sábado, 3 de outubro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Que Deus? Que pátria? Que família?

Por CartaCapital

Flávio Bolsonaro é uma fake news ambulante

Em meio à guerra santa que ameaça o posto de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil, Flávio Bolsonaro, sem esconder o constrangimento, ergueu uma santa de crochê à maneira de um capitão de time de várzea que empunha uma taça de latão. Caso Robin, o parceiro do Batman naquele seriado de tevê dos anos 60 do século passado, assistisse a esse momento de devoção, não titubearia: “Santa hipocrisia”.

A controvérsia em torno da patrona, da imagem negra recolhida de um rio por pescadores, não deixou de produzir um milagre. O esforço do chamado jornalismo profissional em provar que alguns fatos compunham uma fake news, a ponto de colocar em dúvida o trabalho de uma das mais competentes jornalistas, Maria Cristina Fernandes, se assemelha a um épico bíblico. A água se converteu em vinho.

A democracia se defende pelo voto, por Oscar Vilhena Vieira*

Folha de S. Paulo

Maior risco é fazermos escolha que ameace a democracia e a nossa soberania

Se a questão institucional é a mais relevante, qual a melhor opção eleitoral para enfrentá-la?

Neste domingo (4), mais de 150 milhões de brasileiros deverão comparecer às urnas para escolher quem governará o país pelos próximos quatro anos.

A decisão fundamental colocada à frente de cada eleitor é com quem pretendemos enfrentar as múltiplas crises em que imergimos na última década: de mãos dadas à extrema direita, especializada em promover o caos para usurpar o poder, ou com a centro esquerda, com suas mazelas e inconsistências, mas reiterado compromisso democrático?

Essa não é uma pergunta retórica, mas uma pergunta política e moral, pois se refere à responsabilidade pelas decisões que cada um terá que tomar no próximo domingo.

Entrevista | Brasil chega à eleição sob degradação institucional sem precedentes, diz coautor de livro sobre democracia, por Fernando Canzian

Folha de S. Paulo

Segundo Marcus Melo, cientista político e colunista da Folha, há escalada no conluio entre interesses públicos e privados, com suspeitas sobre núcleo do Judiciário e outras instituições

Disputa presidencial ganha peso inédito diante da possibilidade de até quatro indicações ao STF

O cientista político Marcus André Melo vê o Brasil diante de uma deterioração institucional que, em sua avaliação, ultrapassa os padrões das crises anteriores. Para ele, o caso Master expõe um entrelaçamento inédito entre interesses públicos e privados e alcança instituições que ocupam o centro do sistema de freios e contrapesos da República.

Professor da Universidade Federal de Pernambuco e colunista da Folha, Melo afirma que a crise também alterou a própria disputa pelo poder. A possibilidade de o próximo presidente indicar até quatro ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) eleva, segundo ele, o peso da eleição de 2026 e aumenta as consequências de uma disputa já marcada por conflitos entre os Poderes.

Apesar do diagnóstico sombrio, Melo, coautor do livro "Por que a democracia brasileira não morreu?" (Companhia das Letras), vê instituições e setores da sociedade que continuam funcionando e capazes de reagir.

Nesta entrevista, ele analisa a trajetória da democracia brasileira desde a redemocratização, os efeitos da Lava Jato, a relação entre Executivo, Legislativo e Judiciário e os riscos de uma crescente degradação institucional.

Atrás nas pesquisas, Flávio Bolsonaro volta a desacreditar as eleições, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Filho 01 fugiu ao debate para não ter de enfrentar a fúria de Renan Santos

Campanha presidencial de 2026 mistura cansaço e descrédito

Um espetáculo caricato, desmoralizado pelos próprios participantes e não raro violento. Com a concorrência dos discursos sedutores e mentirosos veiculados nas redes e aplicativos e o domínio do marketing sobre as propostas de governo, os debates eleitorais na televisão estão em xeque.

Desde 2002 nenhum pleito presidencial havia registrado menos de três encontros na primeira rodada. Neste ano houve apenas um, o da Band, em agosto, transcorrido num clima melancólico: três homens tristes falando ao vento. O da Globo nem isso. Cancelado à última hora, após a desistência de Flávio Bolsonaro, entra na categoria de mico histórico.

