terça-feira, 25 de agosto de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Faltar a debate viola direito do eleitor a informação

Por O Globo

No primeiro confronto desta eleição, três candidatos faltaram, entre eles os dois primeiros nas pesquisas

Foi frustrante o primeiro debate presidencial desta eleição. Estavam presentes no estúdio da Band apenas três dos seis candidatos que tinham o dever de comparecer: Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante). Juntos, os três não somam 10% das intenções de voto, segundo o último Datafolha. Não foram debater nem o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), nem seu principal oponente, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) — os dois primeiros colocados nas pesquisas. Romeu Zema (Novo) também se negou a ir.

Faltar a um debate é um desrespeito ao eleitor. É uma afronta a seu direito a informação. Eventos televisionados, em que as propostas são apresentadas, criticadas e discutidas, permitem ao cidadão avaliar melhor os candidatos antes de decidir seu voto. Confrontos de ideias num embate ao vivo são essenciais na democracia e não podem ser ignorados.

Quando a Câmara censura a história e resgata o passado colaboracionista, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Em outubro de 1966, Castello Branco decretou o recesso do Congresso. Em dezembro de 1968, Costa e Silva editou o AI-5 e fechou o Legislativo. Em 1977, Ernesto Geisel fez o mesmo

Há uma ironia inquietante na decisão da Câmara dos Deputados de impedir que uma obra acadêmica utilize a expressão “ditadura militar” para caracterizar o regime instaurado em 1964. A Casa, que teve 173 deputados e oito senadores cassados, foi fechada três vezes pelos generais, mesmo tendo legitimado o golpe militar de 1964. Ao suavizar a linguagem empregada para caracterizar o regime militar, não apenas contraria a pesquisa histórica: renega a própria memória.

Entrevista |'A universidade não pode ter alergia à política nem ser bunker protegido', afirma cientista político, por Adelia Felix

Bnews

A recente invasão da Universidade Federal da Bahia (UFBA) pelo deputado Diego Castro (PL) após receber denúncias sobre a colagem de adesivos políticos no prédio ilustra um fenômeno cada vez mais comum na política brasileira: a transformação de espaços tradicionais em cenários para gerar vídeos e tumulto nas redes sociais.

Em entrevista ao BNEWS, Paulo Fábio Dantas Neto, cientista político, professor associado da UFBA e pesquisador do Centro de Estudos e Pesquisas em Humanidades (CRH), avalia que a substituição do debate por monólogos e versões sobre os fatos alimenta uma polarização que afeta diretamente o ambiente universitário.

Dantas Neto defende que a instituição deve ser plural e "não um bunker". Ele considera legítima a circulação de ideias, mas ressalta: "Nada disso se aplica a quem provoca tumulto, por intimidação ou agressão".

Segundo o professor, a democracia perde força quando passa a ser cobrada para resolver uma "briga de turma". Ele aponta que o ambiente político ficou menos plural e que, com o retorno da guerra de narrativas, as instituições democráticas resistem, mas a conduta democrática sofre pressão.

"A disputa é sobre quem é o dono da verdade. O messianismo que antes era traço de uma turma virou padrão mais generalizado", avalia o especialista.

Ao avaliar o cenário eleitoral, o especialista indica que propostas realistas enfrentam dificuldades para ganhar destaque. O ambiente político, segundo o professor, sofre com a perda de pluralismo e o avanço da intolerância.

Na visão dele, "as instituições democráticas não estão tão ameaçadas como em 2022, mas a conduta democrática sim. Há campo livre para lógicas de faxina. Quem ganhar a eleição não terá direito ao benefício da dúvida".

Leia a entrevista:

Perdas e ganhos, por Merval Pereira

O Globo

Os processos que tramitam no STF é que dão motivos para a queda de Flávio Bolsonaro e a subida de Lula, ou vice-versa, dependendo da semana.

Por incrível que pareça, a eleição presidencial tem sido decidida por medidas do Supremo Tribunal Federal (STF) e atuações da Polícia Federal. Não se trata de figura de linguagem. Os processos que tramitam no STF é que dão motivos para a queda de Flávio Bolsonaro e a subida de Lula, ou vice-versa, dependendo da semana. Existem três ministros envolvidos em diversas decisões supremas fundamentais para ditar o rumo dos acontecimentos, que têm tido repercussão nos resultados das pesquisas de opinião.

