quarta-feira, 18 de março de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Bolsonaro deveria ser transferido a prisão domiciliar

Por O Globo

Estado de saúde sensível justifica que ex-presidente seja mantido em casa, como pede sua defesa

Seria um gesto de sensatez e humanidade do Supremo Tribunal Federal (STF) a transferência do ex-presidente Jair Bolsonaro ao regime domiciliar de prisão. Internado em Brasília desde sexta-feira com pneumonia bacteriana, ele apresenta recuperação da função renal e melhora do quadro inflamatório, porém ainda sem previsão de alta. Não está em questão sua condenação por tentativa de golpe de Estado. A pena de mais de 27 anos mal começou a ser cumprida. Mas, dado seu quadro clínico sensível, Bolsonaro receberia mais atenção se pudesse ser transferido para casa, mediante uso permanente de tornozeleira — sem prejuízo de voltar à prisão caso desrespeite as medidas restritivas.

Haja 'química' para tanto pepino, por Vera Magalhães

O Globo

Encontro entre Lula e Trump, ainda sem data marcada, tem tanta casca de banana que desfecho favorável ao Brasil parece improvável

O encontro entre Donald Trump e Lula, anunciado, mas até agora não marcado nem confirmado, vai se configurando como evento de consequências imprevisíveis e ganho improvável para o Brasil, dadas as muitas possibilidades de cascas de bananas em que o presidente brasileiro pode tropeçar.

A primeira delas é, obviamente, a guerra deflagrada por Estados Unidos e Israel contra o Irã, já na terceira semana, sem perspectiva de desfecho, com impacto brutal sobre o fluxo de petróleo global e, consequentemente, sobre os preços dos combustíveis e outros derivados.

A bancada da Papuda, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Ao condenar dois deputados por desvio de emendas, Supremo avisou que "haverá outros"

No Brasil, os escândalos se sucedem com tanta velocidade que às vezes o novo trambique vem à tona antes que o anterior tenha sido elucidado.

Ontem o Supremo condenou dois deputados, um ex-deputado e outras cinco pessoas por corrupção passiva. Eles foram os primeiros réus a ser julgados por desvio de emendas do orçamento secreto.

Os parlamentares são Josimar Maranhãozinho e Pastor Gil, ambos do PL. De acordo com a Procuradoria-Geral da República, eles cobravam propina para destinar recursos a municípios maranhenses.

Se Vorcaro quiser falar, por Elio Gaspari

O Globo

Uma delação do ex-banqueiro precisa levar a mares nunca navegados

A substituição do advogado Pierpaolo Bottini por seu colega José Luis Oliveira Lima na defesa de Daniel Vorcaro sinalizou que o dono do falecido banco Master caminha para uma delação premiada. Antes de ser preso, Vorcaro usava sua memória como arma.

Tentando falar com o ministro Fernando Haddad, ele mandou um recado curto e grosso: “Eu preciso falar para ele o que pode acontecer se algo acontecer comigo”. Haddad não o recebeu, e algo aconteceu com ele.

Os desafios de Durigan à frente da Fazenda, por Lu Aiko Otta

Valor Econômico

Regulamentação dos supersalários segue como um dos principais tópicos de interlocução do futuro ministro com os Poderes

Praticamente certo como o ministro da Fazenda a partir da próxima semana, quando Fernando Haddad terá deixado o posto para entrar em campanha eleitoral, Dario Durigan não terá a vida fácil que caracteriza os períodos de final de governo. Não lhe bastará tocar de lado e esperar o fim da partida, como se diz no futebol. A guerra no Oriente Médio, a disputa eleitoral acirrada e os juros elevados que se refletem em pedidos de recuperação judicial de empresas antecipam um ano difícil.

Uma bomba de efeito retardado do caso Master, por Fernando Exman

Valor Econômico

Pesquisa “Brasil no espelho” mostra que a confiança interpessoal no Brasil é baixíssima

O caso Master armou uma bomba de efeito retardado para a economia, que vai além do já apurado impacto bilionário no sistema financeiro, mas cujo efeito ainda é difícil de precisar. Com ramificações em tantas instituições e nos três Poderes, a influência desse caso na confiança das pessoas no país só agora começa a ser sentido. O que não se pode desprezar, contudo, é a relação feita por especialistas entre a falta de confiança das pessoas (umas nas outras e nas instituições) e o nível de desenvolvimento econômico de um país.

