quarta-feira, 3 de junho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Tarifas expõem limite da relação entre Lula e Trump

Por O Globo

Justificativas apresentadas por americanos são frágeis. Brasil ainda tem chance de reverter medida

Menos de uma semana depois de o Departamento de Estado declarar que o governo americano passaria a tratar como terroristas as duas maiores facções criminosas brasileiras, o Itamaraty sofreu outro revés: o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) concluiu a investigação aberta em 2025 com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 e recomendou a imposição de tarifas de 25% sobre produtos brasileiros importados. A medida é ainda mais dura que o tarifaço do ano passado — depois suspenso pela Suprema Corte —, pois abre caminho a sanções comerciais específicas contra o Brasil. Ela expõe os limites das investidas diplomáticas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em sua aproximação de Donald Trump.

Lula vê brecha para revanche e chama Alcolumbre para dançar, por Fernando Exman

Valor Econômico

Episódio capaz de desencadear decisões ou movimentações há tempos esperadas

É um processo cheio de nuances, negociações, discussões regimentais e que depende, sobretudo, da dinâmica eleitoral. Mas o governo Lula vê espaço para reapresentar ao Senado o nome de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal (STF). O ponto de virada foi no dia 12 de maio, durante a posse da nova cúpula do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), menos de duas semanas depois de o plenário do Senado rejeitar a primeira indicação de Messias.

Quem levantou a bola foi Beto Simonetti, presidente do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Ao cumprimentar as autoridades presentes no início de seu discurso, fez uma menção especial a Messias em nome da classe. O aplauso que se seguiu chamou a atenção tanto pela duração quanto pela intensidade, em uma espécie de “rejeição à rejeição”, mas também por aqueles poucos que não aderiram: considerado o principal algoz do AGU, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), não moveu nenhum músculo.

Lula alveja bolsonarismo e contorna crítica a Trump, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Quem permite que petista ressuscite o apelo à soberania sem fechar as portas à negociação com o presidente americano é o senador e pré-candadidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro

Pela segunda vez, em menos de uma semana, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reagiu a uma medida americana discriminatória em relação ao Brasil sem mencionar Donald Trump. Quem permite que Lula ressuscite o apelo à soberania sem fechar as portas à negociação com o presidente americano é o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

É a polarização da campanha com um bolsonarismo que não se cansa de se valer de Trump como ativo eleitoral que possibilita a Lula faturar politicamente as sucessivas afrontas à soberania sem comprometer a conquista de eleitores de centro e direita avessos à submissão do país aos EUA.

Tiro ao Pix pode ser fatal para Flávio, por Vera Magalhães

O Globo

Tarifaços que vão e vêm e classificação de facções criminosas como terroristas são decisões do governo dos Estados Unidos que podem ou não ter impacto eleitoral no Brasil, a depender da narrativa ou do grau de compreensão do eleitor a respeito de suas consequências. Uma tentativa de Donald Trump de embargar ou limitar o uso do Pix na base da ameaça tem outra magnitude: trata-se de um daqueles assuntos capazes de implodir uma candidatura. No caso, a de Flávio Bolsonaro.

Não foi por outra razão que o filho de Jair, que até a véspera se jactava do acesso à Casa Branca e de ter conseguido, no breve encontro com Trump, arrancar a classificação de PCC e Comando Vermelho como grupos terroristas, correu para mostrar ofício, carta, sinal de fumaça, tudo o que pudesse dissociar a mesma reunião do anúncio de novo tarifaço e de uma eventual ofensiva sobre o meio de pagamento queridinho dos brasileiros.

O império ataca, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Ataque ao Pix mexe com bolso do eleitor e dá bandeira popular a Lula para acusar rival

Tudo aconteceu em menos de 24 horas. Na madrugada, o governo americano ameaçou baixar um novo tarifaço sobre produtos brasileiros. Pouco depois, o secretário Marco Rubio comparou o Brasil a regimes autoritários e hostis aos Estados Unidos. Para arrematar, o presidente Donald Trump divulgou uma foto com Flávio Bolsonaro. Descreveu o senador como um “jovem inteligente que ama muito seu país”.

A mensagem de ontem foi clara: a Casa Branca fará o possível para interferir na corrida ao Planalto e dificultar a reeleição de Lula. A classificação de facções criminosas como terroristas, na semana passada, foi apenas o começo da ofensiva.

