segunda-feira, 5 de outubro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Segundo turno impõe debate maduro de ideias

Por O Globo

Direita deu demonstração de força; agora Flávio e Lula têm obrigação de trocar ataques estéreis por propostas exequíveis

O eleitor brasileiro ainda não escolheu o presidente da República ontem. Haverá segundo turno no próximo dia 25 entre o senador Flávio Bolsonaro (PL) e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Flávio obteve 47% dos votos, ante 45% de Lula. A abstenção foi de 21%, aproximadamente o mesmo patamar de 2022. Os votos nulos e brancos cresceram em relação à última eleição — 4,7% ante 4,4%. Como em 2018 e 2022, as urnas refletiram o cenário político polarizado, e os demais candidatos não chegaram nem perto de ameaçar a hegemonia das duas maiores forças políticas do país. Mas o recado mais nítido das urnas foi o avanço de candidatos e partidos de direita.

Favoritismo de Flávio obriga Lula a adotar uma estratégia de resistência, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

A Constituição de 1988 produziu quatro décadas de eleições livres, alternância de poder e ampliação de direitos. Entretanto, o Brasil que construiu aquele sistema mudou radicalmente

A eleição deste domingo vai muito além da vantagem de Flávio Bolsonaro sobre Luiz Inácio Lula da Silva. Com mais de 99% das seções totalizadas, Flávio tinha cerca de 47% dos votos válidos, contra aproximadamente 45% de Lula, resultado que confirmou o segundo turno no próximo dia 25. O candidato do PL não apenas superou as pesquisas da véspera como demonstrou que a onda conservadora, iniciada em 2018, será longa e que o centro político está sendo, mais uma vez, capturado pela extrema-direita.

A apuração chegou a mostrar Flávio acima dos 50% até quase dois terços das urnas contabilizadas. A vantagem diminuiu à medida que avançava a totalização dos estados mais favoráveis a Lula, mas permaneceu suficiente para inverter a expectativa criada pelas últimas pesquisas, nas quais os dois apareciam empatados ou com pequena vantagem do petista. A Quaest, por exemplo, apontava 46% a 45% dos votos válidos para Lula; o Atlas, 47% a 44,1%.

Lula tem desafio de ‘reinvenção’ no segundo turno, por Sofia Aguiar e Cristiane Agostine

Valor Econômico

Avaliação é que Flávio Bolsonaro captou sentimento de mudança dos eleitores e que Lula terá dificuldade para ampliar arco de aliados

A campanha do presidente e candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chega ao segundo turno pressionada a se reinventar nos próximos dias, para tentar garantir um novo mandato petista, depois de terminar o primeiro turno atrás do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Em sua primeira fala após o resultado, Lula admitiu surpresa e desapontamento, mas desafiou o parlamentar e disse ser “bom no mata-mata”. Segundo ele, o pilar da próxima etapa da campanha será investir na “biografia tenebrosa e de ligação com milicianos” da família Bolsonaro.

“A partir de amanhã, a gente começa uma nova campanha. Campanha que vai poder mostrar a diferença entre as propostas que existem para o Brasil”, afirmou Lula em um hotel em São Paulo, de onde acompanhou a apuração.

“O jogo vai começar, estamos na prorrogação. Vamos convencer o povo brasileiro da importância de continuarmos nosso projeto”, disse.

O dique contra avalanche da direita fica por um triz, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Resultados mostram que eleição de Lula em 2022 não foi alicerçada em bases nacionais

O senador Flávio Bolsonaro (PL) passou ao 2º turno da eleição presidencial na liderança de uma disputa em que a direita avançou em todo o país, nos governos estaduais e no Congresso. Impôs, sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a mesma diferença de votos (2,3 milhões) com a qual o pai foi derrotado em 2022. É como se a barreira erguida por Lula contra o avanço da direita iniciado em 2018 não tivesse se alicerçado no conjunto do país e agora esteja prestes a romper.

