terça-feira, 29 de setembro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Dino faz uso político da Justiça

Por O Globo

Autorização para fake news sobre Nossa Senhora e decisão de Gilmar sobre Bolsa Família atropelam TSE

Tem sido preocupante a politização das decisões eleitorais da Justiça. Na semana passada, espalhou-se a notícia falsa de que Flávio Bolsonaro, se eleito, tiraria de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. Era uma especulação descabida, que Flávio desmentiu de imediato. Ele entrou com representação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e, no mesmo dia, o ministro André Mendonça, vice-presidente da Corte, determinou a remoção de conteúdos das redes sociais. O ator e humorista Antonio Tabet recorreu ao Supremo Tribunal Federal (STF), quando o caminho institucional correto teria sido acionar o plenário do TSE. Já no domingo, o ministro Flávio Dino anulou decisão de Mendonça e, por motivação nitidamente política, liberou as publicações com a mentira, favorecendo a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Polêmicas entre Lula e Flávio têm limites nos votos consolidados, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Até domingo, a tendência mais consistente é a de Lula preservar a dianteira no primeiro turno, com Flávio buscando reduzi-la pelo voto útil. Mas precisa combinar com o eleitor.

Depois de semanas dominadas pela crise do Supremo, pelo caso Banco Master e pelo confronto entre Lula e Flávio Bolsonaro sobre corrupção e democracia, as pesquisas Quaest e a Nexus divulgadas nesta segunda-feira, 28, mostram que, ao menos em parte, as duas controvérsias mais recentes, a medida provisória que proibiu as bets e o boato sobre Nossa Senhora Aparecida, favoreceram o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O petista manteve a vantagem no primeiro turno e empata no segundo com Flávio Bolsonaro.

Na Quaest, Lula passou de 37% para 39%, e Flávio, de 33% para 34%. A Nexus registrou 42% para o presidente e 37% para o senador, ante 40% e 37% na rodada anterior. Os dois levantamentos indicam uma ampliação numérica da dianteira de Lula no primeiro turno. As mudanças individuais, contudo, são pequenas diante das margens de erro e não demonstram que uma polêmica específica tenha produzido o movimento. Num eventual segundo turno, a Quaest mostra 42% para cada candidato; a Nexus, 46% para Lula e 44% para Flávio, também em empate técnico.

O destino do país vai às urnas, por Roberto Amaral*

Em artigo-ensaio recente (“O golpe continuado”), o professor e historiador Lincoln de Abreu Penna estuda como um só fenômeno a tragédia que se abateu sobre nós em 1º de abril de 1964 e que, pelos seus efeitos, todos danosos, chega até nossos dias, justificando as apreensões que medram em setores significativos do pensamento democrático brasileiro.

Lincoln ressalta que o golpe militar “não foi [só] contra um governo constitucional, eleito pelo povo, mas contra o Brasil como nação que aos trancos e barrancos se estruturava para promover o arranco desenvolvimentista conjugado com as Reformas de Base”. Foi tudo isso, mas foi ainda mais: para além dessa tragédia, fez por terra um processo democrático então caracterizado pela crescente ascensão das forças populares e pelo esforço coletivo para dar fim à miséria.

É preciso lembrar e relembrar a herança de 21 anos de uma ditadura luciferina, que não só desterrou as liberdades civis e políticas, não só fechou o Congresso e aviltou o Poder Judiciário, como impôs o terror, tanto o terror cultural a que se referia Alceu Amoroso Lima quanto o terror das prisões, da tortura e dos assassinatos ainda sem conta fechada.

As dúvidas da reta final, por Míriam Leitão

O Globo

A pouco dias da eleição, as pesquisas mostram dois candidatos à presidência empatados, mas com os blocos de eleitores se movendo

Dentro de cinco dias estaremos diante da urna eletrônica e o que a democracia nos oferece é uma enorme avenida. Escolher o próximo presidente, renovar dois terços do Senado, eleger os deputados da Câmara Federal, das assembleias legislativas e os governadores. Com a campanha curta, e drenada por temas estranhos à natureza da escolha, as pesquisas nos mostram um país em que dois candidatos ao Planalto estão empatados, mas com blocos de eleitores se movendo. A pesquisa Quaest, encomendada por este jornal, traz informações relevantes, só que ainda há muitas dúvidas.

A sondagem foi melhor para Lula do que para Flávio Bolsonaro em dois pontos cruciais. Aumentou de 5 para 11 pontos percentuais a vantagem de Lula sobre Flávio no eleitorado feminino. Eu disse aqui, colunas atrás, que o presidente estava perdendo essa dianteira no eleitorado feminino, e as mulheres foram decisivas na vitória de Lula em 2022. Isso se reverteu. Outra boa notícia para Lula é a redução da distância que ele estava de Flávio Bolsonaro na região Sudeste, que concentra 42% do eleitorado brasileiro e tem os três maiores colégios eleitorais do Brasil, São Paulo, Minas e Rio de Janeiro. A diferença há uma semana era de seis pontos, agora caiu para dois: 35% para o candidato do PL, 33% para o petista.