Diferenças entre as duas eleições, por Míriam Leitão

O Globo

A taxa de eleitores indecisos na pesquisa espontânea é maior nesta eleição do que na de 2022. Este ano, na pesquisa mais recente da Quaest, 51% dos eleitores se diziam indecisos antes da apresentação dos nomes dos candidatos. Na eleição de 2022, em agosto, os indecisos estavam em torno de 36%. A campanha começou mais fria. Mas há outra diferença, quando se comparam os detalhes das sondagens. Na última disputa, o eleitor de Jair Bolsonaro estava mais interessado nas eleições, agora é o eleitor de Lula que se mostra mais interessado.

Inimigos da democracia, por Pedro Doria

O Globo

A VPN da Proton aumentou em 800% o número de clientes brasileiros na semana passada. A maioria nem sequer desconfia do que seja uma VPN. Isso aqui, no Brasil. Em países como Rússia, Turquia, Irã ou China, todo mundo sabe. Afinal, VPN é um serviço que você contrata, instala no computador ou celular, e aí faz parecer que usa a internet de outro canto. Parece que vem de Londres, do Canadá, das Ilhas Canárias — de onde for. Serve para driblar proibições de uso em países com censura a sites específicos. Quando a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) decidiu que o Discord não poderia fazer mais lives, no Brasil, a plataforma impôs uma barreira ao território nacional. Aos computadores que vêm daqui, vídeo ao vivo está bloqueado. Vale para todo mundo — menos para os que usarem VPN. Pois é. Muito pouca gente sabe de que serve a VPN. Mas quem sabe inclui a garotada que comete crimes virtuais. O Discord está restrito para todo mundo, mas não para aqueles a quem a proibição se dirigia.

O dilema da exploração na Margem Equatorial, por Fernando Gabeira

O Globo

Será que a região Norte poderá aproveitar melhor a transitória riqueza do petróleo? O que funcionou e não funcionou no Litoral Fluminense?

O Brasil hospedou a COP30 na Amazônia para mostrar ao mesmo tempo a importância e a vulnerabilidade da região. O país se apresenta como líder na transição energética. Descobriu hidrocarbonetos a 175 quilômetros da costa do Amapá e pretende abrir 15 poços na Margem Equatorial, faixa de bacias sedimentares, que vai do Amapá ao Rio Grande do Norte. Estamos diante de uma contradição.

Um estudo do WWF estimou que o Brasil gastará R$ 47 bilhões que poderiam ser investidos em energia renovável e biocombustíveis. É o que um líder em transição energética faria. Mas a realidade é esta: a correlação de forças pende para os querem explorar o petróleo. Não adianta dar murros em ponta de faca.

Egressos da eleição mais perdulária vão votar o ajuste, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Redução no número de candidatos e verba pública recorde enriquecem campanha de parlamentares que vão votar o ajuste seja qual for o presidente eleito

A redução no número de candidaturas combinada com fundo eleitoral e partidário recordes e o maior volume de emendas já registrado vai proporcionar a eleição mais perdulária da história. Não poderia haver contraste maior com a agenda de ajuste fiscal que aguarda o Congresso em 2027, seja qual for o presidente a ser eleito.

O contraste do mar de dinheiro que os elegerá e a agenda que os parlamentares têm pela frente só se equipara ao da indefinição da disputa presidencial e a previsibilidade daquela da Câmara dos Deputados. A primeira deve durar, pelo menos, até 4 de outubro sem favorito. A segunda já tem bolsa de apostas sobre o baixo grau de renovação. Nenhuma delas ultrapassa a metade da Câmara.

Qualidade das campanhas pode ser decisiva, por Christopher Garman

Valor Econômico

O ataque mais eficaz contra Lula não são denúncias de corrupção, mas a associação entre carga tributária e custo de vida

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva entrou na campanha eleitoral como um ligeiro favorito, favorecido pela vantagem de estar no governo. Mas, com os modelos de previsão eleitoral apontando em direções opostas, a qualidade das campanhas e a capacidade dos candidatos de se conectarem aos temas que realmente preocupam o eleitorado podem ter um peso incomum no resultado das urnas.