Não se registra, nas histórias de 2º turno das disputas presidenciais, uma reversão de vantagem, ainda que a diferença tenha sido estreita como a deste domingo. As chances de Flávio consolidar sua vantagem estão na maior afinidade com o eleitorado da terceira via. Somados, Augusto Cury (Avante), Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Romeu Zema (Novo) tiveram 7,5% dos votos, patamar equivalente ao de 2022.

Direita consegue o melhor resultado em eleições presidenciais desde 1989, por César Felício

Valor Econômico

Flávio Bolsonaro fecha primeiro turno com desempenho melhor que o pai; lulistas levam só 5 Estados

A direita conseguiu no primeiro turno da eleição presidencial o seu melhor resultado desde a redemocratização em 1989. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) alcançou 47% dos votos válidos, indo para o segundo turno em primeiro lugar contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que ficou com 45,2 % do total, excluindo votos brancos e nulos. O percentual atingido por Flávio é 3,8 pontos percentuais acima do obtido pelo ex-presidente Jair Bolsonaro em 2022 e um ponto superior ao desempenho do bolsonarismo em 2018, e não veio isoladamente.

O PL garante no momento uma bancada de 28 senadores, a maior da casa legislativa, e bolsonaristas ou aliados táticos de Flávio venceram em primeiro turno a disputa de catorze governos estaduais. Esta conta pode subir para 15 a depender da decisão da Justiça eleitoral a respeito da votação no Rio de Janeiro. Caso os votos de Anthony Garotinho (Republicanos) sejam considerados anulados, o governador eleito será Douglas Ruas (PL).

Bolsonarismo avança e empurra o Brasil para um novo, e perigoso, ciclo histórico, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Eleição de Sérgio Moro para o governo do Paraná, em primeiro turno, é uma síntese do que aconteceu neste domingo: os vitoriosos de 2018 tinham sido derrotados e voltam a ser vitoriosos

O Brasil vive o fim de uma era e entra num novo ciclo histórico, com a derrota do PT e da esquerda e a vitória, não da direita tradicional, mas do bolsonarismo e tudo o que ele representa. O que se viu neste domingo, 4 de outubro de 2026, foi um tsunami bolsonarista que faz estragos em avanços duramente conquistados e joga o País numa incógnita.

Os “aliados” do presidente Lula no Supremo Tribunal Federal contribuíram decisivamente para o susto de Lula e o sucesso de Flávio. Começa com Dias Toffoli e Alexandre de Moraes metidos na lama do Master e desaba nas decisões heterodoxas de Flávio Dino e Gilmar Mendes a favor de Lula. Quantos eleitores se rebelaram contra isso?

A volta a um passado que nunca existiu, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

A extrema direita transforma em glórias os crimes que se cometeram para garanti-las

E é um passado ainda mais perigoso, porque promete um futuro que também nunca existirá

Em sessão recente na Academia Brasileira de Letras, meu colega, o escritor João Almino, levantou uma importante questão: a estratégia da extrema direita, que, "sob uma capa superficial de defesa da liberdade, da família, dos costumes, da tradição, da ordem, da religião, da nação, da civilização ou da própria democracia, adota um discurso de regresso ao passado". E que passado é esse? Um que nunca existiu e muito menos foi vivido por aqueles que o defendem.

Erros em sequência e onda bolsonarista emparedam Lula, por Igor Gielow

Folha de S. Paulo

Ultrapassagem de Flávio e desempenho de seus aliados projetam dificuldades enormes para o presidente

PT sofre derrota nacional maiúscula e, mesmo que retenha o Planalto, viverá cenário de pressão contínua

A cavalgada dos bolsonaristas no primeiro turno das eleições gerais neste domingo (4) é um evento político de ampla repercussão. Pelo avanço das forças de Flávio Bolsonaro (PL) e por seus próprios erros, o presidente Lula (PT) vai para a segunda rodada emparedado.

Se havia o temor entre petistas de que um empate ou uma superioridade mais leve do filho de Jair Bolsonaro no primeiro turno tornaria o tira-teima difícil, a situação do presidente tornou-se dramática, ainda que não irreversível.

