sábado, 6 de junho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Há saídas para Brasil enfrentar tarifas americanas

Por O Globo

Além de ampliar lista de exceções, país pode diversificar exportações para China e, sobretudo, Europa

Não há como menosprezar o impacto da investida tarifária disparada pelos Estados Unidos na direção do Brasil. Se vingarem as duas ondas — a primeira derivada de uma investigação específica de práticas comerciais brasileiras, a segunda com base em acusações de uso de trabalho forçado dirigidas a 60 países —, produtos brasileiros serão submetidos a taxas de até 37,5% para entrar no mercado americano. Mas também não se deve menosprezar a capacidade de adaptação da economia brasileira para mitigar os efeitos dessas medidas. Há duas vias de escape às tarifas, e ambas vêm sendo desbravadas.

A primeira via é a lista de exceções aberta pelo próprio governo americano na investigação que recomenda as tarifas, incluindo commodities como carne e café, além de dezenas de outros produtos que interessa aos Estados Unidos continuar comprando do Brasil — na prática, as tarifas mais elevadas recaem sobre algo como um quinto das exportações brasileiras, a maioria industriais. Enquanto essa lista não estiver fechada, os negociadores do Itamaraty e grupos empresariais farão todo tipo de pressão para ampliá-la. Os americanos já se disseram abertos e poderão ceder em vários mercados.

Vai, Brasa! Por Eduardo Affonso

O Globo

O traje social da seleção divide opiniões: há quem ache feio, há quem ache horroroso

Lá se foi o Brasil, pela sexta vez, rumo ao hexa. E, em vez de nos dedicarmos a pintar asfalto, pendurar bandeirola e tirar do armário a vuvuzela, somos 213 milhões em ação criticando o uniforme do escrete canarinho. Cansados de ser especialistas em logística naval no Estreito de Ormuz, em definição de “grupo terrorista” e em escala 6 x 1, viramos fashionistas. Tudo porque o traje social da seleção divide opiniões: há quem ache feio, há quem ache horroroso.

É que você, torcedor ingrato, não capta as referências e não entende que, em moda, o resultado é o de menos — o que importa é o conceito.

Sim, parece que os jogadores estão de pijama — uma forma de nos lembrar que é preciso continuar sonhando em ser campeões. Mesmo numa disputa em que também estejam Espanha, França, Inglaterra, Argentina e Portugal. Sem contar Alemanha, Holanda, Bélgica, Noruega, Colômbia e meia dúzia de outros sérios candidatos a nos mandar pra cama mais cedo.

O avesso do cuidado, por Flávia Oliveira

O Globo

O que se viu foi brutalidade, desatenção, abandono, revitimização - o avesso do cuidado

Foi uma semana devastadora para quem acredita, como reza o provérbio africano, que é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança. A frase diz respeito à atribuição compartilhada por família, comunidade, escola, Estado, para garantir vida saudável, confortável, digna a meninas e meninos, Brasil e mundo afora. Neste limiar de junho, o que se viu foi brutalidade, desatenção, abandono, revitimização — o avesso do cuidado, enfim.

A misoginia não matou Henry, por Thaís Oyama

O Globo

Ao invocar conceitos como misoginia e discriminações de gênero, juíza introduziu uma categoria ideológica como parte da decisão penal

Quando Henry Borel, de 4 anos, deu entrada no hospital carioca Barra D’Or já sem sinais vitais, sua mãe, Monique Medeiros, endossou a versão do namorado, o ex-vereador Jairo Souza Santos Júnior, segundo a qual a criança havia caído da cama. Na quinta-feira passada, Dr. Jairinho, como é conhecido, foi condenado a 43 anos de prisão pela morte de Henry. Sete laudos concluíram que o menino morreu por hemorragia interna e laceração no fígado causada por ação contundente. Peritos descartaram a hipótese de acidente doméstico.

Mais alguns anos com uma inútil polaridade? Por Bolívar Lamounier

O Estado de S. Paulo

Se Lula e Flávio Bolsonaro tivessem um pingo de patriotismo, abdicariam de suas candidaturas

Os últimos números da economia, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), indicam um crescimento de 2% do Produto Interno Bruto (PIB) para 2026, resultado puxado pelo agronegócio e pelo consumo das famílias.

