terça-feira, 28 de julho de 2026

Encantamento pertinaz, por Jorge J. Okubaro

O Estado de S. Paulo

A despeito de críticas, denúncias e condenações envolvendo seus integrantes, o bolsonarismo ainda encanta milhões

Há um descolamento entre as pesquisas de intenção de voto para a Presidência da República e o esboroamento moral de uma candidatura. Trata-se, no caso, da do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), aclamado como candidato de seu partido em convenção nacional realizada no fim de semana passado. A revelação de fatos comprometedores que o envolvem não afetou seu potencial eleitoral.

Desde que, há cerca de um ano, seu nome começou a ser apontado como o mais forte da extrema direita para concorrer à Presidência, Flávio Bolsonaro registrava entre 36% e 38% das intenções de voto. Isso ocorreu entre junho e dezembro de 2025, segundo o Datafolha.

Problema de Flávio não é o Centrão, é o eleitor, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Flávio não perde votos pelo abandono do Centrão, perde o Centrão pelo abandono do eleitor independente

A debandada do Centrão é um baque mais político do que eleitoral para a candidatura de Flávio Bolsonaro. É um alarme avisando que aliados à direita, como PP, Republicanos e União Brasil, não estão botando muita fé nas chances de Flávio e isso pode significar retirada de apoio de setores-chave, mas não, necessariamente, perda de votos.

Ok, os chamados “setoreschave”, como indústria, comércio, agronegócio e igrejas, são suscetíveis aos movimentos e alarmes políticos e partidários e influenciam, sim, os votos em massa. Esses votos, porém, seguem mais as ondas, percepções e versões que se disseminam na sociedade, além do principal: o próprio interesse e o bolso do eleitor.

Inexistência individual autônoma, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

A convenção nacional do PL foi a convenção de Jair Bolsonaro, ainda que, de vez em quando, alguém se lembrasse de que oficializada ali era a candidatura de Flávio Bolsonaro. Disse Tarcísio, carinhoso: “Flávio está aqui não pelo sobrenome”. Carinhoso – e falso. Estava ali pelo sobrenome somente. Senador somente pelo sobrenome. Candidato à Presidência somente pelo sobrenome. Produto de fenômeno dinástico, puro-sanguista, que se hierarquiza em função da família.

Da família, não. A família de Michelle – ela fez questão de esclarecer – não é a mesma de Flávio.

Milei estraga um bom momento, por Míriam Leitão

O Globo

Presidente argentino cruzou linhas vermelhas da diplomacia, criou uma crise com seu principal parceiro comercial e pôs em riscos agenda de acordos do Mercosul

A crise diplomática provocada pelo presidente Javier Milei ocorre num momento de intensa, ambiciosa e bem sucedida agenda internacional do Mercosul, com uma série de negociações promissoras. O bloco fez acordo com a União Europeia, Efta ( países nórdicos), Cingapura. Negocia com o Canadá, Emirados Árabes, Vietnã. A Inglaterra pediu conversas, a Índia quer aprofundar acordos, o tema foi assunto de conversa entre Lula e o presidente da ChinaXi Jinping. O Mercosul está sendo visto como um “oásis de regras claras”, definiu um negociador brasileiro, dizendo que é um paradoxo a crise num momento tão favorável.

Como reagir à injustiça dos EUA, por Fernando Gabeira

O Globo

Poderemos retaliar no futuro no campo dos minerais estratégicos. Para isso, precisamos pelo menos mapear os recursos

Os Estados Unidos estão sendo injustos com o Brasil. Parte das novas tarifas aplicadas a nossas exportações é baseada em acusações falsas. O país combate o trabalho escravo e reduz o desmatamento. Aqui foi aplicada a lógica do lobo e do cordeiro. Se não somos nós os culpados, então foram os nossos primos.

Num momento como este, muitos falam em retaliação. É uma reação emocionalmente compreensível. Mas, pensando bem, é possível encontrar uma solução melhor. Ela seria um grande projeto de união nacional para que a gente desenvolva capacidade real de retaliar. Você pode chamar isso de soberania, mas não deve confundi-la com os gritos de soberania nos comícios eleitorais.

União contra Lula, por Merval Pereira

O Globo

Eleitores de direita, mesmo os decepcionados hoje com o desempenho de Flávio, tendem a se unir no segundo turno, mesmo que ele não seja o candidato da direita.

