as opções do tal “centro” definham, o cenário de polarização se consolida e Flávio Bolsonaro conquista uma vitória relevante, enquanto o presidente Lula é quem tem mais a lamentar.

A frente articulada por Kassab, liderada pelo PSD e engrossada por partidos do Centrão, reunia três ou quatro candidatos à Presidência, mas Tarcísio de Freitas fugiu da raia, Ratinho Jr. recolheu-se à sua insignificância, Eduardo Leite parece sempre um peixe fora d’água.

As consultorias de Vorcaro, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

O crescimento do Banco Master – o livre e célere erguimento de sua pirâmide – é produto também da rede de relações costurada por Daniel Vorcaro, tessitura em que se destaca o zelo por ter várias e boas consultorias. Ele sabia selecionar prestadores de serviços cujo serviço teria valor, como se diz, subjetivo. Quase como se montasse uma coleção de arte, fomentou espécie de startup de consultorias – e, claro, consultores. Consultores influentes, inclusive jurídicos. Tudo a milhão.

Uma nova política de Defesa, por Rubens Barbosa

O Estado de S. Paulo

A melhoria da capacidade de atuação das Forças Armadas tem de ser vista como uma questão de Estado, com uma visão estratégica de médio e longo prazo

Em janeiro passado, o presidente Lula convocou uma reunião com o ministro da Defesa, os comandantes das três Forças e o chefe do Estado-Maior Conjunto para analisar as vulnerabilidades do Brasil no caso de uma ameaça externa. A preocupação, oportuna neste momento, mas muito atrasada do ponto de vista da defesa da soberania, tem de ser também entendida pela sociedade e pela classe política, distantes desse problema, cada vez mais urgente diante das incertezas globais e pela insegurança interna.

Ruim, mas deve piorar, por Jorge J. Okubaro

O Estado de S. Paulo

Se o diretor-geral da AIE prevê que a crise atual do petróleo pode ser a pior da história, pode-se imaginar o que está a rondar a economia mundial

“A maior ameaça à segurança energética global da história.” Foi assim que, em entrevista ao jornal britânico Financial Times na semana passada, o diretor-executivo da Agência Internacional de Energia (AIE), Fatih Birol, avaliou os impactos sobre a economia mundial da guerra entre os Estados Unidos-Israel e o Irã. Segundo Birol, dirigentes políticos e agentes dos principais mercados mundiais estão subestimando a dimensão da crise causada pelo fato de que, na prática, com o fechamento do estreito de Ormuz, cerca de um quinto do petróleo consumido no mundo está retido na área do conflito.

Desistência de Ratinho Jr. é reconhecimento de que chances da terceira via são diminutas, por Joel Pinheiro da Fonseca

Folha de S. Paulo

Mais um ciclo eleitoral vem e o Brasil continua preso na polarização de lulismo e bolsonarismo

Lula e Flávio são a expressão da nossa democracia, em que poucos eleitores sabem os projetos de seus candidatos

desistência de Ratinho Jr. da corrida presidencial é o reconhecimento de que as chances da terceira via são diminutas. De que vale o desgaste para terminar com 5%? Mais um ciclo eleitoral vem e o Brasil continua preso na polarização de lulismo e bolsonarismo (ou seus ungidos).

Isso contraria muitas intuições de como o eleitor escolhe, ou deveria escolher. Uma ideia muito difundida é a seguinte: o eleitor tem suas preferências de projetos de lei e políticas públicas. Os candidatos apresentam seus planos. Com as propostas em mãos, o eleitor escolhe o candidato que mais se aproxima de suas preferências. Se, futuramente, aparecer um novo candidato cujas propostas são ainda mais próximas das suas, ele mudará seu voto. Será que Flávio e Lula têm as melhores propostas?

Pressões põem em xeque funcionamento de CPIs, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

As comissões parlamentares de inquérito estão sendo gradativamente esvaziadas e desmoralizadas

A desconstrução em parte é obra dos próprios políticos, em parte culpa das interferências por interesses ocultos

Pode ser coincidência ou mera impressão, mas que determinadas atitudes de ministros do Supremo e dos presidentes da Câmara e do Senado espalham um aroma de operação abafa no ar de Brasília, isso é evidente.