Em bom português, deverse-ia dizer nada, mas dentro da série de 19 meses iniciada no terceiro trimestre de 2021, o tom dos comentaristas é positivo, qualificando tal resultado como “de expansão”. Mas, cada um a seu modo, todos fazem severas ressalvas. A primeira, de que dificilmente o PIB crescerá 2% em 2027, devido ao cenário internacional adverso, graças aos diversos efeitos Trump, às incertezas criadas pela guerra no Oriente Médio e, não menos importante, no plano doméstico, à continuação da polarização política nas eleições de outubro.

Congressualismo dos interesses, por Miguel Reale Júnior*

O Estado de S. Paulo

Perdeu-se o pudor: agora é a consagração da compra disfarçada de votos dos beneficiários da emenda parlamentar

Da promulgação da Constituição até os dias de hoje, a corrupção tem sido a marca da vida política. Aconteceu paulatinamente, tendo sua origem no seio da própria Assembleia Constituinte, quando se instaurou o princípio “franciscano” do “dando é que se recebe”.

Assim, a Assembleia Constituinte traz como mancha indelével a compra de votos pelo governo Sarney, visando a impor a vitória da Emenda Coletiva que instaurava o presidencialismo e os cinco anos de mandato.

Nasceu ali o Centrão, composto pelos constituintes anônimos que pouco participaram do processo de decisão, e obtiveram, no final dos trabalhos, a mudança do regimento instalando uma “revolução”, ao se admitir que uma Emenda de Capítulo assinada por 280 constituintes passava a ser o texto a ser votado, não vigorando apenas se rejeitado pela maioria absoluta. A emenda coletiva desfazia o trabalho anterior, para se dar voz à maioria silenciosa e pouco participativa.

Por amizade, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Daniel Vorcaro tem esculachado – sob novos graus de esculacho – a já esculachada colaboração premiada brasileira, cuja matriz a serviço do interesse público está posta em xeque novamente, pela preponderância da má-fé de um corruptor obstrutor da Justiça que opera os recursos de uma concessão excepcional do Estado para proteger o próprio patrimônio; também a sua porção imaterial...

Quantas chances lhe darão Procuradoria-Geral da República e Polícia Federal? Quantas, se as investigações estão lá na frente – capazes já de lhe prescindir da palavra – e o tipo insiste em gerir a negociação como instrumento de defesa de mão única, protelatório, com contrapartida debochante e plantador de condições para nulidades?

Quando a humanidade virou negócio, por Fabio Gallo

O Estado de S. Paulo

Nenhuma tecnologia consegue ocupar o lugar de uma família – a menos que nós mesmos o entreguemos

Uma cena muito comum hoje é um casal com uma filha durante o almoço, num restaurante, quando o pai e mãe estão entretidos com os seus smartphones e a criança assistindo a um vídeo. A imagem pode num primeiro instante se mostrar lúdica, afinal a criança está distraída, não dando trabalho algum, e os pais, também, distraídos, envoltos consigo mesmos. Quadro que ilustra bem o argumento trazido por Eugênio Bucci no seu artigo O Papa e a técnica, quando ele diz que uma criança diante de uma tela não está apenas consumindo mídia; está participando de uma engrenagem econômica que transforma atenção em receita; dados, em valor; e comportamento, em lucro.

A primeira vítima, por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

O autor do livro "A primeira vítima", o inglês Phillip Knightley, afirma que, em tempo de guerra, a primeira vítima é a verdade. Nos dias de hoje, Donald Trump dá razão ao autor

Há um livro clássico sobre o exercício do jornalismo em tempo de guerra. Seu título é A primeira vítima, do autor inglês Phillip Knightley, publicado em 1978 pela editora Nova Fronteira. É um ótimo trabalho de pesquisa, recomendável para quem gosta de estudar a ação dos jornalistas em momentos tumultuados. O autor não alivia: em tempo de guerra, a primeira vítima é a verdade. Nos dias de hoje, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, dá razão ao autor. Ele diz e desdiz, dia após dia, o que ocorre na sua guerra contra o Irã.

