segunda-feira, 29 de junho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Delações seletivas têm mesmo de ser rejeitadas

Por O Globo

PF e PGR acertam ao recusar propostas que nada de novo trazem à investigação do caso Master

Fizeram bem a Polícia Federal (PF) e a Procuradoria-Geral da República (PGR) em rejeitar as propostas de delação premiada de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, e de Paulo Henrique Costa, ex-presidente do Banco de Brasília (BRB). Pelo que veio a público das negociações, elas não acrescentariam nada de relevante ao que já se sabe sobre a maior fraude bancária da História do país. É preciso fechar a porta à tentativa dos acusados de aproveitar os benefícios da lei sem oferecer informações que contribuam para as investigações, já bastante avançadas a partir do material apreendido nas operações policiais.

Apesar da mudança de advogados e das promessas de colaboração, sete meses depois de preso pela primeira vez, Vorcaro ainda não conseguiu convencer os investigadores de que está realmente disposto a falar o que sabe sobre os desmandos do Master e sua atuação nos bastidores da República. Ao contrário. A cada novo episódio que as autoridades trazem a público, sua situação se torna mais constrangedora.

Lula precisa mesmo de palanque em Minas? Por Bruno Carazza*

Valor Econômico

Disputa presidencial tem outras dinâmicas com emendas parlamentares e polarização

Na edição de 19 de junho, a revista The Economist trouxe uma matéria chamando Minas Gerais de espelho do Brasil e termômetro das eleições presidenciais deste ano.

As comparações se prestam a esclarecer ao público estrangeiro dois fatos repetidos na imprensa brasileira a cada quatro anos: a diversidade da composição populacional no segundo colégio eleitoral do país (que possui regiões conectadas com o Nordeste, o Centro-Oeste, Rio de Janeiro e São Paulo) e a coincidência estatística de que até hoje nenhum candidato foi eleito para o Palácio do Planalto sem também se sagrar vencedor em Minas Gerais.

BC tenta calibrar como fala ao mercado, por Alex Ribeiro

Valor Econômico

Banco Central abriu tantas informações que, hoje, é um pouco refém dessa transparência

O problema pode ser que os bancos centrais estão falando demais. Durante as últimas décadas, toda a discussão foi sobre como aumentar a transparência de suas decisões e de suas intenções futuras. Agora, há uma corrente contrária que acha que estão pecando pelo excesso.

A questão central, na verdade, não é se os bancos centrais devem ser mais transparentes ou não - no fundo, é sobre fazer uma boa comunicação e evitar que ela vire uma camisa de força.

O proponente mais radical da tese de que os BCs devem falar menos é o novo chefe do Federal Reserve (Fed), Kevin Warsh, que, na sua primeira entrevista coletiva, disse que, quando os banqueiros centrais falam muito sobre o futuro, os mercados entendem como uma promessa e deixam de fazer o dever de casa de acompanhar a evolução dos dados econômicos.

Feliz aniversário, Fernando Henrique, por Miguel de Almeida

O Globo

O tempo obrigou os brasileiros atentos e honestos a reconhecer a importância de seu governo

Fernando Henrique Cardoso completou 95 anos no último dia 18. Ele vive em seu apartamento, em Higienópolis, acometido por Alzheimer. A doença tornou-o recluso — anteriormente, era visto com frequência nas ruas do bairro e nos seus restaurantes. Personagem da cidade, às vezes caminhava sem qualquer companhia ou segurança. Até há algum tempo, eu o encontrava às quintas na Sala São Paulo, de cujo conselho foi presidente. Era aplaudido em pé pela plateia quando avistado no camarote.

O tempo obrigou os brasileiros atentos e honestos a reconhecer a importância de seu governo. Mais sua elegância e bom humor. Cometeu erros como qualquer governante, porém acertou mais do que a maioria. Com sua autoridade, poderia ter pisado mais fundo. Bem. Seus oito anos de Presidência deixaram duas heranças fundamentais: primeira, a estabilidade econômica; segunda, a desgraça da reeleição. Não esqueço sua indicação de Gilmar Mendes para o Supremo — aquele que matou a Operação Lava-Jato e agora trabalha para aliviar os Vorcaros.

