domingo, 8 de novembro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais\Opiniões

Caso Master não pode acabar em pizza

Por O Globo

Não dá para o Supremo se esquivar e ignorar a maior fraude bancária da História brasileira

As eleições acabaram, o ano está perto do fim, Executivo e Legislativo se preparam para receber novos mandatários — e o caso Master parece ter ficado para trás. As investigações da maior fraude bancária do Brasil revelaram relações comprometedoras de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, com os três Poderes, inclusive o Supremo Tribunal Federal (STF), onde é julgado. O mínimo que a sociedade espera é a conclusão ágil das apurações em todas as ramificações — e elas são muitas —, para identificar e punir os culpados, independentemente de nomes ou cargos que ocupem.

Entrevista |Debate sobre juros tem tudo a ver com mobilização juvenil e popular que levou Lula à vitória, diz André Singer

Cientista político afirma que pacote para bolso do eleitor, ruas mobilizadas e apoio de Janones foram chave da vitória de Lula, mas que avanço da direita radical é 'ameaça' que não desaparece com resultado da eleição.

Marina Rossi - Da BBC News Brasil

A vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições deste ano foi, em grande parte, sustentada pela mudança de postura do governo, que passou a dialogar com as necessidades reais da população.

Extinguir as bets, reconhecer o alto preço dos alimentos e criar medidas com impacto direto no bolso da população foram iniciativas cruciais para a virada do primeiro para o segundo turno, analisa o cientista político André Singer, professor titular do Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP).

Mas o autor do recém-lançado Impasse - O Brasil diante da onda reacionária (Companhia das Letras), dentre outras obras, afirma que, a despeito da vitória no Brasil e da mais recente derrota de Donald Trump nas eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, a democracia ainda corre risco.

"Estamos diante de uma extrema-direita violenta e abertamente antidemocrática", afirma Singer em entrevista à BBC News Brasil.

Uma das explicações para o avanço da direita radical, segundo o pesquisador, seria o agravamento das desigualdades causado pela crise financeira de 2008, apontada como a pior recessão global desde a Grande Depressão de 1929.

De lá para cá, não importa muito quem vem ganhando as eleições: a vida das pessoas não está melhorando, defende Singer. "A sociedade continua com a corda no pescoço e sem horizonte de futuro para si e para os seus filhos", afirma.

Parte dessa população, portanto, se deslocou para a direita radical, que avançou muito nos últimos anos em todo o mundo.

"A boa notícia que eu posso dar para quem é favorável à democracia, como é meu caso, é que a extrema-direita também não está encontrando solução para essas pessoas."

Leia abaixo os principais trechos da entrevista.

Sete Prisioneiros, Informações sobre a vítima e Abusado no Brasil noir, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O SUSP oferece uma base para integrar instituições e, agora, foi constitucionalizado, o que aumenta a responsabilidade do governo federal no combate ao crime organizado

Um investigador solitário, um traficante cercado pelas contradições do morro e um jovem aprisionado pela exploração do trabalho revelam como violência, desigualdade e corrupção se articulam com a vida cotidiana e a economia. Dinheiro e agentes públicos atravessam a fronteira sinuosa entre legalidade e crime de um Brasil noir.

Publicado em 2002 pela Companhia das Letras, Informações sobre a vítima marca a estreia do ex-delegado Joaquim Nogueira no romance. Seu protagonista, Venício, está longe dos superdetetives: solitário, mora num apartamento modesto, dirige um Fusca e usa o telefone da vizinha. Investiga por conta própria o assassinato de um amigo policial, movido pela lealdade e por um senso pessoal de justiça.

Votar presta, por Dorrit Harazim

O Globo

As eleições de meio de mandato de terça-feira nos Estados Unidos enterraram ciclo de aberrações

O vocabulário de Donald Trump nunca foi muito além da quinta série do ensino fundamental. Mas sua personalidade carismática e a ausência de freio em manipular fantasias populares encontravam seguidores ávidos por promessas. Conseguiu ser eleito duas vezes para a Casa Branca sapecando superlativos absolutos à frente de afirmações fraudulentas. Até tornar-se um chato, como cunhou o historiador português Rui Tavares. E ostensivamente corrupto.

As eleições de meio de mandato de terça-feira enterraram este ciclo de aberrações. Desta vez, os superlativos resultam de números, e eles são invertidos — apontam não apenas para o colapso histórico de um governo que quase arruinou 250 anos de democracia, como tiraram da letargia cívica a sociedade diversa que compõe os Estados Unidos da América.

