segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Novos desastres climáticos desafiam as autoridades

Por O Globo

Pelo menos 83% do território do Rio e metade dos municípios brasileiros são vulneráveis a tragédias ambientais

A tragédia das chuvas na Região Serrana do Rio, um dos maiores desastres naturais da História do país, com mais de 900 mortes, completou 15 anos ontem. Desde 2011, líderes mundiais participaram de 14 conferências do clima, os alertas de especialistas sobre a iminência de novas catástrofes foram mais enfáticos e constantes, e novas tragédias aconteceram para confirmar que não são alarmistas. Temporais mataram 242 pessoas em Petrópolis e 133 em Pernambuco em 2022, 65 no Litoral Paulista em 2023 e 185 no Rio Grande do Sul em 2024, deixando cidades inteiras debaixo de água. Os números assustadores aparentemente não bastaram para que as medidas de prevenção necessárias fossem tomadas.

Entrevista | PEC da Segurança ‘subiu no telhado’, diz José Guimarães

Por Andrea Jubé e Murillo Camarotto / Valor Econômico

Líder do governo na Câmara avalia que proposta não deve ser aprovada, vê feridas na relação com Motta ‘cicatrizadas’ e analisa eleições

Em meio à crise com a saída prematura do ministro Ricardo Lewandowski do Ministério da Justiça, o líder do governo na Câmara dos Deputados, José Guimarães (PT-CE), acha difícil que a proposta que era a bandeira da pasta, a proposta de emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública, seja votada antes das eleições. “Subiu no telhado”, admitiu. Ele também descarta a criação de uma pasta da Segurança Pública ainda neste ano.

Sobre o desentendimento do PT com o presidente da Casa, deputado Hugo Motta (Republicanos-PB), no fim do ano, afirmou que as feridas “estão cicatrizando”. Acrescentou que a redução da escala 6 x 1 é prioridade do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva neste semestre.

Vice-presidente do PT e coordenador do grupo de trabalho eleitoral da sigla, ele disse que o partido tem nesta eleição o desafio de alterar a correlação de forças na Câmara e no Senado. A meta é eleger pelo menos 90 deputados federais, e impedir a oposição de fazer maioria no Senado. Em tom de desabafo, reclamou da vida difícil do governo no Congresso: “É dolorosa a realidade aqui dentro. Chega a ser dilacerante”.

Guimarães sustentou que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, não tem o direito de sair do governo e ir pra casa. Ele defende que Haddad seja candidato em São Paulo, ao governo ou ao Senado. “O Haddad tem missão a cumprir”. 

A seguir os principais pontos da entrevista ao Valor:

O BC pode cortar a Selic contra o mercado? Por Alex Ribeiro

Valor Econômico

A mensagem do Copom de dezembro acabou sendo contaminada por outros fatores, como as preocupações com as eleições de 2026 e as remessas de lucros e dividendos ao exterior

O jeito de os banqueiros centrais se comunicarem mudou muito desde que Alan Greenspan, que foi chefe do Federal Reserve (Fed), afirmou que havia aprendido a “murmurar com grande incoerência”. Se algo que ele tivesse dito parecesse muito claro, era porque o ouvinte havia entendido mal. Agora, a nova fronteira é falar até por memes, como fez o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, na entrevista do Relatório de Política Monetária (RPM), citando um deles.

A mensagem que ele queria passar: alguns participantes do mercado financeiro se enganaram quando leram uma mensagem conservadora apenas porque o Comitê de Política Monetária (Copom) do BC não telegrafou que vai começar a cortar os juros já nesta reunião de janeiro.

Na guerra das montadoras, o lobby não tira férias. Por Bruno Carazza

Valor Econômico

Grandes questões econômicas são decididas na surdina, com pouca discussão na sociedade

O Estado brasileiro é uma fonte quase inesgotável de oportunidades de negócios e as grandes empresas que atuam no país sabem que, para se manter lucrativas, precisam combinar estratégias de mercado com o desenvolvimento de relações íntimas com a classe política.