Se confirmada a tendência apontada por muitas pesquisas de que qualquer candidato da direita terá a mesma possibilidade que Flávio Bolsonaro de vencer Lula num eventual segundo turno, a notícia não será boa para nenhum dos dois. O candidato oficial do bolsonarismo está bem à frente dos demais candidatos da direita no primeiro turno, Zema ou Caiado. O ex-governador Leonel Brizola disputava com Lula quem iria para o segundo turno em 1989 contra Collor e morreu acreditando que houve uma manobra para colocar o líder operário no segundo turno em seu lugar. Dizia que, para Collor, seria mais fácil derrotar Lula do que ele. Hoje, o candidato que Lula prefere num segundo turno é, sem dúvida, Flávio, o mais frágil dos três, tanto do ponto de vista histórico quanto da capacidade retórica para vencer um debate. A inexperiência de Flávio na gestão pública fica evidente diante do currículo dos ex-governadores Caiado e Zema.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

A 'herança maldita' que o PT esconde

Por Folha de S. Paulo

Dívida, estatais e expansão fiscal revelam quadro bem mais preocupante do que indicam as metas do governo

Entre junho de 2022 e junho de 2026, o impulso fiscal saltou de 1,43% para 6,7% do PIB, evidenciando uma política expansionista

As contas públicas brasileiras chegam perto do fim do terceiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em situação muito mais vulnerável do que o discurso oficial tem buscado demonstrar publicamente.

Embora a área econômica venha repetindo nas últimas semanas que cumpre as metas previstas em seu arcabouço fiscal, os principais indicadores caminham na direção oposta.

A dívida pública cresce, os déficits tornam-se recorrentes, as estatais voltam a representar risco para o Tesouro e o impulso fiscal é muito maior do que mostram as estatísticas convencionais. A distância entre a narrativa oficial e a realidade das contas públicas tornou-se impossível de ignorar.

Caso perca, Flávio vai respeitar o resultado? Por Joel Pinheiro da Fonseca

Folha de S. Paulo

Agora é o filho mais velho de Bolsonaro que considera se deve ou não embarcar no trem da ruptura

A ascensão do pai ao topo da política nacional teve o ataque às instituições como projeto central

Quando uma estratégia já deu espetacularmente errado duas vezes, por que não tentar uma terceira? Esse deve ser o raciocínio que Flávio tem contemplado agora que flerta com a negação do resultado das urnas.

Vamos recapitular. Jair Bolsonaro governou sob o signo da ruptura contra o Supremo e contra o sistema eleitoral. Conforme as investigações na esteira do 8 de Janeiro mostraram, ele tentou interferir nas eleições bloqueando eleitores e, uma vez derrotado, sentou-se com generais do alto comando para persuadi-los a bancar um golpe que impediria a passagem do poder. Também apoiou uma massa de fanatizados que terminariam por invadir os três Poderes. Discussões do julgamento à parte, o resultado para Bolsonaro foi desastroso: 27 anos de prisão.

O show de Milei, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Ataques de presidente argentino a Lula e Moraes são despropositados e desafiam lógica

Chefes de Estado deveriam abster-se de interferir em processos eleitorais de outros países

As diatribes de Javier Milei contra Lula e Alexandre de Moraes são tão despropositadas que é difícil até colocá-las sob uma moldura racional. Representam o triunfo do ego do presidente platino sobre os interesses de seu próprio país.

Não convém à Argentina criar arestas com um de seus principais parceiros comerciais. O Brasil absorve de 15% a 20% das exportações totais do país vizinho, que fica com 5% das exportações brasileiras.

Denúncias não derrubam Flávio, mas afastam pastores e eleitoras indecisas, por Juliano Spyer

Folha de S. Paulo

Candidato bolsonarista não empolga evangélicos e PT disputa massa pentecostal em igrejas

Pastores influentes evitam defender senador publicamente para proteger suas igrejas

Se depender do eleitor evangélico, a campanha de Flávio Bolsonaro, do PL, sairá cambaleante, mas de pé, de qualquer denúncia que apareça —seja a foto dele com o Sicário, matador de aluguel a serviço de Vorcaro, seja o suposto vídeo do senador nas festas do ex-banqueiro.