Dias finais, por Merval Pereira

O Globo

O maior perigo que corremos, como nação laica, é cairmos na guerra religiosa, que nunca foi parte das campanhas políticas.

Os últimos dias de campanha trazem novas discussões, mais debates estéreis, mas nada de propostas para o futuro do país. Discute-se se o voto útil funcionará para evitar um segundo turno — parece improvável — ou se Nossa Senhora Aparecida deixará de ser a padroeira do Brasil. Perde-se tempo numa guerra religiosa que não deveria nem ser cogitada, quanto mais disputada. O maior perigo que corremos, como nação laica, é cairmos nesse tipo de embate, que nunca foi parte das campanhas políticas, a não ser em casos pontuais e não institucionais.

A grande aposta de Lula, por Fernando Gabeira

O Globo

Apesar dos grandes julgamentos e de todas as críticas midiáticas, o bolsonarismo resistiu

Ao proibir as bets nove dias antes do primeiro turno, Lula fez sua maior aposta. Muitos observadores consideram grandes suas chances de êxito. As pesquisas mostram que a maioria condena apostas on-line. Grande número de mulheres pode decidir o voto a partir dessa medida.

É impossível cravar cientificamente qual será o resultado das eleições de domingo. O universo do futebol foi atingido. Lula fez menção ao Flamengo; a torcida não gostou. Enfim, há muitos fatores a analisar.

O lobo, por Pedro Doria

O Globo

O regime parece ter perdido a capacidade de se regenerar. De se aperfeiçoar

Entre novembro e dezembro de 2022, o pai do senador Flávio Bolsonaro (PL) dedicou boa parte de seu tempo a convencer os comandantes do Exército e da Aeronáutica a dar um golpe militar em seu nome. Não é uma hipótese. É um fato histórico documentado. Foi o que disseram em depoimento à Polícia Federal e ao Supremo o general Marco Antônio Freire Gomes, que estava no topo da hierarquia do Exército, e o brigadeiro Carlos de Almeida Baptista Junior, seu par na Força Aérea. Baptista Junior é autor do livro “Eu disse não”, que conta justamente os detalhes daqueles dias, publicado neste mês pela Autêntica. E, no entanto, quando a pesquisa Meio/Ideia perguntou aos brasileiros em março sobre o tema, 39% disseram acreditar que o golpe fora tentado por Jair Bolsonaro; 54% falaram que não acreditam. Foi a última vez em que uma pesquisa nacional tratou do tema. Nesta semana, à medida que entramos na reta final do primeiro turno destas eleições, as pesquisas mostram o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no que, essencialmente, é um empate com Flávio. Pode dar qualquer coisa.

O cálculo de risco que esvaziou o debate, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Presença ou ausência do debate é um perde-perde, mas Lula avaliou que, na segunda opção, perderia mais

“Vou fazer uma pergunta e eles vão passar meia hora batendo em mim. Vou fazer mais outra pergunta e vai ser mais meia hora só apanhando”. Ao final, os adversários teriam uma coleção de cortes contra si e ele, a imagem de acuado. Foi assim que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva expressou a seus principais assessores, no fim de semana, sua resistência em ir ao debate de quinta na TV Globo. Prefere ir apenas no 2º turno, mas ainda não deu resposta.

A campanha de Renan Santos (Missão) passou a alimentar a expectativa de que, na ausência de Lula, seria chamado. Neste caso, a dúvida é se o senador Flávio Bolsonaro (PL) manterá a decisão de ir, já anunciada. Pode vir a se tornar o principal alvo, a começar por Renan, o mais agressivo da disputa, mas perderia a oportunidade de acusar Lula de fujão.

IA e o futuro do trabalho no Brasil, por João Saboia*

Valor Econômico

Algumas ocupações serão simplesmente extintas, enquanto outras serão transformadas e novas ocupações serão criadas

Há um temor generalizado no mundo sobre as transformações que a inteligência artificial (IA) poderá trazer ao mercado de trabalho nos próximos anos. O Brasil não foge a essa visão pessimista. Que tipo de empregos serão eliminados? Em que quantidade? Como e quantos serão os novos empregos gerados? E naqueles que sobreviverão, que mudanças serão realizadas nas atividades desenvolvidas? Em resumo, há mais dúvidas que certezas na medida em que a IA vai se disseminando no interior da economia.

Embora reconhecendo que a IA possa trazer grandes transformações e sérios problemas no mercado de trabalho, vamos desenvolver no artigo de hoje uma visão relativamente otimista sobre esse tema dentro do contexto de nosso país.

