domingo, 19 de abril de 2026

A terceira via existe? Por Elio Gaspari

O Globo

Tentar ler numa pesquisa de abril o comportamento do eleitorado em outubro é pouco mais que um exercício de quiromancia, sobretudo quando a Genial/Quaest registrou que há 62% de indecisos.

Há meses, todas as pesquisas trazem notícias ruins para Lula. Pela primeira vez, Flávio Bolsonaro ultrapassou-o, (42% x 40%) dentro da margem de erro e em um cenário estimulado. O sabor amargo dessa pesquisa está na rejeição. Lula tem 55% e Flávio tem 52%, novamente dentro da margem de erro.

A terceira via tem dois candidatos: Romeu Zema, o ex-governador de Minas Gerais, e Ronaldo Caiado, ex-governador de Goiás. No cenário de uma disputa do segundo turno, Lula patina na faixa dos 40%, enquanto os dois têm leve viés de alta. Zema tem 36% e Caiado, 35%.

Como a guerra chega na eleição, por Míriam Leitão

O Globo

Um recorte exclusivo da pesquisa Genial/Quaest mostra que apenas 16% dos brasileiros não se sentem afetados pela alta dos combustíveis.

A guerra contra o Irã atingiu diretamente o Brasil, por isso, a perspectiva de fim do conflito, que se abriu na sexta-feira, é uma excelente notícia também para o governo brasileiro. Segundo a pesquisa Genial/Quaest, apenas 16% dos brasileiros não se sentem afetados pela alta dos combustíveis. O evento bagunça o cenário e aumenta a distância entre percepção e fato na economia. O país tem bons indicadores, mas o eleitor não sente isso. Para 38%, o principal causador dos preços dos combustíveis é a guerra do Irã e a situação internacional, porém o segundo vilão escolhido, com 25%, é o “governo Lula e suas decisões na economia”.

Nas asas da Panair, ops!, da FAB, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

É fácil viajar de graça no Brasil! Basta ter um cargo importante em qualquer poder

Enquanto milhões de brasileiros vivem com seus filhos em barracos, amontoados em morros, sem esgoto, higiene e o mínimo de segurança e conforto, os ricos e poderosos cruzam os céus do País – e do mundo – em jatinhos e jatões, próprios, alugados ou “emprestados”. Baratinho não é.

Os muitíssimo ricos do setor privado compram aviões para uso pessoal, se exibir por aí, fazer negócios e paparicar quem lhes possa garantir algum tipo de vantagem. Os poderosos do serviço público aproveitam seus 15 minutos de fama para usufruir do bom e do melhor, como, por exemplo, os jatinhos da FAB e seus brindes caprichados.

O castelo de areia de Trump, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

Os acordos de reabertura do Estreito de Ormuz pelo Irã e de cessar-fogo entre Israel e o Líbano não passam de encenações. A queda no preço do petróleo e as altas nos mercados de ações são movimentos especulativos.

O que o Irã “aceitou” foi manter aquilo que já havia imposto: os cargueiros têm de passar por corredores estabelecidos pela marinha iraniana. O Esquema de Separação de Tráfego (TSS), que funcionou tão bem desde os anos 60, está comprometido pelas minas lançadas pelo Irã.

Pancadas sobre o turismo, por Celso Ming

O Estado de S. Paulo

Tempo de guerra é sempre ruim para o turismo. Desta vez, não é diferente. Mas o setor vem levando pauladas há mais tempo, por uma conjunção de fatores.

Turismo é atividade relativamente nova da economia global. Viagens sempre houve, como houve peregrinações e deslocamentos em busca de contatos, de atividades econômicas e de conhecimento. Mas o desfrute em massa de outras culturas e de prazeres proporcionados pela natureza é mais recente.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Dívidas das famílias espelham gastos de Lula

Por Folha de S. Paulo

Em pesquisa Datafolha, 67% dizem ter passivos financeiros, e 28%, contas de consumo em atraso

Acesso a crédito contribuiu para o fenômeno, mas alta necessárias das taxas de juros do Banco Central para conter inflação foi determinante

Nas últimas semanas, dívidas das famílias tomaram as discussões econômicas e políticas no país.