No primeiro momento, a imprensa dos Estados Unidos anunciou que a defesa do adversário estava destruída. Depois, os jornais verificaram que a realidade não era aquela. Em seguida, os jornais foram obrigados a reconhecer que o dispositivo nuclear daquele país está preservado. Trump anunciou o desaparecimento de um império, em referência à Pérsia, ofereceu sucessivos prazos para que o conflito terminasse. E não aconteceu nada. O Estreito de Ormuz continua fechado. O preço do barril de petróleo, que é a única expressão da verdade, persiste muito elevado.

Fim do Pix? Um debate que não deveria existir, por Juliana Diniz*

O Povo (CE)

Por mais que a opinião pública esteja muito firme no seu apoio ao meio de pagamento brasileiro, o simples fato de que um expoente do bolsonarismo, filho de Jair Bolsonaro e irmão do pré-candidato, se sinta autorizado a colocar a possibilidade na mesa deveria causar espanto

Depois do anúncio de mais um tarifaço e da classificação de duas organizações criminosas brasileiras como terroristas, temos um outro tema no centro das tensões entre Estados Unidos e Brasil: o Pix. Os americanos já manifestam há algum tempo seu descontentamento com o meio de pagamento que se popularizou por aqui: considerado uma ameaça ao lucro das empresas de cartão de crédito, o Pix foi inserido por Donald Trump num caldo confuso que envolve combate ao crime organizado e debate sobre equilíbrio da balança comercial.

Que as medidas tenham sido anunciadas logo após a visita do senador Flávio Bolsonaro não é uma surpresa. A correlação entre visita e sanções é notória, e nem precisaríamos da foto publicada pelo próprio presidente americano no dia da revelação do tarifaço para perceber o esforço do bolsonarismo em instrumentalizar sanções para fins eleitorais.

Eduardo Bolsonaro colocou a digital contra o Pix e foi tudo gravado, por Adriana Fernandes


Folha de S. Paulo

Ao citar o Zelle, um sistema privado de pagamentos e transferências operado por bancos americanos, Eduardo Bolsonaro propôs negociar com os Estados Unidos

Não há nada a negociar. O Pix é hoje a marca mais forte admirada pelos brasileiros

Eduardo Bolsonaro colocou a digital contra o Pix e foi tudo gravado. Ao citar o Zelle, um sistema privado de pagamentos e transferências operado por bancos americanos, o ex-deputado federal cassado propôs negociar com os Estados Unidos.

Ele disse literalmente: "Os Estados Unidos, né, têm mecanismos muito semelhantes ao Pix, como por exemplo o Zelle. É o Pix dos Estados Unidos. Aqui é o Zelle. Então dá para você ir para uma mesa de negociação com os americanos com bons argumentos. Dá para você sentar, dá para negociar."

Filho de Bolsonaro vai de Rachadinha a Tariflávio, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

O tarifaço 2.0 é um desastre para a campanha bolsonarista

Aumenta a desconfiança de que está em curso uma ofensiva dos EUA nas eleições

Para afastar o caso "Dark Horse" de seus calcanhares, Flávio Bolsonaro decidiu bajular Donald Trump. Conseguiu a foto no salão oval e um elogio do bufão —"garoto inteligente"—, mas o problema está longe de terminar.

Além da operação da polícia de São Paulo contra Karina Ferreira da Gama, dona da produtora Go Up Entertainment, novas mensagens obtidas pelo site Intercept Brasil indicam que, após as cobranças de Flávio, o "irmãozão" Daniel Vorcaro deu prioridade aos pagamentos que teriam sido destinados ao filme.

Fundos de pensão, Banco Master e boa governança, por Marcus Pestana

Assegurar dignidade a todos aqueles que se dedicaram décadas ao trabalho e aposentam foi uma preocupação crescente ao longo do século XX. O primeiro sistema previdenciário de âmbito nacional foi criado antes disso, por Bismarck, na Alemanha, em 1883.

A ideia era reunir uma poupança financeira a partir de contribuições de patrões, trabalhadores e do governo, para socorrer as pessoas impossibilitadas, temporária ou definitivamente, de ganhar a vida com seu trabalho, graças a um agravo de saúde, acidente de trabalho, invalidez, envelhecimento, desemprego. No Brasil, a Lei Eloy Chaves data de 1923. Foi a base inicial de nosso sistema previdenciário, permitindo a organização de diversas Caixas de Aposentadorias e Pensões de ferroviários, bancários, entre outros.