A Constituição do Super-Homem, por Renato Janine Ribeiro

Folha de S. Paulo

Carta determinou que presidente da República articule os Poderes

Impeachment de Dilma e emendas, contudo, esvaziaram o alcance de suas ações públicas

A Constituição Federal de 1988 —seguramente, a melhor da história brasileira, a mais democrática, que tirou os direitos humanos da entrada de serviço para colocá-los na entrada social— trouxe uma grande dificuldade para o presidente da República.

Se no anterior período, ditatorial, ele tinha inúmeros poderes, agora precisa ser um Super-Homem: cabe-lhe articular os Poderes, o Legislativo e o Judiciário, que tinham sido castrados na ditadura militar, bem como os estados, que corretamente retomaram sua autonomia, e ainda os municípios, que foram a chave da construção de nossa sociedade e obtiveram em 1988 uma autonomia constitucional que antes não tinham.

Eleições ao Senado: desprezadas, fundamentais e imprevisíveis, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

A expectativa é de uma apuração cheia de suspense e com reviravoltas na reta final

Casa legislativa deverá sediar os grandes embates e as grandes crises do próximo governo

A maioria dos eleitores ainda não sabe citar espontaneamente o nome de um candidato ao Senado. E olha que neste ano, com a renovação de 2/3 da casa legislativa, serão dois números a digitar.

É o resultado de um processo eleitoral engessado que privilegia, em primeiro lugar, a corrida pela Presidência e, em seguida, os governos estaduais. A expectativa de uma apuração cheia de suspense e de surpresas no pleito ao Senado é enorme, a depender das escolhas de última hora. Ou de escolha nenhuma, com o voto sendo anulado.

Lula e o PT não ouviram o bom conselho da autocrítica, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Campanha da reeleição chega à reta final míope aos erros e sem conseguir atingir o ponto de virada

Populismo pode surtir efeito, mas não apaga a fadiga com a longevidade de um presidente no poder

Pleito batendo à porta, a campanha da reeleição ainda está no modo "onde foi que erramos?", sem conseguir chegar ao ponto de virada. Houve um equívoco de origem que Luiz Inácio da Silva e o PT não cometeram sozinhos.

A quase totalidade do mundo político e adjacências compartilhava a visão de que Flávio Bolsonaro (PL) seria presa fácil, escolhido pelo pai para manter o nome da família na roda. Era essa a impressão que davam os telhados de vidro e a falta de lastro do moço.

A santa, a Justiça e as mentiras, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Campanhas não hesitam em abraçar fake news que as favoreçam

Embate entre Mendonça e Dino amplia descrédito do Judiciário

"Ele pode ser um f.d.p., mas é o nosso f.d.p.", teria dito Franklin Roosevelt sobre o ditador nicaraguense Anastasio Somoza. Algo parecido vale para a desinformação eleitoral.

O bolsonarismo, que se esmerou em espalhar notícias falsas sobre o kit gay na campanha de 2018 e sobre o fechamento de igrejas por Lula em 2022, correu para o TSE para pedir a derrubada de postagens, turbinadas pelo lulismo, que falam de uma suposta intenção de Flávio Bolsonaro de cassar o estatuto de Nossa Senhora Aparecida de santa padroeira do Brasil.

Nossa Senhora, salve o Brasil! Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo.

Só falta ministros irem para o STF de vermelho ou enrolados nas bandeiras de Brasil, EUA e Israel

A contagem regressiva do primeiro turno já começou, num cenário estável e com o presidente Lula cinco pontos à frente do senador Flávio Bolsonaro na Quaest, mas só se fala sobre o STF, onde a polarização eleitoral domina tudo e todos e corrói ainda mais a imagem da Corte. É como se só os seus dez votos fossem eleger o novo presidente.

Nas ruas, não se veem bandeiras, cartazes ou carros paramentados, sejam pró-Lula, sejam a favor de Flávio, numa das eleições mais frias e desanimadas de que se tem notícia. Mas, no Supremo, a equipe da campanha de Lula só falta se vestir de vermelho, com estrela no peito, e a de Flávio, a qualquer hora, aparece enrolada nas bandeiras de Brasil, EUA e Israel.

A escola xandônica, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

André Mendonça vestiu-se de Xandão e, pois, censurou. A porteira estava aberta; a estrada, pavimentada. Será sempre por boa causa – contra a “reprodução sucessiva” de mentira. Na origem, havia uma mentira. E logo haveria a proibição genérica de referências à Nossa Senhora Aparecida. O gênio que não voltará mais à lâmpada é esse.

Mendonça censurou com base em jurisprudência do TSE; aquela, aplaudida, aclamada mesmo, por meio da qual – para além de se derrubar publicações – cassaram-se contas em redes sociais. Bloqueou-se uma rede social no Brasil – em defesa da democracia.