A degradação da qualidade do crédito era um fenômeno visível desde ao menos o início de 2025 e previsível desde que as taxas de juros passaram a subir, no final de 2024. O governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT), porém, pareceu surpreso ou, ao menos, demonstrou preocupação maior com o tema apenas com a onda de declínio do prestígio do presidente.

A baixa da avaliação presidencial não vem de hoje, mas desde o início do ano passado. Além do mais, as queixas do eleitorado são diversas, como o nível elevado de preços, impostos, insegurança e corrupção, que causam desconfiança geral no sistema político.

A promessa de arrocho de Flávio Bolsonaro e o risco de bananismo autoritário, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Candidato da extrema direita quer 'tesouraço' nos gastos e menos impostos ao mesmo tempo

Se houver protesto contra um governo Bolsonaro 2, haverá cenoura diversionista ou chicote?

O vago plano econômico de Flávio Bolsonaro é em tese impopular, ao menos quanto a contas do governo. Prega redução de impostos e cortes de despesas. Quanto menos tributação, maior o tamanho da contenção de gastos. A rigor, porém, há promessa de aumento de impostos, de início (corte de gasto tributário é isso).

O risco de protesto é evidente, do topo ao chão da escala de renda. A questão fiscal será problema para qualquer governo, mas o modus operandi bolsonarista em relação à divergência é problema ainda maior. Quanto ao mais, o candidato a Bolsonaro Segundo diz que as "diretrizes e lições" são as do governo Bolsonaro Primeiro.

O plano é apenas em tese impopular. Javier Milei, na Argentina, inspiração bolsonarista, fez ajuste fiscal inédito, afora aqueles de tempos de grande guerra ou de hiperinflação terminal, chegando a cortar em 30% o valor real de rendas de pessoas que recebiam pagamento do Estado. Milei começa a cair pelas tabelas, mas a "motosserra" autoritária não levou seu prestígio a nível negativo nem impediu vitória eleitoral nos primeiros dois anos.

CPI pega STF e livra políticos, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Relatório não indiciou quem roubou, ganhou dinheiro e tentou salvar o Master com dinheiro público

Se tivesse contado a história toda, texto teria sido rejeitado por 10 a 0, não por 6 a 4

O relatório da CPI do Crime Organizado escrito pelo senador Alessandro Vieira (MDB-SE) pediu indiciamento de três ministros do STF e do procurador-geral da República. Não indiciou os políticos (em geral, de direita) que roubaram com o Master, ganharam dinheiro do Master e tentaram salvar o Master com dinheiro público.

A leitura do relatório deixa claro que Vieira tentou transformar a CPI do crime organizado em CPI do Banco Master.

Até aí, várias CPIs já trataram de temas diferentes dos que inspiraram sua instalação: o mensalão, por exemplo, foi investigado em uma CPI sobre bingos.

STF se enreda na própria teia, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Não há solução à vista para a recuperação do alto grau de desconfiança da população no Supremo

Cabe ao tribunal decidir se faz autocrítica para salvar a instituição ou se ignora as evidências e aprofunda a crise

Na sexta-feira (17), Edson Fachin e Cármen Lúcia respiraram fundo e foram ao cerne da questão: a crise de confiança que assola o Judiciário, em particular o Supremo Tribunal Federal, é grave e precisa ser enfrentada pelos próprios juízes.

O presidente e a ministra vocalizaram o que diz a população nas pesquisas que registram o alto grau de desconfiança na corte. Minados internamente, partiram para o desabafo externo na tentativa de mostrar aos colegas a necessidade de reconhecer o óbvio e virar essa página nefasta na história do STF.

Dejetos apocalípticos da guerra, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Na corda bamba sobre o abismo sem fundo da decadência ocidental, Trump alimenta a velha voracidade capitalista por solos e subsolos

Frágil é a trégua no Oriente Médio; certo mesmo é que a Guarda Revolucionária do Irã sai fortalecida, com maior poder interno

Pequena e anterior às manchetes do recuo dos EUA em seu apocalíptico ultimato, uma notícia nas redes reportava que uma bomba iraniana atingiu por acaso uma rede de esgotos israelense, inundando ruas com enxurradas de fezes. Um tópico adequado à "slopaganda" ("sloppy propaganda") iraniana, que mistura baixaria e porcaria. Provável sinal cabalístico de que o desatino bélico criado por dementes passou de porqueiro a porco. Em termos ainda mais prosaicos, a guerra deu ruim, deu "eme".

