sexta-feira, 14 de agosto de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Tirar do ar lives do Discord foi medida desproporcional

Por O Globo

Suicídio induzido expôs omissão da plataforma, mas ANPD agiu de modo intempestivo para agradar Janja

A morte de uma menina de 13 anos na pequena Naviraí (MS) deu realidade aos piores temores dos pais de adolescentes. As investigações revelaram que ela foi induzida a se mutilar e ao suicídio por um grupo reunindo um jovem de 18 anos e cinco adolescentes durante transmissão ao vivo na plataforma Discord. Diferente de uma rede social convencional, o Discord oferece a possibilidade de abrir canais privados com ferramentas de comunicação por voz, vídeo, texto ou transmissões ao vivo (lives).

A repercussão do caso foi tão grande que a primeira-dama Janja Lula da Silva exigiu que o Discord fosse “imediatamente” retirado do ar. Menos de uma semana depois, a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) suspendeu as transmissões ao vivo e recursos de compartilhamento de vídeo da plataforma no Brasil.

Que eleitor é esse? Por José de Souza Martins*

Valor Econômico

O enrijecimento do eleitorado indica a impossibilidade de inovar na política

Quem é, de fato, o eleitor brasileiro desta quadra de anomalias políticas que é soma de várias “pequenas” ciladas propositais, semeadas ao longo dos anos que começam com o fim da ditadura militar, para impedir que eleitor seja de fato pessoa e cidadão?

“Só Deus sabe”, pretexto entre nós comum para dizer que não cabe a nós decidir. Nosso eleitor é a expressão de um republicanismo que foi criado aqui como mera forma externa de República “para inglês ver”, simular civilização e fazer de conta que não somos um país muito atrasado. Esse é lado aparente e forma da realidade política.

Por votos, Lula vai rugir contra bets e big techs, por Andrea Jubé

Valor Econômico

O pior dos mundos para o presidente será a volta da “taxa das blusinhas” a um mês do primeiro turno

É conhecida a admiração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva pelo ex-presidente Getúlio Vargas, por legados como os direitos trabalhistas e a Petrobras. Porém, atualmente, é o general Eurico Gaspar Dutra, sucessor do “pai dos pobres”, que provoca inveja no petista, porque, há 80 anos, com uma canetada, ele proibiu cassinos e jogos de azar no Brasil.

Conselheiros de Lula passaram a defender que ele faça o mesmo, assinando, ainda durante a campanha, uma medida provisória (MP) para proibir as bets no país. Em 1946, o instrumento de Dutra foi o “decreto-lei”, antecessor da MP.

O Centrão 'lulou'? Por Vera Magalhães

O Globo

Apoio de Hugo Motta e retomada de conversas com Alcolumbre mostram que caciques do Congresso enxergam chance maior de reeleição do petista

Às vésperas de voltar ao cenário onde tudo começou, na Vila Euclides, em São Bernardo, Lula passou a semana costurando em Brasília, com resultados que passam longe da vista do eleitor, mas podem ter efeitos importantes para o desenrolar da campanha. Num intervalo de poucos dias, obteve o apoio público do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), à sua reeleição e conseguiu conduzir uma reunião menos truncada e tensa com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP).

A adesão de Motta, com quem o Planalto viveu uma relação de altos e baixos desde fevereiro do ano passado, quando ele assumiu a Câmara, se explica por fatores da conjuntura política local, é verdade. Mas tem mais do que isso: um apoio explícito, logo na largada da campanha, por parte de um político que chegou a gravitar em torno do bolsonarismo demonstra aposta clara na reeleição do petista.

De volta para o futuro, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Desafio de presidenciáveis é atrair público para exibir força no início da campanha

A corrida presidencial vai começar em clima de déjà vu. Na largada oficial da campanha, Lula e Flávio Bolsonaro tentarão recriar cenas do passado. O presidente voltará a São Bernardo do Campo para relembrar as greves do ABC. O senador vai à Praia de Copacabana, onde espera reviver os tempos de glória do pai.