O polo naval voltou, por Elio Gaspari

O Globo

O Brasil não tem uma indústria naval competitiva porque varre para baixo do tapete as causas dos fracassos

Outro dia Lula disse que a indústria naval brasileira vai “dar uma surra nos coreanos e nos chineses”. Com R$ 41,7 bilhões de investimentos em 890 obras, está aí o polo naval de Lula 3.0. O Brasil corre atrás de uma frota nacional desde o século XVII, quando saiu do estaleiro da Ilha do Governador um dos maiores barcos do mundo, o galeão Padre Eterno. Infelizmente, a frase de Lula só pode ser atribuída aos delírios de um candidato em ano eleitoral. Até hoje, quem levou surras com a indústria naval foi a Viúva.

A geração de Lula, nascida na primeira metade do século XX, tem uma marca sem similar conhecido: já pagou por três polos navais, pagará pelo quarto, e o Brasil não tem uma indústria naval competitiva.

O primeiro polo naval veio no governo de Juscelino Kubitschek (1956-1961). Desandou, mas a conta foi quase toda para os estaleiros. É o jogo jogado.

Candidatos sem Defesa, por Marcelo Godoy

O Estado de S. Paulo

Enquanto Lula bloqueia gastos da Defesa e Flávio tenta se blindar, os demais silenciam

O Brasil é um país diferente. Em nenhum lugar o ministro da Defesa diz que a Nação está indefesa sem que uma tempestade desate no Parlamento. Pois José Múcio disse isso a um grupo de empresários em evento fechado, promovido pela Seta, e nada aconteceu. É como se Múcio fosse o major Giovanni Drogo à espera de tártaros que nunca aparecem diante da Fortaleza Bastiani. Ou como se o Atlântico de um lado e a Amazônia do outro fossem o deserto onde os militares passam suas vidas à espera do inimigo que não se mostra.

O fôlego dos salários, por Fábio Alves

O Estado de S. Paulo

Com o estímulo ao crédito, fica difícil prever esfriamento do mercado que dê alívio à inflação

Os dados de geração de emprego formal referentes a abril surpreenderam os analistas, vindo abaixo até da projeção mais pessimista, o que levantou a questão sobre se o mercado de trabalho irá finalmente desacelerar a ponto de tirar pressão sobre a dinâmica da inflação e dar mais conforto ao Banco Central para seguir cortando os juros.

Teria Vorcaro lido Marcel Mauss? Por Roberto DaMatta

O Estado de S. Paulo

Oliveira Vianna dizia que ‘temos coragem para tudo, menos para negar o pedido de um amigo’

De modo algum seu estilo de enriquecer, enriquecendo seus parceiros irmãos, seguiu o mapa traçado em 1923-24 por Mauss no seu ignorado Ensaio Sobre a Dádiva. Ou, mais precisamente, na sua genial sociologia do presentear, do dar para receber – o que nós chamamos de “lembrancinhas”, porque foi com afeto que, quando vimos aquele objeto, a lembrança de sua pessoa motivou a compra dele para você.

No presente, a moldura não é dada por utilidade ou necessidade, mas pela relação, pois foi a lembrança que o motivou. Então, diz Mauss, a dádiva vai muito além de si mesma: ela é um fato social total, já que todo presente contém aspectos morais. Um protocolo que transcende o objeto doado, fazendo com que o presentear acione a obrigação de retribuir. Presentes não são trocas; são dádivas que, como oferendas, transcendem a exploração de classe ou a luta hobbesiana de todos contra todos.

Os efeitos do novo tarifaço nas eleições, por Carlos Alexandre de Souza

Correio Braziliense

A ofensiva tarifária pode resultar em dividendos eleitorais para Lula, ao acender a centelha nacionalista. E provoca dúvidas se trará vantagens a Flávio Bolsonaro

O novo desgaste diplomático entre Brasil e Estados Unidos tem o agravante de estar contaminado pela corrida eleitoral. Inevitavelmente, as negociações entre o Palácio do Planalto e a Casa Branca sofrerão interferência do acirramento da disputa entre o presidente Lula e seu adversário Flávio Bolsonaro. O possível aumento de 25% nas tarifas comerciais contra produtos brasileiros significará mais trabalho para a diplomacia brasileira, mas, eventualmente, pode resultar em dividendos para Lula na batalha das urnas, ao acender a centelha nacionalista. Para o senador, recém-chegado de uma visita aos Estados Unidos, há dúvidas se esse novo capítulo representará alguma vantagem. 