Nossa “Escolha de Sofia”, por Cristovam Buarque

Revista Veja  

Milhões de brasileiros são abandonados à margem da educação

Dos 2,5 milhões de brasileiros nascidos em 2025, no máximo 300000 concluirão, em 2043, a educação básica com a qualidade necessária para enfrentar e usufruir do mundo contemporâneo, dispondo do mapa para buscar sua felicidade pessoal e das ferramentas para construir um país melhor. A cada ano, o Brasil escolhe 2 milhões de seus recém-nascidos e os deixa para trás, abandonados por uma espécie de “Escolha de Sofia”.

No livro de William Styron, depois levado ao cinema, a mãe, obrigada por soldados nazistas a escolher qual de seus dois filhos sobrevive, fica traumatizada e termina sua vida em suicídio. O Brasil sacrifica milhões de suas crianças como se não houvesse escolha: abandonadas pela lógica de que seus pais não têm recursos para pagar uma boa escola privada ou porque não conseguem vaga em uma das raras públicas de excelência, quase sempre federais. Como se fosse um destino natural que define quem recebe boa educação e o direito à inclusão social, e quem é abandonado.

O impacto externo e as eleições, por Murillo de Aragão

Revista Veja

Em uma disputa apertada, a crise com os EUA poderá ser decisiva

Pelo menos desde 1945 não há registro de eleições brasileiras tão influenciadas por fatores externos. Naquele ano, a ditadura de Getúlio Vargas foi derrubada a partir de uma situação paradoxal: o Brasil lutava contra regimes totalitários, ao lado das democracias clássicas, sendo ele próprio uma ditadura. Tinha sido arrastado ao conflito mundial em razão de seu valor estratégico como fornecedor de matérias-primas aos aliados.

Oitenta anos depois, estamos no meio de uma guerra tarifária, de uma disputa geopolítica pelas nossas terras-raras e ainda somos atingidos por decisões como a declaração de organizações criminosas brasileiras como grupos terroristas. As questões nos colocam no turbilhão geopolítico contemporâneo.

Trump ataca, por Pedro Serrano

CartaCapital

A classificação de facções criminosas domésticas como terroristas e a ameaça de um novo tarifaço não são atos isolados, e sim uma ofensiva contra a soberania brasileira

Os mais recentes ataques trumpistas à soberania brasileira, ao classificar facções criminosas domésticas como terroristas e ao propor um novo tarifaço por supostas práticas comerciais desleais, não são atos isolados, mas tentáculos de um autoritarismo nefasto. As formas autoritárias do século XXI possuem determinadas especificidades, quando comparadas com as do século anterior. Ainda que identifiquemos elementos de continuidade, as manifestações dos últimos anos, por estarem diluídas na rotina democrática, tornam o tema ainda mais desafiador.

O autoritarismo deixou de ser a manifestação de um governo de exceção, em sua acepção clássica, para dar lugar às medidas de exceção associadas à produção fractal e líquida. Utilizamos a denominação autoritarismo líquido para falar dessa nova natureza no interior das rotinas democráticas, por se tratar de medidas fragmentadas, cirúrgicas, acionadas sob uma aparência de legalidade, o que torna sua identificação mais difícil.

Patrulha no quintal, por Jamil Chade

CartaCapital

Trump apressa a militarização do subcontinente, com o beneplácito dos governos locais de extrema-direita

A América Latina, “quintal” dos Estados Unidos, nunca esteve tão vigiada. Em apenas 17 meses no poder, Donald Trump impôs acordos bilaterais a 17 países do subcontinente para garantir aliança militar, uso do espaço aéreo, instalação de bases, imunidade para soldados e espiões e troca de informações dos serviços de inteligência. A decisão de declarar o PCC e o Comando Vermelho como grupos terroristas não foi gesto isolado. Desde o ano passado, o objetivo de Washington é retomar, de qualquer maneira, a influência política, militar e econômica na região, palco da nova disputa com a China.

