segunda-feira, 6 de abril de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

EUA completarão 250 anos com democracia em crise

Por O Globo

Estudos comparativos demonstram que, sob Trump, liberdades e direitos civis estão em recuo flagrante

No fim do século XVIII, as nações bem-sucedidas no mundo eram basicamente monarquias. O experimento democrático inaugurado nos Estados Unidos com a independência em 1776 e a Constituição em 1789 foi, sob qualquer aspecto, revolucionário. De lá para cá, a ideia de uma república democrática se espalhou pelo mundo. É irônico, diante disso, que os americanos estejam prestes a comemorar os 250 anos de sua independência justamente numa época em que a democracia sofre forte erosão. Os efeitos negativos do primeiro ano do segundo governo de Donald Trump têm sido constatados nas principais avaliações objetivas de democracia e liberdade publicadas nos últimos dias.

Sem propostas por ora, Flávio Bolsonaro e Ronaldo Caiado se apoiam em anistia aos golpistas, por Vinícius Nunes

CartaCapital

Promessa de perdão a Jair Bolsonaro domina discurso de pré-candidatos que disputam os mesmos votos e ainda carecem de agenda concreta para o País

primeira declaração de Ronaldo Caiado (PSD), ex-governador de Goiás, como pré-candidato à Presidência da República foi prometer uma anistia “ampla, geral e irrestrita” aos condenados pelos atos de 8 de Janeiro, incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Condenado a 27 anos e três meses por participação na trama golpista, Bolsonaro cumpre prisão domiciliar temporária.

O movimento de Caiado atinge diretamente a estratégia de Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Em pré-campanha pelo País, o senador tem reiterado que seu principal compromisso é com o pai e que pretende “repetir” o governo findado em 2022. A anistia, até então uma das principais bandeiras do senador, passa a ser compartilhada e disputada por outro nome do mesmo campo político.

Além da convergência no discurso, Caiado tem adotado uma linha de oposição frontal ao governo Lula (PT), reforçando o posicionamento à direita e afastando qualquer tentativa de “terceira via”. Ao lançar sua pré-candidatura, o ex-governador também intensificou críticas ao Planalto e buscou se apresentar como alternativa mais experiente, em contraste com Flávio, que nunca ocupou cargos no Executivo.

Conspiração Condor, por Miguel de Almeida

O Globo

'Conspiração Condor' reconta, quase em sequência, o fim dos ex-presidentes Juscelino Kubitschek e Jango Goulart e do ex-governador Carlos Lacerda

Em 1961, Jango Goulart estava em visita oficial à China quando Jânio Quadros renunciou à Presidência. Os protobolsonaristas usam esse episódio para tentar pespegar em Jango a pecha de comunista. Mais de dez anos depois, em 1972, Richard Nixon, um direitista corrupto, foi à China atrás de relações e negócios. Nixon pulou do cargo para não ser cassado (era desonesto). Jango, um latifundiário gaúcho, típico reformista social, se viu obrigado a fugir do país por um golpe militar. Por trás de sua (e nossa) desgraça, estava o governo dos Estados Unidos, que manietou e financiou políticos brasileiros.

E se Vorcaro não for o cabeça da organização criminosa? Por Bruno Carazza

Valor Econômico

Delação premiada muda de figura se ficar comprovado que dono do Master era na verdade um intermediário de favores entre empresários e políticos

Em duas colunas recentes expus meu ponto de vista de que a celebração de um acordo de colaboração premiada com Daniel Vorcaro seria desnecessária e contrária ao interesse público. Recentemente, porém, um observador muito mais arguto das conexões espúrias entre o mundo empresarial e a classe política abalou as minhas convicções.

Minha posição contra a delação do dono do Master se baseava em três argumentos. De um lado, a apreensão dos celulares e computadores das figuras centrais da gestão do banco, assim como a decretação da liquidação extrajudicial das instituições financeiras ligadas ao grupo, dariam à Polícia Federal e ao Ministério Público elementos suficientes para “seguir o dinheiro” e expor a teia de corrupção montada pelo banqueiro mineiro. Nesse caso, um acordo de delação teria pouco a acrescentar ao trabalho de investigação e, assim, não atenderia ao critério de “colaboração eficaz” exigido pela legislação brasileira.