A política de horror de Trump, por Rodrigo Craveiro

Correio Braziliense

Longe de querer justificar o erro de imigrantes que tentam entrar de forma ilegal em outros países, vejo que o chamado país das liberdades tem promovido uma caçada de terror aos não documentados

Nas últimas semanas, tive contato com duas histórias que me fizeram repensar como nós, enquanto humanidade, chegamos ao fundo do poço. Ambas deram origem a reels publicados no perfil do Correio Braziliense. A hondurenha Wendy Hernández foi presa quando se dirigia ao trabalho, na Flórida, e deportada para Honduras. O filho, de apenas 2 anos, ficou com o tio materno. Sozinho, sem a mãe, foi exposto a todo tipo de barbárie, incluindo queimaduras e abuso sexual. Ao ser detida, Wendy implorou para que o pequeno Orlin Josué fosse levado com ela. O ICE, a polícia da Imigração americana, não lhe deu ouvidos. O menino acabou morto.

Novo tarifaço de Trump pune Brasil por práticas que EUA também adotam, por Patrícia Campos Mello

Folha de S. Paulo

Em combate a corrupção, desmatamento, discriminação de empresas de internet e pagamentos instantâneos, Washington faz o mesmo

Apesar de alegar conflito de interesse do Banco Central, Fed tenta implementar versão do Pix, mas sistema não decolou

tarifaço americano anunciado nesta terça-feira (2) é um monumento à hipocrisia ao punir o Brasil por medidas que o próprio presidente Donald Trump põe em prática em seu país. Em combate a corrupção, discriminação contra empresas de internet, pagamentos eletrônicos e redução do desmatamento, os EUA de Trump fazem o mesmo que acusam o Brasil de fazer.

Ao justificar a tarifa de 25% contra o país, o relatório do USTR (Escritório de Comércio da Casa Branca) conclui que o Brasil não adota medidas suficientes para combater a corrupção e cita preocupações da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) sobre propinas pagas em outros países.

Ora, uma das primeiras ordens executivas anunciadas por Trump neste seu segundo mandato foi a suspensão da Lei de Práticas Estrangeiras de Corrupção, em 10 de fevereiro de 2025. Alegando que a lei gerava burocracia e custos excessivos para empresas americanas com atuação em outros países, Trump pausou por seis meses a aplicação da legislação e anulou a metade das investigações que estavam em curso.

Mentiras patriotas dos Bolsonaro tomam tiros na Segunda Guerra do Pix, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Flávio tentou ganhar pontos com foto de papagaio de pirata, mas foi pego no contrapé

Disputa político-eleitoral esconde discussão de efeitos econômicos de ameaças dos EUA

Os Bolsonaro acabaram do lado errado da Segunda Guerra do Pix, até por não terem escrúpulos, mentirem sem parar e não se importarem de explodir o que estiver no caminho deles até o poder ou na rota de fuga da polícia. Como jamais se sabe que tipo de informação sairá do filtro lunático, ignaro e odiento das redes sociais, é difícil dar chute informado sobre o efeito desta lambança dos Bolsonaro na eleição. Mas o risco aumentou.

Segunda Guerra: a direita propagandeava em janeiro de 2025 que Luiz Inácio Lula da Silva cobraria imposto sobre o pix, como se sabe. A campanha ajudou a ferir de modo duradouro a popularidade do presidente —inflação, bobagem fiscal e pânico financeiro ajudaram então a fazer o resto do serviço.

O que Flávio Bolsonaro foi buscar na Casa Branca? Por Wilson Gomes

Folha de S. Paulo

Foi buscar bênção política de Trump, mudar a pauta e exibir ao bolsonarismo que ainda tem os ouvidos do imperador

A estratégia funciona para os convertidos, mas pode soar como vassalagem para o eleitorado amplo

O que Flávio Bolsonaro foi fazer na Casa Branca? A resposta simples: foi atrás de uma fotografia. A completa: foi tentar mudar a pauta desfavorável da mídia, receber a bênção de Trump, o grão-sacerdote da nova direita mundial, reanimar a base com o tema da repressão ao crime, dar um verniz internacional a uma pré-candidatura desacreditada e mostrar que não é só Lula quem tem acesso ao governo americano.

A foto com Trump não resolveu seus problemas jurídicos ou as explicações que deve sobre o caso banco Master, mas foi um recurso extremo para estancar a sangria de sua popularidade e manter sua candidatura respirando.