A religião, a loteria e o ópio da miséria, por Antonio Gramsci*

Nas Conversazioni criitiche & (Série 11, p. 300-301), Croce busca a "fonte" do Paese di Cuccaga’, de Matilde Serao, e a encontra num pensamento de Balzac. Na narrativa La Rabouilleuse, escrita em 1841 e depois intitulada Un ménage de garçon, falando de Madame Descoings, que há vinte e um anos apostava numa famosa sequência de três números, o "romancista sociólogo e filósofo" observa: "Essa paixão, tão universalmente condenada, nunca foi estudada. Ninguém ainda compreendeu o ópio da miséria. A loteria, a mais poderosa fada do mundo, não desenvolvia esperanças mágicas? A jogada de roleta, que acenava aos jogadores com montões de ouro e de prazeres, n5o durava mais que um clarão; ao passo que a loteria dava uma duração de cinco dias a esse magnífico clarão. Qual é, atualmente, a potência social que pode, por quarenta soldos, tornar-vos felizes durante cinco dias e conceder-vos idealmente todas as felicidades da civilização?"  

Poesia | Inconfesso Desejo, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Billy Blanco - "A Banca do Distinto" - A Bossa de Billy Blanco

 

sábado, 18 de abril de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Ameaça de Gilmar Mendes a senador é desproporcional

Por Folha de S. Paulo

Reação do ministro do STF viola o princípio constitucional que protege palavras e votos dos parlamentares

Mendes e colegas optam por fechar-se em copas e contra-atacar com superpoderes os críticos que cobram limites e compostura no tribunal

Para um ministro do Supremo Tribunal Federal, há dois modos de lidar com a crise de credibilidade que atinge o colegiado. O mais razoável é admitir que existem problemas de condutas de juízes e de excesso de poder da corte e, a partir daí, entabular uma agenda para corrigi-los com cuidado e equilíbrio.

O segundo é o encastelamento. Faz-se de conta que toda crítica a um colega ou ao modo de operação do tribunal compõe um complô para acabar com a democracia. A partir daí, a receita manda contra-atacar, valendo-se de todo o amplo arsenal hoje acessível a um integrante do STF.

A crueldade como política, por Oscar Vilhena Vieira*

Folha de S. Paulo

Não tem sido fácil cumprir as ambiciosas promessas da democracia

Orbán inspirou líderes populistas e autoritários como Trump, Erdogan, Modi e Bolsonaro

Democratas ao redor do mundo foram tomados por enorme euforia com a derrota de Viktor Orbán nas eleições desta semana na Hungria, após 16 anos no poder. A ascensão de Orbán, em 2010, interrompeu a chamada "terceira onda de democratização", desencadeada pela Revolução dos Cravos, em 25 de abril de 1974, a partir da qual dezenas de países ao redor do mundo transitaram para a democracia.

A democratização de países como Argentina, Chile, Brasil, Polônia, Hungria ou África do Sul não se limitou a almejar o estabelecimento de eleições livres e competitivas. Como contraposição à crueldade, à tortura, à censura, ao racismo ou ao arbítrio, inerentes aos regimes autoritários que sucederam, o Estado de Direito, os freios e contrapesos e os direitos humanos tornaram-se elementos constitutivos das novas democracias constitucionais.

Mandantes e mandatários, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

A quarta fase da Operação Compliance Zero foi a primeira disparada sobre bases da delação de Daniel Vorcaro. É informação relevante; porque não será pequena a tentação para que nos satisfaçamos já à primeira oferta de delatados. Paulo Henrique Costa estava dado – cabeça à mesa – fazia tempo. O ex-presidente do BRB – a quem se pagaria propina de R$ 140 milhões – era burocrata cujo poder executivo, num banco público, não lhe dava autonomia para decidir negócio de bilhões. A conta não fecha.

