domingo, 28 de junho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Rever isenções tributárias é imperioso

Por O Globo

É preciso extinguir o que não funciona para destinar benefícios a atividades com retorno comprovado

Faltando pouco mais de três meses para as eleições, governo e oposição fazem de tudo para fugir de temas fundamentais, mas impopulares. Nenhum candidato quer nem ouvir falar de reduzir isenções tributárias. Ninguém quer ser acusado de “prejudicar” algum setor ou “ameaçar” empregos em alguma região. Nem mesmo instaurar alguma política para avaliar a eficácia dos programas. Uma vez concedidos, isenções e benefícios têm permanecido doravante inalterados para sempre, e o país tem pagado custo cada vez mais alto.

Pelas contas do próprio governo, a renúncia fiscal da União equivale a 4,4% do PIB, embora a legislação tenha estabelecido um limite de 2%, há muitos anos desrespeitado. Graças à sanha inesgotável de grupos de interesse por toda sorte de isenção, essa proporção tem aumentado consistentemente desde 2011, quando estava ao redor de 3,5%. Considerando o desequilíbrio crônico das contas públicas brasileiras, abdicar de tanta receita — R$ 613 bilhões neste ano, ou 20% da arrecadação administrada pelo Fisco — não faz o menor sentido. A situação é ainda mais dramática por não haver avaliação sistemática dos benefícios, apesar dos movimentos nessa direção.

Usos e abusos do trumpismo, por Luiz Sérgio Henriques*

O Estado de S. Paulo

A face política do trumpismo se delineia numa reatualização da Doutrina Monroe mediante um ‘corolário’ intervencionista

Quem lê o excelente Leonardo Padura frequentemente encontra o elogio de uma vida menos assombrada pelos grandes dramas da História, reais ou supostos. O escritor cubano refere-se, acima de tudo, à situação intensamente sofrida pelos seus conterrâneos desde a criação do moderno mito revolucionário latino-americano, formado em torno da guerrilha dos idos dos anos 60. Para eles, tudo teve, ou ainda tem, imediata dimensão histórico-universal, quer congressos partidários ritualizados, quer eventos muito graves, como invasões frustradas e até uma catástrofe nuclear abortada no último momento.

Padura deseja a todos, não só aos que lhe são próximos, uma existência mais equilibrada entre o privado e o público, o cotidiano e a História. Não sabe o que acontecerá com seu país, constrangido como está entre a necessidade de amplas reformas internas e a agressiva pressão do grupo dirigente trumpista. Para este último, como se sabe, mudanças radicais são necessárias na ilha e, de resto, em toda a América Latina. O que Padura sabe com certeza é que entre tais mudanças não se conta a defesa ou a reconstrução da democracia, mas, antes, a disseminação de governos e coalizões de extrema direita promotores de um mercado sem regras. E pelo visto, respeitadas as devidas particularidades, daqui por diante todos compartilharemos sobressaltos comuns.

A ‘generosa oferta’ de Flávio a Trump, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Senador do PL vai aos EUA para discutir ‘business’ com Donald Trump

A mensagem de Marco Rubio para Flávio Bolsonaro foi cheia de recados subliminares, mais grave do que parecia à primeira vista e pode transformar a ida de Flávio ao país para uma audiência pública com o Escritório de Comércio, no dia 6, em mais um tiro no pé. Ou em mais uma peça de marketing, não para a campanha dele, mas para a de Lula.

O que importa é que Rubio agradeceu “a generosa oferta” de Flávio de, se eleito, montar uma equipe de transição exclusiva entre Brasil e EUA. Soa como uma hipoteca. Trump interfere a seu favor nas eleições e ele “paga”, depois, entregando os interesses e a independência do Brasil às conveniências dele.

Inflação desafia trunfo do emprego, por Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

Governo entra na campanha com emprego alto, mas inflação elevada

O governo fechou o primeiro semestre com uma notícia animadora – desemprego menor do que o de um ano antes – e uma preocupante, embora positiva – prévia da inflação mensal em queda, mas com taxa anual, 4,8%, ainda acima do teto da meta. Se a produção continuar em alta, mesmo com a expansão econômica perto de 2%, uma taxa medíocre para um país emergente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva poderá lucrar na busca pela reeleição. Falta saber como o governo reagirá se a alta de preços continuar superando com folga a meta oficial, 3% em 12 meses com tolerância de até 4,5%.