Faria Lima sabe que as contas de Flávio não fecham, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Mercado e alguns setores do empresariado acreditam que senador fará um ajuste rigoroso e duradouro nas contas públicas

Mas nada do que ele disse ou fez até aqui legitima esta expectativa

Flávio Bolsonaro agrada à Faria Lima porque o mercado e alguns setores do empresariado acreditam que o senador fará um ajuste rigoroso e duradouro nas contas públicas caso eleito.

Mas nada do que Flávio disse ou fez até aqui legitima essa expectativa.

No Senado, foi um parlamentar ausente nos grandes debates econômicos —sempre blindado pela base cativa do seu pai, Jair Bolsonaro, alinhada com as pautas conservadoras de costumes e de segurança pública.

A importância de votar apesar da fadiga, por Juliana Diniz

O Povo (CE)

Para nós, mulheres, o abatimento é ainda mais profundo, pois jamais poderíamos imaginar que teríamos de lidar, dentre outros riscos, com uma tentativa infame de desacreditar o voto feminino e de nos devolver à vida estritamente doméstica

Um sentimento definirá bem o humor de boa parte do eleitorado com este pleito de 2026: a fadiga. Uma sensação geral de falta de esperança, de que não vale a pena acreditar na mudança, porque o cenário está de tal forma degradado que qualquer expectativa alimentada é tida como crença ingênua. De que adianta um modesto voto? Pensa o eleitor, e a resposta que tem dentro de si é a mais desencantada possível.

Para nós, mulheres, o abatimento é ainda mais profundo, pois jamais poderíamos imaginar que teríamos de lidar, dentre outros riscos, com uma tentativa infame de desacreditar o voto feminino e de nos devolver à vida estritamente doméstica. Obstáculos de toda ordem diminuem a competitividade das candidaturas femininas, e a violência política de gênero está aí mais viva que nunca, aparecendo na forma de comentários sexistas veiculados em rede nacional.

Em nome de Deus, por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

As denúncias lançadas contra o candidato de oposição, como farras com prostitutas, amizade com milicianos e lavagem de dinheiro, não incomodaram tanto quanto acusação de fundo religioso. O Brasil da República é laico, mas o brasileiro é religioso

Política e religião não se combinam. É difícil governar com base em conceitos religiosos. Desde os antigos até os dias de hoje, a confusão é séria. Jesus Cristo, o homem chamado filho de Deus, foi um essênio que viveu na Galileia entre 6 e 4 a.C e 30-33 d.C. numa tribo isolada no deserto de onde saiu para pregar o arrependimento, a justiça e amor ao próximo. Sua pregação ocorreu em território dominado por Roma. O homem forte na região, Pôncio Pilatos não gostou do que ouviu, sobretudo porque o profeta era visto pelos seus seguidores como um rei. Dois reis não convivem no mesmo pedaço. O dos cristãos morreu na cruz. 

Nenhuma hipótese é absurda, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

É tão urgente preocupar-se com o risco de interferência estrangeira no processo eleitoral quanto seria alarmar-se com a interferência interna – intervenção tocada por ministros do Supremo – que se desenvolve, concretamente, já.

Atenção à blitz autoritária – para minar a confiança no TSE – imposta por quem, na eleição passada, fora defensor-mor da Corte Eleitoral, em função de cuja proteção chancelou-se toda sorte de arreganho censor. Era defesa do TSE mesmo, ou do monopólio sobre o instrumental xandônico por meio do qual, em nome de salvar a democracia, exercia-se o poder?

O trabalho vai deixar de pagar a conta? Por Fábio Gallo

O Estado de S. Paulo

A questão colocada pela IA é saber o que acontecerá com os impostos em meio à redução do emprego

Salários geram imposto de renda e contribuições sociais e, quando são gastos, alimentam também a tributação do consumo. Assim, o trabalho ajuda a financiar o Estado moderno. Nos países desenvolvidos, os tributos sobre o trabalho ainda respondem por cerca de metade da arrecadação.