Vorcaro ameaça atingir o PT em delação, por Vera Rosa

O Estado de S. Paulo

Rui Costa diz que preocupação com banqueiro é ‘zero’ e magistrados veem gincana contra STF

Há um clima de “delação do fim do mundo” na Praça dos Três Poderes. Para sair da prisão, o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, já negocia uma colaboração premiada e, de acordo com informações que chegaram ao Palácio do Planalto, pretende puxar o PT e o governo Lula para o escândalo.

O suspense dos juros, por Fábio Alves

O Estado de S. Paulo

A disparada no preço do petróleo colocou os principais bancos centrais do mundo contra a parede

A disparada no preço do petróleo, com a guerra no Irã, colocou os principais bancos centrais do mundo contra a parede e deixou a decisão de hoje do Copom envolta em suspense. O plano original era iniciar um ciclo de afrouxamento monetário com redução de 0,50 ponto porcentual dos juros, mas, com o choque de oferta causado pelo conflito no Oriente Médio, a dúvida é se esse primeiro corte pode ser em ritmo menor, de 0,25 ponto, ou até mesmo se a taxa Selic pode ficar inalterada em 15%.

Crime ou esperteza? Por Roberto DaMatta

O Estado de S. Paulo

É mais fácil alienar o pobre, remediando sua pobreza, do que criar instituições para ajudá-lo a prosperar

Eis uma questão que requer um seguro ou, talvez, um envergonhado “depende”... Depende da pessoa, das circunstâncias, do lugar. Em geral, a esperteza engloba o crime, dissolvendo-o na moldura da malandragem e do “arrumar-se” como um modo consentido e “esperto” de “ficar rico”.

País se distraía em dias de pânico, juros maiores e economia sob mais risco, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Nas redes, Brasil se entretinha com torcidas e ódios; na finança, Tesouro teve de intervir com R$ 43 bi

Guerra de Trump deve conter ânimo do Banco Central de cortar juros, entre outros problemas

Nos últimos dias, parte grande ou ruidosa da opinião pública, a atenção virtual nacional, se entretinha com o Oscar ou também se dedicava a insultar ou a defender a deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) e a reitora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, a física Márcia Barbosa. Parecia em paz o universo de Virginia Fonseca (54,7 milhões de seguidores no Instagram, um quarto da população do país). No mais, a bandalha nojenta do Master assoberbava o resto de atenção possível.

Nesses dias, como na sexta (13), houve pânico no mercado de títulos da dívida do governo brasileiro. É assunto enrolado. É difícil até discutir de modo racional o que são taxas de juros e o motivo de irem para lá ou para cá, que dirá os eventos de sexta.

Habermas: o filósofo das condições civilizadas do desacordo, por Wilson Gomes

Folha de S. Paulo

A esfera pública sustenta a legitimidade das decisões democráticas

Em tempos de sectarismo, ele ainda ensina como discordar sem destruir a democracia

Quem, como eu, se formou em filosofia ou ciências humanas no último quartil do século passado teve o mundo povoado e profundamente marcado por professores nascidos nas primeiras três décadas do século 20: Gadamer, Lévi-Strauss, Popper, Ricoeur, Eco, Apel, Rawls, Habermas. Fora Popper, falecido ainda nos anos 1990, todos morreram neste século; o último, o filósofo alemão Jürgen Habermas, foi-se neste sábado (14), aos 96 anos. Era o último filósofo vivo do peculiar século 20, o das duas guerras mundiais, da ascensão e queda do fascismo e do totalitarismo socialista.

A história do pensamento de Habermas, registrada em uma obra monumental publicada ao longo de quase 65 anos de vida intelectual ativa, pode ser resumida de muitos modos. Eu a abordo como a história de um dos problemas-chave do regime democrático: como transformar a divergência, natural em toda forma social, em processo legítimo de formação da opinião e da vontade política comum em sociedades pluralistas.