O ato de Lula foi batizado de “Onde tudo começou”. A ideia é lotar o estádio da Vila Euclides, palco das assembleias de metalúrgicos que o projetaram na cena nacional. Os marqueteiros querem recriar as imagens do líder no meio do povo, como se caminhasse sobre a multidão. Na versão original, ele discursou aboletado numa mesa de escritório. No remake deste domingo, poderá andar sobre uma passarela, como um astro da música pop.

Regulação de plataformas digitais não é banimento, por Pablo Ortellado

O Globo

O pedido da primeira-dama teve enorme repercussão e politizou a discussão sobre o Discord, que deveria ser tratada tecnicamente

Na quinta-feira da semana passada, Janja da Silva pediu o banimento do Discord pela morte de uma menina de 13 anos. O pedido da primeira-dama teve enorme repercussão e politizou um tema que deveria ser tratado tecnicamente, agora que temos um arcabouço regulatório moderno com o ECA Digital.

Parte da esquerda correu para apoiar o banimento — uma medida autoritária e completamente desproporcional —, enquanto parte da direita correu para denunciar o banimento como medida típica de autocracias e ditaduras. A medida cautelar da ANPD, que suspendeu temporariamente uma funcionalidade do Discord, foi técnica e proporcional, mas sua recepção foi contaminada pela gritaria da política. Sob a fumaça do fogo cruzado, foi difícil perceber que o Discord continua no ar, que a medida é reversível (se condições forem cumpridas) e que há mecanismo de recurso para a empresa. Mais importante: a ANPD poderia ter pedido ao Judiciário a suspensão do Discord e não pediu.

Uma defesa nacional de portões fechados, por Fernando Gabeira

O Estado de S. Paulo

A frase que deveria ser dita é esta: sim, temos condições de nos defender, desde que compreendamos a urgência e a amplitude dessa tarefa

Falar de defesa nacional como um indivíduo não especialista é um pouco de ousadia. No entanto, é democrático que um tema dessa dimensão possa ser discutido pelo maior número de gente possível.

Esta semana, recebi um artigo que escrevi em O Pasquim criticando, quem diria, o velho Tancredo Neves. Ele havia passado pela Itália e anunciado que na Presidência iria fortalecer a produção bélica no Brasil, que, naquela época, já rendia US$ 3 bilhões em exportações. Minha crítica baseava-se no fato de que o tema era muito restrito ao poder, não havia uma discussão pública sobre o tema. Mas era, também, uma discordância em relação à produção de armas para exportar. O mundo naquele momento parecia rumar para a paz, havia um maior respeito das leis e convenções internacionais.

Inquérito das fake news virou escudo, por Raquel Landim

O Estado de S. Paulo

Ocaso do jornalista maranhense Luís Pablo Conceição Almeida é um exemplo de como o inquérito das fake news está sendo utilizado para violar o sigilo da fonte e perseguir jornalistas que apontam supostas irregularidades de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).

Criminalistas e defensores da liberdade de imprensa ouvidos pela coluna apontam uma sequência de erros na condução do caso. O primeiro é a busca e apreensão do notebook e do celular do jornalista por suposto crime de perseguição por causa de publicação de reportagens que apontavam familiares do ministro Flávio Dino utilizando carros oficiais do governo do Maranhão e do Tribunal de Justiça do Estado.

Se a moda do Xandão pega..., por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Ao violar o sigilo da fonte, Moraes fez um favor a Flávio Dino e um desfavor à democracia

É inacreditável a insistência de ministros do Supremo para tentar confirmar as acusações equivocadas do governo Donald Trump de que Alexandre de Moraes, o STF e o próprio Brasil não são democráticos. Moraes não para de atrair chuvas e trovoadas contra si e contra um poder vital para a democracia que ele tanto defendeu.

A última do ministro foi excessiva e desnecessária: mandar vasculhar o repórter e a fonte da informação de que o também ministro Flávio Dino e sua família usam carro oficial e blindado do Estado quando estão no Maranhão. A fonte vazou e o repórter publicou dentro das regras e da rotina do jornalismo.

