sábado, 5 de setembro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

O Supremo vandalizado

Por CartaCapital

O ministro André Mendonça produz o seu 8 de Janeiro particular

Duas reportagens de capa assinadas por André Barrocal servem de prelúdio para o espetáculo em curso. Embora manjado, o golpe nunca deixa de enganar os incautos. E de produzir os efeitos desejados, em maior ou menor medida. Na edição 1410, de 29 de abril, sob o título “Na Mira”, CartaCapital detalha o especial interesse do ministro André Mendonça em recolocar o desafeto Alexandre de Moraes no centro das investigações sobre as falcatruas do Banco Master. No número 1425, de 12 de agosto, descrevemos os pesos e medidas do “juiz torcedor”, Mendonça, empenhado em desviar o foco das denúncias contra Flávio Bolsonaro, representante do clã que o instalou em uma cadeira no Supremo Tribunal Federal.

É preciso reconstruir, e não implodir a democracia, por Flávia Oliveira

O Globo

Um regime alquebrado é para ser curado, não aniquilado. A receita é expulsar o agressor, não abrigá-lo

Uma pergunta se impõe, ao fim da semana — mais uma — desastrosa. A quem interessa a implosão da democracia? Às brasileiras e aos brasileiros, certamente, não. Em uma década, o país impôs impeachment à única mulher já eleita presidente da República; enfrentou e puniu tentativa de golpe de Estado. Agora, flerta novamente com o abismo. Quem foi para o feriado da Independência sem uma ruga de preocupação está mal informado. O risco é crescente e difuso: parte do golpismo continuado da extrema direita bolsonarista; cruza a ameaça de interferência estrangeira pelos Estados Unidos de Donald Trump no processo eleitoral; passa pela disputa fratricida entre os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça no Supremo Tribunal Federal (STF); esbarra no escândalo financeiro protagonizado por Daniel Vorcaro e sua teia; cruza com um Legislativo ensimesmado. Por fim, encontra o desencanto da população com um sistema político carcomido e desprovido de representatividade.

Moraes não nasceu ontem, por Thaís Oyama

O Globo

O poder do ministro cresceu num ambiente em que cada heterodoxia sua recebia guarida de parte da sociedade

Exposto em conversas indefensáveis com o hoje presidiário Daniel Vorcaro, o ministro Alexandre de Moraes sacou do coldre o inquérito das fake news e apontou-o para a cabeça do seu colega de Corte, André Mendonça, mergulhando o Supremo numa crise nunca vista. Ministros do STF se disseram perplexos. Democratas se abanaram. O presidente Lula apressou-se em afetar indignação.

Ninguém duvida de que a crise é abissal. Mas tanta surpresa não se justifica. Alexandre de Moraes não acordou um dia transformado em Alexandre de Moraes. Tampouco virou sozinho o que é.

Em momentos de crise, a soberba é má conselheira, por Oscar Vilhena Vieira

Folha de S. Paulo

É fundamental fortalecer o colegiado do STF em detrimento de seus membros

E os mandatos na corte não deveriam ultrapassar 12 ou 16 anos

Ao completar 135 anos, o Supremo Tribunal Federal vive a mais grave crise de sua história. E não foram poucas.

A autoridade do tribunal sempre foi contestada por setores autoritários da vida brasileira, que desrespeitaram suas decisões, violaram suas prerrogativas, aposentaram ministros e, mais recentemente, vandalizaram sua sede. O que torna a crise atual mais grave que as anteriores é que às ameaças externas se somam os ataques internos, que colocam em risco a sobrevivência não apenas da instituição mas da própria Constituição.

Não será fácil superar a presente crise pela qual passa o Supremo, se é que ela será um dia superada. O termo crise, em sua origem, designa não apenas o risco de perecimento de um organismo ou instituição mas um momento crucial, em que decisões precisam ser tomadas com vistas à correção de rumos e reestabelecimento da normalidade. A soberba apenas nos aproximará do precipício.

Quando todo mundo está certo, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

André Mendonça está certo em cobrar investigação sobre Alexandre de Moraes

E Moraes aponta problemas reais em ações de Mendonça à frente do inquérito

André Mendonça está certo e Alexandre de Moraes está certo —e é por isso que o STF vive a mais grave crise de sua história.

