terça-feira, 11 de agosto de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Não pode haver retrocesso na reforma tributária

Por O Globo

Flávio e Caiado cometem erro grave ao sugerir revisão do modelo de impostos aprovado em 2023

São irresponsáveis as promessas de campanha dos candidatos à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) e Ronaldo Caiado (PSD) de revisar a reforma tributária. Aprovada em 2023, a unificação dos impostos sobre o consumo deu um primeiro passo para acabar com o pandemônio tributário que sempre caracterizou o Brasil, complicando a vida das empresas e afugentando investidores. Foi resultado de amplo consenso no Congresso, depois de décadas de debates e embates. E previu um período de transição de dez anos, para que todos consigam se adaptar à nova estrutura de impostos. Obviamente, deixou muitos insatisfeitos que, em ano eleitoral, fazem pressão sobre os candidatos para tentar deter os avanços.

A legitimidade democrática desafiada, por Ricardo Marinho*

Que estamos vivendo tempos difíceis para a democracia é algo que percebemos há muito tempo.

Está sob diversos tipos de desafios. Um, por exemplo, advinda da revolução tecnológica que afeta vertiginosa a vida de nossas sociedades, outra diretamente por causa da percepção política dos cidadãos e seus níveis de aprovação e/ou desilusão com o sistema democrático, suas regras e seus valores.

Embora entre aqueles que vivem nesse sistema haja uma maioria que o prefira e o considere o melhor sistema de governo e convivência social que a sociedade criou, essa maioria tem diminuído.

Essa tendência descendente quase sempre não resulta de um exercício de reflexão profunda, as respostas nem sempre têm uma relação próxima com a questão; muitas vezes reflete a percepção das pessoas sobre a capacidade do sistema de resolver seus problemas, satisfação e/ou frustração com o cumprimento da promessa de liberdade. igualdade e bem-estar que esperam dela (e nada com cada qual), quando as coisas não vão bem, consideram isso não cumprido e o apego aos seus princípios e valores diminui.

Apoio de Motta a Lula mostra política de conveniência do Republicanos, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

A escolha obedece à realidade eleitoral da Paraíba. O presidente da Câmara precisa preservar influência, renovar seu mandato e eleger o pai, Nabor Wanderley, para o Senado

O apoio do presidente da Câmara, Hugo Motta, à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva expõe a ambiguidade eleitoral do Republicanos. Formalmente, o partido decidiu permanecer neutro na disputa pelo Palácio do Planalto, não indicar o candidato a vice de Flávio Bolsonaro nem integrar nenhuma coligação presidencial. Na prática, liberou seus dirigentes e diretórios estaduais para escolherem publicamente o lado mais conveniente às respectivas circunstâncias locais. É uma salvo-conduto para múltiplas alianças regionais, inclusive com forças antagônicas.

Foi o que permitiu a Hugo Motta anunciar o apoio a Lula sem romper com a direção partidária. “A tendência nossa aqui na Paraíba é que caminhemos com o presidente Lula”, declarou, acrescentando que o petista representa aquilo que seu grupo considera “o melhor para o país”. O presidente da Câmara aguardou deliberadamente a decisão nacional do Republicanos para somente então revelar sua posição. O Republicanos da Paraíba apoiará a reeleição de Lula, segundo Motta.

Mitos e verdades da diplomacia na era da desinformação, por Mauro Vieira*

Correio Braziliense

A chamada era da pós-verdade não é uma página virada na história, lamentavelmente. Os ataques recentes de governantes de turno de países amigos a instituições democráticas brasileiras ilustram a dimensão desse desafio

O recurso à desinformação em massa e ao uso dos algoritmos e das redes sociais como armas a serviço do extremismo político é um desafio persistente para os regimes democráticos e para o exercício da política, tanto no plano interno quanto externo. Esse fenômeno tem em Giuliano da Empoli um dos mais atentos observadores, primeiramente na obra Os engenheiros do caos e, mais recentemente, em A hora dos predadores. A chamada era da pós-verdade não é uma página virada na história, lamentavelmente. 

O Brasil não está sozinho na tensão com os Estados Unidos, por Fernando Gabeira

O Globo

A revogação do visto da embaixadora em Washington é apenas uma decisão arbitrária entre muitas que os EUA vêm tomando

Um autor argentino que nos visitou recentemente mandou mensagens para os amigos, lamentando os ataques de Milei a autoridades brasileiras. Segundo ele, essas patacoadas não representam grande parte do país.