Guerra piora cenário para BC, e governo não ajuda, por Alex Ribeiro

Valor Econômico

A despeito dos juros altíssimos, a economia segue superaquecida, e o Copom não tem auxílio nenhum da atividade econômica para baixar a inflação

O mercado financeiro está revendo as suas apostas para a queda de juros no fim deste mês, em reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central. Primeiro, o prognóstico dominante era um corte de 0,5 ponto percentual na taxa Selic e, agora, o cenário mais provável é uma redução de 0,25 ponto percentual, segundo as probabilidades embutidas nas opções de Copom da B3.

O Banco Central deixou todas as opções em aberto. Seu presidente, Gabriel Galípolo, pediu “tempo para entender” como a guerra no Oriente Médio vai afetar a inflação. Outro ponto de interrogação é a quantas anda a atividade econômica dentro do Brasil, em meio a medidas de impulso fiscal e creditício que atrapalham a transmissão da política monetária.

IA ajuda e atrapalha, por Irapuã Santana

O Globo

Ao usarmos a inteligência artificial para evitar o esforço da concentração, enfraquecemos nosso cérebro

A inteligência artificial (IA) generativa é, sem dúvida, uma das ferramentas mais transformadoras da História recente, permitindo traduzir pensamentos complexos e automatizar tarefas rotineiras, com o potencial de aumentar a eficiência global. No entanto, à medida que essas ferramentas se tornam onipresentes, surgem perigos invisíveis que ameaçam a própria essência do intelecto humano, podendo afetar a nossa capacidade de pensar de forma independente e crítica.

O estudo recente intitulado “Sycophantic chatbots cause delusional spiraling, even in ideal bayesians” (Chatbots sicofantas causam espirais delirantes, mesmo em bayesianos ideais) revela um desses riscos estruturais. Os autores demonstram que as IAs tendem a concordar com o usuário e validar suas opiniões, mesmo quando estão erradas, para parecer mais prestativas.

Incapacidade de surpreender, por Diogo Schelp

O Estado de S. Paulo

Lula 3 falha em popularidade porque perdeu a chance de surpreender

Em outros tempos, o plano de reeleição de Lula não deveria parecer tão incerto. Seu terceiro mandato desfruta de estabilidade política, sem as tensões produzidas pelo Poder Executivo contra o Judiciário, o Legislativo e os governadores estaduais durante o governo de Jair Bolsonaro, e cumpriu a promessa de manter a ordem democrática no País, apesar das fragilidades que persistem. Os indicadores econômicos não são dos piores – riscos fiscais à parte. O PIB faz o seu tradicional voo de galinha, o índice de inflação em 2025 foi o mais baixo desde 2019 e a taxa de desemprego está na mínima da série histórica (a informalidade, porém, continua alta). Deveria ser o suficiente para obter a continuidade no poder.

A guerra e a História, por Denis Lerrer Rosenfield

O Estado de S. Paulo

Pensar a História descartando a guerra como categoria de pensamento e como forma da natureza humana é um luxo que não mais podemos nos dar

Pensar a guerra, eis uma tarefa primordial de nosso tempo. Tempo de profundas transformações, em que o arcabouço vigente desde a 2.ª Guerra Mundial está desmoronando a olhos vistos. O que valia começa a cessar de valer, com os referenciais geopolíticos explodindo. Os interesses dos Estados, sobretudo os mais poderosos, simplesmente se afirmam enquanto tais, com os demais devendo se acomodar a essa nova situação. Trilhar a diplomacia num contexto desse tipo exige grande habilidade, quando não o silêncio, diante de circunstâncias que são incontornáveis. De nada adianta, como faz a diplomacia lulista, confrontar retoricamente Trump se não tiver força para fazer valer a sua posição. O Brasil será apenas o grande prejudicado.

