domingo, 1 de novembro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais\Opiniões

Lula tem chance de fazer governo mais responsável

Por O Globo

Aceno ao centro depois da vitória foi positivo. Espera-se que, desta vez, ele honre a frente ampla que o reelegeu

Logo depois de confirmada sua vitória na eleição, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fez um discurso em São Paulo. Antes de falar, fez questão de passar a palavra ao vice, Geraldo Alckmin, e de dizer que ele ocuparia espaço maior em seu próximo governo. “Estas eleições me ensinaram muitas lições”, disse. “Posso garantir a vocês que vamos mudar o jeito de governar o país.” Espera-se que, desta vez, Lula honre suas palavras.

Há dúvidas pertinentes, pois não foi o que aconteceu no mandato que se encerra. Em 2022, depois de uma eleição turbulenta, marcada por contestação aos resultados, atos antidemocráticos e até uma tentativa de golpe, Lula foi incapaz de entender que sua vitória sobre o então presidente Jair Bolsonaro (PL), pela margem estreita de 2,1 milhões de votos, só havia sido possível graças à formação de uma frente ampla reunindo setores da sociedade que não orbitavam em torno dele ou de Bolsonaro — e estavam simbolizados na escolha do próprio Alckmin (antes ferrenho adversário do PT) para a Vice-Presidência.

Duas táticas de esquerda: hegemonismo do PT ou aliança com os liberais, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

A mobilização popular do segundo turno compensou a fragilidade da aprovação governamental e devolveu centralidade à defesa da democracia na reeleição de Lula

A discussão sobre a composição do novo governo Lula e sua política econômica remete-se a controvérsias históricas da esquerda: como combinar identidade própria, mobilização popular e alianças com forças que não compartilham seu projeto? Vladimir Lênin, o líder bolchevique, e Antonio Gramsci, o maior marxista ocidental, protagonizaram esse debate na Rússia autocrática de 1905 e na Itália fascista da década de 1930. Entre ambos e a Constituição de 1988, há uma distância intransponível.

Em Duas táticas da social-democracia na revolução democrática (Boitempo), Lênin sustentava que a burguesia liberal russa não levaria até o fim a luta contra o czarismo. Temia mais a iniciativa dos trabalhadores do que a sobrevivência da autocracia. Caberia ao proletariado, aliado ao campesinato, dirigir a revolução democrática. A questão era quem comandaria a transformação, antes mesmo da passagem ao socialismo. Isso admitia convergências circunstanciais com liberais, mas recusava a subordinação política a eles. Essas teses permanecem vivas na esquerda brasileira.

A virada dos estudantes, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Alunos de Direito da UFF iniciaram mobilização de rua que tomou o país e ajudou a barrar a volta do bolsonarismo

Quando os historiadores do futuro forem narrar a virada eleitoral de 2026, um capítulo terá que ser dedicado ao levante dos estudantes. Eles começaram a sair da toca em Niterói, na noite chuvosa de segunda-feira que se seguiu ao primeiro turno.

Alarmados com a votação do candidato da extrema direita, alunos da Universidade Federal Fluminense convocaram um ato público diante da Faculdade de Direito. O espaço ficou pequeno, e a turma resolveu sair em passeata rumo à Praia de Icaraí.

O voto distrital é coisa séria, por Elio Gaspari

O Globo

Este é um assunto complicado e chato, mas mudará a cara da política nacional e, se bobear, realizará o sonho do cacique que quer mandato sem ter voto

No meio da quizumba provocada por Flávio Bolsonaro, o presidente da Câmara, Hugo Motta, reuniu líderes para começar a desenhar um projeto de reforma eleitoral. Parece bobagem, mas pode resultar numa tunga parcial do direito de escolha dos parlamentares. É um assunto complicado e chato, mas mudará a cara da política nacional e, se bobear, realizará o sonho do cacique que quer mandato sem ter voto.

A novidade viria com a criação do voto distrital. O país seria dividido em distritos e os candidatos disputariam as cadeiras no mano a mano. Quem tiver mais votos, ganha. É o sistema americano. Simples, antigo e eficaz.

Falta dizer quem vai desenhar os distritos. Tome-se um exemplo grosseiro do Rio de Janeiro. Se o distrito tiver um formato, do Leblon à Barra da Tijuca, a Rocinha pobre nunca elegerá um deputado. Desenhando-se o distrito em outro sentido, indo de São Conrado e da Gávea até Cidade de Deus, a banda próspera da cidade nunca elegerá um deputado.

