quarta-feira, 6 de maio de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Inflação da guerra e da comida precisa ser enfrentada

Por Folha de S. Paulo

Altas dos preços de combustíveis e alimentos geram efeitos sobre custos de outros setores da economia

Margem estreita para redução da Selic cria panorama inóspito, mas chancelar um patamar inflacionário elevado prejudicaria os mais pobres

As expectativas para a inflação deste ano sobem há oito semanas, em razão do impacto da guerra no Oriente Médio sobre os preços do petróleo e de seus derivados. De março para cá, segundo pesquisas do Banco Central, a projeção mediana se elevou de 3,91% para 4,89%, já acima do teto oficial —meta de 3% com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual.

Mudança na expectativa de poder alerta aliados de Lula, por Fernando Exman

Valor Econômico

Próxima indicação para o STF terá que ser dialogada com o Senado, ainda que a ficha tenha voltado para as mãos de Lula

Um “choque de realidade” com consequências ainda imprevisíveis. Assim é classificado, nos bastidores do governo, o episódio que culminou na rejeição da indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, para o Supremo Tribunal Federal (STF).

As pontes do Palácio do Planalto com o STF e a cúpula do Senado não serão mais as mesmas. As bases dessas relações foram rachadas.

Também ficou a percepção, para interlocutores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que o palanque do petista em Minas Gerais pode estar sendo erguido sobre areia movediça e algo precisa ser feito. O Estado é o segundo maior colégio eleitoral brasileiro, território fundamental para quem quer vencer uma eleição presidencial. Mas, sobretudo, o que mais pesa nas avaliações de alguns interlocutores de Lula é o fato de o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que arrancou nas pesquisas de intenção de voto e transformou-se num incômodo adversário antes do que se esperava, sair com um importante troféu desta etapa preliminar da campanha.

Trump, tarifaço e a nova lei das terras raras, por Lu Aiko Otta


Valor Econômico

Encontro com presidente americano será uma oportunidade para Lula fazer funcionar sua química

Aguardada pelo lado brasileiro para esta quinta-feira, depois de haver ficado em suspenso durante semanas por causa da guerra no Irã, a reunião do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o mandatário dos Estados Unidos, Donald Trump, ocorre sob sombra de um possível novo tarifaço, por causa de supostas práticas desleais do Brasil, em temas que vão de Pix a desmatamento. O Brasil é investigado com base na Seção 301 da Lei do Comércio, o que pode resultar em tarifas adicionais.

Por outro lado, Lula tem em mãos o trunfo das terras raras, que são no momento o maior ponto de interesse dos Estados Unidos no Brasil.

Escravidão, trabalho e atraso, por Tiago Cavalcanti*

Valor Econômico

A inovação tecnológica não é neutra e pode ser direcionada para contornar restrições de fatores produtivos

História econômica é um campo de pesquisa fascinante. Um aspecto importante da minha formação como economista sempre foi o seu estudo, seja nas disciplinas da graduação e do doutorado, seja nas minhas horas de lazer. Há uma discussão sobre a redução do número de cadeiras obrigatórias no curso de economia da Universidade de Cambridge. Sou totalmente contra.

Na graduação na UFPE, tive ótimos cursos sobre a formação econômica do Brasil e do Nordeste com o professor Policarmo Lima. O livro que estudei sobre o Nordeste foi escrito pelo meu sogro, o professor Leonardo Guimarães Neto. A obra tem uma bela capa, com a foto de uma fazenda com escravos, provavelmente na zona da mata pernambucana. Em um contexto de forte interesse pelas raízes do atraso econômico regional, influenciado por trabalhos de Celso Furtado, como o documento GTDN de políticas públicas para o desenvolvimento regional, Leonardo Guimarães Neto analisa a trajetória do Nordeste, enfatizando suas relações comerciais com o mundo e com o restante do país.