Não há dúvida de que nem todos na Argentina aprovam a forma como Milei expressa suas posições. Assim como não deve haver dúvida de que os Estados Unidos não apoiam, em sua maioria, as escaramuças diplomáticas que o governo Trump usa contra o Brasil.

Para começar, as próprias tarifas aplicadas ao Brasil e a outros países sofrem grande resistência interna. Vinte e cinco estados americanos entraram na Justiça condenando a decisão de Trump de taxar sob o argumento de que os países não combateram adequadamente o trabalho forçado. Os estados governados por democratas consideram a taxação contrária à lei.

Reação à altura, por Merval Pereira

O Globo

Concurso para professor da USP é exemplar de como as oligarquias dos três Poderes se ajudam mutuamente para manter o statu quo

Diz-se que a vida imita a arte, mas não é preciso ser artista, apenas um sensível observador, para fazer da arte um reflexo da realidade da vida. O jurista Joaquim Falcão foi premonitório em seu livro recém-lançado “A oligarquia dos poderes”, ao constatar que os interesses particulares dos integrantes dos três Poderes se sobrepõem aos públicos, provocando o que chama de “mal-estar social”. O cidadão comum não tem certeza sobre como as autoridades estatais se relacionam e negociam entre si.

Foi esse mal-estar que produziu uma reação cívica à tentativa de oligarcas do Judiciário de interferir no concurso para professor doutor na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), a maior e mais importante universidade pública do Brasil. Criada em 1934, a USP é líder em produção científica na América Latina e destaque em rankings mundiais. O concurso foi anulado porque o candidato vitorioso, Rafael Campos Soares da Fonseca, filho do ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Reynaldo Soares da Fonseca, anexou a seu memorial acadêmico cartas de recomendação assinadas por autoridades do Judiciário, incluindo ministros do STF como Gilmar Mendes, Dias Toffoli, Edson Fachin e André Mendonça. Havia também cartas dos ministros do STJ, colegas de seu pai, Ribeiro Dantas e Gurgel de Faria, e outra do procurador-geral da República, Paulo Gonet.

Brasil visto de São Paulo, por Míriam Leitão

O Globo

Os candidatos Tarcísio e Haddad fizeram um debate com estocadas, críticas e divergências, mas com respeito democrático

É um alívio de certa forma acompanhar um debate como o do governador Tarcísio de Freitas e do ex-ministro Fernando Haddad. Estão em campos opostos, mas dialogam. Divergem profundamente, se estocam muitas vezes, mas estão presentes na apresentação de suas propostas e na defesa de seus pontos de vista. Tarcísio, apesar de estar na frente nas pesquisas e ser o incumbente, não fugiu do debate da Band. Haddad, com toda a aversão que tem ao bolsonarista, não trata Tarcísio como inimigo. São adversários, estão numa peleja decisiva para o país, mas os eleitores podem respirar sem o temor de que voe alguma cadeira.

Tarcísio não tinha mais a insegurança do debate de 2022, em que ele deu sinais de que não conhecia o estado que ia governar. Não soube dizer onde ficava sua seção de votação. Foi derrotado naquele debate, mas ganhou a eleição. Desta vez, o confronto foi mais equilibrado, com Tarcísio exibindo dados de obras e realizações, ainda que tenha mostrado fraquezas.

Quando se conta com o ovo que a galinha sequer pôs na urna, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Disputa interna no PT e nas corporações sobre um quarto mandato arrisca minar as chances de Lula obtê-lo

A perspectiva de futuro anunciada pela postulação do quarto mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva está mais clara nas disputas internas desencadeadas no governo e no PT do que nas propostas protocoladas no TSE.

Quatro vezes maior que aquele apresentado em 2022, o programa é mais uma prestação de contas do que foi feito neste mandato do que um plano de voo para o seguinte. Nenhum candidato faz programa de governo para anunciar desvinculação de gastos mas a promessa de ampliação no alcance e escopo das políticas públicas não é acompanhada dos meios para viabilizá-las no Orçamento da União.

É possível que se queira fazer parte disso retomando um naco dos R$ 50 bilhões em emendas parlamentares, citadas quatro vezes no programa, mas o insucesso deste intento até aqui recomenda ceticismo. Decantadas reformas, como a administrativa e do Judiciário, não merecem uma única menção. Pela profusão (11 menções) com que a IA é citada, deve haver expectativas, mas sua incorporação à gestão pública produz eficiência, não milagres.