As multidões digitais, por Merval Pereira

O Globo

A pergunta fundamental não é quantas pessoas um político consegue mobilizar, mas para quê e de que maneira as mobiliza

Confesso que não tenho muita simpatia para mobilizações como as do “Exército do Lula”, embora admita que foi fundamental para a virada nas eleições presidenciais. Mas sempre me incomodou a linguagem militarizada utilizada pelo deputado Janones para arregimentar os apoios. Achei até engraçado quando Lula disse que se alistara no exército com o codinome de “Marechal Silva”. O caso oferece uma oportunidade para refletir sobre os limites entre a legítima mobilização política e a transformação de cidadãos em instrumentos de uma estratégia de poder. Principalmente agora que, passada a eleição, o tetra-presidente anuncia que vai usar o seu “Exército” para se aproximar dos cidadãos.

O risco da escolha errada na economia, por Míriam Leitão

O Globo

A luta democrática se trava também na economia. Se o novo governo Lula errar, vai fortalecer o discurso antidemocrático

Na economia, um erro de diagnóstico é fatal. E há uma discussão dentro do Planalto que pode levar a um erro de diagnóstico. O presidente Lula quer evitar o que houve no começo do segundo governo Dilma em que a inflação subiu e o PIB entrou em forte recessão, deteriorando o apoio popular. Está certo. Mas, como evitar? Um grupo diz ao presidente que o erro foi cometido pela tentativa de ajuste em 2015, ou seja, por Joaquim Levy. Outro grupo diz que foram os erros acumulados no primeiro mandato da presidente, ou seja, por Guido Mantega. Quem tem razão é o segundo grupo. É a doença que se combate e não o remédio. O presidente está com mais ouvidos para o primeiro.

Elefante, por Dorrit Harazim

O Globo

Bibi tinha contra si o fatídico massacre terrorista do 7 de Outubro de 2023, ainda sem explicação pelas falhas na segurança

Na semana passada, o jornal Financial Times qualificou o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu de “Houdini de Israel” ao analisar o quadro eleitoral resultante da votação de terça-feira. Em parte a comparação é acertada. Harry Houdini foi o genial mágico, ilusionista e prestidigitador da virada do século XX que fascinou multidões globais com sua arte de se desvencilhar de correntes e cadeados múltiplos, cofres submersos, amarras sufocantes. Bibi Netanyahu, por sua vez, conseguiu emergir das urnas pronto para lutar pelo poder que já ocupa há quase duas décadas (seis mandatos em três períodos distintos). Aos 77 anos, sua sobrevida política pôs um freio à recente lufada de vento democrático que brotou nas ruas — e reelegeu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Brasil, derrotou o regime autoritário de Aleksandar Vucic na Sérvia e pretende dar uma sova em Donald Trump nas eleições de meio de mandato desta terça-feira, 3 de novembro.

Entrevista | 'Bolsonarismo não está derrotado, está disseminado. Basta ver os patrões demitindo funcionários que votaram no Lula', diz filósofo Renato Lessa

Para Renato Lessa, da PUC-Rio, carta de Flávio Bolsonaro após derrota para Lula foi tiro no pé, porque o desqualificou como líder mesmo após votação notável.

Por Vinícius de S. Mendes BBC New/ Correio Braziliense

A ida de Flávio Bolsonaro (PL), candidato derrotado na eleição presidencial, para a Flórida, nos Estados Unidos, terá efeitos significativos na vida política do Brasil — sobretudo para o campo da direita que, na análise do filósofo político Renato Lessa, professor do Departamento de Direito da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), tem agora uma chance de voltar à superfície.

É que, à medida em que o bolsonarismo ficará politicamente desorganizado, com o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) preso, e seus filhos mais velhos, Flávio e Eduardo, no exterior, diz Lessa, a direita democrática — que estava "colonizada" — poderá reequilibrar o jogo de forças com a esquerda, tal como aconteceu depois da Constituição de 1988 até os anos 2010.

"Sempre que se fala em autocrítica, é para se referir à esquerda, mas a direita também precisa fazer uma autocrítica. Talvez esse seja o momento. Seria importante se a política brasileira voltasse ao eixo", diz ele à BBC News Brasil.

Mas isso não quer dizer que o bolsonarismo, como fenômeno social, ficará mais fraco. Na verdade, observa ele, é só indo além dos dados quantitativos que se pode compreender a magnitude dele em sua essência.

Lessa defende que se expressa como força eleitoral (Flávio teve 59,8 milhões de votos no segundo turno) existe, fora dos intervalos entre eleições, como um padrão de comportamento cada vez mais comum espalhado pelo "terreno da brutalidade brasileira".