Pretensão cinematográfica tem custado caro à franquia Bolsonaro, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

O que era para ser uma peça de boa propaganda acabou virando uma enorme dor de cabeça

A cada operação policial novos personagens são tragados para dentro do escândalo Master

O filme "Dark Horse" era para ser uma peça de propaganda e acabou virando uma grande dor de cabeça para a franquia Bolsonaro e associados, ao se estabelecerem ligações da produção com as vigarices de Daniel Vorcaro.

A cada fio puxado dessa meada, mais alto fica o custo da empreitada para a direita bolsonarista. A cada nova operação policial, alguém relacionado ao grupo é tragado para dentro do escândalo do banco Master.

Verdades raciais, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Bancas de heteroidentificação criam mais um caso polêmico, agora no Itamaraty

Biologia não oferece critérios objetivos consistentes para classificar humanos em raças

Flávia Goes de Medeiros foi exonerada do cargo de servidora no Itamaraty, no qual ingressara por concurso como cotista, após veto da comissão de heteroidentificação. Para a banca encarregada de verificar a autenticidade da autodeclaração racial dos candidatos, Medeiros não era negra. "Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará". OK, mas o que é a verdade?

A pergunta assombra filósofos há milênios. Uma resposta, que talvez frustre nossa imaginação metafísica, mas que se mostrou produtiva, é a contida nas teorias correspondenciais da verdade, que a definem como adequação da proposição ao objeto. Um corolário disso é que, se o objeto inexiste no mundo, é impossível fazer afirmações fáticas verdadeiras sobre ele.

Crescimento para poucos: a armadilha do capitalismo, por Roberto Amaral*

“O empresário tende inevitavelmente a se transformar em rentista e a dominar cada vez mais aqueles que só possuem sua força de trabalho. Uma vez constituído, o capital se reproduz sozinho, mais rápido do que cresce a produção. O passado devora a produção.” — Thomas Piketty, O capital no século XXI.

Ao contrário do que afirma Paulo Gala em seu excelente “Rumo a 2050” (Carta Capital, 27/05/2026), o crescimento da economia, por si, não altera a estrutura distributiva. Ao contrário, não apenas convive com alta concentração de renda, como a promove. 

Trata-se, simplesmente, de determinismo da lógica de acumulação do capitalismo, e sua consequência irrecorrível é a concentração da riqueza, na contramão da valorização do trabalho como um dos fatores da produção. Mesmo o aumento da produtividade não implica aumento proporcional dos salários. De um lado, os lucros do capital são reinvestidos, ampliando a escala do capital e, como em um círculo vicioso, reforçando sua concentração; doutra parte, o desemprego estrutural — alimento do exército industrial de reserva — pressiona os salários para baixo, quadro tendencial da globalização do capitalismo, a que se somam o desenvolvimento científico e as novas tecnologias, poupadoras de mão de obra e intensivas em capital, e a articulação de grandes e poucas corporações operando em escala global, de forma oligopolista, transitando para o monopólio, com níveis inéditos de concentração de mercado e de poder político, frequentemente avançando sobre as soberanias nacionais.

Poesia | Canção amiga, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Não quero saber mais dela -Beth Carvalho, Chico Buarque, Caetano Veloso e Fundo de Quintal - 1985

 

terça-feira, 2 de junho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Uso de criptoativos por criminosos requer atenção

Por O Globo

Operações contra finanças do PCC descobriram esquemas sofisticados de lavagem de dinheiro e golpes digitais

As operações recentes contra o Primeiro Comando da Capital (PCC), maior organização criminosa do Brasil, expuseram como o avanço da digitalização financeira abre espaço a novos crimes, permite integração à economia formal e cria inúmeras oportunidades para lavar o dinheiro resultante das atividades criminosas, como demonstrou reportagem do GLOBO. A transformação progressiva no perfil dos crimes — de assaltos e violência nas ruas para golpes digitais — tem pressionado o sistema de segurança pública e órgãos reguladores e de fiscalização, como o Banco Central (BC) e a Comissão de Valores Mobiliários. Entre os recursos empregados pelos criminosos, tem se destacado o uso crescente de criptoativos.

Os limites da reação do México aos EUA e as lições para o Brasil, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Discurso soberanista de Claudia Sheinbaum é movido pela política doméstica, assim como o de Lula

“O México não é saco de pancadas de ninguém”. Ao comemorar os dois anos de sua eleição, neste domingo, Claudia Scheinbaum deixou sua decantada moderação de lado e partiu pra cima dos EUA no seu discurso mais duro desde a posse. “Será que estamos vendo como setores da ultradireita americana usam nosso país para se posicionar em suas eleições de 2026? Ou acaso pretendem influir nas eleições de 2027 em nosso país?”, indagou. “Quando se normaliza a ideia de que outro país pode intervir em assuntos que só dizem respeito aos mexicanos, já não estamos falando de cooperação, mas de ingerência”.