De Lacerda a Flávio, Washington ronda a política brasileira, Por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O mundo já não vive a Guerra Fria, o Brasil é uma democracia consolidada e as relações entre Brasília e Washington são marcadas por intensa interdependência econômica

Desde a crise que culminou no golpe militar de 1964, dificilmente um político brasileiro expôs de forma tão explícita sua interlocução com autoridades dos Estados Unidos durante uma disputa política interna quanto o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL). Entretanto, o circunstâncias históricas são distintas. O mundo já não vive a Guerra Fria, o Brasil é uma democracia consolidada e as relações entre Brasília e Washington são marcadas por intensa interdependência econômica. Ainda assim, os acontecimentos recentes recolocaram em debate a influência externa sobre os rumos da política brasileira.

O episódio ganhou dimensão eleitoral após a visita de Flávio a Washington. Ali, reuniu-se com integrantes do governo Donald Trump, incluindo o secretário de Estado Marco Rubio, o vice-presidente J.D. Vance e o próprio presidente norte-americano. O encontro antecedeu duas decisões relevantes: a classificação do Comando Vermelho (CV) e do Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas pelo governo dos EUA e a manutenção do processo que poderá resultar na imposição de tarifas de 25% sobre produtos brasileiros.

A fala de Michelle e seus reflexos, por Míriam Leitão

O Globo

Ela deixa claro que veio para ficar na política e pode se tornar plano B para o PL ou apoio para Flávio. Seja o que for, sai mais forte

A mensagem de Michelle Bolsonaro foi um ato de campanha, bem pensado e bem realizado. É um plano de contingência da extrema direita e de Jair Bolsonaro. O que falou, os símbolos da linguagem corporal, a caneta na mão, a edição de imagens de suporte, a leitura em tom de conversa revelam a minuciosa arquitetura de marketing político. Michelle é a melhor comunicadora da família e tem pontos reais de conexão com os evangélicos. Atrai também a atenção das mulheres, o eleitorado mais arredio ao bolsonarismo. A primeira reação de Flávio Bolsonaro foi a pior possível, a de menosprezo. Mulheres de qualquer lado político já sofreram atos semelhantes.

Farras, caronas e patacoadas, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Políticos seguem mesma cartilha: normalizar o anormal e atacar a investigação

O senador Jaques Wagner se diz indignado com a operação da Polícia Federal que expôs sua proximidade com Augusto Lima, sócio de Daniel Vorcaro. Em entrevista, o ex-governador da Bahia acusou os investigadores de armarem uma “patacoada” para prejudicá-lo. “Fica-se criminalizando qualquer tipo de relacionamento. Óbvio que de vez em quando eu pego carona. O que a polícia tem que comprovar, e não vai, é a relação de troca”, disse à Folha de S.Paulo.

O dito pelo não dito, por Merval Pereira

O Globo

A estratégia de trabalhar com um mundo falsamente compartilhado está na base das fake News.

Outro dia, em palestra da Academia Brasileira de Letras (ABL), o filólogo acadêmico Ricardo Cavaliere dissertou sobre a filosofia da linguagem que, no final do século XIX, na chamada “virada linguística”, definiu que nosso saber não está restrito aos domínios da mente, “pois o conteúdo cognitivo que acumulamos no decorrer da vida é moldado pela linguagem”. Os estudos da filosofia da linguagem destacam dois tipos de linguagem, baseados na “pressuposição” e na “implicatura”.

Sinal de alerta na Americanas, por Elio Gaspari

O Globo

Movimento da Polícia Federal indicam que pode estar sendo reaberto o caso da fraude praticada na empresa

A ida da Polícia Federal aos marqueses da rede varejista Americanas, bem como o bloqueio de até R$ 54 bilhões de seus bens, indicam que pode estar sendo reaberto o caso da fraude praticada na empresa.

Quando os holofotes estavam voltados para a rede e a empresa era vista como “terra arrasada”, um banqueiro chamado Daniel Vorcaro armava sua rede de notáveis para salvar seu banco. Organizava farofas com hierarcas e festas com jovens eslavas.

A sabedoria convencional ensina que o escândalo seguinte abafa a roubalheira anterior. Nesse caso, o banco Master abafaria o caso da Americanas. A ação da PF desmentiu essa urucubaca.

