sexta-feira, 6 de novembro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais\Opiniões

Crise no Paraguai expôs regulação bancária frágil

Por O Globo

Paralelo entre fraude que derrubou presidente e escândalo Master é tentador, mas casos são distintos

A renúncia do presidente do Paraguai, Santiago Peña, não foi aceita ontem no Congresso e não evitou que a Câmara aprovasse processo de impeachment contra ele. Foi o resultado natural da corrida bancária causada pelo colapso do Ueno Bank, o maior banco digital do país. Na terça-feira, o Banco Central (BC) assumiu o controle do Ueno, a Procuradoria emitiu mandado de prisão contra vários de seus executivos, e 3 milhões de correntistas não conseguiram mais acessar suas contas. Apesar de o Paraguai dispor de um fundo para garantir depósitos bancários, o BC limitou saques. O comunicado gerou pânico, e imediatamente o Parlamento se movimentou pelo impeachment.

Oásis fiscal paraguaio era uma miragem que atraiu empresas brasileiras, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Os baixíssimos impostos melhoravam os resultados das empresas, porém já não garantem que o dinheiro destinado à folha de pagamento estará disponível na manhã seguinte

A crise do Ueno Bank e a derrocada de Santiago Peña desfizeram uma ilusão vendida a empresários brasileiros de que bastaria atravessar a fronteira para encontrar impostos baixos, energia barata e segurança permanente para investir. Peña apresentou sua renúncia nesta quinta-feira, enquanto avançava na Câmara a acusação para seu impeachment. O desmoronamento de seu governo já expõe a fragilidade do paraíso anunciado.

A miragem não estava na existência de vantagens competitivas paraguaias. Estava na promessa de que elas dispensariam instituições sólidas, fiscalização independente e proteção efetiva da poupança. Os baixíssimos impostos melhoravam os resultados das empresas, porém já não garantem que o dinheiro destinado à folha de pagamento estará disponível na manhã seguinte. Quando o aplicativo do banco já não funciona e os depósitos são bloqueados, o oásis da simplicidade tributária vira uma miragem sem encantamento.

A ilusão paraguaia, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Flávio exaltou 'visão de futuro' de Santiago Peña, que renunciou em meio a escândalo bancário

O chamado foi feito por Luciano Hang, dono das lojas Havan. “Empresários brasileiros, venham para o Paraguai!”, conclamou. “Aqui empresário não paga a ineficiência do governo. Aqui você paga poucos impostos. Pode se desenvolver, pode crescer”, animou-se o bilionário catarinense.

O Louro José do bolsonarismo estava empolgado. Convidado pelo presidente Santiago Peña, aproveitou a viagem para propagandear as maravilhas de Assunção. “Olha só os prédios. Muita modernidade! Você nota nas ruas e nas pessoas a alegria. Parabéns, Paraguai!”, derramou-se.

Para uma nova esquerda III, por Pablo Ortellado

O Globo

Concepção simpática ao crime permanece difusa na cultura política

Concluo hoje a série de colunas sobre os desafios da esquerda. Na série, argumento que a missão atual da esquerda é dupla: precisa oferecer respostas alternativas aos problemas colocados pelo populismo radical de direita, mas sem se deixar confundir com ele. Em outras palavras, tem de enfrentar as questões levantadas pelo conservadorismo moral, pelas novas formas de trabalho e pelo populismo penal, oferecendo uma abordagem alternativa que seja distintivamente progressista. A nova conjuntura, porém, pode levá-la a adiar mais uma vez a tarefa de se reinventar, apostando que a vitória nas eleições presidenciais abre o horizonte de vitórias eleitorais sucessivas, até que o populismo de direita morra de cansaço e desapareça por si só.

O povo segurou a democracia, por Vera Magalhães

No Brasil e nos Estados Unidos foi a sociedade civil que conteve movimentos que colocavam em risco as instituições e os direitos civis; a Lula e aos democratas resta entender as razões da vitória

As realidades das eleições no Brasil e nos Estados Unidos são em tudo distintas, mas os tombos que bolsonarismo e trumpismo levaram num intervalo de poucos dias têm em comum a resposta rotunda da sociedade dos dois países a riscos concretos e já experimentados para a normalidade democrática. O povo foi às ruas, às redes e às urnas e disse, alto e bom som, que a democracia é um valor absoluto e que líderes com propensões autocráticas e uma agenda personalíssima podem ter seu apelo, mas não são capazes de dar respostas duradouras e seguras aos desafios complexos de um mundo em profunda e rápida transformação.