Inteligência artificial na educação, por Simon Schwartzman*

O Estado de S. Paulo

A depender de como ela é usada, a IA pode ajudar a melhorar os resultados e reduzir desigualdades não só no acesso às informações, mas também na aprendizagem

A professora passa um trabalho para casa, o aluno pede ao Claude ou outro programa de inteligência artificial (IA) que faça para ele, e entrega tudo certinho e bem feito. A professora desconfia, manda fazer um trabalho semelhante em sala de aula, e ele não consegue. Conclusão: com a inteligência artificial as pessoas podem até ficar mais espertas, mas ficam mais burras, aprendem menos. Certo?

Não necessariamente. Antigamente, para fazer multiplicações, era necessário saber de cor a tabuada, e, para números maiores, saber as regras de multiplicação por grade ou coluna. Hoje, com as calculadoras, quase ninguém mais decora tabuada e qualquer um consegue fazer as contas em segundos. Ficamos todos mais burros em aritmética ou ganhamos ao abandonar uma metodologia antiga e substituí-la por uma tecnologia moderna?

Quando o STF rompe os freios da Constituição num caso de polícia, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Fachin reconheceu que as ameaças devem ser apuradas, mas reafirmou que a liberdade de imprensa e o sigilo da fonte são direitos fundamentais

Em 30 de setembro de 1967, o jornalista, advogado e ativista político Othelino Nova Alves, redator do Jornal Pequeno, foi assassinado em plena Praça João Lisboa, no centro de São Luís. Fundado por José de Ribamar Bogéa, o jornal notabilizou-se pela oposição aos sucessivos governos maranhenses. Othelino denunciava injustiças, desigualdades e abusos das elites locais. Sua morte tornou-se símbolo dos riscos enfrentados por jornalistas no Maranhão.

Em abril de 2012, o jornalista Décio também Sá foi assassinado em São Luís. Suas reportagens investigavam um esquema de agiotagem e desvio de recursos de prefeituras. Em 2015, o blogueiro Ítalo Diniz, que publicava denúncias sobre políticos, foi morto em Governador Nunes Freire. Também se sucederam assassinatos de prefeitos, ex-prefeitos, vereadores e lideranças municipais.

Migrações massivas, por José Sarney*

Correio Braziliense

Assistimos, estarrecidos, ao desespero de 80 mil marroquinos que, enganados pelas falsas notícias de que a fronteira com Ceuta, fronteira da Europa com a África, estava aberta com a Espanha, se jogaram ao mar para fazer a travessia de 600 metros

Há cerca de 30 anos, ouvi uma declaração que, hoje, reconheço como uma autêntica profecia. Estava numa reunião do InterAction Council, fundação criada pelos japoneses e alemães para atuar, no tempo da Guerra Fria, como intermediadora de conflitos entre as grandes potências, formada por ex-chefes de Estado e de governo, com apenas 40 membros, entre os quais apenas dois da América Latina — eu e De la Madrid, do México.  Naquele encontro, realizado na cidade do México, ainda estavam vivos Fukuda, do Japão, grande estadista, muito influente no mundo àquele tempo; Gerald Ford, ex-presidente dos Estados Unidos; e Helmut Schmidt, ex-chanceler da Alemanha, cargo que corresponde ao de chefe de governo.

O momento do México e do Brasil, Roberto Velasco Álvarez *

Correio Braziliense

A dimensão de Brasil e México implica uma responsabilidade compartilhada diante dos desafios de nosso tempo: combater a pobreza, a desigualdade e as mudanças climáticas, defender a democracia e preservar o multilateralismo

Na manhã de 6 de agosto, reuni-me, em nome da presidenta Claudia Sheinbaum, com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Coincidimos em um ponto central: é momento de levar a colaboração entre nossos países a um novo nível. Nesse mesmo dia, realizou-se a sexta reunião da Comissão Binacional México-Brasil, três anos após a quinta, em um intervalo que transformou a ordem internacional.

O Brasil e o México são as duas maiores economias e as duas nações mais populosas da América Latina e do Caribe. Concentramos cerca de 60% do PIB regional, figuramos entre as 15 maiores economias do mundo e fazemos parte do G20. Essa dimensão implica responsabilidade compartilhada diante dos desafios de nosso tempo: combater a pobreza, a desigualdade e as mudanças climáticas, defender a democracia e preservar o multilateralismo.