O relator do caso Master tem razão ao sustentar que o relacionamento de Moraes com Daniel Vorcaro precisa ser investigado. Não dá para cravar que Moraes tenha cometido crimes —só a investigação poderia determiná-lo—, mas, no plano ético, a situação do ministro é insustentável. O conflito de interesses está provado. A família de Moraes auferiu dezenas de milhões de reais com um contrato com o banco Master totalmente fora dos padrões de mercado e que não poderia ter motivações republicanas. Era dever do ministro perceber isso.

O lado de Vorcaro na disputa presidencial, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Da cadeia, ex-banqueiro continua dando as cartas; ele quer a nulidade do processo do caso Master

Estratégia acaba favorecendo o presidenciável Flávio Bolsonaro por colocar em risco investigação sobre o filme 'Dark Horse'

Da cadeia, Daniel Vorcaro continua dando as cartas. Ele quer a nulidade do processo do caso Master. O ex-banqueiro caminha a passos largos para conseguir que seja colocado em suspeição todo o inquérito contra ele.

Na intimidade das mensagens trocadas pelo celular, Vorcaro é "amigo, Dani, irmãozão, mermão". Em público, os mesmos que o tratam com palavras amorosas nada sabem. Não são amigos.

Quero tudo já, por Miguel Reale Júnior

O Estado de S. Paulo

Sob o signo do eficientismo dos tecnocratas que conformam a sociedade, a democracia esfarela-se enquanto sistema de governo

Vivemos na época da pressa, da urgência, quando tudo deve ser prestado de imediato, sob pena de ser descartado, em demora incompatível com a instantaneidade proporcionada pelas novas conquistas da tecnologia.

Este processo avoluma-se desde o último quartel do século passado. Em matéria publicada em 31 de maio de 1976, no jornal Correio do Povo de Porto Alegre, recortada e guardada por dona Julieta Bento Hofmeister, avó materna de minha mulher, transcreve-se a última entrevista de Heidegger, então falecido na semana anterior.

Heidegger ali afirmava: “A filosofia chegou a seu fim. Seu papel foi ocupado agora pelas ciências. O lugar da filosofia foi ocupado pela cibernética”. E perquiria: “A pergunta decisiva é saber que sistema político, se é que existe algum, está à altura da época da técnica. Não tenho resposta a esta pergunta. Não estou convencido de que seja a democracia”.

Ato Institucional Xandônico, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

“Que loucura, bem na semana que estou resolvendo tudo. Aquele mesmo juiz Ricardo? E o Galipolo tá sabendo? Conseguimos fazer algo? Acha que segunda já tenho que estar fora?”

Isso é Vorcaro, em 15 de novembro de 2025, a dois dias de ser preso, reagindo à mensagem de Alexandre de Moraes, o ministro do STF que, ante a impossibilidade de defender o “conseguimos fazer algo?”, chamou Xandão para contra-atacar.

Difundindo falsas equivalências, quer que os pares decidam – não sobre se as suas relações vorcáricas devem ser investigadas – entre ele e André Mendonça. Um terá de morrer. Quer que os pares escolham, enquanto lhes mostra que tem o inquérito das fake news à mão, ferramenta que pode tanto lhes servir, vide Dino, quanto monitorá-los.

Como as democracias morrem, por Marcos Paulo Lima

Correio Braziliense

Democracias podem perder qualidade enquanto seus rituais permanecem intactos. O que se deteriora é menos visível: a disposição coletiva para aceitar que ninguém possui o monopólio da verdade, do patriotismo ou da própria democracia.

Democracias nem sempre morrem com tanques nas ruas, Congressos fechados e generais anunciando o fim das liberdades. Às vezes, adoecem lentamente. Continuam realizando eleições, preservam tribunais e mantêm parlamentos. Tudo parece estar no lugar. Até que algo essencial se perde.

Essa é uma das advertências em Como as democracias morrem, dos cientistas políticos Steven Levitsky e Daniel Ziblatt. Publicado em 2018, o livro revisitado na minha biblioteca não serve como régua para diagnosticar automaticamente o Brasil, mas oferece uma lente incômoda para interpretar a crise nacional.

