domingo, 30 de agosto de 2026

Opinião do dia | Hannah Arendt - A mentira (Visão geral criada por IA)

Para Hannah Arendt, a mentira é uma ferramenta poderosa, especialmente na política, que pode ser usada para manipular e controlar, mas também para criar e transformar a realidade. Ela distingue entre mentiras tradicionais e mentiras organizadas ou modernas, destacando que a mentira moderna visa a destruição da verdade, enquanto a mentira tradicional busca a ocultação. Arendt também enfatiza o perigo do autoengano, onde o mentiroso se torna vítima das próprias mentiras. 

Elaboração:

  • Mentira como Ferramenta Política:

Arendt defende que a verdade e a política raramente se encontram, e a mentira tem sido utilizada como um meio de manipulação e controle. Ela considera que o mentiroso é um homem de ação, capaz de imaginar e transformar a realidade, enquanto o que fala a verdade, muitas vezes, não é. 

  • Mentira Tradicional vs. Mentira Organizada/Moderna:

Arendt diferencia a mentira tradicional, que visa ocultar a verdade, da mentira organizada ou moderna, que busca a destruição da verdade. Essa distinção é importante para entender a natureza da mentira no contexto político e totalitário. 

  • Autoengano:

Arendt destaca o perigo do autoengano, onde o mentiroso se torna vítima de suas próprias mentiras. Ela argumenta que a mentira pode corroer a própria capacidade de distinguir a verdade da falsidade. 

  • Mentira no Totalitarismo:

Arendt analisa como a mentira é utilizada como um instrumento central na propaganda e na doutrinação em regimes totalitários. Ela enfatiza como a mentira organizada é utilizada para moldar a opinião pública e criar um mundo fictício. 

  • Importância da Verdade Factual:

Arendt enfatiza a importância da verdade factual, que depende do testemunho e da observação do mundo, para resistir à mentira. Ela distingue a verdade factual da verdade racional, que é baseada em princípios e conceitos. 

  • Mentira e a Educação:

Arendt reconhece a importância da educação na transmissão do conhecimento e da memória, como um meio de resistir à mentira e à propaganda. Ela argumenta que a educação pode ajudar a proteger o mundo comum e a preservar a verdade. 

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Lula ainda não entendeu o trabalho da imprensa

Por O Globo

Ao jornalismo profissional cabe relatar e esclarecer os fatos; não adivinhá-los

Há anos, quando confrontado com escândalos de corrupção, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, hoje novamente candidato à reeleição, cita a Operação Lava-Jato e diz que a imprensa brasileira nunca pediu desculpas a ele. Foi assim na entrevista ao Jornal Nacional na última quinta-feira. É certo que a jornalista Renata Vasconcellos, falando em nome do Grupo Globo, muito apropriadamente rebateu: “O jornalismo da Globo cumpriu sua obrigação de noticiar os fatos durante aquela cobertura”. Vale, porém, aprofundar a questão.

A Lava-Jato foi uma investigação feita por policiais federais e pelo Ministério Público, que resultou em um processo julgado por três instâncias da Justiça. Envolveu cifras bilionárias e confissões da maior parte dos agentes corruptores e daqueles que foram corrompidos. Levou à prisão empresários e pessoas que detiveram cargos públicos, inclusive o próprio presidente Lula, que sempre clamou por sua inocência.

As lições do piano de Thelonious Monk e as entrevistas dos candidatos, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

As sabatinas não definirão o resultado da eleição, apesar da enorme repercussão. Foram apenas os primeiros compassos de uma campanha sujeita a denúncias, erros, improvisações e mudanças de andamento

A frase “não existem notas erradas; algumas são apenas mais certas do que outras — tudo depende da que vem depois”, também atribuída ao trompetista Miles Davis, traduz com precisão a estética de Thelonious Monk, um dos grandes gênios do jazz e autor de Round Midnight, Straight, No Chaser, Epistrophy, Blue Monk e Misterioso, entre outros clássicos do gênero.

Em termos musicais, significa que uma nota não pode ser julgada isoladamente. Uma dissonância aparentemente equivocada pode adquirir sentido conforme a frase prossegue. A nota seguinte pode resolvê-la, reafirmá-la ou transformar o choque inicial numa tensão deliberada. No jazz, sobretudo na improvisação, o valor de cada som depende de sua relação com o acorde, o ritmo, o silêncio e as notas que vêm antes e depois.

