segunda-feira, 2 de março de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Guerra abala regime de terror no Irã, mas não garante seu fim

Por O Globo

Líder de um dos regimes mais cruéis do planeta está morto, porém fatos ainda poderão frustrar as ambições de Trump

Talvez não haja evidência mais contundente do significado da morte do aiatolá Ali Khamenei para o mundo que a irrupção espontânea de manifestações de júbilo por Teerã e outras cidades iranianas com a notícia — ainda que o país estivesse (e esteja) sob bombardeio de forças americanas e israelenses, que deflagraram ataques com o fito declarado de derrubar a teocracia e acabar em definitivo com suas pretensões nucleares.

PT aguarda alianças com partidos para anunciar palanques

Por Sofia Aguiar e Caetano Tonet / Valor Econômico

Estratégia é diferente da adotada pelo PL, que tem anunciado acordos nos Estados

Enquanto o senador e pré-candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), anuncia os palanques na disputa eleitoral deste ano, a estratégia adotada pelo PT e pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva é esperar para divulgar os nomes para os quais fará campanha depois de fechado o maior número de alianças nos Estados.

A avaliação de fontes da legenda é de que Lula busca negociar o apoio ou a neutralidade dos grandes partidos “no atacado”, e não “no varejo”. Para isso, a estratégia é colocar o presidente do PT, Edinho Silva, para percorrer o país dialogando com as legendas, mas com as decisões ficando sempre na caneta do atual chefe do Executivo.

O Supremo risco de os heróis virarem vilões, por Bruno Carazza

Valor Econômico

Supersalários, contrato com escritório de familiares, transações milionárias e blindagem corporativista criam caldo de cultura para revolta

Passados mais de dez anos, até hoje se discute por que um aumento de vinte centavos na passagem de ônibus levou milhões de pessoas às ruas de todo o país em junho de 2013.

Assim como acontece na química, certos fenômenos históricos são fruto de uma energia acumulada que, a partir de uma faísca ou descarga elétrica, ultrapassa um ponto crítico e se precipita numa reação abrupta e violenta, abalando todo o sistema que parecia em equilíbrio.

O aumento de novas fontes de renda e o consumo, por Sergio Lamucci

Valor Econômico

Em comparação a 2019, há 21,6 milhões fontes adicionais de rendimento na economia, o que tem dado fôlego à demanda das famílias

O consumo das famílias tem um papel de destaque no crescimento da economia brasileira nos últimos anos, especialmente no período entre 2021 e 2024. Nesses quatro anos, avançou a uma média anual de 3,85%, acima dos 3,6% da média do PIB. Novas fontes de renda ajudam a explicar esse desempenho do consumo privado, cujo ritmo arrefeceu em 2025 e pode ter alguma reaceleração em 2026, mas sem voltar ao ritmo de 2021 a 2024, dado o nível elevado dos juros e do endividamento das famílias, que tem provocado o aumento da inadimplência. Nesse cenário, a demanda das famílias deve passar de um crescimento na casa de 1,5% no ano passado para 2% neste ano.

O município é o protagonista, por Preto Zezé

O Globo

Maricá oferece um repertório valioso que merece ser estudado e compreendido em profundidade

Em ano eleitoral, o foco se volta para políticas públicas concretas, e não apenas para candidatos. A intenção é analisar experiências que possam se tornar parte de uma agenda de Estado contínua, pois é no município que a política se torna realidade, impactando diretamente a vida das pessoas. O debate sobre desenvolvimento no Brasil, geralmente centrado em Brasília e nos estados, raramente considera o município como protagonista. Maricá, no Rio de Janeiro, desafia essa lógica.

Países ricos podem trabalhar menos, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

São sociedades que já chegaram lá, têm padrão de vida elevado e boa educação, que favorece a introdução de novas tecnologias

A jornada de trabalho tem caído ao longo da história mundial. Isso decorre de uma combinação de três fatores: o enriquecimento das sociedades, a introdução de tecnologias que aumentam a produtividade e a democracia. Já voltaremos à última questão, mas podemos adiantar um fato observado por toda parte: os trabalhadores têm jornadas maiores nas ditaduras.