Fábrica de feminicidas, por Cristovam Buarque

Correio Braziliense

O destino dos facínoras que cometem violência contra mulheres — desde mensagens impróprias até o feminicídio — deve ser a punição. Mas a sociedade precisa fazer a prevenção contra o feminicídio por meio da educação

O destino dos facínoras que cometem violência contra mulheres — desde mensagens impróprias até o feminicídio — deve ser a punição. Mas a sociedade precisa fazer a prevenção contra o feminicídio por meio da educação

Há 30 anos, quem visita o Distrito Federal surpreende-se com a civilidade dos motoristas que respeitam pedestres quando esses desejam atravessar a rua. O respeito à faixa de pedestre não foi construído pela engenharia de trânsito nem por leis que obrigassem essa postura: nasceu de uma campanha educativa. 

Pra não dizer que não falei de Habermas e a democracia na real, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Estamos acostumados a debater os problemas da economia, da segurança pública e da Justiça, porém, a questão central que emerge na conjuntura brasileira é a sua legitimação

Jürgen Habermas, que morreu no último sábado, aos 96 anos, foi o expoente da segunda geração da Escola de Frankfurt. Doutor em filosofia pela Universidade de Bonn, professor em Heidelberg e Frankfurt, tornou-se referência mundial por duas ideias centrais: a da esfera pública e a da ação comunicativa. Por isso mesmo, o eixo de seu pensamento é político, no contexto do pós-Segunda Guerra Mundial, focado na ideia de que a democracia só se sustenta quando decisões de poder podem ser justificadas publicamente, em linguagem compreensível e sob regras minimamente compartilhadas.

Kassab aposta na rejeição e telhados de vidro de Lula e Flávio, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Reformas nos três Poderes serão as ideias-força do escolhido para furar as bolhas dos dois favoritos

No cardápio, limite de mandato no STF, volta do teto de gastos e mudanças radicais na administração pública

A data precisa do anúncio de quem será o escolhido para tentar atrair o eleitorado hoje dividido entre Luiz Inácio da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), Gilberto Kassab (PSD) não diz. Fica naquilo que já se sabe: "Será até o fim do mês", repete, também na guarda do quase segredo de polichinelo de que a indicação recairá sobre o paranaense Ratinho Jr., cujo nome pode passar por um reposicionamento de marca.

Kassab indica a aliados que anunciará Ratinho Jr. como pré-candidato do PSD

Raphael Di Cunto / Folha de S. Paulo

Partido acelera candidatura para estruturar campanha e nacionalizar nome do escolhido

Eduardo Leite e Ronaldo Caiado seguem atuando para convencer a sigla a lançá-los

O presidente do PSD, Gilberto Kassab, sinalizou a aliados que deve anunciar na próxima semana o nome do governador Ratinho Jr. como o pré-candidato à Presidência do partido. A informação foi confirmada por três integrantes da cúpula da legenda que o apontam como favorito para vencer a disputa interna. Ainda assim, eles evitam cravar a escolha pelo receio de que conversas finais mudem o desfecho.

A ideia da direção do partido e dos governadores é acelerar a divulgação do nome para que o escolhido possa estruturar sua campanha e se apresentar ao país, uma vez que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) consolidou seu nome de forma mais rápida do que era esperado na sigla.

Resolução do PT formaliza mudança de estratégia para 2026 e associa Flávio Bolsonaro à ameaça democrática

Por Ricardo Abreu, g1 e TV Globo 

Documento foi divulgado nesta terça-feira (17). Ele estabelece os eixos da campanha para a reeleição do presidente Lula e marca uma guinada na linha de ação do partido.

— BrasíliaA cúpula do Partido dos Trabalhadores (PT) divulgou nesta segunda-feira (16) uma resolução política que oficializa a mudança de postura da legenda para o ciclo eleitoral de 2026.

O documento, aprovado pela Comissão Executiva Nacional, vai na contramão da cautela do Planalto, e coloca o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como alvo opositor, classificando sua pré-candidatura como uma ameaça democrática e um projeto "autoritário e antipopular".

