Discursos farsescos de Lula e Flávio
Por Folha de S. Paulo
Petista posa de antissistema, e filho de
Bolsonaro renega ajuste fiscal discutido com empresários
É provável que radicalismo e moderação venham
a ser apresentados conforme as conveniências, sobretudo ao tratar das contas públicas
Com índices de aprovação frágeis, más
notícias nas pesquisas de intenção de voto e uma derrota histórica em sua
indicação para o Supremo Tribunal Federal (STF), Luiz
Inácio Lula da
Silva (PT)
abraçou o populismo em seu
pronunciamento por ocasião do Dia do Trabalho.
"Cada vez que damos um passo adiante
para melhorar a vida do povo brasileiro, o sistema joga contra. O andar de
cima, os bilionários, a elite que só pensa em manter privilégios às custas do
povo. Se dependesse do sistema, nem a escravidão teria sido abolida no
Brasil", discursou.
Parece cômica a retórica antissistema vinda
de um político com o histórico de Lula —em seu terceiro mandato presidencial
graças à anulação pelo Supremo Tribunal Federal, por questões formais, de suas
condenações por relações promíscuas com grandes empreiteiras. Mas a escolha da
palavra não é por acaso.
Duas semanas atrás, falando em um evento de
esquerda na Espanha, o petista reclamou da perda da bandeira antiestablishment
para a ultradireita. "Nós nos tornamos o sistema. Por isso, não surpreende
que, agora, o outro lado se apresente como antissistema", disse, conforme
reportou O Estado de S. Paulo.
É notável que, entre uma declaração e outra
do líder, o PT tenha realizado um congresso em que mostrou o objetivo de evitar
polêmicas e atrair setores do centro político. Afinal, se discursos radicais
inflamam seguidores fiéis, a disputa presidencial pode ser decidida, mais uma
vez, por eleitores avessos à polarização.
Cálculo semelhante é feito nas hostes
de Flávio
Bolsonaro (PL), hoje empatado com
Lula nas simulações de segundo turno —e empenhado na missão inglória de parecer
mais moderado que o pai condenado por tentativa de golpe de Estado.
Flávio embarca no golpismo paterno ao lançar
dúvidas sobre a lisura do processo eleitoral brasileiro em um evento extremista
nos Estados Unidos, mas por aqui procura parecer um candidato responsável ao
discutir com empresários propostas
para reformas fiscais vigorosas em 2027, como noticiou a Folha.
Nem isso, porém, ele se dispõe a defender
abertamente, por temer que ideias como interromper o aumento acima da inflação
do salário
mínimo e dos gastos com saúde e educação lhe
custem votos. Ao que parece, pretende prometer reequilíbrio orçamentário sem
detalhar medidas difíceis, como na proverbial omelete sem quebra de ovos.
Não espantam os malabarismos retóricos numa
corrida em que os líderes na preferência dos votantes são também campeões em
rejeição. É provável que radicalismo e moderação venham a ser apresentados
conforme as circunstâncias e conveniências, sobretudo ao tratar do imperativo
ajuste das contas públicas.
Perdem os eleitores, aos quais serão
oferecidos, em vez de opções programáticas, discursos farsescos —e, muito
possivelmente, um governo tumultuado.
O cenário complexo diante dos bancos centrais
Por Folha de S. Paulo
Americano Fed e congêneres optam por manter
juros inalterados devido aos riscos inflacionários da guerra
Nos EUA, a política fiscal expansionista de
Trump aguça a demanda para além do ciclo de investimentos em inteligência
artificial
A esta altura, é ocioso apontar que a guerra
no Oriente Médio turvou
o cenário econômico mundial que se anunciava positivo neste 2026. O aumento do
custo de energia elevou os riscos de inflação e
mudou a conduta dos principais bancos centrais, que até então planejavam cortar
seus juros.
É o caso do americano Federal Reserve,
que decidiu
manter a taxa básica entre 3,5% e 3,75% ao ano na reunião da
semana passada, com a justificativa da inflação
elevada pelo choque de oferta, ainda num contexto de solidez da
atividade econômica.
O diagnóstico é compartilhado por alguns de
seus principais congêneres, que também optaram por não alterar o custo do
dinheiro, casos do Banco Central Europeu,
do Banco da Inglaterra, do Banco do Canadá e do Banco do Japão.
Diante das crescentes incertezas globais
provocadas pela guerra no Irã, as
autoridades monetárias priorizam neste momento a vigilância sobre a inflação.
Os mercados de energia ilustram bem os
riscos. Na semana passada, os preços do petróleo Brent
atingiram as máximas desde o início do conflito, superando US$ 126 por barril
em determinados momentos.
As estimativas para o segundo semestre
apontam cada vez mais para cotações acima de US$ 90, diante da possibilidade de
disrupções prolongadas. O impacto se espalha pela cadeia de derivados, elevando
os preços de insumos industriais em cascata.
Além da guerra, há fatores que sugerem baixo
risco recessivo por ora e que podem amplificar as pressões inflacionárias.
Nos Estados
Unidos, a política fiscal expansionista do governo Donald Trump,
com pacote de cortes de impostos, aguça a demanda na economia para
além do ciclo de investimentos em inteligência artificial. Na Europa,
os gastos com rearmamento e infraestrutura fazem o mesmo.
Não surpreende, portanto, que o comitê
do Fed tenha
registrado incomum dissenso na decisão. Três membros se posicionaram contra a
sinalização de afrouxamento da política monetária, defendendo uma visão dos
riscos que inclua a possibilidade de elevação de juros caso a inflação não
retorne à meta de 2%.
O cenário, de fato, é de complexidade
excepcional. A interrupção do fornecimento de energia pode trazer escassez de
insumos. Já a geopolítica e a corrida tecnológica apontam para um dinamismo
econômico persistente, a despeito das incertezas. Não por acaso, os mercados
globais de ações operam nas máximas históricas, mesmo em meio à guerra.