O vídeo nas festas ainda não foi vazado, mas sua existência foi confirmada pelo deputado Kim Kataguiri, da Missão, partido que lançou Renan Santos como concorrente de Flávio na direita.

A real ou fictícia importância do vice, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Dois impeachments e a morte de Tancredo contribuíram para renovar o papel do substituto constitucional

Hoje talvez fosse o caso de retomar a discussão sobre a utilidade do posto na era da comunicação instantânea

Houve um tempo, e não faz muito, em que a figura do vice-presidente passou a ser vista como inútil para o bom andamento dos trabalhos da República. Chegou-se até a cogitar a extinção do posto. Foi antes da carta do então vice Michel Temer (MDB) à presidente Dilma Rousseff (PT) dizendo que se sentia uma peça decorativa na fila do pão palaciano. Naquela altura, a discussão já estava esvaziada, como outras que ficaram pelo caminho.

Livro sobre casas machadianas debate o patrimônio do Rio, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo  

Moradias do escritor no centro histórico precisam de reforma urgente

Há placas comemorativas instaladas pela prefeitura em imóveis errados

Numa passagem das "Memórias Póstumas de Brás Cubas", o defunto autor, perambulando e filosofando, vai dar à porta do Pharoux, primeiro hotel de luxo estabelecido no Brasil, em 1838, famoso pela gastronomia e pelos vinhos franceses. Descobre-se com fome: "Não tendo deliberadamente andado, nenhum merecimento da ação me cabe, e sim às pernas, que a fizeram. Abençoadas pernas!".

O hotel Pharoux ficava no largo do Paço, hoje praça 15. Para Machado de Assis, tudo na geografia do Rio de Janeiro de sua época tinha um significado íntimo, que moldou sua sensibilidade artística. Orgulhava-se de ter nascido na cidade, de ter morado nela a vida inteira —em 69 anos, o lugar mais distante em que esteve foi Barbacena (MG), com idas esporádicas a Nova Friburgo (RJ)— e de ter feito dela um personagem de sua obra. Como a Paris de Balzac ou a Londres de Dickens.

Ogun, por Ivan Alves Filho*

Aqui vai uma lembrança ainda, que talvez ilustre de uma forma praticamente definitiva o que tenho escrito a respeito do papel da negociação na transformação social, diferente tanto da via revolucionária, que coloca o estado abaixo, quanto da conciliação, que nada muda.

Poesia | Quero, de Carlos Drummond de Andrade, por Paulo Autran

 

Música | Lorena Mendes - O Mundo é um Moinho (Cartola) |

 

segunda-feira, 27 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Gravações em presídios para combater as facções

Por Folha de S. Paulo

Dispositivo legal que permite monitoramento de conversas de presos é medida essencial em segurança pública

A Lei Antifacção autoriza a gravação de conversas entre detentos vinculados a facções, grupos paramilitares ou milícias e seus visitantes

A expansão do crime organizado no Brasil é indissociável do controle que esses grupos exercem nos presídios, inclusive comandando, de dentro dessas instalações, atividades ilícitas externas.

Assim, realizar grandes operações policiais e prender infratores, mesmos os líderes desses grupos, não é suficiente. A inteligência investigativa passa a ser ainda mais importante.

A Lei Antifacção, aprovada em fevereiro, avança nesse sentido com dispositivos que permitem a gravação de conversas entre presos "vinculados a organizações criminosas ultraviolentas, grupos paramilitares ou milícias privadas e os seus visitantes". O monitoramento pode ser requerido pelo delegado de polícia, pelo Ministério Público ou pela administração penitenciária.

Na eleição, dinheiro chama dinheiro, por Bruno Carazza*

Valor Econômico

Neutralidade do Centrão na disputa presidencial tem também motivação financeira

A semana passada foi marcada pela negativa do Centrão em apoiar a empreitada de Flávio Bolsonaro rumo ao Palácio do Planalto. No lançamento de sua candidatura no sábado, nenhum presidente dos partidos cortejados pelo filho Zero Um compareceu: nem Republicanos, União Brasil ou Progressistas.

Essas legendas justificam a opção pela neutralidade com o desejo de liberdade para negociar individualmente os palanques em cada Estado. Sem celebrar um casamento formal com Flávio Bolsonaro, elas ficam livres para até mesmo dar e receber apoio lulista em algumas circunscrições.