A ofensiva ocorre em um momento em que pesquisas internas e levantamentos recentes indicam um empate técnico entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro, o que acendeu o alerta entre integrantes da ala mais à esquerda do governo e dirigentes petistas.

Em resolução, PT deixa claro que há dois projetos distintos de nação em disputa

Comissão Executiva Nacional destaca que projeto de Lula enfrenta privilégios históricos; o outro lado quer preservar os interesses das elites

RESOLUÇÃO POLÍTICA DA COMISSÃO EXECUTIVA NACIONAL DO PT

16 de março de 2026

1. O Brasil se aproxima de um momento decisivo de sua história. As pesquisas de opinião indicam um cenário de polarização política no país, resultado direto da disputa entre dois projetos profundamente distintos de nação. Não se trata apenas de uma disputa eleitoral, mas de uma escolha histórica entre caminhos opostos para o desenvolvimento do Brasil, para a democracia e para o futuro do povo brasileiro. É, sobretudo, uma disputa entre um projeto que enfrenta privilégios históricos e outro que busca preservá-los.

2. Não temos dúvidas de que, quando esses projetos forem mais profundamente comparados com o debate público que uma campanha eleitoral permite, a maioria do povo brasileiro saberá qual lado representa seus interesses.

3. De um lado está o Brasil que respeita a ciência, que investe nas universidades públicas, fortalece o SUS, valoriza a cultura e entende que conhecimento, saúde e educação são pilares de um projeto de desenvolvimento soberano. É também o Brasil que reconhece as desigualdades produzidas pelo racismo estrutural e defende políticas afirmativas, como as cotas raciais, fundamentais para ampliar oportunidades, democratizar o acesso à educação e formar novas lideranças negras. Do outro lado está o Brasil do negacionismo, do racismo, que sabotou a compra de vacinas durante a pandemia, espalhou mentiras contra a ciência, extinguiu o Ministério da Cultura e atacou as universidades públicas, tratando o conhecimento como inimigo e criminalizando a arte e o pensamento crítico.

Fachin afirma que democracia exige "vigilância constante"

Vanilson Oliveira / Correio Braziliense 

Presidente do STF destaca que direitos não são permanentes e dependem da solidez institucional

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, afirmou nesta terça-feira (17/3) que a preservação da democracia depende diretamente do fortalecimento das instituições e da vigilância contínua da sociedade. A declaração foi dada durante sessão da Corte Interamericana de Direitos Humanos, que acontece na sede do STF, em Brasília.

O ministro ressaltou que a democracia não é um processo consolidado de forma definitiva. “A democracia exige vigilância constante”, afirmou. Fachin também destacou que a solidez institucional é condição essencial para a garantia de direitos. Segundo ele, não há como assegurar liberdades fundamentais sem estruturas independentes e comprometidas com a Constituição. “Não há direitos fundamentais que subsistam sem instituições sólidas”, completou.

Durante a fala, o presidente do STF reforçou que os direitos conquistados ao longo da história não são permanentes e podem sofrer retrocessos caso não haja comprometimento coletivo com sua preservação. Para ele, a atuação das instituições deve estar alinhada à defesa do regime democrático. “A democracia vicejará desde que, como bons jardineiros, saibamos regá-la. E perecerá se falharmos”, afirmou.

O ministro também apontou que a participação da sociedade é parte indispensável desse processo. Na avaliação de Fachin, a democracia não se sustenta apenas por normas formais, mas exige envolvimento ativo da população na defesa de seus princípios.

Ao fim, o magistrado reforçou que a democracia é um processo em constante construção e que sua preservação depende da responsabilidade institucional e do compromisso coletivo com os valores democráticos.