Surfando na Copa, por Dorrit Harazim

O Globo

Enquanto não entrega as mercadorias que o elegeram, o prefeito de Nova York vai surfando nas ondas da sorte no esporte

Para o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, a semana passada foi uma goleada de sabor duplo. Pegou todo mundo de surpresa, a começar pelo próprio alcaide. Começou na terça-feira, com eleições primárias de seu Partido Democrata para saber quem disputará as legislativas de novembro próximo. E terminou com a vitória do Equador sobre a Alemanha, que ele teve o faro político de saudar muito antes de o jogo começar.

Michelle contra Flávio, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Ex-primeira-dama diz que senador a humilhou com rispidez e fez alianças com quem chamou a família de ladrões

Ao dizer que só age com concordância do marido, Michelle sugere que Flávio também desautoriza Jair

Depois do irmão Vorcaro, agora é a vez da madrasta Michelle atrapalhar a vida de Flávio Bolsonaro.

Michelle Bolsonaro gravou um vídeo dizendo que Flávio Bolsonaro a apunhalou pelas costas, a humilhou com sua rispidez e faz alianças com que já chamou ele e seu pai de ladrão e de nazista. Também protestou contra a exclusão de mulheres das chapas bolsonaristas para o Senado esse ano: Priscila Costa, preterida no Ceará depois da aliança com Ciro Gomes, e Carol de Toni, que perdeu a vaga de candidata ao Senado pelo PL em Santa Catarina para Carlos Bolsonaro. Ao dizer, repetidas vezes, que só agia em concordância com o marido, Michelle sugeriu fortemente que, quando Flávio a desautorizava, desautorizava Jair. Afinal, se ela só repete o que Jair diz, o vídeo de quarta-feira também deve ter sido feito com a bênção de Bolsonaro.

O barraco de Michelle e o rolo Master de Wagner contam como o país funciona, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

No meio do sururu dos Bolsonaro pode se ver um plano novo para a direita extrema no Brasil

Caso Vorcaro explicita podres do STF, da finança, da política e da operação real do poder

Um assunto político da semana foi o vídeo de Michelle Bolsonaro, que armou salseiro novo na extrema direita. Pode ter relevância nesta eleição apertada, pois ameaça tirar votos de Flávio Bolsonaro. Além do mais, Michelle pode vir a ter posição política maior do que já tem por causa de seu status na família irreal dos Bolsonaro e de seu apelo de palco gospel. Tem presença virtual eficaz e militância real.

Que figura nacional viaja pelo país a organizar células de base, de resto com mulheres, com um comitê político de comando majoritariamente feminino? Que lideranças nacionais de esquerda, que quase inexistem, têm tamanha organização digital e agregam militantes no chão de fábrica político? Mesmo quem não gosta do que diz Michelle deveria prestar atenção ao que ela faz, um plano de entrincheirar a direita. A querela de Michelle com os Bolsonaro é "pop", porém, por misturar fofoca, novela, barraco familiar, BBB e pinimba de influenciadores, paixões nacionais.

Um destino tão funesto, por Muniz Sodré*

Folha de S. Paulo

Episódio chocante na ponte do Esqueleto, em Limeira (SP), provoca reflexão

Detrás de uma aberração individual pode haver uma microestrutura, que funciona pela obliteração despercebida da razão e da atenção, normalizando o anormal

Há algo de funesto, isto é, de mau augúrio e desastroso, no incidente da ponte do Esqueleto em Limeira (SP), quando três homens assistidos por um técnico levantaram nos braços uma jovem para lançá-la "em aviãozinho" do alto de 40 metros. Seria uma experiência de rope jump, em que grossas cordas sustentam a pessoa no ar. Só que, contra toda a razão, esqueceram de amarrar as cordas. "Horribile visu", medonho de contemplar, o chocante episódio provoca uma reflexão.

Fugindo para a fronteira, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Antigamente, os bandidos americanos vinham se refugiar na South America, leia-se o Rio

Hoje é o contrário; nossos bandidos escapam da lei brasileira e se refugiam nos EUA

cinema americano clássico tinha uma fórmula infalível para evitar que seus vilões mais simpáticos fossem presos no fim do filme e pagassem por seus crimes. Era só filmá-los atravessando um marco —a fronteira— onde se via, ao lado de um pujante cacto e de um sujeito roncando sob um sombrero, uma placa dizendo "México". Ou seja, passando para o lado de lá, não apenas os bandidos americanos se viam livres da Justiça como se refugiavam num país habituado a abrigar bandoleiros e que os tratava muito bem. Os mexicanos, como é natural, se magoavam com aquilo.

