quinta-feira, 10 de setembro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Fachin fez o certo

Por O Globo

Os acontecimentos da última semana revelaram uma situação de anarquia institucional nunca vista na mais alta Corte do país. A guerra de decisões com escassa fundamentação jurídica e descaso pelo devido processo legal confundiu a sociedade, criou extrema insegurança jurídica e deixou no ar a sensação de que o Supremo Tribunal Federal (STF) se guiava não pela Constituição, mas por interesses políticos antagônicos.

Olhando mais de perto, sem a cortina de fumaça das liminares performáticas, a situação é mais clara do que parece. Retroagindo uma semana — que parece um ano —, o que se tem de concreto é o Brasil ter tomado conhecimento de que o ministro Alexandre de Moraes, cuja mulher manteve contrato milionário com o mais notório fraudador do sistema financeiro do país, trocava mensagens com o criminoso como se fosse seu consultor particular. Diante dessa notícia estarrecedora, impõe-se investigar todos os fatos relacionados ao assunto, observados os ritos próprios, com autorização do plenário do Supremo, e aplicar as penalidades cabíveis.

Alegoria glauberiana do Cinema Novo descreve STF em transe, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O Supremo é um arquipélago, cada ministro é uma ilha fortificada, com artilharia e munição pesadas. Fachin não tem autoridade hierárquica sobre os ministros no exercício da jurisdição

Em Terra em Transe, obra-prima de Glauber Rocha lançada em 1967, a fictícia República de Eldorado mergulha numa crise política que dissolve as fronteiras entre democracia, populismo, autoritarismo e ambição pessoal. O poeta e jornalista Paulo Martins, interpretado por Jardel Filho, procura interferir nos destinos do país, mas oscila entre dois projetos de poder: o conservador Porfírio Diaz, vivido por Paulo Autran, e o líder populista Felipe Vieira, representado por José Lewgoy. Paulo rompe com Diaz e se aproxima de Vieira, na esperança de construir uma alternativa democrática.

Aos poucos, porém, percebe que os dois campos se alimentam das mesmas práticas: a manipulação das massas, os acordos de cúpula, a retórica vazia e a transformação da política num grande espetáculo. Dividido entre o idealismo e o desencanto, acaba tragado pelo sistema que pretendia modificar. Ao lado de Jardel Filho, Paulo Autran e José Lewgoy, participam do filme Glauce Rocha, no papel de Sara; Danuza Leão, como Sílvia; Paulo Gracindo, como Júlio Fuentes; além de Hugo Carvana, Francisco Milani, Jofre Soares e Flávio Migliaccio. A música é de Sérgio Ricardo; a fotografia, de Luiz Carlos Barreto; e a montagem, de Eduardo Escorel.

Fachin toma posse, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Presidente do STF toma as rédeas para tirar a Corte da crise

O fim do inquérito das fake news, indicado pelo ministro Edson Fachin, é o sinal mais relevante de que a crise no Supremo Tribunal Federal pode ter começado a ser controlada.

A rigor, o presidente do STF não o encerrou, mas assumiu suas prerrogativas regimentais sobre este inquérito revogando a portaria que designava o ministro Alexandre de Moraes como seu relator. Pediu de volta os procedimentos em andamento “no estado em que se encontram”.

Serão enviados à autoridade policial e à procuradoria-geral da República, mas, sem a militância de Moraes a movê-los, está sinalizado o encerramento. Ao longo dos quase oito anos em que esteve aberto, este inquérito tornou-se a incubadora da crise. De instrumento para preservar as instituições da corrosão da extrema-direita nas redes sociais, transformou-se em adubo do poder desmedido de seu relator. A reação igualmente desmedida a este poder consumiu a Corte.

Supremo em crise é perigo para a democracia, por Maria Hermínia Tavares

Folha de S. Paulo

Se eleições forem contestadas, defesa do respeito às instituições será fragilizada

Comprovadas as denúncias, ministros acusados não podem continuar em seus postos

Está nas mãos de dez pessoas o destino da nossa democracia. São os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), dos quais depende hoje o resgate da credibilidade da corte à qual servem e à qual compete —nada mais, nada menos!— garantir que o país funcione dentro da ordem constitucional.

Tribunais constitucionais são a pedra de toque das democracias: não podem exercer a função se envolvidos em suspeitas e descrédito.