Terras-raras, mentes rarefeitas, por Luiz Gonzaga Belluzzo e Manfred Back

CartaCapital

O déficit não é fiscal, é de inteligência. Austeridade já, corte duro e sem dó na estupidez tupiniquim!

Neste país abençoado por Deus e bonito por natureza, com 25% da oferta mundial de terras-raras e 1% de mentes raras, podemos concorrer com os Estados Unidos da América na estupidez, com certeza. Abundante em minérios críticos, raras mentes críticas.

Contra a hiperinflação nacional de estupidez não há regime de metas que salve! Propomos criar metas para a estupidez nacional, uma meta que disciplina não os preços relativos, mas o besteirol exponencial que exala diariamente nas mentes raras. Um corte drástico não de gastos, mas de asneiras. O déficit­ não é fiscal, é de inteligência. Austeridade já, corte duro e sem dó na estupidez tupiniquim.

O derradeiro humanista, por Leneide Duarte-Plon

Carta Capital

O filósofo Edgar Morin rejeitava todo tipo de nacionalismo e xenofobia

Um dos mais respeitados e lidos intelectuais franceses, doutor honoris causa de 40 universidades do mundo, pensador da complexidade e do saber transdisciplinar e humanista, Edgar Morin rejeitava toda forma de espírito clânico, qualquer nacionalismo, toda xenofobia. Costumava dizer que seu espaço era o mundo, todo ser humano era seu igual. Sentia-se cidadão da Terra-Pátria, ameaçada pela ação predadora do homem. Em seu engajamento pela biodiversidade, via “o poder esmagador do dinheiro na origem da degradação do meio ambiente”.

Poesia | Os sapos, de Manuel Bandeira

 

Música | Nara Leão e Fagner - Traduzir-se (Ferreira Gullar)

 

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Breves notas sobre a política de Maquiavel, por Antonio Gramsci*

O caráter fundamental do Príncipe é o de não ser um tratado sistemático, mas um livro “vivo”, no qual a ideologia política e a ciência política fundem-se na forma dramática do “mito”.  Entre a utopia e o tratado escolástico, formas nas quais se configurava a ciência política até Maquiavel, este deu à sua concepção a forma da fantasia e da arte, pela qual o elemento doutrinário e racional personifica-se em um condottiero, que representa plástica e “antropomorficamente” o símbolo da “vontade coletiva”. O processo de formação de uma determinada vontade coletiva, para um determinado fim político, é representado não através de investigações e classificações pedantes de princípios e critérios de um método de ação, mas como qualidades, traços característicos, deveres, necessidades de uma pessoa concreta, o que põe em movimento a fantasia artística de quem se quer convencer e dá uma forma mais concreta às paixões políticas. (Deve-se pesquisar, nos escritores políticos anteriores a Maquiavel, se existem textos configurados como o Príncipe. Também o final do Príncipe está ligado a este caráter “mítico” do livro; depois de ter representado o condottiero ideal, Maquiavel — num trecho de grande eficácia artística — invoca o condottiero real que o personifique historicamente: esta invocação apaixonada reflete-se em todo o livro, conferindo-lhe precisamente o caráter dramático. Nos Prolegomeni de L. Russo, Maquiavel é chamado de artista da política e, numa ocasião, chega-se mesmo a encontrar a expressão “mito”, mas não exatamente no sentido acima indicado).

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

CNJ adota medida bem-vinda contra supersalários

Por Folha de S. Paulo

Contracheque único para juízes é avanço contra penduricalhos, mas solução definitiva depende do Congresso

A desfaçatez é tanta que, enquanto o STF debatia o tema, magistrados de SP embolsaram em média R$ 132 mil em março, quase o triplo do teto

O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) enfim adotou uma providência bastante óbvia para aumentar a transparência no Judiciário: trata-se da criação do contracheque único para magistrados, cujo objetivo é padronizar rubricas e vedar folhas de pagamento paralelas.

Por trás dessa resolução, aprovada de forma unânime no fim de maio, está a necessidade de centralizar em um mesmo documento diversas remunerações que hoje têm aparecido dispersas, como diárias, ajuda de custo, gratificações, indenização de férias e valores retroativos pendentes.