Canal Livre entrevista Lula neste domingo - 27/09/2026

 

Rubem Braga - O poeta e os olhos da moça" | Clarice Lispector e Manuel Bandeira

 

Música | Noel Rosa - Conversa de Botequim

 

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Existem boas ideias na educação — só falta espalhá-las

Por O Globo

Resultado do Pisa mostra que aluno valoriza os professores e costuma receber atenção deles

Nem tudo é má notícia na educação brasileira. Pelo menos a motivação dos professores é valorizada pelo aluno, como constatou a última edição do Pisa, a avaliação internacional promovida pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). No ano passado, 82% dos estudantes avaliaram positivamente seus professores, mantendo o patamar verificado em 2015 (81%). Para 78%, os docentes persistem até que o aluno entenda a lição. E 76% afirmam receber ajuda adicional, fora do tempo de aula, para compreender a matéria. Nesses quesitos, os alunos brasileiros tiveram desempenho melhor ou comparável aos da OCDE.

Sobre a (in)constância da humanidade atual, por Aldo Paviani*

Correio Braziliense

As sociedades que se encontram dentro da curva de crescimento possuem visão de futuro: traçam caminhos, planejam e realizam seus projetos. Já as que estão fora dela aplicam a máxima "o futuro a Deus pertence"

A humanidade atravessa um período de profundas alterações estruturais e de processos, impulsionadas, em parte, pelas transformações no perfil populacional e sociocultural. O volume demográfico de diversas regiões tem se modificado, assim como a representação de gênero. As mulheres vêm ocupando papéis cada vez mais proeminentes na estrutura populacional, tanto em âmbito regional quanto nacional. A Região Centro-Oeste, por exemplo, segundo o IBGE, é atualmente composta por 52% de mulheres e 48% de homens. Espera-se, portanto, que elas assumam um protagonismo crescente não apenas na manutenção das famílias, mas na ocupação de cargos de liderança na sociedade, uma das principais pautas sociais do momento. Todavia, o aumento simultâneo da violência contra a mulher sugere que parcelas da sociedade ainda reagem de forma brutal a essas mudanças sociofamiliares.

Medida tem apelo, mas não contorna problema do endividamento, por César Felício

Valor Econômico

A motivação eleitoral da proibição das bets no Brasil, decidida na sexta-feira pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, é óbvia.

Pelo menos duas pesquisas mediram nos últimos meses a adesão a uma proibição total das apostas online e a maioria absoluta se mostrou favorável à interdição. Na mais detalhada delas, da Ideia, de julho, 56% dos entrevistados concordaram com a proibição.

Um sinal do apelo da medida é o fato de que o principal rival do presidente, o senador Flávio Bolsonaro (PL), tachou a medida de “eleitoreira, hipócrita, populista”, mas ao mesmo tempo ponderou: “sempre fui contra os jogos”.

Renan Santos (Missão), em vídeo, procurou desqualificar a iniciativa como pouco efetiva. “Vou dizer exatamente o que vai acontecer: a Medida Provisória vai caducar. É só uma medida eleitoreira.” Frisou ser contra jogos.

Golpe de misericórdia ou tarde demais? Por Bruno Carazza

Valor Econômico

Medidas poderosas a poucos dias do primeiro turno testam a capacidade de Lula de obter um quarto mandato

Na Zona Leste de São Paulo, a jornalista Renata Lo Prete, apresentadora do Jornal da Globo, pergunta a um grupo de três mulheres empregadas num salão de beleza: “O que motiva vocês a trabalharem tanto?” Sem pestanejar, a manicure Janine Mendes Pereira responde: “As dívidas!”

Segundo o Mapa da Inadimplência do Serasa Experian, o Brasil tinha em agosto 83,9 milhões de pessoas com o CPF negativado por pagamentos em atraso. Isso representa 51% da população adulta brasileira, mas em algumas unidades da Federação esse índice é ainda mais preocupante, como Mato Grosso do Sul (60,9%), Amazonas (61,2%), Distrito Federal (63,2%) e Amapá (64,9%).

Trata-se de um problema de longa data, mas que se agravou no mandato do presidente Lula. Prova disso é que quatro anos antes, ainda no governo de Jair Bolsonaro, havia 68 milhões de inadimplentes - um quantitativo já bastante expressivo, embora 19% menor do que o atual.

Eleitores entre o velho e o retrógrado, por Carlos Pereira

O Estado de S. Paulo

Com Bolsonaro ou Lula, Brasil vira as costas para o futuro ao ver a eleição cair em uma armadilha

Daqui a uma semana, o Brasil vai às urnas para celebrar o décimo episódio consecutivo de eleições livres, limpas e competitivas. Por si só, esse já deveria ser motivo de regozijo. Afinal, preenchemos com sobra os requisitos de uma democracia consolidada: incerteza sobre quem vencerá antes de o jogo acabar, certeza de que o vencedor governará e repetição do jogo em calendário estável e regular, com alternância de poder.