No STF anulam-se quebras de sigilo aprovadas em comissões de inquérito e liberam-se convidados e convocados de comparecer a CPIs enquanto no Congresso o deputado Hugo Motta (Republicanos) e o senador Davi Alcolumbre (União Brasil) interditam a prorrogação da CPMI do INSS e impedem investigações sobre o Banco Master.

Lagoinha, igreja de Vorcaro, já foi palco de revolução evangélica, por Juliano Spyer

Folha de S. Paulo

Escândalo reacende críticas à associação entre fé, poder e dinheiro

Nos anos 90, igreja se conecta ao dinâmico evangelicalismo dos EUA

Para quem conheceu a Lagoinha pelo noticiário recente, ela aparece associada a luxo, política e ao escândalo do Banco Master. Mas essa mesma igreja já ocupou um lugar muito diferente no protestantismo brasileiro.

Nos anos 1970 e 1980, em Belo Horizonte, a Lagoinha era uma igreja de bairro. Membros antigos a descrevem como uma extensão da vida doméstica: famílias próximas, crianças crescendo juntas, vínculos duradouros. Era uma igreja batista típica, que incorporou uma liturgia mais viva, próxima ao estilo pentecostal.

Trump e Netanyahu tendem a divergir sobre Irã, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

A americano interessa reduzir danos e encerrar a guerra

Para israelense, só vitória eloquente ajudaria em reeleição

Donald Trump e Binyamin Netanyahu começaram juntos a guerra contra o Irã, mas tendem cada vez mais a divergir sobre o momento de encerrá-la.

É difícil, aliás, entender por que Trump embarcou nessa aventura. É verdade que o Agente Laranja ganharia pontos eleitorais (haverá pleito legislativo nos Estados Unidos em novembro), se tivesse derrubado a teocracia iraniana apenas falando grosso e lançando meia dúzia de bombas. Só que o risco de isso não acontecer sempre foi grande. E, até aqui, não aconteceu.

Trump precisa visitar Rio das Pedras para conhecer as milícias, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Há organizações criminosas de todo o tipo, não só aquelas que negociam drogas

Milicianos ocupam territórios e são tão ou mais perigosos que bandidos do PCC e CV

Como haviam feito com o tarifaço —depois se arrependeram, escondendo o boné Maga—, direita e extrema direita se deliciaram com o argumento de equiparar traficantes a terroristas. A denominação narcoterrorista, adotada por Donald Trump e seus seguidores, como Nayib Bukele, o ditador "cool" de El Salvador, logo foi copiada pelos agentes de segurança do Rio de Janeiro. Serviu para embalar a chacina do Alemão e da Penha. Realizada em outubro, a operação deixou mais de cem mortos, sem alterar a situação nas duas comunidades, cujos territórios continuam ocupados. O alcance midiático, no entanto, foi um sucesso.

Poesia | Amor é um fogo que arde sem se ver, de Luís de Camões

 

Música | Maria Rita - Águas de março

 

segunda-feira, 23 de março de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Com Master, BC tem oportunidade de refinar controles

Por O Globo

Pela primeira vez, dois altos funcionários da autoridade monetária foram acusados de corrupção

O caso Master tem oferecido ao Banco Central (BC) uma oportunidade única de aperfeiçoar o sistema de supervisão das instituições financeiras. Não é a primeira vez que um banco comete fraudes, nem a primeira liquidação extrajudicial em que diversos investidores perdem patrimônio. O fato preocupante é que esta é a primeira vez, em todas as ondas de intervenção e liquidação de bancos desde a redemocratização, em que dois altos funcionários do BC são acusados de corrupção.

Belline Santana, ex-chefe do Departamento de Fiscalização Bancária, e Paulo Souza, ex-diretor de Fiscalização, se tornaram, de acordo com as investigações, “consultores pessoais” do banqueiro Daniel Vorcaro. Depois de auditoria interna ter constatado um aumento de patrimônio dos dois que só poderia ser explicado pelo recebimento de vantagens indevidas, o BC os afastou do cargo e comunicou à Polícia Federal (PF). O ministro André Mendonça, relator do caso Master no Supremo Tribunal Federal (STF), os afastou do próprio BC.