O soft power de Flávio Bolsonaro em busca dos votos voláteis do centro, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Lula mantém sua base social tradicional nos estratos de menor renda, mas enfrenta limites claros para expandir sua coalizão e dialogar com o eleitor moderado

Por definição, a expressão soft power, ou seja, “poder brando”, é usada nos meios diplomáticos para explicar a capacidade de um país influenciar o comportamento e as preferências de outras nações por meio da atração e persuasão, em vez de coerção militar ou econômica (hard power). Ou seja, tudo ao contrário do que faz o atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

O termo foi criado por Joseph Nye, que foi professor e reitor de Harvard, o pioneiro ao defender a projeção de poder de forma intangível, por meio da música, do cinema, da gastronomia, da literatura, da cooperação e do humanismo, entre outras formas. É uma estratégia para ganhar “corações e mentes” em vez de território. O bolsonarismo não tem nada a ver com o soft power, certo? Errado. Um vídeo de Flávio Bolsonaro que viraliza nas redes mostra o principal candidato de oposição em contraponto, digamos, imagético, ao próprio pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Lula e o fantasma das Laranjeiras, por Marcelo Godoy

O Estado de S. Paulo

O último dos espíritos que rondam Brasília aparece a Lula nas noites insones do Alvorada

Em 30 de outubro de 1897 o Jornal do Brasil noticiou em sua primeira página: “Às primeiras badaladas da meia-noite, descia a Ladeira do Ascurra nas Laranjeiras, no Rio, em direção ao Largo do Machado, um vulto de mulher, ora decapitado, ora ostentando uma cabeça povoada de cabelos negros”. Milhares acorreram nos dias seguintes à ladeira para tentar flagrar a assombração.

A história do fantasma que apavorou a capital federal meses antes do atentado contra o presidente Prudente de Morais está no livro 1897, A República polarizada e o atentado contra Prudente de Morais, do professor Ely Carneiro de Paiva, da Unicamp. Ela marcou o último ano do primeiro governo civil da República. Na noite de quinta-feira, dia 30 de abril, milhares de pessoas se aglomeraram na Praça Charles Miller, no Pacaembu, no centro de São Paulo. Chegaram pouco a pouco em suas motocicletas e com seus baús e mochilas.

Destruição de demanda, por Fábio Alves

O Estado de S. Paulo

Com a guerra no Irã em seu terceiro mês, os analistas redobraram as previsões mais sombrias acerca da economia mundial e do impacto da disparada do preço do petróleo, da gasolina, do combustível de aviação e de outros derivados. Se até o fim deste mês o Estreito de Ormuz permanecer praticamente fechado, afetando um quinto da produção global de petróleo, um novo conceito econômico poderá entrar para o vocabulário dos leigos: destruição de demanda.

Isso acontece quando o poder de compra de consumidores sofre um tombo por conta da disparada nos preços de um produto ou serviço, ou ainda quando um choque de oferta limita a capacidade dos consumidores de comprar bens e serviços. Muitos analistas passaram a estimar picos de US$ 150 a US$ 200 para o barril do petróleo Brent, caso o Estreito de Ormuz siga fechado nas próximas quatro a seis semanas.

Erosão institucional, por Zeina Latif

O Globo

Rejeição ao indicado ao STF vai além da polarização de extremos, algo mais grave corrói as instituições

A histórica rejeição do Senado ao indicado ao STF pelo presidente é mais um sinal de alerta para o mau funcionamento das nossas instituições.

São várias as versões, de motivação política, para esse episódio, enquanto não se discutiu a norma constitucional, que condiciona a investidura no cargo ao notável saber jurídico e à reputação ilibada — o que não surpreende considerando o padrão nas últimas décadas.

Lula e o 'sistema', por Vera Magalhães

O Globo

Ao buscar justificativa para derrotas e pesquisas adversas, presidente replica discurso perigoso que tem fragilizado instituições

A grande surpresa do longo e pouco empolgante pronunciamento de Lula no Primeiro de Maio foi o apelo a um expediente tão gasto quanto capcioso para tentar explicar as recentes derrotas no Congresso e a dificuldade de implementar sua agenda de governo: na falta de outra justificativa, o presidente resolveu culpar o “sistema”.

Não dá para colocar na conta de um desabafo circunstancial tamanha inflexão política e retórica. Afinal, se há um político que não só foi forjado no sistema, como praticamente passou a defini-lo, este é Luiz Inácio Lula da Silva. Ele refundou um sindicato, fundou uma central sindical, depois um partido, foi candidato em quase todas as eleições presidenciais desde a redemocratização, foi deputado constituinte… Na última campanha, fez um apelo justamente ao “sistema”, encampando a defesa de instituições que haviam sido atacadas, perseguidas ou enfraquecidas por Jair Bolsonaro.