“Cavalo de pau”, por Merval Pereira

O Globo

Se Lula pretender continuar com a mesma política econômica do governo anterior, levará sua derradeira passagem pela presidência da República em direção a uma grave crise financeira já anunciada.

Estamos vivendo a estranha situação de um governante que prepara a transição para si mesmo tendo como objetivo fazer uma administração radicalmente diferente do que fez até a agora. A famosa “herança maldita”de que Lula sempre se utilizou para justificar suas dificuldades na área econômica, agora virá para ele mesmo. Situação semelhante foi a de Fernando Henrique Cardoso em 1998, quando terminou um governo bem avaliado com a ancora cambial e abriu o segundo com a desvalorização do Real, o que o levou a ter que enfrentar o ressentimento de um eleitorado que votara para continuar vivendo num mundo em que o Real valia tanto quanto o dólar e, de repente, passou a sofrer uma desvalorização que atingiu o dia a dia do eleitor.

Avesso do espelho e novos desafios, por Míriam Leitão

O Globo

O espelho do Brasil mostra um país que evitou o pior em várias áreas. Mas que tem pela frente escolhas difíceis no cotidiano de governar, principalmente na economia

O presidente Lula irá para a COP31 na Turquia. Notícia que todos já sabem. Agora tentem imaginar o que seria essa viagem, e a participação brasileira, caso o Brasil tivesse colocado na presidência um negacionista do clima? Seria constrangedor, como já foi anos atrás. O país chegará lá com os seus mapas do caminho, um deles para um mundo longe dos combustíveis fósseis e outro para a derrubada do desmatamento. A onda azul nos Estados Unidos elegeu uma exuberante diversidade, mulheres, negros, indígenas, que vão aumentar a representatividade. Tente pensar em como estaríamos no futuro se o Brasil escolhesse a rota oposta ao reconhecimento dos direitos de minorias ou de maiorias que estão sub-representadas, como as mulheres.

Um xerife na Esplanada, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Pasta terá papel de destaque em novo governo Lula; Camilo e Haddad preferem correr menos riscos na Casa Civil

O presidente Lula anunciou que vai recriar o Ministério da Segurança Pública. A promessa é antiga. Foi apresentada na campanha de 2022 e levou quatro anos para começar a sair do papel.

A pasta só existiu nos últimos dez meses do acidentado governo de Michel Temer. Com a posse de Jair Bolsonaro, suas atribuições voltaram ao guarda-chuva do Ministério da Justiça, onde permanecem até hoje.

Em mandatos anteriores, Lula resistiu a puxar para si a encrenca da segurança. A exemplo de outros presidentes, era aconselhado a manter distância de chacinas, rebeliões e outras crises que desgastam a imagem de governadores.

Lula e seu carcereiro, por Elio Gaspari


O Globo

Livro de agente da PF que acompanhava o petista durante a prisão em Curtiba revela detalhes da rotina e das percepções do presidente sobre aliados, integrantes do Supremo e adversários

Está nas livrarias “Banho de sol: Os 580 dias de Lula na prisão”, de Jorge Chastalo Filho, o agente da Polícia Federal que guardava o prisioneiro em 2018/9 em Curitiba. É um documento de raro valor, uma espécie de memória do cárcere pelo olhar do carcereiro.

Na forma de diário, Chastalo registrou minuciosamente a vida do prisioneiro, sua rotina e seus rancores. Lula ralou 580 dias de cadeia com a certeza de que voltaria ao Planalto.

As circunstâncias especiais dessa relação comprometem sua essência, a despeito da cordialidade mantida pelo preso e seu carcereiro. Chastalo vai aos detalhes. A esteira para os exercícios de Lula chegou no dia 13 de maio de 2018.

A complexa transição de Lula 3 para Lula 4, por Pedro S. Malan

O Estado de S. Paulo

Será fundamental indicar com clareza que existe um sistema de regras que assegurem a sustentabilidade das finanças públicas para o período 2027-2030

A transição de Lula 3 para Lula 4 não será trivial e seus primeiros momentos afetarão o quadriênio. A eleição encerra uma campanha, mas não encerrará acrise. As urnas distribuem podere conferem legitimidade aos eleitos, mas não corrigem instituições que perderam capacidade de funcionar com previsibilidade, equilíbrio e respeito aos próprios limites (Murilo Aragão).