É difícil cravar que as coisas por aqui são piores do que em outros países, mas lacunas institucionais levam a crer que as decisões de políticas públicas e econômicas, no Brasil, quase sempre são tomadas levando em conta apenas os interesses privados, e não o que seria melhor para a sociedade.

Trump: a lei sou eu. Por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Ele parece ignorar algumas questões essenciais sobre o mercado global de petróleo, que pretende controlar

Donald Trump tem certeza de que é o dono do mundo — e age com base nessa convicção —, mas parece não ter conhecimento de questões cruciais envolvendo desde petróleo até armas nucleares. Dentro de um mês, expira o último e mais amplo acordo nuclear entre Estados Unidos e Rússia. Com isso, as duas potências estarão livres para aumentar (e eventualmente usar) seus arsenais sem qualquer restrição. Jornalistas do New York Times perguntaram a Trump, em entrevista na semana passada, como ele se preparava para essa situação. Ele respondeu vagamente:

— Se vai expirar, vai expirar.

Os jornalistas ficaram com a nítida impressão de que Trump simplesmente não estava a par do assunto. Tanto que acrescentou, sem dar qualquer detalhe:

— Faremos um acordo melhor.

Jornalismo investigativo. Por Miguel de Almeida

O Globo

A civilização ganha com a imprensa independente

Por meio de soldados arrependidos, o jornalista Seymour Hersh soube da chacina em My Lai. Na manhã de 16 de março de 1968, helicópteros da Companhia Charlie desceram no pequeno vilarejo vietnamita. A ordem: destruir a aldeia suspeita de abrigar combatentes vietcongues. Entre 7h30 e 11h, os soldados mataram cerca de 500 pessoas, entre crianças, mulheres e idosos. Estupraram mulheres e meninas. Bebês foram mortos a tiros ou na ponta das baionetas.

Nenhuma arma foi encontrada.

A face do crime. Por Irapuã Santana

O Globo

Protocolo de Reconhecimento de Pessoas é fundamental para que as polícias abandonem métodos amadores

No dia 5, o Ministério da Justiça e Segurança Pública editou uma norma histórica: a Portaria 1.122/2026, que institui o Protocolo Nacional de Reconhecimento de Pessoas. Trata-se de um guia fundamental para que as polícias brasileiras abandonem métodos amadores e passem a tratar o reconhecimento como prova científica e rigorosa.

Lula e a Venezuela. Por Diogo Schelp

O Estado de S. Paulo

Se governo interino colaborar com Trump, as atenções sobre a Venezuela tendem a diminuir

Pode soar contraintuitivo, mas o ocaso de Nicolás Maduro pode ter vindo em boa hora para os planos de reeleição do presidente Lula. Como assim, se Lula e o PT têm uma relação histórica de amizade e conivência com o regime chavista, que esteve sob o comando de Maduro nos últimos 15 anos? Como assim, se o episódio revela a disposição de Donald Trump de usar a lei do mais forte para fazer valer seus interesses externos? As duas premissas são verdadeiras, mas é preciso analisar quais são os riscos reais que elas carregam para o projeto de poder petista.

Tutelas na América Latina fracassaram. Por Oliver Stuenkel

O Estado de S. Paulo

A promessa de ‘boa governança’ na AL por meio de supervisão externa mostrou-se ilusória

A história das “tutorias fiscais” – protetorados de facto – dos Estados Unidos na América Latina explica a hesitação do setor petrolífero americano com a Venezuela. Na semana passada, após a operação militar dos EUA que levou à queda de Nicolás Maduro, o governo Trump anunciou que pretende administrar, a partir de Washington, a produção, a venda e o uso das receitas do petróleo venezuelano.

A proposta vai além da supervisão técnica: ao sugerir que os EUA poderão decidir o destino dos recursos, dá a Washington influência direta sobre o principal eixo do orçamento do país sul-americano. Trata-se de uma iniciativa sem precedentes no pós-Guerra Fria – mas com paralelos na história americana do início do século XX.