"Não é apenas político. Isso também produz subjetividade, um sujeito", afirma ele, que também é pesquisador da Universidade de Lisboa, em Portugal.

Lessa o chama, desde 2020, de homo bolsonarus: um sujeito "violento", para quem os adversários são "inimigos que devem abatidos" e que almeja estabelecer uma espécie de liberdade natural como norma do convívio social do país, sem mediações das leis ou convenções.

"Tudo o que constitui o 'estado de natureza brasileiro".

Mas a irrupção do homo bolsonarus na política brasileira só foi possível, na análise do filósofo, após a ruptura na trajetória de aprofundamento da democracia causada pelo impeachment de Dilma Rousseff (PT), entre 2015 e 2016.

Até ali, esse processo — reiniciado com a eleição de Fernando Henrique Cardoso, então no PSDB, em 1994 — vinha ampliando os direitos coletivos (sociais, políticos, etc.) e forjando o que ele chama de um homo democraticus.

"O bolsonarismo é a extrema politização de uma coisa que existia [antes de 2018] apenas na forma não politizada. Ela estava espalhada pela sociedade e, ali, passou a ser um fato político. Daí foi para o mundo eleitoral, tomando os partidos políticos, conquistando cargos e, enfim, chegando à Presidência".

O bolsonarismo é, assim, um fenômeno inédito na história política do Brasil, por ser o único movimento que surgiu espontaneamente, sem herdar nenhum traço de dinâmicas do passado.

Ele lembra, nesse sentido, que mesmo a ditadura militar, entre 1964 e 1985, manteve algumas lógicas da Constituição de 1946, tanto quanto do segundo governo de Getúlio Vargas (1951-1954), como as leis trabalhistas, por exemplo.

"Mas o que aconteceu de 2019 em diante é apenas destruição", sentencia. "É um fenômeno da categoria de patologia política".

No entanto, a derrota de Flávio nas urnas, a segunda de um Bolsonaro diante de Lula, não decreta o fim do bolsonarismo, pelo contrário. "O homo bolsonarus está disseminado. Basta ver os patrões demitindo funcionários que votaram no Lula."

Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

EUA, Brasil e a realidade, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

O último capítulo da novela Flávio Bolsonaro começou a ser escrito no “esbarrão” do chanceler Mauro Vieira com o secretário de Estado Marco Rubio, na sexta-feira, quando eles abriram o caminho para boas relações entre Brasil e Estados Unidos no quarto mandato de Lula, como impõem a realidade, a diplomacia e o bom senso.

Flávio se deu uma importância que não tinha, passou vergonha para o mundo e logo será apenas um imigrante a mais nos EUA, enquanto o pragmatismo de Lula e Donald Trump entra em ação e os reais interesses dos dois países serão postos na mesa da diplomacia, e não dos negócios, como seria entre Flávio e Trump.

O Brasil de Lula pode virar alvo de Trump, por Lourival Sant’Anna

Donald Trump tem interesse em difundir a percepção de que a esquerda vence eleições mediante fraude. E de que não abandona seus aliados estrangeiros. Mas, por ora, não pretende deteriorar as relações com o presidente Lula. Isso fica claro nas declarações de Trump e na forma como o governo americano ajudou Flávio Bolsonaro a chegar aos EUA. O avião do trecho Puerto Iguazú-Miami foi fretado por Jason Miller, assessor de comunicação de Trump para as eleições ao Congresso de terça-feira.

Miller não é funcionário da Casa Branca, e o envolvimento do Departamento de Estado no acolhimento a Flávio foi burocrático, por meio da emissão de vistos. Não que no departamento não haja o desejo de acuar o governo Lula. Mas seu envolvimento institucionalizaria a aliança entre Trump e os Bolsonaros, prejudicando a relação com o Brasil.

Alivio democrático, por Rodrigo Nunes*

Folha de S. Paulo

Um governo apenas de normalização institucional é muito pouco contra ameaças que nos assombram

Será indispensável manter mobilização social e ousadia para emparedar bolsonarismo

[RESUMO] Triunfo histórico de Lula merece ser celebrado pelos defensores da democracia, mas não podemos nos enganar sobre a gravidade da situação. O voto bolsonarista segue crescendo, consolidou domínio no Congresso e por pouco não leva a Presidência, impulsionado pela desintegração social em todo o mundo após 50 anos de neoliberalismo. Reverter esse quadro exigirá do governo federal preservar ao longo dos próximos quatro anos o senso de urgência descoberto no segundo turno, começando a se preparar para 2030 desde já.