O Brasil só aprende pela dor, por Luiz Schymura*

Valor Econômico

Nenhum dos candidatos competitivos à eleição deste ano sinalizou disposição de apresentar, no primeiro ano de governo, um programa estruturado de contenção de gastos

Se alguém sobrepuser a linha do tempo das reformas fiscais brasileiras aos momentos de deterioração econômica - inflação elevada, desemprego em alta, recessões -, encontrará um padrão inequívoco: o país não reforma quando pode; reforma quando não tem alternativa. Não há episódio relevante de ajuste estrutural aprovado em ambiente de prosperidade. Todos nasceram da crise. No Brasil, a disciplina fiscal raramente é escolha deliberada; é, quase sempre, reação tardia a uma realidade que se impõe.

Entre Keynes e Leão XIV, por Luiz Gonzaga Belluzzo

Valor Econômico

Entre o maior economista do século XX e Leão XIV há mais do que afinidades ocasionais

“Devemos abandonar os falsos princípios morais que nos conduziram nos últimos dois séculos. Eles colocaram as características humanas mais desagradáveis no lugar das mais elevadas virtudes. Não há nenhum país, nenhum povo que possa vislumbrar a era do tempo livre e da abundância sem um calafrio [...]. Pois fomos educados para o esforço aquisitivo e não para fruir [...]. Se avaliarmos o comportamento e as realizações das classes abastadas de hoje, as perspectivas são deprimentes [...]. Os que dispõem de rendimentos diferenciados, mas não têm deveres ou laços, falharam, em sua maioria, de forma desastrosa no encaminhamento dos problemas que lhes foram apresentados”. Assim escreveu John Maynard Keynes, em 1930, no ensaio “Possibilidades Econômicas de Nossos Netos”.

A advertência de Keynes não era apenas econômica. Era moral, histórica e civilizatória. O economista de Cambridge percebia que o capitalismo moderno havia convertido a acumulação em finalidade suprema da existência humana. As paixões menos nobres - a cobiça, o medo, a competição desenfreada, o desejo ilimitado de riqueza - deixaram de ser vícios tolerados para se transformarem em virtudes públicas. A sociedade moderna foi educada para o esforço aquisitivo, não para a fruição da vida, para a convivência comunitária ou para a realização espiritual do homem.

O poder do dinheiro, por Merval Pereira

O Globo

Sendo ou não o chefão, Vorcaro terá de assumir esse papel, ou designar o chefão por trás dele, para que sua delação premiada seja homologada.

Tudo indica que o caso Master provocará no terreno fértil da política brasileira o mesmo efeito que uma chuva persistente tem numa área íngreme: levará por água abaixo, com seu protagonista visível, o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, boa parte de nossas estruturas institucionais, que apenas fingem funcionar, mas na verdade servem de fachada para que o compadrio continue prevalecendo na nossa sociedade. Escrevo “protagonista visível” porque cresce a desconfiança de que Vorcaro era apenas o lobista político do grupo criminoso que provocou o maior rombo da história financeira do país.

A economia tem diversos ângulos, por Míriam Leitão

O Globo

“O próximo governo, seja qual for, terá o desafio de segurar o crescimento do gasto. E o Congresso terá que entender isso’, diz Mansueto Almeida, do BTG

A economia não é simples. Nem sempre o indicador tem apenas um ângulo. Como o IBGE mostrou na semana passada, houve crescimento no primeiro trimestre, só que daqui para a frente cada trimestre será mais fraco do que o anterior. Há outros dados que precisam ser vistos por diversos lados. A dívida pública subiu, mas o déficit primário caiu durante o governo Lula. A guerra do Irã piorou o cenário econômico. Contudo, por causa do conflito, o saldo comercial do petróleo será de R$ 45 bilhões, uma das razões para o real ser a moeda que mais se valorizou no mundo. O crescimento das despesas foi forte neste início de 2026, porém não apenas no governo federal.