É necessário haver resistência racial, por Irapuã Santana

O Globo

Relutância que temos em olhar para nossa própria origem e para 56,1% da nossa população gera desumanização

Na semana passada, foram divulgadas imagens da câmera corporal de um policial militar em São Paulo referentes a um fato ocorrido em novembro do ano passado numa escola pública. A escola havia proposto uma atividade educacional sobre a cultura afro-brasileira, implementando a determinação da Lei 10.639/03, e o pai de uma aluna discordou do projeto pedagógico por pensar que havia sido ministrada uma aula de religião. Com isso, foi à escola, coagiu a professora e acionou a polícia, que prontamente o atendeu, enviando policiais armados — portando até metralhadora — para averiguar o ocorrido. Entretanto, o que as imagens captaram foi mais um episódio de violência perpetrada pelo Estado.

Problema? Que problema? Por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

No modo à brasileira, os corruptos escapam, a meta de inflação se ajeita, o buraco nas contas públicas desaparece

Tem cada vez mais gente achando que o caso Vorcaro vai dar em nada. Não porque os envolvidos sejam todos inocentes. É bem o contrário: há muitos suspeitos em todo o espectro político e nas mais altas esferas do poder. Assim, tal é a conversa em Brasília, melhor abafar o caso para não criar uma crise institucional em pleno ano eleitoral.

Dirá o leitor: mas não deveria ser o contrário? Se há tantos envolvidos, gente graúda, a crise já está instalada e precisa ser resolvida, com ampla apuração e punição dos culpados, tudo dentro da lei. Faz sentido, mas não pela lógica praticada nos Poderes de Brasília. Lá, funciona mais ou menos assim: um corrupto de esquerda anula um corrupto de direita, de modo que o resultado é zero. Problema resolvido.

Flávio Bolsonaro e o efeito Teflon, por Diogo Schelp

O Estado de S. Paulo

O senador não tem a capacidade do pai de manter o apoio popular apesar de suas falas e dos fatos

O senador e pré-candidato presidencial Flávio Bolsonaro precisa mudar de assunto – de muitos assuntos. O mais recente foi a lavagem de roupa suja em público com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. Flávio, nesse fim de semana, garantiu que o episódio era “página virada”. Conhecendo o histórico de brigas na família, a trégua tende a durar apenas até a próxima desavença.

Mas o problema de Flávio vai além das ambições que Michelle alimenta e do desafio de unir a família em torno do seu projeto presidencial. A verdadeira encrenca é que a dificuldade do senador em “virar a página” de situações desabonadoras se tornou generalizada.

Moralidade pública, por Denis Lerrer Rosenfield*

O Estado de S. Paulo

O bem comum esvai-se na ausência de moralidade pública, nas ‘interpretações legais’ e na irresponsabilidade institucional e governamental

Escrever sobre a moralidade pública no Brasil significa falar de algo inexistente. Pode-se discorrer sobre duendes, contar suas estórias, sem que daí se siga que sejam reais. Por mais que se procure, torna-se cada vez mais difícil encontrar algo que, no passado, foi considerado um fator essencial da vida política, um eixo a guiar a conduta da sociedade e de seus representantes institucionais e políticos. Na vida social, porém, observa-se que os brasileiros prezam os valores morais e familiares, sendo muito frequentemente conservadores e respeitosos no que diz respeito à honestidade e a comportamentos retos.

Puxando a capivara, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Como raramente puxo capivaras para a margem, eu não sabia o significado da expressão

Em breve ela se juntará a subir o sarrafo, virar o fio, ligar o sinal de alerta e outros clichês

Outro dia, num programa de TV sobre futebol, alguém disse várias vezes que era preciso "puxar a capivara". A insistência com que repetia a expressão me fez pensar que estava havendo uma infestação de capivaras nos gramados. Pelo insólito da coisa, resolvi ir aos entendidos. Aprendi que "puxar a capivara" significa "puxar a ficha", "levantar o histórico", "analisar direito". Tem a ver com a capivara que, quando surge à beira d’água e você decide puxá-la para a margem, não imagina como é pesada. Tem que puxá-la inteira para saber. Como raramente puxo capivaras para a margem, como eu podia adivinhar?

Parece incrível, mas é pura verdade, por Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

Racismo só se tornou crime inafiançável e imprescritível com a Constituição de 1988

Injúria racial foi equiparada ao crime de racismo apenas em 2023

Por incrível que pareça, até meados do século 20 qualquer um podia recusar atendimento, serviço, hospedagem, ingresso em estabelecimento comercial a uma pessoa negra pelo mero fato de ela ser negra e não dava nada no Brasil.