A opção Caiado: recursos e confiança, por Lara Mesquita*

Folha de S. Paulo

Histórico do ex-governador de Goiás ajuda a entender a escolha do PSD para eleição presidencial

Eduardo Leite tem dificuldade de articulação política e questionava as decisões do partido

Este sábado encerrou uma etapa crucial do calendário eleitoral. Foi o fim do prazo para desincompatibilização de cargos públicos, filiação partidária e mudança de domicílio eleitoral por aqueles que pretendem disputar mandato eletivo neste ano.

São 17 ministros do governo Lula e 11 governadores que deixaram seus postos com foco na disputa eleitoral. Entre eles está o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado, personagem clássico da política brasileira. Participou de todas as eleições desde 1989, já tendo concorrido à Presidência, ao Governo de Goiás, à Câmara dos Deputados e ao Senado. Também figura entre os governadores com maior riqueza pessoal do país.

O controle da corrupção e o corte de orelhas, por Marcus André Melo*

Folha de S. Paulo

Que as maiorias legislativas são inimigas do controle não é novidade; o mal maior é quando os inimigos do controle são os próprios controladores

É o problema canônico do quem guarda os guardiões

A análise das origens do controle parlamentar de contas públicas —o qual teve como palco a Guerra Civil Inglesa (1642-1651)— é particularmente instigante pelo seu simbolismo. As demandas por controle e transparência foram protagonizadas por William Prynne, membro da oposição no Parlamento. Prynne teve as orelhas cortadas como punição à audácia de querer que o governo prestasse contas, como relatado por Jacob Soll, em "The Reckoning: Financial Accountability and the Rise and Fall of Nation". Mas sobreviveu. Quem não sobreviveu foi o rei que teve a cabeça cortada.

Por uma universidade com a cara do povo brasileiro, por Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

A ampliação do acesso do povo às universidades se reflete nas esferas econômica, social e cultural

Multiplicam-se os ataques contra as ações afirmativas, especialmente contra cotas étnico-raciais

Ouso dizer, sem medo de errar, que a democratização do ensino superior com a implementação das cotas é a política pública mais eficiente e eficaz já adotada pelo Estado para enfrentar as inequívocas e múltiplas desigualdades que separam as elites das camadas populares da sociedade brasileira.

A ampliação do acesso do povo às universidades produziu um efeito que supera o campo da política educacional e se reflete nas esferas econômica, social e cultural ao abrir portas que historicamente estiveram cerradas aos mais pobres —em especial aos negros.

O espião festivo, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

John Mowinckel, adido cultural americano na ditadura, era uma figura em Ipanema

Os guerrilheiros cogitaram sequestrá-lo, mas mudaram de ideia; não seriam levados a sério

Não perco os obituários do The New York Times. Seus mortos, famosos ou não, são sempre fascinantes —ou talvez os obituaristas os tornem assim. Esta semana, morreu aos 105 anos, em Roma, Letizia Mowinckel, viúva de um diplomata americano, amiga dos costureiros europeus e consultora informal de moda da chique Jacqueline Kennedy, primeira-dama dos EUA com John Kennedy (1961-63) presidente.

Poesia | Manuel Bandeira - Última canção do beco

 

Música | La voglia la pazzia / Samba per Vinicius / Samba della rosa / Tristezza

 

domingo, 5 de abril de 2026

Opinião do dia – Antonio Gramsci*

I. Alguns pontos preliminares de referencia

§ 12. E preciso destruir o preconceito, muito difundido, de que a filosofia é algo muito difícil pelo fato de ser a atividade intelectual própria de uma determinada categoria de cientistas especializados ou de filósofos profissionais e sistemáticos.

É preciso, portanto, demonstrar preliminarmente que todos os homens são “filósofos”, definindo os limites e as características desta “filosofia espontânea”, peculiar a “todo o mundo”, isto é, da filosofia que está contida: 1) na própria linguagem, que é um conjunto de noções e de conceitos determinados e não, simplesmente, de palavras gramaticalmente vazias de conteúdo; 2) no senso comum e no bom senso; 3) na religião popular e, consequentemente, em todo o sistema de crenças, superstições, opiniões, modos de ver e de agir que se manifestam naquilo que geralmente se conhece por “folclore”.