A insurreição silenciosa, por José de Souza Martins

Valor Econômico

O milhão de jovens na avenida Paulista mostrou a cara de um novo sujeito político: os que recusam a iniquidade de nascer para o abandono de uma sociedade cada vez mais rica e de alguns

Até os últimos minutos da apuração dos resultados eleitorais do pleito presidencial de 25 de outubro, havia sérias dúvidas quanto a qual dos candidatos seria o eleito para a Presidência da República. As dúvidas tinham fundamento na comprovada eficácia aos recursos ilícitos criados e movimentados nas últimas décadas para impedir a alternância democrática de governo.

A disputa não era e nem tem sido entre esquerda e direita. Nem tem sido uma manifestação da luta de classes. É inútil invocar esses chavões da história do último século para explicá-la. Aqui há cientistas sociais que propõem essa compreensão da realidade política.

Esses marcos estão referidos a uma concepção de temporalidade histórica de um agora de horas e minutos próprios do imediato da sociedade de consumo e não próprios do processo histórico e político. Os de uma sociedade que teve sua concepção de destino usurpada pelos beneficiários das urgências da reprodução ampliada do capital. As de um capital rentista, anticapitalista. Uma riqueza de mera reprodução do subdesenvolvimento econômico e social.

Lula fala em responsabilidade fiscal para atrair capital estrangeiro

Por Giordanna Neves, Lu Aiko Otta, Mariana Andrade e Lucas Teixeira, \ Valor Econômico

Declaração ocorre após encontro com ex-ministro e economistas próximos para discutir diretrizes para a economia no quarto mandato

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu nesta quinta-feira (5) que são necessárias responsabilidades fiscal e jurídica para atrair investimentos estrangeiros ao Brasil. Em meio à crescente preocupação do mercado com a política fiscal, as afirmações foram feitas horas depois de reunião realizada por ele com o vice-presidente Geraldo Alckmin, ministros, ex-ministros e economistas próximos do próprio Lula.

“Nós temos de ter responsabilidade jurídica e responsabilidade fiscal. Por isso que a gente não pode brincar de fazer parcerias", afirmou durante a primeira reunião do Conselho Nacional para a Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos (Cimce), no Palácio do Planalto. “Sabemos que, para atrair, temos que ter uma economia arrumada. As pessoas querem saber se estamos falando sério.”

Quem é o verdadeiro ministro da Fazenda de Lula, por Andrea Jubé

Valor Econômico

Independentemente de quem se sentar na cadeira de ministro da Fazenda, a palavra final sobre a política fiscal será, invariavelmente, de Lula

Duas ausências chamaram a atenção no almoço do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, nessa quinta-feira (5), com economistas: do governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles (PT), que continua cotado para o Ministério da Fazenda, mas submergiu; e de André Lara Resende, que não teve agenda com Lula, conforme esclareceu o ministro da Fazenda, Dario Durigan.

Além de ouvir os convidados sobre medidas para frear a alta da dívida pública, a obsessão do presidente é encontrar instrumentos viáveis para reduzir os juros. Alguns auxiliares o aconselharam a antecipar o nome do futuro ministro da Fazenda. Se o escolhido se comprometer com algum ajuste fiscal - um ajuste rigoroso tem o veto de Lula -, e despertar credibilidade no mercado, os juros futuros poderiam começar a cair, e isso abriria caminho para o recuo gradual da Selic. Mas o presidente descartou essa antecipação. Mais do que isso, fontes do entorno presidencial afirmam que ele ainda não escolheu o ministro da Fazenda, nem formalizou nenhum convite.

Paisagem depois da batalha, por Fernando Gabeira

O Estado de S. Paulo

O novo governo terá a possibilidade de lançar na mesa alguns temas de unidade nacional

As eleições trouxeram novidades substanciais para os dois lados. À esquerda, o extraordinário movimento dos eleitores que deram mais 10 milhões de votos a Lula abre a possibilidade para um mandato mais rico do que os outros. À direita, a segunda derrota de um Bolsonaro em eleições majoritárias deve trazer um momento de recomposição e busca de novos nomes para liderar a corrente política.

