quinta-feira, 9 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Fim do cessar-fogo cria incerteza para economia global

Por O Globo

Entendimento já era frágil. Violações iranianas e rompantes ciclotímicos de Trump ampliam as dúvidas

O fim do cessar-fogo entre Irã e Estados Unidos amplia a incerteza no planeta. Depois de três semanas de indefinição desde a assinatura do frustrante “memorando de entendimento” entre os dois países, o Oriente Médio se tornou mais uma vez palco de hostilidades abertas. Em resposta a ataques iranianos a petroleiros no Estreito de Ormuz, forças americanas atingiram mais de 80 alvos no Irã, incluindo sistemas de defesa, radares e barcos. Depois dos bombardeios, bases americanas no Bahrein e no Kuwait foram atingidas.

Desde o início, parecia evidente que as premissas para o entendimento eram frágeis. O memorando extraído a fórceps de negociações tensas e inconclusivas era vago a respeito do principal — o futuro nuclear do Irã. Nem mesmo todas as concessões feitas pelos americanos foram capazes de apaziguar o regime dos aiatolás. E, de lá para cá, os vaivéns e rompantes ciclotímicos de Donald Trump só contribuíram ainda mais para aumentar as dúvidas.

Escolha de Sofia, por Merval Pereira

O Globo

Uma eleição em que os dois mais rejeitados são os escolhidos continuará levando ao impasse, independentemente de quem ganhar

É surpreendente que todos os esforços que a direita brasileira vem fazendo para perder a eleição presidencial não estejam dando certo. As desavenças familiares; as disputas pelo poder dentro do PL, maior partido do país, máquina de fazer dinheiro gerado por emendas parlamentares e fundos eleitorais; a dúvida entre mais radicalização ou uma aparente moderação — nada disso abala a posição do senador Flávio Bolsonaro, que lidera o voto da direita, que se une em torno dele num eventual segundo turno e o torna competitivo diante do presidente Lula.

Esquadrão suicida da direita, por Paulo Celso Pereira*

O Globo

Aliados provocaram o rompimento de Michelle com o enteado

‘Eu não quero que toda mulher vote. Quero fazer uma transação: faça-se a experiência, e, se ela mostrar que as mulheres não são dignas de exercer o direito do voto, então seja ele cassado’, propôs o deputado Costa Machado na tribuna da Assembleia Constituinte em janeiro de 1891. Representante de Minas Gerais, ele tentava convencer os presentes a incluir na primeira Constituição republicana o direito de voto para mulheres — desde que diplomadas, com bens e casadas.

Coube ao pintor Pedro Américo, deputado por Pernambuco, defender a posição, por fim vencedora, de que as mulheres não deveriam participar da vida pública:

— A missão da mulher é mais doméstica do que pública, mais moral do que política. A mulher, não direi ideal e perfeita, mas, simplesmente normal e típica, não é a que vai ao foro, nem à praça pública, nem às assembleias políticas defender os direitos da coletividade, mas a que fica no lar doméstico exercendo as virtudes femininas, base da tranquilidade da família e, por consequência, da felicidade social.

Quando os EUA reclamam do uso do comércio como arma, por Assis Moreira

Valor Econômico

Produtores rurais americanos tornaram-se vítimas colaterais das guerras comerciais de Trump

O governo Trump 2.0 tem se caracterizado pelo uso explícito da força no comércio internacional. A imposição unilateral de tarifaços contra o resto do mundo e de acordos ditos recíprocos, nos quais sai sempre como o grande vencedor, rompeu o sistema multilateral baseado em regras comuns.

Agora, na presidência do G20, que reúne as maiores economias desenvolvidas e emergentes em busca de cooperação na governança econômica global, o governo Trump elaborou uma agenda comercial para trabalhar com os demais membros do grupo “no estabelecimento de uma ordem comercial global baseada em um comércio justo, recíproco e equilibrado”.