É isso mesmo. A primeira legislação brasileira que enfrentou atos excludentes e corriqueiros motivados por puro preconceito de raça ou de cor na nossa fajuta "democracia racial" está completando 75 anos nos próximos dias.

Trata-se da Lei Afonso Arinos (Lei 1.390/1951), promulgada em 3 de julho —data em que atualmente é celebrado o Dia Nacional de Combate à Discriminação Racial.

As lições da crise britânica e os limites da engenharia política, por Lara Mesquita*

Folha de S. Paulo

Primeiro-ministro britânico deixa o cargo menos de dois anos após vitória trabalhista de 2024

Experiência recente mostra que reformas institucionais não blindam governos contra crises

Na última segunda-feira (22), o primeiro-ministro britânico Keir Starmer anunciou que deixará o cargo e a liderança do Partido Trabalhista. Sua saída, menos de dois anos depois da vitória trabalhista de 2024, prolonga a instabilidade política aberta pelo plebiscito do brexit.

Starmer não caiu por falta de maioria parlamentar. O Partido Trabalhista controla ampla maioria na Câmara dos Comuns. A crise veio da perda de autoridade política, da derrota nas eleições locais de maio, da pressão interna evidenciada na renúncia de ministros e da entrada de Andy Burnham na Câmara, após vencer a eleição suplementar de Makerfield. A disputa foi realizada com o objetivo de habilitá-lo para a liderança do partido, uma vez que, segundo a tradição, o primeiro-ministro deve ser membro eleito da Câmara dos Comuns.

O STF em modo sobrevivência, por Marcus André Melo*

Folha de S. Paulo

O escândalo do Master mostrou que o rei está nu

O objetivo dominante para muitos dos membros do Supremo passou a ser proteger a si próprio

STF existe para proteger a Constituição. Mas o que se vê é uma suprema inversão funcional: o objetivo dominante para muitos de seus membros passou a ser proteger a si próprio. Garantir a própria sobrevivência. Este modo sobrevivência é particularmente marcante no caso do Supremo, mas converteu-se em padrão que atravessa instituições brasileiras: Executivo, Congresso, Judiciário, partidos e até órgãos de controle. O affair Master mostrou que o rei está nu. A percepção pública de conflitos internos, de decisões voltadas à autopreservação e de respostas corporativas torna-se suficientemente difundida para que deixe de ser possível sustentar a mesma narrativa institucional usada desde a Lava Jato.

O cerne do lulismo e o realinhamento eleitoral, por Altamir Peterson*

A esquerda contemporânea na América Latina enfrenta a urgência de compreender o "lulismo" em toda a sua complexidade analítica para superar as leituras dicotômicas e reducionistas que dividem e polarizam o debate político. De um lado, deve-se rejeitar a idealização apologética que enxerga o modelo apenas como um projeto redistributivo perfeito; de outro, deve-se descartar a condenação mecânica que o simplifica como mera extensão do neoliberalismo estrito.

O caminho para essa apreensão profunda reside em reconhecer que o modelo de reforma gradual implementado ao longo de cinco governos petistas caminhou essencialmente sob o signo da contradição. O lulismo estruturou-se por meio de uma combinação inédita de opostos: articulou conservação e mudança, promoveu a reprodução sistêmica ao mesmo tempo em que realizava superações parciais, e transitou permanentemente entre a decepção da ortodoxia política e a manutenção da esperança popular. Dominar essa dimensão contraditória é o passo indispensável para que a esquerda latino-americana possa extrair lições reais e avançar programaticamente.

O lulismo é definido como um modelo de reformismo gradual e conciliação de classes. Sua engrenagem principal consiste em reduzir a miséria extrema da população historicamente excluída sem enfrentar diretamente os privilégios econômicos das elites financeiras e da burguesia.

O marco dessa dinâmica foi a eleição de 2006, que operou um grande realinhamento político no Brasil ao desconectar o "subproletariado" (a massa de trabalhadores informais e precarizados) da influência das classes dominantes e da classe média tradicional, transformando essa massa na base fiel do projeto lulista.