A Etimologia ensina, por Ivan Alves Filho*

Tenho vivido momentos de muita alegria com o convite feito pelo ator e dramaturgo Deo Garcez de adaptar para os palcos o meu livro Memorial dos Palmares, hoje em sua quarta edição. E como se isso não bastasse, o documentarista José Carlos Asbeg vai registrar, em filme, todo esse processo de montagem da peça. Só posso me sentir honrado com isso. Para quem começou a estudar Palmares no ano de 1975, nada poderia ser mais gratificante. Nunca é demais lembrar que o Quilombo alagoano materializa a maior revolta contra a escravidão na América Latina, e talvez em todo o mundo. Recordar a epopeia palmarina é reconhecer o apelo da dignidade e da liberdade na formação do Brasil e, também, em nossas vidas cotidianas. 

Poesia | Pedro Ivo, de Castro Alves

 

Música | Lamento sertanejo - Gilberto Gil e Dominguinhos

 

sábado, 27 de junho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Tragédia na Venezuela impõe solidariedade

Por O Globo

Brasil e comunidade internacional devem prestar todo tipo de ajuda neste momento de apreensão e dor

Um Embraer KC-390 Millennium da Força Aérea Brasileira decolou nesta sexta-feira de Guarulhos (SP) com destino à Venezuela, transportando equipes especializadas e 9 toneladas de equipamentos para auxiliar em buscas e em cuidados com as vítimas dos dois terremotos que transformaram o norte do país num cenário de devastação e morte. Outro voo, previsto para hoje, transportará um hospital de campanha e medicamentos. O governo brasileiro e a comunidade internacional devem prestar todo tipo de ajuda para socorrer os venezuelanos neste momento de apreensão e dor. É hora de apoio e solidariedade não apenas de governos, mas também da população.

As vítimas fatais têm sido contadas às centenas (incluindo brasileiros), mas parece evidente que há muito mais gente sob os escombros. São mais de 50 mil os desaparecidos. O Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) estima haver 27% de chance de o total de mortos ficar entre mil e 10 mil, e 44% entre mais de 10 mil e 100 mil. As próximas horas e dias serão uma corrida contra o tempo para identificar quem precisa ser resgatado e tentar salvar o maior número de vidas possível. Há feridos à espera de ajuda e um longo trabalho de reconstrução. Após o resgate, será hora de tentar reparar prejuízos estimados entre 2% e 10% do PIB venezuelano, cerca de US$ 111 bilhões.

O centro progressista precisa se radicalizar, por Fareed Zakaria

O Estado de S. Paulo

Centro não pode ser só o ponto médio entre direita e esquerda, mas deve ser revolucionário à sua maneira

Dois eventos recentes, em lados opostos do Atlântico, apontam para o mesmo problema. No Reino Unido, o homem que, segundo as expectativas gerais, deve substituir o imponente Keir Starmer como primeiro-ministro é Andy Burnham, que defende o “socialismo favorável aos negócios” como seu credo. Em Nova York, as eleições primárias democratas resultaram em vitórias impressionantes para os socialistas, sugerindo que a esquerda insurgente encontrou uma maneira de transformar o protesto em poder.

Primeiro, uma ressalva: a esquerda não está caminhando de maneira uniforme em direção ao socialismo. Muitas primárias fora da cidade de Nova York foram vencidas por democratas moderados. Em um distrito nos arredores da cidade, a veterana de guerra Cait Conley venceu com facilidade. Mas um certo tipo de progressismo está perdendo força, confiança e conexão com as pessoas que afirma representar.

A Copa superlativa, por Marco Aurélio Nogueira*

O Estado de S. Paulo

A Copa expressa bem a mundialização do esporte mais popular do planeta. Está radicalmente mercantilizada. É uma máquina de fazer dinheiro

A Fifa conseguiu organizar uma Copa do Mundo com números extravagantes: 48 seleções, 1.248 atletas de diferentes credos, etnias e culturas, estádios gigantescos espalhados pelos Estados Unidos, México e Canadá. Consta que a Fifa projeta faturar US$ 8,9 bilhões, tornando a Copa de 2026 a mais lucrativa da história do torneio. Em direitos de transmissão serão US$ 3,9 bilhões. Com ingressos e hospitalidade, outros US$ 3,12 bilhões. Patrocínios e marketing, mais US$ 1,8 bilhão. Com as pausas para hidratação virão US$ 500 milhões em receitas de publicidade.