Será fundamental, o mais rápido possível, indicar com clareza, de maneira crível, que existe um sistema de regras que assegurem a sustentabilidade da trajetória das finanças públicas no Brasil para o período 2027-2030 e além. Dívida, tributação, gasto público, eficiência e equidade são temas inter-relacionados que terão que estar no centro do debate público sobre o desenvolvimento do País – econômico, social e político institucional–pelos cruciais anos à frente.

Sem confiança, a indústria perde fôlego, por Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

Falta investimento e sobra incerteza sobre contas do governo federal

Maior potência industrial do Hemisfério Sul, o Brasil continua acumulando tropeços na trajetória recente da indústria, com quatro resultados mensais negativos nos primeiros nove meses deste ano. Em setembro, a produção do setor foi 0,8% menor do que a de agosto e 2,5% inferior à de um ano antes. O volume produzido no terceiro trimestre foi 0,5% menor do que o dos três meses anteriores e ficou 1,4% abaixo do contabilizado no mesmo período de 2025. Ainda assim, houve um avanço de 0,4% no ano e de 0,2% em 12 meses, segundo o último balanço do governo.

Tax the poor? Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

A prisão de Santiago Peña no Paraguai e a crise política, econômica e social de Javier Milei na Argentina são um alerta para a região e o presidente Lula, que participa da cúpula do Mercosul em 4 e 5 de dezembro e faz hoje um pronunciamento sobre o grande dilema do quarto mandato: onde cortar e onde arrecadar mais para cobrir sua própria “herança maldita”?

Do lado oposto de Peña e Milei, Lula tem discurso e base na esquerda (apesar de dizer que jamais foi de esquerda), foi eleito em nome da democracia e da soberania, mas também torrando o orçamento público com políticas eleitoreiras e prometendo, dia sim e outro também, que não cortaria dos pobres. E é assim que vai assumir pela quarta vez em 2027.

Assim é a democracia, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

As derrotas de Trump e Vucic mostram que não estamos à mercê de salvadores da pátria

Vivemos inevitavelmente sob o domínio da corrupção, da política como entretenimento e de atores que se apresentam como insubstituíveis salvadores da pátria? Os eleitores americanos e sérvios acabam de responder que não. As vitórias sobre Donald Trump e Aleksandar Vucic percorreram caminhos diferentes, mas ambas vinculados ao mundo da experiência real, em vez da pirotecnia dos influenciadores das redes sociais, que possibilita a consagração de idiotas.

Contra o poder econômico e governamental de Trump e de seus aliados, os democratas bateram de porta em porta para ouvir as dores dos eleitores e, como o próximo líder da maioria no Senado, Chuck Schumer, definiu: “o que devíamos fazer”.

Debate sobre sistema eleitoral misto ignora experiência de quem já tentou, por Lara Mesquita e Bruno Bolognesi*

Folha de S. Paulo

Propostas em discussão na Câmara prometem o melhor de dois mundos, mas não consideram casos anteriores

Mudar as regras para responder à última eleição pode criar problemas para a próxima

A reforma eleitoral é visita frequente no Congresso. Em 2015 e 2017, a Câmara dos Deputados votou projeto do chamado distritão, que elege os mais votados e ignora os partidos. A proposta foi derrotada nas duas ocasiões. Em 2021, voltou a circular e foi descartada.

Desde que assumiu a presidência da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB) defendeu três vezes a adoção de um sistema misto. Em abril de 2025, o modelo apareceu sem um diagnóstico claro; em novembro, virou blindagem contra o crime organizado; agora, é apresentado como resposta aos puxadores de votos ideológicos, como esta Folha escreveu em matéria de 28 de outubro. Gilberto Kassab, presidente do PSD, já defendia a mudança antes de 2026. Portanto, a preferência dos dois antecede o resultado das últimas eleições, embora os resultados deste ano possam ter engrossado o coro de apoio.

Muitos deputados ficaram insatisfeitos com a distribuição das cadeiras, que teria sido distorcida pelos puxadores de voto —que qualificamos como candidatos com votação correspondente a mais de duas vezes o quociente eleitoral— concentrados sobretudo no PL. Foram apenas sete no pleito de 2026; nas três eleições anteriores, não passaram de cinco.