Democracia em questão, por Míriam Leitão

O Globo

A questão democrática segue em jogo nesta eleição, com candidatos minimizando o 8 de janeiro e defendendo governos autoritários

Dos cinco entrevistados no Jornal Nacional, até sexta, a apenas um não foi preciso fazer perguntas sobre democracia. Dois subestimaram o ataque aos Três Poderes de 8 de janeiro, um apresentou uma proposta de extremismo autoritário e o quarto é filho de ex-presidente que tentou o golpe.

Romeu Zema disse que houve apenas “vandalismo”. Ronaldo Caiado prometeu anistia, e não condenou em momento algum os graves atos de conspiração de Jair BolsonaroRenan Santos quer um “banho de sangue”, regime de exceção em favelas e descumprimento de ordem judicial. Flávio Bolsonaro nega todos os fatos, prometeu indulto, e ameaçou enquadrar o Supremo Tribunal Federal. O presidente Lula ficou como o defensor solitário do regime que o Brasil conquistou com tantas lutas e dores.

Desesperança, por Merval Pereira

O Globo

Teremos a primeira eleição desde a redemocratização que não traz nenhum traço de esperança ao eleitor.

O desânimo com a eleição presidencial deve-se a que ela é a primeira desde a redemocratização que não traz nenhum traço de esperança ao eleitor. A primeira eleição direta depois da redemocratização, em 1989, trouxe a novidade do “caçador de Marajás”, o então governador de Alagoas Fernando Collor, contra os ícones da esquerda brasileira, Leonel Brizola de volta do exílio, e o líder operário Lula, que enfrentara a ditadura militar com as greves operárias de São Bernardo. Tudo era novidade, e os eleitores motivaram-se, cheios de esperanças.

Deu tudo errado, com Collor cassado por corrupção. Não foi preso na ocasião, mas está em prisão domiciliar atualmente, após reincidir no erro, eleito senador depois de passar anos inelegível. A eleição de 1994 teve a grande novidade até hoje no país, o Plano Real, que levou o ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso ao Palácio do Planalto no primeiro turno. Acabar com a hiperinflação foi o passo mais importante já dado no país, deixando de legado um tripé macroeconômico que resiste até hoje como modelo de boa governança: câmbio flutuante, metas de inflação e superávit primário.

Flávio Bolsonaro mente e distorce com mais convicção que o pai, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Senador afrontou os fatos ao falar de golpe, escândalo do Master e relação com miliciano

Flávio Bolsonaro deu uma nova contribuição à teoria de Darwin. Mostrou-se mais assertivo que o pai ao mentir, distorcer e renegar o que já disse. É a evolução da espécie.

Em entrevista à TV Globo, o candidato do PL fingiu desconhecer os fatos que levaram o capitão à cadeia. Descreveu como “golpe da Disney” a conspiração que destruiu as sedes dos Três Poderes e quase arrastou o país para uma nova ditadura.

O senador ainda chamou de petista o ex-comandante da Aeronáutica que, depois de votar em Jair Bolsonaro, recusou-se a manchar a farda para impedir a alternância de poder.

Questionado sobre o pedido de R$ 134 milhões a Daniel Vorcaro, Flávio descreveu o cambalacho como “relação privada”. “Não tem absolutamente nada de irregular”, recitou. O senador simulou esquecer que exerce cargo público e foi flagrado tomando dinheiro de um especialista em corromper autoridades.

Carlos Lacerda e sua máquina do ódio, por Elio Gaspari

O Globo

Resultado de anos de pesquisas, livro responde perguntas que sobreviveram por muitos anos em torno de uma figura que esteve no centro da política brasileira por décadas

Está nas livrarias “Lacerda — Coração de tempestade”, do repórter Mário Magalhães. É o primeiro volume e vai de 1914 a 1955, quando o golpe do general Henrique Lott levou-o a um breve exílio. Resultado de anos de pesquisas, responde perguntas que sobreviveram por muitos anos em torno de uma figura que esteve no centro da política brasileira por décadas.

Antes de se tornar um expoente da direita, Lacerda foi comunista? Foi. Pertenceu ao Partido Comunista? Não.

Quem feriu o pé de Lacerda no atentado que levou Getúlio Vargas ao suicídio em agosto de 1954? Um dos pistoleiros da guarda pessoal do presidente, financiada pelo caixa dois do Sistema S.

Seu nome — Carlos Frederico — é uma homenagem do pai a Karl Marx e Friedrich Engels? Não.

Seu primeiro amor foi a poeta Cecília Meireles. Ela tinha 28 anos e ele 17 incompletos.

Naqueles anos tumultuados, Lacerda foi da esquerda para a direita. Já Dom Hélder Câmara e Alceu Amoroso Lima foram da direita para a esquerda. Cecil Borer, o ferrabrás dos calabouços do Estado Novo, ficou onde estava, na meganha a serviço do Palácio. Ele prendeu Lacerda aos 19 anos, três dias antes da chegada de Adolf Hitler ao poder.