Interpretação alternativa à tradicional visão fiscalista, por Pedro Cafardo

Valor Econômico

Mesmo com esforço fiscal, o elevado custo financeiro continua impulsionando a expansão da dívida

O discurso dominante entre economistas ligados ao mercado diz que os recentes aumentos da dívida pública são consequência direta do excesso de gastos públicos. Há controvérsias. Outros economistas, da área acadêmica, sustentam que essa tendência decorre da elevação exagerada das taxas de juros e da estrutura do sistema financeiro brasileiro.

Um trabalho acadêmico do professor da PUCSP Ernesto A. Moura, mestre em economia política, propõe interpretação alternativa à visão fiscalista tradicional. Ele entende que a dinâmica fiscal brasileira exige analisar conjuntamente política monetária, estrutura bancária, composição da dívida pública e mecanismos de financiamento do desenvolvimento.

Moura observa que a elevação da dívida bruta de 71,7% do PIB em 2022 para 78,7% em 2025 e 81,9% em junho último ocorreu principalmente pelo custo do serviço da dívida, fortemente influenciado pelas altas taxas de juros e pela estrutura do sistema financeiro.

Avanço e estagnação, por Jorge Okubaro

O Estado de S. Paulo

Em média, a despeito da melhora observada nos últimos anos, o ensino no Brasil não tem desempenhado o papel essencial que dele se espera, de oferecer oportunidades de progresso a todos

É auspicioso o avanço do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) anunciado na semana passada pelo Ministério da Educação. Aferido a cada dois anos, o Ideb é o principal indicador da qualidade do ensino brasileiro. Baseia-se nas notas alcançadas pelos estudantes em Português e Matemática e nas informações sobre aprovação e reprovação.

Ainda assim, o Ideb não alcançou metas que deveriam ter sido atingidas em 2021 pelo final do ensino fundamental (do 5.º ao 9.º ano) e pelo ensino médio. A pandemia da covid-19 é apontada como a principal causa do atraso. O ministro da Educação, Leonardo Barchini, diz que o impacto das políticas do governo ainda não foi captado pelo Ideb (relativo a 2025), mas deverá ter reflexo na próxima avaliação. Quanto ao ensino médio, Barchini lembrou que, em 1988, apenas 7% dos matriculados no primeiro ano concluíam o curso; o índice atual é de 80%. “É uma escola tardia no Brasil, a gente está aprendendo a fazer o ensino médio agora.”

Na piscina com o ‘hub’ da corrupção, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Mau exemplo na política é gasolina na fogueira de golpistas e nazistas, numa fusão explosiva

Uma imagem vale mais do que mil palavras? Muitas vezes, sim, como a foto de oito políticos, alegres e sorridentes, alguns de copos nas mãos, refrescando-se na piscina do rancho de um advogado bastante conhecido, e polêmico, que está na mira na Polícia Federal por... lavagem de dinheiro.

Lava-se dinheiro daqui, lambuzam-se biografias dali e la nave va na política, enquanto grupos radicais se multiplicam com rapidez e audácia cada vez maiores, reunindo gente de tendências nazistas, machistas, misóginas e golpistas – e com ânsias de explodir a República.

O retrato da confraria do orçamento secreto, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Na piscina, a confraria dos independentes, proprietários de bilhões de reais em emendas

A turma representativa – a democracia representativa dos oligarcas do Congresso – aboletada na piscina. O retrato da confraria dos independentes, os autossuficientes. Independentes da República, no sentido de que à margem dos rigores para com a coisa pública, deputados e senadores, sovacos ao alto, unidos e festivos pela perversão autoritária – a propriedade sobre dezenas de bilhões de reais do Orçamento da União, um fundo eleitoral paralelo – que os desobrigou de fazer política e que consagrou o mandato parlamentar como um fim em si mesmo.

Aprendendo coisa errada, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Indivíduos definem seus padrões de comportamento olhando para os pares

Sucessão de escândalos na alta política mostra persistência da corrupção

Onde aprendemos o certo e o errado? Há respostas para todos os gostos. Para alguns, tudo o que é preciso saber acerca do bem e do mal está nas Escrituras. Para outros, é questão de berço: são os pais que ensinam aos filhos o que deve ou não ser feito. Há até quem diga que são os livros de filosofia que cumprem essa função.

Não afirmo que essas explicações estão todas erradas, mas elas me parecem subcasos de uma resposta mais geral. Para saber como devemos nos comportar, nós olhamos para o lado e vemos o que as pessoas costumam fazer. Não é uma coincidência que as palavras "ética" e "moral" derivem respectivamente dos termos grego ("éthe") e latino ("mores") para "costumes". Assim, se você vive numa comunidade religiosa, se comportará como os religiosos a seu lado, que se inspiram numa determinada escola de interpretação da Bíblia. Se vive num bairro afluente de cidade grande, se comportará como seus vizinhos e todos dirão que o padrão foi fixado pela educação recebida no lar.

