sexta-feira, 31 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Vendaval mostrou despreparo para Super El Niño

Por O Globo

No Rio, alertas só chegaram aos cidadãos quando o vento já castigava as ruas — e imperava a confusão

A julgar pela situação caótica instalada pelo vendaval de quarta-feira em municípios do Rio de Janeiro e de São Paulo, as autoridades dos três níveis de governo não passaram no teste do Super El Niño. Segundo meteorologistas, as rajadas de mais de 100km/h estão relacionadas ao fenômeno climático de forte intensidade previsto para este ano. À população, foi mostra preocupante do que está por vir. Ao governo, serve de alerta.

Chamam a atenção as falhas nos sistemas de informação. Em São Paulo, a Defesa Civil emitiu alertas severos a partir das 13h (para cidades do litoral) e das 13h30 (para a Região Metropolitana), cerca de meia hora antes do vendaval. No Rio, o aviso só começou a chegar às 16h41, quando os ventos já varriam o estado furiosamente. E nada de alerta severo, como aquele estridente que acordou milhões de brasileiros depois de uma invasão nos sistemas de disparo semanas atrás. O alerta de quarta-feira não dava a real dimensão do problema. Milhares de cariocas foram apanhados de surpresa nas praias. Ainda que meteorologistas digam que o fenômeno é raro no inverno e é difícil prevê-lo com antecedência, é de pouca utilidade um alerta que chega quando o cidadão já está em plena ventania.

O cerco americano ao capitalismo, por José de Souza Martins*

Valor Econômico

Tudo sugere que o modelo capitalista americano está em decadência. Defende-se combatendo o capitalismo no país dos outros, como o nosso, o México, o Canadá

Para entender as aberrações de conduta política do presidente americano e de seu secretário de Estado em relação a países como o nosso, é sociologicamente incorreto imputar a Lula e às esquerdas a responsabilidade pela polarização ideológica que nos sufoca e cerceia.

Responsabilizá-los ainda é parte do jogo político da polarização promovida pelo “centro”. Em várias partes, as esquerdas da era pós-stalinista jogam o jogo já feito para nele identificar e superar seus erros, suas brechas, e ocupá-las.

As esquerdas já entenderam que não são elas que fazem o jogo político contemporâneo pois já feito pelas irracionalidades, pelas ambições de riqueza e poder, pela corrupção, que delas decorre. Há muito, o mundo não está polarizado entre capitalismo e comunismo. Está determinado pelo mero crescimento econômico a qualquer preço, de lucro imediato e desmedido, sem desenvolvimento social.

As esquerdas assumiram a função política de agentes de consciência social crítica das contradições autodestrutivas do capital.

Pesquisas indicam dificuldade para Flávio no segundo turno, por César Felício

Valor Econômico

Levantamentos Genial/Quaest mostram que aglutinação dos votos de candidatos da direita contra Lula não é automática

senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em um eventual segundo turno contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não é automática, conforme deixa claro o pacote de pesquisas da Genial/Quaest nos dez principais colégios eleitorais do país. Caso chegue ao segundo turno, Flávio precisará do engajamento dos que ficaram para trás na primeira rodada. Os votos não virão por osmose.

O caso de dispersão de votos mais gritante na simulação de segundo turno em relação ao quadro do primeiro turno está em Minas Gerais. De acordo com a Genial/Quaest, 21% dos eleitores mineiros escolheram candidatos fora da polarização, sendo que 12% optaram pelo ex-governador Romeu Zema (Novo). Lula ficou com 30% e Flávio com 29%. No segundo turno, o senador do PL avança apenas seis pontos percentuais, enquanto o petista cresce oito pontos. O total de eleitores que alienam o voto, seja por indecisão, recusa em votar ou opção por voto em branco ou nulo, avança de 20% para 27%.

Procura-se milagreiro, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Campanha do PL produz crises em série desde revelação de diálogos com Vorcaro

Quando as coisas vão mal na política, sempre surge alguém para culpar a equipe de comunicação. A sina se repete na campanha de Flávio Bolsonaro, que acaba de demitir o segundo marqueteiro em dois meses.

Em maio, o PL rifou Marcello Lopes, o Marcellão. O partido explicou que desejava profissionalizar a propaganda, trocando um amigo do candidato por um publicitário renomado.