O fogo amigo que ameaça a campanha bolsonarista, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Aposta de que a crise na campanha de Flávio leve à sua substituição como candidato esbarra nas evidências de que desfecho desmoralizaria o bolsonarismo

“É fogo amigo”, respondeu o senador Rogério Marinho (PL-RN) em mensagem de celular durante um jantar tão logo recebeu a notícia de que a Gazeta do Povo publicaria pesquisa com quatro alternativas ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Além de Marinho, coordenador da campanha de Flávio Bolsonaro, foram incluídos na pesquisa a ex-primeira-dama, o astronauta e senador Marcos Pontes (PL-SP) e a senadora Damares Alves (Republicanos-DF). Se Marinho apressou-se em dizer ao pré-candidato do PL à Presidência que nada tinha a ver com isso, Damares limitou-se a achar graça.

Flávio Bolsonaro põe o clã acima de tudo, por Maria Hermínia Tavares

Folha de S. Paulo

É clara a intenção dos Bolsonaros de mobilizar o apoio americano a seu candidato

Em julho passado, ele celebrou as tarifas de 50% sobre produtos nacionais

A relação com os Estados Unidos é o maior desafio enfrentado pela política externa brasileira —pela importância que a potência sempre teve para nós e pela imprevisibilidade de seu prepotente presidente.
Desde a volta de Donald Trump, especialistas de diferentes quadrantes discutem a melhor maneira de defender seus países do ocupante de turno da Casa Branca.

Em artigo publicado na Cebri-Revista, há cerca de um ano, o professor da USP Feliciano de Sá Guimarães já defendia que o Brasil adotasse, diante da potência do norte, uma estratégia sofisticada, que combinasse contenção e engajamento em diferentes frentes, evitando seja o confronto total, seja a completa submissão. Discernindo quando e em torno do que é possível negociar e respondendo com firmeza à pressão exorbitante. Sobretudo, procurando não reduzir a relação a um tópico específico —comércio, conflitos mundiais ou segurança regional.

A fadiga de velhas propostas econômicas nas eleições, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Presidenciáveis e auxiliares são pródigos em repetir diagnósticos robustos sobre as razões dos problemas crônicos da economia brasileira, mas falta oxigenação de ideias

Na ausência de propostas, vai sobrar fake news; Pix é candidato número um a alvo

O debate de medidas econômicas pelos presidenciáveis nas eleições deste ano já nasceu pobre antes de começar para valer.

Os candidatos são pródigos em repetir diagnósticos sobre as razões dos problemas crônicos da economia brasileira, mas falta oxigenação de ideias de como resolvê-los por meio de uma abordagem moderna e inovadora.

Há uma fadiga de velhas propostas. É perceptível que as campanhas não estão preparadas para enfrentar o debate de ideias. Desenhar o plano de governo é apenas cumprir tabela.

A audiência, que são os eleitores, também não cobra profundidade e prefere se lambuzar no caminho fácil do Fla-Flu da polarização barata a serviço dos cliques das redes.

Mulheres que me ensinaram a votar, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Paulo Figueiredo disse que as mulheres 'votam mal pra c...'; não livrou nem as bolsonaristas

Eu, ao contrário, sou grato a muitas mulheres que me tornaram mais adulto e responsável

O blogueiro bolsonarista Paulo Figueiredo, condenado no Brasil por fraude financeira e foragido nos EUA, não saiu a seu avô, João Baptista de Figueiredo, o último feitor da ditadura (1979-85). A seu jeito cavalar, o velho Fig gostava das mulheres —até nomeou uma ministra. Já, para Paulo Figueiredo, elas não servem nem para votar. "Mulher vota mal pra c...", declarou. "Devia ser proibida de votar."

Paulo Figueiredo é cabo eleitoral de Flávio Bolsonaro. Antes de sua frase, o asco feminino por Flávio Bolsonaro já era de quase 60%. Agora, as 40% restantes vão pensar se ainda votarão nele, já que Paulo Figueiredo despreza o voto delas. Flávio Bolsonaro, assustado com o prejuízo, "repudiou" a fala de Paulo Figueiredo, mas não o demitiu do cargo de seu guru.

Onde falta cair a ficha, por William Waack

O Estado de S. Paulo

A campanha eleitoral caminha para bater o recorde de mediocridade política

No futebol a ficha para o Brasil caiu logo, pois é impossível ignorar mais uma desclassificação. É consenso que o mau resultado na Copa não foi produto de questões fortuitas. A decadência do futebol brasileiro vem de muito tempo, mas agora a ficha caiu sobre nossa mediocridade.