Dívida sai da periferia; chega ao centro, por Fabio Gallo

O Estado de S. Paulo

A nova era da dívida dos países está criando uma geografia da desigualdade

O Fundo Monetário Internacional (FMI) recentemente reduziu a projeção de crescimento de 2026 do PIB mundial de 3,4% para 3,1% no seu cenário base. Outros cenários apresentam que crescimento pode cair para 2,5% ou até 2%. Alertando que a economia global está sendo testada por choques, enfrentando riscos crescentes e pode entrar em cenário adverso rapidamente. Traduzindo em miúdos: O mundo ainda não entrou em recessão – mas passou a caminhar perigosamente para ela.

Ficar por quê, por Flávia Oliveira

O Globo

O desemprego é o menor da série histórica do IBGE, iniciada em 2012; a recuperação da renda é constante

Esta não é uma coluna sobre Big Brother Brasil, o reality show da TV Globo que adentrou a reta final da 26ª edição. Mas o critério de eliminação do programa cai como uma luva na análise eleitoral a que me proponho. Toda semana, o BBB reúne os integrantes indicados, por voto, ao paredão, e Tadeu Schmidt — a quem abraço e à família pela perda de Oscar, ídolo de todos nós, torcedores do esporte brasileiro — os convida a declarar em meio minuto por que cada um deve permanecer na casa hipervigiada pelo prêmio de R$ 5 milhões. Quem decide é o eleitor — digo, o público.

Matar um para assustar cem, por Thaís Oyama

O Globo

Susto é endereçável não apenas a Alessandro Vieira, mas também aos candidatos que disputarão a eleição para o Senado

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes quer que o senador Alessandro Vieira (MDB-SE) seja investigado por abuso de autoridade por ter defendido, no relatório da CPI do Crime Organizado, o indiciamento dele e de outros colegas da Corte. O pedido de Gilmar deixou juristas perplexos, dado que a Constituição garante a parlamentares imunidade por suas opiniões. Tendo sido o relatório de Vieira rejeitado pela CPI, o que o senador ali escreveu não passou, dizem, de ponto de vista. Inexiste qualquer “ato de poder” que possa ser qualificado como abusivo.

O vão entre as palavras, por Eduardo Affonso

O Globo

Talvez consigamos produzir similar nacional para a palavra de primeira necessidade neste país

Alguém comentou no X (onde mais?) que blackface é um problema tão grave no Brasil que nem sequer existe palavra em português para designá-lo. Procede. Mas nem tanto.

A falta de timing é um caso sério entre nós, e tampouco encontramos um jeito nosso de expressar essa “sensibilidade para o momento propício de realizar ou de perceber a ocorrência de algo, ou senso de oportunidade quanto à duração de um processo, uma ação etc.”. Perdão, Houaiss, mas timing é melhor.

Brasília 66, por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

Brasília assistiu a rebeliões e golpes de Estado. Hoje é uma cidade grande, com os desafios inerentes ao seu tamanho, com atividade política própria. O tempo da aventura no Planalto Central terminou

O presidente Juscelino Kubitschek foi objetivo. Concluiu apenas os principais prédios da nova capital da República na data da inauguração: 21 de abril de 1960. Foram terminados o Palácio da Alvorada, o do Planalto, o Supremo Tribunal Federal, o Congresso, o esqueleto da Catedral, os ministérios, a igrejinha Nossa Senhora de Fátima, as duas asas — Sul e Norte —, o Lago Paranoá e poucas superquadras. Os pioneiros terminaram de construir a cidade que hoje é a terceira maior do Brasil, depois de São Paulo e Rio de Janeiro. 

Na década de sessenta, no século passado, Brasília era uma aspiração. O presidente Jânio Quadros, que governou por apenas oito meses e alguns dias, renunciou a seu cargo, fugiu para São Paulo, onde ficou homiziado na base aérea de Cumbica.  Dali foi para o exílio. Quando saiu de Brasília, disse que jamais voltaria a "esta cidade malsinada". Fez uma única obra em Brasília. Ordenou a construção de um pombal na praça dos Três Poderes. João Goulart, o Jango, também não fez nada em favor da cidade. Ele governou do Palácio das Laranjeiras, no Parque Guinle, no Rio de Janeiro.