Poesia | Futebol, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Nelson Gonçalves - Que bonito é (Luiz Bandeira)

 

domingo, 28 de junho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Rever isenções tributárias é imperioso

Por O Globo

É preciso extinguir o que não funciona para destinar benefícios a atividades com retorno comprovado

Faltando pouco mais de três meses para as eleições, governo e oposição fazem de tudo para fugir de temas fundamentais, mas impopulares. Nenhum candidato quer nem ouvir falar de reduzir isenções tributárias. Ninguém quer ser acusado de “prejudicar” algum setor ou “ameaçar” empregos em alguma região. Nem mesmo instaurar alguma política para avaliar a eficácia dos programas. Uma vez concedidos, isenções e benefícios têm permanecido doravante inalterados para sempre, e o país tem pagado custo cada vez mais alto.

Pelas contas do próprio governo, a renúncia fiscal da União equivale a 4,4% do PIB, embora a legislação tenha estabelecido um limite de 2%, há muitos anos desrespeitado. Graças à sanha inesgotável de grupos de interesse por toda sorte de isenção, essa proporção tem aumentado consistentemente desde 2011, quando estava ao redor de 3,5%. Considerando o desequilíbrio crônico das contas públicas brasileiras, abdicar de tanta receita — R$ 613 bilhões neste ano, ou 20% da arrecadação administrada pelo Fisco — não faz o menor sentido. A situação é ainda mais dramática por não haver avaliação sistemática dos benefícios, apesar dos movimentos nessa direção.

Usos e abusos do trumpismo, por Luiz Sérgio Henriques*

O Estado de S. Paulo

A face política do trumpismo se delineia numa reatualização da Doutrina Monroe mediante um ‘corolário’ intervencionista

Quem lê o excelente Leonardo Padura frequentemente encontra o elogio de uma vida menos assombrada pelos grandes dramas da História, reais ou supostos. O escritor cubano refere-se, acima de tudo, à situação intensamente sofrida pelos seus conterrâneos desde a criação do moderno mito revolucionário latino-americano, formado em torno da guerrilha dos idos dos anos 60. Para eles, tudo teve, ou ainda tem, imediata dimensão histórico-universal, quer congressos partidários ritualizados, quer eventos muito graves, como invasões frustradas e até uma catástrofe nuclear abortada no último momento.

Padura deseja a todos, não só aos que lhe são próximos, uma existência mais equilibrada entre o privado e o público, o cotidiano e a História. Não sabe o que acontecerá com seu país, constrangido como está entre a necessidade de amplas reformas internas e a agressiva pressão do grupo dirigente trumpista. Para este último, como se sabe, mudanças radicais são necessárias na ilha e, de resto, em toda a América Latina. O que Padura sabe com certeza é que entre tais mudanças não se conta a defesa ou a reconstrução da democracia, mas, antes, a disseminação de governos e coalizões de extrema direita promotores de um mercado sem regras. E pelo visto, respeitadas as devidas particularidades, daqui por diante todos compartilharemos sobressaltos comuns.

A ‘generosa oferta’ de Flávio a Trump, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Senador do PL vai aos EUA para discutir ‘business’ com Donald Trump

A mensagem de Marco Rubio para Flávio Bolsonaro foi cheia de recados subliminares, mais grave do que parecia à primeira vista e pode transformar a ida de Flávio ao país para uma audiência pública com o Escritório de Comércio, no dia 6, em mais um tiro no pé. Ou em mais uma peça de marketing, não para a campanha dele, mas para a de Lula.

O que importa é que Rubio agradeceu “a generosa oferta” de Flávio de, se eleito, montar uma equipe de transição exclusiva entre Brasil e EUA. Soa como uma hipoteca. Trump interfere a seu favor nas eleições e ele “paga”, depois, entregando os interesses e a independência do Brasil às conveniências dele.

Inflação desafia trunfo do emprego, por Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

Governo entra na campanha com emprego alto, mas inflação elevada

O governo fechou o primeiro semestre com uma notícia animadora – desemprego menor do que o de um ano antes – e uma preocupante, embora positiva – prévia da inflação mensal em queda, mas com taxa anual, 4,8%, ainda acima do teto da meta. Se a produção continuar em alta, mesmo com a expansão econômica perto de 2%, uma taxa medíocre para um país emergente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva poderá lucrar na busca pela reeleição. Falta saber como o governo reagirá se a alta de preços continuar superando com folga a meta oficial, 3% em 12 meses com tolerância de até 4,5%.