Do outro lado do espectro ideológico, pela primeira vez desde a redemocratização teremos provavelmente um único candidato à Presidência no campo da esquerda - o que abre até a possibilidade matemática de uma vitória de Lula no primeiro turno.

Entrevista | Wellington Dias: "Tirar da fome não é o fim, é só o primeiro passo", por Fernanda Strickland e Rafaela Gonçalves

Correio Braziliense

Ministro rebate ataques ao Bolsa Família, destaca os resultados da política de transferência de renda e afirma que o programa contribuiu para manter o Brasil fora do Mapa da Fome pelo segundo triênio seguido, conforme relatório da FAO

Alvo recorrente de críticas nas redes sociais, sobretudo em ano eleitoral, o Bolsa Família é a porta de entrada para uma trajetória de ascensão social, rebate o ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, Wellington Dias. "Estou falando de pessoas com quem a sociedade falhou", diz ele, que viveu a insegurança alimentar na infância no interior do Piauí.

Segundo o ministro, das 28 milhões de famílias que chegaram a receber o benefício, 9 milhões já saíram do programa por terem melhorado de vida — parte do contingente de 21 milhões de pessoas que ascenderam socialmente no país desde 2023.

Em entrevista ao Correio, Dias comentou o mais recente relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO, sigla em inglês), que confirma o Brasil fora do Mapa da Fome pelo segundo triênio consecutivo (2023-2025), com a insegurança alimentar severa recuando de 9% para 0,6% da população.

Mesmo com guerras, tarifas comerciais e mudanças climáticas pressionando os preços dos alimentos, o ministro afirma que a transferência de renda, o controle da inflação e a geração de empregos explicam o resultado. Ele também abordou a modernização do Cadastro Único, que passou a cruzar 1,7 petabyte de dados para identificar fraudes. 

Confira os principais trechos:

BTG/Nexus: Dentro da margem de erro, Lula amplia vantagem no 1º e 2º turno, por Luiz Felipe

Correio Braziliense

No 2º turno, Lula abre 4pp contra Flávio, mas vê Ronaldo Caiado crescer e também entrar em empate técnico

Os dados da 7ª rodada da pesquisa eleitoral para presidente da República divulgada pela BTG/Nexus nesta segunda-feira (27/07) apresenta um cenário de estabilidade, com o presidente Lula (PT) mantendo uma vantagem discreta, porém crescente, sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tanto no primeiro quanto no segundo turno.  

Na simulação de 1º turno, Lula lidera a corrida com 42% das intenções de voto, seguido por Flávio, que registra 33%. Na esteira, aparece Ronaldo Caiado (PSD), com 6%, seguido por Renan Santos (Missão) com 5%, Romeu Zema (Novo) com 3%, Augusto Cury (Avante) com 2% e Cabo Daciolo (Mobiliza) com 1%. Os eleitores que declaram voto em branco, nulo ou em nenhum dos candidatos somam 6%, enquanto 2% não souberam ou não responderam

O povo está fora do Congresso, por Miguel de Almeida

O Globo

Políticos construíram um edifício de facilidades, benesses, macetes e espertezas que resultou num clube fechado

Com as convenções partidárias em andamento, começam oficialmente as eleições de 2026. É uma rotina sem tropeços ou obstáculos autoritários desde a derrubada da ditadura. Parece um sonho de verão, só que a realidade de escândalos, a miséria de ideias e a grossa corrupção levam às perguntas:

— Sou representado pelos políticos eleitos para o Congresso?

Ou, mais direto:

— O Congresso é a cara do Brasil?

Para ambas as perguntas, a resposta só pode ser:

— Não.

Nem precisaria de estatística para chegar ao óbvio: basta olhar a estrutura montada com dinheiro público para alçar um cidadão (ou cidadã) ao Parlamento. Aos poucos, os políticos construíram um edifício de facilidades, benesses, macetes e espertezas que resultou num clube fechado; em resumo, é quase impossível de ser acessado por quem está do lado de fora, sem toda essa mão na roda que é dada a um “irmãozão”.

Não é o tarifaço, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

A ameaça à soberania brasileira é uma questão brasileira, na qual o Estado falha em larga escala

Sim, há ameaças à soberania do Estado brasileiro. Mas não vêm dos Estados Unidos. Estão aqui mesmo, escancaradas. São aqueles locais onde o Estado não entra e a lei não vale.