Antipetismo visceral alimenta o servilismo a Donald Trump, por Marcos Augusto Gonçalves

Folha de S. Paulo

Simpatias de brasileiros ao americano concentram-se no bolsonarismo, mas não apenas

Viés ideológico embasa atitudes antinacionais e trânsfugas diante de ameaças ao Brasil

Embora possa causar algum espanto, parcela considerável de brasileiros vê com simpatia o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que vem atacando o país com tarifas comerciais disparatadas e pressões políticas com vistas a interferir nas eleições.

Os apoiadores mais despudorados filiam-se à direita truculenta bolsonarista. Mas há também, talvez mais velados, simpatizantes provenientes de setores liberais conservadores e defensores das pautas das big techs. Entre esses, gente que frequentou boas escolas, teve acesso a leituras e a situação econômica privilegiada. Atestam, em seu transfugismo, quão invertebrados podem ser certos representantes das elites brasileiras.

Crise Dilma nos lembra de que é preciso acordar antes da hora do pesadelo, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Governo ruim, política horrível e azares resultaram em ruína que assombra país até hoje

Clima e economia mundial podem dificultar ainda mais conserto econômico necessário

Dilma Rousseff deu muita chance para o azar que degradou ainda mais a situação econômica e política a partir de 2014. Seu governo foi desastroso, mas Dilma teve azar de enfrentar a campanha para sua deposição, que começou assim que foram fechadas as urnas. A gente é tentada a dizer que é difícil a repetição das condições desse desastre que nos assombra até hoje, na economia e na política. Mas um pouco de cheiro de queimado dá medo de incêndio.

As taxas de juros aumentaram nos EUA. São a torneira do capital do mundo, que pode nos causar sedes. Estão nos níveis mais altos em cerca de 20 anos no caso dos prazos mais longos. Não há perspectiva de alta descabelada, mas estão em alturas que dificultam um tanto mais a nossa vida quanto a câmbio e juros. Crescemos pouco em anos de ambiente externo favorável. E se a maré vira?

Caneladas constitucionais, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo  

Alexandre de Moraes agora investe contra liberdade de informação

Foro especial pereniza tensões entre o STF e os outros Poderes

Alexandre de Moraes fez de novo. Sua mais recente canelada institucional foi contra o princípio da liberdade de informação e de imprensa. Ao que tudo indica, ele permitiu que a PF usasse dados de telefone apreendido com um jornalista para descobrir quem lhe via de fonte de informações, violando um sigilo que tem guarida constitucional. Ainda que a fonte tenha cometido um delito ao fornecer informações, os policiais não poderiam ter chegado a ela usando o jornalista como atalho. A investigação teria de ter sido feita por outro caminho.

As contas fechadas dos partidos, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

O nanico PCO caiu na rede das investigações da Polícia Federal sobre uso indevido de dinheiro público

Falta agora passar um pente-fino nos gastos das grandes legendas com verbas dos fundos eleitoral e partidário

O nanico Partido da Causa Operária (PCO) caiu na rede da Polícia Federal. O presidente e figura constante em eleições presidenciais, Rui Costa Pimenta, foi alvo de busca e apreensão na operação Causa Própria, cujo nome não poderia ser mais adequado.

Quando deputados e senadores aprovam matérias do interesse da corporação dizemos que legislam em causa própria. É o que fazem os partidos com as verbas públicas destinadas à sua sustentação.

A pirâmide virou pião, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Em breve, o Brasil terá mais idosos acima de 60 anos do que jovens abaixo de 15

A diferença é que os países desenvolvidos enriqueceram antes de envelhecer

O Brasil, quem diria, ficou de cabeça para baixo. "A pirâmide virou um pião", afirmou na semana passada, em conferência na Academia Brasileira de Letras, a pneumologista Margareth Dalcolmo. Referia-se à diferença entre 1970, quando éramos uma sociedade com alta taxa de nascimento, com expectativa de vida de 54 anos, e hoje, "em que deixamos de ser uma sociedade jovem para uma envelhecida, com expectativa de vida de 78 anos".