Agora, o problema colocado pela IA não é apenas saber quantos empregos desaparecerão. É saber o que acontecerá com os impostos quando uma parcela maior da renda potencialmente deixar de remunerar o trabalho e passar a remunerar o capital.

Ao longo do tempo, os países construíram um sistema tributário relativamente confortável para o Estado, onde as pessoas trabalham, recebem salários, pagam tributos, consomem e pagam mais impostos. Agora, imagine que a IA permita produzir a mesma coisa com menos trabalho humano.

Decisão será fácil porque eleitor sabe onde o calo aperta, por Flávia Oliveira

O Globo

Não parecia que, quatro anos depois, trama golpista exposta, investigada e julgada, estaríamos novamente diante do risco de ruptura

A esta altura, resta pouco a dizer sobre a corrida eleitoral, entre os Poderes, acidentada; entre os eleitores, entediante. O que faltou em transparência e aprofundamento de propostas sobrou em protagonismo do Supremo Tribunal Federal (STF), ora por atos dos próprios ministros, ora pela judicialização recorrente por candidatos e legendas. Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva, em artigo aqui no GLOBO, classificou o pleito deste 2026 como a eleição do cansaço. É sentimento expresso tanto no excesso de trabalho, dívida, perrengue, frustração quanto na escassez de encantamento pela política e, pior, pela democracia.

Amanhã, por Eduardo Affonso

O Globo

Eleger é selecionar o melhor — e lá vamos nós, de novo, recolher na xepa o que parecer menos podre

Amanhã é domingo, dia de fila de votação, em pé, de castigo. O castigo é bizarro: optar entre a bijuteria barata banhada a ouro (de tolo) e a estatueta de ouro (com pés de barro). É mais uma eleição que não faz jus ao nome: eleger é selecionar o melhor — e lá vamos nós, de novo, recolher na xepa o que parecer menos podre.

Com a menor folga desde 2002, Lula põe a biografia em jogo, por Thaís Oyama

O Globo

O presidente tem dado sinais de que está disposto a descer aos pântanos da política para buscar os votos de que precisa

Em abril, o presidente Lula dizia não ter certeza se disputaria a reeleição. No fim daquele mês, seu ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social, Sidônio Palmeira, foi autorizado a testar potenciais substitutos em pesquisas. O entorno do presidente descrevia seu estado de alma: de forma alguma Lula encerraria a biografia com uma derrota para o filho de Jair Bolsonaro. Naquele momento, Flávio Bolsonaro — que havia tirado de campo a candidatura Tarcísio de Freitas, ao ser ungido em dezembro candidato a presidente pelo pai — surpreendia com o crescimento nas pesquisas, tecnicamente empatado com Lula nos dois turnos.

Os múltiplos aspectos na polêmica sobre as BETS, por Marcus Pestana

A repentina proibição do funcionamento das BETS desencadeou enorme polêmica nacional, marcada por múltiplas dimensões. Jogos e apostas sempre estiveram presentes no cotidiano da população brasileira. Não é novidade para ninguém a expressão do Jogo do Bicho, seu enraizamento popular e entrelaçamento com eventos famosos como o carnaval. Sua ilegalidade sempre foi relativa. Gozava de grande credibilidade, traduzida na frase “vale o que está escrito”. Os cassinos, com seus shows e vedetes, tiveram vida ativa, no Brasil, nas décadas de 1930 e início de1940. Foram proibidos por um Decreto-Lei do presidente Dutra, em 1946. As apostas em corridas de cavalo estão presentes em todos os Jockeys Clubs espalhados pelo Brasil. As lotéricas da Caixa, presentes em todo o país, oferecem nada menos que onze tipos de apostas. É preciso, portanto, dosar a carga de moralismo e hipocrisia na presente discussão.

O Brasil que sai das urnas, por Murillo de Aragão

Revista Veja

Votação não desfaz dependência recíproca entre Congresso e STF

Domingo o eleitor irá votar convencido de que decide o futuro do país. Decide, mas em parte. Na segunda-feira conheceremos a nova Câmara, dois terços do Senado e os governadores eleitos no primeiro turno. E começará, antes mesmo das posses, um novo capítulo da guerra institucional que vem marcando as relações entre os Poderes.