A economia de Lula 4, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Presidente precisa equilibrar a preservação do que lhe fez ganhar as eleições com o combate ao que quase lhe fez perder

Ao contrário do que parecem pensar seus defensores de esquerda, a proposta de Lara Resende também exige ajuste fiscal

Lula ganhou a eleição com um programa de preservação de programas sociais. Mas quase perdeu pela combinação de juros altos e inflação alta que, como vimos nas últimas eleições americanas, está destruindo a popularidade de governos ao redor do mundo no período pós-pandemia.

Para governar, Lula precisa equilibrar a preservação do que lhe fez ganhar com o combate ao que quase lhe fez perder.

Tem que segurar o crescimento da dívida pública o suficiente para que os juros caiam. Como o crescimento da dívida depende dos juros e juros mais baixos aceleram o crescimento, a relação dívida/PIB melhoraria pelos dois lados.

O lugar mais óbvio para começar o ajuste fiscal é com a privatização da Faria Lima.

Violência política muda de forma nas últimas eleições presidenciais, por Angela Alonso

Folha de S. Paulo

Agressões a eleitores de partidos adversários se sobressaem em relação a assassinatos por matadores de aluguel

Levantamento preliminar indica mais casos de bolsonaristas hostilizando petistas que o oposto em 2022 e 2026

Um lado foi à luta e virou o jogo, o outro fugiu. Entre o mandato e o exílio, transcorreu a eleição.

O voto é a forma pacífica de resolver conflitos políticos, mesmo quando os lados são tão opostos como desta vez. Em princípio, nas democracias a urna tira de cena a força. "Em princípio" porque a democracia, em parte alguma, aboliu a violência política. Vira e mexe, ela assoma, em graus e doses variadas, como na pancadaria da polícia contra manifestantes na França ou em reações extremas dos que desaprovam o resultado. Viu-se isso nas eleições presidenciais passadas dos Estados Unidos e do Brasil.

A pornológica dos poderes, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Bom senso pede a palavra para indagar se o cinismo vai se sobrepor à vergonha na instituição que o abriga

A opinião pública mostra-se acanhada nos comentários sobre os escândalos

Há uma bizarra relação entre "De civilitate morum puerilium" ("Da civilidade dos costumes infantis", 1530), de Erasmo de Roterdã, e o comportamento recente de figura da alta magistratura brasileira. Na pequena ética que ensina às crianças como se conduzir em sociedade, Erasmo visibiliza regras relacionadas às transformações históricas: moderar os gestos, sentar-se à mesa, manter a higiene etc. Um marco importante na história da civilidade europeia: antes, comia-se farofa com a mão, cuspindo no prato.

Disputa no Senado impõe recuos à esquerda e à direita, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Governo e oposição devem recalibrar as respectivas intensidades na corrida pelo comando do Congresso

Nenhuma das duas forças antagonistas tem fôlego para sustentar eternamente a dinâmica do conflito extremo

A revisão nos métodos de ação e pensamento não se impõe só à esquerda na definição do panorama político daqui em diante. A direita também terá de fazer ajustes de procedimentos para se manter relevante no papel de oposição.

Nenhuma das duas correntes tem fôlego para sustentar a dinâmica do conflito extremo, que tende a se esgotar com o tempo. Pela ordem natural das coisas, não há ânimos que se mantenham eternamente exacerbados nem energias hiperativas que as circunstâncias não arrefeçam.

Poesia | O amor acaba, de Paulo Mendes Campos

 

Música | Maria Bethânia - Recife Manhã de Sol

 

sábado, 7 de novembro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais\Opiniões

Revés extremista

Por CartaCapital

O simbolismo da derrota de Trump e dos percalços de Benjamin Netanyahu

Vermelha no Brasil, a onda mudou de cor ao chegar aos Estados Unidos. O azul do Partido Democrata coloriu o mapa da “América” na terça-feira 3 e impôs uma derrota incontestável a Donald Trump. Insatisfeitos com o custo de vida, os rumos da guerra no Irã e a transformação da Casa Branca em um guichê de negócios, os eleitores norte-americanos decidiram impor os primeiros limites aos delírios imperiais de um presidente que havia ultrapassados todas as linhas vermelhas da compostura e da decência. Caberá à oposição entender não só o voto de confiança, mas a responsabilidade de comandar a Câmara dos Deputados e do Senado e oferecer uma alternativa competitiva de poder. Sob Trump, os EUA se tornaram uma ameaça ainda maior à liberdade, ao multilateralismo e à paz mundial. E sem conseguir reverter o lento, porém inexorável, declínio político e econômico do país. Nero moderno, o republicano incendeia a nação e joga a culpa nos outros – nos aliados “incompetentes”, nos “comunistas”, nos imigrantes.

