terça-feira, 16 de junho de 2026

Estados Unidos impõem teto para avanço da IA, por Pedro Doria

O Globo

Os EUA não têm regra. Não há regulação, muito menos processo. Quem avalia se uma IA é ameaça ou não?

No dia 9 de junho, terça-feira da semana passada, a Anthropic lançou com certo estardalhaço seu novo modelo de ponta, Claude Fable. Era, de longe, a inteligência artificial (IA) mais avançada à disposição no mercado. Era. Na sexta, dia 12, quando mal passava das 17h em Washington, o secretário de Comércio Howard Lutnick mandou uma ordem. Era para a companhia suspender o acesso ao Fable para qualquer cidadão estrangeiro. Incluam-se na lista os próprios funcionários da Anthropic que não nasceram nos Estados Unidos (muitos). A equipe de comando da empresa leu o papel, sabia que colocar um filtro por nacionalidade é impossível, aí tomou a única decisão viável: tirou do ar. Ninguém mais usa. E, assim, o governo americano essencialmente acaba de impor um teto ao avanço da IA. A partir de determinado nível de capacidade, está proibido. Evidente que não vai durar. Foi puro improviso de quem não pensou nas consequências. Mas é fundamental compreender tudo que está em jogo.

Moraes e Eduardo no olho do furacão, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Trump e Eduardo Bolsonaro ganharam um forte aliado contra Alexandre de Moraes: a Itália

O ex-deputado Eduardo Bolsonaro e o ministro do STF Alexandre de Moraes estão novamente no olho do furacão entre Brasil e Estados Unidos, nesta semana, justamente quando o presidente Lula tem a expectativa de um encontro com Donald Trump, à margem do G-7, para discutir a nova onda de tarifas.

A novidade, desta vez, é que os ataques de Eduardo e de Trump a Moraes ganharam reforço com a decisão da Justiça da Itália de anular a extradição da ex-deputada bolsonarista Carla Zambelli, que tem dupla condenação no Brasil. Os argumentos italianos atingem o ministro do STF em cheio, em meio a várias batalhas.

Xandão é o Brasil, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Estará sempre disponível a crença em que a Corte constitucional italiana seria bolsonarista e teria rejeitado a extradição de Carla Zambelli como afronta político ideológica à Justiça brasileira. Num debate público em que ministro do Supremo foi consagrado nosso herói salvador, aquele a quem Vorcaro – no dia em que seria preso – perguntou sobre se conseguira bloquear algo, não faltam elementos mistificadores para compor essa fé. (E, se criticar, lembre-se: Bolsonaro volta – o golpe sempre à espreita.)

Sob a imposição do 8 de janeiro permanente, tudo sendo ataque à democracia, tem-se o Alexandre de Moraes isento. Sob a imposição do 8 de janeiro permanente, a isto foi elevado Moraes, cujo escritório de advocacia da esposa tinha contrato de R$ 130 milhões com o Master, tornado a própria encarnação do estado democrático de direito: Xandão é o Brasil; donde será ataque ao País apontar que a condição do juiz, ao mesmo tempo vítima, suscitaria “dúvidas sobre a imparcialidade, sob o aspecto objetivo, do tribunal que proferiu a condenação”.

Carvão e a lenta transição energética, por Jorge J. Okubaro

O Estado de S. Paulo

O impacto das condições de tráfego por Ormuz nos deixa claro que essa transição necessária, desejável e desejada é, antes de tudo, lenta

A turbulência por que passa a economia mundial a cada anúncio de fechamento ou de abertura do Estreito de Ormuz – por onde, em condições normais, trafega cerca de um quarto do petróleo consumido no planeta – é o sinal mais evidente de quanto continuamos dependentes de combustíveis fósseis. Transição energética, sobretudo pela redução do uso desse tipo de combustível, tem sido uma das expressões mais frequentes desses tempos. Para muitos, é a indicação de que está a nosso alcance quase imediato um futuro mais limpo e saudável. Mas o que o impacto das condições de tráfego por Ormuz nos deixa claro é que essa transição necessária, desejável e desejada é, antes de tudo, lenta – talvez lenta demais para quem luta por um mundo ambientalmente melhor.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Acordo escancara fiasco da guerra de Trump

Por Folha de S. Paulo

Ataque de EUA e Israel fracassa no objetivo de derrubar o regime iraniano e seu programa nuclear

Teocracia do Irã ganhou mais força; entendimento pode começar a normalizar oferta de petróleo, mas inflação global está contratada

Uma semana depois de começar a guerra contra o IrãDonald Trump escreveu que não haveria acordo com o inimigo, apenas "rendição incondicional". O Irã não se rendeu.