Poesia | Poética, de Manuel Bandeira

 

Música | Moacyr Luz & Samba do Trabalhador - Som de prata

 

terça-feira, 17 de março de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Robôs de IA violam leis de direitos autorais

Por O Globo

De sete chatbots testados, Grok foi o mais contumaz no desrespeito a produtores de conteúdo jornalístico

O Grok, robô de inteligência artificial da xAI, de Elon Musk, violou de forma contumaz os direitos autorais de conteúdos jornalísticos em teste realizado pela reportagem do GLOBO. O teste foi aplicado com a versão gratuita de sete chatbots diferentes — além do Grok, ChatGPT (OpenAI), Gemini (Google), Claude (Anthropic), Perplexity, DeepSeek e MetaAI. Os sete foram submetidos a indagações sobre conteúdo restrito a assinantes dos jornais O GLOBO, Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo e Zero Hora. Em todos os casos, o Grok entregou o texto completo escrito por colunistas, sem alterações. Em apenas um outro caso o DeepSeek reproduziu uma coluna literalmente, enquanto nos demais os robôs em geral ofereceram resumos detalhados, muitas vezes com paráfrases pouco diferentes do original. Apenas Perplexity e Claude informaram que o acesso às colunas era restrito aos assinantes ou estava bloqueado por barreira (paywall), procurando resumir fatos a partir de conteúdos abertos. A ferramenta da Meta alegou impossibilidade técnica para obter o conteúdo.

Habermas e a Reconstrução ética da economia, por Giovanni Beviláqua*

Correio Braziliense

Sob essa perspectiva, os pequenos negócios não são meras unidades estatísticas ou engrenagens de baixa produtividade; eles são, em essência, os últimos redutos do Mundo da Vida na economia.

A partida de Jürgen Habermas, em 14 de março de 2025, aos 96 anos, não representa apenas o fim da trajetória de um dos últimos gigantes da filosofia do século XX, mas marca o momento em que sua obra deixa de ser uma promessa teórica para se tornar uma necessidade prática urgente. Em um mundo fragmentado por crises de alteridade e pela tecnocracia asfixiante, Habermas nos legou a bússola da racionalidade comunicativa, uma ferramenta indispensável para quem busca repensar a economia a partir de sua base: os pequenos negócios e o desenvolvimento territorial.

O núcleo da provocação habermasiana reside na tensão dialética entre o "Sistema" e o "Mundo da Vida". Para o pensador, o Sistema — composto pelo mercado e pelo Estado — opera sob uma lógica instrumental, centrada na eficácia, no lucro e no poder. Já o Mundo da vida é o espaço da cultura, da identidade e da solidariedade, onde a linguagem serve ao entendimento e não apenas ao resultado. O grande drama da modernidade, segundo ele, é a "colonização do mundo da vida", um processo patológico onde a frieza dos números e a burocracia tentam silenciar as relações humanas espontâneas e os valores compartilhados.

Habermas e a imprensa, por Merval Pereira

O Globo

Habermas definia como dupla função do que chamava de “imprensa de qualidade” atender à demanda por informação e formação

Esfera pública é um conceito difundido pelo filósofo alemão Jürgen Habermas (falecido no sábado aos 96 anos). Define o espaço em que os assuntos públicos são discutidos pelos atores, públicos e privados, levando à formação da opinião pública, que reflete os anseios da sociedade civil, pressionando os governos. Esse conceito é fundamental para compreendermos o papel do jornalismo, que Habermas entendia como mediação entre Estado e sociedade civil. Ele definia como dupla função do que chamava de “imprensa de qualidade” atender à demanda por informação e formação.

Eleições de 2026, cenário e riscos, por Míriam Leitão

O Globo

Em pouco mais de seis meses, o Brasil irá às urnas. Será uma eleição com temas difíceis e, se a guerra continuar, a conjuntura econômica será adversa

Faltam sete meses, um pouco menos, para as eleições. É cedo para o senador Flávio Bolsonaro achar que os acontecimentos continuarão a favorecê-lo e é tarde para o governo não ter uma estratégia eficiente de campanha. Será uma eleição com temas difíceis e, se a guerra continuar, uma conjuntura adversa. A oposição já começou a manipular o assunto da classificação das facções de traficantes como organizações terroristas. Se adotada pelos Estados Unidos será perigoso para o Brasil e pode reduzir a cooperação entre Polícia Federal e FBI, mas a oposição dirá que o governo defende bandidos. O presidente Lula é o favorito nesta eleição, porém tem muito trabalho pela frente, e não haverá espaço para erros.