Autonomia financeira dá lugar às alianças partidárias, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Novas regras eleitorais e financiamento público desestimulam coligações na disputa à Presidência

Na base do cada um por si no plano nacional, partidos investem nos estados para crescer no Congresso

Nesta eleição, está combinado, a maioria dos partidos vai jogar separado. Só o PT entra na disputa presidencial do jeito tradicional, coligado a seis legendas: PSB, PSOL-Rede, PDT, PV e PC do B.

Não deixa de ser uma ironia o partido com vocação a protagonista, cuja política de alianças só foi aceita por imposição da realidade, ser o único que concorre acompanhado. No campo limitado à esquerda, é verdade, mas ali com um Geraldo Alckmin (PSB) na figuração do centro.

Para Flávio Bolsonaro, a melhor mulher é sempre um homem, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Vice dos sonhos sempre foi Ciro Nogueira, senador do PP envolvido na teia Master

Escolha do deputado Alfredo Gaspar evidencia o isolamento da candidatura bolsonarista

A escolha do deputado Alfredo Gaspar (PL-AL) para companheiro na chapa presidencial mostra que, para Flávio Bolsonaro e sua base mais radicalizada, a melhor mulher é sempre um homem.

Toda a busca de meses por uma vice mulher funcionou como tentativa de ganhar tempo diante dos reveses da campanha bolsonarista —as revelações do caso Dark Horse e a ligação íntima do filho 01 com o empresário picareta Daniel Vorcaro. E sobretudo a briga pública com a ex-primeira-dama Michelle, alvo de discursos misóginos nas redes.

Poesia | Ponto de Desintoxicação, de João Cabral de Melo Neto

 

Música | Estácio de Sá 2027 | Samba Campeão - SAMIR TRINDADE e cia

 

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Não é um empréstimo qualquer

Por Folha de S. Paulo

Lula relativiza a gravidade do caso envolvendo seu ex-chefe de gabinete, que pediu dinheiro a lobista

Cabe ao líder do Executivo fixar os limites éticos entre o tolerável e o inaceitável na conduta da alta administração pública

Empréstimos já ocuparam lugar de destaque na política brasileira. Em 1992, a chamada Operação Uruguai tentou justificar a origem dos recursos que sustentavam o alto padrão de vida do então presidente Fernando Collor. A versão fracassou e virou símbolo de uma explicação que desperta mais dúvidas do que esclarecimentos.

Cada caso tem particularidades, mas a experiência requer cautela com contratos de mútuo.

O que será do PT após Lula? Por Bruno Carazza

Valor Econômico

Lista de candidatos dá ideia de como será a luta por poder durante a sucessão

Um quadro do antigo programa TV Pirata, humorístico da Rede Globo que fez sucesso no final dos anos 1980, apareceu no meu feed do Instagram nesta semana. Nele, o ator Marco Nanini, interpretando um líder político extremista, comanda o horário eleitoral do fictício Partido Radical Brasileiro (PRB). Após anunciar que sua legenda estava aderindo ao governo, ele é imediatamente interrompido por Ney Latorraca, que denuncia que aquilo seria uma traição aos ideais da agremiação e, por isso, declara fundado o Partido Ultra Radical Brasileiro (PURB).

TCU busca no Focus culpa pelo custo alto da dívida, por Alex Ribeiro

Valor Econômico

O risco maior do escrutínio que o ministro Bruno Dantas quer fazer dos dados é o boletim perder a credibilidade que conquistou

O ex-presidente do Tribunal de Contas da União (TCU) Bruno Dantas está preocupado com o formato e a governança do boletim Focus, a pesquisa feita pelo Banco Central para captar as expectativas dos agentes privados sobre temas como taxa de juros e inflação.

O risco é o TCU quebrar um termômetro que funciona bem, embora sempre possa ser aperfeiçoado, em vez de atacar as causas que levam a juros e inflação muito altos, que estão relacionadas à má qualidade da política fiscal.

Num voto no processo de contas do governo Lula de 2025, Dantas colocou o Focus entre as prioridades que, no seu entendimento, deveriam merecer um escrutínio. Segundo ele, as expectativas divulgadas, que são colhidas majoritariamente junto a participantes do mercado financeiro, repercutem no custo de financiamento de longo prazo da dívida pública.