Na Europa da social-democracia, trabalha-se em média 30 horas semanais. São sociedades que já chegaram lá, têm padrão de vida elevado e boa educação, que favorece a introdução de novas tecnologias. Em ambiente democrático, sindicatos, partidos e organizações civis tomaram a decisão de trabalhar menos para já desfrutar a riqueza acumulada. Dito de outro modo, essas sociedades consideram que seu atual nível de consumo já é suficiente para uma boa vida, de modo que se pode desacelerar a produção. Mas todas elas trabalharam duro, com longas jornadas. Não existe almoço grátis.

Segredo judicial, uso e abuso, por Demétrio Magnoli

O Globo

A aparente parceria Toffoli-Moraes espalha um rastro de suspeita sobre toda a paisagem

Nos sistemas democráticos, a sociedade deposita confiança extrema nas autoridades encarregadas de gerenciar a Justiça. A prova encontra-se no instituto do segredo judicial. Aceitamos que elas detenham informações temporariamente vedadas a nós — concordamos com uma radical assimetria de poder. A implicação: vandalizar o privilégio do monopólio da informação é uma traição maior de confiança. O STF envereda por esse caminho, sob a alegação paradoxal de que vivemos em excepcionalidade permanente.

Quem pode investigar quem? Por Carlos Pereira

O Estado de S. Paulo

A intervenção do Supremo em CPI desafia os contornos práticos da separação de poderes

Quando a interferência do Supremo Tribunal Federal na política é indevida? A pergunta não é retórica. Ela ganha concretude quando o Judiciário intervém no funcionamento de uma Comissão Parlamentar de Inquérito – instrumento clássico de controle político exercido por minorias parlamentares.

Uma CPI é, muitas vezes, o que resta a uma minoria legislativa para fiscalizar governos, expor condutas potencialmente ilícitas e produzir informação qualificada. Em democracias ancoradas no princípio da separação de poderes, trata-se de mecanismo legítimo de controle.

Paradoxalmente, porém, raramente uma CPI consegue impor perdas políticas reais a governos. A maioria parlamentar tende a esvaziar investigações inconvenientes. Por isso mesmo, a Constituição protege o direito de minorias instaurarem CPIs desde que preenchidos requisitos formais.

Uma vez instalada, a comissão não é estática. Ao longo das investigações, fatos novos surgem, conexões inesperadas aparecem e o escopo original pode ser ajustado. A dinâmica investigativa não é linear. CPIs não são peças processuais imutáveis; são arenas políticas de produção de informação.

Federação da Esquerda para disputar o futuro, por vários autores (nomes ao final do texto)

Folha de S. Paulo

Com o avanço do bolsonarismo, não existe espaço para gastar nossas energias em disputas internas menores

É claro que também traz dificuldades, que podem ser enfrentadas com um debate aberto sobre organização interna

Há momentos de encruzilhada na história que exigem decisão. Estamos vivendo um deles. A extrema direita avança no mundo e, mesmo com Jair Bolsonaro preso, segue com força política e social no Brasil.

Os Estados Unidos, com a reedição da Doutrina Monroe por Donald Trump, comandam um movimento aberto de recolonização na América Latina, buscando tomar nossas riquezas naturais e destruir nossa soberania.

Isso exige da esquerda brasileira grandeza política e responsabilidade para colocar diferenças em segundo plano e construir um amplo movimento de unidade. Não apenas na disputa eleitoral de 2026, mas na disputa da sociedade e de um projeto de futuro.