De Lacerda a Flávio, Washington ronda a política brasileira, Por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O mundo já não vive a Guerra Fria, o Brasil é uma democracia consolidada e as relações entre Brasília e Washington são marcadas por intensa interdependência econômica

Desde a crise que culminou no golpe militar de 1964, dificilmente um político brasileiro expôs de forma tão explícita sua interlocução com autoridades dos Estados Unidos durante uma disputa política interna quanto o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL). Entretanto, o circunstâncias históricas são distintas. O mundo já não vive a Guerra Fria, o Brasil é uma democracia consolidada e as relações entre Brasília e Washington são marcadas por intensa interdependência econômica. Ainda assim, os acontecimentos recentes recolocaram em debate a influência externa sobre os rumos da política brasileira.

O episódio ganhou dimensão eleitoral após a visita de Flávio a Washington. Ali, reuniu-se com integrantes do governo Donald Trump, incluindo o secretário de Estado Marco Rubio, o vice-presidente J.D. Vance e o próprio presidente norte-americano. O encontro antecedeu duas decisões relevantes: a classificação do Comando Vermelho (CV) e do Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas pelo governo dos EUA e a manutenção do processo que poderá resultar na imposição de tarifas de 25% sobre produtos brasileiros.

A fala de Michelle e seus reflexos, por Míriam Leitão

O Globo

Ela deixa claro que veio para ficar na política e pode se tornar plano B para o PL ou apoio para Flávio. Seja o que for, sai mais forte

A mensagem de Michelle Bolsonaro foi um ato de campanha, bem pensado e bem realizado. É um plano de contingência da extrema direita e de Jair Bolsonaro. O que falou, os símbolos da linguagem corporal, a caneta na mão, a edição de imagens de suporte, a leitura em tom de conversa revelam a minuciosa arquitetura de marketing político. Michelle é a melhor comunicadora da família e tem pontos reais de conexão com os evangélicos. Atrai também a atenção das mulheres, o eleitorado mais arredio ao bolsonarismo. A primeira reação de Flávio Bolsonaro foi a pior possível, a de menosprezo. Mulheres de qualquer lado político já sofreram atos semelhantes.

Farras, caronas e patacoadas, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Políticos seguem mesma cartilha: normalizar o anormal e atacar a investigação

O senador Jaques Wagner se diz indignado com a operação da Polícia Federal que expôs sua proximidade com Augusto Lima, sócio de Daniel Vorcaro. Em entrevista, o ex-governador da Bahia acusou os investigadores de armarem uma “patacoada” para prejudicá-lo. “Fica-se criminalizando qualquer tipo de relacionamento. Óbvio que de vez em quando eu pego carona. O que a polícia tem que comprovar, e não vai, é a relação de troca”, disse à Folha de S.Paulo.

O dito pelo não dito, por Merval Pereira

O Globo

A estratégia de trabalhar com um mundo falsamente compartilhado está na base das fake News.

Outro dia, em palestra da Academia Brasileira de Letras (ABL), o filólogo acadêmico Ricardo Cavaliere dissertou sobre a filosofia da linguagem que, no final do século XIX, na chamada “virada linguística”, definiu que nosso saber não está restrito aos domínios da mente, “pois o conteúdo cognitivo que acumulamos no decorrer da vida é moldado pela linguagem”. Os estudos da filosofia da linguagem destacam dois tipos de linguagem, baseados na “pressuposição” e na “implicatura”.

Sinal de alerta na Americanas, por Elio Gaspari

O Globo

Movimento da Polícia Federal indicam que pode estar sendo reaberto o caso da fraude praticada na empresa

A ida da Polícia Federal aos marqueses da rede varejista Americanas, bem como o bloqueio de até R$ 54 bilhões de seus bens, indicam que pode estar sendo reaberto o caso da fraude praticada na empresa.

Quando os holofotes estavam voltados para a rede e a empresa era vista como “terra arrasada”, um banqueiro chamado Daniel Vorcaro armava sua rede de notáveis para salvar seu banco. Organizava farofas com hierarcas e festas com jovens eslavas.

A sabedoria convencional ensina que o escândalo seguinte abafa a roubalheira anterior. Nesse caso, o banco Master abafaria o caso da Americanas. A ação da PF desmentiu essa urucubaca.