Os desafios da direita democrática, por Pedro Doria

O Globo

Quando alguém com o sobrenome Bolsonaro se põe em campanha, já surge com pelo menos 20% das intenções de voto

Celso Rocha de Barros, do podcast Foro de Teresina e colunista da Folha de S. Paulo, é um dos melhores analistas políticos brasileiros. Ele vem puxando, nas últimas semanas, um debate muito importante. Em sua opinião, não apareceu uma alternativa à família Bolsonaro pelo flanco direito por responsabilidade da própria direita. Para ele, quando seus principais líderes não condenam com clareza o golpismo do ex-presidente Jair Bolsonaro, não surge alternativa.

Houve resistência. O ex-governador paulista João Doria se bateu de peito aberto contra o ex-presidente. Alguns deputados federais, também. O MBL ensaiou participar de um pedido de impeachment. Agora está distante e muita gente não lembra, mas o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), foi para a rua defender o distanciamento social no princípio da pandemia. Todos os que enfrentaram Bolsonaro sofreram derrotas eleitorais acachapantes. Ou recuaram. Todos sabem que Bolsonaro não é um bom confrade político. É desleal, trai sem dó, não cumpre acordos. Não bastasse, é um paranoico que vê conspirações por toda parte. Todo mundo compreende que Bolsonaro só confia na própria família. Golpista é só um dos adjetivos que cabem a Bolsonaro.

O voo de Pegasus, os jacobinos e a encruzilhada do caso Master, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Se optar pela delação premiada, Daniel Vorcaro poderá revelar conexões entre empresários, autoridades e operadores financeiros, um strike político

A troca de advogados do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, repercute intensamente em Brasília: pode escalar ainda mais o escândalo, que envolve o sistema financeiro, autoridades públicas e o próprio Supremo Tribunal Federal (STF). O empresário passou a considerar a hipótese de uma delação premiada, sobretudo após a formação de maioria no STF para manter sua prisão, e isso deixou seus parceiros à beira de um ataque de nervos. Se isso ocorrer, atingirá o coração da República. É um homem-bomba.

A sedução de Vorcaro, por Fernando Gabeira

O Globo

Seduzir políticos e juízes para o consumo de luxo seria uma forma de viciá-los num estilo de vida do qual não poderiam mais se afastar

A festinha promovida por Daniel Vorcaro em Londres já foi muito abordada nas redes sociais. Não voltarei a ela para fazer considerações morais. Ela custou US$ 640 mil, consistiu na degustação de uísque Macallan, charutos e alguma comida. Deve ter sido financiada com dinheiro roubado aos aposentados e pequenos investidores.

Vorcaro e Mansur unidos contra a República, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

A unificação da defesa mostra que Master e Reag vão jogar juntos contra o sistema financeiro, a política, o judiciário e os reguladores

José Luis de Oliveira Lima já advogava para Daniel Vorcaro em outros processos criminais. Na sexta passou a acumular mais um caso, o do Master. Foi Vorcaro quem indicou o advogado para João Carlos Mansur em 2025 quando dono da Reag foi alvo da Operação Carbono Oculto, que investigou a lavagem de dinheiro no mercado de combustíveis.

Na Compliance Zero, operação na qual Vorcaro estreou o xadrez, Mansur foi alvo de busca e apreensão. Pesou a suspeita de que o Master atribui seu patrimônio a cotas de fundos da Reag, que, pobremente regulada pela CVM, oculta bens e valores.

Esta relação Master-Reag, Vorcaro-Mansur, agora alinhavada pelo mesmo advogado, é um desdobramento nada lateral da investigação em curso. Pierpaolo Bottini, o ex-advogado de Vorcaro, já fez delações mas é, principalmente, advogado de personagens alvos do mecanismo, desde a Lava-Jato.

Os alvos de Flávio Dino, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Aplausos ao fim de férias eternas para juízes corruptos, mas a crise do STF continua

Pode não ser assim, mas a impressão é de que só no Brasil acontecem coisas inaceitáveis, e à luz do dia, tais como desembargador corrupto ser “punido” com aposentadoria remunerada, filhas de militares serem sustentadas pelo Estado pelo resto da vida, os Poderes rasgarem a Constituição com salários acima do teto e o Legislativo se lambuzar com emendas que chegaram a R$ 31 bilhões em 2025.