Com uma inédita virada no segundo turno, Luiz Inácio Lula da Silva ganhou um inédito quarto mandato como presidente naquela que foi, sem dúvida, a eleição mais dramática da história do país.

Mais uma vez, a democracia brasileira respira aliviada após escapar por um triz do maior risco por que passou desde o fim da ditadura militar. Mas se o retorno de Lula há quatro anos pareceu ser interpretado por muitos como sinal de que a ameaça fora definitivamente derrotada, é preciso desta vez levar muito a sério o que as urnas indicam: ela não apenas não foi embora, como segue crescendo.

A última dança de Lula, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Direita decente escapou de se tornar cúmplice do que teria sido um novo governo Bolsonaro

Flávio da derrota nos mostrou o que teria sido o Flávio da vitória: golpe, Willer Tomaz e Trump

A última campanha presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva passou pela avenida celebrando o que Silas, Décio e Manoel chamaram de brisa que a juventude afaga, chama que o ódio não apaga.

Passaram pela avenida jovens com esperança e velhos com memória; mulheres que apavoram o fascismo, Ana Elisa, Ana Júlia, Tábata, Érika, Marina, Benedita, Simone; o ex-cobrador de ônibus André Janones lutando nas redes e os velhos sindicalistas lutando nas ruas; a garotada de esquerda tentando repensar as utopias e direitistas que, quando votaram em Lula, passaram em um teste de convicção democrática em que pouca gente passaria; artistas e atletas que merecem respeito infinito por terem dado a cara a tapa na hora do vamos-ver.

Ódio excepcional, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Livro conta a história de como as cortes dos EUA trataram o antissemitismo

Autor propõe equilibrar melhor liberdade de expressão e proteção a minorias

Um dos grandes debates jurídicos da atualidade é sobre o alcance da liberdade de expressão num contexto de instrumentalização política dos chamados discursos de ódio amplificada pelas redes sociais. Nesse quesito, os EUA, por colocarem a defesa do "free speech" num pedestal quase inviolável, despontam como exceção entre os países democráticos.

Imagens fortes de uma campanha, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Cena no Rio condensa herança escravista e hierarquia racial

Multidão em São Paulo expressa diversidade etária e alegria

É possível que, na origem latina, imagem signifique apenas a aparência de alguma coisa. Com seu domínio no mundo atual, porém, ela tanto representa algo existente como permite uma compreensão da realidade. Isso vem a propósito de duas imagens destinadas a ficar na história crítica das campanhas pela última eleição presidencial. Uma, na passeata bolsonarista na Barra da Tijuca (RJ), mostrava um negro fantasiado de diabo, em cores vermelhas, tridente na mão, acorrentado por um branco, que invectivava contra satanás e o PT. A outra, na avenida Paulista (SP), coberta de bandeiras e roupas vermelhas, exaltava Lula.

O ambiente é de reequilíbrio de forças no Congresso, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

As vitórias no primeiro turno não garantem à direita o predomínio da oposição nas atividades legislativas

O Parlamento não se conduz pela lógica da eliminação do adversário que preside as disputas eleitorais

No domingo, 18 de outubro, enquanto a direita já se organizava em torno da presumida vitória dali a uma semana, Gilberto Kassab lançava olhar de águia sobre o debate na Band que terminara no zero a zero e vaticinava: "Vai ganhar o Lula".

Segundo o presidente do PSD, era o que dizia a curva ascendente das intenções de voto nas pesquisas, diante do empate. Essa avaliação explica por que o partido não se afobou na corrida do centrão rumo a Flávio Bolsonaro (PL) e manteve a neutralidade, preferindo equilibrar-se entre as duas canoas em disputa na regata.

Nem todo conservador, mas sempre um bolsonarista, por Mariliz Pereira Jorge

Folha S. Paulo

Lei protege o cidadão na frente da urna, mas deixa qualquer pessoa desamparada diante da multidão

Quem mais exige posicionamento alheio costuma ser o primeiro a cancelar quem pensa diferente

Em 1932, o Código Eleitoral criou a cabine indevassável para encerrar o voto de cabresto. Noventa e quatro anos depois, esse espaço segue intacto —quer dizer, mais ou menos, porque já temos vigias de gestual tentando adivinhar pelo movimento do braço ou do dedo se o sujeito digitou 13 ou 22. Ainda assim, o problema maior acontece do lado de fora.

Nem todo conservador, mas sempre um bolsonarista. Basta abrir o noticiário para ver de onde parte a chantagem do desemprego. É a mesma turma que bate no peito pela liberdade de recusar vacina, guardar fuzil em casa ou negociar direto com o patrão a jornada e o salário. Porém, essa autonomia toda some quando o subordinado resolve apertar o 13 na urna. Aí a escolha pessoal vira motivo de justa causa.