Campanhas presidenciais raramente decidem eleições. Comentaristas políticos e marqueteiros dispendem uma energia enorme para analisar discursos, debates, estratégias e mensagens - que, de modo geral, têm pouco impacto no resultado. A maioria das eleições é decidida por um desejo difuso de mudança ou de continuidade, ou pela credibilidade que um candidato projeta em torno de um tema central para o eleitor.

O intocável regime de metas precisa ser aperfeiçoado, por Pedro Cafardo

Valor Econômico

Diversas fontes inflacionárias além da demanda podem ter peso muito maior na alta dos preços e tornar o regime ineficaz

O Regime de Metas de Inflação (RMI), bastante utilizado no mundo para o controle da inflação, é hoje quase um dogma no Brasil. Poucos economistas ousam contestá-lo. Um trabalho dos economistas André Luis Campedelli, da Unifesp, e Antonio Corrêa de Lacerda, professor-doutor da PUC-SP, lança luzes até para não acadêmicos enxergarem o alcance e as limitações desse regime no Brasil.

O RMI foi instituído no país em 1º de julho de 1999. Estabeleceu-se que o Conselho Monetário Nacional fixaria a meta, cabendo ao Banco Central cumpri-la - atualmente é 3% ao ano, com tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo.

O regime parte do pressuposto de que a inflação é explicada, na maior parte do tempo, por uma demanda econômica aquecida. Portanto, choques de oferta seriam casuais e não deveriam preocupar, pois seus efeitos se dariam apenas no curto prazo.

Riqueza é poder, por Jorge J. Okubaro

O Estado de S. Paulo

A fragilidade econômica das camadas mais pobres é expressa numa deficiência na sua representação política

O mais recente relatório do Observatório Brasileiro das Desigualdades mostrou avanços importantes em diversas áreas. Resultado do trabalho conjunto de diferentes organizações e entidades não governamentais, o relatório, com dados de 2025, mostrou melhoria em 71% dos indicadores avaliados. Entre esses indicadores estão insegurança alimentar, desnutrição infantil, porcentagem da população em situação de extrema pobreza, homicídios entre jovens e desmatamento. Em média, a vida melhorou em relação ao ano anterior.

No caso de um importante indicador econômico e social, entretanto, o Observatório constatou não a persistência de um quadro ruim, mas sua piora. Já muito elevada no Brasil, que por isso ocupa uma posição destacada entre os países socialmente mais desiguais do mundo, a concentração de renda se acentuou. Não foi muita coisa, mas aumentou. O rendimento médio do grupo das pessoas que compõem a faixa dos 1% mais ricos correspondia a 30,2 vezes o rendimento dos 50% mais pobres; em 2025, a 31,5 vezes. Isso quer dizer que a renda apropriada por 2,1 milhões de ricos equivale a mais de 31 vezes o total recebido por 106 milhões de brasileiros na faixa de renda mais baixa.

A pior eleição desde 1989, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Lula não tem marca, Flávio não tem nada, Caiado perdeu o trem e o resto virou o resto

O debate da Band e do Estadão, o primeiro entre candidatos à Presidência neste ano, foi importante por expor uma síntese triste, dolorosa, de como a eleição de 2026 tende a entrar para a história como a mais desanimada e mais desanimadora entre as nove desde a primeira direta na redemocratização. Logo, também a pior.

Com o presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro polarizando a campanha, não houve espaço para alternativas competitivas. O ex-senador e ex-governador Ronaldo Caiado (PSD), que tem 5%, no terceiro lugar, tenta discutir programas e propostas, mas fica falando sozinho.

Ausentes presentes, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Lula preferiu recolher a bandeira de defesa da democracia contra a ameaça golpista materializada pelos Bolsonaro – aquela com que se elegera em 2022 e pela qual terá ido a todos os debates. Imagina-se que considere já inexistente a ameaça, motivo em função do qual terá renunciado à chance de falar ao País e defender a continuidade de seu governo. A outra hipótese é a de que o empunhar desse estandarte fosse conveniência superada pela condição confortável de presidente.