Todo mundo sabe onde estão: nas comunidades, bairros e regiões controlados pelas facções do crime organizado. O caso mais evidente é do Rio de Janeiro.

Mas na vasta e longínqua Amazônia, nem se pode dizer que a soberania do Estado está ameaçada. Já foi perdida para traficantes de cocaína e quadrilhas de garimpeiros. Conseguem despachar seu “produto” de lá até os principais portos brasileiros, burlando (ou corrompendo) diversas polícias estaduais e federais.

Por uma nova direita, por Denis Lerrer Rosenfield*

O Estado de S. Paulo

Urge que uma nova direita se apresente ao País, com contornos claros e isenta dos problemas que têm surgido em sua encarnação pela família Bolsonaro

Urge que uma nova direita se apresente ao País, com contornos claros e isenta dos problemas que têm surgido em sua encarnação pela família Bolsonaro. Liberal ou conservadora ou mesmo uma mescla dos dois, ela não pode permanecer apenas tributária do antipetismo ou das vicissitudes erráticas do bolsonarismo em geral. Tudo indica, aliás, que o potencial eleitoral deste último está se esgotando, não sendo uma alternativa viável ao governo Lula. Suas fórmulas só capturam a adesão dos convertidos. O Brasil precisa de algo novo.

Milei na convenção, por Diogo Schelp

O Estado de S. Paulo

A falta de pudor da rede de apoiadores da internacional trumpista pode ajudar Lula

A convenção que lançou a candidatura do senador Flávio Bolsonaro à Presidência pelo PL, neste sábado, escancarou a falta de rumo de sua campanha. Os discursos e as participações especiais consagraram a aposta no antipetismo e na evocação da imagem do ex-presidente Jair Bolsonaro, mas falharam em ocultar a falta de brilho pessoal daquele que deveria ser o protagonista do evento, ou seja, o candidato Flávio.

Em um discurso curto, o senador recorreu a dois temas centrais: o mito da perseguição política a Jair e o PT como culpado por todos os males da sociedade brasileira. Mas suas falas tiveram pouca repercussão, ofuscadas que foram pela participação do presidente argentino Javier Milei – que falou praticamente as mesmas coisas, mas com mais “stamina” (como diria o americano Donald Trump), e roubou as atenções.

Campanhas curtas protegem quem já tem mandato, por Lara Mesquita*

Folha de S. Paulo

Dez anos depois, campanhas mais curtas não reduziram os custos e ampliaram a desigualdade entre incumbentes e desafiantes

Mudança acentuou a desigualdade entre incumbentes, aqueles que estão exercendo mandato eletivo, e desafiantes

Neste final de semana aconteceram as primeiras convenções partidárias do ciclo eleitoral de 2026. Elas podem ser realizadas até 5 de agosto e os partidos podem registrar suas candidaturas até 15 de agosto. A campanha eleitoral oficial, com propaganda, só começa em 16 de agosto. A propaganda no rádio e na televisão, ainda mais tarde, em 28 de agosto.

O calendário ajuda a entender por que, faltando pouco mais de dois meses para a eleição, ainda se discute quem ocupará a vice na chapa de Flávio Bolsonaro e se outros partidos o apoiarão formalmente.

Para candidatos conhecidos, e especialmente postulantes a cargos majoritários, tudo vira notícia e negociação, até bate-boca em família. Para quem tenta conquistar pela primeira vez uma cadeira na Câmara, no Senado ou nas assembleias estaduais, cada semana perdida significa menos tempo para se apresentar ao eleitor.

A nova armadilha institucional, por Marcus André Melo*

Folha de S. Paulo

Quanto maior a rejeição a cada um dos polos, mais necessário o outro parece aos seus seguidores

Democracia se encontra em modo sobrevivência e competição democrática deixou de produzir renovação

Vista em perspectiva histórica, a atual eleição presidencial é singular. De um lado, o presidente da República, aos 80 anos, disputa a reeleição depois de exercer a liderança de um partido por quase meio século. Há casos de outsiders que chegaram ao poder em idade avançada (ex. Trump), mas a dependência em relação a uma única liderança é excepcional nas democracias atuais.

Do outro lado, temos o candidato-substituto de um clã familiar, escolhido porque o titular se encontra encarcerado por seu envolvimento em uma conspiração. Seu apoio deriva, em larga medida, da chancela paterna e do que chamo de voto por exclusão.