Ontem a sigla dispensou Eduardo Fischer, que fazia dobradinha com o consultor Alexandre Oltramari. A dupla foi substituída por Duda Lima, que coordenou a campanha derrotada de Jair Bolsonaro em 2022.

Uma boa e uma má notícia para Flávio, por Vera Magalhães

O Globo

Ele recebeu aceno favorável da vice dos sonhos e teve de trocar de marqueteiro pela segunda vez em poucos meses

No dia em que recebeu um aceno favorável da senadora Tereza Cristina, a vice dos sonhos para sua chapa, Flávio Bolsonaro teve de escolher o terceiro marqueteiro em poucos meses. A boa notícia ainda precisa de confirmação, e a má evidencia o caos que reina na comunicação da campanha, fruto da propensão da família a intervir nessa área mais que nas outras.

Eleitores desconfiados, por Pablo Ortellado

O Globo

Um cidadão típico não consegue entender toda a cadeia de controle das eleições

Na semana passada, Flávio Bolsonaro deu declarações expressando desconfiança no sistema eleitoral brasileiro em evento com diplomatas. Alguns dias depois, segundo reportagem do Washington Post, o governo Trump designou dois assessores do Departamento de Estado para viajar para o Brasil e produzir um relatório sobre a integridade do nosso sistema. Ao que tudo indica, o tema da confiança nas urnas eletrônicas mais uma vez se tornará central nas eleições.

A desconfiança no sistema de votação tem se tornado um problema global, não apenas no Brasil. Assistimos, porém, não ao aumento global da desconfiança, mas à organização política de uma desconfiança que sempre foi significativa. A série global mais sólida de que dispomos, da Gallup, mostra que, em democracias liberais, a desconfiança vem oscilando nos últimos 20 anos, sempre em torno de um terço da população. É uma parcela significativa, mas não tem crescido.

Falar sobre a Guerra do Paraguai é um dos pecados capitais da nossa diplomacia, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O Paraguai sofreu uma catástrofe demográfica: perdeu quase 90% da população masculina adulta, e sua população foi reduzida a menos da metade. O corpo de López foi profanado

Um dos sete volumes da coleção Plenos Pecados, da Editora Objetiva, Xadrez, Truco e Outras Guerras, do escritor José Roberto Torero, é inspirado na Guerra do Paraguai, o maior conflito armado internacional em que o Brasil esteve envolvido no continente. O livro é uma sátira macabra envolvendo personagens em conflito durante a Guerra do Paraguai. Seu pecado capital é a ira. A narrativa acompanha, de forma ficcional, a implacável perseguição ao mariscal Francisco Solano López, ditador do Paraguai, por determinação do príncipe francês Gastão de Orléans, o Conde d’Eu, comandante-chefe do Exército imperial na fase final da guerra. Casado com a princesa Isabel, herdeira do trono brasileiro, o príncipe francês era mau como o pica-pau.

¡Arriba Argentina! Por José Sarney*

Correio Braziliense

A fronteira entre Brasil e Argentina está aí para nos unir, convivendo com a mesma terra, as mesmas árvores, os mesmos problemas, as alegrias e tristezas, sem afetar a união dos povos

Vou tratar de um assunto delicado e até repetitivo, pois muitas vezes o tenho abordado, com a autoridade de quem negociou o fim das relações afastadas, e muitas vezes conflituosas, entre Brasil e Argentina.

É que agora estamos assistindo, depois de um progressivo afastamento entre nossos dois países, a uma série de despautérios do presidente da Argentina contra o presidente Lula, do Brasil, e contra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), fora dos limites da civilidade, como disse o presidente da Corte, Edson Fachin, com a palavra apropriada e respeitando o vocabulário neutro, domínio da linguagem oficial.

Inteligência artificial e sua ação nos trópicos, por Fernando Gabeira

O Estado de S. Paulo

Quase não se investe na sociedade para que possa se adaptar e tirar proveito dos avanços

Existe um abismo entre o avanço da inteligência artificial (IA), governantes e instituições que precisam interagir com a tecnologia. Estou no fundo desse abismo. Mas resisto. Tirei férias da TV e direcionei meus estudos para o tema. Há muito que aprender com os mais avançados e com os próprios setores da tecnologia que reconhecem esse abismo e querem cooperar por entender que o impacto da IA será muito produtivo se a sociedade se preparar para ele.