Após demonstrar que todos são filósofos, ainda que a seu modo, inconscientemente — já que, até mesmo na mais simples manifestação de uma atividade intelectual qualquer, na “linguagem”, está contida uma determinada concepção do mundo —, passa-se ao segundo momento, ao momento da crítica e da consciência, ou seja, ao seguinte problema: é preferível “pensar” sem disto ter consciência crítica, de uma maneira desagregada e ocasional, isto é, “participar” de uma concepção do mundo “imposta” mecanicamente pelo ambiente exterior, ou seja, por um dos muitos grupos sociais nos quais todos estão automaticamente envolvidos desde sua entrada no mundo consciente (e que pode ser a própria aldeia ou a província, pode se originar na paroquia e na “atividade intelectual” do vigário ou do velho patriarca, cuja “sabedoria” dita leis, na mulher que herdou a sabedoria das bruxas ou no pequeno intelectual avinagrado pela própria estupidez e pela impotência para a ação), ou é preferível elaborar a própria concepção do mundo de uma maneira consciente e crítica e, portanto, em ligação com este trabalho do próprio cérebro, escolher a própria esfera de atividade, participar ativamente na produção da história do mundo, ser o guia de si mesmo e não mais aceitar do exterior, passiva e servilmente, a marca da própria personalidade?

*Antonio Gramsci (1891-1937), Caderno 11 (1932-1933) – Introdução ao estudo da filosofia. Cadernos do Cárcere, v.1 p.93-4. Editora Civilização Brasileira, 2008.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Duvidar de eleições é golpismo de Flávio Bolsonaro

Por Folha de S. Paulo

Filho do ex-presidente mostrou mais uma vez que bolsonarismo moderado é um oxímoro

Nos Estados Unidos, declarou que a disputa presidencial deste ano só será justa se os votos levarem a sua vitória; direita populista degrada debate

Em maio de 2022, durante as tentativas do então presidente Jair Bolsonaro (PL) de desacreditar as eleições brasileiras por meio de ataques às urnas eletrônicas e outras teorias conspiratórias vazias, a Folha registrou neste espaço:

"[Jair Bolsonaro] atiça os ânimos de alguns poucos dispostos a participar de seus ensaios golpistas, que alternam intimidações e recuos enquanto se mantém elevado o risco de derrota em outubro. Trata-se de uma ofensiva estúpida contra uma valiosa conquista nacional e, ao fim e ao cabo, contra todos os eleitores e eleitos do país".

Divagações, por Dorrit Harazim

O Globo

De aparência passiva, o cinismo esconde uma capacidade perversa de alimentar as vilezas do viver em sociedade

A ideia era fazer uma pausa neste domingo de Páscoa — arquivar por um mísero dia qualquer noticiário de guerra e deixar falar a poesia. A intenção brotou do acaso, em meio à inescapável leitura sobre a insanidade do confronto no Irã. Um dos analistas da atualidade citava um poeta persa do século XII, Attar de Nishapur, e sua obra mais célebre, “A conferência dos pássaros”. Nela, o poeta narra a história de todos os pássaros do mundo que, por não terem rei, partem em revoada à procura de um soberano. Cada alado representa uma das falhas humanas que impedem o mundo de encontrar sua luz. Em conjunto, escolhem por guia uma poupa de grande sabedoria, que lhes informa qual será o teste de determinação: atravessar sete vales místicos. São eles os vales da Busca, do Amor, do Conhecimento, do Desapego, da União, do Maravilhamento, da Pobreza e Aniquilação.

A vassalagem do 'Bolsonaro 2.0, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Senador sugeriu que eleição presidencial só será ‘livre e justa’ se ele vencer

Flávio Bolsonaro quer convencer o governo americano a interferir na eleição brasileira a seu favor. O filho do capitão fez o pedido no Texas, terra dos caubóis. “Apliquem pressão diplomática para que nossas instituições funcionem adequadamente”, conclamou, no fim de semana passado. Para o senador, as instituições funcionam quando se dobram ao autoritarismo do pai.