Os autores destacam duas regras não escritas fundamentais à sobrevivência democrática: tolerância mútua e reserva institucional. A primeira significa reconhecer a legitimidade do adversário. Democracia não exige concordância. Existe justamente para administrar divergências. O problema começa quando o adversário deixa de ser concorrente e passa a ser tratado como inimigo. Esse é um dos sintomas da doença brasileira.

O STF e a crise das (in)formalidades, por Juliana Diniz*

O Povo (CE)

Por mais que seja um tribunal com papel único, o de interpretar e julgar a constituição, um documento eminentemente político, o STF continua a ser um tribunal e, portanto, limitado pelas normas jurídicas

Quando pensarmos em realizar a Justiça, o modo de fazer as coisas importa tanto quanto o resultado. Por isso temos o processo judicial: ele organiza o caminho que seguiremos até se decidir se alguém é culpado ou inocente, e qual a pena justa em caso de responsabilidade. É para assegurar tal equilíbrio que o Judiciário existe em uma democracia saudável; é por isso que os juízes precisam ser decorosos e imparciais, e é em razão desse ideal que advogados e demais atores da justiça são tão ocupados em discutir formalidades.

A República, em apuros, pede socorro, por Marcus Pestana

Vivemos uma longa noite de 21 anos sob o autoritarismo. Minha geração resgatou o fio da meada deixado pelos jovens de 68, na segunda metade dos anos 1970. “A UNE somos nós, nossa força e nossa voz!”. Não era legal, a ditaduras não queria, reconstruímos na marra, na coragem, na luta. Pulmões cheios de ar, energia e esperança. Corações de estudantes, cheios de sonhos juvenis e ousados objetivos para o país.

Tudo em torno de duas palavras mágicas: democracia e República. Do grego, demokratia, significando governo do povo. República, do latim, res publica, em outras palavras, coisa pública, bem comum. O sonho da geração da redemocratização era inicialmente muito simples: um governo do povo baseado no bem comum e no respeito à coisa pública.

Brasília: nada de novo no front, por Murillo de Aragão

Veja

Vivemos uma guerra de trincheiras, entre gases tóxicos e artilharia

O que há em comum entre as guerras na Ucrânia e no Irã e a crise institucional de Brasília? O fato de que ninguém sabe como e quando vão terminar. Vivemos uma guerra de trincheiras na qual os soldados vão e voltam entre gases tóxicos e fogo de artilharia, como na I Guerra Mundial. Os avanços são medidos em escassos metros, mas o tiroteio é intenso.

Voltando à nossa novela, no fim de agosto a questão de Lulinha e Roberta Luchsinger dominou a pauta. Já na abertura de setembro, a suspensão do sigilo dos diálogos de Daniel Vorcaro desestabilizou uma Brasília já desestabilizada. Nem vale a pena citar rumores e boatos, já que, em tempos de crise, a verdade sempre anda escoltada por muitas mentiras, como disse certa vez Winston Churchill.

A crise avança, por José Casado

Veja

Moraes e Toffoli ficam expostos em 400 páginas da PF sobre a rede do Master em Brasília

Numa noite de verão houve uma reunião reservada no Supremo Tribunal Federal. Nove juízes se trancaram numa sala com José Antonio Dias Toffoli, até então responsável pelo processo sobre fraudes financeiras bilionárias no Banco Master.

Havia sido revelado que, três anos antes, um agente de negócios do banco comprara um hotel da família Dias Toffoli em Marília, a 430 quilômetros de São Paulo. Criou-se um impasse quando o chefe da Polícia Federal, aparentemente com o aval do presidente da República, apresentou ao presidente do STF um pedido de remoção do juiz relator do caso Master.

Augusto Cury e os órfãos, por Aldo Fornazieri

CartaCapital

Candidato do Avante salta e toma espaço que Zema e Caiado não foram competentes para ocupar

Nos últimos dias, as eleições presidenciais ganharam um grau maior de incerteza, introduzido pelo candidato Augusto Cury. Antes disso, as pesquisas indicavam – e os analistas juravam – que não havia luz fora da polarização entre Lula e Flávio Bolsonaro. A incerteza se restringia a um porcentual de 5% a 6% de eleitores pendulares, capazes de aproximar ou de distanciar um pouco as curvas de intenção de voto entre os dois polos. Uma incerteza maior só viria no segundo turno.