Surfando na Copa, por Dorrit Harazim

O Globo

Enquanto não entrega as mercadorias que o elegeram, o prefeito de Nova York vai surfando nas ondas da sorte no esporte

Para o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, a semana passada foi uma goleada de sabor duplo. Pegou todo mundo de surpresa, a começar pelo próprio alcaide. Começou na terça-feira, com eleições primárias de seu Partido Democrata para saber quem disputará as legislativas de novembro próximo. E terminou com a vitória do Equador sobre a Alemanha, que ele teve o faro político de saudar muito antes de o jogo começar.

Michelle contra Flávio, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Ex-primeira-dama diz que senador a humilhou com rispidez e fez alianças com quem chamou a família de ladrões

Ao dizer que só age com concordância do marido, Michelle sugere que Flávio também desautoriza Jair

Depois do irmão Vorcaro, agora é a vez da madrasta Michelle atrapalhar a vida de Flávio Bolsonaro.

Michelle Bolsonaro gravou um vídeo dizendo que Flávio Bolsonaro a apunhalou pelas costas, a humilhou com sua rispidez e faz alianças com que já chamou ele e seu pai de ladrão e de nazista. Também protestou contra a exclusão de mulheres das chapas bolsonaristas para o Senado esse ano: Priscila Costa, preterida no Ceará depois da aliança com Ciro Gomes, e Carol de Toni, que perdeu a vaga de candidata ao Senado pelo PL em Santa Catarina para Carlos Bolsonaro. Ao dizer, repetidas vezes, que só agia em concordância com o marido, Michelle sugeriu fortemente que, quando Flávio a desautorizava, desautorizava Jair. Afinal, se ela só repete o que Jair diz, o vídeo de quarta-feira também deve ter sido feito com a bênção de Bolsonaro.

O barraco de Michelle e o rolo Master de Wagner contam como o país funciona, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

No meio do sururu dos Bolsonaro pode se ver um plano novo para a direita extrema no Brasil

Caso Vorcaro explicita podres do STF, da finança, da política e da operação real do poder

Um assunto político da semana foi o vídeo de Michelle Bolsonaro, que armou salseiro novo na extrema direita. Pode ter relevância nesta eleição apertada, pois ameaça tirar votos de Flávio Bolsonaro. Além do mais, Michelle pode vir a ter posição política maior do que já tem por causa de seu status na família irreal dos Bolsonaro e de seu apelo de palco gospel. Tem presença virtual eficaz e militância real.

Que figura nacional viaja pelo país a organizar células de base, de resto com mulheres, com um comitê político de comando majoritariamente feminino? Que lideranças nacionais de esquerda, que quase inexistem, têm tamanha organização digital e agregam militantes no chão de fábrica político? Mesmo quem não gosta do que diz Michelle deveria prestar atenção ao que ela faz, um plano de entrincheirar a direita. A querela de Michelle com os Bolsonaro é "pop", porém, por misturar fofoca, novela, barraco familiar, BBB e pinimba de influenciadores, paixões nacionais.

Um destino tão funesto, por Muniz Sodré*

Folha de S. Paulo

Episódio chocante na ponte do Esqueleto, em Limeira (SP), provoca reflexão

Detrás de uma aberração individual pode haver uma microestrutura, que funciona pela obliteração despercebida da razão e da atenção, normalizando o anormal

Há algo de funesto, isto é, de mau augúrio e desastroso, no incidente da ponte do Esqueleto em Limeira (SP), quando três homens assistidos por um técnico levantaram nos braços uma jovem para lançá-la "em aviãozinho" do alto de 40 metros. Seria uma experiência de rope jump, em que grossas cordas sustentam a pessoa no ar. Só que, contra toda a razão, esqueceram de amarrar as cordas. "Horribile visu", medonho de contemplar, o chocante episódio provoca uma reflexão.

Fugindo para a fronteira, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Antigamente, os bandidos americanos vinham se refugiar na South America, leia-se o Rio

Hoje é o contrário; nossos bandidos escapam da lei brasileira e se refugiam nos EUA

cinema americano clássico tinha uma fórmula infalível para evitar que seus vilões mais simpáticos fossem presos no fim do filme e pagassem por seus crimes. Era só filmá-los atravessando um marco —a fronteira— onde se via, ao lado de um pujante cacto e de um sujeito roncando sob um sombrero, uma placa dizendo "México". Ou seja, passando para o lado de lá, não apenas os bandidos americanos se viam livres da Justiça como se refugiavam num país habituado a abrigar bandoleiros e que os tratava muito bem. Os mexicanos, como é natural, se magoavam com aquilo.