Eleição é chance para mudar triste política do Rio, por Fernando Gabeira

O Globo

É preciso eleger alguém que compreenda o potencial do Rio e queira fazer algo decente por um estado que vem sendo saqueado ao longo do tempo

Quem mora no Rio e não pensa em se mudar precisa considerar a possibilidade que se abre de abolir a triste tradição de ver os governadores saindo do Palácio Guanabara para a cadeia.

As eleições nos dão uma chance, talvez a única, de nos livrarmos desse tipo de governo. É preciso eleger alguém que compreenda o potencial do Rio e queira também fazer algo decente por um estado que vem sendo saqueado ao longo do tempo.

Conhecendo (bem) o Brasil, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

O Brasil que muita gente conhece, mas o ‘Dark Horse’ dos Bolsonaro não conta

Essa gente é realmente criativa, muito engenhosa, tanto para botar a mão no dinheiro, seja público, seja sujo, quanto para disfarçar a sua trajetória e, no fim das contas, negar o seu destino. Entram, nessas operações, resorts, contratos, filmes, ONGs, bancos, empresas fantasmas, laranjas, fundos de pensão e, numa frequência assustadora, emendas parlamentares.

Um exemplo fresquinho une dois personagens curiosos: Mário Frias, deputado do PL, ex-secretário de Cultura no governo Bolsonaro e produtor executivo e roteirista do filme Dark Horse, e Karina Ferreira da Gama, sócia da produtora Go Up, responsável pelo filme, e dona de uma ONG com o sugestivo nome de Instituto Conhecer Brasil (ICB). Conhece mesmo!

Há problemas e há soluções, por Jorge J. Okubaro

O Estado de S. Paulo

Boas escolhas podem levar ao avanço das condições de vida e dos indicadores econômicos e sociais, ainda que muitas mazelas persistam

O êxito com que certos brasileiros, em viagem político-eleitoral ao exterior ou ali homiziados, agem contra o Brasil chega a dar a sensação de que este país está sem rumo e não parece preocupado em reencontrá-lo. Alguns até desejam, sem compreender a extensão dos riscos à segurança institucional e à soberania nacional de seus desejos, que potências estrangeiras invadam o País para resolver problemas que, na sua opinião, os brasileiros não sabem resolver.

Avanços econômicos ou sociais nunca serão suficientes para parte da população que parece descrente do futuro do Brasil. A qualquer melhora, sempre será possível contrapor um fato negativo, um dado ruim, uma situação precária que a desminta ou a torne quase nada. E aos descrentes, ou aos que querem semear a descrença, argumentos, de fato, não faltam. Mas essa não é a única maneira de enxergar o mundo.

Passo certo, bons resultados, por Paulo Hartung*

O Estado de S. Paulo

Apesar de desafiador quadro internacional, abrem-se oportunidades para o Brasil 

Em tempos de tantos desarranjos e incertezas, tive a oportunidade de revisitar a história recente do Brasil e refletir sobre êxitos que podem servir de inspiração no enfrentamento de nossos desafios atuais. A convite de Celso Lafer e Sergio Fausto, dois nomes que qualificam o debate público, participei do Ciclo de Debates “O Brasil na Visão das Lideranças Públicas”, da Fundação FHC, para discutir o cenário político e econômico brasileiro diante do atual panorama internacional. Falei de um mundo convulsionado que, não obstante, nos enseja muitas oportunidades. Citei justas indignações de nossa sociedade, mas também exemplos concretos de um Brasil que deu certo, os quais devem iluminar o caminho neste momento tortuoso. A palestra está disponível no canal da fundação no YouTube.

Escala 6 X 1: não estamos falando apenas de horas de trabalho, por Giuliana Franco Rodrigues*

Correio Braziliense

O Brasil envia uma mensagem clara para o mercado e o ambiente internacional em que a produtividade não pode mais caminhar separada do bem-estar do trabalhador?

O fim da escala 6x1 foi aprovado pela Câmara. Em breve, será uma realidade no papel. Essa votação expressiva (472 votos no primeiro turno, 461 no segundo) não foi uma maioria, mas um consenso. E quem acompanha o Congresso sabe que esses consensos são uma resposta à pressão social que o sistema político finalmente não pôde ignorar, especialmente em ano eleitoral. 

Essa proposta de emenda constitucional (PEC) estava pendente desde 2019, ressurgindo quando a deputada Erika Hilton (PSol-SP) apresentou a PEC 8/2025, prevendo uma escala 4 X 3, e alimentou o debate nas redes sociais, passando da esfera sindical para uma discussão sbre a qualidade de vida da população. 