Bolsonaros são soldados do trumpismo, por Fernando Luiz Abrucio

Valor Econômico

Família atua como parte de um movimento global maior, que podemos chamar de Internacional de Extrema Direita

A movimentação política dos irmãos Bolsonaro em busca do apoio do governo Trump para enfraquecer o governo brasileiro, por meio da destruição da economia do país, é mais do que um plano para ganhar as eleições presidenciais. Esse objetivo se submete a outro maior: garantir a hegemonia da extrema direita no continente. E as duas dimensões anteriores se vinculam a um projeto mais forte que comanda ambas: a política trumpista de intervenção na política latino-americana. Flávio Bolsonaro é um soldado nesta história, não o comandante.

Jornada de trabalho ou de liberdade? Por José de Souza Martins*

Valor Econômico

O tempo social do que disseram na Câmara veio dos tempos da escravidão, um embate situado em tempos longínquos: a justiça social é aqui tardia e pendente

Na votação contra a jornada de 6 x 1, na Câmara dos Deputados, o projeto acabou sendo aprovado. A principal questão em debate não foi a da duração da jornada semanal de trabalho. Os que ganham com a jornada arcaica foram derrotados economicamente para não perder politicamente. Os desencontros foram sociologicamente reveladores, na função desconstrutiva dos avessos.

Nesse caso, o tempo social do que as pessoas disseram veio dos tempos da escravidão. Um embate situado em tempos longínquos. E nos diz que a justiça social é aqui tardia e pendente.

Trump prende o Brasil no ‘Dia da Marmota’, por Andrea Jubé

Valor Econômico

Bolsonaro não tem apoio, mas a agenda de reformas tem

E por falar em Estados Unidos, a sensação é de que estamos presos em um looping, nós, brasileiros, sob a ofensiva tarifária, que se repetiu quando parecia superada; eles, americanos, movidos por uma megalomania que um mundo multipolar já não comporta mais. A sensação é de que, há tempos, dormimos e acordamos no mesmo Dia da Marmota, como naquela reprise da Sessão da Tarde. Com a singularidade de que não existem marmotas no Brasil. Quem não se lembra de Bill Murray no filme “Feitiço do tempo”, de 1993, que, no papel de um jornalista especializado em clima, vai cobrir o Dia da Marmota - Groundhog day, no original, em inglês - festa que leva milhares de turistas a uma pequena cidade da Pensilvânia.

STF é panela prestes a explodir, por Vera Magalhães

O Globo

Para além das divergências sobre o papel do Judiciário, existe o caso Master

Passada a semana do feriado, a volta ao trabalho presencial deverá ser acompanhada por um clima para lá de pesado no Supremo Tribunal Federal (STF). As tensões que vêm se acumulando entre os ministros nos últimos meses, em razão de divisões internas e discordâncias quanto ao papel do Judiciário no jogo institucional, tendem a deixar os bastidores e resultar em algum tipo de confrontação explícita.

O globetrotter dos direitos humanos, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Brasileiro se despede da ONU após 15 anos à frente de comissão que investiga crimes de guerra na Síria

Em março de 2011, a Primavera Árabe chegou à Síria com manifestações pacíficas pelo fim da ditadura de Bashar al-Assad. O regime reprimiu os protestos com violência, e o país mergulhou numa sangrenta guerra civil.

Em Genebra, o Conselho de Direitos Humanos da ONU acionou um brasileiro para observar o conflito. “No início, os refugiados queriam saber em quantos dias os filhos poderiam voltar à escola. Pensavam que a guerra não iria durar muito. Durou quase 14 anos”, espanta-se Paulo Sérgio Pinheiro, presidente da Comissão de Investigação Internacional Independente sobre a Síria.

Assimétrico sim, mas por que? por Pablo Ortellado

O Globo

A saída para a crise é torná-las mais plurais e discutir amplamente orientações normativas, buscando um nível maior de consenso social antes de passarmos a impor regras

Tornou-se lugar-comum em meios de esquerda dizer que a polarização política “não existe” — ou, se existe, que é “assimétrica”. O argumento é que, nos últimos anos, a esquerda não foi para a extrema-esquerda, mas para a centro-esquerda, enquanto a direita se moveu para a extrema direita. Não cabe, desse ponto de vista, falar em polarização. Ou deveríamos chamar essa polarização de “assimétrica”, já que um lado está no meio, o outro no extremo.