Frente ampla, por Miguel Reale Júnior

O Estado de S. Paulo

A melhor defesa da democracia seria um pacto nacional para transformar o Brasil

No segundo turno, 60 milhões de pessoas optaram por ter Flávio Bolsonaro como presidente, apesar da divulgação pelas redes sociais acerca de quem ele era. Felizmente, parcela significativa percebeu, então, o risco à democracia ao elevá-lo à condição de primeiro mandatário, pois seu passado revelava fortes ligações com a milícia do Rio de Janeiro, elogios à ditadura e má conduta na pandemia. A sociedade se mobilizou: tanto redes quanto cidades foram ocupadas pelo chamado “exército do Lula” e derrotou-se Flávio por 4 milhões de votos.

Se a maioria afastou o País do precipício, houve, contudo, porcentual elevado que pagou para ver, sufragando um playboy na Presidência, não só por antipetismo, mas por crença no super-herói, ungido pelo pai, a proclamar vazias promessas de fazer isto e aquilo se presidente viesse a ser.

Governo de continuidade, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Lula foi transparente na campanha. É coerente agora. Não tem pressa. E, no seu ritmo, reunindo-se com Mantega e outros mercadantes, distribui comunicação política clara: a agenda fiscalista foi derrotada nas urnas. Derrotados, segundo nos informa o presidente reeleito, o mercado financeiro e o Banco Central, aplicador de juros – comunica-se também – para punir o País. O governo, inflacionário e endividador, trata remédio como doença.

A fantasia de Flávio está rasgada, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Flávio não consegue ocultar a verdade de que fugiu para não ser preso por corrupção

No Senado, filho 01 atuou em sintonia com os negócios do sócio e amigo Willer Tomaz

Em 1973, Ivo Pitanguy vivia o auge do prestígio internacional. Considerado o "rei da cirurgia plástica", o "Michelangelo do bisturi" e o brasileiro mais famoso do mundo na época, ao lado de Pelé, ele comprou uma ilha em Angra dos Reis. Para o povaréu, era um sinal de status e de riqueza inquestionável.

Se quisesse construir um grande complexo hoteleiro na Ilha dos Porcos Grandes, ninguém o impediria. O médico manteve intocada a vegetação de mata atlântica. A casa principal e os bangalôs foram projetados para sumir no meio das árvores —um esconderijo perfeito para visitantes e pacientes, entre os quais Brigitte Bardot e Jackie Onassis.

A diversidade venceu, por Flávia Oliveira

O Globo

Não há incompatibilidade em marchar por jovens negros vivos e discutir equilíbrio fiscal e proteção ao meio ambiente

Das urnas, seja no Brasil, seja nas eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, irromperam sinais de apreço à democracia e repúdio ao arbítrio. No histórico discurso de promulgação da Carta de 1988, o presidente da Assembleia Nacional Constituinte, deputado Ulysses Guimarães (1916-1992), fez referência à contribuição ao texto “de gente, de rua, de praça, de favela, de fábrica, de trabalhadores, de cozinheiras, de menores carentes, de índios (sic), de posseiros, de empresários, de estudantes, de aposentados, de servidores civis e militares”. Tal como nos anos 1980, o povo tomou parte na festa que, aqui, concedeu a Luiz Inácio Lula da Silva o quarto mandato presidencial; lá, restituiu via arrastão de votos aos candidatos democratas a correlação de forças entre a Casa Branca e as duas Casas Legislativas.

O identitarismo perdeu a eleição , por Thaís Oyama

O Globo

Eleitores escolheram quem acreditam poder atender seus interesses, não necessariamente quem se parece com eles

Direita e esquerda têm uma tendência irresistível a idealizar vitórias. Jair Bolsonaro, em 2018, e Donald Trump em 2024, falaram em “libertação da pátria” e “restauração moral” da sociedade. Na esquerda, o “triunfo da consciência democrática” foi o mote do discurso da vitória de Lula em 2022. Agora, a virada épica do petista sobre o rival, reza a narrativa vencedora, deveu-se à mobilização da juventude que saiu às ruas para lutar contra o fascismo. Quem ganha a eleição gosta de acreditar que o eleitor abraçou seus ideais mais elevados. A possibilidade de que ele tenha votado para gastar menos no supermercado, ganhar mais benefícios, melhorar de vida, ficar com o “menos pior” ou simplesmente se livrar de quem governa fica sempre em segundo plano.