Em alguns países do mundo com sistema parlamentarista, eleitores costumam votar num presidente à direita e num Congresso à esquerda, em busca de equilíbrio. No Brasil, não parece ter havido essa intencionalidade. Mas o fato de o Congresso ter representado uma guinada maior para os conservadores pode ter contribuído para uma importante variável: o medo da volta dos Bolsonaro ao poder central. Essa variável já era alta nas pesquisas, mas certamente cresceu diante do perigo de concentração de poder num candidato que muitos consideram imaturo, temor reforçado pela performance de Flávio nos debates.

Efeito Trump ao contrário, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

‘Nova direita’ da América do Sul sofre com crises, queda de popularidade e derrota de Trump

As voltas que o mundo dá... O trono do imperador Donald Trump começa a ruir e já há sinais de que, assim como puxou para cima a tal “nova direita” na América do Sul, passe a puxar para baixo a partir de agora. Aliás, como está acontecendo neste momento no Paraguai e foi previsto aqui na coluna em maio.

O Brasil foi o líder da resistência à invasão americana na região e consolidou espetacularmente essa posição com a eleição de Lula e a derrota de Flávio Bolsonaro, comemoradas por governos, entidades e cidadãos ao redor do mundo, inclusive nos EUA, como vitória da democracia e da soberania.

Outra má notícia para os Bolsonaros, por Raquel Landim

O Estado de S. Paulo

Aumentar a pressão sobre Flávio e Eduardo dependerá de lobby diplomático brasileiro

A derrota republicana no Congresso dos Estados Unidos é má notícia para a família Bolsonaro em várias frentes.

A primeira e mais óbvia é o enfraquecimento do trumpismo, expoente máximo da estratégia de internacionalização da direita em que os Bolsonaros sempre se apoiaram. Com Trump derrotado, a direita global perde força.

A segunda é que pode diminuir o respaldo político em favor da família Bolsonaro.

Lula tem três opções de política econômica, por Roberto Macedo

O Estado de S. Paulo

O mais provável é que Lula opte por um pouco de ajuste e a velha politicagem a que é contumaz

Vejamos estas opções que Lula tem para a política econômica. A primeira é que continue a política que o levou à reeleição. Como não poderá ser reeleito, escolheria um candidato petista para o próximo governo e tentaria promovê-lo com medidas populistas como as que tomou às vésperas de sua reeleição, a exemplo de um aumento de 15% para todos os inscritos no programa Bolsa Família, do governo federal. Esse caminho oferece riscos, como o do contínuo e elevado crescimento da dívida pública, mas é o que ele gosta de fazer.

Risco de crise feia nos EUA é mais um motivo para o Brasil apressar conserto da economia, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Preços das ações levam tombo e criam novo surto de medo de que bolha de IA chegue ao fim

Queda de Bolsas e menos investimento em inteligência artificial também diminuiriam crescimento americano

A situação econômica do Brasil em 2027 não vai ser fácil. Ficaria bem difícil em caso de crise nos EUA. É mais um motivo para que se adotem medidas urgentes e prudentes de conserto econômico.

Os preços das ações nos EUA levaram um tombão nesta quinta (5). Pode ter sido um dia de furacão, seguido de uma semana de céu azul. Ou o começo de meses de explosões. Sendo otimista, talvez se trate de uma bolha começando a desinflar de modo ordenado. O sinal de fim de longo ciclo de crescimento econômico. Sabe-se lá.

Ajuste fiscal com justiça social, por Sergio Firpo

Folha de Paulo

Ajuste próximo de 3% do PIB pode ser feito sem cortar os programas mais progressivos do orçamento

Dívida bruta avança em 2026 e reforça pressão por correção fiscal

Segundo o Banco Central, a dívida bruta do governo geral chegou a 82,9% do PIB (Produto Interno Bruto) em setembro de 2026, R$ 11,1 trilhões, 4,3 pontos percentuais acima do registrado no início do ano. Estimativas recentes situam o ajuste primário necessário para estabilizá-la em pelo menos 3 pontos percentuais do PIB.

Mas quem pagaria a conta? Um ajuste concentrado nos aposentados de baixa renda e nos beneficiários de programas sociais imporia o maior sacrifício às famílias com menos recursos, enquanto preservaria renúncias e subsídios que beneficiam principalmente os mais ricos.