Bye bye’, Maduro. Por Denis L. Rosenfield

O Estado de S. Paulo

Eis uma oportunidade que não poderia ser perdida, capaz de assegurar o futuro da democracia e o enterro do ‘socialismo do século 21’

Maduro, hoje recolhido a uma cela num presídio nova-iorquino – destino merecido – foi um cruel ditador, impiedoso em suas ações. Seus meios de governar, se é que se pode utilizar essa expressão, foram a violência generalizada por meio da repressão, da tortura, do estupro, do silenciamento de toda e qualquer crítica. Utilizou um sistema repressivo baseado nas Forças Armadas, na polícia e nas milícias bolivarianas, com o uso constante da intimidação e do assassinato. Nada o detinha em sua dominação despótica. Eis o resultado do tão alardeado “socialismo do século 21”, produtor de miséria, de desigualdade social extrema, reduzindo a sua população à maior pobreza, enquanto a nomenclatura “socialista”, “comunista” usufrui dos maiores privilégios. Que tal regime tenha sido e seja ainda para alguns, um farol da esquerda beira ao incompreensível.

Master era um morto-vivo. Por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Banco não recolhia nem dinheiro que instituições são obrigadas a deixar no BC

Ativos eram superavaliados ou fictícios, não entrava dinheiro para cobrir o que saía

O Master foi liquidado por "profunda e crônica crise de liquidez" que comprometeu a "capacidade para satisfazer seus compromissos". Por "grave e reiterado descumprimento de normas", em "particular quanto à manutenção dos níveis regulamentares de recolhimentos compulsórios" e gestão de riscos de crédito e liquidez. Por "prática de ilícitos graves no âmbito de operações de cessão de ativos a terceiros". É o que escreveu o Banco Central em esclarecimentos prestados ao TCU (Tribunal de Contas da União) em 18 de dezembro de 2025.

De Lima Barreto ao Banco Master. Por Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

A degradacao institucional expõe também o TCU

O vale tudo pós-Lava Jato explica muita coisa, mas não se trata apenas da velha promiscuidade entre Estado e grandes interesses privados

Em "O Triste Fim de Policarpo Quaresma", o personagem Genelício é o arquétipo do barnabé indolente, inepto, e diligente apenas na arte de parecer ocupado. Finge trabalhar enquanto se ocupa obsessivamente de regras obsoletas e protocolos irrelevantes. Dizia dedicar-se à redação de um monumental volume intitulado "Os Tribunais de Contas nos Países Asiáticos" —iniciativa tão inútil quanto o aprendizado do javanês em outro texto cáustico de Lima Barreto. O autor escrevia em 1911. Mais de um século depois, porém, o tema outrora exótico e quase irrelevante dos tribunais de contas converteu-se em questão central da agenda pública na atual conjuntura.

Legitimidade democrática e revisão dos tribunais. Por Lara Mesquita

Folha de S. Paulo

Segundo cientista político, certas elites encontram no Judiciário proteção contra mudanças legislativas

Cortes que revisam leis aprovadas não protegem minorias nem colaboram para o desenvolvimento

Há um ano publiquei meu primeiro artigo neste espaço. Na ocasião, recorri a Adam Przeworski para discutir o que esperamos da democracia e quais são seus principais desafios. Entre estes, mencionei o cenário que se desenhava com o retorno de Donald Trump à Presidência dos Estados Unidos e a fraude nas eleições venezuelanas.

Nesta primeira coluna de 2026 volto a recorrer a Przeworski. Em artigo ainda em fase de preprint, o professor da NYU, em coautoria com José Antonio Cheibub, Fernando Limongi e Ye Wang, analisa diferentes modelos de controle constitucional e o papel contramajoritário das cortes que exercem revisão ex-post, isto é, sobre leis já aprovadas pelo Legislativo (modelo que adotamos no Brasil).

Sobre a noção de classes e grupos subalternos em A. Gramsci

SciELO - Scientific Electronic Library Online (junho 2024)

Resumo:

O objetivo do artigo é resgatar a concepção de classes e grupos subalternos no pensamento de Antonio Gramsci, demarcando a relação orgânica do tema com suas condições de vida, suas origens sardas e a “questão meridional”. Através de um estudo bibliográfico e teórico-filológico, recupera-se a presença dos conceitos nos escritos pré-carcerários, o aprofundamento nos Cadernos do cárcere, com destaque para os Cadernos 3 e 25, e as mediações com outras categorias desenvolvidas na obra carcerária.