Azuis e vermelhos, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Enquanto internet discute se juízes são azuis ou vermelhos, ministros recebem cachê para ensinar advogados a atuar em tribunal trabalhista

A fala viralizou no fim de semana. Num congresso jurídico em Brasília, o presidente do Tribunal Superior do Trabalho (TST) se referiu a uma suposta divisão da Corte entre ministros azuis e ministros vermelhos. “Eu diria que não tem azul nem vermelho. Tem quem tem interesse e quem tem causa. Nós, vermelhos, temos causa”, disse Luiz Philippe Vieira de Mello.

O tribunal das redes sociais decidiu rápido. O presidente do TST foi julgado e condenado como um juiz parcial. Por um vídeo de um minuto e meio, transformou-se no novo símbolo de uma Justiça capturada pela política.

Nem guerra nem paz é purgatório para ricos, mas inferno para pobres, por Rui Tavares*

Folha de S. Paulo

Guerra de EUA e Israel contra Irã deve agravar crises alimentares em países da África

Mesmo com fim da tensão no Oriente Médio, normalidade no fornecimento de combustíveis levaria meses

Conta-se que, quando Lenin enviou Trótski a Brest-Litovsk para negociar uma paz com o Império Alemão, as condições impostas pelos emissários do kaiser eram tão duras que era impossível aceitá-las, mas voltar para casa sem a paz prometida era inconcebível.

Trótski tentava fugir ao dilema, e os alemães perguntavam-lhe sempre: "Afinal o que é que vocês querem, paz ou guerra?". Trótski teria respondido: "Nem guerra nem paz".

A resposta lembra o que se passa agora entre Donald Trump e Irã. Não temos guerra ativa; também não temos paz. A situação tanto pode degenerar quanto ficar congelada durante semanas ou meses, dependendo da capacidade de sofrimento de cada lado.

Em princípio, o Irã leva vantagem nesse quesito. Trump tem um povo que detesta pagar US$ 4,50 por galão de gasolina e há eleições de meio de mandato em novembro.

Em ano eleitoral, Congresso avança com pisos e aposentadorias a custo bilionário, por Fernanda Brigatti

Folha de S. Paulo

CNM projeta que apenas pisos salariais podem custar R$ 49 bilhões ao ano às prefeituras

Estratégia do governo Lula (PT) é empurrar votações para depois das eleições

Pisos salariais, jornadas reduzidas, aposentadorias antecipadas e regras de reajustes integram uma espécie de pacote de bondades do Congresso Nacional que pode deixar uma bomba fiscal bilionária para União, governo estaduais e prefeituras.

O tamanho da conta a ser paga é incerto, uma vez que a maioria dos projetos tramita sem cálculo e sem apontar a fonte de custeio. A CNM (Confederação Nacional dos Municípios) projeta que apenas a criação ou o reajuste de pisos salariais pode custar R$ 49 bilhões ao ano às prefeituras.

A ofensiva de categorias na Câmara e no Senado nas últimas semanas surtiu efeito, levando projetos de lei e propostas de emenda à Constituição serem pautados, encaminhados e aprovados em comissões.

Um desses casos é o de agentes comunitários de saúde e agentes de combate a endemias. Representantes das categorias são vistos com frequência nos corredores da Câmara e Senado. A PEC 14 de 2021 foi aprovada na Câmara no ano passado, sob intensa pressão desses trabalhadores, em geral identificados por seus coletes amarelos.

Sem saída, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Donald Trump iniciou uma guerra contra o Irã que não sabe como encerrar

Impopularidade do conflito nos EUA pode ser decisiva nas eleições de novembro

Donald Trump começou uma guerra absolutamente desnecessária contra o Irã, só colheu reveses e agora não consegue sair da encrenca que armou para si mesmo. Embora proclame várias vezes por dia ter vencido brilhante vitória, os fatos são que o regime de Teerã continua de pé, o estreito de Hormuz continua fechado para a navegação e os iranianos continuam em posse de seu urânio enriquecido, sem dar sinais de que pretendam encerrar seu programa nuclear. Pelo contrário, a guerra deve ter reforçado a convicção dos generais persas de que só estarão seguros se desenvolverem armas atômicas.