Palavras ao vento, por Merval Pereira

O Globo

A expressão "estar de chico", como Neymar se referiu ao árbitro do jogo com o Remo, segundo gramáticos portugueses, significa estar emporcalhado. Não se usa apenas para mulheres menstruadas e sim para pessoas com aspecto de sujidade.

Quando a fala de Neymar, dizendo em tom de piada crítica que o juiz da partida Santos e Remo “estava de chico”, no sentido de irritadiço, nervoso, provocou enorme polêmica, seria bom atentar para certas nuances da língua portuguesa e, sobretudo, à cultura popular, muito impregnada de um machismo estrutural que se resolverá através da educação, não da repressão. De fato, a expressão “chico” vem do norte de Portugal, onde tem vários significados, entre eles como sinônimo de "porco". Daí a palavra “chiqueiro”.

As alternativas no caso do BRB, por Míriam Leitão

O Globo

O Banco de Brasília é menor que o Master, mas se for liquidado o impacto maior será no setor público. É o primeiro banco estadual a entrar em crise há 30 anos

Banco Central enfrenta um dilema em relação ao Banco de Brasília (BRB). O que fazer se a situação piorar? Desde o Proes, na década de 1990, nenhum banco estadual foi liquidado. Em uma liquidação, o interventor entra no banco, congela os bens e os vende para entregar aos credores. É assim que funciona. Mas no caso do BRB são ativos que pertencem ao povo do Distrito Federal. Há uma discussão jurídica se essa operação seria considerada expropriação de bens públicos. O BC tem instrumental limitado também para socorrer em qualquer emergência porque não pode dar assistência de liquidez. O instrumento para esse fim seria regulamentado pelo Projeto de Lei da Resolução Bancária, mas ele ainda não foi votado.

Lula e a comunicação, por Elio Gaspari

O Globo

Em geral, quando um governo diz que tem um problema de comunicação, o problema está no governo, não na comunicação. Lula 3.0, no entanto, tem um problema de comunicação e ele se chama Lula. O presidente ocupa os espaços do governo com uma agenda repetitiva e arcaica.

Esse sistema malvado fritou o ministro Paulo Pimenta e mostrou a frigideira a Sidônio Palmeira, seu substituto.

Tome-se como exemplo a ida de Lula ao Ceará na terça-feira. No palanque, com um boné do ITA, Lula falou por 27 minutos, tratou de suas realizações na educação, louvou suas greves, o ministro Camilo Santana e a militância política. Maltratou a “elite brasileira”e “os banqueiros da Faria Lima”. Fora dele, tratou do mandato de oito anos dos senadores, da sucessão no governo daquele estado, chamou o ex-governador Ciro Gomes de “destemperado”.

Com trocas de partidos, Câmara confirma hegemonia conservadora, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O controle burocrático dos partidos, o financiamento eleitoral, as emendas impositivas ao Orçamento e a “política como negócio” ditam as regras do jogo

É cada vez mais evidente na política brasileira o descolamento dos partidos de projetos nacionais e sua conversão em máquinas de sobrevivência eleitoral. Esse “transformismo” é um processo político associado ao peso do fundo eleitoral, das emendas parlamentares, da densidade das legendas e às alianças na disputa à Presidência e aos governos estaduais. Esse conjunto explica o troca-troca da janela partidária. Confirma a hegemonia conservadora na Câmara e uma deriva mais à direita do sistema partidário. O PL cresce de 86 para 101 deputados (+15), tornando-se o principal polo de atração de parlamentares. Se for confirmado esse avanço nas eleições, a legenda ampliará seu acesso ao Fundo Eleitoral, ao Fundo Partidário e ao controle de emendas, relatorias e comissões, independentemente do resultado das eleições presidenciais.