O novo Senado terá influência direta sobre o futuro do Supremo. A Casa já mostrou que sabe usar esse poder: em abril, rejeitou Jorge Messias, algo que não acontecia desde 1894. Com a vaga de Luís Roberto Barroso ainda aberta e novas aposentadorias previstas, o próximo presidente poderá indicar quatro ministros até 2030. Cada nome dependerá do Senado. Não por acaso, a renovação de 54 cadeiras foi apresentada por muitos candidatos como um instrumento para alterar a relação de forças com o STF.

Eleição diferente, por José Casado

Revista Veja  

Reta final com guerrilha religiosa no palanque e esgrima de vaidades no STF

É uma eleição diferente. Delineia o fim de um ciclo com a despedida da geração que se mantém hegemônica na política desde o fim da ditadura.

Dois candidatos encarnam esse epílogo: Lula, 80 anos, e Ronaldo Caiado, 77 anos, ajudaram a fazer a Constituição (1988), disputaram a primeira presidencial com voto direto (1989) e estão aí nas urnas, de novo, quase quatro décadas depois.

O sujeito oculto desta eleição é Jair Bolsonaro, 71 anos. Ele ascendeu na política cultuando o saudosismo do regime militar, que o renegara no Exército. Está inelegível e condenado à prisão até os 97 anos de idade, porque tentou construir a própria ditadura depois de ter perdido a reeleição para Lula (2022).

Sobe-e-desce, por Carlos Drummond

CartaCapital

Os rumos da economia sob Lula ou sob Flávio Bolsonaro

Além do significado político, a eleição presidencial do domingo 4 será, para a economia, ainda mais decisiva do que aquela de 2002, quando a vitória de Lula impediu o ingresso do País na Alca e a privatização da Petrobras, acredita o economista Marcelo Manzano, professor do Instituto de Economia da Unicamp e diretor do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da mesma universidade. “Muito mais estará em jogo, não apenas porque o projeto de país representado por Lula é radicalmente diferente daquele defendido por Flávio Bolsonaro, mas também porque o cenário internacional nos coloca diante de desafios enormes. Caso a oposição vença, o nosso futuro estará ameaçado.”

Luiz Inácio e Mahatma Gandhi, por Luiz Gonzaga Belluzzo

CartaCapital

As políticas públicas e sociais dos três mandatos do presidente foram impulsionadas por um ambiente democrático

É atribuída a Mahatma Gandhi uma resposta irônica ao jornalista que o questionou sobre a Civilização Ocidental. Gandhi disparou: “Teria sido uma boa ideia”.

Na esteira do Iluminismo e da Revolução Francesa, a dita Civilização, entre dores e contradições, busca sobreviver às muitas agressões dos que proclamam sua defesa. O século XX testemunhou a dura peregrinação da “boa ideia”, sempre atormentada pela tensão permanente entre desejos despóticos dos poderosos e os anseios dos mais frágeis pela autonomia do indivíduo. Autonomia que reivindica a convivência entre singularidade e diferença, ancoradas nas solidariedades da pertinência cívica e republicana.

Páreo a páreo, por Cláudio Couto

CartaCapital

Uma eleição completamente aberta

A eleição presidencial de 2026 chega à reta final indefinida, com os dois principais contendores empatados tecnicamente, tanto no primeiro quanto no segundo turno, na maior parte dos levantamentos de intenção de voto.

Por um lado, presidentes no cargo costumam contar com o benefício da incumbência, podendo recorrer a medidas de última hora (como nos casos, agora, da proibição das plataformas de apostas e do reajuste do Bolsa Família), além de ter na propaganda eleitoral um instrumento capaz de mostrar as realizações do governo e, com isso, melhorar seus índices de aprovação, como se viu em eleições passadas. Por outro lado, a figura de Lula, central na política brasileira desde o fim dos anos 1970, apresenta sinais de fadiga, não entusiasmando os mais jovens e desalentando muitos dos mais velhos. Tal quadro é evidenciado por dados da pesquisa Meio-Ideia do fim de setembro: o atual presidente perde para Flávio Bolsonaro entre eleitores de 16 a 24 anos (53,5% x 40,4%) por diferença bem maior do que a vantagem que tem na faixa etária dos 45 aos 59 anos (51,8% x 46,8%).