O salto de Cury nas redes sociais e nas intenções de voto, ocupando o terceiro lugar, carreou essa incerteza para dentro do primeiro turno. Os analistas dizem que esse crescimento é espuma e que logo vai murchar. Mas o grau de incerteza pode aumentar ainda por conta de novas revelações sobre Flávio Bolsonaro e sobre o imbróglio Lulinha. Há que se indagar também acerca dos efeitos eleitorais que a granada lançada pelo ministro André Mendonça contra Alexandre de Moraes poderá produzir. A prudência, assim, recomenda que é preciso esperar para ver melhor as movimentações do eleitorado, que é o senhor das eleições.

O STF em ruínas, por Cláudio Couto

CartaCapital

Uma reforma das regras de funcionamento da Corte se impõe. Ela deve ser agenda importante da próxima legislatura, a despeito dos desdobramentos do atual escândalo que atinge o tribunal

O Supremo Tribunal Federal, não é de hoje, merece críticas severas ao comportamento de magistrados individualmente e da Corte como um todo. Antes mesmo da ascensão da ultradireita, com seus ataques à democracia em geral e ao STF em particular, estudiosos e analistas do funcionamento de nosso sistema judicial apontavam falhas graves, cuja remediação se impunha tanto para preservar a legitimidade das instituições do Estado Democrático de Direito, como para prover justiça efetivamente.

Em meio à crise no STF, Lula critica uso político de cargos e vazamentos seletivos, por Vinícius Nunes

CartaCapital

Presidente afirma que autoridades não podem usar funções públicas em benefício próprio e diz que vazamentos por interesses políticos e econômicos ameaçam a credibilidade da Justiça

O presidente Lula (PT) criticou nesta sexta-feira 4 o uso de cargos públicos em benefício próprio e os vazamentos seletivos motivados por interesses políticos e econômicos. As declarações ocorreram no Palácio do Planalto, durante a cerimônia de sanção de projetos que criam fundos especiais para a Justiça Federal e para o Superior Tribunal de Justiça, e em meio ao agravamento da crise no Supremo Tribunal Federal envolvendo os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça e os desdobramentos das investigações sobre o Banco Master.

Fachin defende encerrar o Inquérito das Fake News, após Moraes solicitar investigação contra Mendonça, por Maiara Marinho

CartaCapital

O presidente do STF também voltou a pedir a adoção de um código de ética e a modernização do sistema de Justiça

O presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, defendeu nesta sexta-feira 4, em cerimônia no Palácio do Planalto, o fim do Inquérito das Fake News, processo sob a relatoria do ministro Alexandre de Moraes.

Moraes utilizou o inquérito para solicitar à Polícia Federal um relatório de inteligência sobre pedidos de apuração contra ministros da Corte. Na sequência, requisitou a abertura de uma investigação contra André Mendonça por usurpação de funções nos casos do Banco Master e do INSS.

Terra arrasada, por André Barrocal

CartaCapital

Mendonça instala uma crise no STF de olho na demolição da República

O Supremo Tribunal Federal foi arrastado para sua maior tormenta por dois de seus integrantes: André Mendonça e Alexandre de Moraes. Agora cabe ao presidente da Corte, Edson Fachin, decidir se o capítulo mais agudo da crise terá um desfecho diante das câmeras de tevê ou se a solução será outra. Mendonça investigou Moraes às escondidas no caso Master e botou na praça todas as informações recebidas da Polícia Federal. Moraes está encrencado até o pescoço, graças à relação com Daniel Vorcaro, dono do finado banco. Ao ligar o ventilador na direção do colega, Mendonça praticamente exigiu que o STF realize uma sessão aberta para decidir o futuro do desafeto. Detalhe: Moraes assumirá o comando do Supremo daqui a um ano, se sobreviver até lá. Para o trivial Fachin, o tribunal vive um momento de “especial gravidade” e tanto a atuação de Mendonça quanto os indícios contra Moraes exigem resposta. Daí sua promessa de anunciar nos próximos dias “as medidas cabíveis e necessárias”, conforme declarou em nota pública. Uma saída que preserve “a integridade do Supremo”, “a autoridade de suas decisões” e “a confiança da sociedade na instituição”.