Falta muito para que isso aconteça também na política. Talvez nem aconteça, apesar da mediocridade da disputa em torno de eleições que prometem tornar ainda mais difíceis os grandes problemas. O mais crítico e imediato é o da crise político-institucional, cujo risco está subindo.

A pátria apostadeira, por Eugênio Bucci

O Estado de S. Paulo

Nosso problema de saúde pública é que a sociedade, hoje, remunera aqueles que levam os filhos dos outros a um vício que não deseja para os seus próprios filhos

A explosão das apostas online durante a Copa do Mundo gerou três efeitos visíveis. Em primeiro lugar, o impulsionamento dos lucros de um punhado de milionários sagazes, tão sagazes que sabem se manter invisíveis (a gente deduz que eles se locupletam, mas não consegue enxergar quem eles são). O segundo efeito visível é a ruína dos mais pobres, tão pobres que ficaram irremediavelmente invisíveis. Em terceiro lugar, surge um debate nas páginas dos jornais acerca da legalidade desse tipo de jogatina e de sua máquina de propaganda. O questionamento que se lê na imprensa é legítimo, mas não tem sido suficiente para mudar a situação. Seu resultado prático não está entre as coisas que são visíveis.

A esticada dos juros da dívida, por Celso Ming

O Estado de S. Paulo

Todos os dias aparece alguém para criticar a política de juros escorchantes do Banco Central. Mas, agora, é também o credor do Brasil que puxa os juros para cima, independentemente da política monetária.

Embora, no dia 17, o Copom tenha reduzido os juros básicos (Selic) em um quarto de ponto porcentual ao ano, nas últimas semanas os juros de longo prazo, que o mercado, e não a Selic, vem definindo, estão aumentando quase todos os dias. Para ficar com os títulos do Tesouro, os ativos mais seguros do País, os investidores vêm exigindo juros reais (acima da inflação) até superiores a 8,0% ao ano.

Isso acontece porque a dívida pública está disparando e já ultrapassa os 80% do PIB e, mais, porque dispara à velocidade de 3,5% e 4,5% ao ano. E, atenção: esse crescimento da dívida não acontece apenas porque o Tesouro tem de incorporar os juros altos definidos pelo Copom, mas porque o Tesouro não consegue juros baixos na rolagem dos títulos de longo prazo.

Isolamento político de Lula pode favorecer oposição no 2º turno, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O presidente Lula continua competitivo, mas seu desempenho está estagnado. A pesquisa Meio/Ideia mostra como esse equilíbrio é mais frágil do que parece

Divulgada nessa quarta-feira, a pesquisa Meio/Ideia de julho permite uma leitura incômoda para o Palácio do Planalto: por ora, o risco para a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva não é o surgimento de um adversário competitivo carismático ou capaz de atrair o centro político e viabilizar a terceira via no primeiro turno, mas a persistência do seu próprio isolamento político.

O problema central do presidente não é apenas a existência de um campo oposicionista numeroso e ideologicamente alinhado contra ele; é a combinação entre um teto eleitoral aparentemente consolidado e o não surgimento de uma candidatura com a qual possa se alinhar no segundo turno.

Os custos implícitos da comunicação do BC, por Benito Salomão *

Correio Braziliense

A incapacidade de o Banco Central produzir a convergência da inflação para o centro da meta talvez possa ser explicada na escolha das palavras contidas nos seus instrumentos de comunicação

Na sua última reunião, o Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu cortar a taxa básica de juros para 14,25% ao ano. Essa decisão já era esperada pela ampla maioria dos agentes e, portanto, não causou surpresas. Surpreendente mesmo é a imensa dificuldade encontrada pelo Comitê de explicar a sua decisão. A inflação no país voltou a performar acima da meta nos meses recentes, fruto de choques em preços de energia. No entanto, o atual nível de contração da política monetária deveria ser capaz de produzir a convergência em horizonte razoável.