A guerra e o Direito, por Celso Lafer*

O Estado de S. Paulo

Tréguas são o primeiro passo para a cessação das hostilidades. Elas suspendem as calamidades, mas não trazem o fim do estado de guerra

Apalavra guerra provém do germânico werra. Tem a acepção de discórdia, combate. A palavra paz origina-se do latim pax, substantivo cuja desinência é pactus donde os pactos celebrados entre os beligerantes para fazer cessar o estado de guerra.

A etimologia explica e explicita a dialética de complementariedade do entrelaçamento da dicotomia paz/guerra. Neste inter-relacionamento, como destaca Bobbio, a guerra é termo forte, pois a paz é usualmente definida como ausência de guerra. A persistência da alternância paz/guerra faz da guerra, como aponta Aron, a situação-limite das relações internacionais. As guerras atuais na Ucrânia e no Oriente Médio patenteiam esta avaliação.

Bolsonaros se superam na autossabotagem, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Membros do clã fazem ações que com frequência vão contra seus próprios interesses

Vídeo de Michelle, ainda que possa beneficiá-la, prejudica candidatura da família à Presidência

Já é proverbial a capacidade dos Bolsonaros de sabotar a si mesmos.

Jair, o "pater familias", antecipou a própria prisão ao, por alegada curiosidade, pocar a tornozeleira eletrônica que usava como alternativa menos gravosa ao encarceramento. Poderá agora perder o benefício da domiciliar humanitária porque resolveu mandar consertar uma arma da qual, na condição de presidiário, nem deveria ter posse. Recuando um pouco mais no tempo, vale lembrar que foi o próprio Planalto que providenciou a filmagem da reunião ministerial de 22 de abril de 2020, a qual, ao escancarar a verdadeira natureza do governo Bolsonaro, marcou o início do ocaso da administração.

Lula confia na vitória de Paes e dá presente ao Rio, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Com a adesão ao Propag, estado afasta o risco de um colapso fiscal

Redução da parcela mensal da dívida vai de R$ 436 milhões para R$ 119 milhões

Com a adesão ao Propag, o Rio de Janeiro afasta o risco de um colapso fiscal. A redução no valor da prestação da dívida com a União é um presente para o estado que nos últimos anos gastou sem limite. O pacto com o governo Lula determina a queda imediata da parcela mensal de R$ 436 milhões para R$ 119 milhões. A ver se o futuro governador —o favorito nas pesquisas é Eduardo Paes— conseguirá reduzir as despesas. E não se endividar, à espera de novo alívio.

Com que dinheiro a promessa será cumprida? Por Bruno Dantas*

O Globo

Toda lei que cria ou amplia uma despesa obrigatória deve dizer de onde sairá o dinheiro

O Supremo Tribunal Federal estuda uma súmula vinculante para exigir que toda lei de aumento de despesa indique sua fonte de custeio. Portanto, uma pergunta se tornaria obrigatória a partir de então: com que dinheiro a promessa será cumprida?

Enquanto essa fica sem resposta, a promessa tem o brilho da generosidade. Respondida com franqueza, revela seu preço e, por vezes, uma conta que se transfere em silêncio aos brasileiros de amanhã. O impulso é universal. James M. Buchanan Jr., prêmio nobel de Economia de 1986, mostrou que a democracia, sem amarras, tende a gastar mais do que arrecada, porque o gasto rende votos, e somente regras duradouras corrigem esse viés.

O choque Ricardo Couto no Rio, por Marlon Cecilio de Souza*

O Globo

Se a agenda de reorganização for mantida, estado poderá iniciar um novo ciclo administrativo sem parte das pesadas heranças

Há momentos em que um governo parece condenado a apenas administrar a decadência. O Rio de Janeiro viveu boa parte das últimas décadas sob essa sensação. Crises fiscais, sucessivos escândalos políticos, estruturas administrativas inchadas, disputas de poder e uma população cada vez mais descrente na capacidade do Estado de entregar resultados. Por isso, a passagem de Ricardo Couto pelo Palácio Guanabara tem provocado algo raro: um choque de gestão que muitos classificam como surpreendentemente “apolítico”.