Poesia | Soneto de aniversário, de Vinícius de Moraes

 

Música | Simone, Milton Nascimento - Encontros e despedidas

 

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Orçamento de 2027 reflete descrédito fiscal do governo

Por O Globo

Equipe econômica fala em ‘superávit efetivo’ e ensaia ajuste. Mas não convence nem o próprio Lula

A dívida pública brasileira está em 82,5% do PIB, pela última medição do Banco Central. É o maior nível desde abril de 2021, no período da pandemia — e um patamar mais de dez pontos percentuais acima do herdado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. É sempre importante lembrar esse fato para avaliar o compromisso do governo com o controle das contas públicas.

Confrontada com a escalada no endividamento, a equipe econômica costuma alegar que tem cumprido as metas fiscais estipuladas pelo arcabouço aprovado em 2023. E afirma que o déficit primário nas contas públicas melhorou de 2,4% do PIB no primeiro ano de governo para 0,5% na previsão para este ano. Os números estão corretos, mas são inócuos, tamanha a lista de despesas não consideradas no cálculo. Com as inúmeras exceções — criadas seja por necessidade, seja por conveniência política —, a dívida não para de subir.

Política não é um mundo paralelo, por Fernando Luiz Abrucio

Valor Econômico

O momento democrático poderia ser mais bem aproveitado se a qualidade do debate melhorasse

As eleições constituem o principal instrumento para que os políticos ouçam, dialoguem e respondam à sociedade. Isso não quer dizer que os governantes e representantes também não tenham de prestar contas ao longo de seus mandatos. Ocupar um cargo eletivo sempre envolve ser monitorado e responsabilizado por seus atos. Mas é no processo eleitoral que os cidadãos têm mais força para listar as prioridades e buscar soluções para os problemas públicos. O que estamos vendo em 2026, infelizmente, é um uso muito insatisfatório e reduzido desse momento estratégico da democracia.

O Brasil passou por muitas transformações positivas desde o início da redemocratização. Nesta lista estariam o acesso universal à saúde, a expansão da educação para camadas sociais que tinham sido alijadas ou expulsas das escolas, a criação de políticas que reduziram a pobreza, a estabilização da economia com o Plano Real, bem como a adoção de programas para proteger o meio ambiente e minorias sociais, como negros, mulheres e indígenas. Tudo isso só foi possível porque houve eleições, com participação dos cidadãos, pressões de organizações da sociedade e apresentação de propostas por candidatos competindo entre si.

O testamento inacabado de Getúlio Vargas, por José de Souza Martins*

Valor Econômico

O discurso-testamento de 1951 falava em social-democracia e em protagonismo dos trabalhadores. Quando, enfim, até mesmo um trabalhador poderia chegar ao poder

No primeiro 1º de maio após seu retorno à Presidência da República, em 1951, depois da deposição em 1945 e 15 anos de poder e de ter sido novamente eleito presidente em 1950, Getúlio Vargas pronunciou um significativo discurso no Estádio de São Januário, no Rio de Janeiro.

A memória de Getúlio Vargas tem sido desfigurada e manipulada para nele ressaltar o ditador, que ele foi no Estado Novo, de 1937 a 1945. Ele foi um estadista peculiar, de um país atrasado, em que uma minoria de pessoas esclarecidas, como Roberto Simonsen, fundador da Fiesp, tinha clareza de que o Brasil tinha possibilidade de diferençar-se do que fora até 1929.

Alcolumbre aguarda as urnas para decidir sobre Moraes, por Andrea Jubé

Valor Econômico

Chefes dos Poderes jogam com o tempo

Político astuto sabe a hora de agir. No “Grande Sertão: Veredas”, que completou 70 anos, Riobaldo afirmou que o líder dos jagunços, Zé Bebelo, não se tornou político como sonhava porque perdeu tempo. “Raposa que demorou”, lamentou.