Entrevista | Boulos* fala em chantagem do mercado sobre ajuste fiscal e defende corte em desoneração e supersalário

Por Arthur Guimarães de Oliveira e Juliana Arreguy\Folha de S. Paulo

Ministro diz que vitória de Lula indica apoio popular a políticas públicas e que cortes devem mirar emendas e supersalários

Mobilização nas redes e nas ruas, afirma ele, será necessária para garantir governabilidade do presidente

O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos (PSOL), diz ver uma chantagem do mercado no debate sobre ajuste fiscal no novo governo do presidente Lula (PT) e afirma que os cortes devem mirar privilégios, não o "lombo dos mais pobres".

A receita para economizar, segundo ele, inclui discutir temas como desonerações fiscais, supersalários e emendas parlamentares impositivas.

"Você não pode contrapor uma chantagem de mercado à vontade popular. Isso é anular a democracia", diz o ministro em entrevista à Folha.

Do fim de 2022, antes do terceiro mandato de Lula, a julho de 2026, a dívida pública passou de 71,7% do PIB (Produto Interno Bruto) para 82,5%.

Sobre a sucessão de Lula, Boulos afirma que o momento não é o de discutir quem será a próxima grande liderança progressista, mas sim o de garantir um "mandato biográfico" para a quarta passagem do petista pelo Palácio do Planalto.

Poesia | Verdade, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Chico Buarque - Que tal um samba? com violão Hamilton de Holanda

 

sábado, 31 de outubro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais\Opiniões

Vitória de Lula e vergonhosa fuga de Flávio

Por Revista Será?

Com uma contundente vitória eleitoral, o presidente Lula da Silva se consolida como a maior liderança popular do Brasil que permitiu aos brasileiros impedir a volta da família Bolsonaro ao poder com os riscos para a democracia. Mesmo derrotado, o senador Flávio Bolsonaro recebeu 59,8 milhões de votos, em grande parte pela atração do antilulismo e da insatisfação de parcela dos brasileiros com o terceiro mandato de Lula. O ranço autoritário do bolsonarismo não permitiu que Flávio aceitasse o resultado das urnas – confirmado pelo TSE e seu presidente, Nunes Marques, Ministro indicado por Jair Bolsonaro – nem reconhecesse a vitória de Lula, o que lhe permitiria aspirar a uma posição de líder da direita brasileira.

O futuro que virá, por Marco Aurélio Nogueira*

O Estado de S. Paulo

O horizonte é de dificuldades, ruídos e tensões. Precisamos ingressar numa dimensão pós-bolsonarista e pós-lulista 

Vitórias eleitorais não caem do céu. Vitórias podem ser explicadas por mudanças circunstanciais, por abalos inesperados que alteram a correlação de forças, truques de marketing, lufadas de sorte e acaso. Porém, numa disputa acirrada como a que tivemos no Brasil, a vitória de Lula não ocorreria sem mobilização e engajamento. O repúdio ao bolsonarismo levou milhões de jovens, idosos, homens e mulheres às redes e às ruas. Foi uma arrancada vigorosa, com emoções à flor da pele.

Não foi uma vitória da “esquerda”, mas do conjunto dos democratas – dos socialistas aos liberais e conservadores –, dos cidadãos sem partido e cheios de sonhos na cabeça.

Metade dos eleitores sufragou a candidatura da ultradireita, mantendo viva a base da polarização tóxica dos últimos anos. Como dissolver os laços que ligaram 60 milhões de cidadãos às fantasias bolsonaristas? A democracia não pode simplesmente descartá-los. Uma sociedade culturalmente rica e diversificada como a brasileira não pode ser refém de fanatismos e procedimentos de “ordem unida”. Parte da população não se sente acolhida pela democracia representativa e não aceita a esquerda, que é mais fechada e restrita do que fazem acreditar os discursos de Lula. A esquerda brasileira tem pouco poder de diálogo.

Encontro marcado com o império da lei, por Oscar Vilhena Vieira*

Folha de S. Paulo

Campo democrático precisará superar suas divergências para neutralizar milicianos

Primeiro teste será a aprovação da chamada PEC da Segurança Pública no Congresso

Se o Brasil não for capaz de fortalecer seu Estado de Direito, reformando e modernizando suas instituições de Justiça e segurança, a democracia brasileira será novamente colocada em risco por extremistas autoritários, que buscaram capturá-la nesta eleição.