Como antibolsonarismo aqui, antitrumpismo vence nos EUA, por Marcos Augusto Gonçalves

Folha de S. Paulo

Populista se esmerou em ser derrotado nas urnas ao fazer tudo ao contrário do que prometeu

Não é nada mau para o mundo que o presidente dos EUA tenha sua força política interna abalada

Donald Trump deu aula de como perder uma eleição. Transformou em motivo para a derrota nas legislativas de meio de mandato a frustração das promessas essenciais que o levaram de volta à Casa Branca.

Eleito para recuperar a prosperidade americana, reduzir o custo de vida e manter os EUA afastados de guerras distantes, acabou produzindo resultados inversos.

Quando o povo participa das decisões, por Priscilla Bacalhau

Folha de S. Paulo

Diversificar as formas de participação popular na tomada de decisão é caminho para fortalecer a democracia

Nos EUA, eleitores decidiram diretamente sobre financiamento de habitação e tributação

Você concordaria com a emissão de títulos públicos para financiar programas de habitação popular? Concordaria com a criação de um programa de financiamento para aquisição de imóveis por famílias de renda média? E com a manutenção de uma tributação mais elevada de imposto de renda para pessoas de alta renda, cuja arrecadação tributária será destinada à educação pública e à saúde?

Esses são exemplos reais que os cidadãos da Califórnia, nos Estados Unidos, votaram nas eleições deste ano. Diferentemente do Brasil, os eleitores de diversos estados no país norte-americano escolhem não apenas seus representantes, mas também decidem sobre o financiamento de políticas públicas, tributação, regras eleitorais, entre outros.

No susto, PT admite revisar sua velha cartilha, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Sempre resistentes a reconhecer erros, petistas falam em atualizar o partido depois do sacolejo eleitoral

É tarefa do Lula reeleito mostrar que foi além das palavras ao prometer mudar o jeito de governar

O que mais se ouve hoje entre os petistas é um apelo à autocrítica. "O PT precisa mudar" é a frase síntese das análises do campo governista sobre o transcorrer de uma eleição que quase impôs ao partido a mais humilhante das derrotas de sua trajetória.

O partido nunca foi dado ao reconhecimento de erros, não obstante os alertas de dirigentes e lideranças a respeito da necessidade de revisão da velha cartilha.

À altura dos farialimers, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Os empresários sabiam como era Flávio Bolsonaro e, mesmo assim, o apoiaram

Resta saber o que estão achando hoje dos seus destemperos, despautérios e desatinos

Um dos textos mais importantes deste ano foi publicado na revista piauí de 1º de outubro último: "O que esses brasileiros sabem", do jornalista e cineasta João Moreira Salles. Tratava da tendência de parte da elite brasileira a "desviar o olhar" dos riscos à democracia pela então possível, até provável, vitória de Flávio Bolsonaro na eleição presidencial, em troca de seus interesses empresariais e financeiros. Moreira Salles, ex-acionista do Banco Itaú, faz parte dessa elite —mas não dessa parte da elite.

Um desejo de perseverar na esperança, por Ricardo Marinho

Até muito recentemente, ao final do primeiro turno das eleições, o Brasil era percebido como um país pior do que realmente era. A visão oriunda do materialismo vulgar vicejou. O caminho democrático trilhado há mais de 40 anos era pintado como repleto de erros e abusos.

A defesa dos aspectos virtuosos desse caminho suscitava olhares malévolos e assobios de desaprovação quando se falava de números que indicavam uma transição da mediocridade para a conquista dos melhores indicadores econômicos e sociais das Américas. Os rostos se exasperavam e repetia-se categoricamente: quais os números que significavam alguma coisa?

Poesia | Tomara, de Vinícius de Moraes

 

Música | Alceu Valença - Madeira do Rosarinho (Capiba)

 

quinta-feira, 5 de novembro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais\Opiniões

Trump paga o preço de seus próprios erros

Por O Globo

Derrota republicana resulta de fiasco na economia, truculência com imigração e suspeitas de corrupção

As eleições de meio de mandato nos Estados Unidos costumam funcionar como referendo sobre quem ocupa a Casa Branca. É frequente o partido do presidente perder cadeiras no Legislativo. Mesmo levando isso em conta, porém, a derrota republicana na terça-feira superou todas as previsões. Com vantagem de 13 pontos percentuais nas urnas — maior diferença em 50 anos —, os democratas recuperaram o controle da Câmara e do Senado com maiorias expressivas, derrotaram adversários históricos, elegeram governadores onde não venciam havia décadas e pintaram com a cor azul associada ao partido o mapa de estados improváveis, como Texas, Kansas, Iowa ou Mississippi. A razão para tamanha derrota republicana tem nome e sobrenome: Donald Trump.