Quem liderará o futuro do Ceará? Por Juliana Diniz

O Povo (CE)

Ainda não sabemos como se dará a disputa ao governo estadual no Ceará daqui a alguns meses. Embora seja esperado que as definições definitivas das candidaturas se arrastem até o limite do prazo, quando todos os atores podem ponderar os riscos e articular suas composições, observamos, no Ceará, algo além e mais complexo do que o simples manejo do tempo disponível. Em verdade, partidos e lideranças partidárias ainda estão lidando com os efeitos do racha político vivenciado entre PT e PDT no pleito de 2022, e com as consequências disso para os projetos pessoais.

Ex-presidente do BRB pode tentar correr com delação no caso Master, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Aconselhado a delatar antes, Paulo Henrique Costa foi preso na 4ª fase da operação Compliance Zero

Suspeita-se que ele possa ter recebido vantagens financeiras ou de outro tipo para não delatar antes.

Preso na 4ª fase da operação Compliance Zero da Polícia Federal, Paulo Henrique Costa, o ex-presidente do BRB, pode agora ter incentivos para correr e fechar uma delação até mesmo antes de Daniel Vorcaro, dono do Master, que já assinou um acordo de confidencialidade para iniciar a colaboração.

Acusado de corrupção passiva e lavagem de dinheiro, Costa é suspeito de ter ocultado seis imóveis recebidos como propina, avaliados em R$ 146,5 milhões.

Estamos todos à venda? Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Corrupção é fenômeno mais disseminado do que gostaríamos de acreditar

Desonestidade é fruto de negociação interna entre ganho material e autoimagem

Sou meio ingênuo para esquemas de corrupção e outras promiscuidades público-privadas. Já há anos me queixo do circuito Elizabeth Arden de palestras e viagens de ministros do STF. Acreditava, talvez tolamente, que os atrativos oferecidos para conquistar a boa vontade de julgadores ficavam mais ou menos limitados à hospitalidade de luxo e outros prazeres efêmeros. A percepção de que os arranjos podem envolver significativo aumento patrimonial foi, para mim, um pouco chocante.

Governador em exercício trava máquina bolsonarista no Rio, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Ricardo Couto decreta auditoria e exonera aliados de Cláudio Castro

Homem das rachadinhas do filho 01, Queiroz virou subsecretário à beira-mar

Saquarema é um dos principais destinos do surfe no Brasil. Desde o ano passado, quem tira onda por lá é Fabrício Queiroz, o homem das rachadinhas de Flávio Bolsonaro.

O repórter Bernardo Mello revelou que Queiroz, sob o abrigo de aliados do antigo chefe, virou o subsecretário de Segurança e Ordem Pública da cidade. Queimado de sol e com óculos escuros, ele posa de xerife local. A nomeação foi um ajuste entre o ex-prefeito Antonio Peres, que comanda o diretório municipal do PL, e o filho 01.

Vamos conversar sobre o poder do Estado em uma sociedade sem limites claros, por Antônio Márcio Buainain*

Jornal da Unicamp

"A questão, portanto, não é apenas se o Estado sabe o que fazer, mas se ainda consegue, de fato, fazer valer suas decisões"

Nas conversas anteriores neste espaço, discutimos diferentes manifestações de um mesmo problema. Primeiro, o descompasso entre um Estado desenhado para uma realidade que já não existe mais e uma sociedade que mudou de forma acelerada. Depois, a emergência quase permanente governos funcionando sob a pressão de crises sucessivas. Em seguida, as dificuldades da proteção social em um contexto de envelhecimento, transformação do trabalho e reconfiguração das famílias. Em todos esses casos, a conclusão apontava na mesma direção: decisões difíceis precisariam ser tomadas, prioridades precisariam ser estabelecidas, e escolhas precisariam ser sustentadas ao longo do tempo. Mas é justamente isso que, em boa medida, já não estamos conseguindo fazer.