Brasil tem encontro marcado com o passado na Pequena África, por Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

O mês de julho tem se mostrado um período de tomada de decisões importantes para a reparação histórica e a preservação da memória da escravização no Brasil

Cento de Interpretação e Memória Africana no Complexo do Valongo deverá promover um encontro do Brasil com um passado que precisa ser lembrado e jamais reprisado

Para além da mobilização política em torno da luta das mulheres negras contra o racismo e o sexismo, o destino tem feito do sétimo mês do ano um período de tomada de decisões importantes para a reparação histórica e a preservação da memória da escravização no Brasil.

As tarifas dos EUA contra o Brasil são um erro estratégico, por Luiz Inácio Lula da Silva*

Washington Post (26/07/2026)

Há um ano, fui surpreendido pela publicação, em uma plataforma digital, de carta do Presidente Donald Trump que impunha tarifa de 50% a produtos brasileiros. A menção, logo no primeiro parágrafo, ao ex-presidente Jair Bolsonaro — condenado no ano passado e hoje preso por tentativa de golpe de Estado no Brasil — deixava explícita a motivação política da medida.

Nos diálogos que mantive com Trump desde então ressaltei que não é necessário compartilhar as mesmas visões de mundo para buscar relação mutuamente benéfica entre nossos países. Afinal, somos líderes das duas maiores democracias e economias das Américas. Negociações entre nós e decisões da Suprema Corte dos EUA desmontaram a primeira versão do tarifaço.

Mas este mês, desconsiderando dezenas de reuniões entre nossas equipes, sólidos argumentos técnicos e documentos que entreguei pessoalmente ao próprio Trump, o governo norte-americano decidiu adotar novas tarifas contra o Brasil que vão de 12,5% a 37,5%. Como resultado, a Global Trade Alert, organização independente baseada na Suíça, estima que o Brasil e a Turquia são hoje os segundos países mais tarifados pelos Estados Unidos, depois apenas da China. E isso apesar do superávit norte-americano no comércio bilateral de bens e serviços, que ao longo de quinze anos consecutivos acumula 428 bilhões de dólares.

Poesia | Eu, Etiqueta, de Carlos Drummond de Andrade, por Paulo Autran

 

Música | Marisa Monte e Paulinho da Viola - Dança da Solidão, de Paulinho da Viola

 

domingo, 26 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

É preocupante cobertura vacinal global insuficiente

Por O Globo

Brasil tem se recuperado nos últimos anos, mas ainda não atinge as metas em vários imunizantes

São inquietantes os dados divulgados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) sobre a cobertura vacinal global. Houve melhora em 2025, mas não o bastante para fazer o mundo voltar às taxas observadas em 2019, antes da pandemia. Uma das referências utilizadas para mensurar o estágio de vacinação de populações é a Vacina Tríplice Bacteriana (DTP). No ano passado, 90% das crianças no mundo receberam pelo menos uma dose e 85% completaram as três previstas. Embora tenha havido melhora na comparação com 2024, a cobertura global se mantém abaixo da registrada em 2019.

Análise das situações: relações de força. Antonio Gramsci*

É o problema das relações entre estrutura e superestrutura que deve ser posto com exatidão e resolvido para que se possa chegar a uma justa análise das forças que atuam na história de um determinado período e determinar a relação entre elas.  É necessário mover-se no âmbito de dois princípios: 1) o de que nenhuma sociedade se põe tarefas para cuja solução ainda não existam as condições necessárias e suficientes, ou que pelo menos não estejam em vias de aparecer e se desenvolver; 2) e o de que nenhuma sociedade se dissolve e pode ser substituída antes que se tenham desenvolvido todas as formas de vida implícitas em suas relações (verificar a exata enunciação destes princípios).

[“Nenhuma formação social desaparece antes que se desenvolvam todas as forças produtivas que ela contém, e jamais aparecem relações de produção novas e mais altas antes de amadurecerem no seio da própria sociedade antiga as condições materiais para sua existência.  Por isso, a humanidade se propõe sempre apenas os objetivos que pode alcançar, pois, bem vistas as coisas, vemos sempre que estes objetivos só brotam quando já existem ou, pelo menos, estão em gestação as condições materiais para sua realização” (Prefácio à Crítica da economia política )] [23]. 