A reação institucional a Trump finalmente mostra sua face, por Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

Estripulias autoritárias geraram dissenso em sua base legislativa e na sociedade civil pujante

O Legislativo vetou a política do ICE, cortando seu orçamento, o que implicaria em sua virtual paralisia

A velocidade dos desvios do governo Trump em relação às normas legais e constitucionais durante seu segundo mandato tem sido dramática. John Burn-Murdoch, com base em um índice agregado de retrocesso democrático, trouxe evidências de que, em seus primeiros anos no cargo, ela foi muito maior do que a de outros líderes populistas (veja aqui os fatores que explicam essa característica do decisionismo trumpista).

Marcello Cerqueira, um lutador da democracia - Sergio Augusto de Moraes*

Conheci Marcello Cerqueira no movimento estudantil, nos idos de 1963/4, quando ele era vice-presidente da UNE. Anos depois, em 1978, eu estava asilado na Suiça, em Genebra e Giocondo Dias me chamou para um encontro com Marcello, então deputado federal, num bar nos arredores da cidade.

Alí discutimos sobre a situação política no Brasil e a avaliação do Comitê Central do PCB, então no exílio, de que se fazia necessário organizar o trabalho dos comunistas na Câmara dos Deputados. Giocondo sugeriu que eu deveria voltar ao Brasil e, junto com Marcello, assumir esta tarefa.

Partiu Marcello Cerqueira, um sonhador, por Edmílson Martins de Oliveira*

Marcello Cerqueira partiu. Foi ver outras paisagens e encontrar velhos amigos de sonhos e de lutas. Está, certamente, no lugar com que sempre sonhou: um mundo de liberdade, paz e harmonia, fraterno, sem tirania, sem perversidade, sem ganância, onde só há eternidades.

Partiu ontem, sábado, 28 de fevereiro de 2026, e está, com euforia, participando da grande festa, organizada em sua homenagem, por muitos amigos e companheiros de luta, que já estão no país de eternidades.

Marcello viveu intensamente a vida aqui neste planeta. Lutou, com todas as suas forças, por um Brasil mais justo, por um mundo melhor, com igualdade e condições de vida justas para todos. Foi um sonhador e não estava sozinho.

Eu e o Marcelo conhecemo-nos e nos tornamos amigos desde 1978. Naquela ocasião, eu era candidato a deputado estadual e Marcello a deputado federal pelo então MDB.

Havia somente dois partidos: ARENA, que apoiava o governo da ditadura militar, e o MDB, de oposição. Nós militávamos no grupo chamado de “Autênticos do MDB”, que fazia a verdadeira oposição ao regime.

Poesia | Desencanto, de Manuel Bandeira

 

Música | Chico Buarque & Wilson das Neves - Sou Eu - Tereza da Praia

 

domingo, 1 de março de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Passou da hora de encerrar inquérito das fake News

Por O Globo

Instrumento criado para defender ordem democrática se transformou em risco para a própria democracia

É incontestável o papel crucial que o Supremo Tribunal Federal (STF) desempenhou na preservação da democracia brasileira, quando submetida a abalos e ameaças. Sem a ação do Supremo, é provável que o desfecho da intentona golpista tivesse sido outro. Esse é um fato que a História reconhecerá para sempre. É justamente para honrar essa trajetória que o STF deve finalmente pôr fim a um instrumento jurídico heterodoxo que, desde 2019, tem dado à Corte poderes excepcionais que não cabem numa democracia: o inquérito 4.781, apelidado “inquérito das fake news”.

Freire deixará comando do Cidadania e indica Alex Manente seu sucessor, Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

“O velho líder comunista encerra sua trajetória com melancolia e perda de dimensão histórica. Seu gesto sucessório, em vez de estabilizar, implodiu a legenda”

A literatura latino-americana já descreveu com precisão clínica o momento em que um ciclo de poder se encerra. A cena de abertura de O Outono do Patriarca, de Gabriel García Márquez, permanece como uma das metáforas mais contundentes da decomposição política: “Durante o fim de semana os urubus entraram pelas varandas da residência presidencial, bicaram as telas metálicas das janelas e o alteio de suas asas agitou o tempo estagnado lá dentro, e na madrugada de segunda-feira a cidade acordou de sua letargia de séculos com a brisa morna e macia do grande homem morto e apodrecido…”.