O debate – na TV, como o conhecemos – talvez já não exista mais, transtornado pelo discurso franco-atirador marçalista. Caso em que candidaturas favoritas, como as de Lula e Flávio Bolsonaro, teriam razões adicionais para considerar que as consequências negativas de lhe faltar seriam menores do que os riscos da exposição em ambientes não controlados.

Uma janela para a realidade, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Debates eleitorais são oportunidade para avaliar candidatos em ambiente com menos filtros

Como potencial de dano é real, candidatos mais bem-posicionados preferem fugir do embate

São raros os debates presidenciais que mudaram o curso de uma eleição. O caso sempre citado é o do embate entre Kennedy e Nixon em 1960. O republicano foi mal. Não tanto pelo que disse, mas por exalar nervosismo. Suava profusamente enquanto seu adversário foi capaz de projetar uma imagem de dinamismo. No Brasil, temos o confronto entre Collor e Lula em 1989. Além do conteúdo do debate propriamente dito, pesou a edição pró-Collor que a Globo fez do evento.

Fuga de debate denota medo do contraditório, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Ausência dos favoritos põe em xeque a utilidade dos embates entre candidatos a presidente

Quando recusam a controvérsia, Lula e Flávio deixam rastro de desdém ao discernimento do eleitor

Os candidatos a presidente da República mais visados, prediletos e, ao mesmo tempo, mais rejeitados nas pesquisas fizeram "forfait" no primeiro debate de televisão desta campanha. Não compareceram, alegadamente por razões estratégicas de proteção mútua.

Por óbvio, as ausências foram exploradas livremente com variações entre críticas e grosserias, com a desvantagem de os alvos não estarem ali para exigir direito de resposta a ofensas pessoais que claramente feriam as regras do embate.

O Rio dos megashows, helicópteros e aluguéis por temporada, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Cidade não é pensada para seus moradores e sim para o turismo de massa

Livro em torno de Fernando Sabino mostra as transformações de Copacabana ao longo do tempo

Mestre e doutora em Letras pela PUC-Rio, a professora e atriz Teresa Montero conduz, desde 2008, passeios culturais que exploram a presença da literatura nas ruas do Rio de Janeiro. Uma espécie de pequeno turismo na cidade que, hoje, é pensada e planejada não mais para os seus moradores —e sim para o turismo de massa, para os megaeventos.

Os passeios idealizados por Teresa já renderam os livros "O Rio de Clarice" (2018) e o recém-lançado "O Rio de Fernando Sabino", ambos publicados pela Autêntica. São dois guias íntimos e afetivos, que recomendo não só aos visitantes da cidade como àqueles que se interessam pela sua transformação ao longo do tempo.

O cronista da minha devoção, por Ivan Alves Filho

Católico fervoroso, tendo São Francisco de Assis por santo de sua devoção, ele dedicou sua vida à Literatura. Cronista, poeta, homem de teatro, radialista e jornalista, trabalhou em órgãos de grande prestígio à época, como Fon-Fon, Dom Casmurro e Ilustração Brasileira (da qual foi diretor), Diretrizes e Para Todos, esta última, ligada ao Partido Comunista.

Poesia | Cada um de nós é por enquanto a Vida, de José Saramago

 

Música | Elis Regina - "Dois pra lá, dois pra cá"

 

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Parar pente-fino no Bolsa Família foi um equívoco

Por O Globo

Em ano eleitoral, União fechou acordo com defensoria e interrompeu visitas necessárias a coibir fraudes

O governo errou ao fechar acordo com a Defensoria Pública da União (DPU) suspendendo até 1º de julho do ano que vem a obrigatoriedade de visita residencial para concessão ou manutenção do Bolsa Família e do Benefício de Prestação Continuada (BPC) a quem afirma morar sozinho. A exigência foi estabelecida em maio do ano passado, diante das evidências de fraudes na classificação de famílias como unipessoais para ampliar a quantidade de benefícios recebidos em uma mesma residência. A DPU entrou com processo contra a União alegando haver suspensão de benefícios sem ter havido visita. Em vez de aceitar o acordo com a DPU que preserva o caminho para as fraudes, o governo deveria ter reforçado o pente-fino por meio da checagem presencial.