Negócios privados com o dinheiro público, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Ficou assim: a sua turma é mais corrupta que a minha. Nessa disputa de quem tem o mais corrupto, os pecados se anulam

A corrupção é tão antiga quanto a administração pública. Mas não se dá sempre da mesma maneira. Há momentos em que prevalece o sentimento de respeito ao bem público. Forma-se um ambiente de honestidade entre os que participam ou se relacionam com os governos e a população em geral. Daí derivam a indignação com o roubo e a vergonha de ser apanhado.

Há momentos em que a roubalheira desanda. Os episódios se multiplicam no noticiário e, pior, o público parece não se importar com isso. Quem é apanhado não se arrepende de seus atos. Ao contrário, mostra-se indignado por ser acusado e responde com desculpas as mais esfarrapadas.

O Brasil vive um desses momentos. Acontece à direita, à esquerda e nesse ajuntamento chamado de Centrão. Tudo diante de um público que ou não se incomoda — “política é assim mesmo” — ou simplesmente perdeu o ânimo de protestar.

Barretão, Cacá Diegues e a ministra, por Miguel de Almeida

O Globo

Com a transformação da criação em catecismo, a arte fica sem seu caráter de inquietude

A ministra da Cultura, a sempre simpática cantora Margareth Menezes, amargou o equívoco de sua política cultural identitária no velório do produtor Luiz Carlos Barreto, o querido Barretão. Diante do corpo do marido, Lucy Barreto fez um discurso emocionado alertando sobre a situação do cinema brasileiro, sua penúria sob as regras ideológicas de produção e o que ela chamou de “cisão”. Apesar de o filho Bruno Barreto tentar segurar o desabafo da mãe, não conseguiu, além de ser repreendido. Lucy, uma das líderes da classe, não precisou descer a detalhes, e todos ali, atores, produtores e roteiristas, principalmente a ministra, entenderam texto e subtexto de suas palavras.

Filtro de relevância no Judiciário é avanço, por Irapuã Santana

O Globo

A existência de filtros recursais pode contribuir para a eficácia do próprio sistema de Justiça

Na semana passada, entrou em vigor a Lei 15.484/2026, que criou mais um requisito para que um recurso seja analisado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ). Com a mudança, a parte deverá demonstrar, em tópico específico, que a controvérsia tem relevância econômica, política, social ou jurídica capaz de ultrapassar os interesses das partes.

Uma questão interessante é que o filtro de relevância do STJ fará com que menos recursos sejam julgados pelo tribunal. Ao contrário do que se possa imaginar, no entanto, a alteração pode melhorar o acesso à Justiça, já que não se confunde com o direito de levar toda controvérsia até a última instância possível, sobretudo quando as partes já passaram por duas instâncias, compostas por, no mínimo, quatro magistrados no total. Esse princípio compreende também o direito de receber do Estado uma resposta adequada, coerente e em tempo razoável.

Difícil moralidade, por Denis Lerrer Rosenfield

O Estado de S. Paulo

A sociedade brasileira acha-se, por assim dizer, anestesiada, congelada em termos de ética na política

Há muito tempo, talvez as pessoas nem mais se lembrem, havia um partido que defendia a ética na política, sendo ela uma bandeira ostentada com coragem. Insurgia-se contra os partidos, considerados de direita, que abocavam para si uma parte dos recursos públicos, navegando na ilegalidade e na impunidade. Clamava, com toda a razão, por uma regeneração da política, colocando-se como seu porta-voz e representante. Criou toda uma aura que marcou aquela época e lhe pavimentou o caminho para o poder. Ora, lá chegando, o PT começou a trilhar os passos daqueles que criticava, arriando a bandeira que deixou, assim, de tremular. Hoje, nem disso mais se fala.

Quem nunca? Por Diogo Schelp

O Estado de S. Paulo

Falta explicação convincente sobre o que aconteceu na antessala do gabinete de Lula

O presidente Lula incorporou um novo bordão contendo o advérbio “nunca” ao seu repertório. Já havia o indefectível “nunca antes na história deste país”, que ele usa como recurso de marcação de excepcionalidade e ineditismo em seus governos e em sua trajetória pessoal. Nunca antes um presidente teria feito “tanto em tão pouco tempo”.