Renan Santos e a revolta dos lascados da direita, por Juliano Spyer

Folha de S. Paulo

Líder do partido Missão e do MBL tem 6,9% das intenções de voto no primeiro turno

Ele traz o DNA da nova direita de dizer o que pensa

Neste ano, um nome ainda desconhecido da maioria dos brasileiros roubou o protagonismo de Lula e Flávio Bolsonaro. Se sobreviver à campanha, Renan Santos, líder do partido Missão e do MBL, terá se tornado um político influente —e talvez presidente da República.

Renan defende causas impopulares, mas o caso Master abriu para ele uma avenida de oportunidades para se apresentar ao eleitor.

Um banqueiro vive como príncipe, tendo desviado R$ 60 bilhões e aliciado para a operação aliados nos três Poderes. Enquanto isso, o país se vê travado pela polarização, há uma sensação geral de insegurança e milhões de brasileiros recorrem a aplicativos de transporte e entrega para trabalhar.

Trump e os Bolsonaro vão ajudar Lula de novo? Por Joel Pinheiro da Fonseca

Folha de S. Paulo

Flávio Bolsonaro identificou que endurecimento no combate ao crime é ponto fraco de Lula

Consequências de classificação de CV e PCC como terroristas dependerão de governo Trump

Em julho de 2025, depois de lobbying de Eduardo Bolsonaro, o governo Trump anunciou um tarifaço de 50% contra o Brasil bem como sanções contra autoridades brasileiras. No momento do anúncio, Eduardo Bolsonaro comemorou efusivamente. Dias depois, já estava claro que o ato de agressão contra o Brasil não era positivo, e sim embaraçosamente negativo para seu grupo.

Em maio de 2026, depois de lobbying de Flávio Bolsonaro, o governo Trump anuncia que passará a designar PCC e CV como organizações terroristas. Flávio e seus colegas celebram efusivamente. A pergunta se impõe: estaremos diante de outro erro bolsonarista?

Políticos têm um olho em 2026 e outro em 2030, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Última eleição de Lula incentiva centro-direita a reeditar frente ampla para barrar avanço bolsonarista

Fim do ciclo do PT e reinício da era Bolsonaro pautam decisões dos independentes à direita e à esquerda

Se é precipitado fazer apostas definitivas sobre o resultado da eleição presidencial que acontecerá daqui a quatro meses, soa a temeridade mergulhar em projeções sobre o cenário de 2030.

No entanto, é exatamente o que já se faz no mundo político, levando em conta dois fatores: o fim do ciclo de êxitos do PT e a longevidade da era de influência da franquia Bolsonaro no poder central.

Imoralidade tributária, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

É preocupante a aprovação, na Câmara, de PEC que amplia imunidade de igrejas a impostos

Entidades assistenciais ligadas a templos e que concorrem com iniciativa privada também seriam beneficiadas

O Brasil não vai dar certo. Falta-nos o sentido de comunidade. Se um dia já circulou por aqui a ideia de que os custos para a manutenção do Estado precisam ser divididos de forma mais ou menos equânime entre todos, pessoas e instituições, essa é uma noção que foi abandonada.

Mais um eloquente exemplo disso foi dado pelos deputados na semana passada, quando aprovaram uma emenda constitucional que amplia para níveis absurdos a imunidade tributária das igrejas. Pela PEC, que ainda precisa passar pelo Senado, o poder público fica impedido de cobrar impostos sobre tudo o que elas possuem, pelos serviços que contratam e até por itens que consomem. É isso mesmo, templos não pagariam um centavo de imposto seja sobre os jatinhos que compram para espalhar a palavra de Deus, seja sobre a comida com que saciam a fome de seus ministros, do pão ázimo ao caviar.

O repórter que descobre qualquer coisa, até vaca falante, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Livro narra trajetória de Luarlindo Ernesto, do auge da imprensa marrom ao caráter investigativo de hoje

Aos 82 anos, ele é capaz de desvendar o mistério do dinheiro investido no filme "Dark Horse"

No romance "O Piano e a Orquestra", de Carlos Heitor Cony, o narrador está obcecado por uma vaca. Uma vaca que fala em perfeito francês: "À votre service".

Ele só a encontrara uma vez, empacada no meio da estrada, e gostaria de revê-la e mergulhar de novo na doce alucinação. Só uma pessoa no mundo poderia ajudá-lo: o repórter policial Luarlindo, cuja fama era saber de tudo e ser capaz de descobrir qualquer coisa. Em troca de alguns chopes, o jornalista dá o serviço. A vaca se escondia no bairro do Lins de Vasconcelos, na zona norte do Rio de Janeiro.