Os quartos novos trunfos de Flávio, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Após a tormenta, Flávio ganha reforço para o discurso e para o palanque na campanha

Após semanas de erros e más notícias, o senador Flávio Bolsonaro finalmente tem o que comemorar: além da investigação de Lulinha por tráfico de influência e a quebra de sigilo do caso Jaques Wagner, ele pode ganhar dois importantes troféus na campanha.

Se confirmados, esses troféus vão jogar uma lufada de ânimo na sua candidatura e minar a percepção de que o presidente Lula, em vantagem em Estados decisivos, tem tudo para vencer. Bom para Flávio, péssimo para Lula.

PF tentou drible, por Raquel Landim

O Estado de S. Paulo

A PF enviou para a presidência do STF pedido de inquérito contra Lulinha sob um novo relator

A Polícia Federal tentou dar um drible no ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça e retirar da sua batuta as investigações envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Lula.

Nas apurações do caso do INSS, cujo relator é Mendonça, os investigadores descobriram as ligações de Lulinha com Antonio Carlos Antunes, conhecido como o “Careca do INSS”.

E, lá no meio, estava também uma suspeita de tráfico de influência do filho do presidente Lula a favor do canabidiol junto ao Ministério da Saúde. Antunes chegou a levar Lulinha numa viagem a Portugal sobre o tema.

Controle máximo, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Legisladores e magistrados tentam e não conseguem criar boas regras a priori para regular eleições

Risco de normas ultradetalhistas é transferir do eleitor para juízes decisão sobre quem governa

O problema da modernidade é que precisamos viver em sociedades de massa cada vez mais informatizadas com um cérebro que evoluiu para nos fazer prosperar no Pleistoceno, quando o último grito da tecnologia era o domínio sobre o fogo. O ordenamento eleitoral brasileiro padece de descompasso semelhante.

Não é preciso mais do que uma passada de olhos sobre a Lei Eleitoral, a 9.504/97, para perceber que ela foi concebida para um tempo que já não existe. Está preocupada em regular o layout dos santinhos e o tamanho máximo de cartazes, quando a realidade das campanhas é marcada por IA, deepfakes e impulsionamentos. É verdade que temos uma coleção de resoluções do TSE que buscam dar atualidade ao arcabouço regulatório, mas não as classificaria como particularmente felizes.

Questões externas escondem vazio do debate eleitoral interno, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Um espaço inédito vem sendo ocupado por questões que ultrapassam as fronteiras nacionais

O problema é quando isso toma o lugar da abordagem séria sobre os planos dos candidatos para o Brasil

política externa, as relações do Brasil com outros países, não é assunto que faça sucesso com o público interno. Se o noticiário internacional dos meios de comunicação é restrito a acontecimentos pontuais, nas campanhas eleitorais o tema nunca fez parte do cardápio. Até agora.

Um espaço inédito vem sendo ocupado por questões que ultrapassam as fronteiras nacionais. Há os embates com os Estados Unidos e a Argentina, a ideia de importação dos métodos de combate ao crime de El Salvador e o reflexo, na eleição brasileira, do avanço da direita extrema na América Latina.

O Brasil picou? Por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Em inglês, 'to peak', picar, é chegar ao pico, ao máximo; e se o Brasil já tiver picado?

Ou se, com os bolsonaros, vorcaros, malafaias e neymares, o Brasil estiver picando hoje?

Os americanos, que vivem em competição doentia com os outros e entre eles próprios, têm uma expressão: "to peak". Significa atingir o pico, o ponto mais alto, o máximo de alguma coisa. Só que eles a usam como verbo: picar. Fulano picou na profissão, a música tal picou em décimo lugar nas paradas, a temperatura ontem picou em 35ºC. No Brasil, não falamos assim, mas poderíamos —e deveríamos. Para um país que há séculos se diz do futuro, o que fazer se, ao contrário do que queremos acreditar, o Brasil já tiver picado?

Luiz Werneck Vianna e a crise econômica de 2014-2016, por Cláudio de Oliveira*

Neste século 21, fui leitor assíduo de textos e entrevistas do sociólogo Luiz Werneck Vianna, publicados pela imprensa brasileira.