Nunca antes um líder deste País teria sofrido tanta perseguição política quanto ele. É uma tentativa de reescrever a história e de apagar da memória coletiva os avanços obtidos por antecessores, como se houvesse uma clivagem temporal equivalente ao nascimento de Jesus Cristo: antes de Lula, depois de Lula. A fórmula foi repetida por Lula em discurso na convenção do PT do último dia 2, quando afirmou que nunca, na história deste País, os militantes do partido tiveram tantos argumentos para defender sua continuidade no poder. Como ele está em seu terceiro mandato não consecutivo, trata-se do cúmulo da hipérbole: Lula se considera pioneiro em comparação consigo mesmo.

China supera EUA na opinião pública, por Oliver Stuenkel

O Estado de S. Paulo

Virada se deve menos ao avanço chinês do que ao desgaste acelerado da imagem dos EUA

A reputação internacional de um país é o tipo de ativo que leva décadas para ser construído e pode ser dilapidado em poucos anos. A mais recente pesquisa global do Pew Research Center, referência mundial em pesquisas comparadas de opinião pública, documenta esse processo em tempo real. Entre fevereiro e maio, o Pew entrevistou mais de 42 mil pessoas em 36 países. O resultado, divulgado no mês passado, marca uma virada histórica: na maioria deles, a China é hoje mais bem avaliada do que os Estados Unidos, que mantêm vantagem estatisticamente significativa em apenas seis nações – Índia, Japão, Filipinas, Coreia do Sul, Israel e Polônia. Nos 20 países acompanhados anualmente, a avaliação positiva dos Estados Unidos despencou de 58%, em 2023, para 36% neste ano; a da China foi de 32% a 46%.

O limite desigual das doações eleitorais, por Lara Mesquita

Folha de S. Paulo

Ao permitir que doadores repassem até 10% da renda, a lei transforma desigualdade econômica em desigualdade de influência política

Há um abismo entre doações dos cidadãos comuns e aqueles capazes de movimentar milhões de reais

Passadas as convenções e definidas as candidaturas, as atenções se voltam para o financiamento das campanhas eleitorais. Os fundos públicos respondem hoje pela maior parte do financiamento eleitoral —67,7% dos recursos em 2018 e 81,4% em 2022—, mas ainda há espaço para doações privadas.

Rodrigo Tamussino Roll defendeu recentemente dissertação de mestrado dedicada à análise das estratégias dos doadores de campanhas eleitorais no Brasil, no Instituto de Estudos Sociais e Políticos da UERJ.

Do caçador de empregos à captura do Estado, por Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

Concurso público conteve o clientelismo no ingresso, mas não a apropriação política dos postos de comando

Os políticos podem preferir coletivamente uma burocracia imparcial, mas hesitam em se desarmar primeiro

"Um cargo ou a sua vida!": esses eram os dizeres de um cartaz empunhado por Charles Guiteau, assassino do presidente americano James Garfield, em uma charge publicada pela revista Puck em 1881. A legenda o apresentava como "o caçador de emprego modelo". Guiteau atentou contra Garfield por acreditar que seu apoio à campanha lhe dava direito a um alto cargo público —expectativa frustrada.

O episódio teve papel decisivo na aprovação, em 1883, do Pendleton Act, marco do recrutamento meritocrático no serviço público federal americano. Mas o que interessa não é a emergência de reformas, mas, sim, sua sustentabilidade.

'O Conto da Aia' em versão brasileira, por Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

Na ficção, uma das formas de opressão feminina é a supressão de direitos civis e políticos

Democracia requer a participação de todos os segmentos da sociedade, o que, por óbvio, inclui as mulheres

voto feminino tem o poder de decidir as eleições gerais de 2026. Quase 84 milhões dos eleitores aptos a irem às urnas (53%) são mulheres (TSE). Entre elas, pretas e pardas são maioria, considerando a demografia: 28% das brasileiras são negras (IBGE).

Mas, num país machista, misógino e racista, tamanho poder em mãos femininas (e negras) incomoda e desagrada a muita gente. A ponto de deflagrar uma campanha disparatada contra o voto feminino e em defesa de uma dita "democracia familiar".

Contra o Godzilla digital, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Na Flórida, um jovem dependente das redes sociais obriga o TikTok a propor um acordo

Assim como os fabricantes de bebidas e cigarros, as redes sociais sabem do mal de seus produtos

Nos EUA, é assim. Quando um caso judicial é encerrado mediante "acordo", significa que a parte acusada, sabendo que vai perder, interrompe o processo e consegue abafar a história por um bom dinheiro em sigilo para o acusador. Que vantagem ela leva nisso? Impede que uma derrota pública deságue numa hemorragia de outros processos do gênero. O TikTok, por exemplo, acaba de fazer um "acordo" com um jovem de 15 anos, residente na Flórida, que acusou a rede social de danos à sua saúde mental causados pela dependência aos seus recursos.