A Guerra do Irã e seus impactos fiscais, por Marcus Pestana

Há mais de seis semanas, a economia mundial sofre os efeitos da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã. O conflito militar afetou uma área expandida envolvendo Arábia Saudita, Catar, Bahrein, Iraque, Kuwait e Líbano. O brusco aumento dos preços do petróleo, principal insumo ainda com capacidade de afetar a matriz energética global, as cadeias produtivas e os fluxos comerciais internacionais, lançou a economia em uma espiral de incertezas e temores. O salto da cotação do petróleo Brent de US$ 71 para mais de US$ 100 o barril acendeu a luz amarela sobre a possibilidade de um ciclo marcado por aguçamento da inflação mundial, retração do comércio e da economia, comprometimento das cadeias logísticas, ou mesmo crise energética persistente, a depender do nível de comprometimento da estrutura produtiva petrolífera do Oriente Médio.

Não é (só) a economia, por Cláudio Couto

CartaCapital

Ela importa na decisão de voto, mas não explica tudo

Passada a desincompatibilização dos ocupantes de cargos no Executivo que pretendem concorrer nas eleições, fica claro o quadro da disputa presidencial e nos estados. Salvo surpresas, as candidaturas ao Planalto estão postas: Lula (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Augusto Cury (Avante), Renan Santos (Missão), Cabo Daciolo (Mobiliza), Aldo Rebelo (DC) e Samara Martins (UP). Além da possível postulação de Romeu Zema (Novo), há o balão de ensaio da candidatura de Ciro Gomes (PSDB). É, porém, improvável que o cea­rense desista de uma candidatura forte na disputa pelo governo de seu estado para entrar num jogo embolado e com pouco espaço para crescimento de candidaturas alternativas a Lula e Flávio.

Juntar os cacos, por Jamil Chade

CartaCapital

Restabelecer a democracia na Hungria não será tarefa fácil, avalia Lajos Bokros, ex-ministro das Finanças

A Hungria viveu uma experiência única nos últimos 16 anos. Descobriu, em plena luz do dia, como morrem as democracias. Com a derrota nas urnas de Viktor Orbán, o país tem tudo para entrar em uma nova fase, inédita no século XXI no Ocidente: como renascem as democracias. Na entrevista a seguir, o ex-ministro das Finanças da Hungria, Lajos Bokros, não esconde o entusiasmo com o fim do governo Orbá­n, denuncia o que chamou de “Estado mafioso” criado pelo líder da extrema-direita e destaca que o trabalho de reconstrução de uma democracia liberal será enorme. Bokros liderou a economia húngara nos primeiros anos após o fim da Guerra Fria e foi parlamentar europeu depois da adesão da Hungria à UE.

Guerra imoral, por Aldo Fornazieri

CartaCapital

Mesmo com toda a inferioridade militar, a heroica resistência dos iranianos está impondo uma derrota política e moral aos EUA e Israel

Sempre foi uma tarefa espinhosa estabelecer relações entre política, interesses de Estado, guerra e moralidade. Atribui-se a Maquiavel a formulação da autonomia da política em relação às normas morais. Já a guerra, como disse Clausewitz, é a continuação da política por outros meios. De todo modo, é certo que a moralidade da política e, por consequência, da guerra difere da moral do cidadão e do senso comum.

A conduta dos Estados modernos tem sido marcada por duas leis interdependentes: a lei da conservação e, dela derivada, a lei do conflito pela sobrevivência. Por isso, estudiosos afirmam ser ainda mais difícil estabelecer uma conexão entre moralidade e política internacional, já que esta frequentemente desliza para conflitos armados.

Punitivismo progressista, por André Barrocal

CartaCapital

Lula promete criar o Ministério da Segurança e espera por mais poderes do Congresso para atuar na área

Os brasileiros estão inseguros por causa da criminalidade, e não é de agora. Esse sentimento faz com que confiem menos nos outros e se tornem mais punitivistas, ou seja, queiram soluções “linha-dura”, como a redução da maioridade penal e a pena de morte. Entre mulheres, negros e aqueles que ganham até um salário mínimo, a preocupação com o crime é ainda maior do que a média. Esse quadro foi descrito em um livro do ano passado, O Brasil no Espelho, baseado em 9,9 mil entrevistas realizadas no fim de 2023. É um guia para entender uma guinada de Lula e do governo. Está em marcha no lulismo a construção de uma espécie de “punitivismo progressista”, com o qual o presidente pretende melhorar o ibope e as chances de reeleição.