A passagem simboliza o fim do “tempo interminável” do caudilho. O que parecia eterno já estava morto — apenas ninguém ousava admitir. Guardadas as proporções entre ficção e realidade, a metáfora de Gabo ilustra a crise do Cidadania, que ultrapassa a disputa sucessória. Tornou-se existencial.

Acordões com gosto de pizza, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Até onde o Supremo Tribunal Federal vai se lambuzar com ‘pizzas’ mal assadas?

Brasília evolui, a olhos vistos, do surrado “toma lá, dá cá” para o “você me livra, eu te livro e todos nós nos livramos”. Um método se abastece do dinheiro público e o outro abusa das brechas que garantem a impunidade geral, mas ambos têm a ver com corrupção e mobilizam mundos e fundos, tudo e todos, em torno de “negociações”.

Objetivo desta vez é substituir o regime, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

Incapacitado, Irã poderia conduzir guerra assimétrica, que incluiria ataques terroristas

O bombardeio lançado na manhã de ontem no Irã por Estados Unidos e Israel tem escopo fundamentalmente distinto daquele realizado na chamada “guerra dos 12 dias” em junho: desta vez, o objetivo não é apenas conter os programas nuclear e de mísseis iranianos, mas criar as condições para a população substituir o regime.

Trata-se de ameaça existencial, da óptica da teocracia em Teerã, à luz dos protestos de dezembro e janeiro, os mais contundentes desde a Revolução Islâmica de 1979, esmagados com o massacre de milhares de manifestantes. Os bombardeios visaram à decapitação do regime.

A aposta mais arriscada de Trump, por Oliver Stuenkel

O Estado de S. Paulo

Operação sem objetivos claros expõe EUA a retaliações, instabilidade regional e pressão inflacionária

Ao atacar o Irã e conclamar os iranianos a derrubarem o próprio governo após o fim da operação, o presidente Donald Trump assumiu um risco elevadíssimo, sobretudo porque o Irã não representava uma ameaça iminente aos EUA. Pelo contrário: avaliações recentes da inteligência americana indicavam que o país está militarmente enfraquecido após os bombardeios do ano passado. Diferentemente de ataques pontuais no passado, desta vez trata-se de uma campanha aberta, com risco real de escalada. O próprio Trump admitiu que pode haver baixas americanas — linguagem típica de guerra declarada, mas sem autorização formal do Congresso.

O esforço para manter o BRB, por Míriam Leitão

O Globo

Os próximos dias serão decisivos para o BRB e seu plano de capitalização, que pode incluir um pedido de empréstimo ao FGC

O governo do Distrito Federal colocará 15 imóveis para a operação de capitalização do BRB. Ao todo, esses ativos somariam R$ 10 bilhões em garantia. Eram nove na última versão da proposta que será discutida amanhã na Câmara Legislativa do Distrito Federal. Na sexta-feira, o presidente do Banco de Brasília, Nelson Souza, visitou bancos em São Paulo explicando seus planos. Um deles é tentar um empréstimo no FGC e outro lançar um Fundo de Investimento Imobiliário com a venda de cotas. O banco também avalia negociar subsidiárias integrais e a criação de um banco digital com o Flamengo.

A Cargill foi invadida, e o governo cedeu, por Elio Gaspari

O Globo

Para quem joga com as canetas de Brasília, o caso estaria resolvido. Faltou combinar com a empresa

Em agosto do ano passado, os çábios de Brasília soltaram o decreto 12.600, incluindo milhares de quilômetros de hidrovias em trechos dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins no Plano Nacional de Desestatização. A iniciativa abria o caminho a estudos para avaliar uma eventual concessão de serviços de navegabilidade, dragagem e manutenção dos canais. Há anos, o Arco Norte da Amazônia, com suas rotas fluviais, transporta cerca de 40% das exportações nacionais de soja e milho.