Com qualquer presidente, Congresso terá a faca e o queijo, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Lula se aproxima do centrão, mas poderá ser traído amanhã

Principais pautas só serão destravadas no Senado após as eleições

Em seus últimos movimentos, Lula se aproximou dos chefes do Congresso e, ao mesmo tempo, aumentou o tom de crítica às emendas parlamentares, propondo mudanças em sua execução. Uma coisa não combina com a outra. A não ser na lógica particular das campanhas eleitorais.

Após quatro anos de estresse com o grupo de partidos fisiológicos que comanda a Câmara e o Senado, o Planalto conseguiu uma trégua. Fez arranjos para ter juntos no palanque governistas e integrantes do centrão e influiu na decisão do grupo de adotar a neutralidade em relação à corrida presidencial, isolando a candidatura bolsonarista.

A terceira via como escada, por Cláudio Carraly*

E como esta se tornou linha auxiliar da extrema-direita

Há um incômodo silencioso que percorre os eventos da centro-direita brasileira quando um nome da extrema-direita surge nas conversas de bastidor. Não é repulsa, é apenas um leve constrangimento. No dia a dia, esse doce constrangimento se dissolve em abraços, palcos compartilhados e uma sintonia de alvos que torna irrelevante qualquer diferença programática alegada. A terceira via, esse projeto político que em tese se apresentaria como alternativa tanto à esquerda quanto à direita irascível, tornou-se na prática linha auxiliar da extrema-direita.

O fenômeno não é brasileiro, mas aqui adquiriu contornos bem particulares. Na Europa, a dinâmica se deu principalmente por absorção programática; aqui, a terceira via optou por uma estratégia de fragmentação aparente: muitas candidaturas, os mesmos palcos, um único adversário real. O que está em curso não é uma disputa entre projetos de país. É uma divisão tática de trabalho político cujo efeito principal é deslocar, gradual e inexoravelmente, os limites do aceitável.

Poesia | Tudo quanto penso, de Fernando Pessoa

Música | Luiza Lara canta Chico Buarque- Oque será

 

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Violação de sigilo de fonte pela PF é inconstitucional

Por O Globo

Ao referendar abuso no Maranhão, Moraes afronta direito essencial para liberdade de imprensa e democracia

Há inconstitucionalidade flagrante na operação realizada pela Polícia Federal (PF) no Maranhão contra o ex-secretário de Segurança Raimundo Cutrim e o ex-secretário de Urbanismo de São Luís Diogo Lima. A operação, determinada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), a pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR) e da PF, investiga reportagens do blogueiro Luís Pablo acusando o ministro Flávio Dino, também do STF, de usar indevidamente carros oficiais do Tribunal de Justiça do Maranhão.

Para chegar aos alvos da investigação, a PF periciou equipamentos de Pablo apreendidos em março para verificar quem lhe havia passado informações. Ora, o sigilo de fontes jornalísticas é protegido textualmente no inciso XIV do artigo 5º da Constituição: “É assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional”.

Nas eleições, Trump deseja que o Brasil volte a ser quintal dos EUA, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Agora traduzida pelo slogan America First, a Casa Branca exuma a Doutrina Monroe: “A América para os americanos”, desde que “americanos” signifiquem os EUA

O Brasil é grande demais para virar marisco na briga entre os Estados Unidos, uma superpotência marítima, e a China, a grande potência continental emergente, que ameaça a hegemonia norte-americana e amplia sua influência na América Latina. Entretanto, o governo Lula pode não passar ileso pela guerra comercial, tecnológica e geopolítica entre as duas maiores economias do planeta.

O presidente Donald Trump sonha com uma volta ao passado, quando Washington podia tratar a América Latina como seu quintal e enquadrar aliados e adversários por meio de pressões econômicas, diplomáticas e militares. Agora traduzida pelo slogan America First, a Casa Branca exuma a Doutrina Monroe: “A América para os americanos”, desde que “americanos” signifiquem os EUA.

A nova face do eleitor brasileiro, por Murilo Medeiros*

Correio Braziliense

O retrato do eleitor brasileiro revela uma sociedade mais madura, mais escolarizada, mais conectada e menos presa a cartilhas ideológicas

A grande transformação desta eleição não está nos candidatos. Está no perfil do eleitor. O Brasil que irá às urnas em 2026 é diferente daquele que escolheu seus representantes há quatro anos. O eleitorado envelheceu, tornou-se mais escolarizado, ampliou a presença feminina, está mais conectado à internet, cresce em regiões historicamente menos valorizadas pela política nacional e demonstra uma independência cada vez maior em relação aos partidos. A sociedade avançou mais depressa do que a capacidade da política de compreender suas transformações.