O paradoxo é que uma democracia que aprendeu a repetir o jogo parece ter desaprendido a renovar suas escolhas. Em vez de uma disputa entre agendas distintas para o futuro, a maioria dos eleitores brasileiros se vê diante de uma armadilha eleitoral: escolher entre o velho e o retrógrado.

O Brasil que vai votar cansado, por Preto Zezé

O Globo

A mesma pessoa que quer ordem quer proteção social. O mesmo eleitor que votou num lado já votou no outro

No Acre, uma mulher me contou uma cena do mercado. O filho pequeno colocou um chocolate no carrinho. Ela teve que tirar. A criança chorou, e ela precisou explicar que não dava para pagar tudo, que naquele mês era só o básico. Nenhum debate na TV tem essa cena. E ela resume o Brasil que vai às urnas no dia 4.

Nas últimas semanas, estive em Brasília, Acre, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro e Nordeste. Realidades e sotaques diferentes, problemas que mudam de nome. Mas uma palavra atravessou quase todas as conversas: cansaço. E é esse eleitor cansado quem decidirá a disputa.

A crise vai da economia à política, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

O quadro piora em 2027. Nesta reta final de campanha, o governo tem tomado medidas que aumentam o gasto

Não será por falta de aviso. A economia tem dado seguidos sinais de piora há algum tempo, mas a semana passada foi especial. No sentido negativo. A inflação voltou a subir forte, os números indicando que deverá terminar o ano mais perto dos 5%, acima do teto da meta. Segundo dados do IPCA-15 de setembro, ficaram mais caros dois itens que impactam diretamente o orçamento das famílias: energia elétrica e alimentação.

No quesito das contas públicas, a equipe econômica finalmente admitiu o que analistas independentes mostram há meses: haverá déficit neste ano, de novo. Isso apesar de a arrecadação de impostos continuar quebrando recordes. Em agosto, a receita alcançou R$ 235,5 bilhões, o melhor resultado para o mês em toda a série histórica. De janeiro a agosto, o governo federal arrecadou R$ 2,1 trilhões, um ganho real (descontada a inflação) de 7,12% sobre o mesmo período do ano passado.

A metástase institucional do caso Master, por Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

O passivo de ilícitos passa a sobredeterminar as relações entre os três Poderes e vira moeda de troca

Presidentes, ministros e parlamentares agora calculam também os riscos de exposição e retaliação

As revelações mais recentes sobre Davi Alcolumbre acrescentam uma dimensão ainda mais grave à crise política atual. Seu comportamento podia ser explicado, em larga medida, pela dinâmica institucional de um presidente hiperminoritário diante de um Legislativo hostil. Nessa interpretação, Alcolumbre seria essencialmente o agente representativo de uma maioria parlamentar.

Essa explicação institucional não é falsa. Tornou-se, porém, claramente insuficiente.

Presença de mulheres na política fortalece a democracia, por Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

Maioria no eleitorado, mulheres ainda ocupam espaço reduzido no poder

Candidatas negras enfrentam a pior taxa de conversão em mandato

Lá se vão 31 anos desde que a legislação eleitoral (lei nº 9.100/95) determinou que os partidos políticos devem reservar vagas para candidaturas de mulheres. Originalmente, a reserva mínima era de 20% e valia para as eleições de 1996.

No ano seguinte, a determinação foi alterada (lei nº 9.504/97) para abranger as eleições proporcionais em geral. Até que a minirreforma eleitoral (lei nº 12.034/2009) ampliou para 30% o percentual mínimo de candidaturas para cada gênero.

Dois litros por dia, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Nenhum jovem sai mais à rua sem uma garrafa d'água; seria como andar nu por aí

A pergunta é: onde ele despeja toda essa água que manda para dentro o dia todo?

O espetáculo salta aos olhos: o batalhão de jovens (jovens hoje são todos entre 10 e 40 anos) nas ruas com uma garrafa d’água. Ela pode estar num bolso da mochila, presa à alça da própria, levada na cintura ou mesmo nas mãos. O importante é ter o produto ao alcance de um gole. É como se sair de casa sem água fosse sair sem calças. Nenhum millennial será apanhado nessa condição.

Entre o sonho e o ressentimento, por Rosana Pinheiro-Machado*

Folha de S. Paulo /Ilustríssima

Percepção do papel do Estado na concretização das aspirações é decisivo no voto dos segmentos que aprenderam a desejar

Anseio de se tornar CEO de si próprio expressa, mais que ímpeto neoliberal, busca por dignidade em país que humilha pobres

Em uma análise da vitória recente da extrema direita nas eleições da Alemanha, Paul Krugman, vencedor do Prêmio Nobel de Economia, apontou que a balança comercial favorável e os empregos industriais não foram suficientes para prevenir o ressentimento daqueles que se consideram, em comparação com a média nacional, em desvantagem econômica.