Três lições da Copa, por Cristovam Buarque*

Correio Braziliense

Permitimos que todos joguem futebol com bolas igualmente redondas, mas não oferecemos escolas com a mesma qualidade para todas crianças. O futebol venceu o racismo; a educação ainda não venceu o rendismo

A primeira lição desta Copa é seu papel na luta contra o racismo. Os torcedores brancos europeus tratam seus atletas como heróis, independentemente da raça. Esse reconhecimento ajuda a quebrar o preconceito, na medida em que o país passa a dever suas conquistas a jogadores negros ou árabes. Há algumas décadas, até mesmo no Brasil, exigia-se que jogadores negros usassem pó de arroz no rosto para embranquecê-los. Se esse preconceito tivesse continuado, o Brasil não teria conquistado Copas do Mundo, pois grande parte de nossos jogadores é formada por afrodescendentes.

Personagem de si mesma, por Ivan Alves Filho*

Em 1926, aos 36 anos de idade, uma mulher faz as malas, pega seu carro e sai em viagem. Estamos na Inglaterra. Horas depois, seu veículo é encontrado, dentro de um lago. Não há ninguém dentro, nenhum corpo é achado na água. 

Seu marido, notificado do acidente, inicia uma busca desesperada por sua mulher.  A Polícia inglesa investiga o mistério, a imprensa também se debruça sobre o assunto. Há muita especulação em torno daquele desaparecimento: terá sido um assassinato? Um suicídio? Um sequestro? Ou a mulher simplesmente decidiu sumir no mapa? 

Poesia | O Guardador de Rebanho parte VIII, de Fernando Pessoa, por Paulo Autran

 

Música | Chico Buarque - Sou Eu / Tereza da Praia

 

quarta-feira, 8 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Discussão técnica é essencial para desfazer tarifaço

Por O Globo

Empresas trazem ao debate em Washington elementos mais sólidos do que o oportunismo político

Tem trazido sensatez aos debates a presença de representantes do empresariado e do meio acadêmico nas audiências públicas realizadas em Washington pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) sobre o processo em que o Brasil é acusado pelo governo Donald Trump de práticas comerciais injustas e discriminatórias. No mês passado, o USTR sugeriu a imposição de tarifas de 25% sobre diversos produtos brasileiros. Nesta semana, os afetados puderam apresentar seus argumentos, como já havia ocorrido depois do primeiro tarifaço.

Numa demonstração de como a questão tem implicações políticas, o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato do PL à Presidência, compareceu às audiências para tentar reverter ao menos em parte o estrago provocado pela ação desastrosa de seu irmão Eduardo e de seu grupo de bolsonaristas junto ao governo Trump. Por trazer elementos mais sólidos, porém, é a atuação das empresas que poderá surtir algum efeito sobre as autoridades americanas.

Tarifas embutem interesses eleitorais e negócios da plutocracia de Trump, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Das empresas, entidade e pessoas físicas dos EUA na audiência sobre tarifas, 30 foram contra e 14 a favor; das 34 brasileiras, somente Flávio foi a favor

O imbróglio do tarifaço dos Estados Unidos contra o Brasil é mais do que um contencioso comercial, no qual os dois países negociam tarifas com base em interesses recíprocos. Como ficou evidente nessa terça-feira, com a participação do senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato a presidente da República, na audiência pública promovida pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), há dois eixos cruzados de negociação.

O eixo com o qual o Itamaraty trabalha é econômico-empresarial, no qual pesam os interesses concretos das cadeias produtivas integradas entre Brasil e EUA; Flávio privilegiou o viés ideológico-político, fortalecido pela conjuntura eleitoral nos dois países, que favorece a ofensiva da direita norte-americana contra regulações, instituições e governos que não se alinham à sua agenda.

Relações exteriores no centro da campanha, por Fernando Exman

Valor Econômico

Tarifaço fez com que até mesmo aliados próximos de Flávio reconhecessem que a política externa havia se tornado uma área sensível

Até hoje reverbera na comunidade diplomática a declaração de Mark Rutte, secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), chamando o presidente Donald Trump de “papai”.

Aconteceu durante a cúpula da Aliança Atlântica em Haia, em meados de 2025. Rutte já vinha sendo alvo de críticas por não poupar elogios ao americano, a quem chamava de “querido Donald”, mas naquele momento foi além.