O regime obscurantista dos aiatolás está, isso sim, à beira de impor condições aos Estados Unidos —ao menos, termos de negociação no acordo que, segundo se anunciou, será oficializado na sexta-feira (19). O documento deve estender um cessar-fogo por 60 dias e estabelecer as cláusulas da trégua e as diretrizes das tratativas nos próximos dois meses.

CPI, uma inutilidade, por Antonio Claudio Mariz de Oliveira*

Folha de S. Paulo

Objetivo constitucional das CPIs é investigar fatos determinados de interesse público

Investigações partem para fatos não previstos com repercussão midiática

Chama a atenção no nosso ordenamento jurídico a existência de institutos que uma vez aplicados à realidade se afastam por completo do seu escopo. Esse distanciamento entre o legal e o real desvirtua por completo o seu desiderato originário.

Um exemplo são as comissões parlamentares de inquérito, com previsão constitucional (artº 58, parº 3º). O seu objetivo seria a "apuração de fato determinado e por prazo certo". Para isso possuem "poderes de investigação próprios das autoridades judiciais". As leis 1539/52 e 10179/03 regem a sua atuação.

O regimento da Câmara, em seu artigo 35,I, por sua vez, define que o fato precisa ser de interesse para a vida pública, ordem constitucional e social, devendo estar explicitado no pedido de instalação da CPI.

Evangélicos abandonam Flávio Bolsonaro e migram para Lula e Renan, por Juliano Spyer*

Folha de S. Paulo

Mentira sobre relação com Daniel Vorcaro espalhou desencanto pelo bolsonarismo

Flávio é visto por muitos como crente de fachada

Evangélicos podem ser protagonistas em mais uma eleição presidencial. Desta vez, para tirar a certeza de que Flávio Bolsonaro será o candidato da direita. A última coleta da Quaest, divulgada na semana passada, mostra o nome bolsonarista caindo nove pontos nesse segmento, de 61% para 52%.

Evangélicos representam um dos pilares eleitorais do bolsonarismo. Lideranças nacionais poderiam atuar para conter a sangria, mas continuam em silêncio —e têm motivos. Apostavam na dobradinha Tarcísio-Michelle e foram atropelados pela escolha de Flávio. Em seguida, a mentira sobre a relação com um ex-banqueiro que promovia orgias aumentou o constrangimento.

Uma definição de fracasso, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

EUA dificilmente conseguirão acordo nuclear com Irã melhor do que o de 2015

Trump fez uma guerra para voltar a situação que ele próprio definiu como ruim

Se os negociadores americanos derem um show, talvez consigam um acordo não muito pior do que o de 2015, assinado entre Irã, EUA e outras potências, com o objetivo de evitar que o país persa desenvolvesse armamento nuclear.

E o que aconteceu com aquele tratado, pelo qual o programa atômico iraniano era monitorado de perto por agências internacionais em troca do relaxamento de sanções econômicas? Ele vinha funcionando até que, em 2018, Donald Trump, em sua primeira passagem pela Casa Branca, achou que o acordo era ruim e dele se retirou unilateralmente, o que, na prática, significou enterrá-lo.

Futebol brasileiro corre risco de virar meme sem graça, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Copa virou negócio de trilhões e ao mesmo tempo uma brincadeira de criança

A esperança do time de Ancelotti está no banco de reservas

Com a Copa do Mundo politizada, agigantada (três países anfitriões, 48 seleções, 104 partidas e zebras à espreita) e multiplataformizada (no Brasil há uma disputa de segundos entre os canais de televisão e os de internet pelo menor delay), é impossível escapar aos memes virais. O futebol é um negócio de zilhões e ao mesmo tempo uma brincadeira de criança. Uma festa em que os convivas se sentem imediatamente afetados pela síndrome de Peter Pan.