O sonho americano, a perseguição aos hispânicos e a derrota de Trump, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

A frustração material se combinou com a hostilidade dirigida às comunidades hispânicas, que catalisou o sentimento de que Trump é uma ameaça à democracia

Publicado em 1909, “Martin Eden”, de Jack London (1876-1916), conta a história de um jovem marinheiro autodidata que luta para se tornar escritor. Inspirado na trajetória do autor, o romance acompanha a conquista do reconhecimento e a desilusão com uma sociedade que mede o valor dos indivíduos pelo dinheiro e pelo prestígio. Também retrata o “sonho americano” na ótica dos trabalhadores que ajudaram a construir os Estados Unidos.

London escreveu o livro durante sua viagem pelo Pacífico a bordo do Snark, quando já era conhecido por “O chamado da selva”, “O lobo do mar” e “Caninos brancos”. Seu alcance ultrapassa a autobiografia. Mostra a correlações entre trabalho, nacionalidade e posição social, as contradições de um país que sempre precisou dos braços de estrangeiros enquanto estabelecia a hierarquias entre eles.

Entrevista | ‘Sucessor de Lula não precisa ser do PT’, diz governador reeleito da Bahia, por Jeniffer Gularte

O Globo

Jerônimo Rodrigues cita Alckmin como possível herdeiro político do presidente, diz que Planalto precisa ‘unificar o país’ e cobra mais espaço para o Nordeste no partido e no quarto mandato

Enquanto o PT debate os próximos passos após a vitória eleitoral, o governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues (PT), afirma que o sucessor do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não precisa, necessariamente, ser do partido. Em entrevista ao GLOBO, ele defendeu que a discussão sobre o futuro seja construída a partir de um campo político mais amplo, capaz de dar continuidade ao projeto do atual governo.

Ainda que reconheça ser cedo para discutir nomes, Jerônimo citou o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) como exemplo de liderança que não integra a legenda e tem papel relevante. Reeleito no primeiro turno na Bahia, estado que deu seis milhões de votos a Lula, o governador cobrou mais espaço para o Nordeste nas decisões tomadas pelo PT e na formação do governo para o quarto mandato.

Pato manco, por Merval Pereira

O Globo

A derrota de Trump e a vitória de Lula significam a mesma coisa

A derrota de Donald Trump, demolidora, instalou em Washington um novo foco de poder que altera não apenas a política interna dos Estados Unidos, como a internacional. Os três maiores países do continente americano — Canadá, Brasil e México — são os que enfrentaram os arroubos autoritários de Trump nestes dois primeiros anos de governo. O sonhado “quintal” dos Estados Unidos não voltará a ser a nossa região, e certamente a fraqueza de Trump poderá gerar uma força adicional nos países do nosso entorno.

Ela mostra que um ciclo se fecha. A tendência é que a direita — que dominava a política internacional a partir da vitória de Trump e de sua influência nas eleições — se enfraqueça. É claro que os Estados Unidos continuam sendo o país mais poderoso do mundo, militar e economicamente, e que Trump tem mais dois anos de mandato. A única indicação é que talvez seja mais fácil negociar com o gigante fragilizado.

Não existe carta branca no Lula 4, por Julia Duailibi

O Globo

Apesar das expectativas, Lula será, na prática, o ministro da Fazenda de Lula

Não tem Palocci 2, Posto Ipiranga ou carta branca para quem assumir a economia no Lula 4. Aviso aos navegantes que, apesar das expectativas, Lula será, na prática, o ministro da Fazenda de Lula. Isso significa que o próximo governo não pretende fazer um “cavalo de pau na economia”, nos moldes do que ocorreu em 2003, segundo definiu à época o então capitão do time, José Dirceu.