Desacerto entre aliados é obstáculo para Flávio Bolsonaro, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Senador faz bonito nas pesquisas, mas em casa e na campanha o ambiente é do mais completo desalinho

Arranca-rabos internos suscitam dúvida sobre quem de fato mandaria num novo governo bolsonarista

A campanha de Flávio Bolsonaro (PL) ecoa o velho provérbio que usa a figura da "bela viola" para falar do contraste entre imagens externas e realidades internas.

Nas pesquisas de opinião, o senador faz bonito. Aparece vigoroso, com traços de vencedor. Em casa, o ambiente é de completo desalinho. Os irmãos brigam com os companheiros de campo ideológico —ainda distante da condição de aliados—, a mulher do pai preserva distanciamento para lá de crítico e parte dos correligionários ainda prefere a condição de espectadores não engajados.

Que emoção no coração! Por Pablo Spinelli*

Dedicado aos 50 anos de Liberalismo e Sindicato no Brasil, obra de fibra do flamenguista Luiz Werneck Vianna

Filme resenhado: Zico, o samurai de Quintino. 2025.  Direção: João Wainer. Roteiro: Thiago Iacocca

É com uma raridade cada vez mais constante que vemos raios luminosos em dias cinzentos, no cinema atual, com o mesmo brilho e leveza como foram os 103 minutos da exibição de Zico, o samurai de Quintino. 

Uma biografia jamais pode ser considerada uma fonte verdadeira. E muito do que é retratado do perfil do biografado tem maior consonância com o biógrafo ou com o momento conjuntural do que com o perfil a ser exposto. Em um país que se diz do futebol – tal como a Argentina, Itália, Inglaterra, dentre outros – é de difícil compreensão que tão poucos filmes se debrucem sobre o universo futebolístico. Após clássicos sobre Garrincha, Alegria do povo (1962) e sobre Pelé: o nascimento de uma lenda (2017), cremos que o filme completa uma venturosa trilogia daqueles jogadores que transcenderam o espírito clubista e o ranço dos adversários.  

O alienista: a força das eleições virá do centro, e não dos polos, por Aylê-Salassié Filgueiras Quintão*

O brasileiro acaba de ganhar uma nova opção para votar para Presidente da República nas eleições de outubro. É o que, aparentemente, se precisa diante dessa mobilização anárquica pelo País: um psiquiatra. Surgiu Augusto Cury, médico, pesquisador da mente humana, autor de quase 40 milhões de livros de auto ajuda vendidos, preocupado com os desorganização institucional do Brasil, a saúde mental do brasileiro, as expectativas de futuro da juventude, bem como as tendências comportamentais dos políticos atuais. O Brasil tem tradição de transgressão e violência.

Um livro que nos honra a todos, por Ivan Alves Filho*

Terminei de ler, por esses dias, um livro dos mais interessantes. Trata-se de Sorriso escondido, de autoria de Alfredo Maciel. De formação marxista, engenheiro, professor, seu autor rememora sua vida e sua militância, incluindo uma passagem pela antiga União Soviética. Nesta obra, a história pessoal se mescla à História recente do nosso país.

Escrita em linguagem acessível, como uma conversa, o livro cobre um período crucial da nossa trajetória social e política, com ênfase na resistência democrática ao regime instalado no país após 1964. 

Assim, Alfredo Maciel abre espaço para o movimento estudantil, a atuação dos intelectuais, marxistas e/ou católicos. Denuncia as indescritíveis torturas infligidas ao padre Henrique, assessor de Dom Hélder Câmara. No livro, o autor relata seu convívio com figuras importantes da vida cultural e política brasileira. Nomes como Luiz Werneck Vianna, Leandro Konder, Sérgio Augusto de Moraes, Carlos Alberto Torres, Antônio Ribeiro Granja e Edmílson Martins são lembrados por ele com emoção. 

Poesia | Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, de Luís de Camões

 

Música | Nora Ney - Preconceito (Fernando Lobo e Antonio Maria)

 

terça-feira, 5 de maio de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Algo vai mal quando há 2 programas Desenrola em 3 anos

Por Folha de S. Paulo

Alta dos juros provocada por gastos do governo leva Lula a anunciar novo programa de renegociação

Novas medidas serão apenas paliativo efêmero se não forem promovidas condições para a queda sustentável das taxas do Banco Central

Algo vai mal quando um governo lança dois programas de renegociação de dívidas pessoais em apenas três anos, sem que tenha havido uma recessão ou outro grande revés inesperado entre um e outro.