Leitura para salvar nossas meninas, por Maíra Weber*

Instituto Positivo

A violência contra meninas e mulheres, seja física ou simbólica, esteve sempre presente, tristemente, na realidade de diferentes sociedades ao redor do mundo. No Brasil, dados de 2025 indicam 1.568 feminicídios, o que representa uma alta de 4,7% em relação a 2024. E o pior: os números têm aumentado em 2026, com o crescimento de 3,49% registrado apenas em janeiro.

As obras de arte, ao longo do tempo, refletem a sociedade e retratam suas mazelas. As primeiras narrativas literárias voltadas ao público infantil, como os contos de fadas, por exemplo, carregam uma concepção estereotipada da mulher, intimamente ligada à visão de mundo moldada pela coletividade. Muitos clássicos ensinaram meninas a terem como ideal de vida um príncipe salvador e a naturalizar o distanciamento entre os papéis sociais concebidos para homens e mulheres na sociedade.

Poesia | A Queimada, de Castro Alves -

 

Música | Chico Buarque - Voltei a Cantar

segunda-feira, 15 de junho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

O trilhão de Musk e as ambições siderais da IA

Por Folha de S. Paulo

Valor estratosférico atribuído à SpaceX reflete entusiasmo com investimento em IA, que não virá sem riscos

Nenhuma companhia reúne foguetes reutilizáveis de grande porte, milhares de satélites e meta de instalar processamento de dados no espaço

Misto de ativista da ultradireita reacionária e megaempreendedor visionário, o magnata Elon Musk elevou sua opulência e ambição a novos patamares.

A oferta de ações da SpaceX levantou US$ 75 bilhões e avaliou a companhia em US$ 1,75 trilhão. Com isso, mais as participações na Tesla e em outras iniciativas, o patrimônio pessoal de Musk passa a ser estimado em algo próximo de um inaudito US$ 1 trilhão.

O valor atribuído à SpaceX na operação equivale a cerca de 90 vezes a receita registrada em 2025. Projeções de analistas, também siderais, indicam que essa receita pode se multiplicar por dez nos próximos anos.

Acordo dá alívio imediato, mas está longe de resolver o problema nuclear iraniano, por Humberto Saccomandi

Valor Econômico

Os termos do acordo parecem atender as principais demandas de Teerã, como o fim do bloqueio americano

Estados Unidos e Irã parecem ter finalmente chegado a um acordo preliminar de cessar-fogo. É uma excelente notícia para o mundo, pois deve atenuar a pressão sobre o preço do petróleo, o que já começou. Faltam, porém, detalhes importantes sobre o que foi acordado. E muita coisa ainda pode dar errado até a próxima sexta-feira, data prevista para assinatura do pacto. Além disso, nada garante que a questão central, o futuro do programa nuclear do Irã, será resolvida nos próximos 60 dias. Ou seja, há o risco de o confronto ser retomado em breve.

O presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou que o estreito de Ormuz, por onde passam 20% do gás e do petróleo consumido no planeta, será reaberto a partir de sexta-feira, sem cobrança de pedágio. Isso fez a cotação do petróleo tipo Brent cair para cerca de US$ 83 na abertura do pregão eletrônico na Ásia, o menor valor desde o início de março. Mas ainda bem acima dos cerca de US$ 60 do começo do ano.

PT consolida estratégia para os Estados, por Sofia Aguiar

Valor Econômico

Impasse continua em Roraima, Tocantins, Goiás e Minas, principal foco de preocupação da sigla

A pouco meses do primeiro turno das eleições de 2026, o PT já consolidou grande parte de sua estratégia nacional para a disputa dos governos estaduais, mas ainda enfrenta impasses em quatro unidades da federação. Entre elas, Minas Gerais desponta como um dos principais focos de preocupação da legenda. Segundo maior colégio eleitoral do país, o Estado é considerado peça-chave para o projeto de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Na montagem de suas alianças regionais, o PT priorizou nomes próprios e já definiu dez pré-candidatos da legenda aos governos estaduais. A estratégia busca ampliar a presença da sigla nos Estados e fortalecer o palanque presidencial de Lula. Apesar disso, os cenários de Minas Gerais, Roraima, Tocantins e Goiás seguem indefinidos.