A Etimologia ensina, por Ivan Alves Filho*

Tenho vivido momentos de muita alegria com o convite feito pelo ator e dramaturgo Deo Garcez de adaptar para os palcos o meu livro Memorial dos Palmares, hoje em sua quarta edição. E como se isso não bastasse, o documentarista José Carlos Asbeg vai registrar, em filme, todo esse processo de montagem da peça. Só posso me sentir honrado com isso. Para quem começou a estudar Palmares no ano de 1975, nada poderia ser mais gratificante. Nunca é demais lembrar que o Quilombo alagoano materializa a maior revolta contra a escravidão na América Latina, e talvez em todo o mundo. Recordar a epopeia palmarina é reconhecer o apelo da dignidade e da liberdade na formação do Brasil e, também, em nossas vidas cotidianas. 

Poesia | Pedro Ivo, de Castro Alves

 

Música | Lamento sertanejo - Gilberto Gil e Dominguinhos

 

sábado, 27 de junho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Tragédia na Venezuela impõe solidariedade

Por O Globo

Brasil e comunidade internacional devem prestar todo tipo de ajuda neste momento de apreensão e dor

Um Embraer KC-390 Millennium da Força Aérea Brasileira decolou nesta sexta-feira de Guarulhos (SP) com destino à Venezuela, transportando equipes especializadas e 9 toneladas de equipamentos para auxiliar em buscas e em cuidados com as vítimas dos dois terremotos que transformaram o norte do país num cenário de devastação e morte. Outro voo, previsto para hoje, transportará um hospital de campanha e medicamentos. O governo brasileiro e a comunidade internacional devem prestar todo tipo de ajuda para socorrer os venezuelanos neste momento de apreensão e dor. É hora de apoio e solidariedade não apenas de governos, mas também da população.

As vítimas fatais têm sido contadas às centenas (incluindo brasileiros), mas parece evidente que há muito mais gente sob os escombros. São mais de 50 mil os desaparecidos. O Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) estima haver 27% de chance de o total de mortos ficar entre mil e 10 mil, e 44% entre mais de 10 mil e 100 mil. As próximas horas e dias serão uma corrida contra o tempo para identificar quem precisa ser resgatado e tentar salvar o maior número de vidas possível. Há feridos à espera de ajuda e um longo trabalho de reconstrução. Após o resgate, será hora de tentar reparar prejuízos estimados entre 2% e 10% do PIB venezuelano, cerca de US$ 111 bilhões.

O centro progressista precisa se radicalizar, por Fareed Zakaria

O Estado de S. Paulo

Centro não pode ser só o ponto médio entre direita e esquerda, mas deve ser revolucionário à sua maneira

Dois eventos recentes, em lados opostos do Atlântico, apontam para o mesmo problema. No Reino Unido, o homem que, segundo as expectativas gerais, deve substituir o imponente Keir Starmer como primeiro-ministro é Andy Burnham, que defende o “socialismo favorável aos negócios” como seu credo. Em Nova York, as eleições primárias democratas resultaram em vitórias impressionantes para os socialistas, sugerindo que a esquerda insurgente encontrou uma maneira de transformar o protesto em poder.

Primeiro, uma ressalva: a esquerda não está caminhando de maneira uniforme em direção ao socialismo. Muitas primárias fora da cidade de Nova York foram vencidas por democratas moderados. Em um distrito nos arredores da cidade, a veterana de guerra Cait Conley venceu com facilidade. Mas um certo tipo de progressismo está perdendo força, confiança e conexão com as pessoas que afirma representar.

A Copa superlativa, por Marco Aurélio Nogueira*

O Estado de S. Paulo

A Copa expressa bem a mundialização do esporte mais popular do planeta. Está radicalmente mercantilizada. É uma máquina de fazer dinheiro

A Fifa conseguiu organizar uma Copa do Mundo com números extravagantes: 48 seleções, 1.248 atletas de diferentes credos, etnias e culturas, estádios gigantescos espalhados pelos Estados Unidos, México e Canadá. Consta que a Fifa projeta faturar US$ 8,9 bilhões, tornando a Copa de 2026 a mais lucrativa da história do torneio. Em direitos de transmissão serão US$ 3,9 bilhões. Com ingressos e hospitalidade, outros US$ 3,12 bilhões. Patrocínios e marketing, mais US$ 1,8 bilhão. Com as pausas para hidratação virão US$ 500 milhões em receitas de publicidade.