O voto brasileiro, por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

A formidável e surpreendente vitória de Lula contra a extrema-direita no Brasil foi ponto de honra. Exemplo para o eleitor norte-americano

A democracia é o pior regime de governo, excetuados todos os outros. A frase é de Winston Churchill. É uma verdade incontestável. A guerra contra o Irã, que as forças armadas dos Estados Unidos não conseguiram resolver, provocou a derrota de Donald Trump. Os eleitores colocaram os democratas na frente de governos, fizeram a maioria nas duas casas do Congresso e ainda elegeram sete brasileiros para câmaras estaduais. O Partido Democrata alcançou feito só comparável à vitória obtida em pleito após o escândalo de Watergate, quando repórteres do Washington Post descobriram que o então presidente Richard Nixon havia determinado a invasão do escritório do Partido Democrata. 

Os EUA confirmam: a democracia vive, por Juliana Diniz*

O Povo (CE)

Com a retomada do controle das duas casas legislativas, o Partido Democrata foi capaz de impor uma derrota política inquestionável a Donald Trump, que vem amargando um índice de popularidade decrescente

O resultado das eleições norte-americanas ofereceu uma surpresa mesmo a quem já antecipava a possibilidade de uma "onda azul". Retomando o controle das duas casas legislativas, o Partido Democrata foi capaz de impor uma derrota política inquestionável a Donald Trump, que vem amargando um índice de popularidade decrescente à medida que inflação e piora das condições gerais de vida avançam.

A diminuição da abstenção e as manifestações de massa puxadas por estudantes que vimos por lá ecoaram a energia e o humor que testemunhamos por aqui semanas antes. Em países da Europa, como Espanha e França, e junto aos nossos vizinhos, como a Argentina, a esperança de um revigoramento do que se convencionou chamar de centro-esquerda democrática é mais perceptível, especialmente em contexto de crise compartilhada nos países do Ocidente.

Tsunami azul enfraquece a ultradireita nos EUA, por Marco Aurélio Nogueira*

Revista Será?

A eleição de Lula no Brasil e a dos democratas nos EUA separaram-se por cerca de dez dias, a primeira em 25 de outubro e a segunda em 3 de novembro. Ambas foram comemoradas como conquistas democráticas, embora tenham tido características distintas. E resultaram de posicionamentos eleitorais dominados pela rejeição de candidaturas de extrema direita, Flavio Bolsonaro no Brasil, Donald Trump nos EUA.

Os democratas norte-americanos venceram embalados por um grande repúdio ao governo Trump. Subiram à tona o custo de vida, a inflação, as denúncias de corrupção, os gastos nababescos do governo, as guerras e as intervenções, as ameaças e acusações cruéis contra minorias e imigrantes. As promessas megalomaníacas que Trump fez em 2016 e repetiu em 2024 desmoronaram diante dos fatos eloquentes da vida cotidiana.

A vitória e o desafio dos democratas, por Hubert Alquéres*

Donald Trump pediu aos americanos que votassem nas eleições de meio de mandato como se seu nome estivesse nas urnas. Foi atendido. A derrota republicana de 3 de novembro devolveu aos democratas o controle das duas Casas do Congresso e atingiu estados que pareciam protegidos pela fidelidade ao presidente. As urnas impuseram um limite ao seu poder. Mas seria precipitado confundir esse resultado com o encerramento dos riscos de seu governo.

Os números dão a dimensão da mudança. Até o fechamento das edições de quinta-feira, o bloco democrata tinha 54 cadeiras asseguradas no Senado, contra 44 republicanas, com duas disputas pendentes. Conquistou sete cadeiras antes ocupadas pelos republicanos, incluindo as do Texas, Kansas, Ohio e das duas Carolinas. Na Câmara dos Representantes, já havia conquistado 237 das 435 cadeiras, com a apuração ainda em andamento.

Chantagem macroeconômica, por Luiz Gonzaga Belluzzo e Manfred Back

CartaCapital

O câmbio, refém da volatilidade de capitais, afeta de modo inapelável a determinação dos juros

André Lara Resende, em seu artigo “Eu acuso”, tem o papel importante de restabelecer o debate a respeito das políticas monetária e fiscal e questionar os dogmas do pensamento único. Nosso artigo de hoje tem o propósito de considerar as sugestões oferecidas por André.