Em um instante de descontração flagrado pelas câmeras, os dois conversam animadamente e Trump comenta a reprimenda que dera na véspera em Israel e Irã: para o republicano, os dois países do Oriente Médio se comportavam como crianças no pátio de uma escola. Com um palavrão, afirmou que eles não tinham noção do problema que estavam criando. E o europeu então emendou, concordando que em algumas ocasiões “papai” precisava usar uma linguagem mais dura.

Trump leva a Fifa de volta aos tempos de Mussolini, por Edward Luce

Financial Times / Valor Econômico

O presidente dos EUA é o primeiro líder de um país desde Benito Mussolini, em 1934, a intervir publicamente a favor de sua seleção (a Itália, então fascista, era a anfitriã e ganhou a Copa)

Podemos chamar de toque de Midas às avessas. Donald Trump adora ouro. No entanto, tudo o que ele toca, desde espelhos d'água até alianças dos Estados Unidos, parece virar outra coisa. Sua última incursão foi na Copa do Mundo. Um torneio que vinha se mostrando um inesperado sucesso desandou depois de Trump ligar para a Fifa, que, em seguida, anulou a suspensão por um jogo de Folarin Balogun, uma das estrelas americanas. Os EUA, de qualquer forma, perderam por 4 a 1 da Bélgica.

A intervenção de Trump na Fifa, comparada a seu ímpeto incansável para multiplicar a fortuna da família ou a seus atos de guerra ou paz, poderia ser classificada como apenas uma nota de rodapé. Ainda assim, é possível apostar com tranquilidade que esteve entre suas atitudes de maior visibilidade no palco mundial.

Trump precisava aparecer na festa do futebol, por Elio Gaspari

O Globo

Ele deu um jeito, entrou na Copa, saiu dias depois

O presidente americano Donald Trump deu um jeito, arrumou uma encrenca com o árbitro brasileiro Raphael Claus e virou personagem da Copa do Mundo. Puro Trump. Afinal, ele continua dizendo que ganhou a eleição de 2020. É verdade que parou de falar que Barack Obama nasceu na África. No primeiro mandato, produziu 30.573 mentiras ou falsidades, 21 por dia. De volta à Casa Branca, seguiu na mesma toada, porque esse é seu estilo, e a encrenca com Claus é um estudo de caso de sua essência.

Na quarta-feira passada, o centroavante Folarin Balogun pisou no tornozelo do zagueiro Muharemovic, da seleção da Bósnia. Depois de ver o vídeo no VAR, o árbitro Claus expulsou-o do campo. (Balogun disse que aceitava a decisão.) Trump contou que, até então, não sabia o que significava a apresentação de um cartão vermelho, com a consequente suspensão para o jogo seguinte, contra a Bélgica.

A pátria sem chuteiras, por Bernardo Mello Franco

O Globo

A cada quatro anos, uma mesma pergunta se repete na política

A pergunta é repetida a cada quatro anos: o desempenho do Brasil na Copa do Mundo influencia a eleição presidencial? Os candidatos parecem apostar que sim. Na dúvida, tentam pegar carona na torcida pela seleção.

Desde a estreia contra Marrocos, todos os presidenciáveis se exibiram com a amarelinha. Lula gravou vídeo para incentivar o “querido Ancelotti”. Flávio Bolsonaro apelou à inteligência artificial para mostrar afinidade com Neymar. Ronaldo Caiado disse que os noruegueses “vivem embaixo do gelo” e jamais ganhariam do Brasil. Entrou numa fria.

Os acenos dos emissários de Lula ao mercado, por Vera Magalhães

O Globo

Ministros e estrategistas do PT refutam comparações entre gastos eleitoreiros de petista e Bolsonaro e usam má fase de Flávio para se aproximar da Faria Lima

Os dissabores da pré-campanha de Flávio Bolsonaro deram a Lula uma condição rara tratando-se do incumbente numa eleição presidencial: jogar no contra-ataque, no erro do adversário. O intervalo proporcionado pela Copa e a sucessão de crises no Q.G. bolsonarista têm sido usados para tentar reverter uma das rejeições mais consolidadas ao petista, a do mercado financeiro.