Assista à entrevista exclusiva da RECORD com Lula (PT), candidato à Presidência da República

 

Por que o debate da Band foi o pior das eleições presidenciais desde 1989, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Esvaziado pelos ausentes e avacalhado pelos presentes, encontro será lembrado por um vice dormindo enquanto seu candidato falava

Esvaziado pelos ausentes e avacalhado pelos presentes, o debate da Band foi possivelmente o pior encontro de presidenciáveis já transmitido pela TV brasileira.

À frente nas pesquisas, Lula e Flávio Bolsonaro já haviam informado que não compareceriam. No domingo, Romeu Zema surpreendeu ao se juntar ao boicote.

Dos seis convidados, restaram três, que por pouco não se reduziram a dois.

O psiquiatra Augusto Cury já estava na portaria da Band quando deixou repórteres perplexos ao avisar que daria meia-volta para casa. “Vocês não percebem a minha mágoa?”, perguntou.

O desafio de Caiado, Renan Santos e Augusto Cury no debate era se destacar, mas todos falharam miseravelmente, por Vera Magalhães

O Globo

Embate não muda polarização, apesar de ausências

Lula e Flávio Bolsonaro devem ter respirado aliviados ao fim do debate da Band, realizado em pool com outros veículos. O nível da discussão foi tão pobre que o eleitor de ambos teve razões de sobra para trocar uma decepção com a ausência dos favoritos por uma solidariedade com sua decisão.

O desafio de Ronaldo Caiado, Renan Santos e Augusto Cury era se tornarem conhecidos para, no decorrer da campanha, quem sabe, despontarem como uma terceira via possível diante da polarização bastante consolidada. Nesse sentido, falharam miseravelmente.

O show de Renan para a machosfera, as pílulas de autoajuda lançadas por Cury e uma mal ajambrada coletânea de realizações de seu governo em Goiás produzida por Caiado não chegaram, em nenhum momento, a configurar um debate de fato, em que os candidatos —a presidente da República! — formulassem propostas viáveis para problemas concretos do país e dos eleitores.

Obrigação do cumprimento de cotas contamina a sociedade, por Miguel de Almeida

O Globo

Reparação histórica tem criado conflitos que precisam ser resolvidos, sem paixão

No espaço de três meses, a política de cotas raciais voltou a causar conflitos e processos judiciais. Criada inicialmente em âmbito estadual (Rio e Bahia) em 2001, expandida para a Universidade de Brasília (UnB) em 2004 e nacionalizada por Dilma Rousseff em 2012, ela visava a garantir acesso de Pretos, Pardos e Indígenas (PPIs) aos cursos superiores. Como argumento, a “reparação histórica” aos grupos sacrificados desde a chegada dos europeus ao Brasil.

As esquisitas comparações do ministro Dino, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

O mau jornalismo pode trazer notícias erradas ou ofender. Mesmo assim, na democracia não pode haver censura prévia

Em sessões no STF e nas suas redes sociais, o ministro Flávio Dino produziu uma série de comparações entre o exercício de profissões para relativizar a liberdade de expressão do jornalista e a garantia do sigilo da fonte. Seu objetivo era demonstrar que a prática do jornalismo exige que o profissional tenha um diploma de jornalista.

São comparações, digamos, esquisitas. Disse o ministro em sessão do Supremo:

— O direito de ir e vir implica que qualquer pessoa possa pilotar um avião? Ou o direito à saúde autoriza que qualquer um receite remédios? E o direito de defesa permite que qualquer cidadão exerça a advocacia?