Confesso que não sou grande conhecedor de sua obra acadêmica. Tenho na estante dois de seus livros, entre eles o clássico “Liberalismo e sindicato no Brasil”.

Pedi à IA que resumisse as análises de LWV sobre a crise econômica de 2014–2016, quando o Brasil entrou em recessão com queda de 8,6% do PIB e 14 milhões de desempregados.

Depois solicitei que me resumisse a visão dele do que considerava esgotamento do modelo nacional-desenvolvimentista na época da globalização e a alternativa que propunha. Eis os resumos:

Crise política e econômica a partir de junho de 2013

"Luiz Werneck Vianna interpretou a crise de 2014-2016 menos como uma simples recessão econômica e mais como uma crise de esgotamento de um modelo político de desenvolvimento. Em sua análise, os problemas econômicos estavam profundamente entrelaçados com a crise institucional e de representação que culminou no impeachment de Dilma Rousseff.

Os principais pontos de sua interpretação podem ser resumidos da seguinte forma:

Poesia | Esperança, de Mário Quintana

 

Música | Luiza Lara - Valsa Brasileira (Edu Lobo/Chico Buarque)

 

quinta-feira, 30 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Trégua nos preços, riscos à frente

Por Folha de S. Paulo

Prévia da inflação surpreende positivamente e melhora perspectivas para reduzir a taxa Selic

Convergência à meta ainda enfrente muitos obstáculos, sobretudo os relacionados ao desequilíbrio fiscal produzido pelo governo Lula

inflação enfim começa a dar sinais mais consistentes de arrefecimento. O IPCA-15 de julho, prévia da inflação oficial calculada pelo IBGE, surpreendeu positivamente ao subir apenas 0,06%, a menor variação para o mês em três anos, puxado sobretudo pela queda dos preços dos alimentos.

O alívio se espalha por diferentes componentes do índice, levou consultorias a reduzir suas projeções para o IPCA deste ano e reforça a expectativa de que o Banco Central volte a cortar a taxa de juros na reunião da próxima semana, hoje em 14,25% ao ano.

Fortes em GO e MG, Caiado e Zema não conseguem nacionalizar candidaturas, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Que país queremos? Essa pergunta está posta novamente nas eleições, com o agravante de os liberais não terem um projeto claro

A eleição presidencial mostra uma polarização assimétrica. Candidato à reeleição, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva lidera a disputa nacionalmente e conserva vantagem nas simulações de segundo turno, enquanto Flávio Bolsonaro demonstra resiliência suficiente para permanecer como seu principal adversário. Apesar das denúncias, erros e brigas na campanha de Flávio, as possibilidades de uma terceira via continuam restritas. Os ex-governadores Ronaldo Caiado (GO) e Romeu Zema (MG), apesar da projeção conquistada como governadores, não conseguem transformar seus redutos regionais em alavanca para nacionalizar suas candidaturas.

Os principais colégios eleitorais mostram dois Brasis, o meridional e o setentrional. Essa divisão foi apontada a primeira vez em 1920, Populações Meridionais do Brasil, de Oliveira Viana. Escrito entre 1916 e 1918, levou dois anos para ser publicado, pela livraria José Olympio. O que dizia Viana? Ele definia três arquétipos para o povo brasileiro: o sertanejo, o matuto e o gaúcho, os quais foram sucedidos pela publicação meteórica de mais quatro ensaios: “O idealismo da Constituição” (1920), “Pequenos estudos da psicologia social” (1921), “Evolução do povo brasileiro” (1923) e “O ocaso do Império” (1924). O primeiro volume de “Populações meridionais do Brasil” dedicou aos paulistas, fluminenses e mineiros; o segundo, ao campeador rio-grandense. Partia do homem para criticar as instituições da época.

A campanha eleitoral dentro de um carro chinês, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Campanha arrisca passar ao largo de temas como a transformação do país no maior mercado de carros chineses do mundo

Na tarde deste domingo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva esteve na posse da nova diretoria do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC onde disse que a abertura do mercado brasileiro ao carro chinês levou a indústria automobilística a investir em modelos híbridos e vender mais. Dali, Lula embarcou para Brasília onde falaria às 22h com o dirigente chinês, Xi Jiping.