Palavras-chave:
Gramsci; Classes subalternas; Grupos subalternos

Introdução

“Classes e grupos subalternos” estão entre os conceitos gramscianos mais discutidos nas últimas décadas, empregados nos mais variados discursos acadêmicos, científicos e políticos. Seu uso difundiu-se e alastrou-se largamente, em especial a partir dos estudos do coletivo indiano Subalter Studies, surgido nos anos 1980, ganhando popularidade entre os estudiosos de língua inglesa. Essa rápida disseminação, contudo, não raro vem acompanhada de equívocos interpretativos, decorrentes de uma apropriação indireta da obra de Gramsci, sem recorrer às fontes originais. Não é incomum, por exemplo, encontrarmos referência à discussão da subalternidade sem menção ao nome de Gramsci, o qual, mesmo que muito citado, permanece pouco lido na fonte viva de seu pensamento.

Poesia | Poética, recitado por Vinicius de Moraes

 

Música | Roberta Sá - Virada

 

domingo, 11 de janeiro de 2026

Opinião do dia – Antonio Gramsci*

“O homem ativo de massa atua praticamente, mas não tem uma clara consciência teórica desta sua ação, a qual, não obstante, é um conhecimento do mundo na medida em que o transforma. Pode ocorrer, aliás, que sua consciência teórica esteja historicamente em contradição com o seu agir. É quase possível dizer que ele tem duas consciências teóricas (ou uma consciência contraditória): uma, implícita na sua ação, e que realmente o une a todos os seus colaboradores na transformação prática da realidade; e outra, superficialmente explícita ou verbal, que ele herdou do passado e acolheu sem crítica. Todavia, esta concepção “verbal” não é inconsequente: ela liga a um grupo social determinado, influi sobre a conduta moral, sobre a direção da vontade, de uma maneira mais ou menos intensa, que pode até mesmo atingir um ponto no qual a contraditoriedade da consciência não permita nenhuma ação, nenhuma escolha e produza um estado de passividade moral e política. A compreensão crítica de si mesmo é obtida, portanto, através de uma luta de “hegemonias” políticas, de direções contrastantes, primeiro no campo da ética, depois no da política, atingindo, finalmente, uma elaboração superior da própria concepção do real. A consciência de fazer parte de uma determinada força hegemônica (isto é, a consciência política) é a primeira fase de uma ulterior e progressiva autoconsciência, na qual teoria e prática finalmente se unificam.”

*Antonio Gramsci (1891-1937). Cadernos do Cárcere, v.1. p. 103. Civilização Brasileira, 2006.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Acordo entre Mercosul e UE deve ser celebrado

Por O Globo

Em tempos turbulentos, ele representa uma vitória do multilateralismo e uma derrota do protecionismo

Num mundo fraturado pelo protecionismo, é uma resposta histórica corajosa o acordo entre Mercosul e União Europeia, cuja assinatura oficial está prevista para esta semana em Assunção, no Paraguai. Referendado na última sexta-feira pela UE, ele é o maior tratado comercial já firmado, reunindo um mercado com 721 milhões de consumidores e PIB de US$ 22,34 trilhões. O Brasil será sem dúvida um dos principais beneficiários, tanto pelas exportações quanto pelas importações. O acordo prova que, a despeito das medidas protecionistas que proliferam, livre-comércio e multilateralismo estão vivos — e ainda são o melhor caminho para o planeta.

As negociações se arrastavam desde 1999. Sofreram inúmeras reviravoltas devido à pressão de grupos protecionistas, em especial agricultores europeus (os protestos pela Europa mostram que ainda não desistiram). As tratativas ganharam fôlego depois do tarifaço de Donald Trump, que forçou os países prejudicados a buscar novos mercados e alianças estratégicas. Na Europa, a resistência que emperrava o acordo se tornou gradativamente minoritária. A assinatura estava prevista para dezembro, mas acabou adiada em meio às dúvidas da Itália, que exigia salvaguardas mais robustas para os agricultores. Os italianos cederam depois do ataque americano à Venezuela.