Socialismo tributário, por Denis Lerrer Rosenfield

O Estado de S. Paulo

Não estamos diante de uma mera irresponsabilidade fiscal. Trata-se de um projeto de dominação do Estado sobre a sociedade

O Brasil, sob o governo Lula III, vive em um círculo vicioso que parece não ter fim. Embora tenhamos a coloração dinástica do III, procurando repetir a dose num Lula IV, forçoso é reconhecer que ele pouco se parece com Lula I, graças a uma administração competente das finanças públicas sob as batutas de Antonio Palocci e Henrique Meirelles. É como se pertencesse a outra casa monárquica. Todavia, ele parece ser um êmulo de Dilma I e II, que quase levou o País à bancarrota. Aliás, por uma questão de coerência, deveria ser a ex-presidente convidada para ser ministra da Fazenda, pois seus discípulos neste governo, apesar de tentarem, não estão completamente à sua altura.

EUA exigiram subordinação, e o Canadá recusou, por Oliver Stuenkel

O Estado de S. Paulo

Novas tarifas impostas pelo governo Trump ao país vizinho atingem, sobretudo, pequenas e médias empresas

As novas tarifas de Donald Trump foram “feitas para nos machucar e nos dividir…. os EUA estão tentando nos quebrar para poder nos possuir. Isso nunca, jamais, vai acontecer.” disse Mark Carney, primeiro-ministro do Canadá, no sábado, 22 em Ottawa, poucas horas depois de as tarifas estadunidenses de 50% entrarem em vigor sobre uma longa lista de produtos canadenses, que atinge sobretudo pequenas e médias empresas do país.

Carney, ex-presidente do Banco do Canadá e do Banco da Inglaterra, que construiu a carreira inteira sobre a arte de escolher palavras que não movam mercados, adotou um tom mais duro: “Você está em guerra quando é atacado. E nós fomos atacados.”

Por que o número de candidatos caiu? Por Bruno Carazza

Valor Econômico

Redução da demanda por cargos públicos expõe novas dinâmicas do sistema político-eleitoral brasileiro

Iniciada a campanha eleitoral e publicada a relação dos registrados por todos os partidos, um fato chamou a atenção: pela primeira vez desde pelo menos 1998, o número de candidatos caiu.

Em outubro, 20.712 brasileiros tentarão obter um mandato eletivo para os próximos quatro ou, no caso de senador, oito anos. Trata-se de uma redução significativa de 29,2% em relação à eleição passada, que contou com a participação de 29.262 concorrentes.

A conta fiscal do próximo presidente, por Alex Ribeiro

Valor Econômico

Santo Graal entre os economistas é anunciar um ajuste fiscal forte o suficiente para fazer o investidor cobrar um prêmio de risco menor para carregar a dívida pública

Os juros que o governo paga na sua dívida estão muito altos, e é um consenso entre os principais candidatos a presidente da República - incluindo Lula-- de que será preciso um ajuste fiscal. Qual o tamanho do problema? Depende, em grande parte, da opinião de cada um sobre as causas dos juros altos.

Se a visão é de que a taxa de juro está alta sobretudo por questões fiscais, então o tamanho do ajuste nas contas públicas pode ser até menor - por mais estranho que possa parecer - caso seja anunciado um plano forte o suficiente e com credibilidade.

Convenções que já não decidem, por Lara Mesquita

Folha de S. Paulo

Cada vez mais a escolha dos candidatos tem passado longe das convenções

Decisões antes tomadas por uma instância coletiva ficam nas mãos de um pequeno grupo

Idas e vindas na definição de candidaturas ganharam destaque no noticiário recentemente. Dois exemplos são o senador mineiro Cleitinho, do Republicanos, cuja candidatura ao governo atravessou sucessivas reviravoltas, e o ex-prefeito de Maceió JHC (João Henrique Caldas), do PSDB, que ora concorreria ao Senado, ora ao governo. E as indefinições sobreviveram às convenções partidárias.

As convenções, realizadas entre 20 de julho e 5 de agosto, deveriam ser o momento em que os partidos decidem não apenas se lançarão candidatos, mas quem serão eles.