No relato da agência Xinhua, Xi apoiou o Brasil na ‘defesa de sua soberania e independência em oposição a interferências externas’, o que vai de encontro à tradição do país de não se escudar em proteção alheia. Dois dias depois, a manchete do Valor desenhou a curva da estrada: “Brasil já é o maior importador de carro chinês do mundo”.

As urnas em números, por Merval Pereira

O Globo

O PT hoje vive uma dicotomia. Enquanto “desmelhora” no Nordeste, onde sempre reinou, “despiora” no Sudeste

Não é apenas em Minas Gerais, o segundo maior colégio eleitoral do país, que se decide a eleição presidencial, mas também em São Paulo, o maior. Em Minas, há uma divisão regional comparável à do Brasil, por isso o vencedor lá geralmente ganha no país. É como se o estado fosse uma amostra do país. Mesmo que vencer em São Paulo não signifique vencer no país, uma vitória expressiva no maior colégio eleitoral pode garantir a eleição. Em 2018, Jair Bolsonaro saiu de São Paulo com 8,1 milhões de votos à frente de Fernando Haddad, garantindo uma vitória ampla sobre o PT. Em 2022, quando perdeu para Lula, a diferença a favor de Bolsonaro caiu para 2,7 milhões, redução de 5,4 milhões de votos.

O risco que Lula corre na eleição, por Míriam Leitão

O Globo

Interlocutores do governo identificaram um clima de “já ganhou” entre autoridades, o que é um duplo erro. É preciso ter projeto para o mandato

Há uma avaliação entre interlocutores do atual governo, de que teria se espalhado dentro da administração a convicção de que a eleição está ganha. Em vez de apresentar um projeto para o próximo período, a presidência e os ministros apenas dizem que os programas seriam a continuidade do atual. O erro primeiro é que nenhuma eleição está resolvida de véspera; apesar do favoritismo do presidente Lula há incertezas pela frente. O segundo equívoco é não perceber que o próximo mandato presidencial tem desafios específicos que precisam ser enfrentados com propostas sólidas.

Nunes Marques e o deepfake do bem, por Julia Duailibi

O Globo

Se ele inovar, na contramão do tribunal que preside, lançará o conceito da desinformação inofensiva

Quis o destino — ou o sistema de distribuição dos processos do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) — que a ação movida pelo PT contra o senador Flávio Bolsonaro, pelo uso de IA na convenção do PL, fosse parar nas mãos do ministro Nunes Marques. Caberá agora ao presidente do TSE decidir se segue o entendimento atual, que proíbe o uso de deepfake nas campanhas, ou se inova e propõe a liberação da tecnologia na eleição deste ano, endossando os argumentos da campanha de Flávio.

O TSE proíbe o uso de IA para criar imagem e voz de pessoas de maneira realista nas eleições, conhecido como deepfake. Resolução de 2019, alterada e reforçada por outras duas, em 2024 e em 2026, veda a tecnologia, seja para prejudicar ou favorecer determinada candidatura, seja com ou sem autorização daquele cuja imagem e voz foram sintetizadas.

Tanto faz, por William Waack

O Estado de S. Paulo

Para alguns dos maiores grupos políticos, serve qualquer Presidente

Alguns dos principais partidos políticos no Brasil consagraram a abordagem “tanto faz” para as eleições presidenciais. Tanto faz, pois consideram que saem ganhando não importa o candidato. Não, não é mais o famoso “toma lá, dá cá”.

Esse “vamos ganhar de qualquer jeito” não precisa aguardar o segundo turno. As maiores agremiações que declararam neutralidade – juntas, têm 40% da Câmara – só pensam em aumentar bancadas na Câmara e no Senado. E encontraram um jeito de evitar “queimar”, em campanha presidencial eventualmente perdedora, preciosos recursos dos fundos partidário e eleitoral.

Ministros veem abuso e querem frear IA, por Carolina Brígido

O Estado de S. Paulo

Vídeo de Bolsonaro não deve causar cassação do registro de Flávio, mas pode gerar alerta

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) está diante do primeiro grande desafio sobre o uso de inteligência artificial nas campanhas deste ano. A Corte está para decidir se configura ou não abuso o vídeo exibido na convenção do PL com um avatar de Jair Bolsonaro pedindo voto para o filho Flávio, candidato a presidente.