Sobreviver é prova de resistência em Gaza, por Dorrit Harazim

O Globo

Jerusalém ora representava pertencimento, ora anseio, cenas do cotidiano emanavam perda, identidade

Na semana passada morreu o pintor e escultor palestino Sliman Mansour. Vivera 79 anos. Até o fim, ano após ano, década após década, ele repetia um mesmo mantra:

— A solução de dois Estados independentes, um para a Palestina, outro para Israel, se dará um ano depois da minha morte.

A depender do Estado de Israel, essa fantasia precisa ser enterrada. Mansour fazia parte da geração de artistas gerados na primeira intifada dos anos 1970, que buscou uma linguagem visual para retratar o significado da memória — da memória do que é ser palestino. Um pé de oliveira adquiria a força-símbolo de terra e continuidade, Jerusalém ora representava pertencimento, ora anseio, cenas do cotidiano emanavam perda, identidade, resistência. Mansour foi quem mergulhou mais fundo nessa busca. Uma colheita na primavera, um vilarejo rural, duas palestinas tocando flauta — a resistência em sua obra é implícita.

Atores e ficção na estreia do horário eleitoral, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Flávio Bolsonaro fez o papel de homem de família e o presidente Lula, o de homem das massas

Na estreia da propaganda eleitoral de rádio e TV, Flávio Bolsonaro fez o papel de bom moço, homem de família, enquanto Lula encenou o líder das massas, do “povo”, e, assim, deixou um alerta para a campanha do opositor: Flávio precisa melhorar o conteúdo e a força da mensagem para convencer que é uma opção melhor do que Lula.

Talvez a principal frase de efeito tenha sido de Lula: “Flávio, o pior dos Bolsonaro”, um contraponto, justamente, à versão de que seria o filho primogênito de Jair Bolsonaro seria “o melhor”, “o moderado” ou o “bom moço” da família, como acabara de se apresentar.

Um acordo arriscado na Venezuela, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

Os Estados Unidos elaboraram um plano para tornar a Venezuela sua fornecedora estratégica de petróleo. A iniciativa cria, na prática, monopólio para empresas americanas sobre as maiores reservas de petróleo do mundo, e busca lhes proporcionar segurança política, regulatória, jurídica e financeira.

A Venezuela tem 303 bilhões de barris, mas produz só 1,25 milhão por dia, menos da metade do que antes de duas décadas e meia de destruição de valor e sucateamento sob o regime chavista. O risco de confiscos de pagamentos por credores e desapropriação de ativos por um futuro governo venezuelano tem afugentado as petroleiras americanas. É o que o governo Trump tenta endereçar.

Breve história das reviravoltas no mês final da eleição para presidente, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Votação de líderes e de candidatos no segundo lugar já mudou muito nas pesquisas

Apesar do histórico de mudanças, eleição presidencial de 2026 é parecida com a de 2022

A última fase da campanha começou, com TV e rádio. Falta pouco mais de mês para o primeiro turno. Não raro ocorre mudança relevante na votação de candidatos a presidente nessas semanas. Como em quase toda temporada final de caçada de votos, esta coluna recorda reviravoltas, nota que há a fazer na campanha e enfatiza que pesquisa eleitoral não é previsão de resultado, mas retrato de momento.

A eleição mais parecida com a deste ano é a de 2022. Desde o final de agosto de 2022, Luiz Inácio Lula da Silva tinha ao menos 45% dos votos, com picos de 48%, segundo o DatafolhaJair Bolsonaro tinha 32% em agosto, 34% em 9 de setembro e aí ficou até o primeiro turno. Na urna, deu 46,3% para Lula (votos totais) e 41,3% para Bolsonaro.

Nas pesquisas de eventual segundo turno (antes, pois, do primeiro), Lula tinha 53% ou 54% dos votos totais (58% dos válidos). Bolsonaro, 38% ou 39%. Na urna, deu 50,9% dos válidos para Lula.

Flávio Bolsonaro renega ajuste fiscal; direita já pode defender a democracia, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Candidato do PL foi à Globo e disse que não vai fazer o que o mercado está pedindo

Além de contas equilibradas, Flávio não conseguiu defender democracia nem soberania

Ô direitista, não precisa pular a coluna. Hoje o tema te interessa.