Perda de tempo. Por Merval Pereira

O Globo

O presidente dos Estados Unidos parece ter esquecido, ou não se dá conta, é de que sem uma democracia estabelecida é difícil, quase impossível, fazer negócios que exigem muitos investimentos de longo prazo.

Quando a criação do ministério da Segurança Pública volta a ser uma possibilidade, diante da crise de violência que assola o país, e o domínio do crime organizado torna-se uma ameaça explícita, vale a pena lembrar, e lamentar, que há mais de 20 anos essa mesma discussão dominava a política nacional. O então todo poderoso ministro Chefe do Gabinete Civil, José Dirceu, declarava sua vontade de ser nomeado o “czar antidrogas”, e numa manhã de novembro de 2003, em reunião com políticos, empresários e investidores em Campos de Jordão, deu um choque na plateia ao afirmar que se a América do Sul não se unisse no combate das drogas, os Estados Unidos poderiam invadir a Colômbia e, a partir dela, assumir o controle da Amazônia.

Lembrar é preciso. Por Bernardo Mello Franco

O Globo

Em livro, cientista político Leonardo Avritzer lembra tentativa de golpe e alerta para permanência do extremismo: “Democracia segue sendo um projeto contencioso”

A cada 15 anos, o Brasil esquece o que aconteceu nos últimos 15 anos. A frase foi cunhada por Ivan Lessa antes do surgimento da internet. Na era das redes sociais, há quem precise de apenas 15 minutos para perder a memória.

Na semana em que o 8 de Janeiro completou três anos, parte da elite dirigente fez uma opção pela amnésia. Os presidentes da Câmara e do Senado ignoraram a data. A oposição só se manifestou para pedir impunidade aos golpistas. No Supremo, o ministro Edson Fachin marcou um ato com exposição e rodas de debate. Dos dez juízes em atividade na Corte, foi o único a comparecer.

Relembrar os ataques à democracia brasileira é o mote de “O golpe bateu na trave”, do cientista político Leonardo Avritzer. Lançado no fim de 2025, o livro sustenta que a legalidade foi salva por pouco. E discute os fatores que mantêm o extremismo vivo entre nós.

Trump e o Cartel de los Soles. Por Elio Gaspari

O Globo

Termo foi usado em denúncia americana contra líder venezuelano no passado, mas governo constatou nesta semana que grupo não existe como uma organização real

Entre as acusações dos EUA contra Nicolás Maduro estava a de liderar o Cartel de los Soles no tráfico de drogas e no terrorismo. Ela foi denunciada pelo Departamento de Justiça em 2020 e reiterada em 2025.

O Cartel de los Soles nunca traficou drogas nem praticou atentados. Na verdade, nunca foi um cartel. Tratava-se de uma criação de jornalistas para designar o coração do chavismo.

A atribuição de traficâncias e atentados ao Cartel de los Soles era algo como associar a Banda de Música da União Democrática Nacional, a velha UDN, a atividades culturais, como concertos.

A Banda de Música da UDN foi uma criação da imprensa na segunda metade do século passado para designar um grupo de parlamentares aguerridos que faziam oposição aos governos de Getulio Vargas, Juscelino Kubitschek e João Goulart.

Parábola. Por Dorrit Harazim

O Globo

Ano começou com o mundo parado à porta da Casa Branca, com o guardião-mor destruindo até mesmo leis que funcionavam mal

Começa assim o conto “Diante da lei”, que Franz Kafka publicou ainda em vida (1915) e foi postumamente incorporado à história de Josef K. no célebre romance “O processo”, do mesmo autor:

— Diante da lei, encontra-se um porteiro. A esse porteiro chega um homem do campo que pede para entrar na lei. Mas o porteiro diz que não pode conceder-lhe entrada naquele momento. O homem então pergunta se poderá entrar mais tarde. “É possível”, diz o porteiro, “mas não agora”.

Na parábola citada, o portão da lei parece estar sempre aberto, e o recém-chegado se inclina para espiar o que há lá dentro. O porteiro percebe e ri.