Máquinas de pensar? Por Manfred Back e Luiz Gonzaga Belluzzo

CartaCapital

Seu avanço oculta o monopólio de dados e ajuda a bloquear o pensamento

“…a tirania da IA preside ao nascimento de uma besteira desconhecida até agora – a estupidez artificial – espalhada por toda parte, nas telas e redes informáticas. Então a besteira natural pode ganhar nobreza como loucura.”
(Jean Baudrillard)

Inteligência Artificial vs. Artificial Inteligência, eis a questão, diria ­Hamlet! Seria a destruição criadora ou a destruição destruidora?, diria Schumpeter. No artigo Máquinas de Computação e Inteligência, Alan ­Turing, em 1950, fez um teste, criou uma máquina para verificar se a inteligência das máquinas seria equivalente à inteligência humana. Testou se a inteligência dita artificial é inteligência ou não.

Alan Turing faz uma premonição: “Acredito que a pergunta original, ‘as máquinas podem pensar?’, é insignificante demais para merecer discussão. No entanto, acredito que, no final do século, o uso das palavras e a opinião geral das pessoas instruídas terão mudado tanto que será possível falar de máquinas pensantes sem esperar ser contrariado”.

Poesia | O Correr da Vida, de Guimarães Rosa

 

Música | João Gilberto - Brasil Pandeiro (1982), de Assis Valente

 

sexta-feira, 17 de abril de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Para surpresa de ninguém, rombo dos Correios continua

Por Folha de S. Paulo

Empresa puxa novo déficit recorde de estatais sob Lula, de R$ 4,2 bilhões no primeiro bimestre

Após plano de reestruturação, programa de demissões voluntárias fracassa; gestão petista insiste tolamente em rejeitar a privatização

Sob Luiz Inácio Lula da Silva (PT), as empresas estatais federais consideradas na apuração do resultado das contas públicas acumulam déficits históricos, agravando a pressão sobre o Tesouro Nacional. Em apenas dois meses deste 2026, o rombo já se aproxima do apurado em todo o ano anterior.

Dados do Banco Central mostram o descalabro. As estatais federais —excluídas as financeiras, como Banco do BrasilCaixa Econômica Federal e BNDES, e a Petrobras— registraram saldo negativo (excluindo gastos com juros) de R$ 4,2 bilhões no primeiro bimestre —o pior resultado para o período desde o início da série histórica, em 2002.

O Brasil oculto da polarização, por José de Souza Martins*

Valor Econômico

Não é direita ou esquerda. É o nosso extremismo: somos radicalmente de extremo centro

Parece que todos são contra a polarização política. À medida que o cenário das eleições se define, em particular a de presidente da República, vai ficando claro que, mais uma vez, o dilema é apenas o de optar por qual polarização. O Brasil tem mudado. Vai se ver, ficou no mesmo lugar. Os penduricalhos do oportunismo não o deixam mover-se.

Há muita coisa por trás disso. Muita história, muitas acomodações, muitos interesses. Não é direita ou esquerda. É o nosso extremismo: somos radicalmente de extremo centro, que, na verdade, é o município e o regionalismo dele decorrente. Sobretudo, óbvios e conhecidos resíduos dos imensos e acumulados impasses a que o país se torne algo diferente do que sempre foi. Mesmo nossas revoluções são golpes, como em 1889, 1930 e 1964.

Propostas para conter alta no custo de vida dividem o governo

Novo chefe da articulação política, Guimarães defende subvenção à gasolina e revisão da ‘taxa das blusinhas’, Alckmin diverge

Por Sofia Aguiar e Mariana Andrade / Valor Econômico

Os pacotes em elaboração pelo governo Luiz Inácio Lula da Silva para tentar reverter a queda de popularidade da gestão federal têm sido marcados por divergências entre integrantes da Esplanada. A possível revogação da chamada “taxa das blusinhas”, como é popularmente conhecida a sobretaxa de importações abaixo de US$ 50 no Brasil, e propostas para mitigar os efeitos do conflito no Oriente Médio são exemplos de propostas que ainda não têm consenso na gestão.