Não se trata apenas de erro de cálculo da política econômica. Iniciativas do gênero não podem se banalizar, sob o risco de incentivar mais endividamentos imprudentes —na expectativa de que novos socorros virão.

As lições do governo Allende, as eleições abertas e a solidão do poder, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Com a derrota da indicação de Jorge Messias ao STF, na semana passada, de uma só vez, o presidente Lula perdeu a blindagem que tinha no Senado e, também, no Supremo

Adeus, senhor presidente, de Carlos Matus Romo, é uma obra singular no campo da reflexão sobre governo e poder na América Latina. Mais do que um manual de gestão, é um diálogo dramático entre um presidente fictício e seu assessor, no crepúsculo de um governo. Matus nasceu no Chile em 1931. Formou-se, em 1955, na Escola de Economia da Universidade do Chile. Fora assessor do ministro da Fazenda e ministro da Economia do governo de Salvador Allende, de 1971 a 1973, antes de se tornar o maior estudioso latino-americano sobre planejamento de governo e governabilidade.

Uma cantora comunista, por Irlam Rocha Lima

Correio Braziliense

Entre as estrelas da era do ouro do rádio, estava Nora Ney, dona de bela voz chamava a atenção, também, por ser filiada ao Partido Comunista Brasileiro

 A era de ouro do rádio tinha como estrelas, no set feminino, Emilinha Borba, Marlene, Dalva de Oliveira, Dircinha Batista, Linda Batista, Ademilde Fonseca, Carmélia Alves e Ângela Maria, a queridinha de Getúlio Vargas, que a chamava de Sapoti, por seu tipo mignon e sua morenice. Cada uma tinha sua característica e seu estilo. 

Entre elas, havia uma outra, Nora Ney, dona de bela voz, intérprete de canções românticas, mas que chamava a atenção, também, por ser filiada ao Partido Comunista  Brasileiro (PCB) —  assim como seu marido, o cantor Jorge Goulart. 

À espera de Lula na volta de Washington, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Se Lula foi derrotado por dar as costas à política, só seu enfrentamento pode lhe devolver as cartas do jogo

A viagem a Washington oferece, mais uma vez, a chance de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva alargar, com a política externa, os horizontes de seu emparedamento doméstico. No mínimo, dilatará o prazo para a reapresentação de um nome para o Supremo Tribunal Federal. Ser recebido por Donald Trump na Casa Branca é, porém, uma resposta limitada à descrença do Congresso em relação à perspectiva de poder de Lula se os resultados da visita não forem bem empacotados e, principalmente, se o presidente não usar a pausa para encontrar, na política, resposta ao beco em que se meteu.

A liberdade entre o Trumpismo e as Big Techs, por Luiz Gonzaga Belluzzo*

Valor Econômico

No Iluminismo Sombrio temos o domínio do Estado pelas Big Techs

Entre as tendências do nosso tempo, sobressai-se, ainda uma vez, a crescente submissão da política aos ditames do autoritarismo embuçado nos ouropéis da liberdade.

Aqui cabe ressaltar que as concepções “sub-positivistas” ensinam: narrativas (ideologias?) que proclamam que não podem desmentir os fatos, como se os “fatos” da vida social não fossem inseparáveis das narrativas sobre eles. Para desagrado da matilha de cães raivosos que emitem latidos “factuais” e (anti)democráticos, os humanos formulam narrativas para configurar a “realidade”. Escravos da linguagem, os bípedes falantes estão sempre diante de uma disputa de narrativas, significados, até mesmo quando escolhem instrumentos de comprovação empírica dos fatos que pretendem narrar.

País precisa sair do labirinto, por Carlos Melo*

O Globo

Desorientado está o barco da eleição, à espera de quem, afinal, será jogado ao mar ou resgatado do cipoal de escândalos

Antipetismo e antibolsonarismo tornaram-se as forças políticas mais relevantes do Brasil. Ser contra é fácil. A rejeição ultrapassa 80% do eleitorado, a fatia restante é gelatinosa, sem posição ou relevância, e dissolve-se em agregados sobre os quais não tem influência. Antagonismo cria muros, constrói becos; edifica um labirinto. Futuro e esperança se perdem, reféns do Minotauro, senhor do pedaço.