Em seu favor, há a possibilidade de que a migração dos nanicos à direita que desidrataram no dia do pleito tenha chegado ao limite. Mas é incerto de onde Lula poderá tirar votos, salvo intercorrências imprevisíveis. A aposta sugerida em sua primeira fala é a comparação de biografias, algo insondável.

A direita ocupa os estados, por Lara Mesquita

Folha de S. Paulo

Fim da fragmentação concentra disputas estaduais e amplia o espaço de PL, PSD, PP e Republicanos

Número de partidos competitivos encolhe; em 2018, 13 legendas elegeram governadores; agora, 9 lideram apuração

Esta coluna foi fechada com a apuração das eleições em andamento, com base nos dados parciais do TSE das 20h50 (de Brasília) e nos resultados de pleitos anteriores. Os números indicam que a lógica da disputa presidencial, organizada em dois polos, desceu para os estados.

A medida mais simples é somar os votos válidos dos dois primeiros colocados em cada unidade da Federação. Na apuração parcial, a mediana dessa soma era de 89%. Foi de 76% em 2018 e de 81% em 2022. Em 12 estados os dois líderes concentravam 90% ou mais dos votos válidos; eram dois em 2018 e sete em 2022.

Eleições e a guarda do entusiasmo, por Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

A forte competitividade convive com um profundo cinismo cívico; há polarização e desencanto

Brasil recuperou a incerteza eleitoral característica das democracias

Há exatamente um século, um presidente era eleito em nosso país com 99,7% dos votos. Sim, Washington Luís recebeu 688.528 votos, equivalentes a 99,70% dos votos nominais válidos —aproximadamente 98,1% do total de votos depositados, incluindo brancos e nulos. Seu adversário, Assis Brasil, recebeu apenas 1.116 votos, ou 0,16% dos votos nominais. Hoje, escrevo esta coluna sem saber o resultado das urnas. O resultado é incerto. Não sabemos se haverá segundo turno. Temos uma única certeza: o resultado será muito acirrado.

Flávio agora tem tudo para jogar parado, por Marco Antonio Carvalho Teixeira

Folha de S. Paulo

Se não houver um debate efetivo de propostas, senador deve ser eleito em razão do antipetismo enraizado

Caso Lulinha trouxe novamente o tema da corrupção para o governo e o PT e foi importante elemento de desgaste

As eleições de 2026 ganharam características próprias quando comparadas aos dois pleitos anteriores entre o petismo e o bolsonarismo.

Em 2018, com Lula preso, a retórica bolsonarista trazia um tom missionário ao exaltar pautas como o combate à corrupção e a defesa de valores morais e religiosos como prioridades, deixando o petismo, recém-saído da Lava Jato, na defensiva. Em 2022, após sucessivos conflitos do governo Jair Bolsonaro com o STF, que desencadearam o receio de uma ruptura institucional, os petistas investiram na construção de uma frente ampla em defesa da democracia, o que parecia enfraquecer o bolsonarismo enquanto grupo político —sobretudo após o episódio de 8 de janeiro.

Tsunami da direita nos estados tem método, por Vanessa Elias de Oliveira

Folha de S. Paulo

Discurso antissistema de outrora se contrapõe aos vencedores, com larga experiência administrativa

Questão da segurança pública se mostrou decisiva nas escolhas do eleitorado, além da atuação política do Judiciário

Pesquisa Datafolha mostrou que 73% dos entrevistados consideram a democracia melhor do que outras formas de governo. Esse dado deve ser observado ao analisarmos o resultado das eleições estaduais, sobretudo sob dois aspectos.

O primeiro é um paradoxo. O discurso antissistema, ainda presente no debate público, se contrapõe ao que saiu das urnas: o eleitor recompensou justamente os políticos mais experientes, "do sistema". Do Executivo, 11 governadores em exercício e 5 ex-prefeitos foram eleitos. Entre os políticos com experiência legislativa, foram 3 senadores, 1 deputado federal e 1 deputado estadual. Juntos, somam os 21 governadores eleitos em primeiro turno.