Os emissários de Lula nessas conversas, entre os quais um dos mais loquazes é o novo ministro da Fazenda, Dario Durigan —que, diga-se, joga com aquela disposição de quem veio do banco e quer garantir lugar no time titular—, procuram desmontar com dados as comparações entre as medidas do atual governo e as de Jair Bolsonaro no período eleitoral.

Sem Michelle, quem convence a Tatiana? Por Renato Meirelles

O Globo

Disputa de 2026 passa pela mulher que trabalha por conta própria e ainda não foi conquistada por nenhum dos dois lados

Na coluna passada escrevi que o voto feminino em 2026 não cabe numa personagem só. Há Dona Maria do Socorro, aposentada no sertão de Pernambuco, que vota olhando para a rede pública que sustenta a casa. Há Vera, em Suzano, cuidadora em tempo integral da mãe acamada, que carrega todo mundo sem que ninguém pergunte quem cuida dela. E há Tatiana, de 33 anos, que faz sobrancelha na garagem em Mauá, paga MEI, racha o aluguel com o marido motorista de app, fecha as contas no susto e se ofende quando alguém trata ela como coitada.

Escolha de dois senadores muda a lógica do voto, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Pleitos que renovam 2/3 do Senado costumam eleger mais influencers e outsiders

Preferências ideológicas tendem a prevalecer apenas na definição do primeiro nome

"De cabeça de juiz e fralda de neném, ninguém sabe o que vem" é um ditado popular entre advogados para designar o elemento de incerteza inerente a decisões judiciais. Poderíamos acrescentar um terceiro item ao provérbio: urnas em eleições de duas vagas para o Senado.

Desde que a Constituição de 1946 reduziu os mandatos de senadores de nove para oito anos e manteve o número de três representantes por estado, alternamos pleitos em que o eleitor vota em dois candidatos e aqueles em que escolhe apenas um nome. Pode parecer um mero detalhe, uma caprichosa imposição da aritmética sobre o processo eleitoral, mas ele tem consequências importantes não apenas sobre a estratégia dos partidos para forjar alianças e definir candidaturas mas principalmente sobre a psicologia do eleitor.

Tribunais dão recado infrator à população, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

A própria Justiça passa à população a mensagem de que ordens judiciais podem ser descumpridas

A cobrança do Supremo por explicações deve ser estendida aos outros TJs que não prestaram informações

A resistência ao cumprimento da ordem para pôr fim aos pagamentos excessivos e indevidos no Judiciário e Ministério Público era esperada. Partiu do Supremo Tribunal Federal e dos conselhos nacionais das duas instâncias que depois da decisão inicial de Flávio Dino afrouxaram a norma, dando aval a alguns penduricalhos.

O que não se esperava era a insubordinação explícita de sete dos oito tribunais de Justiça, cujos dados foram examinados por reportagem da Folha e onde se constataram pagamentos muito acima do teto constitucional a 616 juízes e desembargadores, chegando num caso à exorbitância de R$ 495 mil, em maio.

Flávio busca nos EUA vacina para campanha, mas reforça que tarifaço é político, por Ricardo Della Coletta

Folha de S. Paulo

Estratégia do senador não rebate discurso de Lula de que a família Bolsonaro instigou EUA a penalizarem Brasil para beneficiar ex-presidente

Se Flávio sugere que a finalidade é influenciar o cenário político brasileiro, fica mais difícil para o USTR defender que a investigação teve motivação exclusivamente técnica

O pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) desembarcou em Washington com a difícil missão de produzir um fato político que sirva como vacina contra o tarifaço de Donald Trump e impeça que ele continue contaminando sua campanha ao Planalto. A argumentação apresentada pelo senador ao USTR (Escritório do Representante Comercial dos EUA), porém, corre o risco de produzir o efeito oposto.

Tanto nas declarações feitas nesta terça-feira (7) quanto nos comentários escritos encaminhados na última quinta (2), Flávio reforçou justamente os aspectos políticos das sobretaxas e da investigação comercial aberta contra o Brasil no ano passado.