Na maior crise institucional desde a redemocratização, os chefes dos Poderes jogam com o tempo antes de prestarem contas à sociedade sobre o escândalo vinculando ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Sob pressão para pautar um dos pedidos de impeachment do ministro da Corte Alexandre de Moraes, de quem é próximo, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), queixou-se das agressões que vem sofrendo, inclusive de colegas, e pediu tempo: “No momento adequado eu vou falar”.

Os Irmãos Cara de Pau, o Supremo e a agenda de Lula no Congresso, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

A tensão deixou de envolver apenas dois ministros: as gravações arrastaram para o centro do palco o STF, a PGR e a própria PF

Cenas antológicas de “Os Irmãos Cara de Pau (The Blues Brothers)”, comédia musical dirigida por John Landis em 1980, parecem ter sido filmadas para servir de metáfora à atual crise política brasileira. Jake e Elwood Blues, interpretados por John Belushi e Dan Aykroyd, respectivamente, reúnem uma antiga banda para levantar o dinheiro necessário à salvação do orfanato católico onde foram criados. Acreditam estar numa “missão divina”, embora sejam perseguidos pela polícia, por neonazistas, por uma ex-noiva vingativa e por uma banda de música country.

No Bob’s Country Bunker, os músicos sobem ao palco protegidos por uma tela de arame, atrás da qual continuam tocando enquanto garrafas são atiradas pela plateia. Mais tarde, no grande concerto do Palace Hotel Ballroom, o espetáculo prossegue em meio à presença de policiais, rivais e adversários dispostos a capturar os irmãos. A confusão toma conta do salão, mas a banda não interrompe a música. O repertório se adapta às circunstâncias, o ritmo é mantido e o público dança em meio ao caos.

Alexandre de Moraes reage e pede a Fachin para investigar André Mendonça

Por Tiago AngeloGiullia Colombo  e Mateus Coutinho – Valor Econômico

O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), pediu que André Mendonça seja investigado por suposto abuso de autoridade, improbidade administrativa e crime de responsabilidade. Ele também acusa o colega de quebra da imparcialidade judicial e favorecimento de grupos políticos nas investigações que tratam de um esquema de fraudes em descontos associativos de aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e do escândalo do Banco Master.

A solicitação, encaminhada ao presidente do STF, Edson Fachin, acontece dois dias depois de Mendonça retirar o sigilo de um relatório da Polícia Federal (PF) que citava mensagens enviadas pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master, a um contato atribuído a Moraes. Nelas, Vorcaro buscava interferir e obter informações sobre as apurações que o levaram a ser preso em novembro do ano passado. O episódio abriu uma crise sem precedentes no Supremo, agora intensificada pelo pedido para Mendonça ser investigado.

Moraes acusa Mendonça de crime de responsabilidade, por Renato Souza, Armando Holanda e Rafaela Bomfim

Correio Braziliense

Ministro do STF também aponta indícios de improbidade administrativa e abuso de autoridade do colega de Corte

O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), usou o inquérito das fake news para acusar o ministro André Mendonça de crime de responsabilidade. A ofensiva do magistrado leva a mais alta Corte do país a uma crise sem precedentes. Horas depois, o presidente do STF, Edson Fachin, deu prazo de cinco dias úteis para que os dois se manifestem sobre o caso.

A iniciativa de Moraes é uma reação à decisão de Mendonça de derrubar o sigilo de um relatório da Polícia Federal contendo diálogos do dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, em que Moraes é citado.

Na decisão dessa quinta-feira, Moraes aponta "indícios de improbidade administrativa, abuso de autoridade e crime de responsabilidade por parte de Mendonça na relatoria dos inquéritos sobre as fraudes do Banco Master e os descontos indevidos em aposentadorias e pensões do INSS.