Vamos iniciar nosso despretensioso périplo escrevendo sobre o dinheiro, um bicho nervoso, sensível e pragmático. Tem sua própria lógica, vive procurando oportunidades de acumular mais dinheiro. Os “técnicos” no assunto afirmam que o dinheiro não tem ideologia e partido político. Discordamos: na economia monetária-financeira, quem comanda o jogo é a “ideologia” nascida do poder do dinheiro.

Um país para depois da vitória, Celso P. de Melo*

CartaCapital

A experiência de Mandela permite entender por que vencer uma eleição difere de reconstruir uma sociedade

Na noite de 25 de outubro, poucas horas depois de confirmada sua vitória, Lula disse que, encerrada a eleição, já não tinha mais adversários: precisava governar para 215 milhões de brasileiros. Ninguém era obrigado a gostar do presidente eleito, acrescentou, mas ele teria de governar para todos. A frase parece simples. Não é. Uma eleição termina quando os votos são contados. As divisões que revelou não desaparecem na mesma noite. Vencedores e vencidos continuam morando nas mesmas cidades, trabalhando lado a lado e dependendo das mesmas instituições. O adversário derrotado continua sendo cidadão no dia seguinte.

Primavera brasileira, por Pedro Serrano*

CartaCapital

O Brasil vira exemplo de resistência ao avanço da extrema-direita

Não é exagero chamar de épica a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva em 2026. Um dos marcos históricos desse pleito é o de ter sido a primeira vez, desde a adoção do sistema de dois turnos, em 1989, que um candidato acabou eleito após ficar em segundo lugar na primeira votação, feito que a mídia e a sociedade consideravam praticamente impossível.

A maneira pela qual se deu essa virada nas urnas é especialmente memorável. Ela foi fruto de uma grande mobilização nacional, que envolveu sobretudo a juventude do País, tanto nas redes sociais quanto nas ruas, constituindo um espaço único e fluido de troca de ideias e encaminhamento de ações. Um dos aspectos mais comoventes dessas movimentações é, sem dúvida nenhuma, o seu caráter espontâneo, o fato de não terem sido orquestradas por qualquer diretriz oficial de campanha. Essa característica foi constatada desde a primeira das manifestações, ocorrida em 5 de outubro, logo após a divulgação da predominância de Flávio Bolsonaro no primeiro turno. Na ocasião, estudantes da Universidade Federal Fluminense, em Niterói, saíram às ruas em apoio a Lula de forma orgânica e autêntica. Segundo depoimentos dos próprios participantes, a motivação principal dessa manifestação foi evidenciar que a democracia estaria gravemente ameaçada numa eventual vitória do senador.

Terceiro turno, a batalha da vez, por Roberto Amaral*

A Bolsa de Valores comemorou o resultado do primeiro turno batendo recorde de ganhos, com uma alta de 7,7%, completada com o recuo do dólar em 4%. Os especuladores fizeram sua festa. Contudo, a aposta do mercado, que tinha nome e programa, foi, para alívio do país, derrotada nas urnas na segunda volta, assustando a coalizão financeiro-rentista que capturou o orçamento da União e, por ofício, transfere renda para uma minoria mínima, aprofundando a desigualdade social. 

A reação não se fez esperar: no pregão do dia 26, puniu o voto. O Ibovespa caiu 13,88%, o dólar subiu 8,21% e os juros futuros saltaram para 15,25%.

A revanche do capital não é uma reação conjuntural de operadores, mas a forma política necessária de um capital que não se valoriza pela produção, e precisa submeter a política eleitoral e o orçamento público à sua reprodução. A análise política explicita o movimento: depois de apostar no bolsonarismo e perder, a Faria Lima cobra de Lula o programa derrotado nas urnas. O dito “mercado” não aceita o resultado eleitoral como definição da vontade política; desloca a disputa para o orçamento e para a política monetária, tentando transformar o programa derrotado nas urnas em precondição da governabilidade. 

O indecifrável diálogo entre economia e política, por Marcus Pestana

Quis o destino que eu frequentasse esses dois universos:  o da política e o da economia. Às vezes parece conversa de bêbado – um mar de incompreensões e mal-entendidos. As motivações são semelhantes, mas os caminhos nem sempre se encontram. Toda corporação profissional tem lá sua linguagem complexa e hermética como proteção defensiva de seu campo específico de conhecimento. Data a máxima vênia é a senha dos advogados para barrar o acesso de intrusos à sua órbita de ação. Basta indicar talimogene laherparepvec, identificar um sinal patognomônico ou diagnosticar uma tromboangeite obliterante para um médico demarcar campo com leigos metidos à auto diagnose e automedicação.