Quando os árbitros entram no jogo: o jantar da desordem institucional, por Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

STF não responde à crise com autocontenção, mas com uma confusão ainda maior entre jurisdição e política

Moraes assume também o papel de articulador político entre Lula e Alcolumbre, em plena campanha eleitoral

O escândalo do Banco Master pareceu provocar no STF um instinto de autopreservação. A magnitude das revelações e a reação da opinião pública teriam aparentemente convencido seus ministros de que era necessário conter excessos e restaurar a credibilidade da corte. A proposta do presidente Edson Fachin de criar um código de ética foi interpretada como sinal, ainda que tímido, desse movimento.

Os acontecimentos recentes mostram que essa expectativa era ilusória.

Jantar realizado na residência de Alexandre de Moraes reuniu o presidente da República, o presidente do Senado e os ministros Moraes e Cristiano Zanin. A cena, concebida como demonstração de pacificação, é, na realidade, uma representação exemplar da desordem institucional brasileira.

Poesia | Arte Poética, de Mário Dionísio

 

Música | Maria Bethânia e Omara Portuondo - Tal Vez

 

domingo, 23 de agosto de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Tentativa de polir credenciais fiscais de Lula é frustrante

Por O Globo

Na Faria Lima, Durigan insiste que, se reeleito, governo promoverá ajuste. Mas não convence

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, foi destacado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva como interlocutor econômico da campanha pela reeleição. Durigan não tem perdido tempo em circular pela Faria Lima para convencer o mercado financeiro das novas credenciais de Lula no campo fiscal, caso seja reeleito. Tem tentado acalmar bancos e gestoras de fundos e se mostrado aberto às críticas. A julgar, porém, pela ansiedade na flutuação de indicadores como dólar, ações e, principalmente, títulos do governo, o fracasso da iniciativa é patente.

Considerações sobre o ‘interregno’, por Luiz Sérgio Henriques*

O Estado de S. Paulo

A reconstrução da sociedade civil, espaço de mediação entre indivíduo e Estado, é o desafio posto diante das forças democráticas há muito na defensiva

Como tudo na vida, palavras envelhecem, e talvez seja essa a sensação que nos assalta ao depararmos com o uso reiterado de “interregno” para indicar o atual estado das coisas. Na conhecida formulação de Gramsci, a velha ordem está morta e não mais regula corações e mentes, enquanto a nova ainda não consegue se afirmar. No intervalo entre ambas, o mundo se enche de sintomas mórbidos. Provocadora, a imagem parece explicar o caos ao redor, mas há quem nela observe a persistência de uma certeza anacrônica sobre a nova ordem que viria a se impor por meio da revolução.

Admitida a observação, pode-se ainda teimar em que a metáfora ao menos chama a atenção para os riscos próprios de épocas de transição como a nossa. Não por acaso, circulam por aí ideias-zumbis e figuras extravagantes, que recusam comportamentos baseados em regras, ainda que imperfeitas, e proclamam a lei do mais forte. Os sintomas precisam ser pesquisados, assim como buscados os remédios, todos eles políticos, naturalmente. Essa procura incessante, sem prescindir de analogias, não pode se limitar a elas – os adversários da sociedade aberta não são os mesmos de 1930 nem liquidá-los como “fascistas” nos deixa necessariamente em posição mais segura.

Mesmo ausentes, Lula e Flávio são os protagonistas do debate na tevê, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Flávio condicionou sua presença à participação de Lula, porque perderia a oportunidade de confrontar diretamente o principal adversário e seria alvo de Caiado, Zema e Renan

O primeiro debate presidencial das eleições de 2026, marcado para hoje, às 20h, na Band, terá dois protagonistas invisíveis: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, candidato à reeleição pelo PT, e o senador Flávio Bolsonaro (RJ), representante do PL. Os líderes das pesquisas decidiram não comparecer, deixando o palco para Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo), Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante). A ausência expressa o cálculo político de ambos: evitar desgastes, reduzir o risco de surpresas e manter a disputa confinada à polarização que interessa aos dois.