Eleição de 2026 contará história de desastre político-institucional, por Carlos Melo

O Globo

Há um potencial de confusão que virá do Congresso. Com a nova composição do Senado, a crise com o STF está contratada

Cada eleição conta uma história. A de 2026 contará a história de um desastre político-institucional. Seu legado pesará sobre a vida nacional. A esperança não compareceu ao debate, e o desejo de mudança se escorou na antipolítica. Atarantada, a opinião pública fracassou em influenciar políticos a olhar o horizonte e indicar as saídas do labirinto. Com a crise, os três Poderes estão prostrados. Não bastasse isso, o sagrado e as paixões religiosas foram arrastados para o conflito.

Estratégia de comunicação dos partidos, uma vitória no primeiro turno era improvável. A disputa ficará mais tensa e agressiva: o segundo turno não se presta à construção de unidade, mas à guerra de rejeições. Vota-se contra. Mais que fazer crer em Deus, o objetivo é aguçar o medo do diabo. Independentemente de quem será eleito, dividido o país entrou na eleição e dividido permanecerá.

Vorcaro é o intérprete da elite do Brasil que votou ontem, por Miguel de Almeida

O Globo

Nas oferendas do ex-banqueiro, não há cor ideológica. Ele fareja quem pode fraquejar

‘Numa terra radiosa vive um povo triste’, escreveu meu herói Paulo Prado na página inicial de “Retrato do Brasil — ensaio sobre a tristeza brasileira”, em 1928. Fazendeiro de café, rico e sofisticado, ele foi um dos patrocinadores da Semana de Arte de 1922. Sua tese: a luxúria e a cobiça dos colonizadores haviam produzido nossa tristeza. Quase um século depois, numa festa em Trancoso, litoral sul baiano, Daniel Vorcaro trouxe as provas. O tema era a Amazônia, os convidados usavam adereços indígenas e, segundo a Polícia Federal (PF), a bagunça vinha com garotas de programa. O regabofe destinava-se a amolecer autoridades federais.

O que esperar do segundo turno? Por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

A pauta básica de Flávio é política e vingativa. Planeja indultar seu pai e anistiar todos os condenados pelo 8 de Janeiro

Recomeça a campanha presidencial. Foi dada uma segunda chance aos candidatos, já que a primeira parte passou com um vazio de ideias e propostas. Não por falta de problemas.

O Brasil passa por um momento singular. A economia cresce, mas pouco e em desaceleração. A inflação está fora da meta, mas não é explosiva. Houve ganhos de renda ao longo dos últimos anos, mas as famílias não se sentem confortáveis. Estão endividadas e percebem que o custo de vida permanece alto. É muito baixa a produtividade, consequência de décadas de educação de má qualidade.

Tudo isso exige programas de longo prazo, requer uma visão de país. Além disso, há questões imediatas que ocuparão o presidente eleito desde seu primeiro dia. É como se o vencedor fosse receber um envelope que ninguém quis abrir na campanha.

Lula só ganha de Flávio; contra o antipetismo, perde de lavada, por Renato Meirelles

O Globo

Petista precisa falar sobre temas que afetam a vida do eleitor

O primeiro turno deu uma notícia ruim e uma boa para Lula. A ruim é que o antipetismo está vivo, organizado e chegou às urnas com muito mais força do que o governo gostaria. A boa é que, no segundo turno, Lula não precisa disputar contra o antipetismo. Precisa disputar contra Flávio Bolsonaro.

Parece a mesma coisa. Não é.

Se a pergunta da eleição continuar sendo “você quer mais quatro anos de PT?”, Lula corre enorme risco de perder. O antipetismo é maior do que Flávio. Reúne desde o bolsonarista convicto até aquele eleitor que não suporta Bolsonaro, mas olha para o governo e pensa: “Chega”.

O tombo de Lula, a reação bolsonarista e a soberba que mudou de lado, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Presidente subestimou adversário e estava convencido de que venceria no 1º turno; Flávio se apressa em decretar 'fim da era do PT'

Em setembro de 2025, o Supremo condenou Jair Bolsonaro por tentativa de golpe. Em outubro de 2026, seu filho mais velho vai largar na frente no segundo turno da disputa presidencial.