Isso parece mais ideal do que real. Mas real —e imediato— é o perigo. Basta um exemplo: é quase certo que as eleições presidenciais produzirão um resultado apertado, dando margem a contestações, fundadas ou não. Se isso ocorrer, a defesa do respeito às regras eleitorais e às instituições que as protegem encontrará um frágil dique de contenção judicial, dada a inegável deterioração da imagem do STF e, por tabela, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Cálculos estratégicos de ministros em guerra corroem autoridade de Fachin, por Ricardo Balthazar

Folha de S. Paulo

Sucessão de decisões extravagantes mostra falta de confiança no presidente da corte

Ministros investem contra adversários antes de responder a questionamentos de Fachin

O comportamento estratégico dos integrantes do Supremo Tribunal Federal tem contribuído para aprofundar a crise em que a corte mergulhou, minando os esforços que o ministro Edson Fachin fez nos últimos dias para encontrar uma solução que possa obter apoio do colegiado.

A sucessão de decisões individuais extravagantes dos ministros em guerra aberta mostra que nenhum deles confia na capacidade do presidente do tribunal de gerir a crise. Todos tentam se antecipar aos seus movimentos e arregimentar aliados para prevalecer sobre os adversários.

The Supremos, a série, por Conrado Hübner Mendes

Folha de S. Paulo

'Se uma família não o matar... a outra família o fará' (The Sopranos)

Quem vai imaginar os futuros possíveis e aceitáveis do STF

Se alguém duvidava de que o maior risco à autoridade da instituição do STF morava nos gabinetes do próprio tribunal, ministros estão nos oferecendo, hora após hora, prova incontornável.

Ficou difícil para profissionais da bajulação supremocrática, invariavelmente advogados com ações na corte. Defendem duas teses: o STF salvou a democracia, portanto agradeçamos; para o STF continuar a salvar a democracia, permaneçamos calados. As duas teses sempre foram erradas, mas não desinteressadas ou pouco lucrativas.

Fachin e um Xandão da extrema direita, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Alexandre de Moraes por ora perde muito mais que André Mendonça com decisões no STF

Ministros do Supremo dizem que trabalho de colocar ordem na casa mal começou

Edson Fachin reagiu, nos acréscimos. Suspendeu a partida por causa de pancadaria generalizada, como diz o clichê do futebol. Como o jogo vai prosseguir, se com mais intervenção da polícia (de Fachin), se a partida vai para os pênaltis ou até para o tiroteio, não se sabe. Mas o presidente do Supremo reagiu ao fato de que ministros se digladiavam publicamente com decisões que ameaçam a ordem mais básica (qual lei ou decisão vale?) e o atropelavam até em casos que estavam na mão dele, de Fachin. "Delineia-se, assim, quadro de conflitos e sobreposições processuais que configuram grave lesão à ordem pública", escreveu o presidente do STF.

Um dia maior que os outros, por Míriam Leitão

O Globo

O ministro Fachin exerceu os poderes da presidência do STF, começou a organizar o tumulto entre ministros e diretor da PF volta ao cargo

No dia de ontem o país viveu como se estivesse num acelerador de imagens. Ao fim, ele trouxe uma ponta de esperança de saída do tumulto vivido nos últimos tempos. O ponto mais importante foi a série de decisões tomadas pelo ministro Luiz Edson Fachin, distribuindo perdas e danos aos contendores, mas reestabelecendo o papel da presidência do Supremo Tribunal Federal. Ele havia errado na véspera quando deu 72 horas para o ministro André Mendonça explicar sua decisão de afastar o diretor-geral da Polícia Federal. O Brasil não tinha esse tempo.

De manhã o ministro Flávio Dino cassou a decisão da véspera de Mendonça e, portanto, reintegrou Andrei Passos Rodrigues na direção-geral da Polícia Federal. Isso foi o empurrão que encurtou o tempo. Dino fixou um argumento: havia um perigo de dano irreversível com o afastamento.

Freio de arrumação, por Merval Pereira

O Globo

Alguém considera possível o STF ser presidido por Moraes no próximo ano, sem que as investigações sejam feitas?

Agora que sabemos quem manda no Supremo Tribunal Federal (STF), podemos ter esperanças de que vão adiante as investigações sobre as conversas entre o ministro Alexandre de Moraes e o banqueiro-bandido Daniel Vorcaro. Não acredito que, diante do respeitável público, a maioria dos ministros tenha a coragem de fazer o que fez secretamente, quando elogiaram o colega Dias Toffoli, descartaram como “lixo” o relatório da Polícia Federal (PF), se recusaram a investigar seus negócios com o grupo Vorcaro no resort Tayayá e ainda o inocentaram de qualquer culpa. Depois de tudo, ele desistiu de relatar questões relacionadas ao banco Master, e seus colegas arquivaram o caso.