Poesia | Das vantagens de ser bobo, de Clarice Lispector por Aracy Balabanian

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Música | Geraldo Azevedo na turnê Oitentação 2026: Brasília

 

domingo, 9 de agosto de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Candidatos não podem continuar a ignorar crise fiscal

Por O Globo

Em atitude irresponsável e acintosa, Lula e Flávio agem como avestruzes fingindo que nada de grave acontece

O terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem sido um desastre para os cofres públicos. Em junho, a dívida pública chegou a 81,9% do PIB, maior patamar desde a pandemia. Ao longo dos quatro anos de governo, deverá crescer 10 pontos percentuais. Quanto mais aumenta, maior a insegurança sobre a capacidade do Tesouro de pagá-la e maiores as taxas exigidas para que tome no mercado novos empréstimos e consiga honrar seus compromissos. Sem mudança de rumo, a dívida continuará a aumentar em ritmo insustentável e poderá em breve levar o país à situação trágica que mistura estagnação econômica e inflação alta. Diante disso, seria de esperar que a iminência do abismo fiscal fosse um dos principais temas da campanha eleitoral. Mas não. Até agora, os dois líderes nas pesquisas — Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) — agem como avestruzes, fingindo que nada de muito grave acontece. É uma atitude irresponsável perante o risco e acintosa diante do eleitor.

A reconquista do futuro, por Sergio Fausto *

Revista Piauí, nº 239 – agosto, 2026

A necessidade de líderes com “uma certa ideia do Brasil”

Em seu discurso no lançamento da pedra inaugural de Brasília, Juscelino Kubitschek fala em sua “fé inquebrantável” no grande destino reservado ao Brasil. Lido com os olhos de hoje, o discurso provoca um sorriso irônico, pelo tom superlativo e pelo otimismo sem ressalvas com o futuro do país. Na época, as palavras expressavam um sentimento real. O presidente JK simbolizou, como nenhum outro, a confiança do Brasil em si mesmo, como nação moderna, democrática, tolerante e criativa.

Era um outro país, ainda predominantemente rural, mas em rápida transição para uma sociedade de massas urbana. Crescia a taxas chinesas. A industrialização moldava um horizonte comum para todas as correntes políticas, e a migração do campo para as cidades alimentava sonhos de ascensão social para quem deixava a roça. Urbanização e industrialização rápidas serviam de amálgama para uma sociedade cada vez mais conflituosa e polarizada. Polarização mais intensa que a atual, exacerbada pela Guerra Fria, mas circunscrita às elites e concentrada em algumas poucas capitais do país. A tevê apenas engatinhava, e a comunicação de massa se dava pelas ondas do rádio, ainda assim com restrito alcance regional.

Emendas parlamentares transformaram o Congresso em casa de negócios, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Muitas vezes não se consegue reconstituir o caminho do dinheiro público, identificar o responsável por sua destinação ou comprovar o benefício gerado

O crescimento vertiginoso das emendas parlamentares impositivas produziu uma mudança estrutural nas relações entre o Executivo e o Legislativo e, sobretudo, nas próprias disputas eleitorais. Concebidas originalmente para permitir que deputados e senadores atendessem demandas legítimas de estados e municípios, com essas emendas o Congresso abocanhou parcelas crescentes do orçamento de investimentos.

As emendas passaram a movimentar dezenas de bilhões de reais sem a correspondente comprovação da correta execução financeira, da conclusão das obras e dos resultados efetivamente entregues à população. Esse descompasso fortalece os parlamentares com mandato, blinda o Congresso de renovação e converte o Orçamento da União em instrumento de reprodução do poder político.

Ataque e contra-ataque, por Merval Pereira

O Globo

Os dois candidatos mais rejeitados, os mais odiados, os mais cotados para vencer as eleições não se dispõem a expor suas ideias ao grande público, nem se expor à sanha dos adversários em busca de um lugar no segundo turno.

Dentro de uma semana exata começa oficialmente a campanha eleitoral brasileira, o que não significa que os candidatos estejam parados. Já houve movimentos que indicam tendências, como a de não participar de debates e entrevistas por parte dos dois candidatos mais bem posicionados nas pesquisas de opinião, o presidente Lula e o senador Flavio Bolsonaro. Os mais rejeitados, os mais odiados, os mais cotados para vencer as eleições, exatamente esses não se dispõem a expor suas ideias ao grande público, nem se expor à sanha dos adversários em busca de um lugar no segundo turno. Os dois têm dificuldades próprias, a começar pelos filhos.