— Se a tentação é tão grande, tente entrar apesar da minha proibição. Saiba que tenho poder, mas sou apenas o porteiro do escalão mais baixo.

Muita coisa está fora da ordem. Por Míriam Leitão

O Globo

Acordo Mercosul-União Europeia dá sinal de que o mundo pode escapar do destino que Trump aponta com diplomacia, comércio e cooperação

No meio da tensa reunião em Brasília no sábado, dia 2, para discutir a invasão da Venezuela por Donald Trump, alguém perguntou: “E o Putin?.” Outra autoridade respondeu: “Ah, foi sequestrar o Zelensky.” Era uma tentativa de descontrair, mas também apontava para um dos efeitos colaterais da operação de Trump, a ideia de que, se um país é mais forte, não precisa respeitar a integridade territorial de outros estados nacionais. A liberdade de invadir países alegando a própria segurança libera Putin de condenação, e dá um salvo conduto para a China em relação a Taiwan. A investida, por enquanto apenas retórica, de Trump sobre a Groenlândia traz de volta lembranças sombrias da guerra dos mundos, que terminou em 1945.

Acordo Mercosul-União Europeia amplia margem de manobra do Brasil. Por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Do ponto de vista da relação com os Estados Unidos e a China, o acordo com a UE funciona como contrapeso oportuno. Permite ao Brasil resistir a acordos bilaterais muito assimétricos

O acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia reposiciona o Brasil no tabuleiro internacional num momento de forte turbulência geopolítica mundial. A combinação entre o unilateralismo norte-americano, a crescente centralidade da China na economia globalizada e a crise de governança regional na América do Sul exige do governo Lula que evite o alinhamento automático a qualquer polo de poder. Nesse aspecto, o acordo com a UE amplia a margem de manobra estratégica do Brasil tanto diante dos Estados Unidos quanto da China. Há que se destacar o mérito do Itamaraty, que persistiu na construção das bases do acordo com muita resiliência, durante 26 anos.

Ano eleitoral começa com juros altos e PIB fraco. Por Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

Tanto para o governo quanto para o setor privado, o custo do capital se mantém como importante obstáculo ao investimento produtivo

Maior potência industrial da América Latina e do Hemisfério Sul, o Brasil completou mais um ano de crescimento econômico puxado pelo agronegócio, o setor mais dinâmico no último quarto de século. Até o terceiro trimestre, o Produto Interno Bruto (PIB) superou por 2,4% o resultado de um ano antes. O agro produziu 11,6% mais do que no período anterior, enquanto os serviços avançaram 1,8%, liderando a oferta de empregos e a produção industrial aumentou 1,7%, mantendo o padrão discreto da última década.

Donald Trump versus Mercosul-EU. Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Se ataca os Brics e desdenha a Europa, Trump ficará indiferente ao acordo Mercosul-UE?

Depois de invadir a Venezuela e plantar a bandeira dos Estados Unidos não num país, mas na América Latina, como advertência e símbolo de dominação, Donald Trump dá passos concretos para a ocupação da Groenlândia, confrontando o poder e a influência da Europa, justamente quando o acordo de livre-comércio da União Europeia com o Mercosul, o maior do mundo, se materializa.

Em sua megalomania, Trump negocia com quem tem tamanho e musculatura para enfrentar os EUA, como a China, mas usa a força do império para intimidar e subjugar o resto do mundo. Com governos fracos e o avanço da extrema direita – como na Alemanha e na França, as duas maiores economias europeias –, a Europa é um alvo que, mesmo que não seja, ele considera fácil.

Uma vitória estratégica para o Brasil. Por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

A lição é que alienar a direita por suas ligações com grupos radicais pode impedir exercício da liderança

A aprovação do acordo Mercosul-União Europeia é estratégica para o Brasil. Apesar de todas as restrições à importação de produtos agrícolas pelos europeus, o Brasil passa a participar da maior zona de livre comércio do mundo, com um bloco que compartilha os valores democráticos e liberais, reduz a relativa dependência da China e o efeito das pressões americanas.