Não vou falar dos 145 mil mortos por falta de vacina durante a pandemia. Não vou falar sobre a tentativa de golpe que quase deu certo e que, se tivesse dado certo, teria matado milhares de opositores de Bolsonaro usando as armas da República. Não vou falar do fato evidente de que os R$ 134 milhões negociados por Flávio com Vorcaro seriam recompensa pela licença que os bolsonaristas deram para Vorcaro se tornar banqueiro, bem como pelos bilhões que os governadores bolsonaristas deram de dinheiro de aposentados do Rio de Janeiro e do BRB para o Banco Master. Não vou falar da conspiração bolsonarista pelos tarifaços nem da tentativa de melar a eleição presidencial usando uma superpotência estrangeira.

Candidatos que ocultam verdades criam defuntos insepultos, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

A opção pela mentira e a dissimulação expõe seus autores a se verem despidos da virtude fabricada

Lula e Flávio não respondem honestamente ao público nem afastam os fantasmas que os rodeiam

É direito de todo cidadão, eleitor ou não, cobrar franqueza e objetividade de governantes ou de qualquer um que postule o ofício da representação e, assim, pretenda ter poder de decisão sobre a vida da coletividade —em variados graus.

A escolha pela vida pública é livre; já seu exercício implica obrigações entre as quais está no topo da lista a permanente prestação de contas à sociedade dona dos votos e do dinheiro que sustenta a atividade.

A opção pela mentira, a meia-verdade e a dissimulação é caminho de risco; expõe seus autores ao constrangimento de se verem despidos da virtude fabricada.

A náusea no caminho das urnas, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

A chamada para o voto de manutenção da democracia debilita-se com a persistente sensação de desamparo

O problema atual é que as grandes transformações sociais acarretam mudanças em níveis diversos de consciência

É oportuna a expressão "baixo astral" para o desalento público com a desmoralização da classe política. "O povo vai meter 300 bandidos no Congresso", diz um presidenciável. "Um manicômio", diagnostica outro, psiquiatra. São sinais do ethos tóxico, agudo diante de eleições cujo parâmetro ético-político é a rejeição dos candidatos. A chamada para o voto de manutenção da democracia representativa debilita-se com a persistente sensação de desamparo social. A saturação dos modelos de governança neoliberal e a decomposição da representação parlamentar suscitam uma insólita náusea coletiva.

A maior de todas as pragas, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Livro mostra que desigualdade econômica preocupa filósofos desde Platão

Outros autores discutidos são Jesus, Hobbes, Rousseau, Adam Smith, Mill e Marx

Gostei de "The Greatest of All Plagues", de David Lay Williams, em que o autor procura mostrar que a preocupação com a desigualdade econômica se faz presente no cânone filosófico do Ocidente há mais tempo e de forma mais fundamental do que muitos poderiam supor.

Para tentar provar sua tese, Williams resgata passagens francamente igualitárias de um pool bem ecumênico de filósofos. São eles PlatãoJesus CristoThomas Hobbes, Jean-Jacques Rousseau, Adam Smith, John Stuart Mill e Karl Marx. Ok, Cristo entra um pouco de contrabando, já que não é propriamente um filósofo e não deixou obra escrita, mas não vejo maiores problemas nisso.

Poesia | Solidão, de Vinicius de Moraes

 

Música | Simone - O que será (Chico Buarque)

 

sábado, 29 de agosto de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

O partido da mídia

Por CartaCapital

A real oposição entra na campanha

Nas primeiras eleições diretas após o fim da ditadura, Lula, líder de uma agremiação que ainda não completara uma década, passou longe do radar no primeiro turno. Em 1989, a ameaça aos senhores do poder não era o sapo barbudo, mas o ex-governador Leonel Brizola. A ida do sindicalista à segunda volta marcaria o início de uma nova rivalidade. A manipulação pela Rede Globo do debate entre Lula e Fernando Collor, em favor do “caçador dos marajás”, seria a Pedra de Roseta de sucessivas intervenções dos meios de comunicação no processo eleitoral.

Em 2002, Lula, favorito, enfrentou a desconfiança pela falta de experiência administrativa. Seu principal adversário, embora eminência de uma legenda que havia levado o Brasil às cordas e ao racionamento de energia, era apresentado como o demiurgo da nação. Nascia ali uma das fábulas mais persistentes da crônica política brasileira, o “preparo” de José Serra. Tamanha era a devoção que não surpreenderia se um desses colunistas que expressam o pensamento dos patrões defendesse uma estrela Michelin para um pão na chapa servido pelo tucano. Em 2006, a farsa da pilha de dinheiro do dossiê dos aloprados, um conluio entre a imprensa “profissional” e um delegado da Polícia Federal denunciado por esta revista, impediu a vitória do petista no primeiro turno.