O risco evangélico, por Aldo Fornazieri*

CartaCapital

O proselitismo religioso contamina, como nunca, o processo eleitoral

A política brasileira tem sofrido uma crescente e perigosa contaminação religiosa. As eleições de 2026 representam uma escalada nesse processo. Determinados líderes e grupos evangélicos estão se tornando um grave risco à paz religiosa, social e política. Estimulam o preconceito, o ódio e a intolerância. A família Bolsonaro, notadamente Flávio e Michelle, estão envolvidos com esses grupos e ameaçam o Estado laico. Michelle age, provavelmente, movida por uma fé distorcida. Flávio, por oportunismo político e eleitoral.

Poesia | Talvez, de Pablo Neruda

 

Música | Teresa Cristina - Com que roupa (Noel Rosa)

 

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Sem liberdade não há debate

Por O Globo

Diante da interferência política da Justiça e das violações à Constituição e à liberdade de imprensa, a TV Globo tomou a única decisão cabível: cancelou o debate entre candidatos à Presidência da República previsto para hoje. Atendendo a uma demanda do PT, a ministra Estela Aranha, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), determinou horas antes do debate que a Globo retirasse do palco o púlpito reservado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que havia desistido de participar, e que impedisse os demais candidatos de dirigir perguntas ao púlpito vazio, como determinavam as regras. De acordo com a ata da reunião que estabeleceu tais regras, assinada por representantes de todas as campanhas – inclusive a de Lula –, caso algum candidato decidisse não comparecer, o púlpito ficaria vazio, e os demais teriam direito a dirigir uma pergunta por bloco ao ausente.

Oito temas para o novo presidente, por Fernando Luiz Abrucio*

Valor Econômico

Agenda inclui ajuste fiscal, reforma administrativa, adaptação às demandas econômicas do século XXI, educação, combate à desigualdade e ao crime organizado, política externa e reorganização das instituições

Uma eleição marcada por denúncias e controvérsias que passou ao largo dos desafios do próximo governo. Esse poderia ser um resumo fidedigno do primeiro turno da disputa presidencial de 2026. Claro que houve algumas discussões sobre temas importantes ao país, como segurança pública e o fim das bets, mas diagnósticos mais profundos sobre as maiores dificuldades foram deixados em segundo plano. Só que quem assumir em 2027 terá uma lista grande de tarefas bem difíceis pela frente, e o eleitorado por enquanto não sabe o que o vencedor fará para enfrentar tais problemas.

Num país tão complexo como o Brasil, não faltam questões relevantes que o presidente tem de tratar. Seria impossível fazer uma lista que abarcasse todas elas em um artigo de jornal. Porém, é possível escolher temas estratégicos essenciais para o próximo mandato, cuja resolução será fundamental não somente para o país melhorar, como também para evitar que entre numa crise no final desta década.

Entre biografias e folhas corridas, por José de Souza Martins*

Valor Econômico

Nas últimas décadas o Brasil se esmerou em diversificar o elenco de alternativas para despistar o eleitor e tornar-lhe difícil a tomada de decisões racionais e propriamente políticas na hora de votar

Em alguns dias o eleitorado se defrontará, com razoável consciência, com o dilema de decidir em quem votar. Não será o de decidir entre candidatos de esquerda ou de direita. Aqui essas designações são em boa parte rótulos. Para saber se alguém é de direita ou de esquerda é preciso muito mais competência do que é próprio do nosso pobre senso comum.

O dilema será o de decidir qual é a fonte legítima do perfil do candidato. Se pela biografia ou pela folha corrida. Temos tido políticos, de biografias honradas e respeitáveis, de histórias pessoais limpas e límpidas, provadas em funções políticas ao longo do tempo.

Outros, porém, se notabilizam por terem a biografia reduzida a mera e suspeita folha corrida. Com anotações decorrentes de processos de investigação motivados por dúvidas em relação não só a atos fora das pautas límpidas da tradição, mas também por histórias cheias de meandros sombrios e anômalos que as tornam suspeitas e que não recomendam seus titulares ao exercício de poder em nome da democracia.