Ernst Bloch, utopia e ideologia, por Thomas Amorim*

Portal A terra é redonda

Uma defesa da função utópica no pensamento marxista a partir de Ernst Bloch, demonstrando que a esperança é uma capacidade cognitiva orientada para o “ainda-não-ser” do mundo

1.

Em suas origens, o materialismo histórico censurou o utopismo como produto ideológico, como idealismo sobre a construção da harmonia social a despeito da compreensão do sistema econômico, dos interesses antagônicos e da luta de classes. O ideal, a fé na razão e o otimismo de Henri de Saint-Simon, Joseph Fourier e Robert Owen eram cegos para a inércia de uma sociedade replicadora insaciável.

Com justiça, Karl Marx e Friedrich Engels buscaram contrapor essa ingenuidade iluminista à compreensão das determinações concretas que constituíam as leis férreas de um sistema capitalista capaz, afinal, de mantê-lo em funcionamento até os dias de hoje, não importando todos os projetos bem-intencionados que tenham se contraposto a ele no curso dos últimos dois séculos.

Mas o risco de abandonar a projetividade e a especulação utópica é recair no fatalismo, na adesão resignada ao curso mecânico do mundo. No século XX, tal “realismo” concorreu para os sucessivos desastres do pragmatismo de esquerda, como a capitulação da socialdemocracia europeia ao social-chauvinismo e a conivência de parte da esquerda com os gulags. Desde as Teses Sobre Feuerbach, Karl Marx não gostaria de suprimir o ideal em favor do material, mas de compreender ambos como parte da “atividade sensível humana”, pois “a discussão sobre a realidade ou não realidade de um pensamento que se isola da práxis é uma questão puramente escolástica”.[i]

Poesia | Carlos Pena Filho - Circuito da Poesia do Recife

 

Música | Gal Costa - As rosas não falam (Cartola)

 

segunda-feira, 1 de junho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Aposentadoria compulsória está com os dias contados

Por Folha de S. Paulo

Supremo confirma voto de Dino contra punição de juízes que garante recebimento de vencimentos

À luz do espírito republicano, é impossível justificar pena tão indulgente; Congresso deve assegurar que decisão se aplique a todos

A Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STFacompanhou o ministro Flávio Dino para proibir o uso da aposentadoria compulsória com vencimentos proporcionais ao tempo de serviço como punição disciplinar para juízes.

Pelo menos foi esse o entendimento no caso de um magistrado de Mangaratiba (RJ), acusado de favorecer grupos políticos da cidade e policiais militares milicianos. A despeito da seriedade das condutas atribuídas, ele receberia como pena a possibilidade de ficar em casa sem trabalhar, com direito a vencimentos mensais.

O STF houve por bem se opor a essa mamata corporativista. De acordo com a decisão, restando comprovado que o juiz incorreu em infrações graves, sua sanção deve ser mais firme: a perda do cargo, sem direito a quaisquer montantes ligados à atividade jurisdicional, aí incluídos os de natureza previdenciária.

Entrevista: divisão no país não é ideológica, mas explica 'paralisia na avaliação' de Lula, diz Jairo Nicolau

Por Caio Sartori – O Globo

Após analisar triunfo de Bolsonaro em livro, professor da FGV destrincha mudanças vivenciadas pelo país entre a primeira e a última vitória do petista. Para ele, só a economia não é mais suficiente para garantir sucesso eleitoral

Depois de “O Brasil dobrou à direita”, no qual analisa o triunfo eleitoral de Jair Bolsonaro (PL) em 2018, o cientista político Jairo Nicolau, professor do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getúlio Vargas (CPDOC-FGV), publica agora “O país dividido”, também pela editora Zahar. Trata-se de um diagnóstico das mudanças sociais, demográficas e políticas vivenciadas nacionalmente entre a primeira vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em 2002, e a última, em 2022. E elas são muitas.

Em entrevista ao GLOBO, Nicolau afirma que a economia é insuficiente, hoje, para medir se um presidente será ou não bem-sucedido. A divisão do país, diz, não é ideológica, mas produz repulsas intransigentes e dificulta a melhora na avaliação do petista.

Temas morais e a segurança ganharam protagonismo nos últimos anos. Eles podem suplantar o debate econômico ou ainda “é a economia, estúpido”, como diz a máxima política?