Grandezas e misérias do Estado-engenheiro chinês, por Maria Hermínia Tavares

Folha de S. Paulo

Livro propõe uma explicação original para a ascensão econômica e aumento do prestígio da China

Fazendo obras, tirou da pobreza milhões de concidadãos e melhorou a vida nas grandes cidades

China é hoje mais bem avaliada que os Estados Unidos pelos habitantes de 30 de 36 países incluídos na "Pesquisa Global de Atitudes", conduzida anualmente pelo respeitado instituto americano Pew Research Center. E o líder chinês Xi Jinping inspira mais confiança aos entrevistados do que Donald Trump. É um resultado inédito. Reflete o enorme desgaste da imagem internacional dos EUA, produto da truculência com que a Casa Branca vem conduzindo a política exterior do país. Mas também atesta o crescimento do prestígio internacional da China graças à sua pujante ascensão econômica e à capacidade de ocupar posições na fronteira da inovação produtiva.

Mania da Bolsa do Brasil 'queridinho do mercado' murchou de novo, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Brasileiros querem juros, estrangeiros querem IA e economia é precária e instável

Em abril, propaganda ingênua ou marqueteira era de Ibovespa além de 200 mil pontos

O Brasil era o "queridinho do mercado" em abril, expressão cafona que resumia o fato de que parte da finança do mundo pingava dinheiro por aqui. Era o que aparecia em relatórios de bancões e em falações de brasileiros mais deslumbrados ou interessados que passavam pela reunião de primavera do FMI, naquele mês. O Ibovespa chegava então ao pico de 198 mil pontos e uns quebrados.

A mania murchou em junho. Em agosto, o índice baixou à casa dos 167 mil pontos, queda de uns 15%. O clichê da vez é que "o mercado" entrou no "modo eleição".

Flávio Bolsonaro embarcou no lobby das companhias aéreas, por Raphael Di Cunto

Folha de S. Paulo

Principal projeto relatado pelo senador em oito anos quase tirou direito do consumidor a indenização mais alta por problemas em viagens

Judicialização no setor aéreo é alta, mas representa só 1% dos custos, e redução de direitos do consumidor não baixará preço das passagens

Flávio Bolsonaro (PL) participou pouco das discussões legislativas no Senado. Em oito anos, teve dois projetos aprovados como coautor e menos de uma dúzia como relator. Um deles dá uma pista de para qual lado pende o 01.

Há dois anos, ele foi o responsável por negociar a nova Lei Geral do Turismo. As 19 páginas de alterações legislativas eram propícias aos acordos de bastidores típicos do Congresso: um lobby influente atua nos gabinetes, sugere mudanças técnicas indecifráveis no meio de um texto mais amplo, e a população só se dá conta quando já perdeu (mais) um direito.

Aspas em 'Lulinha' e 'Flávio', por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Certos nomes em que há algo de fake ou mal contado deveriam ser grafados entre aspas

'Lulinha' é usado para atingir Lula e 'Flávio' só existe porque é acoplado a Bolsonaro

Alexandra Moraes, ombudsman da Folhaperguntou neste domingo (5) por que Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente, é chamado pela imprensa e pela oposição de "Lulinha" se ninguém, íntimo ou não íntimo, o chama desse jeito. Ela mesma explicou: o tratamento surgiu na Folha há 20 anos, já numa história mal contada envolvendo dinheiro. Como o rapaz foi repetente no quesito, a oposição adotou o diminutivo, ideal para atingi-lo e ao seu pai. Mas, diz Alexandra, um apelido usado como arma política não deveria ser encampado pelo jornal.

A democracia precisa voltar a ser um projeto de futuro, por Rogério Sottili*

O Estado de S. Paulo

No mundo online ou offline, nenhuma democracia conseguirá enfrentar isoladamente um autoritarismo que opera globalmente

Encontros realizados por uma articulação global do campo progressista nos últimos meses, em Barcelona e no Uruguai, nos revelam que o crescimento das ameaças às democracias já não pode ser enfrentado exclusivamente dentro das fronteiras nacionais.