Eleição nova e a velha sombra, por Míriam Leitão

O Globo

O Brasil perde novamente a oportunidade de discutir seu futuro por causa de candidatos que ameaçam com retrocesso e sombra autoritária

Na eleição de 2022, o principal ponto era enfrentar o golpismo de Jair Bolsonaro. Depois de tudo o que ficou comprovado no julgamento da ação penal, o natural seria que agora o país estivesse discutindo um projeto para o futuro. Contudo, a sombra do autoritarismo continua presente. Um candidato é filho do ex-presidente que liderou a tentativa de golpe. Entre os outros candidatos com menor expressão nas pesquisas, Renan Santos e Romeu Zema querem intervir no STF e defendem o modelo Nayib Bukele; Ronaldo Caiado promete anistiar golpistas e fugiu da pergunta sobre se houve ou não tentativa de golpe.

Na entrevista que concederam às jornalistas Andréia Sadi e Natuza Nery, da Globonews, Renan Santos e Romeu Zema defenderam a adoção do caminho de El Salvador. No entanto, quando foram apresentados à lista de horrores praticados por Bukele — prisão sem mandado, ampliação do tempo de prisão sem ordem judicial, redução drástica de habeas corpus, dificuldade de acesso a advogados, julgamento coletivo de centenas de réus, prisões baseadas em denúncia anônima — eles disseram não concordar. Ou seja, defendem o que sequer conhecem. Constrangedor.

No país da emenda pix, basta um clique para desviar dinheiro público, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Flávio Dino apontou "estado de inconstitucionalidade" ao ordenar novas investigações

O apelido surgiu em 2021. A transferência especial virou emenda pix, um atalho criado por parlamentares para despejar dinheiro em seus redutos eleitorais. O instrumento abriu uma via rápida do cofre da União para estados e municípios. Os recursos passaram a ser transferidos num clique, sem exigência de projeto, convênio ou licitação.

Em julho, uma operação da Polícia Federal expôs o funcionamento da engrenagem. Os agentes cumpriram mandados em quatro estados. Apreenderam R$ 320 mil em espécie, além de anotações sobre desvios e favorecimentos.

De Ed Morgan@edu para Marco Rubio, por Elio Gaspari

O Globo

Crises alimentadas pelo secretário de Estado americano prejudicam relação entre os dois países e levarão tempo para serem resolvidas

Estimado Secretário de Estado Marco Rubio:

Fui o embaixador mais duradouro dos Estados Unidos no Brasil, de 1912 a 1933. Acredite que nunca aprendi a falar português. Temos um ponto em comum, pois vivi três anos em Cuba e de lá eu trouxe o hábito de servir aos convidados uma mistura de suco de limão com aguardente, o daiquiri de lá, a batida daqui.

Sou um diplomata da velha escola, Harvard, colarinho duro e horror aos dias quentes do Rio. Eu vivia em Petrópolis e aqui estou sepultado.

Escrevo-lhe para ponderar que o senhor está armando tantas crises e ressentimentos nas relações com o Brasil que levaremos tempo para remendá-las. Revogar o visto da embaixadora foi uma criancice. Tomar o partido de um candidato à Presidência castra nossa influência em favor dos chineses.

O ‘comunista’ de Trump, por Dorrit Harazim

O Globo

Pelo receituário do presidente dos EUA, saúde pública é commodity, educação é mercadoria, moradia é mercado imobiliário

Cassius Clay tinha só 22 anos e uma insolência já borbulhante quando proclamou, na histórica noite de 25 de fevereiro de 1964:

— Sou o rei do mundo! Sou lindo e malvado! Eu sacudi o mundo.

Era verdade. Ele acabara de derrotar por nocaute técnico o campeoníssimo Sonny Liston, favorito absoluto nas casas de apostas globais. O feito no ringue fez dele muito mais que um fenômeno do boxe — tornou-se força cultural duradoura. Nove dias depois, anunciou ao mundo sua conversão ao islamismo e passou a se chamar Muhammad Ali.

O sanitarista americano Abdul El-Sayed, nascido no estado de Michigan 42 anos atrás, não precisou trocar de nome — Abdulrahman Mohamed El-Sayed é muçulmano de berço. Suas primeiras palavras ao saber que será o nome do Partido Democrata para disputar uma cadeira no Senado, em novembro próximo, foram inspiradas em Ali:

— Nós sacudimos o mundo.