Na quinta-feira (16), o recém-empossado ministro das Relações Institucionais, José Guimarães, disse que as medidas anunciadas até agora pelo governo para reduzir o impacto da guerra no Irã nos combustíveis são “insuficientes”. Por conta disso, segundo ele, o Executivo deve anunciar novas ações “logo, logo”.

Dentre as medidas, ele citou a possibilidade de se oferecer subvenção à gasolina, como já foi aplicado a óleo diesel e gás de cozinha. Mais tarde, no entanto, o presidente em exercício, Geraldo Alckmin, negou tal estudo.

“Neste momento, [o governo] não [estuda subvenção para a gasolina]. Até porque a Petrobras não aumentou o [preço] gasolina, não teve nenhum reajuste”, comentou Alckmin.

Boulos e Guimarães, duas táticas de Lula na cozinha do Planalto, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Ambos protagonizam uma velha encruzilhada dos governos de esquerda: avançar rapidamente em pautas populares ou calibrar o passo para preservar alianças e estabilidade

Com a saída do ministro da Casa Civil, Rui Costa, e da ministra de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, que disputarão as eleições como candidatos ao Senado, os principais operadores políticos do Palácio do Planalto passaram a ser Guilherme Boulos, na Secretária-Geral da Presidência, e José Guimarães, que substituiu Gleisi. Miriam Belchior assumiu a Casa Civil com foco na gestão administrativa do governo. Boulos e Guimarães têm perfis completamente diferentes.

Ex-candidato a prefeito de São Paulo, Boulos construiu sua trajetória política a partir dos movimentos sociais, especialmente no campo da luta por moradia, o que lhe confere forte conexão com a militância de esquerda e com pautas de mobilização popular. Sua atuação no governo reflete essa origem: é um articulador de base social, voltado para sindicatos, movimentos organizados e partidos progressistas, com discurso mais ideológico e mobilizador. Já Guimarães representa a face pragmática do governo. Deputado experiente, com trânsito consolidado no Congresso, atua como operador político clássico, interlocutor do presidente junto ao Centrão e ao presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), para construir maiorias e viabilizar votações. Seu perfil é moderado, negociador capaz de fazer muitas concessões para colher resultados.

A Sabesp no palanque em SP, por Vera Magalhães

O Globo

Oposição a Tarcísio já deixou claro que a privatização será um dos principais focos da tentativa de desconstruir a imagem de eficácia

A privatização da Sabesp entrou definitivamente na pauta da campanha eleitoral em São Paulo. Isso porque começam a aparecer efeitos mensuráveis da venda, e muitos deles não são bons.

Concluída em julho de 2024, a operação marcou a venda do controle da companhia pelo governo de Tarcísio de Freitas, com a transferência de participação relevante ao setor privado e a entrada de um investidor de referência. Foram vendidos cerca de 32% das ações por R$ 14,7 bilhões, com a Equatorial Energia adquirindo 15% e assumindo posição estratégica. O governo manteve participação minoritária e estruturou o modelo, com metas de universalização até o fim da década e promessa de até R$ 66 bilhões em investimentos.

A verdade de Eduardo Cunha, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Ex-deputado afirma que abriu caminho para ascensão do bolsonarismo

Eduardo Cunha disse uma verdade. O fato, por si só, já mereceria registro. Neste caso, ajuda a pensar os rumos do país na última década.

Em entrevista ao jornal mineiro O Tempo, o ex-deputado afirmou que a derrubada de Dilma Rousseff abriu caminho para a ascensão do bolsonarismo. “Se eu não tivesse feito o impeachment, não teria existido Bolsonaro presidente da República”, sentenciou.

Cunha perdeu o poder, mas não perdeu a pose. Imodesto, apresentou-se como precursor de “todos os expoentes da direita que aí estão”. Em provocação a Nikolas Ferreira, disse que muitos ainda usavam fraldas quando ele comandou a cassação da ex-presidente. “Tudo é fruto do meu ato. Sem o meu ato, nada teria ocorrido”, jactou-se.