A explicação desse fenômeno foi desenvolvida em um artigo de Laura Carvalho e Guilherme Klein, publicado nesta Ilustríssima, que analisa como bons indicadores da economia brasileira não se convertem em uma avaliação positiva do governo Lula (PT). Os economistas argumentam que a transformação das aspirações dos brasileiros e as novas comparações geradas por esse processo estão no centro da popularidade do presidente.

Analiso, aqui, como a capacidade de aspirar se expandiu dramaticamente entre os brasileiros nas últimas décadas. Essa mudança transformou o país e produziu efeitos não óbvios e contraditórios, cujas consequências políticas ainda não foram plenamente compreendidas, mas certamente vão estar em jogo nestas eleições.

Um assobio de amor na repressão, por Claudio Leal*

Folha de S. Paulo / Ilustríssima

Canção interpretada por Nara Leão venceu festival na TV em 1966 e virou fenômeno cultural

Versos do músico de 22 anos uniram país em fase traumática e foram louvados por Drummond

(Resumo) Em 10 de outubro de 1966, "A Banda" despontou da 2ª edição do Festival de Música Popular Brasileira, da TV Record, para a glória nacional, fazendo de seu autor, um jovem e tímido Chico Buarque de 22 anos, um ídolo de massa. Nos dias seguintes daquele ano, como conta a reportagem a seguir, a passagem da banda "cantando coisas de amor" foi um sopro de poesia em um Brasil acossado pela ditadura, seduzindo jovens, bicheiros, militares e nomes ilustres e díspares como Drummond, Nelson Rodrigues, dom Helder Câmara e Carlos Lacerda.

Uma canção de cinco estrofes, 33 versos e 190 palavras elevou Chico Buarque a ídolo de massa. Em 10 de outubro de 1966, "A Banda", de Chico, e "Disparada", de Theo de Barros e Geraldo Vandré, dividiram o primeiro lugar do 2º Festival de Música Popular Brasileira, da TV Record.

O empate, solução ansiada por Chico, não as igualou em alcance. Defendida por Nara Leão, a marcha buarquiana virou um fenômeno cultural, como se a história da passagem de uma banda emanasse do imaginário brasileiro e a ele voltasse.

"Estava à toa na vida/ O meu amor me chamou/ Pra ver a banda passar/ Cantando coisas de amor// A minha gente sofrida/ Despediu-se da dor/ Pra ver a banda passar/ Cantando coisas de amor."

A odisseia de Chico, por Luiz Guilherme Piva*

Folha de S. Paulo / Ilustríssima

Obra de Homero parece ter marcado profundamente o músico, que levou Penélope e Ulisses para suas letras

Protagonismo de anti-herói odisseico redimido é característica distintiva de parte das canções de Chico

Quando publicou o conto "Ulisses", em 1966, Chico Buarque transformou o herói grego num sujeito simplório, com dificuldades profissionais, sonhador, meio tolo, desamparado, infantil, que volta para casa de alguma viagem como caixeiro-viajante, inglório, contando desventuras nas quais berra e bebe e briga — mas só na fantasia ou de mentira ou por malandragem— com monstros que o derrotam.

Encontra sua esposa, Penélope, fria e distante, muda, fazendo infinitamente seu tricô (como a heroína clássica), sem lhe dar atenção —afinal, ele pensa, ela deve esperar outro Ulisses, um herói de verdade. Ele quer que ela o reconheça como rei, mesmo com seus defeitos, e o acolha, console e abrace; quer que ela o bote no colo, maternal e compreensiva, e enxergue suas grandezas.

Poesia | Belo Belo, de Manuel Bandeira

 

Música | Elis Regina - Romaria

 

domingo, 27 de setembro de 2026

Opinião do dia – Jürgen Habermas* (Eleições)

“Eleições e referendos devem não só reproduzir um espetro de preferências existentes, mas também juízos sobre os programas e sobre as pessoas que se encontram em eleição.

Eles não podem expressar irrefletidamente a vontade da população, pois têm também um sentido cognitivo. O governo precisa elaborar problemas urgentes com base nessas decisões sobre diretrizes. Em uma democracia, eleições políticas não satisfazem sua determinação sistêmica se meramente registram a distribuição de preferencias e de prejuízos. Os votos eleitorais alcançam o peso institucional de decisões civis de um colegislador somente porque procedem de um processo público de formação da opinião e da vontade, no que esse processo é controlado pelos prós e contras públicos de opiniões, argumentos e tomadas de posição livremente flutuantes. As opiniões dos cidadãos devem primeiramente se constituir a partir da maré dissonante das contribuições, a luz de uma troca de opiniões publicamente articulada.