Três dos sete ministros do TSE falaram à coluna em caráter reservado. Para um deles, não houve abuso. Segundo esse ministro, a tecnologia pode ser usada em qualquer situação, desde que não seja para disseminar notícia falsa ou para prejudicar alguém.

Sua Excelência, a restrição orçamentária, por Felipe Salto

O Estado de S. Paulo

Não se escapa de um ajuste fiscal mais profundo, desta vez, porque a realidade está se impondo

Muitos políticos agem como se o dinheiro público jorrasse do Lago Paranoá. Essa prática fere a Constituição e compromete o futuro do País. Mas, afinal, o que é responsabilidade fiscal?

Responsabilidade fiscal traduz-se num Orçamento equilibrado, com receitas suficientes para financiar as despesas públicas. Não erra, portanto, o senso comum: só se gasta o que se ganha. Mas é um pouco mais complicado.

O País não começa, a cada ano, “do zero”. Há um estoque de endividamento, cuja consequência é um volume anual de gastos com juros de R$ 1,1 trilhão. Além disso, a dívida emitida no passado vence no presente e, no lugar dela, novos títulos públicos são emitidos e mais juros são contratados.

Esses empréstimos, no caso do governo, são os títulos públicos emitidos. Quem os adquire aposta em certa probabilidade de o governo “quebrar” no prazo acordado na compra do papel. Na verdade, os emprestadores aceitam uma taxa de juros que, em sua percepção, será suficiente para cobrir esse risco e preservar o poder de compra do seu capital.

A política de Trump veio para ficar? Por Celso Ming

O Estado de S. Paulo

O presidente Trump vai produzindo uma reviravolta na ordem econômica mundial. Jogou o livre comércio no lixo e decretou o intervencionismo do Estado.

Segue-se a pergunta da hora: até que ponto esse rodopio é coisa exclusiva do presidente Trump e do Partido Republicano, que poderia ser revertida com mudança de governo, a partir do dia em que o Partido Democrata recuperasse a presidência dos Estados Unidos?

Os analistas políticos já levam em conta a possibilidade de que o presidente Trump perca a maioria nas duas casas do Congresso nas eleições de novembro. A forte queda da popularidade de Trump parece fortalecer esse resultado.

Nunes desmonta patrimônio cultural de São Paulo, por Thiago Amparo

Folha de S. Paulo

Demolição do Cruz da Esperança, tradicional espaço de cultura preta, é desrespeito à capital paulista

Revela uma visão de cidade: a do cercadinho, de um lado, e a do espaço público para todos, de outro

Realizada nesta quarta-feira (29), a demolição do Espaço Cruz da Esperança, no bairro da Casa Verde, na zona norte da capital paulista, é um dos últimos exemplos de desrespeito da Prefeitura de São Paulo com o patrimônio cultural da cidade. Fundado em 1958, o Espaço Cruz era um dos principais locais de cultura preta na metrópole, com rodas de samba, capoeira, futebol e práticas religiosas. Ao longo do dia, chegaram à imprensa denúncias de desrespeito ao patrimônio religioso, como demolição sem respeitar rituais de locais sagrados de terreiro.

Flávio repetirá Trump e Milei sobre a OMS? Por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Candidato irá se comprometer publicamente a manter o Brasil na organização ou a saída do órgão faz parte dos seus planos de governo?

Desfiliação tornou-se uma bandeira da direita nas Américas, implementada pelo por Trump e seu colega argentino

A desfiliação da OMS (Organização Mundial da Saúde) tornou-se uma bandeira da direita nas Américas, implementada pelo presidente Donald Trump e o seu colega argentino Javier Milei.

A saída do Brasil também chegou a ser cogitada por Jair Bolsonaro em 2020. No auge da pandemia da Covid-19, Bolsonaro disse que poderia deixar de integrar a organização se ela não abandonasse o que chamou de viés ideológico.

Um banana no Planalto, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Flávio B. em campanha se reduz a um coadjuvante choramingas de quem estiver ao seu lado

Se é pífio como candidato, imagine como presidente; mas, e se for isso que a Faria Lima quer?