Começar de novo, por Marco Aurélio Nogueira*

O Estado de S. Paulo

Começar de novo não é esperar que o baú dos anos 1980 nos diga o que fazer. É usá-lo como referência

E se de repente alguém virasse a ampulheta e nos projetasse para onde tudo começou? E se insistíssemos numa rota já estabelecida, para reiniciar de onde paramos ou tropeçamos?

Nas eleições de 2026, os candidatos mais fortes querem manter vivo um caminho já trilhado. Lula quer fazer o que não conseguiu em seus três mandatos, mas não deseja voltar às origens, coisa que o levaria às promessas mais “puras” e radicais do PT de 1982. Flávio Bolsonaro, por sua vez, quer dar sequência à herança deixada pela Presidência de seu pai, patrimônio de valor discutível, mas não quer ir muito para trás e se deparar com um vazio improdutivo.

Desafios nacionais, por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

Falta uma política corajosa para enfrentar os problemas da Amazônia e revertê-los em favor dos brasileiros

A campanha eleitoral esconde os problemas brasileiros. Os candidatos habitam outra realidade. Os debates são vazios, cheios de ideias genéricas e afirmações coléricas sobre questões aleatórias. Um deles mencionou até a possibilidade de o país construir a bomba atômica. Retórica pura. Longe da realidade. Houve candidato que chegou perto. Ronaldo Caiado afirmou que a bandidagem transformou a Amazônia em santuário porque ali os traficantes agem livremente. A região se transformou na Disneylândia dos criminosos.

A fantasia da força contra o crime, por Juliana Diniz

O Povo (CE)

Os índices de violência não dão conta de um problema simples, ou que tenha ocorrido nos últimos dez anos. A solução aponta para a construção de um conjunto de políticas públicas que, na sua intersecção, são capazes de transformar a vida das pessoas e dificultar o trabalho das organizações criminosas

Poucos temas são tão caros ao eleitor de 2026 como o tema da segurança pública. Existe uma percepção disseminada de que o avanço da criminalidade está descontrolado: o senso de falta de lei gera um estado de tensão constante, de modo que o eleitor está atemorizado, com medo de sofrer uma violência física ou patrimonial.

É justamente esse estado de angústia que torna o eleitor tão suscetível a discursos eleitorais de combate ao crime. Os índices de violência não dão conta de um problema simples, ou que tenha ocorrido nos últimos dez anos. A solução aponta para a construção de um conjunto de políticas públicas que, na sua intersecção, são capazes de transformar a vida das pessoas e dificultar o trabalho das organizações criminosas.

Flávio se nega a prestar contas sobre o dinheiro pedido a Vorcaro para Dark Horse, por Lucas Allabi

O Estado de S. Paulo

Candidato do PL ao Planalto afirma que os recursos para o filme foram recebidos de ‘boa-fé’ e que não foi usada verba pública

O candidato do PL à Presidência disse em sabatina no Jornal Nacional que pediu a Daniel Vorcaro, do Banco Master, “patrocínio” para o filme Dark Horse e não “dinheiro”, e que não assinou contrato.

Em sabatina ontem no Jornal Nacional, da TV Globo, o candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, se negou a prestar contas sobre o dinheiro recebido de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para a produção do filme Dark Horse, que retrata a trajetória de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Segundo ele, os valores foram recebidos de “boa-fé” e não envolveram recursos públicos. Flávio também voltou a dizer que dará uma anistia ao pai, caso seja eleito.

Durante o programa, ele não apresentou dados de prestação de contas nem sobre o contrato da captação de recursos para o longa-metragem, alegando que os dados são públicos. O candidato havia feito essa promessa em maio.

Flávio Bolsonaro na Globo: Confira a análise da sabatina do candidato do PL

 

Flávio Bolsonaro, no conteúdo, se mostrou cru e pouco crível em entrevista na TV Globo, por Vera Magalhães

O Globo

Na forma, no entanto, candidato do PL à Presidência da República soou palatável e menos inseguro que em momentos menos roteirizados

Flávio Bolsonaro adotou um script de bom moço para se apresentar na TV Globo. Soando completamente ensaiado num minucioso media training, começou se solidarizando com a entrevistadora Renata Vasconcellos pelo que chamou de “grosseria” do presidente Lula na véspera.

Retratou-se sobre as dúvidas que levantou sobre as urnas eletrônicas, repreendeu o irmão Eduardo por ter comemorado o primeiro tarifaço de Donald Trump contra o Brasil e se esquivou de explicar o destino dos milhões que pediu, cobrou e obteve de Daniel Vorcaro, banqueiro que perpetrou a fraude do Master, sobretudo a parcela paga nos EUA.