Cabo Verde, ‘nha cretcheu’, por Eduardo Affonso

O Globo

Não sou o único a torcer por aquilo que poucos esportes, além do futebol, ousam proporcionar: a chance de vitória do mais fraco

Copa do Mundo não é bem um evento destinado a quitar dívida histórica, fazer o acerto de contas entre colonizadores e colonizados ou reencenar, catarticamente, a vitória de Davi sobre Golias. Mas percebo que não sou o único a torcer por aquilo que poucos esportes, além do futebol, ousam proporcionar: a possibilidade de vitória do mais fraco.

Basta sair a lista das seleções classificadas, e já começo a embandeirar o coração com as cores de países onde nem imaginava haver estádios, gandulas, finta e catimba. Em 2026, os candidatos naturais seriam Curaçao e Haiti, mas como resistir a Cabo Verde, em sua estreia na competição?

O fim do sonho, por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

O parlamento cubano aprovou o maior pacote de reformas econômicas desde que Fidel Castro tomou o poder, em 1959. O sonho libertário que varreu a América Latina virou utopia

Caiu um muro ideológico na América Latina. As repercussões foram discretas, ninguém comemorou, nem chorou, mas o forte simbolismo da revolução cubana no imaginário político do continente virou passado, lembrança e história. O parlamento reunido em Havana, no início deste mês, aprovou o maior pacote de reformas econômicas desde que Fidel Castro tomou o poder, em 1959. Foram 176 medidas destinadas a enfrentar a grave crise econômica do país, marcada por escassez de produtos, apagões, inflação e queda da produção. 

Michelle Bolsonaro e o peso do voto feminino, por Juliana Diniz*

O Povo (CE)

Preterida em muitas decisões, a ex-primeira-dama tem encontrado dificuldades para emplacar os nomes ao senado construídos a partir da mobilização do PL Mulher. No Ceará, essa dificuldade é bastante visível: o nome de Priscila Costa, preferido de Michelle, disputa com Alcides Fernandes o espaço na chapa

Tenho insistido na importância estratégica de Michelle Bolsonaro nas eleições presidenciais deste ano. Ao contrário dos filhos do ex-presidente, a ex-primeira-dama foi capaz de construir uma imagem pública consistente, justamente pela coerência entre suas movimentações e o discurso conservador que o bolsonarismo proclama. Menos pragmática e mais ideológica, Michelle tem sido capaz de manter um capital político valioso em uma eleição que será decidida voto a voto.

O vídeo publicado em suas redes sociais poucas horas antes do último jogo do Brasil prova que a ex-primeira-dama não só tem muita consciência de seu papel, como está disposta a disputar publicamente a liderança da extrema-direita. A peça, preparada com cuidado, mostra uma Michelle magoada com o tratamento reservado a ela pelos enteados, e expõe o racha interno que marca o movimento bolsonarista desde que Jair Bolsonaro foi preso e se retirou da cena pública.

O Dilema da Esquerda: Entre a Gestão do Estado e a Ascensão da Ultradireita, por Altamir Petersen*

Uma grande dúvida paira sobre a esquerda contemporânea: até que ponto o avanço da ultradireita é alimentado pela moderação excessiva dos governos progressistas e pela consequente frustração de suas bases? Uma análise político-econômica dos governos de esquerda na América Latina pós-2002 demonstra que essa hipótese causal não pode ser descartada. O fortalecimento da extrema-direita no Brasil, as oscilações políticas no Chile, Peru e Colômbia, a iminente crise do modelo cubano e a própria vulnerabilidade do chavismo bolivariano diante de pressões geopolíticas externas acendem o alerta nos grupos progressistas.

O maior espetáculo da terra, por Sérgio C. Buarque*

Revista Será?  

“Cesse tudo o que a Musa antiga canta, que outro valor mais alto se alevanta”: a Copa do Mundo de Futebol. Com licença de Camões, a Copa do Mundo é este poder mais alto que quase para tudo, deveria parar a guerra da Ucrânia, a desastrosa insensatez de Donald Trump e os desmantelos da política brasileira. Durante um mês, as atenções de bilhões de pessoas se voltam para o maior espetáculo da terra, acompanhando com grande emoção a disputa de 48 seleções nacionais pela glória. O futebol reúne emoção e prazer estético, ao que se agrega sentimento nacional quando se trata da Copa do Mundo.