Operação sabotagem, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Sem força para derrotar proposta em ano eleitoral, partidos pedem apoio a empresários para impedir votação

A direita decidiu cerrar fileiras contra o fim da escala 6x1. Na semana que passou, três presidentes de partido atacaram a ideia de mudar a lei para que todo trabalhador tenha direito a dois dias de descanso por semana. As falas revelam mais sobre a mentalidade da turma do que sobre o mérito da proposta.

O chefão do União Brasil, Antonio Rueda, definiu a mobilização como “um desatino”. “É muito danosa para a economia e o setor produtivo”, decretou, sem mencionar os trabalhadores. O dono do PL, Valdemar Costa Neto, disse que o fim da escala 6x1 seria “uma bomba” e se solidarizou com a classe dirigente: “Não é fácil para os empresários que já reclamam dos nossos impostos e tudo mais”.

Hermenêutica neles, por Merval Pereira

O Globo

A disputa de interpretações esbarra em uma mágica jurídica cada vez mais em uso por ministros do Supremo, que superam as leis com seus poderes incontrastáveis para atingir seus objetivos

Mais uma vez a disputa hermenêutica ganha destaque na crise institucional em que vivemos. Hermenêutica é a ciência da interpretação de textos e símbolos para além do sentido literal, vem de Hermes, o mensageiro grego dos deuses. Como há muito tempo a Justiça brasileira vive de interpretar as leis, em vez de cumpri-las, o episódio da quebra de sigilo da família Toffoli tornou-se exemplar dessa tendência. A CPI do Crime Organizado não conseguiu maioria para quebrar o sigilo do ministro Dias Toffoli porque a base do governo, auxiliado pelo Centrão, não deixou, mesmo depois que ele foi obrigado a sair da relatoria do caso por um flagrante conflito de interesses, pois o resort Tayaya, de propriedade da empresa Maridt, dos três irmãos Toffoli, foi comprado por um grupo ligado ao banco Master.

Trump sendo Trump, por Dorrit Harazim

O Globo

Ele embaralhou temas e falsas verdades, desconversou sobre os problemas reais da nação de 250 anos

Discursos do Estado da União fazem parte do rito anual de todo presidente dos Estados Unidos. Costumam ser longos e enfadonhos. Servem, em teoria, para o mandatário prestar contas ao Congresso sobre o que fez e pretende fazer. O desempenho de Donald Trump na noite de terça-feira foi um exercício de embevecimento fascista com a própria voz. Durante uma hora e 47 minutos, embaralhou temas e falsas verdades, desconversou sobre os problemas reais da nação de 250 anos e transformou o plenário do Capitólio em claque de auditório.

Flávie dará golpe de estade, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Se eleito, filho de Bolsonaro tem boas chances de governar com maioria golpista no Senado

Tudo que queremos é uma eleição em que possamos, em caso de derrota, ficar chateados, culpar o neoliberalismo, e voltar à vida normal

O debate de hoje será sobre o tema "o golpe de Estado empatou com a democracia na última pesquisa Atlas". Podem perguntar.

"Mas isso não é um exagero? Flávio Bolsonaro outro dia fez um post direcionado à comunidade LGBT usando linguagem neutra. Ele não está moderando?"

Ok, Flávio não dará golpe de Estado, dará golpe de estade. Mas será golpe de todo o jeito. Elu já prometeu soltar os membros da quadrilha golpista de que é membre. Se eleite, tem boas chances de governar com maioria golpiste no senade, o que lhe possibilitaria impichar ministres do STF em um momento em que a imagem do tribunal está fragilizade. Nenhuma outra instituição, além do STF, atuou contra a última tentativa de golpe.

Regra de transição cheira a embromação, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Pactos de aperfeiçoamento não se realizam porque há resistência para corrigir distorções nos três Poderes

De adiamento em adiamento, o fim das regalias indevidas corre o risco de ficar para o dia de são nunca

A cada vez que os Poderes se reúnem para combinar pactos de aperfeiçoamento nos respectivos comportamentos criam-se expectativas que em geral não se realizam por completo. Acontece quando há distorções a serem corrigidas, mas há resistências quase impossíveis de serem vencidas.