Delação no clube do uísque, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Daniel Vorcaro pode delatar – não há restrição formal a que o faça, ainda que seja o líder da máfia. Pode delatar, tanto mais ante a maioria formada para que permaneça preso. O banqueiro, obstrutor da Justiça de almanaque, é a própria encarnação “do perigo da liberdade”, aquele cuja milícia – ainda ativa, segundo André Mendonça – violava sistemas para obter informações sigilosas, e cujos milhões contrataram, direta ou indiretamente, os melhores – os mais infernais – bloqueadores da República. (Não jogavam vôlei.)

Gostar do nosso país não significa gostar de quem fala em seu nome, por João Pereira Coutinho

Folha de S. Paulo

Documentário vencedor do Oscar expõe autoritarismo pós-moderno de Putin

Obra é resultado da ação de um homem comum que se recusou a viver na mentira

É uma grande alegria —e uma grande tristeza– assistir a um documentário como "Mr. Nobody Against Putin", de David Borenstein e Pavel Talankin. Mas quem quiser compreender o autoritarismo pós-moderno terá de passar por ele.

Chamo-lhe autoritarismo pós-moderno por uma razão simples: longe vão os tempos em que regimes totalitários exigiam controle absoluto ou adesão total das populações. Essa ambição jaz hoje entre ruínas. O poder aprendeu. Tornou-se mais econômico, mais ambíguo, mais sutil.

O controle é parcial, não total. A vigilância é difusa, não ostensiva. A autocensura é mais importante do que a censura clássica.

O novo autoritarismo não precisa de entusiasmo totalitário, nem de terror permanente, muito menos de uma ideologia sistemática. Precisa apenas de um verniz de normalidade e de adaptação social.

Há chance para a terceira via? Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Pesquisas sugerem que eleição presidencial será mais uma vez plebiscitária

Polarização se mantém porque eleitor responde mais ao medo do que à esperança

Como sempre digo, tudo o que não é proibido pelas leis da física pode acontecer. Não sou eu, portanto, quem vai cravar que uma candidatura da chamada terceira via está fadada ao fracasso. Receio, porém, que não sejam grandes as chances de algum postulante não identificado nem com o governismo nem com o bolsonarismo romper a polarização.

Impeachment seria saída extrema para crise de confiança do STF, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Se o tribunal não tomar uma providência interna, é provável que seja obrigado a aceitar uma solução externa

Nova maioria no Senado pode levar candidatos a presidente a defender impedimento de Toffoli e Moraes

crise de confiança que assola o Supremo Tribunal Federal (STF) traz à tona um fato: o saber jurídico não é suficiente para fazer frente a circunstâncias de natureza política. É o que se depreende do desnorteio dos ministros na busca por uma porta de saída no labirinto em que se encontram.

Divergem na leitura da cena, não se entendem sobre as razões da erosão de imagem, dividem-se na escolha das maneiras de reagir. A alguns parece que seja melhor apostar no espírito de corpo, na esperança de que o tempo do esquecimento dê seu jeito. Em outros prevalece a visão realista de que a solução reside na correção de condutas.

Lula cai na real: química de Trump é explosiva, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Demandas de combate às organizações criminosas sugerem um Brasil de joelhos

Encontro dos dois presidentes em Washington pode se transformar em reality show

A química entre Lula e Trump azedou. Se é que ela chegou a existir em algum momento ou tudo não passou de jogo de cena. As demandas de combate às organizações criminosas —reveladas em reportagem de Patrícia Campos Mello— sugerem uma republiqueta de joelhos diante de um império.

Trump exige que o Brasil receba em prisões os brasileiros capturados nos Estados Unidos, sabe-se lá sob quais acusações. Como faz El Salvador. O país da América Central é governado por Nayib Bukele, o queridinho da extrema direita global, que aparelhou as instituições e negociou uma trégua —ora vejam só— com gangues de traficantes.