A guerra e o Direito, por Celso Lafer*

O Estado de S. Paulo

Tréguas são o primeiro passo para a cessação das hostilidades. Elas suspendem as calamidades, mas não trazem o fim do estado de guerra

Apalavra guerra provém do germânico werra. Tem a acepção de discórdia, combate. A palavra paz origina-se do latim pax, substantivo cuja desinência é pactus donde os pactos celebrados entre os beligerantes para fazer cessar o estado de guerra.

A etimologia explica e explicita a dialética de complementariedade do entrelaçamento da dicotomia paz/guerra. Neste inter-relacionamento, como destaca Bobbio, a guerra é termo forte, pois a paz é usualmente definida como ausência de guerra. A persistência da alternância paz/guerra faz da guerra, como aponta Aron, a situação-limite das relações internacionais. As guerras atuais na Ucrânia e no Oriente Médio patenteiam esta avaliação.

Bolsonaros se superam na autossabotagem, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Membros do clã fazem ações que com frequência vão contra seus próprios interesses

Vídeo de Michelle, ainda que possa beneficiá-la, prejudica candidatura da família à Presidência

Já é proverbial a capacidade dos Bolsonaros de sabotar a si mesmos.

Jair, o "pater familias", antecipou a própria prisão ao, por alegada curiosidade, pocar a tornozeleira eletrônica que usava como alternativa menos gravosa ao encarceramento. Poderá agora perder o benefício da domiciliar humanitária porque resolveu mandar consertar uma arma da qual, na condição de presidiário, nem deveria ter posse. Recuando um pouco mais no tempo, vale lembrar que foi o próprio Planalto que providenciou a filmagem da reunião ministerial de 22 de abril de 2020, a qual, ao escancarar a verdadeira natureza do governo Bolsonaro, marcou o início do ocaso da administração.

Lula confia na vitória de Paes e dá presente ao Rio, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Com a adesão ao Propag, estado afasta o risco de um colapso fiscal

Redução da parcela mensal da dívida vai de R$ 436 milhões para R$ 119 milhões

Com a adesão ao Propag, o Rio de Janeiro afasta o risco de um colapso fiscal. A redução no valor da prestação da dívida com a União é um presente para o estado que nos últimos anos gastou sem limite. O pacto com o governo Lula determina a queda imediata da parcela mensal de R$ 436 milhões para R$ 119 milhões. A ver se o futuro governador —o favorito nas pesquisas é Eduardo Paes— conseguirá reduzir as despesas. E não se endividar, à espera de novo alívio.

Com que dinheiro a promessa será cumprida? Por Bruno Dantas*

O Globo

Toda lei que cria ou amplia uma despesa obrigatória deve dizer de onde sairá o dinheiro

O Supremo Tribunal Federal estuda uma súmula vinculante para exigir que toda lei de aumento de despesa indique sua fonte de custeio. Portanto, uma pergunta se tornaria obrigatória a partir de então: com que dinheiro a promessa será cumprida?

Enquanto essa fica sem resposta, a promessa tem o brilho da generosidade. Respondida com franqueza, revela seu preço e, por vezes, uma conta que se transfere em silêncio aos brasileiros de amanhã. O impulso é universal. James M. Buchanan Jr., prêmio nobel de Economia de 1986, mostrou que a democracia, sem amarras, tende a gastar mais do que arrecada, porque o gasto rende votos, e somente regras duradouras corrigem esse viés.

O choque Ricardo Couto no Rio, por Marlon Cecilio de Souza*

O Globo

Se a agenda de reorganização for mantida, estado poderá iniciar um novo ciclo administrativo sem parte das pesadas heranças

Há momentos em que um governo parece condenado a apenas administrar a decadência. O Rio de Janeiro viveu boa parte das últimas décadas sob essa sensação. Crises fiscais, sucessivos escândalos políticos, estruturas administrativas inchadas, disputas de poder e uma população cada vez mais descrente na capacidade do Estado de entregar resultados. Por isso, a passagem de Ricardo Couto pelo Palácio Guanabara tem provocado algo raro: um choque de gestão que muitos classificam como surpreendentemente “apolítico”.