O argumento chama a atenção para um fato: enquanto a referência estabelecida da direita é hoje o bolsonarismo, tido como ultraconservador e com posições antidemocráticas, a referência da esquerda é o PT, visto como partido moderado e democrático. O equivalente do bolsonarismo na esquerda, em termos de distância do centro, seriam partidos muito pequenos como UP, PCB ou PSTU.

Tempo fechado nas relações EUA–Brasil, por Fernando Gabeira

O Estado de S. Paulo

Será preciso reativar o esforço comercial no mundo, abrir novas frentes e trabalhar com a hipótese de que os EUA já não serão o mesmo parceiro do passado

As relações entre Brasil e Estados Unidos pareciam caminhar bem. De repente, o tempo fechou. As duas medidas emanadas de Washington – a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas e um tarifaço adicional de 25% – têm de ser analisadas com frieza. No mesmo dia em que Jamieson Greer, o representante comercial, anunciava o tarifaço, Trump anunciou um novo embaixador para o Brasil, preenchendo uma lacuna desconfortável na relação entre os dois países. Agora temos com quem conversar num nível oficial um pouco mais alto.

Tudo, menos mexer no Pix! Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Ao encenar que defende o Pix com Trump, Flávio admite o risco para sua campanha

Os EUA podem até ameaçar duplamente com mais tarifas, pela Seção 301 e por alegação de “trabalho forçado”, mas não se atrevam a mexer com uma coisa: o Pix, que mais de 170 milhões de brasileiros (93% dos adultos do País) usam e não aceitariam voltar para as velhas notas amassadas, desagradáveis, que exigem troco, algo cada vez menos disponível.

Gente que faz negócio sujo é que gosta de dinheiro vivo, gente trabalhadora ou empreendedora não abre mão do Pix. Donald Trump tende a dividir o Brasil, na mesma proporção da polarização política, ao declarar PCC e CV como “terroristas” e se autoconceder o direito de pintar e bordar por aqui, como fez na Venezuela. Mas ameaçar o Pix não divide, e sim une de lulistas a bolsonaristas.

Trump não olhou o próprio umbigo, por Raquel Landim

O Estado de S. Paulo

Maior escravizador das Américas, Estados Unidos querem punir o Brasil

No seu afã protecionista, o presidente Donald Trump decidiu remontar seu arsenal tarifário, mas se esqueceu de olhar para o próprio umbigo.

Partiu de uma premissa louvável: punir países que produzem ou importam mercadorias que utilizam trabalho escravo.

Porém, produziu um absurdo: taxou em cerca de 12,5% mais de 80 países, incluindo Noruega, Suíça e todos os europeus. Lá no meio da lista está o Brasil.

O cálculo de risco de Flávio, a oposição e a política de Trump, por Carlos Alexandre de Souza

Correio Braziliense

Responsabilizar Lula pelos ataques provenientes dos EUA mostra-se uma estratégia perigosa, pois coloca no palanque eleitoral questões ligadas aos interesses nacionais, e não propriamente à batalha partidária

A estratégia de pegar carona na política norte-americana para abafar o envolvimento no escândalo Master e turbinar a disputa eleitoral contra o presidente Lula é uma jogada perigosa de Flávio Bolsonaro. O cálculo do senador repete a estratégia adotada no ano passado, quando o governo Trump lançou um conjunto de medidas que atingiam não apenas a economia brasileira, mas igualmente autoridades do Executivo e do Judiciário. É incerto, todavia, se essa articulação internacional resultará no objetivo final de Flávio Bolsonaro em 2026: sair vitorioso das urnas.

Gente grande ainda acredita que a crise do petróleo vai ser feia, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Guerra e suas consequências econômicas vão sumindo do notíciário, mas ainda são veneno

OCDE, FMI, OMC, Banco Mundial e negociantes de petróleo alertam para baixa de estoques

Na segunda-feira, terão passado cem dias desde que começou a guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã. Os mortos mereceram pouca atenção desde o início da desgraça, mas por algum tempo o choque econômico era assunto. Agora, resiste em governos, rodas de economistas e similares. A história vai sumindo do noticiário.