Lula quer fazer de Lula 4 algo mais impactante que Lula 3, mas a toada que desenha por enquanto é a mesma. Com exceção de uma ou outra medida de viés mais agressivo, a ideia é não mexer nos compromissos da campanha. Por isso Lula 4 não deve ser o que o mercado quer nem o que parte dos economistas vê como caminho obrigatório para interromper a trajetória de crescimento da relação dívida/PIB e levar à queda dos juros.

Na intensidade do tempo atual, por Míriam Leitão

O Globo

Derrota de Donald Trump reduz a instabilidade global, mas falta de horizonte fiscal leva Banco Central a frear corte da Selic

A decisão do Copom de manter os juros foi tomada no meio do maior bombardeio que o Banco Central independente já enfrentou. Diante da incerteza do tempo presente, manter os juros era o certo a fazer. O ruído dos últimos dias contra o BC torna mais pesado esse começo de um governo que foi consagrado por uma forte vitória nas urnas. O que houve no Brasil, na eleição, foi a reafirmação da democracia como valor e escolha política. O que houve nos Estados Unidos foi a reafirmação da democracia e da diversidade como valor. Num poema do novo livro de Geraldo Carneiro, há um verso que diz: “Amou o semelhante e o diverso”. Foi o que me veio à cabeça quando vi a impressionante representatividade que saiu das urnas americanas.

A propósito do plano de Lara Resende, por Maria Clara R. M. do Prado

Valor Econômico

A proposta é sem dúvida inovadora e, por isso mesmo, assusta

Mal começavam a se recuperar das perdas provocadas pela aposta errada feita antes do segundo turno das eleições, operadores e analistas financeiros ficaram de novo com os cabelos em pé. O plano de redução gradual da taxa de juros de curto prazo — a taxa Selic do Banco Central —, proposto pelo economista André Lara Resende em setembro, ganhou as manchetes e espalhou o temor pelo mercado.

A resistência a mudanças que alterem o status quo da política monetária pode ser comparada à forma como as propostas de estabilização foram rechaçadas no início dos anos 80. Atribuía-se em geral a causa da alta inflação brasileira ao desajuste fiscal do governo. Essa justificativa foi por muito tempo sacramentada por economistas ortodoxos que não conseguiam enxergar outra explicação para o processo inflacionário.

Derrota de Trump nas eleições legislativas afeta o bolsonarismo, por Guilherme Carvalho

Valor Econômico

Para cientistas políticos, o resultado abre espaço para direita não bolsonarista, mas a família mantém protagonismo do campo político

A derrota do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, nas eleições legislativas americanas deve ter efeito negativo sobre o bolsonarismo e pode abrir espaço para que setores mais moderados da direita disputem a liderança desse campo político. O resultado, porém, não deve retirar do grupo, por si só, a posição de principal força eleitoral da direita no Brasil, avaliam especialistas ouvidos pelo Valor.

Até o fechamento desta reportagem, o senador e ex-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro e outras lideranças do grupo não haviam se manifestado publicamente sobre o resultado das “midterms’’.

Na TV, Lula reforçará responsabilidade fiscal, por Andrea Jubé

Valor Econômico

Em pronunciamento no domingo, presidente também dirá que manterá políticas sociais

No pronunciamento que fará aos brasileiros para agradecer os mais de 64 milhões de votos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai reafirmar a promessa de manter e ampliar as políticas sociais, e de que não incorrerá em “estelionato eleitoral”. Em um cenário de instabilidade, em que o Comitê de Política Monetária (Copom) interrompeu o ciclo de queda da Selic, Lula dará recados aos investidores: vai reforçar o compromisso com a responsabilidade fiscal, mas manifestará a preocupação em reduzir os juros para aumentar os investimentos.

Segundo fontes do governo, o presidente vai manifestar sua preocupação com a dívida pública e os juros altos, e reafirmar o compromisso com o equilíbrio das contas públicas. Paralelamente, Lula vai defender que se criem condições para a redução dos juros, porque ele gostaria de aumentar os investimentos, públicos e privados.

Partido começa a tratar com MDB espaços no governo, por Sofia Aguiar e Lucas Borges Teixeira

Valor Econômico

Sigla presidida por Baleia Rossi, que não apoiou campanha de Lula, busca manter ministérios que já comanda hoje

De olho na formulação do novo governo, o PT deu início às tratativas com o MDB sobre a participação da legenda na composição ministerial. Sem ter anunciado apoio nacional à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o MDB admite, internamente, que terá pouca margem para reivindicar novos espaços na Esplanada. Por conta disso, deve concentrar a negociação na manutenção dos ministérios que já comanda, como Cidades e Transportes, duas pastas de forte capilaridade política e eleitoral.