O avanço da extrema direita, a disseminação coordenada da desinformação, o enfraquecimento das instituições democráticas, a violência política e a captura dos espaços públicos por interesses econômicos e tecnológicos compõem hoje um cenário internacional de instabilidade persistente.

Esse cenário não se explica apenas pela força crescente do autoritarismo. Ele revela uma crise mais profunda das democracias contemporâneas, de pertencimento, representação e participação social.

Milhões de pessoas sentem que perderam capacidade de influência sobre os rumos de suas próprias sociedades e têm a percepção de que as decisões políticas são tomadas cada vez mais longe de suas vidas. Sentem que a democracia deixou de produzir uma perspectiva de futuro.

A nau sem rumo e o som das pedras, por William Waack

O Estado de S. Paulo

Ala relevante do STF e os presidentes das Casas Legislativas atuam neste momento para que Lula permaneça no poder. É mais do que uma aliança de conveniência para escapar de investigações. Trata-se de esforço para manter as coisas como elas estão.

Do ponto de vista institucional, existe uma pesada ameaça. O Supremo tem as armas para combater a hipertrofia do Congresso, hoje dominado por uma massa amorfa de parlamentares que, por meio de emendas, atuam em causa própria com dinheiro público. O Congresso tem as armas para combater a hipertrofia dos poderes do Supremo e seus instrumentos de exceção e, dependendo das eleições, poderia passar do rosnado para a mordida.

O cerco aos candidatos de mentira se fecha, por Carolina Brígido

O Estado de S. Paulo

TSE planeja barrar o uso de avatares em campanhas por considerar a prática ‘deepfake’

Diga adeus ao laranja e ao boneco de posto: a temporada é dos candidatos de mentira. Munida de inteligência artificial, a campanha de Flávio Bolsonaro recriou a imagem e a voz do pai dele para atrair eleitores. Enquanto isso, o Jair de verdade estava em prisão domiciliar, proibido de falar sobre política. Foi o primeiro cabo eleitoral virtual de 2026.

Em tese, o artifício pode ser usado não apenas para criar apoiadores, mas para aprimorar a imagem do próprio candidato. Não seria necessário refazer os dentes, substituir a calvície por implante capilar ou dar uma passadinha no cirurgião plástico na tentativa de conquistar mais votos. A IA cuidaria de tudo. E, de quebra, faria um discurso melhor que o do titular da foto na urna.

Até que se quebre o sigilo da decisão, fica a afronta, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Se há crime que justifique quebra de sigilo do jornalista, permanece trancado no sigilo da decisão

Quando a petição 16.418 não estiver mais sob segredo de justiça no Supremo Tribunal Federal, se conhecerão as razões que levaram o ministro Alexandre de Moraes a passar por cima da previsão constitucional que resguarda o sigilo da fonte jornalística. Só então se saberá se a quebra se enquadra ou não na condição para o sigilo expressa no artigo V da Constituição: “Quando necessário ao exercício profissional”.

Por enquanto, há o fato, a quebra de sigilo da fonte do jornalista maranhense Luís Pablo, e as circunstâncias que levaram a esta decisão. Contra o fato, se pronunciaram sete entidades, da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo à Sociedade Interamericana de Imprensa.

O público e o privado, por Merval Pereira

O Globo

Uma briga política do Maranhão, ou de qualquer estado brasileiro, não vale a nacionalização de uma crise institucional que revela o caráter autoritário da instituição que deveria zelar pelo cumprimento da Constituição.

A medida da decisão autoritária do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes de ordenar uma busca e apreensão na casa de um jornalista para descobrir a fonte da denúncia deste contra seu colega Flávio Dino é transformar um caso de política regional em crise institucional, afetando a liberdade de imprensa. O ponto de partida é simples: nenhuma autoridade tem o direito de apreender celulares e computadores de jornalistas com o objetivo de descobrir quem lhes deu uma determinada informação.