Delação de Vorcaro: preguiçosa e conveniente, por Bruno Carazza

Valor Econômico

Daniel Vorcaro é um cara arrojado e inteligente. Ao longo da sua trajetória meteórica, ele sempre seguiu uma estratégia racional, orientando suas jogadas pela exploração dos incentivos errados que os sistemas econômico, político e judicial brasileiro oferecem. E a delação é a sua próxima cartada.

No centro do modelo de negócios do Master estava uma falha do sistema financeiro: sabendo que o Fundo Garantidor de Créditos honraria as aplicações de até R$ 250 mil dos investidores, o banco captou um montante estratosférico no mercado. Quando a bomba explodiu, Vorcaro impôs um prejuízo de mais de R$ 50 bilhões a seus concorrentes, que precisarão recapitalizar o FGC.

MDB, 60 anos: nem Ulysses e Tancredo uniram o partido, por César Felício

Valor Econômico

Partido não deve apoiar ninguém para presidente este ano, mas sem o clima de guerra do passado

Mais à direita do que já esteve na maior parte da sua história, muito menor do que já foi no passado, o MDB completa 60 anos nesta terça-feira mantendo uma singularidade: é o partido onde instâncias regionais, estatutariamente, têm mais poder perante a cúpula da sigla.

Esta particularidade está cobrando seu preço agora, em meio às articulações de palanque que ocorrem junto com a janela partidária. Em dois Estados do Nordeste, Paraíba e Piauí, é provável que o partido simplesmente deixe de lançar candidato a deputado federal.

A formação de uma bancada robusta na Câmara dos Deputados é fundamental para qualquer partido conseguir uma fatia mais relevante do fundo partidário. Mas o MDB, ainda hoje, continua podendo ser chamado de “federação de caciques regionais”. No Piauí, a prioridade da sigla é o acordo com o PSD para a reeleição do senador Marcelo de Castro. Na Paraíba, o partido joga mais alto, e quer eleger o prefeito de João Pessoa, Cícero Lucena para governador, e reeleger o senador Veneziano Vital do Rego. Abrir mão na nominata proporcional ajuda na composição.

Campanha tem batalha de rejeições entre Lula e Flávio Bolsonaro, por Joelmir Tavares

Valor Econômico

Parcela de eleitores que rechaça votar em um ou outro será elemento decisivo, se polarização captada nas pesquisas continuar

A liderança de Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro nas pesquisas, a sete meses da eleição presidencial, evidencia o peso da rejeição aos pré-candidatos, que deve se tornar um ingrediente importante da disputa, caso o cenário de polarização continue.

Os percentuais de eleitores que se recusam a votar no atual presidente - que deve ser o representante do PT na corrida - e no senador - indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro para concorrer pelo PL - podem ser decisivos. Segundo especialistas, a possibilidade de que a eleição vire uma espécie de batalha de rejeições é um reflexo da divisão ideológica acentuada, algo que já tinha aparecido em 2022.

Críticas de Lula ao BC partem de mau conselho, por Alex Ribeiro

Valor Econômico

Críticas de Lula partem de um diagnóstico, nos círculos palacianos, de que o BC é um dos responsáveis pela queda da popularidade do presidente

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou, na semana passada, o corte de apenas 0,25 ponto percentual na taxa básica de juros, para 14,75% ao ano. Ele queria 0,5 ponto. Não é o único ataque ao Banco Central, presidido por Gabriel Galípolo, que, durante o período eleitoral, tende a ficar mais isolado.

A queixa de Lula não foi improvisada. Ela parte de um diagnóstico, que surgiu nas reuniões palacianas com a ala política e representantes da equipe econômica, de que o BC é um dos responsáveis pela queda da popularidade do presidente e pelo avanço do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) nas pesquisas para as eleições deste ano.

Quando a festa é públicas, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

O caso Master traz de volta a corrupção aos altos círculos de Brasília, de onde o tema fora expulso com os seguidos cancelamentos da Lava-Jato

Nas conversas entre Daniel Vorcaro e sua então namorada, Martha Graeff, lá pelas tantas aparece uma ponta de ciúme. É quando a namorada fica sabendo que havia garotas de programa na lista de contatos do celular de Vorcaro. O ex-banqueiro se explica: eram contatos profissionais. E acrescenta que já havia organizado festas com 300 garotas, pois isso fazia parte de seu “business”. Farra com 300 garotas é certamente um exagero, mas não importa. Que fosse com 30 ou com uma, a cena do crime estava armada.