No lugar de explicar a relação com Vorcaro, tentou inverter a situação e tecer ilações sobre uma reunião em que Lula, acompanhado do hoje presidente do BC Gabriel Galípolo, recebeu Vorcaro fora da agenda. Segundo ele, nesse encontro que chamou de clandestino Lula teria prometido que, quando Galípolo assumisse o BC, as investigações sobre o Master cessariam —o que não aconteceu; pelo contrário, foi na gestão atual que o banco foi liquidado.

Ambiente digital enfim desperta para a proteção a menores, por Flávia Oliveira

O Globo

Está na lei que as empresas de tecnologia precisam conceber produtos e serviços que sejam seguros para crianças e adolescentes

É verdade que o Brasil, por omissão dolosa do Congresso Nacional, não tem regulação para plataformas digitais. É verdade que o Supremo Tribunal Federal (STF), provocado, julgou parcialmente inconstitucional o artigo 19 do Marco Civil da Internet (Lei 12.965/2014), por não oferecer proteção suficiente nem às pessoas nem à democracia. E impôs às big techs o dever de evitar um punhado de práticas criminosas, incluindo terrorismo, discriminação e discurso de ódio, crimes de gênero contra mulheres, atos antidemocráticos. Mas, no que diz respeito a crianças e adolescentes, o ambiente digital já não é nem território livre, nem refém do Judiciário que legisla.

Quando a corrupção faz a diferença, por Thaís Oyama

O Globo

Na reta final da eleição, quando não houver mais tempo para um escândalo esfriar, o último a estourar pode decidir quem perde

É mais uma constatação desoladora do que uma coincidência que a primeira pergunta feita ao presidente Lula na sabatina da TV Globo tenha sido sobre corrupção: o mesmo assunto que abriu a entrevista do petista, na mesma emissora, em 2022. Lá, William Bonner perguntou ao então candidato como convenceria o eleitor de que escândalos como o petrolão, ainda fresco, não se repetiriam. Em sua resposta, Lula gabou-se de ter dado liberdade às instituições para investigar o caso, garantiu que quem tivesse cometido erros seria punido e invocou a injustiça de que acredita ter sido alvo na Lava-Jato para defender o benefício da dúvida aos investigados.

Entrevista | Economia vai decidir eleição, e não o caso Lulinha, diz fundador de instituto de pesquisa

Por Mariana Schreiber - BBC News Brasil

As investigações contra Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, não devem ser decisivas na disputa pela Presidência entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL), acredita Maurício Moura, doutor em Economia e Política e fundador do instituto de pesquisa Ideia.

Na sua visão, será a economia que influenciará o voto de cerca de 5 milhões de pessoas que definirão a eleição presidencial. Esse é o grupo que ainda não decidiu seu voto e pode optar tanto por Lula como por Flávio Bolsonaro.

Segundo o Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil, Lula aparece com 39% das intenções de voto no primeiro turno da eleição, contra 34% de Flávio Bolsonaro (PL). Em um segundo turno contra o senador, Lula teria 45% das intenções, contra 43%.

"Quando olhamos os 3% a 4% dos eleitores que achamos que vão decidir a eleição, eles já consideram basicamente todos os lados corruptos e não é isso que vai ser o fator decisivo. Então eu acho que [a investigação sobre suposta corrupção] é mais um tema de 'bolhas' do que um tema relevante para a eleição", disse, em entrevista à BBC News Brasil.

Lulinha é investigado em três inquéritos abertos pela Polícia Federal (PF) neste ano, que apuram um suposto tráfico de influência em favor de empresas interessadas em obter contratos com o governo federal. Em entrevista ao Jornal Nacional na quinta-feira (27/08), Lula classificou como "ilações" as acusações que estão circulando contra Lulinha e prometeu que ele "não será protegido" por ser seu filho.

Moura nota que esse grupo de indecisos é formado principalmente por mulheres, das áreas metropolitanas do Sudeste, com renda de dois a cinco salários mínimos, mas que estão endividadas. Tem também, em sua maioria, perfil conservador e frequentam igrejas.

"As pessoas têm atividade econômica, têm duas ou três fontes de renda, e mesmo assim não conseguem fechar a conta no final do mês. Tem um componente do custo da dívida, tem um componente de uma educação financeira bastante básica ou inexistente, e também tem agora o componente de bets [apostas esportivas]. Esse grupo que vai decidir a eleição sofre muito com a questão das bets. É um tema de muita dor", ressalta.

"E [essas eleitoras] são muito apolíticas, estão fora das discussões das bolhas. Isso tem um efeito prático: a decisão de voto é muito lá na frente [próximo ao dia da votação]", continua.