Em pouco mais de um ano, o bolsonarismo saiu das cordas, ampliou sua bancada no Congresso e voltou a botar um pé na rampa do Planalto. A reação foi impulsionada pela autocombustão do Supremo e por erros do petismo, que subestimou o rival e demorou a admitir que o eleitor tinha motivo para cobrar mudanças.

Lula discursa ao vivo após apuração das urnas no 1º turno das eleições; assista

 

Desencanto, de Manuel Bandeira

 

Teresa Cristina - Alvorada (Cartola)

 

domingo, 4 de outubro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Democracia brasileira demonstra vigor

Por O Globo

Brasileiros irão pacificamente às urnas votar para presidente pela décima vez consecutiva

Algo de revigorante acontecerá hoje para a democracia brasileira: enquanto os candidatos e coligações que disputam votos se dilaceram, muitas vezes com ataques de baixo nível, os eleitores demonstram maturidade. O que se verá hoje nas seções eleitorais não pode ser confundido com apatia. É um eleitorado pacífico, ordeiramente em fila para fazer sua escolha. O comportamento estridente da classe política contrasta com a maturidade dos brasileiros, demonstração inequívoca da força deste que é o período democrático mais longevo do país. São dez eleições presidenciais consecutivas — e a democracia resiste.

Sobrenatural de Almeida, campanha na palma da mão e voto na ponta do dedo, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

A rejeição pode motivar o voto útil, mas isso não assegura uma decisão ainda hoje, quando “memes” e “deepfakes” chegarão ao auge na disputa pela Presidência

O primeiro turno das eleições chega ao momento decisivo, hoje, com campanhas de “boca de urna” proibidas nas ruas, mas com disputas intensas pela Presidência, pelos governos estaduais e pelo Senado por meio das redes sociais. Parte da mobilização migrou das praças para os celulares, ou seja, para a palma das mãos, uma tendência que já vinha se demonstrando desde as eleições de 2018. A novidade é a intensa utilização da inteligência artificial, seja nas campanhas oficiais, seja na produção de memes e fake news nas redes sociais.

É possível dar bom-dia à democracia hoje? Por Dorrit Harazim

O Globo

Numa eleição da magnitude da atual, não há mais espaço para o opcional. Após um hiato de quatro anos, o Brasil se vê novamente às turras

‘Bom dia, democracia. Como é lindo o teu rosto’, postou no 2 de janeiro o imortal da Academia Brasileira de Letras Marco Lucchesi. Assim começava a coluna aqui publicada sobre a posse de Luiz Inácio Lula da Silva como presidente eleito do Brasil dois meses antes. Embora fosse a terceira subida de rampa do candidato do Partido dos Trabalhadores, a apertadíssima vitória sobre o incumbente Jair Bolsonaro (1,8% dos votos) retratava a fenda trevosa que continuaria a dividir o Brasil. Não deu outra: o novo governo mal havia se instalado quando ocorreu a delirante tentativa de golpe do 8 de Janeiro, com o consequente julgamento e condenação do derrotado insurgente a 27 anos e três meses de prisão em regime fechado.

O desafio de Lula na hora da decisão, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Sob pressão, presidente precisa convencer descontentes de que mudança pode ser para pior

Foi há 20 anos, quando a Itália venceu sua quarta Copa do Mundo. Encerrado o torneio, o saudoso Fernando Vannucci saudou a campeã e fez um discurso inflamado sobre o fiasco da seleção brasileira. “É hora da gente mudar... ou mudar de vez. Vamos colocar o castelo de areia abaixo!”, conclamou.

As redes sociais ainda engatinhavam, mas a transmissão de 2006 virou meme instantâneo. Circula até hoje na internet, onde vídeos antigos ganham novos significados, inspiram piadas, alimentam outros debates.

No esporte e na política, mudar tudo é uma ideia poderosa. Derrubar o castelo soa mais tentador do que reformá-lo. É mais fácil destruir do que consertar as telhas, trocar as janelas, reparar os canos gastos pela ferrugem.