O sujeito não para em pé, suspira a Faria Lima. Na pífia cerimônia do lançamento de sua candidatura à Presidência na semana passada, em São Paulo, Flávio Bolsonaro deu mais um motivo para os agros, financistas e empresários suspeitarem que (por falar em cavalo) estão apostando no cavalo errado. Flávio B. reduziu-se a coadjuvante de seu convidado, o bufão Javier Milei, e de um telão estrelado por uma piedosa IA de seu pai e por sua madrasta, a gélida Michele. É o papel historicamente reservado ao 01 –sempre próximo de zero.

Brasil e Argentina para além de Milei, por Maria Hermínia Tavares

Folha de S. Paulo

Apoio aos Bolsonaros rompe padrão de relacionamento estabelecido quando os dois países se democratizaram

Faltou às duas nações vontade de criar estruturas supranacionais resistentes

Nada como a extrema direita para degradar a política em espetáculo de grosseria e vulgaridade! Foi o que se viu do presidente argentino Javier Milei, na convenção do PL que lançou a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência. Em seu prolixo discurso, entrecortado por palavrões, o mandatário do país vizinho ofendeu o presidente Lula e um ministro do Supremo. Terminou sua participação cantando, em tom alucinado, um rock que dizia: "Eu sou o leão, rei de um mundo perdido", "sou o rei e te destroçarei". Na verdade, o autoproclamado manda-chuva das selvas veio ao Brasil como arauto da "onda azul", tratando de adular Donald Trump, que se empenha em transformar a América Latina em território dominado por aliados ultradireitistas.

Poesia | O Elefante, de Carlos Drummond de Andrade, por Paulo Autran

 

Música | Luiza Lara - A Violeira (Tom Jobim/Chico Buarque)

 

quarta-feira, 29 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Adesão do Brasil a iniciativa chinesa em IA exige cautela

Por O Globo

Em questão ainda em ebulição e tão decisiva, país deve pesar prós e contras antes de tomar qualquer decisão

Deve ser vista com reservas a adesão do Brasil à Organização Internacional de Cooperação em Inteligência Artificial (Waico), entidade liderada pela China que reuniu até agora um punhado de outras nações sem relevância no mapa da IA, sob a difusa bandeira do Sul Global. Não há dúvida de que o Brasil precisa estabelecer cooperação científica e tecnológica com outros países, além de manter diálogo com organizações internacionais. Mas o pano de fundo da iniciativa recomenda cautela. Está em curso uma disputa pelo protagonismo da IA opondo chineses e americanos — e nem entre estes últimos há consenso sobre o caminho a adotar. Em contexto tão relevante quanto incerto, a adesão brasileira pode ser vista como alinhamento à esfera de influência de Pequim, algo que não interessa ao Brasil.

Os três signos da eleição 2026, por Vera Magalhães

O Globo

Disputa de 2026 encerra um ciclo de polarização, e uso massivo da IA e interferência dos EUA na disputa tornam incerta reação do eleitor e resposta das instituições

Há alguns paralelos possíveis entre a eleição de 2026 e as que a antecederam, mas pelo menos três fatores conferem a ela um grau de ineditismo e devem ditar a tônica da disputa.

O primeiro é histórico: trata-se, qualquer que venha a ser o resultado das urnas, do encerramento do ciclo de polarização entre bolsonarismo e lulopetismo inaugurado em 2018. A escolha de Flávio Bolsonaro pelo pai, Jair, para lhe suceder deu sobrevida a esse antagonismo, que chega a sua terceira versão. Na inauguração dessa era, foi Jair contra o “candidato do Lula”. Quatro anos depois, houve o acirrado confronto direto entre os dois líderes personalistas. E, agora, Lula tenta o quarto mandato enfrentando o herdeiro do clã adversário.

Não haverá em 2030 reedição dessa contraposição que tem impedido, à esquerda, à direita e ao centro, o surgimento de uma nova força política. Desde 2018, qualquer um que se apresente como alternativa a essa escolha maniqueísta tem recebido do eleitor o tratamento de “nanico”, e as pesquisas, até aqui, não permitem dizer que seja diferente neste ano.