Aconteceu assim com o acordo sobre as emendas parlamentares, firmado num encontro entre representantes do Judiciário, Executivo e Legislativo, em agosto de 2024.

O neoterrorismo dos notáveis, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

É que há muito tempo vivemos no desencantamento do mundo, outro modo de falar do niilismo total

Uma rede depravada como a de Epstein é reveladora porque ataca fragmentos de sacralidade humana

Numa mensagem ao potentado árabe Sultan Ahmed bin Salayem, delicia-se Jeffrey Epstein: "Adorei o vídeo de tortura". Apesar da repetição cansativa dos horrores nos arquivos Epstein, a cada página a magnitude da aberração ainda faz refletir. A frase tenebrosa sugere algo além de sexo stricto-sensu no círculo de depravação que, desde uma princesa norueguesa até um príncipe britânico, se fechou em torno de figuras notáveis do poder global.

Ataque ao Irã é ilegal e não satisfaz critério de autodefesa imediata, por João Paulo Charleaux

Folha de S. Paulo

Ação contra Teerã distorce conceito de autodefesa previsto na Carta da ONU

Trump ressuscita argumentos que levaram à queda de Saddam no Iraque em 2002

A brecha que os Estados Unidos e Israel têm para defender a legalidade do bombardeio contra o Irã neste sábado (28) é estreita. Pela Carta da ONU, um país só pode atacar outro em caso de legítima defesa ou sob aprovação do Conselho de Segurança. Como nenhuma das duas condições está presente, será preciso contorcionismo para legalizar esses atos.

O conceito de autodefesa previsto no direito internacional é muito estrito. A Carta da ONU não autoriza uma resposta extemporânea contra um ataque sofrido meses antes, nem tampouco permite a retaliação preventiva a uma ameaça hipotética, distante ou presumida.

No Irã, na Venezuela ou em Cuba, terror e negociata são os objetivos da 'guerra de Trump', por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Ataque a iranianos não tem sentido ou fins claros, nem país era ameaça imediata

EUA trumpianos fazem extorsão e recorrem a bombardeios negocistas e impensados pelo mundo

Israel matou 3% dos palestinos e avariou ou arruinou 80% das construções de Gaza. Queria aniquilar o Hamas, que ainda está lá, depois de mais de dois anos de guerra e massacre. A situação política continua indefinida, embora o Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas) tenha decidido em 2025 que Gaza será até o fim de 2027 governada por um "Conselho de Paz" comandado por Donald Trump.

Ainda que falhe, mesmo barbarizando, a cúpula de Israel costuma saber o que faz ou quer. O que Trump quer no Irã? No discurso em que declarou a guerra, aliás ilegal, afirmou que quer acabar com o programa nuclear, mísseis balísticos e marinha do Irã. Que quer a queda do regime, tarefa que terceirizou para os iranianos.

Extrema direita canalizou ódio contra imigrantes, mas ele é bem mais antigo, por Vinícius Mendes

Folha de S. Paulo

Historicamente visto como anormal, quem migra tem sua saída questionada e, no destino, não é plenamente aceito

Mesmo com cidadania, estrangeiro é visto antes de tudo como um outro, condição que persiste além de direitos nacionais

[RESUMO] O autor sustenta que o imigrante é historicamente construído como um outro, estranho e marginal, resultado de anomalias sociais e econômicas. O texto argumenta que sociedades e governos canalizam esse estranhamento em políticas de exclusão e controle, exemplificadas por muros em fronteiras, novas tecnologias de vigilância, leis restritivas e atuações policiais como as do ICE.

"Essas pessoas que cresceram quase sem conhecer os benefícios da civilização, (...) grosseiros, bebedores, despreocupados do futuro, chegam trazendo seus costumes brutais a uma classe da população que tem, para falar a verdade, pouca inclinação para a cultura e a moralidade".