O importante é que a democracia sobreviveu. Milhões de brasileiros foram conscientemente às ruas para defendê-la e usaram o voto para impedir que um clã de desordeiros corruptos e autoritários retomasse o poder. Não podemos nos esquecer que outra metade do Brasil se deixou, mais uma vez, seduzir pelo bolsonarismo, ainda que muitos desses eleitores não comunguem de seus valores.

A polarização é menor do que se imaginava, por Fareed Zakaria

O Estado de S. Paulo

No mundo todo, eleitores estão abandonando suas lealdades políticas a uma velocidade recorde

A imagem que temos dos EUA é a de um país profundamente dividido, separado pela educação, pela classe social e pela cultura em dois campos rivais que não se suportam. Quando se observa Donald Trump em campanha eleitoral ou se dá uma olhada nas redes sociais, essa percepção é constantemente reforçada.

Mas as pesquisas, à medida que nos aproximamos das eleições de meio de mandato, sugerem que talvez tenhamos deixado passar algo muito importante sobre os EUA de hoje. Trata-se de um país em transformação, com grande parte da população inquieta quanto ao futuro e incerta quanto a quaisquer lealdades políticas. Em outras palavras, o país está politicamente em aberto.

Aos vencedores, o governo, por Flávia Oliveira

O Globo

Candidatura de Flávio jamais deveria ter sido levada a sério

O Brasil, felizmente, acordou a tempo da hibernação que por pouco não fez presidente da República um senador sem brilho, herdeiro de um líder político golpista, mergulhado em investigações por crimes comuns, de corrupção passiva a lavagem de dinheiro e evasão de divisas. A candidatura de Flávio Bolsonaro, alavancada pelo capital político do pai, jamais deveria ter sido levada a sério, seja pela escassez de propostas, seja pela biografia minúscula, cujo epílogo (espera-se) contém vexatória fuga para os Estados Unidos e uma carta à nação em que se proclama “presidente eleito” num pleito em que foi derrotado por mais de 4,4 milhões de votos, mais que a população inteira da Paraíba.

É o fim do bolsonarismo? Por Thaís Oyama

O Globo

Mercado de votos está de agora em diante aberto — e pronto para ser disputado por quem se provar viável para enfrentar petismo

Os Bolsonaros já haviam provado sua tendência à autocombustão. Antes da incineração política de Flávio na quarta-feira, o pai fora preso por tentar incendiar a República, e o irmão Eduardo se lançara ao autoexílio na campanha pelo tarifaço americano contra o Brasil. Ao abandonar o país dois dias depois de receber quase 60 milhões de votos — e divulgar dos Estados Unidos uma carta sobretudo ridícula —, o primogênito seguiu a tradição familiar.

Hoje, da cesta de onde Jair tirou o Zero Um e o Zero Três, já não há sucessor eleitoralmente competitivo para comandar a direita. Carlos, Jair Renan e Laura — por inapetência, inaptidão ou pouca idade — não podem ser considerados. Michelle pode disputar o espólio, mas seus enteados não a reconhecem como sucessora, nem a maior parte da bancada do PL que gravita em torno de Flávio e Eduardo. Jair, por sua vez, está virtualmente inelegível pelo resto da vida. Estaria o bolsonarismo em via de extinção?

Desinteligência abissal, por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

Flávio Bolsonaro seria o principal nome da política brasileira com chances de rivalizar com o presidente da República. Poderia exercer a função de líder de uma oposição numerosa e eficaz. Jogou tudo fora

Tarcísio Gomes de Freitas é um homem de sorte. Aos 51 anos, depois de passar pela Academia Militar das Agulhas Negras, pelo Instituto Militar de Engenharia, pela Consultoria Legislativa da Câmara dos Deputados e pelo Ministério da Infraestrutura, ele, apesar de carioca, foi eleito governador de São Paulo. Sorte é outro nome de competência. O político, que iniciou sua vida pública como burocrata bem preparado, preferiu não ficar sob o controle de Jair Bolsonaro e se desviou do possível confronto eleitoral com o presidente Lula. Foi reconduzido ao Palácio Bandeirantes com folga, eleito no primeiro turno. Além disso, de repente, as portas da política brasileira se abriram à sua frente. 

O que uma boa eleição nos ensina? Por Juliana Diniz*

O Povo (CE)

Acreditando na política, participando ativamente das eleições, o brasileiro decidiu dedicar tempo e energia para a defesa de uma ideia de Brasil. Uma energia que atravessou os dois campos, cada um pleiteando o seu projeto de preferência

A democracia brasileira sai mais forte das eleições de 2026, e me refiro ao que boa parte da sociedade exercitou, compreendeu e reivindicou nos últimos meses. Vale a pena refletirmos sobre esses aprendizados de amadurecimento político.