Vice é nova briga na campanha de Flávio, por Vera Rosa

O Estado de S. Paulo

A escolha de quem ocupará a vaga de vice na chapa de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência virou uma nova disputa fratricida na campanha do senador. Flávio já disse que será uma mulher, e repetiu o aviso depois que a ex-primeira-dama Michelle rasgou o verbo contra ele em vídeo gravado nas redes sociais.

Desde que o senador passou a cogitar a possibilidade de ter na chapa a ex-presidente da Caixa Daniella Marques, porém, o “fogo amigo” no PL e no Republicanos – partido ao qual ela se filiou recentemente – ficou maior. O Republicanos é o braço político da Igreja Universal.

Mais um risco para a inflação em 2027, por Fábio Alves

O Estado de S. Paulo

Na conjuntura atual, os preços de serviços são os com estimativas mais elevadas pelos analistas

Há um novo risco de alta para a inflação em 2027 e que pode tornar defasadas as projeções do mercado. Trata-se de uma eventual alteração na estrutura de pesos do IPCA, caso o IBGE consiga concluir até o fim do ano os resultados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), deixando o seu índice oficial de preços mais fiel aos hábitos atualizados de consumo das famílias brasileiras. A dúvida é se questões orçamentárias poderão atrasar o trabalho do IBGE, que indicou para novembro a divulgação desses dados. A POF anterior era de 2017 a 2018.

Não é só sobre futebol, por Rodrigo Craveiro

Correio Braziliense

Ao vergar-se a Trump, a Fifa apequenou-se. Mostrou que não se envergonha em ceder aos caprichos de um estadista sem apreço pela democracia.

Revoltou-me muito mais a ingerência do presidente norte-americano, Donald Trump, na Copa do Mundo do que a pífia — e merecida (cabe dizer) — eliminação do Brasil de Neymar Jr. e seus asseclas. Pior do que o "pedido" do titular da Casa Branca pela "revisão" do cartão vermelho dado a Folarin Bolagun, atacante dos Estados Unidos, foi a aquiescência da Fifa. Na verdade, uma excrescência.

Ao vergar-se a Trump, a entidade máxima do futebol apequenou-se. Mostrou que não se envergonha em ceder aos caprichos de um estadista sem apreço pela democracia. Um chefe de Estado que não enxerga um palmo além de seu umbigo e que pediu à própria Fifa para lhe dar um "Nobel da Paz". Supresa nenhuma, Gianni Infantino providenciou o tal prêmio.

Poesia | Esta Velha Angústia, de Fernando Pessoa, por Paulo Autran

 

Música | Chico Buarque - Voltei a Cantar

 

terça-feira, 7 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Brasil fracassa em Copa bem-sucedida

Por Folha de S. Paulo

Derrota para a Noruega, que não é uma grande força global, reflete anos de decisões desconexas e improvisos

Interesses comerciais da Fifa são inerentes à popularidade do futebol, o que não reduz o vexame da revisão da suspensão de um jogador

Erros individuais, oportunidades claras perdidas e escolhas questionáveis do treinador serão as explicações mais comuns e plausíveis para a derrota do Brasil ante a Noruega, além de aspectos emocionais e uma sequência incomum de perdas de atletas por lesões. Entretanto o fracasso na Copa do Mundo de 2026 tem uma história de quase quatro anos.

Flávio tenta virar o jogo do tarifaço, mas pode aprofundar seu desgaste, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Lula sentiu o cheiro de animal ferido na floresta. Trabalha para colar no clã Bolsonaro a responsabilidade política pelo tarifaço, ainda que a decisão formal pertença à Casa Branca

As audiências públicas sobre o tarifaço a ser aplicado às exportações brasileiras pelo presidente Donald Trump foram transformadas em palanque eleitoral pelo senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, que tenta desfazer a imagem de que o bolsonarismo apoiou ou, no mínimo, estimulou as medidas da Casa Branca contra empresas brasileiras. O Itamaraty acompanha as audiências, mas não participará formalmente, a não ser com observadores, porque privilegia as negociações técnicas entre os dois governos, que atravessam um momento de turbulência, mas não foram de todo interrompidas. Ou seja, não queimou os navios.