Trump, o petróleo e a defesa da democracia. Por George Gurgel de Oliveira*

É de espantar o comportamento do Senhor Donald Trump como presidente dos Estados Unidos da América.

Desde o início, ele se comporta, no exercício da presidência americana, de maneira inconsequente e perigosa diante de um mundo à beira de precipícios que podem nos levar a caminhos de não retorno, frente à sua própria insensatez e às consequências do seu (des)governo diante da própria sociedade norte-americana e os seus reflexos na complexa realidade internacional, diante do protagonismo assustador do complexo industrial militar e nuclear ora existentes, considerando as atuais relações conflituosas dos Estados Unidos da América (EUA) com a União Europeia, a Rússia, a China e a América Latina, particularmente com a Venezuela.

A mais-valia do mando. Por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

O excesso de poder, ponto extremo de um sistema, pode provocar a sua reversão; aconteceu com a Lava Jato

Depois de se deixar intimidar por um general em cadeira de rodas, o Supremo cresceu e se impôs ao golpismo. Cresceu demais, talvez

No fluxo e refluxo dos procedimentos do STF chamam a atenção atos incompatíveis com a expectativa pública de que o guardião das leis fundamentais da República seja também do zelo com a reputação própria. No latinório que doura a pílula jurídica, ele comprovaria o "argumentum ad verucundiam", isto é, a suposição de que se um magistrado decide sobre algo, sendo esse magistrado digno de crédito, então a decisão deve ser entendida como tal pelo comum de todos.

Dias na trincheira. Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Livro de ex-editor de Política da Folha conta como foi cobrir a Presidência de Jair Bolsonaro durante a Covid-19

Obra dá destaque para o impacto exercido pela pandemia, tema que aparece pouco na atual produção cultural

Lá por meados de 2020, quando já nos encontrávamos sob os rigores impostos pela Covid-19, mas ainda não tínhamos ideia de quando a pandemia acabaria, fiquei com a sensação de que ela seria um divisor de águas em nossas vidas e na sociedade.

Pistas de quem ficou com o dinheiro no fim da ciranda do Master. Por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Fundos faziam investimentos superfaturados em outros fundos para esconder dinheiro

Questão agora é saber quem estava na ponta do lucro gordo, Vorcaro ou mais poderosos

Banco Master emprestava dinheiro a empresas. Essas empresas investiam em fundos. Por exemplo, fundos administrados pela Reag, aquela gestora investigada pela polícia por administrar dinheiros do PCC ou também de outras empresas criminosas. Ou também em fundos que tinham relações com negócios e propriedades de Daniel Vorcaro.

Esses fundos compravam voluntariamente gato magro por lebre, superfaturados. Isto é, compravam títulos (direitos e dinheiros a receber), como se relatava nestas colunas e como detalhado por colegas desta Folha.

Invasão americana equipara América do Sul ao Oriente Médio. Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Ataque dos EUA à Venezuela foi caricaturalmente imperialista

Ordem internacional multilateral é principal vítima da aventura de Trump

Com a invasão da Venezuela pelos Estados Unidos, a América do Sul entrou para a lista de regiões onde superpotências se sentem à vontade para derrubar governos e roubar petróleo. Se você está animado com essa perspectiva, vá lá checar se o Oriente Médio tem se destacado por suas democracias estáveis e prósperas.

O ataque americano foi caricaturalmente imperialista. Enquanto Javier Milei celebrava gritando "Libertad, carajo!", Trump admitia candidamente que foi à Venezuela entregar mais "carajo" do que "libertad".

Não há crise no jogo jogado da política. Por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

De tensão e atritos vivem as forças políticas adversárias em ano eleitoral de disputa pelo poder. É normal

No veto à dosimetria, Lula deu recado ao eleitorado dele, e a oposição reagiu como esperado pela turma dela

O presidente da República deu recado ao eleitorado dele, e a oposição —aí incluídos aliados de ocasião— reagiu com o gesto que seus eleitores esperavam dela. E foi só isso que aconteceu no veto de Luiz Inácio da Silva (PT) ao projeto da dosimetria, seguido da promessa de derrubada no Congresso.