A jornada do voto e os riscos atuais, por Míriam Leitão

O Globo

Eleitores decidirão o destino do país, e não só os próximos quatro anos. O autoritarismo e o alinhamento acrítico aos EUA são riscos que não podemos correr

Quando minha mãe nasceu, mulher não votava. O direito eleitoral feminino é recente. O voto é novo no Brasil. Há apenas 37 anos, o Brasil voltou a escolher livremente o presidente e os governadores, após a longa interrupção imposta pela ditadura. Apesar de as eleições terem se tornado rotina desde a redemocratização, não podemos perder de vista como é valioso o direito que hoje podemos exercer. No fim deste domingo, 4 de outubro, o país terá escolhido dois terços do Senado, toda a Câmara dos Deputados, todas as Assembleias Legislativas e vários chefes do Executivo. A composição do Senado definirá o perfil do Supremo Tribunal Federal que teremos. Será um Supremo capaz de corrigir seus erros ou ele será capturado para o projeto autoritário que um dia combateu?

Sem utopias, por Merval Pereira

O Globo

Votaremos este ano sem ânimo, sem utopias, sem esperança de melhoras. No máximo, tentaremos evitar nas urnas que o candidato que consideramos pior prevaleça.

Em 2022 o Supremo Tribunal Federal (STF) teve papel relevante, garantindo a democracia antes, durante e depois da campanha presidencial. Interveio até mesmo no dia da eleição, quando bloqueios ilegais nas estradas pretendiam impedir que eleitores nordestinos, majoritariamente lulistas, chegassem às urnas para votar. Hoje, o mesmo Supremo Tribunal Federal está mais uma vez envolvido com a eleição, mas do outro lado da mesa, não como mantenedor da ordem e da democracia, mas como fator de desestabilização eleitoral, interferindo indevidamente a favor do presidente Lula, que busca a reeleição.

Os Safras, história de um banco, por Elio Gaspari

O Globo

Eram três irmãos — Edmond, José e Moise — que criaram a empresa com o sobrenome da família. Triunfaram, brigaram (ao seu estilo), viram-se metidos num crime

Está nas livrarias “Os Safras — Uma história”, do repórter Robson Viturino. Conta a trajetória do banco Safra. Tremenda história. Eram três irmãos — Edmond, José e Moise — que criaram um banco com o sobrenome da família. Triunfaram, brigaram (ao seu estilo), viram-se metidos num crime, no qual morreu Edmond.

Em 2015, José Safra era o banqueiro mais rico do mundo. Batia os Rothschild, Warburg, Morgan, Goldman, Rockefeller, Setúbal e Moreira Salles. Tudo isso com um jeito simples e discreto, em pouco mais de 50 anos.

Não importa quem vença, o Centrão vai mandar e o STF estará em maus lençóis, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

É bastante improvável que a eleição presidencial feche já no primeiro turno; as incertezas e tensões vão persistir para além da noite de domingo

Nunca antes na história deste País as eleições chegam ao fim tão indefinidas, tensas e com o Supremo Tribunal Federal roubando a cena, soterrado por erros e críticas. Ganhe quem ganhar a Presidência, as únicas certezas são que o Judiciário estará na mira e que o Centrão vai continuar poderoso, dominando o Legislativo e controlando o Executivo.

Quem ganha neste domingo? É certo que o “segundo pelotão”, com Ronaldo Caiado, Romeu Zema, Augusto Cury e Renan Santos, mal deve chegar a 10% dos votos válidos e só dois candidatos têm chance de vitória, o presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro. No mais, tudo continua incerto.

Eleições 2026: Um bom pedaço do atual regime de poder está em jogo, por William Waack

O Estado de S. Paulo

Número de senadores de oposição e a diferença entre Lula e Flávio Bolsonaro dirá qual é a capacidade desse grupo de conduzir a política

O mais atrevido esforço de parte da burocracia estatal em dirigir o resultado de um pleito terá já no domingo uma boa apreciação da eficácia de seus esforços. A combinação de número de senadores de oposição e a diferença no primeiro turno entre Lula e Flávio Bolsonaro dirá qual é a capacidade desse grupo de conduzir a política.