Em primeiro lugar, eu ressaltaria a defesa forte da Constituição de 1988. Um dos pontos mais relevantes do debate vivenciado entre os dois turnos se deu em torno da proposta do candidato Flávio Bolsonaro de mudar a constituição. Sabemos que nenhuma constituição é eterna, mas a reação popular à possibilidade de uma mutilação da identidade constitucional foi digna de nota e obrigou o candidato a se explicar.

Celebrar é preciso, por Elimar Nascimento*

Revista Será?

Desculpem meus amigos acadêmicos, filósofos, analistas políticos, intelectuais e jornalistas. A semana é de celebrar. Os jornalistas são os únicos que têm desculpas de não o fazerem por razões profissionais. Às vezes até penso que esses personagens não dormem.

Antes de fazer cenários e conjecturas sobre o quarto mandato de Lula, que não vai ser fácil, deve-se celebrar o salto que demos. Conseguimos evitar um governo golpista, corrupto como poucos e subserviente. A natureza agradece. E os que sofrem de insegurança alimentar também.

Celebrar é essencial, sobretudo, pelo feito realizado, quando a vitória foi alcançada não apenas por um homem ou dois, por um ou dois partidos, por um grupo de mulheres ou de jovens, por uma região ou outra, mas por um trabalho de milhões que se engajaram nas redes, saíram às ruas e se dirigiram a familiares, amigos, colegas e vizinhos para convencer os que não votaram no primeiro turno a votar em Lula, assim como trabalharam junto aos que votaram nulo ou branco. Porém, isso não era suficiente e milhões de pessoas foram mais longe: convenceram milhões de eleitores ou eleitoras a mudarem de voto, fazer aqueles e aquelas que votaram no candidato do PL votarem no Lula.

O dilema de Lula, por Sérgio C. Buarque*

Revista Será?

O presidente Lula da Silva obteve uma vitória eleitoral consagradora, com grandes manifestações populares que se traduziram em 64,2 milhões de votos, superando o adversário em mais de quatro milhões de votos. Lula passa à história brasileira com quatro mandatos presidenciais e quase 20 anos de participação direta ou indireta nas decisões políticas do Brasil. Passadas as eleições e as comemorações da vitória, Lula terá que governar o Brasil em condições políticas adversas, a força futura da oposição no Congresso, e tendo que lidar com graves restrições fiscais para realizar as promessas e atender às enormes expectativas da sociedade.

Netanyahu ainda não perdeu, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Bloco do premiê não atinge as 61 cadeiras para manter-se no poder

Oposição só consegue maioria se tiver apoio formal ou informal dos árabes

Binyamin Netanyahu não venceu, mas também não perdeu a eleição em Israel. A coalizão de extrema direita que sustenta o governo viu sua representação reduzir-se e não terá mais os 61 assentos necessários para manter-se no poder. Encerrada a apuração, o bloco de Netanyahu conquistou 53 das 120 cadeiras do Parlamento, enquanto a oposição sionista, liderada por Gadi Eisenkot, obteve 48. As 19 cadeiras restantes caberão às duas coligações de partidos árabes.

Filho 01 vira chacota e abala o bolsonarismo, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Mais do que golpista, carta do presidente Flávio é ridícula

EUA sob Trump se transformam em esconderijo de políticos corruptos

Triste destino o dos Estados Unidos sob Donald Trump. Tornar-se o valhacouto de um investigado por corrupçãqo em fuga que, ao desembarcar no aeroporto, recebe as boas-vindas da polícia e a promessa do Departamento de Estado de que em breve, desculpe a demora, o visto de permanência no país estará pronto. Por enquanto, tome aqui o visto humanitário. Sinta-se em casa.

Haja ajuste, por Luiz Gonzaga Belluzzo

 

CartaCapital

O pessimismo do mercado e a imposição de uma agenda

As regras autodestrutivas da finança são capazes de apagar o sol e as estrelas porque não pagam dividendos (John Maynard Keynes)

O tiroteio ­travado na campanha eleitoral sobre os ­rumos da economia culminou, entre trancos e barrancos, no desfecho entre a mídia e os resultados das urnas. A Bolsa de Valores para baixo e o câmbio para cima revelaram o pessimismo do mercado financeiro e o mau humor da “grande imprensa”.