Eleição terá Lula contra Lula neste domingo, por Andrea Jubé

Valor Econômico

Expectativa é de que a apuração dos votos revele um Congresso com a direita ainda mais fortalecida

A coluna quis saber de um consultor experiente, que acompanha a política desde a “CPI do Collor” e que já viu de tudo em Brasília, o que esperar do segundo turno da eleição presidencial, caso a disputa não termine no domingo. Ele respondeu com outra pergunta: “Você se lembra quem nocauteou Mike Tyson?”

Depois, prosseguiu: “A única certeza sobre domingo é que o Brasil que sairá das urnas não será o mesmo”. A expectativa é de que a apuração dos votos do primeiro turno, que indicarão as novas composições do Senado e da Câmara dos Deputados, revele um Congresso com a direita ainda mais fortalecida, mais dissonante do que convergente em relação ao atual governo e mais combativa em relação ao Supremo Tribunal Federal (STF). Isso porque a principal pauta dos candidatos de direita ao Senado foi o compromisso com o impeachment de ministros do STF, começando por Alexandre de Moraes. Dessa forma, se o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se reeleger, no primeiro ou no segundo turno, terá de lidar com uma governabilidade ainda mais precária do que a atual.

Fator externo complica vida de Lula; para oposição, pode ser a vantagem, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O saldo da campanha eleitoral em ternos de propostas de governo é muito negativo; pode ser que, no segundo turno, as duas visões de Brasil sirvam para discutir os problemas reais

A eleição brasileira chega à reta final sob pressão internacional, um cenário muito diferente daquele de 2022. Há quatro anos, Joe Biden ocupava a Casa Branca. Embora não fosse aliado ideológico de Lula, seu governo trabalhou para desencorajar uma ruptura institucional e reconheceu rapidamente a vitória do petista. O diretor da CIA chegou a ser enviado ao Brasil, antes da eleição, para advertir Jair Bolsonaro contra a manipulação do processo eleitoral. Agora, o sinal emitido por Washington mudou: o governo americano mantém afinidades políticas com o bolsonarismo, e Lula enfrenta um ambiente regional cada vez mais hostil.

O futuro do Brasil na boca na da urna, por Vera Magalhães

O Globo

O Brasil chega à eleição depois de uma campanha que discutiu muito pouco o país que o próximo presidente receberá. Há uma situação fiscal que exige corte de gastos, problemas graves de segurança pública e desafios impostos pela inteligência artificial e pela nova ordem mundial ignorados pelos programas dos candidatos.

Lula tem contas a prestar. A responsabilidade fiscal nunca esteve entre suas preocupações centrais. A frente ampla que o ajudou a derrotar Jair Bolsonaro em 2022 foi tratada, depois da posse, como uma aliança eleitoral, e não como fundamento político de um prometido governo de união e reconstrução. E a promessa muito concreta — simbolizada pela picanha e pela cerveja — de que sua volta ao Planalto significaria prosperidade não se realizou, mesmo com a melhora dos indicadores de renda e emprego.

A eleição invisível, por Bernardo Mello Franco

O Globo

No Senado, possível avanço da extrema direita eleva risco de crise institucional em 2027

Mais de 120 milhões de brasileiros devem ir às urnas no domingo. A maioria está preocupada com a disputa presidencial, mas ainda não sabe em quem votar para o Congresso.

De acordo com o Datafolha, 57% dos eleitores não escolheram candidato a deputado federal. Para o Senado, a incerteza também é regra: 59% não decidiram em quem votar, e outros 14% só definiram o primeiro dos dois votos a que têm direito.

Um mundo mais cínico, por Pablo Ortellado

O Globo

O que acontece quando aprendemos sobre as injustiças e, em vez de nos opormos a elas, nos rendemos, aceitando ser assim que o mundo funciona? O filósofo Peter Sloterdijk chamou essa postura cínica de “falsa consciência esclarecida”, uma consciência que aprendeu sobre os problemas do mundo, mas se entregou ao estado de coisas denunciado.