Givaldo Siqueira, o Giva, por Ivan Alves Filho

Com Givaldo Siqueira, pernambucano de Serra Talhada radicado desde menino no Rio de Janeiro, tive conversas pautadas sempre pelo humor e pela inteligência. Paulinho da Viola dizia ser o Givaldo o maior papo do Rio de Janeiro e com toda razão. As conversas com ele, velho dirigente do Partido Comunista Brasileiro (PCB), iam muito além da política inclusive. O nosso querido Clube de Regatas do Flamengo, por exemplo, rendia muito assunto.

Eu me recordo que certa vez – isso se deu no início dos anos 90 – nós tivemos um encontro na Praça Mauá, no centro do Rio de Janeiro, às nove e meia da manhã e conversamos até às seis da tarde. Eu nem fui trabalhar naquele dia, e peço perdão tardio à Editora Terceiro Mundo por isso. Matei o trabalho. Acontece nas melhores famílias. Mas a causa era nobre: repassamos toda a História do Brasil, desde o período pré-colonial até a redemocratização, nada mais nada menos... 

Giva, como todos nós o chamávamos, foi um velho amigo de meu pai. Era sobrinho do grande músico José Siqueira, fundador da Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB). Givaldo frequentava a nossa casa já nos anos 50, na fase do Governo JK, e me conheceu ainda guri, de calça curta. Enfrentou uma clandestinidade pesada, que durou de 1964 a 1979. Viveu em várias partes do mundo, a começar pela ex-União Soviética e pela Itália. 

Poesia | Elegia para a adolescência, de Carlos Pena Filho

 

Música | Chico Buarque e João do Vale - "Carcará" (1982)

 

segunda-feira, 16 de março de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Brasil não está a salvo de ataques jihadistas

Por O Globo

Prisão de brasileiro que planejava atentado inspirado pelo Estado Islâmico traduz ameaça crescente

Embora até hoje não tenha havido nenhum ataque de inspiração jihadista no Brasil, isso não quer dizer que o país esteja imune. Com a facilidade de comunicação e aliciamento trazida pela internet, o terrorismo se globalizou, as iniciativas de recrutamento por grupos radicais se ampliaram, e o conflito no Oriente Médio cria um terreno fértil para a disseminação das narrativas perniciosas que tentam justificar a violência.

O elo perdido entre a máfia do INSS e o Banco Master, por Bruno Carazza

Valor Econômico

Farra com consignado lesou milhões e indica que outras instituições financeiras possam ter seguido o mesmo caminho do Master

O sinal de alerta me soou lendo a coluna de Jairo Saddi, aqui no Valor. No artigo de 02/03, o advogado chamou a atenção para dados de uma pesquisa acadêmica sobre o padrão de disputas judiciais envolvendo instituições financeiras. Como o tema me interessa, fui atrás da fonte. E acabei encontrando aquele que pode ser o elo perdido entre as fraudes bilionárias da máfia do INSS e do Banco Master.

E mais: talvez seja um problema que vá além do Careca do INSS e de Daniel Vorcaro. Em vez de obras de gênios do mal, podemos estar diante de uma prática sistêmica que lesa milhões de pessoas e compromete a estabilidade do sistema financeiro nacional.

As incertezas no cenário externo e as perspectivas para a Selic, por Sergio Lamucci

Valor Econômico

Mesmo com alta do petróleo, parece fazer sentido o BC começar o ciclo de cortes com uma redução de 0,5 ponto, acompanhada por um comunicado cauteloso

O cenário para a economia brasileira tornou-se mais incerto após o começo do conflito no Oriente Médio, especialmente devido à alta dos preços do petróleo. A expectativa de que a Selic, hoje em elevados 15% ao ano, cairia ao longo de 2026 até a casa de 12% a 12,5% está em xeque. Um corte de 0,5 ponto percentual na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) desta semana passou a ser visto como menos provável por um número maior de analistas. Uma redução de 0,25 ponto ganhou adeptos, com a avaliação de que o Banco Central (BC) deverá ser mais cauteloso, existindo até quem aposte na manutenção da taxa. Cortes muito modestos da Selic ao longo do ano seriam uma má notícia, embora possa ser um desfecho necessário. Juros altos por muito tempo seguram o investimento, castigam empresas e pessoas físicas endividadas e têm um pesado custo fiscal.