Sobre penduricalhos e como as instituições funcionam, por Daniel A. de Azevedo*

Correio Braziliense

Democracia pressupõe assegurar que não haja concentração de poder e que as regras do jogo sejam legítimas para o convívio entre os diferentes

Muitos livros e artigos foram produzidos em busca de explicar por que países são mais ricos que outros. São reflexões históricas profundas, de autores que divergem entre si sobre visões de mundo e que, muitas vezes, não concordam sequer com o caminho a ser trilhado. No entanto, a grande maioria converge no desejo de fortalecer as liberdades e promover prosperidades. Uma dessas correntes acredita que o principal caminho é por meio das instituições. Seu famoso lema é "as instituições importam".

Crime organizado e soberania nacional, por Sergio Fausto*

O Estado de S. Paulo

A gravidade do fenômeno é evidente. Ele corrói o Estado Democrático de Direito e faz da coerção mafiosa moeda corrente no sistema político e na vida econômica

Crime organizado, corrupção, violência e suas relações recíprocas serão tema da campanha eleitoral. É um assunto incontornável. Os últimos tempos têm sido pródigos em revelar a extensão crescente da presença do crime organizado em setores da economia e nas estruturas do Estado. A gravidade do fenômeno é evidente. Ele corrói o Estado Democrático de Direito e faz da coerção mafiosa moeda corrente no sistema político e na vida econômica.

Um fardo para o candidato Lula, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Lula errou ao colar no STF na fase das vacas gordas e erra ao tentar se descolar na das vacas magras

O presidente Lula errou duas vezes. A primeira, ao colar no Supremo e em Alexandre de Moraes na época das vacas gordas, a da resistência, do julgamento e da condenação de Bolsonaro e generais do golpe. A segunda, agora, ao tentar se descolar da época das vacas magras, com um ministro atrás do outro caindo na esparrela do Master e a imagem do Supremo definhando com a seca.

Fez sentido Lula assumir a liderança pró-democracia contra o quebra-quebra de Planalto, Supremo, Câmara e Senado no fatídico 8/1, reunindo presidentes dos demais Poderes e governadores de toda a Federação para dizer “não”, condenar os atos e atrair a repulsa da população contra a barbárie. Apesar da natural casquinha política, ele estava no seu papel de chefe de Estado e da Nação.

A fragilidade de Trump, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

Fragilidade política e impulsividade de Trump podem levar a decisões ainda mais erráticas

A derrubada de um caça americano e a destituição do comandante do exército dos EUA introduzem novas fragilidades na condução da campanha no Golfo Pérsico, sobretudo quando Donald Trump demonstra não ter um plano para uma saída politicamente viável dessa guerra. Ele insiste na tese, materialmente falsa, de que obteve mudança de regime no Irã, de que o país está militarmente aniquilado e de que a reabertura do Estreito de Ormuz deve ser tarefa dos países que dependem da energia que transita por lá.

O mundo da Lua e a Terrabrás de Lula, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Protecionismo e guerras são motivos para planos nacionais de desenvolvimento com cuidado

Brasil pode ter papel no negócio de terras raras, mas estatal produtora é ideia temerária

Um país que controla parte relevante do acesso a combustível, fertilizante, mineral crítico ou ao sistema internacional de pagamentos tem poder. Pode não ser ou ficar rico assim, mas pode arrumar lugar melhor em acordos político-econômicos.

Quem ao menos lê jornal sabe disso. Soube do problema de abastecimento de vacina e materiais de saúde, na Covid. Do efeito de guerras frias e quentes dos anos 2020: Rússia contra Ucrânia, EUA contra a China, EUA e Israel contra o Irã e outras.

Flávio Bolsonaro quer comprar golpe com terras raras, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Filho de Jair Bolsonaro também ofereceu a Trump um discurso para eventual intervenção

Se você entendeu o quão escandaloso foi o discurso de Flávio, sugiro não criar expectativas

Em discurso nos Estados UnidosFlávio Bolsonaro prometeu a Donald Trump as terras raras brasileiras como pagamento se a Casa Branca melar as eleições desse ano e lhe entregar a Presidência da República.

O discurso foi feito na CPAC, uma reunião de extrema direita em que candidatos a Marechal Pétain apresentam seus currículos de golpista às autoridades americanas.