A barbárie que une García Lorca, Victor Jara e Honestino, por Dorrit Harazim

O Globo

É sempre melhor quando a Justiça redemocratizada se alia à História, claro. Mesmo que tardiamente

Três gerações depois do sombrio 18 de agosto de 1936, ainda é proibido esquecer. Passaram 90 anos desde o fuzilamento do poeta Federico García Lorca por falangistas de Granada. Seu corpo nunca foi encontrado. Segunda-feira passada, dia 17, a homenagem mais vibrante e desempoeirada ocorreu nas ruas de Madri, quando uma ruidosa centena de jovens artistas emergiu do Palácio de Velázquez carregando (com autorização do Ministério da Igualdade) uma pequena estátua de Lorca sorridente. Num misto de “procissão laica” com flashmob a que foram se juntando cidadãos comuns, o cortejo seguiu até a Plaza de Santa Ana, no Barrio de las Letras. Ali, cantaram, declamaram e dançaram aos pés da estátua oficial, em bronze e tamanho natural, do cultuado dramaturgo de “La Casa de Bernarda Alba”.

Contradições do STF, por Merval Pereira

O Globo

A essa altura, não é mais possível levantar qualquer tipo de dúvida de que Lulinha estava fazendo negócios em nome de sua posição familiar.

A mais recente pesquisa de opinião do DataFolha, divulgada neste fim de semana, indica que a disputa presidencial está virtualmente empatada, com um detalhe realçado pela própria empresa: ela não pegou a reação dos eleitores sobre as suspeitas que atingem o filho do presidente Lula. A essa altura, não é mais possível levantar qualquer tipo de dúvida de que Lulinha estava fazendo negócios em nome de sua posição familiar, e que a lobista Robert Luchsinger era sua representante – ela mesmo disse “eu sou o Lulinha” em uma conversa que a PF obteve. Também surgiram nos últimos dias diálogos sobre pagamentos para Lulinha. Portanto, não há mais dúvida de que havia negócios através do chefe de gabinete do presidente, o Marcola, que até teve que sair do governo, e de pessoas instaladas no Ministério da Saúde.

André Mendonça será o novo Sergio Moro? Por Bernardo Mello Franco

O Globo

Relator dos casos Master e Lulinha, ministro do STF promete imparcialidade, mas vazamentos já influem na eleição

Em abril de 2020, Sergio Moro deixou o Ministério da Justiça atirando. Acusou o então presidente Jair Bolsonaro de interferir na Polícia Federal para blindar o filho Flávio, investigado no escândalo da rachadinha. Para o lugar de Moro, o capitão escalou um auxiliar mais discreto, que chefiava a Advocacia-Geral da União. Era André Mendonça, que se notabilizaria por usar o cargo para abrir inquéritos contra críticos e opositores do chefe.

Em seis anos, Moro reatou com o bolsonarismo, virou senador e agora disputa o governo do Paraná pelo PL. Seu substituto na Justiça foi alçado a ministro do Supremo Tribunal Federal. Hoje é relator de dois casos com potencial para influir no resultado da eleição.

O fator Lulinha na reta final, por Elio Gaspari

O Globo

Lulinha vive na Espanha, depois de mais de um ano de trabalho na sua blindagem, a defesa do primogênito do presidente admitiu que ele venha ao Brasil para prestar os devidos esclarecimentos

Em janeiro de 2024, a J&F dos irmãos Batista contratou um parecer de Ricardo Lewandowski, magistrado aposentado do STF e futuro ministro da Justiça, para seu litígio em torno da Eldorado Celulose. Em fevereiro, o banqueiro Daniel Vorcaro contratou a banca de advocacia da mulher do ministro Alexandre de Moraes com remuneração de R$ 3,6 milhões mensais por três anos. Já o ministro Dias Toffoli suspendeu no dia 2 os pagamentos das multas devidas pela empreiteira Odebrecht, decorrentes do acordo de leniência firmado com o juízo da Lava-Jato. Dias depois, o ministro mandou investigar a ONG Transparência Brasil. Tudo normal e legal.

Nesse cenário, a advogada Roberta Luchsinger e Antonio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, conceberam um negócio de fornecer ao governo federal, sem licitação, 1,2 milhão de frascos de 36 tipos diferentes de remédios com base em canabidiol. Seria um negócio de 626 milhões.

Era motivo de euforia para Luchsinger: “Nosso nível tá outro. Nosso futuro é Suíça. Poucos negócio é bom (sic). Esse povo aqui tá em outra vibe”.