Um choque estaria nos espiando escondido, na próxima esquina? Grandes empresas negociadoras de petróleo têm dito por estes dias que a calmaria relativa abafa alertas de risco de escassez depois de junho, caso o estreito de Ormuz continue praticamente fechado.

Trump é pé-frio eleitoral, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Interferência em pleitos no exterior já levou a derrotas históricas de candidatos apoiados pela Casa Branca

Em eleições na América Latina, placar é um pouco mais favorável ao presidente norte-americano

Tratando-se de Donald Trump, presumir intenções e cálculo estratégico é um exercício arriscado. Não que ele não tenha preferências e objetivos políticos, mas nem sempre é capaz de hierarquizá-los e definir rotas coerentes para efetivá-los.

Embora Trump tenha desenvolvido um relacionamento até cordial com Lula, não há dúvida de que seu coração é bolsonarista. Tivemos uma prova disso na semana passada, quando o presidente americano não só recebeu Flávio Bolsonaro na Casa Branca como também acedeu a seu pedido para classificar PCC e CV como organizações terroristas.

Troca de insultos entre candidatos rebaixa o debate eleitoral, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Candidatos põem Trump no centro de uma campanha que deveria se concentrar nos problemas do Brasil

A real defesa do Pix pode ser feita com apoio à emenda que amplia a autonomia do Banco Central

O aguado caldo de racionalidade que ainda poderia haver no debate eleitoral entornou de vez com a divisão da cena entre Luiz Inácio da Silva (PT) como defensor da soberania, antagonista de Trump, e Flávio Bolsonaro (PLno lugar de entreguista, traidor da pátria a serviço do americano.

Nossos ingratos amigos, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Marco Rubio disse que o Brasil não está entre os amigos dos EUA e continuou no emprego

Nos últimos 130 anos, ninguém se beneficiou tanto da amizade do Brasil quanto os EUA

Marco Rubio, secretário de Estado americano, afirmou que o Brasil não faz parte da lista de "amigos dos EUA". Disse isso e continuou no emprego. Seu cargo exige tato diplomático e conhecimento de história, coisas que não se compram nas drugstores de Miami. Mas Rubio é um ministro de Donald Trump —só existe porque existe Trump. Se não fosse uma alimária, saberia que, em qualquer época, nenhum outro país foi tão amigo dos EUA.

Bolsonaro y las consecuencias de una traición, por Fernando de la Cuadra

El Clarin (Chile)

Para salir del centro de las atenciones por sus vínculos con el “banquero” Daniel Vorcaro, jefe del grupo criminal asociado a la mayor estafa financiera de la historia republicana, el senador Flavio Bolsonaro recurrió a un encuentro con Donald Trump para discutir –según él- algunos temas importantes para el país. Después de la mentada visita, el gobierno de Estados Unidos tomó 3 medidas que afectan de lleno en la soberanía e independencia de Brasil.

La primera de ellas fue atribuirle el estatus de terroristas a dos facciones del narcotráfico local, el Comando Vermelho (CV) y el Primer Comando de la Capital (PCC), lo cual puede significar que las instituciones norteamericanas, como la DEA, pueden intervenir en territorio brasileño para combatir a ambos grupos, caracterizados ahora por el gobierno Trump como narcoterroristas.

Uma lúcida e oportuna ponderação, por Ivan Alves Filho*

Sérgio Augusto de Moraes é autor de duas obras importantes para a compreensão da marcha da História nas últimas décadas. Vamos lá, pela ordem cronológica. A primeira delas é Viver e morrer no Chile, um relato pungente a respeito da experiência da Unidade Popular (UP), movimento capitaneado por Salvador Allende entre 1970 e 1973, voltado para a construção do socialismo pela chamada via democrática. Sérgio Moraes analisa as dificuldades enfrentadas por Allende e seus companheiros de luta, em uma época marcada pela truculência política norte-americana e seu fascismo de exportação. Não deu outra: a investida golpista de Augusto Pinochet, a 11 de setembro de 1973, mergulharia o Chile em uma repressão das mais sangrentas, acarretando na morte, por fuzilamentos e torturas, de milhares de pessoas. 

Poesia | João Cabral de Melo Neto (1/2) - De Lá Pra Cá - 28/09/2009