Crime de ódio, por Miguel de Almeida

O Globo

Nega-se à deputada Erika Hilton o 'lugar de fala': sendo trans, não poderia tratar de questões das 'mulheres biológicas'

Às preocupações do brasileiro com o perigo de um conflito nuclear e ao espanto com as cafonices de Daniel Vorcaro, somou-se a batalha entre Ratinho e a deputada federal Erika Hilton. O apresentador mostrou-se indignado com a eleição da deputada ao cargo de presidente da Comissão da Mulher da Câmara. Irritado, disse-se contrário a que uma pessoa trans ocupe a vaga. E explicitou sua visão de mundo:

— Ela é trans. Para ser mulher tem que ter útero, menstruar, tem que ficar chata três, quatro dias. Eu sou contra [a eleição dela]. Eu acho que deveria deixar uma mulher.

Para não deixar dúvidas, acrescentou:

— Mulher, para ser mulher, tem de ser mulher (...). Quero dizer que não tenho nada contra a deputada, ou deputado, não sei.

O STF injustiçado, por Diogo Schelp

O Estado de S. Paulo

Ministros tentam convencer a opinião pública de que se uma conduta não é ilegal, é aceitável

Mesmo com tudo o que já se descobriu a respeito de situaç ões que indicam conflito de interesses ou coisa pior na atuação de ministros do STF, em especial no que se refere ao caso do Banco Master, a cúpula da Justiça, ou pelo menos parte dela, se sente injustiçada.

Na quinta-feira, o ministro Gilmar Mendes chorou durante homenagem a Alexandre de Moraes, a quem atribuiu “ânimo inquebrantável” para suportar “tantas tribulações”. Na fala de Mendes, o colega emerge como um incompreendido, cujo sacrifício pelo País talvez só venha a ser reconhecido por gerações futuras. Faltou pouco para dizer que os brasileiros somos ingratos por não entender a dívida que temos com ele.

Um novo Oriente Médio, por Denis Lerrer Rosenfield

O Estado de S. Paulo

O projeto teocrático de uma grande potência regional dominando o Oriente Médio foi por água abaixo

O Oriente Médio mudou após o ataque americano-israelense e a reação da teocracia iraniana. Nada voltará a ser como antes, goste-se ou não desta nova realidade. O Irã se apresentava com uma grande potência regional, caminhando para deter a produção de bombas nucleares, almejando a destruição pura e simples do Estado de Israel. Utilizava-se, para isso, de seus satélites: Hamas, Jihad Islâmica, Hezbollah e Houthis. Com exceção dos últimos, enfraquecidos, os outros já foram derrotados militarmente. Graças à guerra atual, o Irã já está militarmente vencido, contentando-se com atacar as nações árabes, inclusive xiitas como o Catar, procurando criar o caos no Estreito de Ormuz e forçar um aumento do preço do petróleo e do gás em escala mundial. Só os simpatizantes do Irã e do terror islâmico resistem a reconhecer a nova correlação geopolítica de forças, a esquerda mundial satisfazendo-se com a areia do ódio que a teocracia lança nos seus olhos.

Sem mais silêncio, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

As pessoas que atracam os fones às orelhas o dia inteiro isolam-se da vida

Eles são um passaporte para a alienação, o individualismo, o não-tou-nem-aísmo

O jovem de fones ao ouvido atravessou a rua fora do sinal, costurando entre os carros em movimento e tirando fino das motos entre eles. Perplexo, eu assistia a tudo da calçada. Mas nada aconteceu. O garoto chegou ao outro lado e retomou tranquilo o seu caminho, como se o asfalto fosse uma extensão de sua casa. Perguntei-me que maravilhas estariam saindo dos fones, abafando tudo e permitindo-lhe ignorar as buzinas. Rockrapforrók-pop?