Já se enxerga o considerável tamanho do erro político, por parte da ala de força dentro do STF, em fundir a crise interna da instituição com o resultado de uma eleição. Ela dispõe de instrumentos de coerção contra adversários internos, especialmente o comando sobre parte relevante de aparatos de segurança como a Polícia Federal. Mas tem bem menos capacidade de controlar os grandes fatores que pesam na formação do voto.

Em quem você vai votar em 2030? Por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Mais do que candidatos, faltam novas forças e coalizões sociais para renovar a política

Até agora, grupos que apareceram no cenário político apoiam projetos reacionários

Na véspera do primeiro turno deste 2026, pelas mídias sociais se viam cartazes criados por IA dos candidatos a presidente de 2030: Flávio Dino, ministro do STF, contra Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo. Sim, 2030 começou faz tempo. Não prestamos atenção.

Os próximos anos serão de dificuldades econômicas. A depender do resultado de 2026, é possível que venham a ser também de angústia política, sendo incertas as condições de disputa da eleição de 2030, se com degradação democrática maior ou total.

Sabe-se que Luiz Inácio Lula da Silva não vai disputar o cargo de presidente em 2030. Nas direitas, caso o bolsonarismo defina a candidatura principal, está longe de certo que Tarcísio ou equivalente seja o candidato. Ainda que apareçam presidenciáveis pela esquerda, no momento é difícil acreditar que o PT adote candidato de fora.

Ao menos desde 2002, o PT é o centro da política partidária. Alguma variante de antipetismo definiu a outra força maior. Desde 1994, o PT mais e mais se limitou a lulismo e Lula. Lideranças escasseiam faz tempo.

Caro leitor de direita, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Se você votar em candidatos bolsonaristas, recompensará quem montou o esquema Master

Se Flávio Bolsonaro perder essa, em 2030 haverá opções melhores

Leitor de direita, a grande mídia está mentindo para você, não para te sacanear, mas para puxar teu saco.

Grande parte do público que paga por notícia ou tem dinheiro para comprar os produtos dos anunciantes da grande mídia está nas classes média e alta.

Historicamente, a classe alta tem maior probabilidade (mas não igual a cem por cento) de votar em candidatos do centro para a direita.

A classe média é um caso mais complexo, mas, nos últimos anos, também tendeu para candidatos do centro para a direita. Nenhum dos pobres que podem eleger Lula esse domingo paga por notícia.

Isso quer dizer que, para não perder as classes que pagam por notícia como público, a grande mídia tem um medo desproporcional de desagradar a direita.

País vai às urnas refém do conflito surdo e radical, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

A política deixou de ser a arte de construir consensos para se tornar a fonte de impasses sem resultados

O jeito de escapar da armadilha é a retomada da obediência a regras e papéis legalmente estabelecidos

O Brasil vai às urnas neste domingo (4) refém da armadilha criada pela batalha de aversões e afeições em que se transformou a política, que deixou de ser a arte da construção de consensos a partir de dissensos para se tornar a própria fonte da discórdia.

A lógica é a do conflito pelo conflito produtor de impasses sem o alcance de resultados. Falar da polarização e atribuir a ela o aprisionamento do país a duas correntes surdas ao contraditório é chover no molhado dos chavões.

Padroeiro de Flávio Bolsonaro é homem, loiro e mora na Casa Branca, por Marcos Augusto Gonçalves

Folha de S. Paulo

Candidato diz que falou simbolicamente sobre Cristo; é de se perguntar até onde vai sua devoção simbólica ao líder dos EUA

Subordinação do país aos interesses americanos vai muito além da simples especulação

No ano passado, Flávio Bolsonaro assistiu a um vídeo divulgado pelo governo Trump que exibia forças americanas destruindo uma embarcação, acusada de pertencer a narcoterroristas, na região do Caribe. Um ataque sumário, que feria as leis internacionais e o bom senso.

O filho de Jair Bolsonaro disse sentir inveja da ação e convidou os americanos a fazerem algo semelhante no Rio: "Ouvi dizer que há barcos como este aqui na baía de Guanabara. Vocês não gostariam de passar alguns meses aqui nos ajudando a combater essas organizações terroristas?", disse ele, apelando ao presidente Donald Trump.