Swing voters desaprovam o incumbente e oscilam de uma eleição para outra. Em 2022, deram vitória não a Lula, mas ao antibolsonarismo. Hoje, estão na barricada do antipetismo. Especialistas acreditam que esse grupo definirá a eleição. Vencer com ampla maioria da sociedade, governar com maioria no Parlamento e obter aprovação robusta ao final do mandato foi impossível no governo anterior, é neste, será no próximo.

Por que fazer o Novo Desenrola, por Míriam Leitão

O Globo

Diante do alto endividamento, o governo precisava agir. Que muitas famílias quitem suas dívidas e mais brasileiros possam dormir melhor

O Novo Desenrola pode ter efeito eleitoral. Ou não. Não se pode prever o caminho da decisão dos eleitores. O importante é que essa é uma obrigação do governo. Os críticos dizem que deveria ser livre negociação entre credores e endividados. A desproporção de forças entre bancos e clientes é tal que, sim, o governo precisa entrar na conversa e facilitar a solução. Alguns levantam o temor de que isso estimule a cultura do calote. É bom lembrar que grandes empresas sempre tiveram a chance de renegociação de dívidas. As que não pagaram impostos foram beneficiadas por diversos governos com sucessivos Refis.

O lado B da queda de Messias, por Fernando Gabeira

O Globo

Alguns analistas disseram que o governo acabou e que ele perderá as eleições. São conclusões apressadas

Nesse filme, é difícil achar o mocinho. Lula indicou um amigo fiel para o Supremo. Davi Alcolumbre o sabotou porque queria colocar um amigo fiel no Supremo. A direita ajudou a derrubar Jorge Messias porque sonha em conquistar o Senado e povoá-lo de amigos fiéis, derrubando alguns ministros de reputação duvidosa.

Em todos os casos, o Supremo é um território a ser ocupado, e não um espaço que a sociedade preenche com os mais brilhantes e honestos juristas, na esperança de decisões sábias e imparciais.

Muitos analistas consideram histórica a rejeição de Messias. De certa forma, acho um exagero. Não é histórica como a cena em que Dom Pedro parou no riacho Ipiranga ou a carta de Getúlio Vargas, deixando a vida para entrar na História. É verdade que algo assim aconteceu antes, há 132 anos, no tempo de Floriano Peixoto. É mais um fato de almanaque.

A boa notícia política, por Pedro Doria

O Globo

Povos cindidos, divididos em partes que perderam a capacidade de se tolerar, poderão voltar a conviver

Talvez, apenas talvez, a política das democracias ocidentais esteja para sofrer um baque tão grande quanto aquele que vivemos na última década e meia. Se uma tese que começa a se consolidar estiver correta, lentamente retornaremos a sociedades onde o consenso é não só possível, como provável. Onde deputados não se elegerão pela capacidade de inflamar as redes sociais, em que demagogos autoritários perderão espaço. Povos cindidos, divididos em partes que perderam a capacidade de se tolerar, poderão voltar a conviver. O que promoverá essa mudança tão radical é o lento declínio das redes sociais, seguido pela ampliação de uso da inteligência artificial (IA). E a tese não é mera suposição. Há ciência por trás dela.

Menos pobre, mais desigual, por Jorge J. Okubaro

O Estado de S. Paulo

Por que, apesar dos programas de distribuição de renda, a desigualdade aumenta?

O ajuste fiscal será destacado por muitos economistas como item essencial do programa do governo que tomará posse em 1.º de janeiro de 2027. De fato, não há política pública ampla e relevante que se sustente sem contas ajustadas e saudáveis. A sabedoria do futuro governo estará na escolha do ajuste que adotará. Em seu artigo publicado no Estadão de sexta-feira passada (Uma agenda para o Brasil, 1/5, B9), no qual propõe uma agenda para o Brasil, o economista Fabio Giambiagi fez a ressalva: “O ajuste terá que ser equilibrado e, por questões óbvias de justiça social, terá de envolver ingredientes que afetem o ‘andar de cima’, para que as questões fiscalmente mais relevantes tenham passagem na sociedade”.