Se considera tão grave o fato a ponto de se mover rapidamente para defender Dino, o Judiciário tem o dever de investigar, mas não pode avançar sobre a liberdade de imprensa, não importa que o jornalista maranhense seja corrupto — como acusam — ou que Dino não tenha cometido nenhuma ilegalidade.

Alexandre de Moraes fragiliza democracia ao violar sigilo da fonte de jornalista, por Malu Gaspar

O Globo

A história das democracias modernas está repleta de escândalos derivados de apurações jornalísticas expondo o que os poderosos buscam esconder. Do mensalão ao petrolão, da Vaza-Jato à rachadinha de Flávio Bolsonaro ou às fraudes do Banco Master, todos esses casos fundamentais para a depuração das nossas instituições só andaram graças a fontes que nunca teriam colaborado se fossem obrigadas a se identificar. De tão central para o fortalecimento da democracia, o sigilo da fonte é garantido na Constituição como cláusula pétrea, que nem uma emenda constitucional pode alterar.

Banalizar sigilo é inovação perigosa, por Julia Duailibi

O Globo

Não revelar a fonte não é vantagem para jornalista. É garantia de que as informações chegarão à sociedade

O debate político atual atropela qualquer tentativa de ponderação. O STF tomou decisões recentes questionáveis e perigosas do ponto de vista da liberdade de expressão e do respeito ao sigilo constitucional da fonte. Algo que deveria ser considerado perigoso pela sociedade em geral — e por quem exerce a profissão de jornalista, em particular. A defesa intransigente dos ministros do STF, no entanto, levou a uma passada de pano constrangedora. Em nome da defesa da democracia, relativizam-se justamente marcos civilizatórios do regime democrático que nos protegem contra os autoritários de plantão.

A decisão recente do ministro Alexandre de Moraes, com base na quebra do sigilo da fonte de um jornalista do Maranhão, abre um precedente perigoso que não deve ser aplaudido, apesar dos serviços prestados por ele em defesa da democracia. Em março, Moraes autorizou busca e apreensão de dois celulares, um notebook e um pen drive do jornalista, suspeito de cometer crime de perseguição contra Flávio Dino — ele publicou na internet dados sobre a rotina do ministro e de sua família, alegando uso irregular de carros oficiais.

O risco do BRB é seu controlador, por Míriam Leitão

O Globo

O governo do DF empurra o problema para frente com medo do desgaste eleitoral. Enquanto isso, o banco vai se equilibrando

O governo do Distrito Federal é o único que pode proteger o BRB dos riscos que o cercam. Precisa fazer o que sempre se fez desde o século passado com instituições que entram no mesmo tipo de dificuldade, separar o banco bom e vender. O novo dono assumiria todas as obrigações, remuneraria o Distrito Federal, que iria absorver o banco ruim. Foi assim no Proer, foi assim em diversas crises bancárias internacionais. Porém, o que está acontecendo é o cenário mais temido. Há vencimentos pela frente e nenhuma solução apresentada pelo controlador.

Poesia | Navegar é preciso, viver não é preciso, de Fernando Pessoa

 

Música | Tom Jobim - Chega de Saudade

 

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

‘Bondade’ eleitoreira de Lula resulta em má gestão da dívida

Por O Globo

Estímulo à economia atingiu 1,1% do PIB no primeiro semestre, agravando endividamento público

As “bondades” eleitoreiras que o governo anunciou desde o ano passado já resultaram, só no primeiro semestre, em estímulo à economia de R$ 149 bilhões (ou 1,1% do PIB) na forma de empréstimos ou linhas de crédito. O valor, calculado pela consultoria BRCG a pedido da reportagem do GLOBO, representa quase tudo que o governo concedeu em medidas dessa natureza no ano passado.

Como o dinheiro é emprestado a taxas mais baixas do que as pagas pelo Tesouro ao captar recursos no mercado, a generosidade resulta em prejuízo aos cofres públicos. Além disso, o estímulo exerce pressão sobre a inflação, obrigando o Banco Central a manter os juros mais altos do que seria necessário em condições de equilíbrio — e forçando o governo a pagar ainda mais pelo dinheiro que toma emprestado. Tudo somado, a má gestão financeira deverá aumentar a dívida pública em 10 pontos percentuais do PIB ao longo dos quatro anos do atual mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.