Essa percepção seria atribuível a Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria que já ameaçou levar os imigrantes —sírios, afegãos, filipinos— até a porta do prédio da União Europeia, em Bruxelas, na Bélgica.

Mas essa frase também poderia ter saído da boca de José Antonio Kast, presidente do Chile que ganhou as eleições de 2025 prometendo sancionar empresas que contratarem imigrantes indocumentados, a maioria venezuelanos.

Quando o recuo vira destino, Roberto Amaral*

“A inação diante de Cuba repete o erro fatal de Munique: apaziguar o agressor só adia a guerra e a torna mais devastadora — a história não perdoa os que se calam diante do fascismo renascente”.  
Gabriel Cohn (Cuba, a Espanha no século XXI)

Em 1938, regressando de Munique, aonde fora negociar com Adolf Hitler, o primeiro-ministro Neville Chamberlain declara ao Parlamento britânico haver conquistado o que denominava como “a paz para o nosso tempo”. Enganado ou não, enganava os ingleses e despistava o mundo, em especial o mundo europeu, mal saído da Primeira Guerra Mundial e já se vendo ameaçado por um novo conflito para o qual não estava preparado, como se veria logo depois.

Poesia | Pátria Minha - Vinicius de Moraes

 

Música | Xande - Faroeste Caboclo - Versão exclusiva com o Revelação

 

sábado, 28 de fevereiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Redução de jornada semanal é equívoco econômico e político

Por O Globo

No Brasil atual, não dá para trabalhador gerar mais riqueza — e ganhar mais — trabalhando menos horas semanais

A proposta populista e demagógica de reduzir a jornada de trabalho sem corte salarial que tramita no Congresso apoia-se em premissas que, embora façam sucesso junto ao eleitorado e a parcelas bem-intencionadas da sociedade, estão erradas. Na leitura mais generosa, traduzem apenas ignorância sobre os princípios básicos da economia.

O primeiro equívoco é supor que a jornada de trabalho no Brasil seja excessiva. Ela tem caído — de 43,8 horas em 1981 para 38,4 horas em 2024, de acordo com análise do economista Fernando de Holanda Barbosa Filho, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), com base em dados do IBGE. Adotando critério diferente — o banco de dados global mantido pelos economistas Amory Gethin, do Banco Mundial, e Emmanuel Saez, da Universidade da Califórnia em Berkeley —, o economista Daniel Duque, também do FGV Ibre, constatou que o brasileiro trabalha menos horas semanais (40,1) que a média mundial (42,7). Na lista de 86 países para os quais há mais de duas décadas de dados, o Brasil ocupa a 38ª posição em horas trabalhadas por semana.

Depois do carnaval, por Marco Aurélio Nogueira

O Estado de S. Paulo

O confronto será, mais uma vez, entre dois ‘mitos’, o lulismo e o bolsonarismo, o que não deixará margem para conversas sérias

Fevereiro teve carnaval durante o mês inteiro. Sem que se saiba bem as razões, ampliaram o “tríduo momesco” para além do calendário. Agora, há um pré e um pós. Patrocinadores e foliões adoraram, mas muita gente reclamou.

Do outro lado da avenida, houve um desfile de sobressaltos e passos trôpegos. Nada de samba no pé. Foi um verdadeiro anticlímax, que estragou a festa de muitos graúdos.

50 anos da transição espanhola: lições para o agora, por Sergio Fausto

O Estado de S. Paulo

A política deve ser feita para construir acordos que permitam à sociedade lidar com seus traumas e conflitos sem recorrer à violência

o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) se afastava do marxismo-leninismo e abraçava a social-democracia. Não foram esses partidos, porém, que assumiram ao início a liderança da transição democrática. E sim uma nova geração de funcionários do regime franquista, cuja principal figura foi Adolfo Suárez, em ascensão dentro das estruturas burocráticas e políticas do regime.