Qual o maior crime contra a humanidade? Por Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

Para a União Africana a resposta é clara: foi a escravização e o tráfico transatlântico de africanos

Efeitos físicos, psicológicos, econômicos e sociais desencadeados pela escravização são sentidos por milhões até hoje

Qual o maior crime já cometido contra a humanidade? A pergunta é instigante, mas para a União Africana (UA), organismo formado pelos 55 países do continente, a resposta é clara: foi a escravização e o tráfico transatlântico de africanos escravizados.

A entidade está em busca do reconhecimento oficial da Organização das Nações Unidas (ONU) desse entendimento. Uma resolução nesse sentido foi aprovada em fevereiro e encaminhada à apreciação da ONU em busca, ao menos, de um pedido formal de desculpas das nações que lucraram com a prática.

Mais poder, menos confiança: o dilema do STF, por Lara Mesquita

Folha de S. Paulo

Protagonismo do Judiciário levanta questionamentos sobre seus efeitos distributivos e sua legitimidade democrática

Atuação deve ser analisada como a de qualquer outra instituição política, sujeita a limitações, incentivos e pressões

O Supremo Tribunal Federal é destaque no noticiário político, e isso não é novidade. A novidade é que o holofote agora está na erosão de sua legitimidade. Pesquisas de opinião divulgadas neste mês de março por diversos institutos (Datafolha, Quaest, Ideia, Atlas Intel) convergem ao apontar a queda da confiança dos eleitores no STF.

Master: entre a punição de malfeitos e o conluio generalizado, por Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

A diversidade e o grande número de envolvidos aumentam as chances de punição ou de impunidade recíproca?

Quando muitos interesses são afetados, ainda que rivais, e o grau de comprometimento ultrapassa certos limiares, o resultado é o conluio geral

Há perplexidade generalizada diante da estrutura tentacular e de dimensões colossais do affair Master. Sobra (quase) ninguém! A mais recente revelação: o filho de um ministro do STF e a nora do líder do governo no Senado teriam recebido somas milionárias do banco. O envolvimento de um número estarrecedor de atores —de autoridades dos três Poderes a empresários—, para além de qualquer clivagem ideológica, suscita uma questão central: quanto maior e mais diverso o número de implicados, maior a probabilidade de emergirem denúncias cruzadas que alimentem uma dinâmica de incriminação recíproca? A resposta otimista é: sim!

Estado, não livre mercado, forjou o capitalismo, afirma professor de Harvard, por Zander Navarro*

Folha de S. Paulo

Livro extraordinário de Sven Beckert ilumina 900 anos de história e mostra que o regime econômico sempre foi global

Para historiador, economia neoclássica ignora fatos e reduz a diversidade da vida econômica a deserto homogêneo

[RESUMO] "Capitalism: a Global History", livro recém-lançado de Sven Beckert, preenche uma lacuna na bibliografia sobre a constituição do regime econômico e desmente narrativas anteriores. Com uma análise empírica da trajetória milenar do capitalismo, argumenta o autor, a obra retorna à melhor criatividade da economia política e sustenta que o regime econômico não é resultado dos mercados, mas um produto direto do poder do Estado.

Ao examinar a evolução do debate econômico do último meio século —da discussão sobre o desenvolvimento dos países ao desmoronamento da ordem mundial formalizada no pós-guerra, passando pela euforia com a globalização e a crise quase letal de 2008—, se nota uma faceta intrigante: há uma lacuna no diagnóstico das entranhas do capitalismo.

O Brasil nas trilhas, por Ivan Alves Filho

Um dia desses, Luiz Carlos Prestes Filho - uma dessas pessoas de cuja amizade só tenho que me orgulhar há dezenas de anos - me convidou para participar de um encontro virtual sobre uma rede de trilhas envolvendo o espaço territorial brasileiro. Seu nome oficial é Rede Brasileira de Trilhas de Longo Curso, uma proposta cultural, ecológica e sensitiva criada em 2017. Um dos seus objetivos é interligar as unidades de conservação presentes em nosso território. Uma destas trilhas pleiteia, justamente, a Coluna Prestes, comandada por seu pai, o lendário Cavaleiro da Esperança, entre 1924 e 1927, percorrendo partes consideráveis do nosso país.