Xandão golpista, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Que Xandão se voltará contra seus sócios: não há dúvida. Questão de tempo; que ainda não chegou. Que o governo – sócio oportunista – tentaria se livrar de Xandão: tampouco havia dúvida. Pressionado pela combinação entre ano eleitoral e fator Master, Lula tenta se desvincular de Alexandre de Moraes já, às pressas, descarte prematuro baseado na ficção ousada de que ele, aliando-se ao bolsonarismo, teria trabalhado pela rejeição a Jorge Messias.

Literatura fantástica: Moraes se associara a Davi Alcolumbre e Flávio Bolsonaro – dedicando-se assim à obra que ergueu novo patamar competitivo para a bancada do impeachment de ministro do Supremo no Senado – num pacto pela reeleição do presidente do Senado em 2027, o que garantiria o bloqueio a processos de impeachment de ministros do STF; algo que ninguém poderia prometer, a Casa a ter 2/3 de suas cadeiras em disputa, projetada a eleição de senadores bolsonaristas em volume sem precedentes.

Eleitores cativos, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Pesquisas mostram que polarização afetiva se cristalizou

Lógica recomendaria busca por candidatos de baixa rejeição

A semana passada foi desastrosa para Lula, mas é cedo para considerar sua candidatura como carta fora do baralho. Apesar de os sinais emitidos pelo Parlamento não serem alvissareiros para o petista, são os eleitores e não os senadores que definirão o nome do próximo presidente. E isso faz diferença.

Minha leitura da última safra de pesquisas é que os dois principais blocos de eleitores —lulistas e bolsonaristas— se deixaram aprisionar por suas preferências. A polarização, que ocorre não apenas na régua da política mas também na dos afetos, se cristalizou. Cada um dos lados sente a perspectiva de vitória do adversário como ameaça física. Aceitam tudo para evitar que o outro time triunfe.

Combate ao sistema é truque para enganar eleitor, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Governistas e oposicionistas disputam a pauta antissistema, sendo todos eles criaturas da ordem institucional

No lugar de propostas de desmonte, a sociedade seria mais bem atendida com uma agenda racional de reconstrução

Uma das saídas defendidas por petistas para superar a fase de adversidades é vestir o figurino antissistema. Isso equivale à difícil tarefa de convencer as pessoas de que o governo é, ao mesmo tempo, de situação e de oposição.

Pode ser que o conceito fique um tanto confuso na mente do eleitorado, porque sendo governo e se colocando no lugar de opositor a "tudo isso que está aí", esse ente híbrido seria adversário de si mesmo.

Código de ética que falta ao Supremo inexiste no Congresso, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Alcolumbre faz acordo com extrema direita para barrar CPI do Master e beneficiar golpistas

Motta viaja a paraíso fiscal em jatinho das bets e na volta bagagem não passa no raio-X

As últimas jogadas de Davi Alcolumbre sugerem que, em matéria de traição e velhacaria, ele está disposto a superar Eduardo Cunha.

Ex-presidente da Câmara que engendrou o impeachment de Dilma Rousseff, dez anos atrás, Cunha acabou preso por corrupção, lavagem de dinheiro, contas secretas na Suíça e risco à ordem pública. Agora quer se reeleger deputado, garantindo que, sem o show dele, o bolsonarismo não existiria. Uma espécie de marketing do desastre.

Poesia | Toada do amor, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Elizeth Cardoso - Molambo

 

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Opinião do dia – Alexis de Tocqueville*

“Cada um propunha seu plano: este apresentava-o nos jornais, aquele nos cartazes que logo cobriram os muros, o outro, pela palavra, aos quatro ventos. Um pretendia eliminar a desigualdade das fortunas, outro a das luzes, um terceiro aspirava a nivelar a mais antigas das desigualdades, a existente entre o homem e a mulher; receitavam-se medicamentos específicos contra a pobreza e contra o mal do trabalho, que atormenta a humanidade desde que ela existe.”