Os presidentes do PT, Edinho Silva, e o do MDB, Baleia Rossi, se reuniram na quarta-feira (4) em meio à rodada de conversas conduzidas pelo petista com dirigentes partidários sobre a composição do Executivo. O objetivo é sondar o grau de compromisso das legendas com o próximo governo e começar a desenhar a base de nova gestão, diante de um Congresso que terá perfil ainda mais conservador a partir de 2027. Nesse cenário, o Palácio do Planalto pretende condicionar a distribuição de cargos a uma maior garantia de governabilidade no Parlamento, em uma tentativa de evitar reveses como os que ocorreram ao longo do terceiro mandato de Lula.

'Dark Horse', só na nuvem; se não chover, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

O filme classificado por Flávio Bolsonaro como obra-prima ameaça não chegar aos cinemas

Parte do dinheiro da produção mandada para lavar no Texas poderá sustentar senador nos EUA

Que pena, estamos ameaçados de nunca ver a obra-prima "Dark Horse", cinebiografia de Jair Bolsonaro, numa tela de cinema! Obra-prima é como o filme foi classificado por seu produtor-associado, levantador de dinheiro, filho do personagem e talvez receptador de parte do orçamento, Flávio Bolsonaro. Não sei das credenciais do ex-futuro presidente da República como crítico de cinema, mas sua insistência em dizer que "Dark Horse" é uma obra-prima nos faria ir correndo conferir. Obras-primas do cinema —algumas— são "Em Busca do Ouro" (1925), de Chaplin, "Ladrões de Bicicletas" (1948), de Vittorio de Sica, "Um Corpo que Cai" (1958), de Hitchcock. Estaria "Dark Horse" nesse time?

As dúvidas que as urnas deixaram, por Maria Hermínia Tavares

Folha de S. Paulo

A formidável vitória do presidente não apaga o fato de que quase 60 milhões preferiram um candidato extremista

Terão grande importância as escolhas da direita e sua disposição de não apostar em quem é desafeto da democracia

O Brasil saiu das eleições presidenciais tão dividido quanto nelas entrou. Assim continuará? Depende muito do que acontecer com a extrema-direita e do que o governo e as forças democráticas fizerem para garantir a normalidade política.

É cedo para dizer o que será do extremismo depois de sua segunda derrota. Muito menos o que será de sua liderança, com Bolsonaro-pai na cadeia e o filho-herdeiro acoitado por Trump. O Bolsonarismo continuará sendo seu sinônimo ou outros líderes lhe darão novo nome e sobrevida? Neste caso, manterão os ultra a capacidade de aglutinar o vasto campo das direitas nas disputas pelo Palácio do Planalto?

Este país tem uma Constituição, por Conrado Hübner Mendes

Folha de S. Paulo

Se Lula quer ser coerente com suas promessas de futuro, pode começar já

Pragmatismo não pode significar cumplicidade com degradação institucional

"A democracia está novamente em xeque." "O Brasil continuará sendo um país soberano." "Ninguém está acima da lei." "A floresta vale mais em pé do que destruída."

O discurso de Lula na abertura da Assembleia Geral da ONU, em setembro de 2026, combinou alertas urgentes sobre o presente com um esboço de sua visão de futuro.

No discurso da vitória, um mês depois, Lula revelou o que diz ter aprendido com a inesperada mobilização popular que lhe garantiu a reeleição. Contra expectativas, espalhou pelo mundo um sopro de esperança democrática e também um método. Da experiência emergiu uma inteligência coletiva e orgânica para enfrentar tecno-oligarcas que abalam o fair play eleitoral sem qualquer possibilidade de regulação pública e transparência.

Polêmica religiosa dos juros leva Lula à TV e BC para a malhação do Judas, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Banco Central não corta Selic, que pode ficar na mesma por meses, dado o tumulto

PIB mais lerdo tende a acirrar o conflito político sobre programa econômico

Desde o domingo de Todos os Santos, passando por Finados, parte da opinião pública foi às redes para discussões encarniçadas sobre política monetária, quem diria, com muita profissão de fé e propaganda. Muita gente ficou feliz com a promessa de que as taxas de juros pudessem cair do céu.