Pouco conhecido até assumir a presidência do governo, em 1976, Suárez mostrou qualidades políticas insuspeitadas. Percebeu a impossibilidade de manter “todo atado y muy bien atado” e intuiu que haveria vida depois do franquismo para uma direita liberal. Ainda mais importante, entendeu que o espaço político que se abria só seria legítimo e duradouro se incorporasse todas as forças políticas do país. Nos primeiros meses de 1977, o PCE e o PSOE retornaram à legalidade, graças à Lei de Reforma Política aprovada no ano anterior.

Chegou o decano, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Gilmar Mendes teve de entrar em campo. Dias Toffoli tentou controlar o bicho; Alexandre de Moraes ainda tenta domá-lo. Davi Alcolumbre mostra que nem o exercício autoritário do poder – o rolo compressor com que governa o Congresso – consegue dirigir o ímpeto imprevisível de uma crise que veio para ficar. Não tem a caneta togada capaz de decidir como bem quiser, quando quiser. Gilmar Mendes tinha de entrar em campo. Foram chamá-lo. Ele veio.

O caso Master veio para ficar. É incontrolável. Empurra-pressiona tudo em Brasília e a partir de Brasília – e desafia a operação abafa contra as investigações.

Crime de homens público, por Flávia Oliveira

O Globo

Julgamento sedimentou a certeza de que, em crimes contra a vida, a justiça é sempre parcial, nunca plena

Chegou ao fim, quase oito anos depois da barbaridade, o longo caminho de punição aos assassinos de Marielle Franco e Anderson Gomes. A Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal condenou, por unanimidade, mais cinco envolvidos no crime. O desfecho, essencial a uma nação que se entende democrática, sinaliza repúdio à impunidade e atenção à cobrança incessante das famílias das vítimas, da sociedade civil e da opinião pública, estrangeira inclusive. Ninguém soltou a mão de ninguém, até que as autoridades fossem capazes de identificar tanto quem matou quanto quem encomendou a morte da vereadora carioca em pleno exercício do mandato.

Vem aí o Ministério da Prosódia, por Eduardo Affonso

O Globo

Talvez o MP escafuasse Guimarães Rosa, por comprometer a norma culta com palavras que não existem

O ano de 2026 começou com tudo. O Rio teve o melhor janeiro de sua história, com número recorde de turistas. Juiz de Fora, em contraste, bateu o recorde de chuvas para o mês de fevereiro.

Agora, leitor, me diga, com toda sinceridade: como você pronunciou mentalmente a palavra “recorde” ao ler o parágrafo acima? Ainda bem que não leu em voz alta, nem havia ninguém do Ministério Público Federal por perto, ou o saldo de sua conta bancária poderia superar o recorde negativo anterior. Ops, errou de novo: não é “récorde” (proparoxítona), mas “recorde” (paroxítona, sem acento).

A hora e a vez da resiliência, por Orlando Thomé

Correio Braziliense

O maior desafio frente aos eventos climáticos extremos é construir as chamadas cidades resilientes, que são aquelas capazes de enfrentar, resistir e se adaptar a choques e tensões — sejam eles climáticos, sociais ou econômicos — sem colapsar 

Dia 21 de dezembro de 2025 teve início o verão no Hemisfério Sul do planeta que se encerrará em 20 de março deste ano. É de conhecimento público que se trata do período em que nosso país, historicamente, passa por chuvas intensas, provocando desastres em diversas regiões. Nesta semana, estamos assistindo ao drama vivido em Juiz de Fora e Ubá, na Zona da Mata de Minas Gerais. Até o momento que escrevo esta coluna, já foram contabilizados 55 óbitos e 13 desaparecimentos nos dois municípios. No mesmo período, na Baixada Fluminense, a contagem já passou de 2 mil pessoas atingidas, sendo 1 mil em Nova Iguaçu e 600 em São João de Meriti, onde houve um óbito de uma senhora de 85 anos.