As urnas testarão as escolhas de Lula e Bolsonaro, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

A vontade dos chefes partidários não necessariamente atende às demandas de quem escolhe os candidatos

Ronaldo Caiado e Renan Santos dão à corrida eleitoral um toque de charada ainda a ser desvendada

O "dedazo" eleitoral de Luiz Inácio da Silva (PT) funcionou há 16 anos quando conseguiu eleger e reeleger Dilma Rousseff (PT) presidente, mas nem sempre o método da unção deu certo.

No final dos anos 1990, a imposição de uma aliança com Anthony Garotinho (então no PDT) marcou o início da derrocada do PT no Rio de Janeiro, da qual o partido não se recuperou. Garotinho se elegeu e rompeu; em 1998 o pedetista Leonel Brizola foi vice de Lula e a chapa perdeu no primeiro turno.

Homens que odeiam mulheres, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Senado acerta ao equiparar misoginia a racismo e aumentar punição pelo crime

Racialização não se restringe a classificações hierárquicas por cor da pele

São alarmantes as estatísticas de estupros e feminicídios no Brasil. E não cabe perguntar se estaria havendo aumento expressivo de casos ou uma maior exposição midiática, considerando que certas notícias favorecem, mais que outras, impacto emocional e comoção imediata. Na Índia, onde é relevante o número de ataques às mulheres, a mídia é mais lacônica sobre o assunto do que a brasileira. Entre nós, os números são reais e vexaminosos.

A Condessa Sangue, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Livro conta a história de Elizabeth Bathory, acusada de assassinar centenas de virgens

Obra mostra como fake news foram se formando em torno da nobre húngara do século 17

Fake news não foram inventadas por Elon Musk. Elas são uma constante na história. Se há algo que impressiona, é a persistência de seus tropos ao longo dos séculos.

O moderno falso antigo, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Com nove sambas inéditos, Chico e Mario Adnet trazem para 2026 o Rio de 1936

'Falso Antigo' recria um passado recheado de surpreendentes temas contemporâneos

Por muitas décadas, aqui no Rio, tem sido assim: onde houver boa música, haverá um Adnet por perto. É uma família que, há três gerações, vive do piano, do violão, do lápis, do microfone, das mesas de som e agora, quem sabe, terá de dar algumas lições à IA. Uns pelos outros, o universo dos Adnet foi de jingles, trilhas para TV e cantar com Tom Jobim até a produção de magníficos discos independentes, a ressurreição da obra de Moacir Santos e a reconstrução de um Jobim sinfônico.

A sanha intervencionista do “Grande Irmão” está longe do fim, por Roberto Amaral *

Desde o final da Segunda Guerra Mundial, os EUA respondem por algo como 80 intervenções militares em outro tanto de países, até então soberanos. Tudo em nome de uma farisaica “defesa da democracia”, disfarce da disputa estratégica com a URSS. O ponto de partida dessa fase do imperialismo, que guarda rigorosa coerência com sua história, desde a formação colonial até nossos dias, foi dado pelo que se passou a chamar de “Doutrina Truman” (1947), porque proclamada pelo presidente que lançara duas bombas atômicas sobre as populações civis de Hiroshima e Nagasaki, quando a guerra já estava perdida pelo Japão. Ela estabelecia o princípio do containment do comunismo, com apoio político, econômico e militar a países de sua órbita. O Plano Marshall de reconstrução da Europa Ocidental, do mesmo ano, fornece a base econômica. A doutrina militar se corporifica na OTAN, criada em 1949. Seu alvo era  a defesa coletiva contra a URSS. São os três pilares sobre os quais se assentará a estratégia global dos EUA no pós-guerra.

Dez anos sem Gullar, dez anos com Gullar, por Ivan Alves Filho

Em 2014, tive a honra de dar a aula inaugural da Faculdade de Letras da Universidade de Bolonha. Era o início do ano letivo, no mês de outubro, creio eu. O tema da minha intervenção, que durou três ou quatro horas, foi centrado na obra do poeta e ensaísta Ferreira Gullar. Na ocasião, foi projetado um documentário que fiz sobre o nosso Gullar, intitulado A luta poética, no quadro da série Brasileiros e Militantes, produzida pela Fundação Astrojildo Pereira.