Que anticlímax! Por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Foi pena Flávio Bolsonaro ter se escafedido do debate da Globo aos 44 do 2º tempo

A Faria Lima, o agronegócio e o Brasil queriam saber de seus planos de desgoverno

Que anticlímax! Já sabendo que Lula não iria ao debate, para não ter de apanhar da turma do 1% e levar 20 minutos para poder responder, preparei-me para ouvir Flávio Bolsonaro e seu programa presidencial. Do qual, aliás, só conhecemos suas promessas de anistiar familiares presos ou condenados, soltar golpistas, pôr-se de quatro para Donald Trump e construir igrejas evangélicas. Há importantes questões envolvendo-o e que ele precisava esclarecer, até para dar satisfações aos interessados na sua eleição.

Onde foi parar a festa da democracia? Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Polarização exacerbada afasta tom celebratório do dia da eleição

Eleitor balança entre medo e conformismo com escolha do mal menor

Não muito tempo atrás, ainda era possível descrever o dia da eleição como festivo. Não que não houvesse divergências entre as pessoas, mas elas eram vistas mais como escolhas distintas do que como ameaça existencial. Estava implícito que quem perdesse aceitaria o resultado, parabenizaria o vencedor, e iria para a oposição. Ainda celebrávamos a retomada do direito de escolher nossos dirigentes depois de um hiato de mais de 20 anos imposto pela ditadura militar.

Sobre o afeto que se encerra, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

É preciso distinguir a polarização política e ideológica da afetiva, que contempla convivência cívica e até mesmo amor

A máquina de ódio religiosa transfunde polarização afetiva na política: campanhas se orientam pelo escândalo do outro

Diante do show de horrores com esqueleto fora do armário oferecido pelo STF, vale perguntar se alguma parte cabe à polarização social. Não é exclusividade nossa, acadêmicos norte-americanos já se inquietam com esse fenômeno nas universidades. É preciso, entretanto, distinguir polarização política da afetiva. A primeira contempla posições ideológicas, com maiores ressonâncias onde se exacerbe a divisão entre conservadores e progressistas. A segunda, convivência cívica e, mesmo, amor. Mas as duas podem se superpor.

Incertezas, por Elimar Nascimento

Revista Será? (nº731)

Há os que vivem em um mar de certezas, por mais turbulentos e imprevisíveis que sejam os tempos em que vivemos. Em qualquer situação, estão certos do que está ocorrendo e do que vai acontecer. E, se não acontece, não foi ele que errou, mas a culpa é de variáveis imponderáveis que surgiram. A convicção da certeza persiste.

Aos que, desta natureza, se apoiam em pesquisas de opinião, mantêm a mesma postura. Nunca erram. O que ele falou se refere a um momento que passou. A culpa é deste e não de suas opiniões, sempre certas. Em último caso, o erro é do eleitor que mudou de opinião na hora em que se viu em frente à urna e com a consciência acima.

Poesia - Apelo, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Comportamento Geral - Gonzaguinha

 

sábado, 3 de outubro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Que Deus? Que pátria? Que família?

Por CartaCapital

Flávio Bolsonaro é uma fake news ambulante

Em meio à guerra santa que ameaça o posto de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil, Flávio Bolsonaro, sem esconder o constrangimento, ergueu uma santa de crochê à maneira de um capitão de time de várzea que empunha uma taça de latão. Caso Robin, o parceiro do Batman naquele seriado de tevê dos anos 60 do século passado, assistisse a esse momento de devoção, não titubearia: “Santa hipocrisia”.

A controvérsia em torno da patrona, da imagem negra recolhida de um rio por pescadores, não deixou de produzir um milagre. O esforço do chamado jornalismo profissional em provar que alguns fatos compunham uma fake news, a ponto de colocar em dúvida o trabalho de uma das mais competentes jornalistas, Maria Cristina Fernandes, se assemelha a um épico bíblico. A água se converteu em vinho.