Nesta semana, vimos críticos da desinformação empregando todos os subterfúgios e estratagemas das campanhas de desinformação. Deixarei para os juristas a discussão sobre se houve ou não violação da lei eleitoral. Os efeitos sobre nossa cultura política me parecem mais importantes.

O boato de que Flávio Bolsonaro retiraria de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil é um caso de livro-texto. A história começa com o boato plantado por um militante no Twitter:

— Católico não vota em nenhum Bolsonaro e nem em nenhum candidato que queira retirar o título de Nossa Senhora Aparecida de Padroeira e Rainha do Brasil.

Quem vai desempatar o jogo? Por Raquel Landim

O Estado de S. Paulo

Na eleição mais acirrada de todos os tempos, quem é o eleitor ou a eleitora que vai desempatar o jogo entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o candidato do PL, Flávio Bolsonaro?

Dados da pesquisa Meio Ideia nos ajudam a traçar um perfil daqueles que ainda estão indecisos e se tornaram o principal palco de batalha da eleição.

Boa parte dessas pessoas são mulheres da classe C, que vivem nas franjas das grandes cidades, principalmente São Paulo, Rio e Belo Horizonte. Também existe um porcentual desses eleitores nos arredores de Salvador e do Recife.

Os números nos ajudam a confirmar essa hipótese. Entre os indecisos, 63,3% são mulheres, 44,1% da classe C e 51,3% estão no Sudeste.

STF e TSE boicotam debate, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Perdem o presidente Lula, o senador Flávio, os eleitores e, principalmente, a Justiça brasileira

O debate da TV Globo, o mais importante e tradicional das eleições presidenciais há décadas, foi boicotado pelos dois candidatos favoritos, e não só por eles, neste cada vez mais chocante 2026, onde os absurdos se acumulam, numa disputa frenética sobre a autoridade mais audaciosa ao produzi-los.

O presidente Lula já tinha dito que não iria e, na última hora, Flávio Bolsonaro também decidiu cair fora, diante de duas decisões bastante questionáveis, uma da ministra Estela Aranha, do TSE, outra de Gilmar Mendes, do STF, supostamente, para dar “equilíbrio” de condições. Zero a zero para Lula e Flávio. E as regras democráticas, onde ficam?

Democracia de massa, por José Sarney*

Correio Braziliense

No domingo, vamos viver a nossa festa democrática, com quase 160 milhões de eleitores chamados às urnas para celebrar esse pacto entre o governo e o povo

Aqui em São Paulo, no Hospital Sírio-Libanês, onde ainda me encontro brigando com uma indigesta pneumonia que resolveu me perturbar nesta semana da eleição, mas já me preparando para voltar ao Maranhão, escrevo estas apressadas linhas.

Nestes 41 anos da Nova República, exercemos a democracia pelo voto do povo. No domingo próximo, dia 4, o país irá às urnas para escolher seus representantes no Poder Executivo e nas Casas Legislativas, estaduais e federais. Em quatro dos meus cinco anos na Presidência, realizamos eleições: um dos meus primeiros atos ao assumir foi restaurar as eleições diretas em todos os níveis no Brasil (Emenda Constitucional nº 25), uma vez que o país estava saindo do regime de eleições indiretas via Colégio Eleitoral, que Tancredo dizia serem as últimas a serem realizadas no Brasil. E foram.

Filha de FHC declara voto em Lula e cita defesa da democracia, por Gabriela Echenique

Folha de S. Paulo

Beatriz Cardoso afirma que valor democrático é indispensável para 'sociedade mais justa'

Declaração reforça posicionamento público adotado no segundo turno de 2022, quando Lula disputava com Jair Bolsonaro

Filha do ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso, Beatriz Cardoso declarou que votará em Lula (PT) nesta eleição e que escolheu defender a democracia brasileira.

O pai dela, que governou entre 1995 e 2002, foi um dos principais adversários políticos de Lula antes do surgimento do bolsonarismo, na década passada.