Poesia | A vida não basta | Ferreira Gullar - Poema Sujo

 

Música | Boca Livre - O Trenzinho do Caipira (Villa Lobos, com poema de Ferreira Gullar)

 

sábado, 4 de abril de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Rombo das estatais tornou-se rotina no governo Lula

Por O Globo

Nos primeiros dois meses do ano, as perdas somaram R$ 4,2 bilhões, quase o total registrado em 2025

Nos primeiros dois meses do ano, as estatais federais registraram um rombo de R$ 4,16 bilhões. Trata-se do pior resultado para o primeiro bimestre desde 2002, quando o Banco Central (BC) deu início à série histórica. O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva não pode nem argumentar que foi um lapso. O recorde anterior ocorreu em 2024. De lá para cá, houve um agravante: o buraco tem crescido. O resultado negativo do primeiro bimestre deste ano foi R$ 2,8 bilhões maior que no mesmo período de 2025 e alcançou quase o total registrado ao longo de todo o ano passado, R$ 5,1 bilhões. Levando em conta a resistência do governo em promover a privatização mais óbvia — a dos Correios —, a sangria deverá continuar, deixando ao contribuinte uma conta que agravará a crise fiscal e aumentará ainda mais o endividamento público também recorde (79,2% do PIB).

Horizonte estreito, por Flávia Oliveira

O Globo

O que se vislumbra para outubro é a primeira disputa presidencial sem candidatura feminina desde 2006

Do limiar de abril, o que se vislumbra para outubro é a primeira eleição presidencial sem candidatura feminina desde 2006. Neste século, apenas no primeiro pleito (2002), quando Roseana Sarney desistiu de concorrer, não houve mulher como cabeça de chapa — Rita Camata foi vice de José Serra (PSDB), e Deyse Oliveira de Zé Maria (PSTU). O Brasil teve uma mulher, Dilma Rousseff, duas vezes vencedora (2010 e 2014); candidatas competitivas, caso de Marina Silva (2010, 2014 e 2018) e Simone Tebet (2022); uma dezena de vices com visibilidade, de Rita Camata (2002) a Ana Amélia, Sonia Guajajara, Manoela d’Ávila e Kátia Abreu, todas em 2018. A participação cresceu na esteira da cobrança das feministas por representatividade e sucumbiu à supremacia dos homens de partido.

Tem conserto? Por Eduardo Affonso

O Globo

A Sala Cecília Meireles resiste, serena, blindada por uma couraça que a protege das buzinas e freadas, do funk e do reggaeton

A Sala Cecília Meireles é um remanso à margem daquela corredeira que vem da Riachuelo, deságua na Rua da Lapa, reflui para a Mem de Sá, passa pela Rua do Passeio e sobe para fazer selfies na Escadaria Selarón. A Sala resiste, serena, blindada por uma couraça que a protege das buzinas e freadas, do funk e do reggaeton das JBLs ligadas em volume máximo nas barraquinhas do entorno dos Arcos. Sem saber, coitada, que um novo cavalo de Troia contrabandeou o inimigo lá para dentro.

Por que Moraes não é investigado? Por Thaís Oyama

O Globo

Tecnicamente, a resposta curta é: porque Paulo Gonet, procurador-geral da República, até agora não quis

"As ilações da fantasiosa matéria são absolutamente falsas. O ministro Alexandre de Moraes jamais viajou em nenhum avião de Daniel Vorcaro ou em sua companhia e de Fabiano Zettel, a quem nem conhece." Foi com seu estilo costumeiro — muitos adjetivos, nenhum argumento e tom de quem não gostou de ser incomodado — que o ministro Moraes negou, por meio de sua assessoria, ter viajado com a mulher, Viviane Barci, ao menos oito vezes em jatinhos de empresas do ex-banqueiro Daniel Vorcaro. A revelação, feita pelo jornal Folha de S.Paulo e confirmada pelo Estadão, baseou-se no cruzamento de informações de três bancos de dados de aviação.