Guerra será pesada e sem amadores, por Julia Duailibi

O Globo

Decisões de Fachin estão longe de paralisar a disputa autofágica que domina os bastidores do Supremo

Ainda há uma longa caminhada para que o Supremo recobre a normalidade. As decisões de ontem do presidente Edson Fachin estancam momentaneamente a crise e evitam, por ora, sua escalada, mas estão longe de paralisar a disputa autofágica que domina os bastidores. Desmoralizado pelos colegas, Fachin agiu com atraso e conseguiu um armistício para o público. A guerra, porém, continua, ainda que silenciosa, até a sessão do plenário que decidirá se o ministro Alexandre de Moraes deve ser investigado.

Na terça-feira, os ministros analisam o relatório da PF que deflagrou a crise — a peça produzida por ordem de André Mendonça que cita as mensagens de Daniel Vorcaro a Moraes. Dirão se é válido ou não e, diante disso, se o ministro deve ser alvo de investigação. Não é pouca coisa.

Bangue-bangue judicial, por Malu Gaspar

O Globo

O bangue-bangue dos últimos dias no Supremo Tribunal Federal (STF) pode impressionar pela virulência, mas não deveria surpreender. Já faz tempo que a Corte vem interferindo no debate político de forma aberta, com propósitos bastante explícitos. Da Operação Lava-Jato ao golpismo, passando pelo combate à Covid-19 e pelas quedas de braço com o Congresso em razão do orçamento secreto, todos esses episódios foram transmutando o tribunal em ator político. Anabolizados por amplos setores da sociedade, os ministros do Supremo passaram a acreditar que tinham salvo-conduto para ditar os rumos do país de acordo com suas conveniências, mesmo que isso significasse agir à margem da lei.

Os riscos da crise do STF à democracia, por Carolina Brígido

O Estado de S. Paulo

É preciso atentar para a ameaça que a situação traz para o equilíbrio do processo eleitoral

A situação no Supremo Tribunal Federal (STF) não se resume à disputa de poder entre dois grupos de ministros. Para além do estrago causado à imagem da Corte, existe um prejuízo maior. Hoje, a crise provoca efeitos diretos nas campanhas eleitorais e representa risco ao estado democrático de direito.

Os fatos atribuídos a Alexandre de Moraes e a André Mendonça são de naturezas distintas. Mensagens reveladas pelo Estadão mostraram que Moraes mantinha uma relação suspeita com Daniel Vorcaro. O ministro deveria ter vindo a público se explicar. O STF deveria ter aberto investigação sobre o caso. Nada disso foi feito até aqui.

A ameaça aos poderosos, por William Waack

O Estado de S. Paulo

O que acontece fora do Supremo tem grande peso na disputa interna de poder

A evidência mais clara do apego ao poder é sempre quando se chega à disputa sobre quem controla os órgãos de segurança. É o que acontece no momento no STF. Ao julgar no próximo dia 15 se Alexandre de Moraes será investigado, o plenário da Corte define também quem vai mandar na Polícia Federal. Por consequência, quem tem o controle de investigações que chegaram ao centro de um “ferrolho” de poder. Localizado dentro do STF em articulação com o Executivo e os chefes das casas legislativas, com a anuência mais ou menos explícita também de dirigentes de agremiações políticas. Ameaçadoras também para o principal candidato da oposição, além do entorno de Lula.

O alarmismo e a dívida pública, por Felipe Salto

O Estado de S. Paulo

A realidade não pode ser misturada com os achismos, as profecias baratas e as análises travestidas de avaliações técnicas

Delfim Netto costumava dizer que erros não se anulam, se empilham. Dito de outra forma, um erro mais outro é igual a dois, não a zero. O alarmismo corrente sobre o quadro da dívida pública se soma ao desequilíbrio nas contas; não o anula. Para resolver o déficit, deve-se discutir conjunto de providências à altura. Alardear o fim do mundo só piora o problema que se quer resolver.

Em economia, as expectativas importam, muitas vezes, mais do que a própria concretude dos dados. A taxa de juros não é senão o custo do dinheiro no tempo. Se a percepção de quem detém reservas para financiar terceiros é de aumento das dificuldades de pagamento dos tomadores dos empréstimos, qual será o resultado? Cobrança de juros mais e mais altos para compensar o risco.