Moraes pede a Fachin investigação de André Mendonça por abuso de autoridade, por Luísa Martins e Ana Pompeu

Folha de S. Paulo

Ministro do STF deu decisão no inquérito das fake news e disse que colega agiu por motivos pessoais e políticos e que direcionou investigações

Moraes diz que ele e Alcolumbre foram alvos e que relatórios fazem imputações falsas contra outros ministros; Mendonça ainda não comentou

O ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), pediu que o ministro André Mendonça seja investigado por abuso de autoridade, improbidade administrativa e crime de responsabilidade na condução do caso do Banco Master e do INSS (Institutos Nacional do Seguro Social).

O despacho foi assinado no âmbito do inquérito das fake news e encaminhado ao presidente do STF, Edson Fachin, para providências. Moraes afirma que Mendonça agiu para direcionar as investigações, "com quebra da imparcialidade judicial e favorecimento a determinados grupos políticos".

Vorcaro ri sozinho e lucra com crise, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Como os líderes do PCC e CV, Vorcaro mantém seu poder na prisão e lucra com a crise institucional

Assim como os líderes do PCC e do CV mantêm comando sobre as facções, mesmo presos em penitenciárias de alta segurança, o ex-banqueiro Daniel Vorcaro sustenta seu poder destrutivo contra as instituições, mesmo depois de meses trancafiado na Papudinha, em Brasília.

Tal como cooptou figuras centrais de Legislativo, Judiciário e Executivo quando era biliardário e estava solto, Vorcaro continua sendo personagem-chave na guerra que sacode a capital da República, com ação calculada para jogar os ministros do Supremo uns contra os outros e a Polícia Federal e a PGR no meio da fogueira.

Sem saída, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Ruína da imagem do STF não tem solução fácil e deverá arrastar-se por anos

Excesso de foro especial é ao mesmo tempo ingrediente e agravante da crise

Se um juiz da Suprema Corte dos EUA for flagrado cometendo um crime, ele será julgado na primeira instância. No Brasil, não. Pela regra do foro especial, um ministro do STF só pode ser julgado por seus colegas do Supremo.

Supremo vai escolher entre expor ou esconder suas mazelas, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

É tarefa dos três Poderes responder ao imperativo de preservar a confiabilidade das instituições

A transparência exibe as chagas, mas pode cicatrizar feridas e impedir o alastramento da infecção

Daniel Vorcaro está preso, seu banco liquidado e a vida que previra construir arruinada.

Seria apenas o destino de um transgressor se na trajetória dos ilícitos não tivesse arrastado consigo ministros do Supremo Tribunal Federal, um procurador da República, parlamentares da cúpula do Congresso e quem mais ainda esteja por aparecer envolvido nessa macabra teia de cooptações e traficância de influências.

Ao que já se sabe, foram-se os anéis. Resta agora aos verdadeiros defensores do Estado de Direito impedir que se percam os dedos, na metáfora representados pelas instituições pilares da República.

Lula sem ideia nova e com nota ruim, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Com nota tão ruim quanto a de Jair Bolsonaro, presidente fica perto de fundo do poço

Programas de benefícios sociais, redução de impostos e facilitação de crédito não fazem efeito

O que a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) poderia fazer diante dos fatos de que a avaliação de seu governo piora sem parar desde julho e de que na prática está empatado com Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno? O que mais virá nesta eleição no meio da lama da guerra jurídico-policial? Alexandre de Moraes e André Mendonça estão à beira das vias de fato, do duelo, no Supremo e muito mais. Difícil saber o que o eleitorado vai fazer disso.

Setembro sangrento, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Em guerra aberta, Mendonça e Moraes sabem que resultado da urna também definirá futuro da Corte — e deles próprios

Em conversa recente, um ministro do Supremo previu a chegada de um “setembro sangrento”. Falava da eleição presidencial, não da crise que estava por explodir na Corte.

A um mês das urnas, é difícil encontrar a fronteira que deveria separar os dois assuntos. Tudo se mistura no noticiário e na cabeça do eleitor, bombardeado por cifras milionárias e sinais explícitos de corrupção.

As novas suspeitas sobre o ministro Alexandre de Moraes inflamaram a militância bolsonarista. Depois do fiasco no lançamento da campanha em Copacabana, o PL espera usar o caso para arrastar uma multidão à Avenida Paulista no 7 de Setembro.