Poesia | O Correr da Vida, de Guimarães Rosa

 

Música | Chico Buarque - Sabiá (1968)

 

domingo, 22 de março de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Raiz do juro alto está nas amarras orçamentárias

Por O Globo

Indexação ao mínimo e vinculação obrigatória de despesas à receita respondem por 40% da alta na dívida

De equívoco em equívoco, o terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva terá representado, ao fim de 2026, uma alta de 10% na dívida pública, para acima de 80% do PIB. Desse aumento, cerca de 40% — ou R$ 518 bilhões — se devem exclusivamente à indexação de benefícios previdenciários e programas sociais ao salário mínimo e à vinculação orçamentária obrigatória de gastos em saúde e educação, de acordo com cálculos do economista Samuel Pessôa. Tal expansão da despesa é o motivo para a taxa de juros brasileira estar entre as mais altas do mundo. Num país célebre pela carga tributária infame, o governo Lula, com o beneplácito do Congresso, apostou no aumento dos impostos para cobrir a despesa. Essa toada é o caminho para o caos. Se a campanha eleitoral permitir algum debate relevante, esse é um tema inescapável.

A democracia desafiada. Recompor a política para um futuro incerto, por Marco Aurélio Nogueira.

Rio de Janeiro, Ateliê de Humanidades, 2023.

INTRODUÇÃO

O presente livro se propõe a interpelar a sociedade e o modo como vivemos, privilegiando alguns de seus aspectos principais, hoje submetidos a amplo debate público. Não pretende oferecer uma teoria abrangente, que dê conta dos múltiplos aspectos da vida como ela é. Trata-se de um ensaio. Não há nele nenhum estudo de caso. Poderei me deixar sensibilizar pelos fatos que transcorrem em meu país, o Brasil, mas o interesse não estará aí. Meu propósito é assumidamente modesto e circunscrito: chamar atenção para certos gargalos que asfixiam a vida atual e sugerir caminhos para compreendê-los.

No centro dos capítulos que se seguirão está a questão da democracia. Trata-se de uma escolha sustentada pela convicção de que não teremos um futuro promissor sem arranjos democráticos sustentáveis. Podemos e devemos discutir de “qual democracia” estamos a falar, que peso deverão ter nela os princípios liberais e socialistas, de que modo será feita a participação dos cidadãos, se os partidos políticos devem ter maior relevo do que as redes sociais, qual o melhor regime para a tomada de decisões, e assim por diante. Mas não há como renunciar à democracia como valor estratégico. Sem isso estaremos sempre a um passo da escuridão autoritária.

O ‘hegemon’ que não sabe recuar, por Luiz Sérgio Henriques

O Estado de S. Paulo

Político talhado para o conflito, Donald Trump é causa e efeito de uma gigantesca destruição não criadora

Um hegemon vingativo, destruidor de instituições que ele próprio ajudou a inspirar, a começar pela ONU e sua Carta de Direitos, está em evidente curso de dissolução da própria hegemonia. Conceito complexo este último. Nutre-se não só do poderio industrial ou militar, mas também, e amplamente, da capacidade de direção política e intelectual – de soft power, em suma. Essa é uma lição secular, anterior a qualquer formulação gramsciana. Já o centauro maquiaveliano, educador de políticos, alertava contra o uso exclusivo da violência. Se o príncipe só mobiliza as qualidades do leão e menospreza as manhas da raposa, ele incute medo nos lobos e termina preso numa armadilha.

Tão longe, tão perto, duração da guerra do Irã pode decidir eleições no Brasil, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

A Operação Fúria Épica parece distante de um fim próximo, embora concebida para durar poucos dias. O nó górdio da guerra é o bloqueio do Golfo de Ormuz, controlado pelo Irã

Neste ano eleitoral, há três fatores imponderáveis para os humores da sociedade: o desfecho do escândalo do Banco Master, em relação à credibilidade das instituições; a prisão em regime fechado do ex-presidente Jair Bolsonaro, com suas recorrentes internações por problemas de saúde; e a guerra do Irã, com forte impacto no preço dos combustíveis e, consequentemente, na inflação. O primeiro favorece uma candidatura outsider, o segundo a do senador Flávio Bolsonaro e, o terceiro, qualquer um dos dois ou um candidato de “terceira via”. Ou seja, para se reeleger, o presidente Luís Inácio Lula da Silva precisa ficar esperto, o tempo fechou.