As pesquisas de intenção de voto apontam, no momento, para um segundo turno entre Lula e Flávio. Para Moura, no entanto, alguns fatores aumentam as chances de que o pleito seja decidido já na votação de 4 de outubro.

Na sua visão, a falta de uma terceira via forte pode levar o eleitor que não gostaria de votar em um dos dois primeiros candidatos a "antecipar o segundo turno" e optar logo entre Lula e Flávio no primeiro dia de votação.

Ele diz que o candidato do PL "ainda tem mais fôlego para crescer" e deve ser beneficiado no primeiro turno pelo "antipetismo de chegada", que ocorre quando o eleitor desiste de votar em alguém de sua preferência e faz voto útil no candidato melhor posicionado para ganhar do PT.

Moura destaca a resiliência das intenções de voto de Flávio após duas crises: a revelação de que o senador pediu ao banqueiro Daniel Vorcaro dezenas de milhões de reais para financiar um filme em homenagem a seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), e a briga pública — agora superada — com a primeira dama Michelle Bolsonaro (PL).

"Ele passou por duas crises graves na campanha e os números dele são os números mais sólidos de um segundo colocado desde 1989 nesse momento, o que mostra que o sentimento divisor do país continua muito bem estabelecido".

Confira a seguir os destaques da entrevista

Eleições e ajuste fiscal, por Marcus Pestana

Muitas são as tarefas: melhorar a infraestrutura, diminuir a carga tributária, derrubar as taxas de juros, combater a burocracia, estimular o avanço tecnológico e a inovação, dar um salto de qualidade no aprendizado dos jovens e crianças, qualificar o capital humano, acelerar a integração às cadeias produtivas e comerciais globais, garantir segurança jurídica e estabilidade legal e regulatória

Mas, à frente de todas as metas, há um nó górdio a ser desatado: o desequilíbrio fiscal. Dificilmente os candidatos à presidência detalharão seus planos para lidar com um déficit primário (o que o governo gasta mais do que arrecada, fora juros) que será, em 2026, de 0,4% ou 0,5% do PIB, ou seja, um buraco no orçamento do governo de algo em torno de 60 bilhões de reais. O futuro presidente da República tem inexoravelmente um encontro marcado com o ajuste fiscal no início de 2027. O atual rumo é insustentável.

Economia e democracia, por Luiz Gonzaga Belluzzo

CartaCapital

O credo do novo liberalismo, como o do velho, reza que é tempo de abandonar a pretensão de influir no ânimo dos capitalistas 

Os debates eleitorais sugerem uma tensão permanente nas relações entre a economia e a democracia. Os candidatos inclinados à direita, a despeito de suas convicções autoritárias, acham possível reduzir essa tensão por meio do encolhimento do Estado e da redução de suas funções, despolitizando a economia. Estamos, assim, diante de um paradoxo que postula a convivência entre liberalismo econômico e autocracia política.

Hora de levantar trincheiras, por Maria Inês Nassif

CartaCapital

A campanha de Lula gasta muito tempo pedindo desculpas ao setor financeiro

É desproporcional o movimento do PT e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para “negociar” com o mercado financeiro os termos de seu programa de governo. Lula está longe de ser um desconhecido e não tem a obrigação de se apresentar a cada pleito e pedir o aval para um novo mandato. Nesse momento ele disputa um quarto – e já terminando o terceiro, vai devolver um país muito melhor do que o que encontrou no início do governo, como fez no primeiro e no segundo mandatos. As suas três gestões foram marcadas por estabilidade e previsibilidade econômica. O País cresceu e a entidade “mercado” lucrou muito com isso. Um Banco Central independente do governo e muito afinado com o capital financeiro mantém, e manteve antes, o País curvado a taxas de juro estratosféricas que aumentaram a riqueza de milionários e fizeram novos deles ao longo do tempo.

O filho protegido, por André Barrocal

CartaCapital

Citado em um esquema nos Correios, Flávio Bolsonaro contou com a leniência de Aras e Nunes Marques

Fábio Luís da Silva continua uma pedra no sapato da campanha à reeleição do pai. Além de dizer que o filho terá de pagar se tiver culpa por relações próximas demais com uma lobista, Lula salienta que o principal rival na eleição, Flávio Bolsonaro, foi protegido pelo governo do pai contra investigações. O escudo mais famoso apareceu no caso das “rachadinhas”, motivo de Jair Bolsonaro ter demitido o chefe da Polícia Federal em 2020. Há mais um caso no qual as autoridades deixaram Flávio em paz durante o mandato do capitão. Um inquérito da PF sobre ­falcatruas­ nos Correios esbarrou em citações a Flávio, em suspeitas de que ele havia colaborado com a turma do esquema e de que teria recebido – e gostado – de uma proposta de suborno de 1 milhão de reais. Mas nem o delegado que conduziu o inquérito no estado mais bolsonarista do Brasil, nem o procurador-geral da República indicado por Bolsonaro, nem um juiz nomeado pelo capitão para o Supremo Tribunal Federal acharam importante investigar o “zero um”. Uma juíza federal de Florianópolis nadou sozinha contra a maré… Em vão.