A América contra si mesma, por Luiz Sérgio Henriques

O Estado de S. Paulo

O grande país demite-se em cena aberta da sua história e declina da sua parte de responsabilidade pelo destino do mundo

A comemoração dos 250 anos da Declaração de Independência dos Estados Unidos da América, evento revolucionário com repercussões globais em sua época, transcorre numa atmosfera pesada por conta de Trump e do trumpismo. Fácil constatar que há luzes e sombras por toda parte, no passado e no presente. Por isso, mesmo que aos tropeços, damo-nos conta da complexidade daquela sociedade e do seu percurso, bem como da sua relevância para a sorte geral das liberdades. Esta percepção, naturalmente, vai muito além das palavras de ordem que herdamos, calcificadas, do conflito particular que findou em 1989.

Para os que se colocam à esquerda, a hora é boa para revisitar os próprios clássicos e reavaliar o experimento norte-americano. Nada melhor do que partir de Karl Marx, quando menos por ser o autor da primeira visão histórico-sistemática da modernidade capitalista.

Quando a distopia americana de Trump vai além do gênero literário, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

A guerra cultural promovida pelo Maga produz inimigos simbólicos: imigrantes, professores, universidades, ambientalistas, pessoas LGBTQIA+, movimentos negros e jornalistas

“Estamos vivendo uma distopia”, comentou um velho amigo radicado há décadas nos Estados Unidos, casado com uma norte-americana, com quem tem um casal de filhos. Pesa em sua avaliação o fato de que os imigrantes latinos são perseguidos nas ruas por agentes federais que atuam como uma verdadeira milícia patrocinada pelo presidente Donald Trump. Mascarados e fortemente armados, eles abordam trabalhadores, cercam bairros, invadem locais de trabalho e detêm pessoas com base na aparência, no sotaque ou na suspeita de situação migratória irregular. Práticas características do fascismo agora fazem parte do cotidiano da sociedade.

Trump e Milei em campanha no Brasil, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Sem coligações internas, Flávio pede ajuda da direita, mas qual direita? A internacional

O senador Flávio Bolsonaro lançou a candidatura à Presidência no seu pior momento, com o barco fazendo água, falta de material e fuga de mão de obra para consertar as avarias. Adernando, sem rumo e sem apoio político interno, ele pediu “união” da direita nacional, mas recorre à ação da direita internacional. Ou, mais diretamente, à ingerência externa nas eleições brasileiras.

A presença de Javier Milei à convenção deste sábado é um troféu dessa estratégia, mas o que mais pesa é a presença oculta de Donald Trump, que atacou o Brasil com mais 37,5% de tarifas e tentou enviar dois funcionários do Departamento de Estado para bisbilhotar o processo eleitoral e o TSE, sem sucesso. Não por coincidência, a tentativa ocorre dias depois de Flávio repetir o erro do pai que decretou sua inelegibilidade, reunindo embaixadores estrangeiros para mentir sobre o processo eleitoral e pedir “observadores internacionais” em outubro.

Disputa eleitoral: sobram desafios e faltam ideias, por Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

Planos e projetos provavelmente logo aparecerão, mas o atraso já é assustador, como seria até mesmo num tranquilo país escandinavo

Num quadro global de brutalidade, incerteza econômica, protecionismo e insegurança inflada pelas pretensões imperiais de Donald Trump, o Brasil tem conseguido evitar conflitos, manter a estabilidade política e sustentar a atividade econômica, o emprego e uma inflação tolerável, embora distante da meta de 3%.

Os números mostram um mercado de trabalho em condições favoráveis no trimestre encerrado em maio, com desocupação abaixo de 6% e nos mais baixos níveis da série iniciada em 2012. O quadro é manchado pela informalidade, pelo subemprego e pelas condições da camada inferior da classe média e dos grupos pobres. Mas a pobreza extrema foi quase erradicada há alguns anos e pouquíssimos brasileiros ainda enfrentam a fome.

Tempo contra Flavio, por Merval Pereira

O Globo

Ainda podem surgir fatos novos que inviabilizem a candidatura de Flavio, e essa insegurança política só terminará se ele conseguir chegar ao segundo turno

A pesquisa do DataFolha que deu uma vitória para o presidente Lula de cinco pontos percentuais sobre Flavio Bolsonaro no segundo turno, portanto fora da margem de erro, teve o dom de dar alento aos dois candidatos. Lula abriu vantagem mais folgada, mas Flavio, apesar de tantos escândalos e brigas domésticas, manteve a competitividade. A pesquisa não pegou a “reconciliação” entre a madrasta Michelle e o candidato do PL, o que pode indicar que Flavio pode melhorar sua posição se recuperar os votos das mulheres e evangélicos que perdeu ao confrontar Michelle.