O golpe esteve e está aí, por Roberto Amaral *

“Antes, era salvar a democracia; hoje é salvar a democracia e a soberania.”  - Marina Silva

O golpe de 1964, a que devemos uma ditadura de 21 anos (nefasta como toda ditadura),   foi gestado lá atrás e só não teve êxito completo em 1954 porque foi frustrado pelo suicídio de Getúlio Vargas. Na sequência, os militares assumiram o poder, mas mantiveram as aparências do legalismo formal, dando posse ao vice-presidente Café Filho, credenciado por haver traído o presidente que o elegera. Seria um presidente pro forma, algo como essa senhora que os norte-americanos designaram para assumir a presidência em uma Venezuela reduzida a protetorado.

Poesia | Clarise Lispctor entrevista Pablo Neruda

 

Música | Vinícius de Moraes e Toquinho - Tarde em Itapuã

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quarta-feira, 9 de setembro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Desempenho do Brasil no Pisa continua frustrante

Por O Globo

Houve recuo em matemática e leitura, e nota média estagnou. Para piorar, educação é desprezada na eleição

Continua decepcionante o desempenho do Brasil no Pisa, o exame de avaliação de jovens de 15 anos realizado a cada três anos pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), medida internacional mais usada para comparar o estágio do ensino médio em mais de 90 países. Em áreas críticas para a economia moderna, como matemática e leitura, houve retrocesso de dois pontos desde 2022. Em matemática, a média caiu de 379 para 377. Em leitura, de 410 para 408. Somente em ciências houve avanço, de 403 para 409. Apesar disso, a média geral do país se mantém estagnada desde 2015, uma péssima notícia para um país com graves deficiências na área de educação.

Distopia do STF lembra o realismo fantástico de 'Incidente em Antares', por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Treze ex-ministros do STF classificam o episódio como a 'mais aguda crise' do tribunal; defendem apuração rigorosa dos fatos e respeito ao devido processo legal

Antares, a estrela mais brilhante da constelação de Escorpião, é uma supergigante vermelha situada a cerca de 550 anos-luz da Terra. Seu nome vem do grego e significa “rival de Ares”, devido à semelhança de sua coloração com a de Marte, o planeta associado ao deus da guerra. Tem massa estimada entre 11 e 16 vezes a do Sol, raio centenas de vezes maior e luminosidade próxima de 100 mil sóis.

Entretanto, Antares está consumindo rapidamente o combustível que ainda sustenta seu equilíbrio. Quando esse processo terminar, seu núcleo entrará em colapso e a estrela explodirá como uma supernova, provavelmente dentro de alguns milhões de anos. Na literatura brasileira, é o nome da cidade fictícia criada por Erico Verissimo em seu último romance, “Incidente em Antares”, publicado em 1971. O autor recorre ao realismo fantástico, ao humor macabro e à sátira política para fazer a autópsia de uma sociedade dominada pela hipocrisia e pelos acordos entre seus poderosos.

O 7 de Setembro de André Mendonça, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Com Bolsonaro preso, direita verde-amarela encontra novo mito para reverenciar

A primeira a falar foi Sonia Hernandes, pastora, empresária e autoproclamada a “primeira bispa do Brasil”. “Que o Senhor guarde, livre e dê graça ao nosso irmão André Mendonça. Em nome de Jesus!”, glorificou. A líder da Igreja Renascer em Cristo estava no alto de um trio elétrico na Avenida Paulista. A seu lado, o senador Flávio Bolsonaro, candidato do PL ao Planalto.

Eleição não pode ser mero acerto de contas, por Vera Magalhães

O Globo

Sucessão de crises em pouco mais de uma década e duelo de ministros do STF deixam eleitor entre desdém e asco, e pleito pode resultar em busca por revanche em vez de futuro

O Brasil tem vivido, pelo menos desde 2013, de sobressalto em sobressalto. Depois de uma sucessão de crises em que a mais grave é sempre a próxima, a eleição de 2026 vai ganhando contornos de uma grande DR, com cobranças de promessas não cumpridas, ressentimentos cultivados e desejo de revanche pautando, em caminhos paralelos, o comportamento do eleitor, dos protagonistas e das instituições.