As opiniões dos articulistas ­ressoam as certezas das gentes dos mercados. Nada resta ao governo Lula senão enveredar pelas alamedas do ajuste fiscal. Os sábios da Crematística abrigados nas manchetes e nas colunas de opinião celebram: “Aleluia, teremos as políticas corretas”. Sendo assim, diria Luís de Camões, às opiniões divergentes resta ensarilhar as armas e deixar que os barões assinalados toquem o barco por mares já dantes navegados, sem abandonar, é claro, as impertinências do Velho do Restelo: a nau pode afundar na Taprobana.

Rei morto, rei posto, por Cláudio Couto*

CartaCapital

A fuga de Flávio Bolsonaro acelera a disputa sucessória na ultradireita

Desde a chegada de Jair Bolsonaro à Presidência, em 2018, os brasileiros se acostumaram a viver sobressaltados com a política. Quase todos os dias, principalmente durante o quadriênio bolsonarista no governo federal, algum absurdo ou bizarrice nos surpreende. Paradoxalmente, as surpresas são tantas que já nem surpreendem tanto assim. Ressalve-se que nisso o clã Bolsonaro não age sozinho, pois conta com a colaboração até mesmo de quem deveria zelar pela tranquilidade do País, o Supremo Tribunal Federal. Entretanto, também aqui não há como desvincular ações atabalhoa­das de membros da Corte do ambiente de caos que a ultradireita suscita. Reconheçamos que ainda antes de 2018 o STF era dado a extravagâncias. Porém, os inúmeros descalabros já consumados ou perto de serem praticados pelo bolsonarismo levam o tribunal a produzi-las em maior quantidade, às vezes porque a Corte, no cumprimento de suas atribuições, é de fato instada a fazê-lo, noutras ocasiões, contudo, porque os desplantes bolsonaristas lhe oferecem pretextos.

A vitória de uma ideia, por Sergio Lirio

CartaCapital

Os eleitores não escolheram o político Lula, mas o que ele representa

“Não sou um ser humano, sou uma ideia. E não adianta tentar acabar com as ideias.” Poucas horas depois de pronunciar a frase, no início da tarde de 8 de abril de 2018, Lula abriria caminho no mar de apoiadores que separava os policiais federais enviados para cumprir a ordem de prisão emitida pelo juiz Sergio Moro na sede do Sindicato dos Metalúrgicos em São ­Bernardo do Campo. Foram 580 dias de reclusão sem crises de soluço, palpitações ou falta de ar, até o Supremo Tribunal Federal restabelecer os direitos políticos confiscados pela República de Curitiba. Lula falava àquela altura das maquinações da força-tarefa de Curitiba para encarcerá-lo sem provas, mas a afirmação sobreviveu ao tempo e nunca fez tanto sentido como agora. No domingo 25, na mais espetacular inversão de expectativas de uma disputa eleitoral, a maioria dos brasileiros aptos a votar não escolheu um ser humano, um político em carne e osso. Escolheu o que ele representa. Pela primeira vez o petista não carregou nos ombros uma porção do País, foi carregado por ela, em uma onda que se agigantou em três semanas e se tornou avassaladora nas ruas e nas redes sociais. Um tsunami, na verdade, que afogou as manipulações da Justiça Eleitoral, da Faria Lima e das big techs, boias lançadas na esperança de converter Flávio Bolsonaro, náufrago sem rumo, em comandante do transatlântico. Sensato, o eleitor salvou o Brasil do desatino e do destino do Titanic.

Sangue, suor e lágrimas, por André Barrocal

CartaCapital

A virada inédita de Lula ganha contornos épicos que lembram a Batalha de Stalingrado

A Batalha de Stalingrado mudou o curso da Segunda Guerra Mundial. A Alemanha nazista estava no auge da força em 1942, ocupava boa parte da Europa, quando invadiu o sul da União Soviética. Foi uma carnificina, milhares de baixas de lado a lado. No início de 1943, seis meses depois, os russos expulsavam as tropas de Hitler. A derrota total dos nazistas na guerra era questão de tempo. Certa vez, um colaborador do presidente Lula comparou as atuais eleições brasileiras àquela batalha. Os “tarifaços” dos Estados Unidos, o apoio de Donald Trump a todos os direitistas em disputas presidenciais nas Américas, o triunfo desses candidatos e o desejo da Casa Branca de fazer da região seu “quintal” deixavam Lula sob cerco da extrema-direita. O presidente petista era o último bastião contra a dominação de Tio Sam nas Américas. A vitória contra Flávio Bolsonaro, o candidato do chefe da diplomacia imperialista ianque, foi épica como a dos soviéticos em Stalingrado.