Flávio Bolsonaro resiste nas cordas, por Elio Gaspari

O Globo

O esfarelamento partidário de Flávio faz desta a campanha dos sonhos de Lula

Flávio Bolsonaro foi para a convenção de seu partido, o PL, e só dele. Uma tragédia: o Centrão declarou-se neutro, leia-se aberto a um entendimento com outros candidatos, inclusive Lula. O bolsonarismo dinástico levou a direita para as cordas. O que se apresenta como uma situação de estabilidade de fato o é, mas o filme tende a terminar com Lula no Planalto pela quarta vez. O esfarelamento partidário de Flávio faz desta a campanha dos seus sonhos.

Em maio Lula havia ampliado de 3 para 9 pontos percentuais sua vantagem sobre Flávio (40% a 31%). O Datafolha de sexta-feira indica que a vantagem seria de 6 pontos (48% a 43%). Um empate técnico, com Lula a três pontos da maioria absoluta. Se não acontecer nada, Lula ganha a eleição. Em agosto de 1989, Lula patinava e um segundo turno entre Fernando Collor e Leonel Brizola era fava contada. Lula tomou o lugar de Brizola e foi derrotado.

Medo e delírio em Maceió, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Ex-seminarista, tesoureiro de Collor usava citações em latim ao dissertar sobre corrupção

“Na longa noite em que seria morta, Suzana Marcolino foi ao salão de beleza Liu’s, no centro de Maceió, pintou as unhas na cor renda — discreta variação do branco — e pediu um leve corte nos cabelos”. É assim, com tintas de Garcia Márquez, que Xico Sá inicia a crônica de uma morte anunciada: a de Paulo César Farias, o PC. Ele e a namorada Suzana foram encontrados com balas no peito na manhã de 23 de junho de 1996. Era o fim trágico do maior vilão da Nova República: o tesoureiro responsável pela ascensão e queda do presidente Fernando Collor.

É preciso entender o que os números querem dizer, por Dorrit Harazim

Por O Globo

Por mais essenciais que sejam, estatísticas acabam passando ao largo de quem não tem tempo para dar vida a abstrações

Cada nova edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública merece atenção e esquadrinhamento, sobretudo porque o retrato final continua a apontar para uma sociedade doente — doente de violência. Não foi diferente na semana passada, quando o Fórum Brasileiro de Segurança Publica divulgou os dados do seu 20º levantamento nacional. No geral, houve melhora considerável: pela primeira vez em duas décadas o número de mortes violentas por 100 mil habitantes ficou abaixo de 20. Em 2017, era bem pior: 31,2 mortes por 100 mil habitantes. Soa pouco? No Japão, esse índice fica em 0,3; na Itália e Coreia do Sul, não chega a 0,7; e nos Estados Unidos, estacionou em torno de 4,0 por 100 mil habitantes.

Sombra de Bolsonaro e Milei refletem isolamento de Flávio, por Igor Gielow

Folha de S. Paulo

Senador assume sobrenome em evento com ares de festa de família, com direito a fantasma digial do pai

Protagonismo inédito a presidente estrangeiro em convenção é coerente com a submissão ao trumpismo

A convenção do PL que ratificou o nome de Flávio Bolsonaro como candidato à Presidência neste sábado (25) foi um espetáculo inusual em que o senador fluminense enfim abraçou seu sobrenome e destacou como grande cabo eleitoral um presidente impopular de nação estrangeira.

Sem grandes novidades retóricas a apresentar, Flávio comandou um evento com ares de festa de família —do tipo lacrimosa para fotos, dado o emprego de lenços para enxugar suas lágrimas em São Paulo.

"Eu sei a responsabilidade que meu sobrenome carrega. Eu te amo [meu pai]", discursou o agora candidato, que enfrenta uma estagnação nas pesquisas eleitorais. No mais recente levantamento do Datafolha, ele marca 32% ante 40% no primeiro turno contra o presidente Lula (PT).