Luzes Tenebrosas, por Elimar Nascimento*

Revista Será?

Ideias estapafúrdias sempre existiram. Em geral, de vida restrita e curta. Assombram, porém, quando ganham relevância, adesões e capacidade de influência. É o caso da corrente político-ideológica denominada por seus próprios autores de neorreacionária.

Descrever e analisar essa corrente é o objeto do livro Lumières Sombres: Comprendre la pensée néoréactionnaire, de Arnaud Miranda, jovem cientista político francês, publicado este ano pela Gallimard. O livro é interessante pela sistematização das informações e valor das reflexões, além do enquadramento dessa corrente político-ideológica na história do pensamento político ocidental.

As ideias dos neorreacionários, segundo o autor, podem ser assim resumidas:

Falta identidade entre eleitores e eleitos, Marcus Pestana

No último artigo, partimos da informação da última pesquisa do Instituto Ideia, 75% dos eleitores brasileiros não sabem sequer citar o nome do deputado(a) em quem votou em 2022, para identificar o quanto o sistema eleitoral impede a proximidade entre representantes e representados e o necessário controle social sobre os mandatos.

Vamos usar Minas Gerais como exemplo. Como o eleitor pode produzir uma decisão de qualidade se tem pela frente 1.100 candidatos a deputado federal, em um território do tamanho da França ou da Espanha, espalhados pelos 30 partidos existentes, a maioria sem forte conteúdo programático? O voto é na pessoa, mas a conquista da cadeira é partidária. Não entendendo o que é quociente eleitoral e o sistema de cálculo, estranhando não irem os mais votados, tendo tido contato mínimo com no máximo 10 entre os 1100 candidatos, não conseguindo comparar e votar com qualidade, o eleitor se vinga esquecendo o nome do seu escolhido e desencorando a base do sistema representativo.

Racha familiar exposto por Michelle pode ameaçar candidatura de Flávio Bolsonaro, por José Benedito da Silva

Revista Veja

Em ataques ao senador, ex-primeira-dama exibe publicamente as desavenças do clã em meio a uma acirrada corrida eleitoral

Um dos líderes religiosos mais próximos à família Bolsonaro, Silas Malafaia, líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, deixou de lado, no início da quarta-feira 24, a eloquência com que é conhecido. Aos que o procuraram para comentar o mais quente assunto político do momento, ele respondia com as seguintes frases, baseadas em trechos bíblicos: “casa dividida contra si mesmo não subsistirá” e “até o tolo, estando calado, é tido por sábio”. Dessa forma cautelosa, mas dizendo tudo de forma cifrada, o pastor se referia ao novo e mais explosivo imbróglio envolvendo o clã Bolsonaro. Em dois vídeos que somam 27 minutos, a ex-­primeira-dama Michelle Bolsonaro realizou uma grande lavagem de roupa suja em público, que levou tensão à campanha de Flávio Bolsonaro (PL).

O vídeo vinha sendo planejado há alguns dias. O estopim foi a entrevista de Ciro Gomes à seção Páginas Amarelas, de VEJA, na última edição, em que o ex-governador diz que, apesar de ter construído uma aliança com o PL para sua campanha ao governo do Ceará, não iria apoiar nenhum candidato a presidente da República porque Bolsonaro e Lula “são iguais”. A resposta da ex-primeira-dama veio na própria segunda-feira, 22, em forma de anúncio. “Já gravei um vídeo explicando o que aconteceu no Ceará. Vou publicá-lo em breve”, postou em todas as suas redes sociais, ao lado da imagem da entrevista de Ciro à revista.

A expulsão do capital produtivo, por Murillo de Aragão

Revista Veja

Software institucional do país favorece o rentismo e cria paradoxo

O Brasil vive um paradoxo. Em 2025, consolidou-se como o terceiro maior receptor mundial de investimento estrangeiro direto, com 77 bilhões de dólares, alta de 23% sobre o ano anterior. A participação estrangeira na B3 alcançou níveis recordes. À primeira vista, são indicadores de uma economia atrativa. Ao mesmo tempo, mais de duzentas empresas levaram parte de sua produção para o Paraguai — 70% das maquiladoras paraguaias pertencem a brasileiros. Têxteis, calçados, autopeças, metalurgia, plásticos, eletrônicos e, mais recentemente, a agroindústria passaram a produzir do outro lado da fronteira. O investimento produtivo sai; os produtos retornam.