O velho padrão Globo de entrevistar Lula, por Eliara Santana*

CartaCapital

‘JN’ transformou a sabatina em um interrogatório marcado por constrangimento e ausências deliberadas

A proposta de sabatina/entrevista realizada pelo Jornal Nacional com o presidente Lula, na quinta feira 27, em muito se assemelhou à tomada de depoimento de um acusado. Não somente pelo teor das perguntas, mas também pelo encadeamento dos temas e pela condução dos entrevistadores. A pergunta inicial foi, obviamente, sobre as investigações envolvendo Fabio Luís Lula da Silva, filho do presidente que a imprensa chama de “Lulinha”. Pergunta dura feita por César Tralli, à qual Lula respondeu; o apresentador insistiu no mesmo tema com outro viés, desdobrando a pergunta em outra provocação; Lula respondeu; o apresentador retomou o tema; depois, Renata Vasconcelos inquiriu sobre o mesmo assunto – o tema corrupção, no início da entrevista, tomou mais de quatro minutos dos 40 disponíveis para o evento, ou seja, mais de 10% do tempo do candidato foram gastos num único tema, que continha apenas provocação e intimidação. Na verdade, o que estava ali em cena era novamente o uso do repertório corrupção – lembrando que repertórios são temas norteadores da construção da notícia, do noticiário –, que foi deflagrado desde 2014 pelo JN; à época, com os requintes simbólicos do fundo vermelho e um duto enferrujado por onde escorria dinheiro. O interrogatório ao presidente Lula, embalado no formato de entrevista, estava no mesmo molde.

O espetáculo dos vazamentos, por Pedro Serrano

CartaCapital

Eles são sempre seletivos e visam interferir, não é de hoje, no processo eleitoral

Os vazamentos de dados sigilosos de investigações criminais banalizaram-se. Apenas para ficarmos nos eventos mais recentes, os casos Master e o relativo a Fábio Luís Lula da Silva são objeto de intenso vazamento de informações que deveriam ser sigilosas, bem como de cuidadoso tratamento.

O vazamento é, curiosamente, sempre seletivo. Constrói-se todo um raciocínio não com base em investigação que se tenha lido, em documentos que se tenha visto. Baseia-se, ao invés, em dado específico especialmente selecionado com determinado propósito, razão pela qual sempre levam a conclusões equivocadas. Passamos a discutir fatos com base em notícias oriundas de vazamentos seletivos. A discussão pública muitas vezes é paralela e distinta daquela que tramita nos autos e instâncias próprios.

Escola de escândalos, por Murillo de Aragão

Revista Veja

País depende de revelações e delações para escolher o presidente

A campanha de 2026 entra na fase decisiva sem favorito e com uma peculiaridade: em eleições normais, o indeciso decide pela economia ou pelo medo. O empate técnico entre Lula e Flávio apontado pela Quaest não revela apenas equilíbrio; revela paralisia. Ninguém transformou o descontentamento com a economia em adesão, e o mercado enxerga riscos fiscais semelhantes para qualquer vencedor. Juros altos, contas públicas em desordem e despesas obrigatórias que resistem a qualquer ajuste entraram no debate sem mudar o placar. Continuamos a depender de revelações e delações para escolher o presidente, o que diz mais sobre o estado do sistema político do que sobre candidatos.

Comida a prazo, por José Casado

Revista Veja  

No país dos juros obscenos, eleitores compram sanduíche e marmita no crediário

Todo mês 650000 brasileiros compram marmita ou sanduíche no crediário. Essa foi a média do iFood no primeiro semestre. É o triplo do que a empresa registrou no final do ano passado, quando começou a oferecer comida a prazo. Os clientes escolhem pagar na parcela”, em seis prestações com juros de 8,36%. Num exemplo, uma compra de 100 reais, com taxa de 20 reais pela entrega, tem custo final de 130 reais.

É evidência nova de problema antigo, a dependência crescente do crédito até para o essencial à sobrevivência. Indica uma corrosão persistente do poder de compra das pessoas — quase todos eleitores com renda mensal de até dois salários mínimos, equivalentes a 3242 reais. Mostra, também, os limites do consumo numa economia aprisionada na baixa renda.