Três tons de direita, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Ao atacar candidato do PL, Caiado pregou coragem que parece faltar a Zema

Os presidenciáveis da direita botaram o bloco na rua. Flávio Bolsonaro puxou o cordão no último sábado. Foi seguido por Ronaldo Caiado e Romeu Zema.

O Zero Um chegou à convenção do PL sob pressão. Precisava mostrar que a candidatura continua de pé, apesar do abalo com o caso Master e da crise com a madrasta.

O ato foi marcado por ausências ilustres. Michelle enviou vídeo, mas não compareceu. Jair ficou na prisão domiciliar, e Carlos preferiu visitar Eduardo nos Estados Unidos.

Com o clã desfalcado, Flávio teve que se contentar com o irmão caçula. Foi acompanhado por Jair Renan, o vereador que diz “incomodar o sistema” de Balneário Camboriú.

Diplomacia carcerária é uma praga, por Elio Gaspari

O Globo

Dom Pedro visitava Pasteur, agora visitam-se presos

Em 2019, Alberto Fernández liderava as pesquisas eleitorais para a Presidência da Argentina e decidiu visitar Lula, preso na Polícia Federal de Curitiba. Estava inaugurada a diplomacia carcerária. De lá para cá, em 2025, com Javier Milei no governo, Lula visitou a ex-presidente argentina Cristina Kirchner, presa em seu apartamento de Buenos Aires. Posou para uma fotografia segurando um cartaz pedindo a liberdade para a aliada.

Dom Pedro II visitava escritores e cientistas. Hoje, chefes de Estado brasileiros e argentinos criam factoides visitando presos. Javier Milei queria lustrar a sua passagem pelo Brasil visitando Jair Bolsonaro. O ministro Alexandre de Moraes proibiu o encontro, e ele o chamou de “lixo”. O troco veio do ministro da Fazenda, Dario Durigan:

— Palhaço.

Vem aí a fase de testes da reforma tributária, por Lu Aiko Otta

Valor Econômico

Entidades pedem ‘harmonização regulatória’ e ‘medidas que garantam segurança jurídica e operacional’

A fase de testes da reforma tributária deve começar na próxima segunda-feira, dia 3. Empresas passarão a informar, nas notas fiscais, o valor da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) e do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), dois tributos criados na reforma e que compõem o Imposto sobre Valor Agregado (IVA).

No teste, será apurada, mas não recolhida, uma alíquota de 1%. As informações ajudarão a calcular qual alíquota será necessária para que o IVA arrecade o mesmo que o sistema tributário atual.

O problema é que nem todas as empresas estão preparadas para cumprir essa exigência. Mas, se não o fizerem, correm o risco de não conseguirem emitir notas fiscais.

O elogio a uma ditadura, por Marcelo Godoy

O Estado de S. Paulo

O promotor Gakiya deixou claro o que significa o modelo de El Salvador na Segurança Pública

Candidatos à Presidência da República à procura do voto de quem se sente inseguro no Brasil têm espalhado uma ideia: copiar o modelo de combate ao crime do salvadorenho Nayib Bukele, que governa há cinco anos seu país em estado de exceção. Bukele é um ditador como seu vizinho, o nicaraguense Daniel Ortega.

A lacração e o populismo que o vê como solução pouco se importam com a razão de Donald Trump nunca ter adotado tal modelo para os EUA, embora o defenda para os latino-americanos. Washington não chama a máfia americana de terrorista ou defende bombardear Little Italy. Mas a famiglia Gambino não vive no Rio. Afinal, por que americanos não podem ser mortos ou encarcerados sem acusação ou direito à defesa?

O risco da complacência com Donald Trump, por Fábio Alves

O Estado de S. Paulo

Com decisões erráticas e imprevisíveis, Trump representa hoje a maior fonte de risco para a economia global

Pela primeira vez desde março, os índices de ações S&P 500 e Nasdaq registraram duas semanas consecutivas de perdas, enquanto os juros pagos pelos títulos do Tesouro americano de 30 anos de prazo atingiram o maior nível desde 2007 e a taxa do papel do governo alemão de 10 anos chegou perto do pico observado em 2011. Uma análise apressada poderia dizer que isso foi resultado direto da alta nos preços do petróleo – em razão da nova escalada no conflito no Oriente Médio – ou das novas tarifas de importação dos Estados Unidos.