O risco real ou, francamente, imaginário de que Lula 4 fosse enfeitiçado por ideias heterodoxas agitou a praça do mercado e economistas-padrão, o que acirrou as guerras religiosas. O boato de que o presidente pudesse nomear para o Banco Central uma bancada de oposição heterodoxa à Gabriel Galípolo também não ajudou.

Dado o climão, o presidente deve dizer algo sobre a importância de política de gastos prudente no pronunciamento que deve fazer no domingo. Pouco. Melhor do que nada.

Cruzada nas redes contra juros altos não muda necessidade de ajuste, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

A primeira sinalização a ser feita será fechar o Orçamento de 2027

Ajuste forte ou gradualismo: para quem?

A polêmica em torno do plano do economista André Lara Rezende ajudou a impulsionar nas redes sociais a visão de petistas de que, com a vitória de virada do presidente Lula nas eleições, dá para fazer uma cruzada contra a alta dos juros nos moldes do exército de Janones.

A ofensiva, no entanto, em nada muda a incerteza que paira no ar. Além do Brasil, outras democracias do Ocidente, de um jeito ou de outro, estão enfrentando esse debate fiscal. Cada país com sua particularidade.

Reeleito, Lula tem hoje um problema real imediato: precisará sinalizar mais previsibilidade. Se vai fazer um ajuste mais pelo lado da receita ou pelo lado da despesa, ou uma mistura das duas opções. Se vai ser rápido ou devagar, se adotará o gradualismo ou nem isso.

A primeira sinalização a ser feita será fechar o Orçamento de 2027. Essa é a mais urgente.

Garantia do status quo, por William Waack

O Estado de S. Paulo

A eleição para um novo presidente do Senado é só daqui a três meses, mas já se tornou a questão política mais urgente. A reeleição de Davi Alcolumbre seria o retrato acabado de um conluio de contornos sórdidos entre os Poderes, que nasceu da necessidade urgente de seus articuladores (Alexandre de Moraes, Davi Alcolumbre e o próprio Lula) de escapar das consequências imediatas das investigações de escândalos de corrupção.

Ganhou alicerces poderosos com o resultado da eleição presidencial, embora as eleições estaduais e do Congresso prometessem o contrário. A causa disso é a desarticulação da oposição, visivelmente sem liderança efetiva, neste momento. Mas também o fato de que um bom pedaço dessa oposição, no Senado e na Câmara, tem interesse num conluio que garanta aos donos de partidos os mesmos acessos a diversos fundos, além da máquina pública. Ou seja, o status quo promete mais do que seu rompimento.

Consolidação fiscal gradual é chave para crescer, por Felipe Salto

O Estado de S. Paulo

O ajuste fiscal deve ser feito por etapas, mas sob um plano completo e aprovado desde a primeira hora, de modo a pavimentar a rápida queda do risco e do juro

Há duas premissas básicas para qualquer plano de consolidação fiscal. A primeira é a viabilidade política. A segunda, a distribuição de medidas relevantes para estabilizar a relação dívida/Produto Interno Bruto (PIB) em alguns anos. O resultado buscado: juros menores e aumento das possibilidades de endividamento sustentável e do crescimento do PIB.

O plano de ajuste miraria um superávit primário crescente até o nível de 1,5% a 2% do PIB em quatro anos. A alternativa, produzir ajustes agressivos para um ou dois anos, não seria aprovada no Congresso e, caso fosse, jogaria a economia em recessão em 2027.

BC não se dobra a pressões políticas, por Alvaro Gribel

O Estado de S. Paulo

Sozinho no combate à alta de preços, BC segue sendo âncora da economia em um cenário de incertezas

O Banco Central decidiu por unanimidade manter a taxa Selic em 13,75% ao ano, dez dias após o segundo turno das eleições que garantiram ao presidente Lula mais um mandato. A decisão é amparada pelos dados, já que houve uma forte piora das expectativas de inflação. Mais do que os números do mercado, o que pesou foi a projeção do próprio BC, que se descolou do centro da meta.

A atual diretoria demonstrou, mais uma vez, que não está preocupada com pressões políticas, mesmo após dias de debate em torno de uma tese do economista André Lara Resende que defendia cortes e tabelamento da taxa Selic.