As Jornadas de 2013; a reeleição de Dilma Rousseff por um fio de cabelo e sua rápida queda, menos de dois anos depois; a Lava-Jato; a eleição de Jair Bolsonaro; a pandemia e os abusos autoritários do bolsonarismo no seu curso e depois; a reviravolta que tirou Lula da cadeia e o reconduziu ao Planalto; e condenação e prisão de Bolsonaro compõem um enredo que geraria consequências profundas em qualquer país caso se desenrolasse ao longo de décadas, mas ocorreu em pouco mais de dez anos.

Flávio, o STF e um plano para o fim da reeleição, por Fernando Exman

Valor Econômico

Filho do ex-presidente Jair Bolsonaro tem projetos para ambos os assuntos, caso suba a rampa do Planalto

Pode se enganar quem acredita que o senador Flávio Bolsonaro deve partir com tudo para cima do Supremo Tribunal Federal (STF), se for eleito, e abandonar a promessa de acabar com a reeleição. Em caso de vitória nas urnas em outubro, dizem aliados do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro e candidato do PL à Presidência, Flávio subirá a rampa do Palácio do Planalto com planos sobre ambos os assuntos.

Flávio iniciou a disputa decidido a evitar alguns dos erros estratégicos cometidos pelo pai. Montou, por exemplo, um comitê com uma área jurídica bem estruturada para fazer frente à campanha à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Afinal, todos sabiam da relevância que mais uma vez ganhariam as discussões travadas no âmbito do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Este “departamento” é liderado pela advogada Maria Claudia Bucchianeri, que foi ministra do TSE em 2022. Já o time jurídico responsável pelas partes civil e penal é coordenado pelo advogado Tracy Reinaldet, que ganhou notoriedade nacional pelas defesas que conduziu durante a Operação Lava-Jato.

Cuidar da nossa Corte constitucional, por Nicolau da Rocha Cavalcanti

O Estado de S. Paulo

É na resposta do STF, e não na atuação passada de seus membros, que reside o futuro da Corte constitucional

Já passamos por diversas crises no Brasil. Mas, na semana passada, sentimos no peito uma dor inédita. Sobreveio um sentimento novo, um receio real – nada teórico – de perdermos nossa Corte constitucional. Não falo de questões processuais ou de arquitetura institucional, mas de uma realidade prévia, desse consenso civilizatório mínimo que é a base do Direito, que é alicerce do regime democrático.

O quadro é delicado, não apenas pela situação em si, mas porque há muita gente com raiva do Supremo Tribunal Federal (STF). Muitos nutrem desprezo por seus integrantes. Como reagir diante de tudo isso? Qual é a nossa melhor resposta possível, a mais fecunda no curto, médio e longo prazos?

Uma coisa é certa. A melhor resposta nunca são linchamentos, lacrações ou afrontas às autoridades. Também nunca é por meio da indiferença, da desesperança ou do distanciamento. Ou seja, a crise insta-nos também a refletir sobre o exercício da nossa própria cidadania.

Joga-se truco no Supremo, por Marcelo Godoy

O Estado de S. Paulo

Mendonça repete o que Moraes fez em 2020; resta saber quem o plenário vai referendar

O plenário do STF virou uma mesa de carteado onde os ministros jogam truco? A decisão de André Mendonça de afastar o diretor-geral da Polícia Federal, o delegado Andrei Rodrigues, em razão do esdrúxulo relatório de inteligência usado por Alexandre de Moraes para atacá-lo repete práticas que antes se pensavam existir apenas no gabinete de Moraes: gritar seis nesse jogo de cartas na esperança de encerrar a partida com uma vitória fácil.

São tantos os precedentes na Corte criados pela conduta de Moraes que hoje Mendonça se vale de um deles, com a justificativa de que os fins justificam decisões monocráticas, que sempre ficariam melhor se respaldadas pelo colegiado. Decisões que são vistas de um lado e de outro como tomadas por interesses políticos. Deforma-se a gravitas, o sentimento de honra e dever associado à Justiça.

O Brasil foi comprado? Por Roberto DaMatta

O Estado de S. Paulo

Em uma crônica publicada em 13 de maio, eu assinalei que, por um triz, Daniel Vorcaro não teria comprado o Brasil. Infelizmente, o meu palpite se tornou uma obscena realidade. O que vemos hoje, em relação ao Banco Master e ao seu criminoso e malandro presidente, é uma generosidade intencional para alguns personagens dos Poderes Judiciário e Legislativo e, de resto, para uma elite cujo projeto de vida é ficar rica com o uso pervertido de cargos públicos.

O que tachamos de “corrupção” tem como base o abuso da ética que comanda papéis sociais atribuídos, impostos quando nascemos na esfera da casa e do parentesco. Tais papéis contrastam com os papéis adquiridos que fazem parte do espaço público da rua.