Salvem a democracia, não Moraes, por Pablo Ortellado

O Globo

Seus erros e acertos viraram erros e acertos do Supremo

A crise no Supremo precisa ser enfrentada com o afastamento do ministro Alexandre de Moraes. Desde a abertura do inquérito das fake news, o STF conferiu poderes demais a um indivíduo para atuar em defesa da instituição. Seus erros e acertos na condução do processo viraram erros e acertos da Corte.

Agora, é preciso que suspeitas sobre má conduta em sua vida profissional não virem suspeitas sobre má conduta da instituição — e comprometam a legitimidade das condenações dos atos antidemocráticos. É preciso afastar Moraes para salvar o Supremo — e para salvar a democracia.

Confusão, silêncio e gargalhadas, por Vera Magalhães

O Globo

Tática dos enredados na teia de Vorcaro é fazer um fogo de encontro que iguale as suspeitas e evite qualquer apuração célere

A tática dos enredados na teia cada vez mais ampla de Daniel Vorcaro para evitar que suas relações com autoridades sejam investigadas a fundo e gerem consequências está clara: apostar na confusão embalada por um silêncio que só não é mais aviltante do que as sonoras gargalhadas, daquelas de sacudir o corpo todo, em que ministros do Supremo Tribunal Federal foram flagrados pelo repórter fotográfico Brenno Carvalho, do GLOBO.

Emprego e trabalho, por Ivan Alves Filho*

O que estamos presenciando no mundo hoje não é o fim do trabalho, mas o começo de um trabalho qualitativamente diferente. E esse trabalho com uso de algoritmos - pois é dele que estamos falando - tem várias dimensões, a começar pela dimensão digital. No entanto, é preciso verificar que ele se manifesta também em atividades de base extrativista e industrial, operando em cadeia. Alguns estudiosos vêm chamando a atenção para isso. 

Poesia | Busque amor novas artes, novo engenho, de Luís Vaz de Camões

 

Música | Dorival Caymmi - É doce morrer no Mar

 

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Ou STF é ágil sobre Moraes, ou Senado será

Por O Globo

Diante dos fatos, Fachin falou em evitar precipitação — mas risco maior está na procrastinação

As revelações sobre a proximidade entre o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e Daniel Vorcaro, artífice da maior fraude bancária da História brasileira, deixaram o país estarrecido. Elas exigem providências imediatas, sem tergiversação. Por isso deve ser repudiada com veemência a manifestação da Procuradoria-Geral da República (PGR) que defendeu a nulidade das provas recolhidas pela Polícia Federal (PF). O presidente do STF, ministro Edson Fachin, tem o dever de convocar com urgência o plenário da Corte para examinar a questão.

Em resposta ao ministro André Mendonça, relator do caso Master, o procurador-geral Paulo Gonet afirmou que as provas deveriam ser anuladas, alegando não caber a um juiz como Mendonça conduzir investigação, prerrogativa do Ministério Público. Ora, em nenhum momento Mendonça pediu para investigar Moraes ou conduziu inquérito. Apenas, tendo esbarrado em mensagens descobertas de modo fortuito, pediu que a PF, por meio de perícia técnica, descobrisse formalmente quem era o destinatário. Uma vez elucidada a dúvida, fez o que manda a lei: solicitou manifestação da PGR e informou a presidência do STF, levantando o sigilo diante do interesse público e pedindo exame presencial do plenário.

Sobre o vício e o lucro, por Eugênio Bucci

O Estado de S. Paulo

Só quem pode remediar um pouco a tirania viciosa do capital é a ordem democrática

O capital remunera o vício, jamais a virtude. Muita gente desconhece, e mais gente ainda insiste em desconhecer, mas é assim que é. Só quem pode remediar um pouco a tirania viciosa do capital é a ordem democrática.

A história nos dá provas disso. Foram as democracias nascentes que impuseram aos primeiros industriais, contra a vontade deles, os direitos trabalhistas. No século 19, em Londres, crianças trabalhavam em jornadas extenuantes dentro das fábricas insalubres como parte da normalidade. Não, não foi o capitalismo que assegurou as garantias mínimas de saúde e dignidade, mas a política. A ideia de justiça não faz tilintar a caixa registradora.