La América Latina y la Sostenibilidad: ¿cuáles son las perspectivas y retos? Por George Gurgel de Oliveira*

I. Las Relaciones Sociedad y Naturaleza 

Vivimos tiempos sombríos y de grandes desafíos para la afirmación y la defensa de la democracia, de la Paz y de la sostenibilidad de nuestra América Latina y del planeta.

 La ampliación de la conciencia ambiental a nivel mundial es una necesidad para la construcción de una nueva perspectiva de sociedad que sea democrática y sostenible. Los problemas económicos, sociales y ambientales, tanto mundiales como continentales y nacionales, continúan siendo retos políticos a ser resueltos para la construcción de otra perspectiva de ocupación del planeta por la sociedad humana.

¿Es posible una sociedad mundial sostenible?

La búsqueda de alternativas para la superación de la realidad actual insostenible, reclama la necesidad de construir una nueva agenda para las cuestiones de la sostenibilidad mundial, continental y nacional (Agenda 21, ONU, ECO 92, Agenda 20-30).

Poesia | O Cão Sem Plumas, de João Cabral de Melo Neto

 

Música | Caetano Veloso - EVOCAÇÃO Nº 1, de Nelson Ferreira

 

sexta-feira, 6 de novembro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais\Opiniões

Crise no Paraguai expôs regulação bancária frágil

Por O Globo

Paralelo entre fraude que derrubou presidente e escândalo Master é tentador, mas casos são distintos

A renúncia do presidente do Paraguai, Santiago Peña, não foi aceita ontem no Congresso e não evitou que a Câmara aprovasse processo de impeachment contra ele. Foi o resultado natural da corrida bancária causada pelo colapso do Ueno Bank, o maior banco digital do país. Na terça-feira, o Banco Central (BC) assumiu o controle do Ueno, a Procuradoria emitiu mandado de prisão contra vários de seus executivos, e 3 milhões de correntistas não conseguiram mais acessar suas contas. Apesar de o Paraguai dispor de um fundo para garantir depósitos bancários, o BC limitou saques. O comunicado gerou pânico, e imediatamente o Parlamento se movimentou pelo impeachment.

Oásis fiscal paraguaio era uma miragem que atraiu empresas brasileiras, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Os baixíssimos impostos melhoravam os resultados das empresas, porém já não garantem que o dinheiro destinado à folha de pagamento estará disponível na manhã seguinte

A crise do Ueno Bank e a derrocada de Santiago Peña desfizeram uma ilusão vendida a empresários brasileiros de que bastaria atravessar a fronteira para encontrar impostos baixos, energia barata e segurança permanente para investir. Peña apresentou sua renúncia nesta quinta-feira, enquanto avançava na Câmara a acusação para seu impeachment. O desmoronamento de seu governo já expõe a fragilidade do paraíso anunciado.

A miragem não estava na existência de vantagens competitivas paraguaias. Estava na promessa de que elas dispensariam instituições sólidas, fiscalização independente e proteção efetiva da poupança. Os baixíssimos impostos melhoravam os resultados das empresas, porém já não garantem que o dinheiro destinado à folha de pagamento estará disponível na manhã seguinte. Quando o aplicativo do banco já não funciona e os depósitos são bloqueados, o oásis da simplicidade tributária vira uma miragem sem encantamento.

A ilusão paraguaia, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Flávio exaltou 'visão de futuro' de Santiago Peña, que renunciou em meio a escândalo bancário

O chamado foi feito por Luciano Hang, dono das lojas Havan. “Empresários brasileiros, venham para o Paraguai!”, conclamou. “Aqui empresário não paga a ineficiência do governo. Aqui você paga poucos impostos. Pode se desenvolver, pode crescer”, animou-se o bilionário catarinense.

O Louro José do bolsonarismo estava empolgado. Convidado pelo presidente Santiago Peña, aproveitou a viagem para propagandear as maravilhas de Assunção. “Olha só os prédios. Muita modernidade! Você nota nas ruas e nas pessoas a alegria. Parabéns, Paraguai!”, derramou-se.