Não há crise nem ruptura à vista, apenas o jogo jogado da política em ano eleitoral. O desenho de conflagração imprime dramaticidade ao cenário, reforça torcidas, robustece análises, mas não traduz com exatidão a realidade.

Intervenção (parcial) de Luiz Werneck Vianna, em reunião na Bahia, 2019

 Intervenção (parcial) de Luiz Werneck Vianna, outubro de 2019, a convite do prof. Paulo Fábio Neto e dos seus alunos do grupo de pesquisas Ecos do Subsolo

Bondi Beach e o massacre. Por Marcus Cremonese*

Neste 14 de janeiro faz exatos 30 dias do atentado anti-semitaantissemita ocorrido em Bondi, praia ícone de Sydney, na Austrália. O mundo ficou chocado com esse massacre que é tido como o maior “atentado terrorista” já acontecido neste país.

Uma semana depois, em 21 de dezembro, a mesma praia e os gramados adjacentes foram o cenário de uma manifestação vibrante de unidade, de reflexão e de respeito mútuo. Nesse dia, cerca de 16.000 pessoas ali se reuniram numa celebração de luto, o “National Day of Reflexion”. Dela participaram o primeiro-ministro, senadores, deputados federais e estaduais e diversas autoridades entre elas rabinos, i imamsimãs, padres, pastores e líderes muçulmanos.

Poesia | Garcia Lorca: morte na madrugada, de Vinicius de Moraes

 

Música | Casuarina &.Zeca Pagodinho - Velhos Tempos

 

sábado, 10 de janeiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Liberdade continua a ser miragem na Venezuela

Por O Globo

Repressão e cerceamento à imprensa persistem, enquanto próceres da ditadura chavista seguem no poder

São inaceitáveis a repressão e o cerceamento ao trabalho de jornalistas na Venezuela. Embora a perseguição à imprensa seja marca indelével da ditadura chavista, esperava-se comportamento diferente depois da captura do ditador Nicolás Maduro e de sua mulher, Cilia Flores, durante a operação militar deflagrada há uma semana pelos Estados Unidos. O que acontece hoje na Venezuela é de interesse do mundo todo. É natural, portanto, que o país seja procurado por uma legião de correspondentes estrangeiros. Todos deveriam poder trabalhar com plena liberdade.

Desafios da nova desordem internacional. Por Oscar Vilhena Vieira

Folha de S. Paulo

Intervenções militares marcam abandono do direito entre países

Carta da ONU perde força com retorno da lei do mais forte

A Carta das Nações Unidas, de 1945, surgiu como uma reação à barbárie da Segunda Guerra, na qual mais de 80 milhões de pessoas foram mortas. Mais da metade dessas vítimas eram civis. O objetivo da comunidade internacional com a adoção da Carta e a criação da ONU foi construir uma nova ordem internacional baseada em regras, que contribuísse para a manutenção da paz e a segurança internacional.

Essa nova ordem reafirmou a centralidade dos direitos humanos, a igualdade entre nações grandes e pequenas, a autodeterminação povos e o desenvolvimento como valores. A estabilidade dessa ordem deveria ser buscada com auxílio de instituições multilaterais, que estavam sendo criadas, e pelo respeito às regras do direito internacional.

Veias abertas. Por Jamil Chade

CartaCapital

Trump foi transparente em relação à intenção de saquear os recursos naturais da América Latina

Teotihuacan é o local onde o tempo nasceu. Foi ali que os deuses se reuniram para criar o Quinto Sol. Para os astecas, a Terra havia sofrido quatro criações e destruições anteriores e, graças ao sacrifício dos deuses, o sol que brilhava sobre eles foi criado de novo, precisamente em Teotihuacan.

Hoje, vivemos a criação de um novo sol. Uma nova ordem que parece ter, precisamente na geografia da América Latina, seu primeiro rascunho. A silhueta que ele desenha, porém, nos remete aos dias mais nefastos de nossa história. Uma intervenção armada, o sequestro ilegal de um chefe de Estado e um alerta para toda a região de que sua autonomia será castigada.