Mendonça usa caos como estratégia eleitoral, por Thiago Amparo

Folha de S. Paulo

É evidente o modo politizado como decide o ministro do Supremo

Sua forma de agir se parece mais à de Sergio Moro que à de um juiz atuando em nome da lei

O noticiário recente sobre o Supremo se assemelha mais à cobertura esportiva de um ringue de luta livre que à de um tribunal, com todo respeito aos praticantes de luta livre.

André Mendonça emprega o caos institucional como estratégia de impacto eleitoral. Se inocentes fôssemos, poderíamos supor que o ministro o faz de forma a defender prerrogativas judiciais, mas ninguém mais acredita em juízes heróis desde a Lava Jato; Mendonça tem plena consciência de que as condições institucionais dadas o favorecem —a saber, a fragilidade e o ego de Moraes, a opacidade de Fachin e a eleição competitiva do filho do presidente que o nomeou para o cargo.

De jurídico, os atos de Mendonça têm apenas a forma: determina, de ofício, o afastamento da alta cúpula da PF –a mesma que efetivamente melou o esquema de roubo do Vorcaro, por suposto monitoramento de Mendonça pela PF.

AGU pede a Fachin que suspenda afastamento de diretor-geral da PF decidido por Mendonça, por Mônica Bergamo

Folha de S. Paulo

Órgão salta instâncias e aciona diretamente a Presidência do STF, evitando fazer o pedido ao próprio ministro que deu a decisão

Iniciativa ocorre depois de reunião do advogado-geral da União, Jorge Messias, com o presidente da Corte

A Advocacia-Geral da União (AGU) pediu nesta terça (8), "em caráter de urgência", que o presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), Edson Fachin, suspenda liminarmente decisão do ministro André Mendonça de afastar o diretor-geral da PF (Polícia Federal), Andrei Rodrigues, do cargo.

O pedido, assinado pelo advogado-geral da União, Jorge Messias, e por outros integrantes da direção do órgão, sustenta que houve "grave lesão à ordem pública e administrativa" na decisão de Mendonça.

Messias se reuniu com Fachin nesta terça (8) antes de apresentar o pedido.

Nele, o advogado-geral argumenta ainda que o afastamento cautelar "viola frontalmente a prerrogativa constitucional privativa do Presidente da República para prover e desprover cargos de direção da Polícia Federal". E afirma que a "descontinuidade abrupta" na gestão da PF "compromete o funcionamento das atividades de polícia judiciária e gera risco de desorganização institucional".

Excesso de política torna STF disfuncional, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Decisão de Mendonça de afastar diretor da PF marca escalada na disputa com Moraes

Lula é tragado para o meio do turbilhão, que cada vez mais ganha contornos eleitorais

STF é, por desenho constitucional, um tribunal político. É a única das altas cortes do país para as quais o presidente da República, um agente político, pode indicar quem bem entender.

Não há listas, quinto constitucional e, a rigor, o sujeito não precisa nem sequer ter diploma de direito. Para que a nomeação se efetive, o indicado precisa apenas ser aprovado pelo Senado, que, mais do que um órgão político, é a casa das raposas políticas. E faz sentido que seja assim. Todas as grandes questões que vão ao STF têm uma dimensão política, com potenciais implicações sociais e econômicas, que não seria prudente ignorar.

Crise no STF exige cartas na mesa, ou será guerra sem fim, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Momento requer liderança, papel que no sistema presidencialista concentra atenções em Lula, o chefe da nação

Avançamos para um ponto de não retorno à racionalidade? Pode ser que sim, mas escalada dos conflitos não é opção

Proximidades estratégicas, alianças táticas e afinidades políticas entre altas autoridades da República fazem desta uma crise de governo, englobando os três Poderes no conceito de administração federal.

Daí que a solução não está "nas costas" do ministro Edson Fachin, como quis o presidente Luiz Inácio da Silva em uma das várias tentativas de se desvencilhar da conflagração instalada no Supremo Tribunal Federal (STF) e que alcança também o Executivo e o Legislativo.

Crise não para de atropelar Fachin, Lula está sem ação, Flávio e Vorcaro surfam na lama, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Presidente do STF não tem poder legal nem força política, por ora, de conter desastre

Eleição é jogada de vez ao porão das disputas de poder políticas e judiciárias

Edson Fachin, presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), ora não tem controle sobre o duelo de morte entre Alexandre de Moraes e André Mendonça, também disputa de grupos de poder no Supremo e suas articulações na Polícia Federal e na política partidária. A eleição já seria disputada na delegacia, no porão do sistema de Justiça. Agora, é disputada na lama excrementícia que inunda o porão.