O bode que o Brasil colocou no Salão Oval, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Resistência brasileira à moratória indefinida na taxação do comércio eletrônico mostra que se Trump quiser negociar terá que colocar as tarifas na mesa

A decisão de Donald Trump sobre a tarifa de 25% sobre as exportações brasileiras depende menos das audiências públicas desta segunda e terça no Escritório Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) do que do bode que o governo brasileiro colocou no Salão Oval. O caprino entrou na história durante a reunião de março da Organização Mundial do Comércio em Yaoundé, capital de Camarões.

Nesta ocasião, o Brasil foi o único a fincar o pé contra a renovação da moratória sobre transações do comércio eletrônico, vigente desde 1998. Muitos países são contrários a esta moratória, que amarra a possibilidade de políticas regulatórias, especialmente com a expansão desenfreada da inteligência artificial.

O mundo entre o dólar e o renminbi, por Luiz Gonzaga Belluzzo

Valor Econômico

O processo de internacionalização da moeda chinesa começou com a adoção da moeda para financiar e liquidar o comércio, antes de seu uso ser estendido às transações financeiras

O jornal chinês China Daily publicou um artigo sobre as relações financeiras e monetárias entre a China e o Brasil. Informa o jornal que o Ministério da Fazenda do Brasil entregou sua carta de intenções para a emissão de títulos Panda à Associação Nacional de Investidores Institucionais do Mercado Financeiro (NAFMII), em cerimônia em Pequim, com a presença de autoridades da China e do Brasil, para marcar a iniciativa.

Um título panda é um instrumento de dívida emitido em renminbi por governos ou instituições estrangeiras no mercado de capitais onshore da China.

A ordem que o mercado desfez, por Luiz Schymura

Valor Econômico

O verdadeiro desafio não é escolher entre estabilidade e concorrência, mas construir uma regulação capaz de preservar ambas

Todo mercado muito concentrado desenvolve uma gramática própria. Não apenas domina preços e margens, mas também define o que é produto legítimo, quem é contraparte confiável, quem tem direito de ser ouvido. O regulador, formado por essa gramática e por ela avaliado, tende a regular dentro dos parâmetros que o incumbente já aceitou. A concentração raramente precisa capturar o Estado de forma explícita. Em geral, basta estar presente o suficiente para que o Estado aprenda a enxergar o setor pelos olhos de quem sempre o controlou.

Projeto 2030, por Merval Pereira

O Globo

Há sinais claros de que pelo menos parte ponderável da direita já abriu mão da candidatura de Flávio Bolsonaro

Quando os projetos imediatos perigam, há os que desistem deles e os que se preparam para os desafios seguintes. No futebol como na política, vemos dois casos de planos adiados para 2030. Na corrida para a Presidência, há sinais claros de que pelo menos parte ponderável da direita já abriu mão da candidatura de Flávio Bolsonaro e se prepara para disputar o controle do segmento político com os bolsonaristas. Flávio está na situação especial de ser o candidato para perder. Seus aliados preferem perder com ele a ganhar com outro. O ex-presidente Jair Bolsonaro o escolheu para manter na família o controle da direita, submetendo a direita democrática aos desígnios da extrema direita bolsonarista.

IA conversa indiferente à ironia e ao humor, por Fernando Gabeira

O Globo

Alguém como Trump, com os poderes da inteligência artificial, se tornará muitas vezes mais perigoso

Estou lendo “O império da IA”, de Karen Hao, lançado no Brasil pela Rocco. O que me impressiona na origem desse fantástico movimento é o entusiasmo, o brilho nos olhos das pessoas que julgavam fazer algo muito importante para a humanidade. E, logo depois, como em quase todos os núcleos revolucionários, ver como os bons sentimentos são triturados pela realidade, com as dificuldades financeiras e a batalha de egos.

O período romântico coincidiu com a OpenAI, a perspectiva de um trabalho sem fins lucrativos. Mas as crescentes necessidades de aporte financeiro derrubaram o sonho. No momento em que deixaram a fase altruística, surgiu o primeiro grande racha. Elon Musk não aceitou uma empresa que não fosse dirigida por ele. E rompeu a parceria com Sam Altman, o grande nome por trás da iniciativa.