De maneira ideal, a política deliberativa se enraíza em uma sociedade civil que faz um uso anarquista de suas liberdades comunicativas. Mas, em nossas esferas públicas espaçosas, produzidas primeiramente pela rede comunicativa de mídias de massa, carece-se não só de informações e impulsos da parte de uma imprensa espontânea e independente, mas, em primeira linha, da iniciativa, do esclarecimento e da capacidade de organização dos partidos políticos.”

*Jürgen Habermas (1929-2026), filósofo e sociólogo alemão que participou da tradição da teoria crítica, membro da Escola de Frankfurt. Dedicou sua vida ao estudo da democracia, especialmente por meio de suas teorias do agir comunicativo, da política deliberativa e da esfera pública. “Na esteira da tecnocracia”, p.172-3. Editora Unesp, 2014.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

É urgente rever custo de estatais dependentes

Por O Globo

Previsão no Orçamento de 2027 alcança R$ 36 bilhões — e grande parte disso não passa de desperdício

Empresas estatais incapazes de arcar com suas despesas de pessoal, custeio e capital são classificadas como dependentes da União — e todo ano são obrigadas a declarar no Orçamento quanto consumirão em recursos públicos. É assim que o cidadão brasileiro fica sabendo que, em 2027, elas custarão R$ 36 bilhões ao Tesouro. Pode ser que parte desse custo se justifique, mas é provável que boa parte não. Quanto desse dinheiro poderia ir para outras áreas do governo onde faz falta? Eis um tema que deveria ter destaque no debate eleitoral, ainda mais em momento de deterioração da saúde fiscal e desequilíbrio nas contas públicas.

Na lista das dependentes, há estatais estratégicas, comprovadamente relevantes. Outras, porém, não resistem a uma análise com base no interesse público. O primeiro grupo deveria passar por reavaliação detalhada, em busca de ganhos de eficiência e foco. Para o segundo grupo, só há duas soluções que deveriam ser tomadas com urgência: fechar ou privatizar.

A esquerda democrática em tempo de apatia, por Luiz Sérgio Henriques*

O Estado de S. Paulo

Como mudar a sociedade sem fazer terra arrasada das instituições – liberal-democráticas – que nos trouxeram até aqui?

A transmissão e a recepção de uma cultura política no ocaso constituem tema espinhoso, especialmente quando “tudo o que é sólido se desmancha no ar”. Revisitar tais processos, no entanto, pode ser útil quando menos porque por aí ronda a tentação da novidade pela novidade. Os arautos da perdição asseveram não só que a Carta de 1988 é papel velho, mas também que existem demiurgos capazes de propor soluções para transformar maus políticos e cidadãos desavisados em figuras republicanas irretocáveis.

A eleição do ‘menos pior’, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Vença Lula ou Flávio, não há clima para festa nem grandes expectativas para o novo governo

A eleição presidencial de 2026 vai chegando ao fim sem festa, alegria, esperança e bandeiras e cartazes em casas e carros, num clima de espanto e indignação em que o grande dilema, individual e nacional, não é quem é o melhor, mas quem é “o menos pior”. Está pau a pau, numa disputa ponto a ponto.

Se vencer Flávio Bolsonaro, a expectativa é de fronteiras abertas para todas as loucuras de Donald Trump e volta imediata de Jair Bolsonaro, generais, almirante e os criminosos de 8 de Janeiro, com sangue nos olhos e planos de confiança na cabeça. Além de recuos graves em avanços de costumes.

Reativar o País sem desarrumar a economia, por Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

Qualquer um dos candidatos parece capaz de perceber o atoleiro atual da economia nacional e a urgência de políticas para desemperrar o País

Crescimento pífio, em torno de 2%, inflação acima de 4%, muita insegurança e investimento abaixo dos padrões internacionais compõem o quadro econômico brasileiro a poucos dias das eleições. Sem projetos claros e bem estruturados, os principais candidatos, incluído o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, raramente foram além das promessas de comícios. Houve quem apostasse em debates e pronunciamentos mais esclarecedores no final das campanhas. Falta verificar se os candidatos estão interessados em debater e preparados para isso.

O andar do bêbado, a epidemia de bets e uma aposta de alto risco de Lula, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Acertar algumas apostas não transforma o torcedor em alguém capaz de vencer continuamente uma empresa que define as cotações e algoritmos para obter lucro

Um homem ganhou na loteria espanhola com um bilhete terminado em 48. Explicou sua escolha: sonhara com o número 7 durante sete noites; logo, 7 vezes 7 seriam 48. A conta está errada, mas o prêmio era real. O físico norte-americano Leonard Mlodinow abre o livro O andar do bêbado: como o acaso determina nossas vidas (Zahar) com esse episódio para mostrar uma fraqueza humana: depois de conhecer o resultado, inventamos uma lógica que parece explicá-lo. Nas loterias, cada sorteio é independente; números atrasados não ficam mais próximos de sair, e uma vitória não comprova a eficácia do palpite. O vencedor aparece nas notícias. A multidão que fez contas igualmente fantasiosas e perdeu permanece invisível.