Ainda que pretenda pegar o touro à unha, Fachin não pode decretar o fim ou o controle de investigações (em curso ou por serem abertas). Também não tem poder político de controlar o tiroteio. Pelo menos 6 de 9 ministros estão envolvidos na disputa (o décimo ministro é Fachin).

Mendonça traz Lula para o centro da crise no STF, por Igor Gielow

Folha de S. Paulo

Presidente já sofria impacto pela associação com Alexandre de Moraes, mas agora é obrigado a agir

Tensão estimula sugestões pouco ortodoxas e de alto risco, como convocar Conselho da República

A inaudita decisão do ministro André Mendonça de determinar o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do chefe de inteligência do órgão, Leandro Almada, trouxe o governo Lula (PT) de vez para a crise do Supremo Tribunal Federal.

Se o presidente já vinha sendo fustigado pela escalada do embate entre Mendonça e o colega Alexandre de Moraes, agora a confusão envolve diretamente seu governo. A Advocacia-Geral de Lula deverá defender Andrei.

É possível argumentar que isso é o dever da Presidência, admitindo aí que Mendonça tenha extrapolado na sua decisão, como sugere a PF. Mas Lula, que vinha manobrando para tentar se manter olímpico no caso, terá de tomar um lado de forma mais óbvia.

Isso agrava a situação do presidente, que já é alvo de campanha pela associação tática que promoveu ao longo de seu mandato com Moraes, o homem que mandou Jair Bolsonaro para a cadeia.

Onde mora o perigo à democracia? Por Ricardo Marinho

Para evitar que nos perdemos em discussões semânticas, digamos apenas que a disputa eleitoral em 2026 é composta por várias candidaturas de partidos que deveriam compor o sistema político, cujos oficialmente são, mas quase sempre se imiscuem dessa posição, e na prática às vezes parecem ser e às vezes não.

Esse desenho gelatinoso é constituído por uma miríade de setores da geografia política aos quais pertencem todos que estão na disputa eleitoral de 2026. Estes setores, pela própria natureza das coisas num país presidencialista, formaram o “grupo governante”.

Um segundo componente é a coligação de vários partidos que percorrem juntos o já longo processo de consolidação democrática e suas vicissitudes. Na coligação predominam aqueles que adotaram uma valorização do sistema democrático e tendem a moderar os impulsos autoritários que aparecem, de tempos em tempos, em grupos ideológicos ou não de linha dura.

Poesia | Quadrilha, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Antônio Carlos Jobim, Toquinho - Samba de uma nota só

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terça-feira, 8 de setembro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Congresso dá passo correto rumo à economia do futuro

Por O Globo

Leis com incentivos a data centers e regras para minerais críticos são fundamentais para modernizar país

Depois de muita protelação, o Congresso enfim aprovou na semana passada duas leis essenciais para preparar o Brasil aos desafios econômicos do futuro. Na terça-feira, os senadores chancelaram um Projeto de Lei restabelecendo estímulos fiscais à instalação de data centers. No dia seguinte, referendaram o Projeto de Lei dos Minerais Críticos, com regras e incentivos para exploração e beneficiamento de diversos minérios, entre eles as terras-raras.

Com matriz enérgica limpa, o Brasil tem potencial para se tornar um expoente em data centers, o dínamo que armazena e processa informação no mundo digital. Sem eles, não há como acessar aplicativos de banco, chamar carros, ver filmes no streaming, entrar em redes sociais e, sobretudo, usar inteligência artificial (IA). Grandes consumidores de eletricidade e água, os data centers têm sido alvo de protestos em comunidades rurais americanas, sobretudo em razão do aumento do custo da energia. O Brasil tem uma enorme vantagem comparativa no fornecimento de energia e água — e pode atrair para cá o investimento rechaçado por lá.

Lula paga o pato do Master porque erra o alvo, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Presidente é pressionado contra André Mendonça, mas alvo a ser desconstruído é Flavio Bolsonaro

O candidato do PL à Presidência, senador Flávio Bolsonaro, ascendeu para o empate com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na simulação de 2º turno da Quaest num momento em que cresce a preocupação com o endividamento e com a corrupção. A resposta do governo à primeira deverá ser uma tardia medida provisória restringindo apostas online.