*Alexis de Tocqueville (1805-1859), “Lembranças de 1848”, p. 117, Companhia das Letras, 2011.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Discursos farsescos de Lula e Flávio

Por Folha de S. Paulo

Petista posa de antissistema, e filho de Bolsonaro renega ajuste fiscal discutido com empresários

É provável que radicalismo e moderação venham a ser apresentados conforme as conveniências, sobretudo ao tratar das contas públicas

Com índices de aprovação frágeis, más notícias nas pesquisas de intenção de voto e uma derrota histórica em sua indicação para o Supremo Tribunal Federal (STF), Luiz Inácio Lula da Silva (PT) abraçou o populismo em seu pronunciamento por ocasião do Dia do Trabalho.

"Cada vez que damos um passo adiante para melhorar a vida do povo brasileiro, o sistema joga contra. O andar de cima, os bilionários, a elite que só pensa em manter privilégios às custas do povo. Se dependesse do sistema, nem a escravidão teria sido abolida no Brasil", discursou.

Parece cômica a retórica antissistema vinda de um político com o histórico de Lula —em seu terceiro mandato presidencial graças à anulação pelo Supremo Tribunal Federal, por questões formais, de suas condenações por relações promíscuas com grandes empreiteiras. Mas a escolha da palavra não é por acaso.

Duas semanas atrás, falando em um evento de esquerda na Espanha, o petista reclamou da perda da bandeira antiestablishment para a ultradireita. "Nós nos tornamos o sistema. Por isso, não surpreende que, agora, o outro lado se apresente como antissistema", disse, conforme reportou O Estado de S. Paulo.

Congresso não dá mais maioria a ninguém, diz Abranches

Camila Zarur / Valor Econômico

Cientista político vê Legislativo como ‘amorfo’ e excessivamente independente dos outros Poderes e do eleitor

O Brasil vive uma crise no sistema político e a rejeição de Jorge Messias pelo Senado a uma cadeira no Supremo Tribunal Federal (STF) é resultado de um Executivo minoritário num Congresso “amorfo”, fisiológico e com independência turbinada pelo alto volume de recursos. É o que avalia o cientista político Sérgio Abranches, criador do conceito de presidencialismo de coalizão.

Na última semana, em apenas 24 horas, o governo Lula (PT) enfrentou duas grandes derrotas no Parlamento. Primeiro, na quarta-feira (29), o ministro-chefe da Advocacia-Geral da União teve a indicação ao Supremo rejeitada pelo Senado; algo que não ocorria desde 1894. Depois, na quinta (30), o Congresso derrubou o veto presidencial ao projeto de lei da dosimetria, que deve beneficiar o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Lula pode buscar ‘saída popular’, mas Legislativo é obstáculo, Por Camilo Zarur e Joelmir Tavares

Valor Econômico

Especialistas avaliam que ideia seria presidente indicar uma mulher jurista ao STF, mas Lula enfrentará um Parlamento adverso

Após a rejeição do advogado-geral da União (AGU), Jorge Messias, pelo Senado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem algumas alternativas para preencher a vaga aberta no Supremo Tribunal Federal (STF). Diante da crise escancarada por ter um aliado rejeitado, uma possibilidade do mandatário seria buscar uma “saída pela via popular”, uma vez que ferramentas tradicionais para negociar com os partidos se enfraqueceram.

Esse caminho, contudo, enfrenta como obstáculo um Congresso adverso ao petista. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), principal articulador da derrota de Lula na semana passada, já indicou a interlocutores que não pautará novas indicações do presidente ao Supremo. É uma prerrogativa do chefe do Legislativo, conforme explica o professor de direito constitucional da PUC-SP e do IDP Georges Abboud, pois a lei não impõe nenhum prazo para marcar a votação de nomeações presidenciais.

Lula já virou pato manco ou deixará para 2027? Por Bruno Carazza

Valor Econômico

Maior responsável pela rejeição a Messias, presidente corre o risco de esvaziamento no fim do mandato ou se mostrar inviável mesmo com reeleição

Reza a lenda (leia-se “o ChatGPT explica”) que a expressão “pato manco” (lame duck, em inglês) surgiu na bolsa de Londres para designar investidores assolados por dívidas que estavam capengando financeiramente, como patos feridos que não conseguiam andar direito. Transposta para a política, a imagem passou a descrever mandatários que, apesar de ainda ocuparem o cargo, perderam o poder e influência.

No momento em que Lula se tornou o primeiro presidente a ter uma indicação negada para o Supremo Tribunal Federal desde 1894, muitas análises passaram a especular as causas e os culpados pelo vexame histórico.