O abraço de urso de Jaques Wagner, por Maria Inês Nassif

CartaCapital

O grande amigo de Lula tornou-se um problemão e os votos perdidos valerão muito no segundo turno das eleições 

O abraço de urso é muito forte e a força nele depositada pode ser interpretada como um gesto de afeto extremo. No uso comum, todavia, a expressão pode ser traduzida como uma amizade que sufoca, machuca e pode destruir o amigo desavisado. Nas lutas corpo a corpo, significa uma posição de controle ou domínio sobre o oponente. Qualquer que seja o uso que se dê ao termo, ou da conclusão das investigações da Polícia Federal sobre o suposto envolvimento do líder do governo no Senado, Jaques Wagner, com o escândalo Master, o fato é que a amizade de mais de 40 anos entre ele e o presidente da República envolve Lula em um abraço de urso. Mesmo se, no futuro, Wagner vier a ser inocentado das graves acusações, hoje o senador baiano tornou-se um problemão. E é agora, não num futuro em que eventualmente o senador seja inocentado, que está em jogo a disputa de um último mandato presidencial para Lula, cuja vitória é fundamental para bloquear­ o acesso da extrema-direita ao poder.

Medo de ganhar e vontade de fazer, por Luiz Gonzaga Belluzzo e Manfred Back

CartaCapital

Ajuste, ajuste e mais ajuste é o lema que infesta o espírito dos fanáticos da busca do equilíbrio

O grande técnico de futebol Vanderlei Luxemburgo montou times goleadores, craques da bola. Cunhou um famoso mantra: “O medo de perder tira a vontade de ganhar”.

Na tribo dos economistas, prevalece a convicção de que “com menos dá mais”, o mantra diário que inocula nas veias e no inconsciente coletivo: o medo de ganhar tira a vontade de fazer.

Ajuste, ajuste e mais ajuste é o lema que infesta o espírito dos fanáticos que repetem: a economia monetária-financeira capitalista deve buscar o equilíbrio. O equilíbrio acima de tudo. Na contramão dessa crença, temos a impressão de que as experiências do capitalismo ao longo de todos os tempos revelam a existência de uma dinâmica amparada nos movimentos do circuito monetário-financeiro. Movimentos que supõem a alternância entre estabilidade e instabilidade. Nada de equilíbrio.

O fim da onda rosa, por Aldo Fornazieri

CartaCapital

Consolida-se o avanço da extrema-direita na América Latina

O início do século XXI foi marcado pela ascensão de vários governos progressistas em países da América Latina. Foi a chamada “onda rosa”, caracterizando as tendências ideológicas de esquerda desses governos. Hugo Chávez, Lula, Néstor ­Kirchner, ­Tabaré Vasquez e Pepe Mujica e Evo ­Morales foram os principais expoentes desse processo. Em 2011, quase todo o mapa da América do Sul era vermelho. A onda rosa se fortaleceu na esteira da terra arrasada social provocada pelo neoliberalismo. Foi marcada por programas de crescimento econômico, combate à pobreza e inclusão social. O boom das commodities lastreou a sustentação das políticas dos governos progressistas. Mas, nas crises financeiras de 2008 a 2012, surgiram os primeiros sinais de problemas de sustentação do modelo.

O quintal europeu de Trump, por Jamil Chade

CartaCapital 

Os Estados Unidos minam a União Europeia e apostam em um continente fragmentado e submisso 

Dois líderes europeus de países aliados dos EUA acabam de descobrir que, para Donald Trump, não há qualquer limite à ingerência em assuntos soberanos de outros governos. Georgia Meloni, primeira-ministra da Itália e representante de um movimento ultraconservador, foi obrigada a ir às redes sociais para rebater uma provocação por parte do republicano. Segundo ele, a italiana teria mendigado por uma foto ao seu lado e tentado se aproveitar de sua imagem. Meloni respondeu com vigor e fez uma pergunta: por qual motivo o líder dos EUA faz isso com seus próprios aliados? A pergunta é a que todos se fazem na Europa.

Poesia | Te amo , de Pablo Neruda

 

Música | Beth Carvalho - Samba do Avião