A resposta à segunda passa pela inclusão, igualmente tardia, no programa de governo lulista, de uma reforma do Judiciário que passe pela ampliação da transparência e do controle social. Vai ser suficiente para conter a curva ascendente da candidatura bolsonarista? Uma parte da resposta está nos sinais da manifestação bolsonarista deste 7 de Setembro na Avenida Paulista, recorte do eleitorado do Sudeste em que, assim como em 2022, a eleição está mais aberta.

Impacto de crise no STF tira força de Lula sem fortalecer Flávio, por César Felício

Valor Econômico

Tema da corrupção cresceu de 14% para 20% entre as preocupações do eleitorado em um intervalo de apenas cinco dias

pesquisa Quaest sobre a eleição presidencial divulgada neste feriado de 7 de Setembro colheu em seu período de entrevistas o pico da reverberação das denúncias contra o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre Moraes, cujas relações suspeitas com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro foram expostas pelo colega de Corte, André Mendonça. Não há outro fato relevante entre esta rodada e a anterior, de 2 de setembro. O impacto, como era previsível, foi negativo para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Ele fica patente na medida divulgada pelo instituto sobre a aprovação do governo. Ela caiu dois pontos percentuais (45% para 43%), enquanto a desaprovação subiu dois pontos (48% para 50%) . Este “gap” de sete pontos percentuais só é comparável ao quadro de abril, quando a desaprovação superava a aprovação em nove pontos.

A boca do jacaré, por Merval Pereira

O Globo

A sorte de Lula, se é possível falar assim, é que seu principal adversário é Flavio Bolsonaro, também envolvido com Vorcaro no financiamento do filme “Dark Horse”, sobre seu pai

Mais importante do que o empate numérico entre o presidente Lula e o senador Flavio Bolsonaro no segundo turno da eleição, é a tendência que a nova pesquisa Quaest exibe: a chamada “boca do jacaré” fechando em favor da oposição. Essa gíria estatística acontece quando os índices a favor de um candidato vão se aproximando do antigo favorito, desenhando no gráfico uma “boca de jacaré” se fechando. Quando isso acontece, muito mais agora, em que estamos a menos de um mês das urnas, é sinal de que o eleitorado está tendendo para um lado.

Podemos esperar algo das eleições? Por Fernando Gabeira

O Globo

Será preciso reformar o Supremo, a começar pela prática daninha de presidentes indicarem amigos

E essas eleições aí? Nas ruas, já começam a perguntar pelo processo eleitoral e confesso que não tenho resposta fácil. O Brasil anda muito complicado, temos de fazer um esforço permanente para ligar os fios, preencher lacunas, enfim, entender o que se passa.

A historiadora e psicanalista Élisabeth Roudinesco fez uma palestra interessante no Brasil com o título “Ainda podemos sonhar com outra vida?”. Sinto que as pessoas na rua me fazem precisamente esta pergunta:

— Ainda podemos sonhar com outro país?

Roudinesco faz uma digressão sobre uma famosa ideia popularizada por Gramsci: é preciso aliar o pessimismo da inteligência ao otimismo da vontade. Segundo ela, a inteligência anda junto ao pessimismo porque pressupõe uma distância crítica da realidade para que a gente não se iluda. Parar por aí, porém, pode significar um mergulho na nostalgia, uma recusa a mudar o curso da história.

O silêncio das Forças Armadas, por Míriam Leitão

O Globo

Sete de setembro mostrou o afastamento das Forças Armadas das eleições, enquanto templos religiosos ainda são usados como currais eleitorais

Não se ouve mais barulho vindo dos quartéis, ao contrário do que ocorreu nas eleições de 2018 e de 2022. Não é por acaso. Nos últimos quatro anos comandantes militares fizeram um trabalho silencioso, mas determinado, para corrigir a rota na qual Jair Bolsonaro havia colocado as Forças Armadas. Algumas decisões foram públicas, como a de proibir manifestação do pessoal da ativa em redes sociais. Outras foram bem mais discretas e exigiram dos comandantes muitas conversas internas e viagens pelos estabelecimentos militares em todo o Brasil.

Jair Bolsonaro havia feito uma mobilização deliberada para envolver as tropas na disputa eleitoral brasileira. Começou anos antes de sua eleição e foi escancarada durante seu mandato. Oficiais voltaram a participar da disputa de poder no Brasil, depois de terem estado alheios durante todos os outros governos após a redemocratização.