Datafolha: Lula tem 45% e Flávio Bolsonaro, 40% em votos válidos no 1º turno, por Igor Gielow

Folha de S. Paulo

Cálculo exclui brancos e nulos, como faz TSE para declarar resultado; 17% dizem que ainda podem mudar de voto

Na simulação de 2ª rodada, presidente e filho de Bolsonaro empatam com 48% e 45%, respectivamente

A corrida eleitoral de 2026 chega às vésperas do primeiro turno com Lula (PT) somando 45% das intenções em votos válidos, que excluem brancos, nulos e indecisos, ante 40% de Flávio Bolsonaro (PL).

Já no segundo turno, em votos totais, há empate técnico: 48% para o presidente e 45% para senador fluminense.

É o que aponta nova pesquisa do Datafolha, realizada de terça-feira (29) a esta quinta (1º), com margem de erro de dois pontos para mais ou para menos.

Há uma semana, o petista tinha 43% de votos válidos no primeiro turno e 47% de totais no segundo. Seu principal rival, 39% e 45%, respectivamente.

O imponderável, as omissões, as baixezas e os azares que podem definir a eleição acirrada, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Disputa não muda faz um mês, indica Datafolha; decisão de primeiro turno seria improvável

Resultado pode depender de corpo a corpo, abstenção e dificuldades do eleitor mais pobre

A distância de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para Flávio Bolsonaro (PL) ficou na mesma desde o início de setembro, praticamente desde o início da campanha em rádio e TV. Pela aritmética dos dados da pesquisa Datafolha, haveria segundo turno. Se a votação ocorresse nesta quinta, resultados diferentes desses da pesquisa dependeriam do Imponderável da Silva, primo do Sobrenatural de Almeida de Nelson Rodrigues, o responsável pelas derrotas do Fluminense (o time do escritor).

Em suma, campanha corpo a corpo, um evento digital viral ou alguma maluquice extra dos tribunais ditos superiores podem render décimos relevantes. Mais sobre isso mais adiante. O que se pode dizer com certeza é o que não será relevante, pois não vai acontecer.

O currículo de Flávio Bolsonaro, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Democracia não se presta a favorecer boas escolhas para governantes

Possibilidade real de eleição do candidato do PL é a melhor prova disso

O ponto forte da democracia é assegurar que governantes reprovados nas urnas entreguem o poder pacificamente, não favorecer a escolha de bons líderes —o que, infelizmente, ela não faz. A melhor prova disso é a possibilidade muito real de Flávio Bolsonaro (PL) ser eleito presidente da República.

O currículo do senador e candidato é uma longa sucessão de suspeitas. Começa com as rachadinhas, na Alerj, passa pela incrível loja de chocolates que, ao contrário de todo o mercado, não via suas vendas majoradas na Páscoa e pela compra de uma mansão em Brasília por valor incompatível com seus rendimentos e patrimônio conhecidos. A história de como as cortes superiores abortaram essas investigações está por ser contada. A escalada de desconfianças culmina no singelo pedido de R$ 134 milhões ao famigerado Daniel Vorcaro. Tirando as suspeitas, o que salta aos olhos no currículo de Flávio Bolsonaro são suas ligações com milicianos.

Peça de Brecht sobre Galileu interroga o exercício do poder e os limites da ciência, por Juliana de Albuquerque

Folha de S. Paulo

'A Vida de Galileu' parte da biografia do físico italiano para promover reflexão sobre a defesa da verdade

Questões levantadas por Brecht fazem pensar em temas contemporâneos como a regulação da IA

Concluí recentemente a leitura de "A Vida de Galileu", do poeta e dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1898-1956).

Escrita originalmente no final da década de 1930, durante o exílio de Brecht na Dinamarca, a peça narra a trajetória do físico italiano Galileu Galilei (1564-1642). Galileu foi julgado pela Inquisição em Roma por defender, com base nas suas observações astronômicas, o modelo heliocêntrico de Nicolau Copérnico (1473-1543) e levado a abjurar as suas posições.

A peça de Brecht parte de elementos da biografia de Galileu não apenas para reconstruir certos eventos com alguma fidelidade, mas também para fazer o público refletir sobre questões urgentes do seu próprio tempo, como o papel social da ciência e a problemática relação entre indivíduo e autoridade.

Lula no Flow Podcast: veja entrevista na íntegra

 

Poesia | Poética, de Manuel Bandeira

 

Música | Paulinho da Viola - Nervos de Aço