Mlodinow, autor de livros de divulgação científica, assina uma coluna para o The New York Times e escreveu roteiros das séries MacGyver e Star Trek. Com o falecido Stephen Hawking, é coautor de “Uma nova história do tempo” (Ediouro), um best-seller traduzido em 25 idiomas. Seus pais foram ambos sobreviventes do holocausto, e se conheceram em Nova York depois da guerra. Casado e pai de três crianças, entre as quais uma menina adotada na China, Leonard Mlodinow é um sortudo: estava no World Trade Center, no dia 11 de setembro de 2001, e sobreviveu ao ataque terrorista.

O Andar do Bêbado é um tratado sobre o poder do acaso em áreas da nossa vida que vão de jogar futebol, conseguir emprego e receber um diagnóstico médico. Mlodinow percorre a história das probabilidades e usa exemplos do esporte, das finanças e da vida cotidiana para explicar por que confundimos sorte com talento, coincidência com padrão e uma sequência passageira de acertos com uma regra confiável. Seu livro ajuda a entender o fascínio das bets.

Quem acompanha futebol pode conhecer os times, avaliar jogadores e antecipar tendências. Ainda assim, uma partida conserva muita criatividade e imprevisibilidade; acertar algumas apostas não transforma o torcedor em alguém capaz de vencer continuamente uma empresa que define as cotações e programa os algoritmos para obter lucro.

A loteria tradicional vende a esperança de uma mudança de vida concentrada em um sorteio. As plataformas digitais multiplicaram essa promessa. Estão no celular, aceitam pagamentos em segundos e oferecem novas oportunidades a cada jogo, lance ou rodada de cassino virtual. A derrota convida à tentativa de recuperar o dinheiro; uma pequena vitória alimenta a impressão de que o próximo grande prêmio está perto. Publicidade, influenciadores e patrocínios esportivos deram à aposta a aparência de hábito comum. O cassino entrou em casa sem precisar abrir as portas.

É nesse ambiente que a epidemia das bets se tornou uma questão de saúde pública e de economia doméstica. O custo não se resume ao dinheiro transferido para as plataformas: inclui sofrimento psíquico, conflitos familiares, perda de produtividade e tratamento. Estudo citado pelo Ministério da Saúde estima em R$ 38,8 bilhões por ano o custo social associado aos jogos, dos quais R$ 30,6 bilhões estariam ligados à saúde. É uma estimativa que não deve ser confundida com o total apostado ou com a perda financeira direta dos jogadores.

Chegou atrasado

O governo demorou a acordar para o problema. Regulamentou o mercado, autorizou empresas, cobrou outorgas e tentou impor mecanismos de fiscalização e proteção ao apostador. Foram concedidas 85 autorizações, com pagamento total de R$ 2,55 bilhões em outorgas. Agora, abruptamente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu encerrar a atividade por meio da Medida Provisória nº 1.394, assinada na sexta-feira, 25 de setembro. A decisão impede novos depósitos e prevê o bloqueio dos sites e aplicativos a partir de 6 de outubro, dois dias depois do primeiro turno. O governo associou a proibição a um pacote de renegociação de dívidas.

Faltam nove dias para a votação. A proximidade das urnas torna a decisão uma aposta política de alto risco, embora seus fundamentos sociais sejam sérios. Para famílias atingidas pela dependência, Lula poderá aparecer como o presidente que enfrentou um negócio poderoso. Para quem aposta sem identificar prejuízo na própria rotina, a proibição poderá soar como perda de liberdade e abuso de poder. Clubes, empresas de comunicação e outros setores que recebem dinheiro das plataformas têm motivos para resistir e capacidade de levar essa reação ao debate eleitoral.

O eleitor também poderá perguntar: por que o governo autorizou a expansão de um mercado que agora considera intolerável? Há um risco prático por trás do cálculo eleitoral. Proibir a oferta legal não elimina a vontade de apostar. Sites clandestinos continuam acessíveis. O governo anunciou bloqueios de acesso e de pagamentos, mas a eficácia dessas medidas dependerá de fiscalização contínua. Operações da Polícia Federal já identificaram plataformas ilegais divulgadas por influenciadores, inclusive com sinais falsos de regularidade.

E como reagirá o Congresso, onde o lobby das bets tem sua própria bancada? Uma medida provisória produz efeitos imediatos, mas precisa ser aprovada para se tornar definitiva. Entre a assinatura e a eleição, porém, haverá pouco tempo para medir seus resultados. Defender as famílias do vício pode render apoio. Convencer o país de que a proibição funcionará, depois de ter regulamentado as bets, é a parte mais difícil dessa aposta.