Bacen precisa de autonomia, mas aqui é Brasil, por Bruno Carazza*

Valor Econômico

Proposta de autonomia financeira do Banco Central é importante, mas dá cheque em branco desnecessário para instituição

Deve ir a plenário do Senado nos próximos dias, em fase final de votação, a PEC nº 65/2023, que dá autonomia financeira, orçamentária e administrativa ao Banco Central. A proposta tem méritos e é justificável em muitos aspectos. Porém, pode se converter em mais um exemplo de medida tomada sem que se dimensionem seus impactos e, no futuro, lamentaremos suas consequências irreversíveis.

Desde 2021 a autoridade monetária já dispõe de autonomia operacional, que inclui mandatos para sua diretoria. Caso a PEC seja aprovada, o Bacen não mais se vinculará a nenhum ministério e não será subordinado hierarquicamente a ninguém.

Fiscal complica a decisão do Copom, por Alex Ribeiro

Valor Econômico

O Brasil está em uma onda de sorte porque a deterioração fiscal não está se transmitindo pela taxa de câmbio, como costuma ocorrer, devido sobretudo ao comportamento do dólar nos mercados internacionais

Não é só a guerra no Oriente Médio e os efeitos de El Niño que dificultam a vida do Banco Central - também há a política fiscal fora do lugar. O presidente Lula disse na semana passada que o ministro da Fazenda, Dario Durigan, “flexibilizou o bolso” e “não tem tanta dificuldade de liberar um dinheirinho”. O Congresso mergulha numa pauta-bomba.

Como o Comitê de Política Monetária (Copom) do BC deve reagir em reunião nesta semana? Ninguém sabe ao certo: o mercado está dividido entre uma taxa Selic parada em 14,5% ao ano e o corte para 14,25% ao ano.

A direita faz cálculos sem Bolsonaro, por Miguel de Almeida

O Globo

E se o filho de Jair se mostrar um cavalo paraguaio (aquele que sai na frente e não aguenta o trote)? E se ele ganhar? Fará um governo de revanche, na mesma linha do Trump 2.0?

E se Flávio Bolsonaro acabar derrotado? E se o filho do Jair se mostrar um cavalo paraguaio (aquele que sai na frente e não aguenta o trote)? Existem outras perguntas: e se ele ganhar? Fará um governo de revanche, na mesma linha do Trump 2.0? Terá autoridade para evitar que seu irmão, Eduardo, venda o Brasil aos americanos? Afinal, o negócio está claro: Trump ajuda Flávio na eleição e então cobra o preço. Depois do Pix (olha o Zelle aí...) e das terras-raras, devidamente elencadas, poderia ser a Amazônia. Ou a Petrobras.

O apoio à candidatura de Flávio já sai caro a seus mantenedores. Medidas como os tarifaços 1 e 2 e a classificação das agremiações criminosas PCC e CV como terroristas causam prejuízos financeiros às empresas. A começar pela turma do agro, que deve se perguntar: até quando a ojeriza a Lula compensa a sangria provocada pelos Bolsonaros? Entra na mesa a fatura posta pelo patriarca de Rio das Ostras ao escolher o filho e não o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. Ele joga com os seus, não para seu grupo político.

Por baixo dos 16 anos, por Irapuã Santana

O Globo

Falando apenas na redução da maioridade penal, o adolescente passa a ter possibilidade de ser punido de modo até mais brando

Na última semana, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara aprovou a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos. Com isso, esse debate apareceu novamente. As próximas eleições explorarão o medo, e ninguém quer que quem cometeu crimes permaneça impune. Mas o que a realidade nos diz a respeito?

Dados do Ipea revelam que quase 13% dos menores internados cometeram crimes gravíssimos contra a vida (8,75% dos homicídios). O sistema socioeducativo lida, portanto, com uma parcela de jovens altamente violentos, e a sociedade tem razão em exigir punição severa e proporcional para eles. Observando o quadro geral, porém, essa parcela corresponde a menos de 1% dos assassinatos que ocorrem no país.

A eleição e a licença para gastar, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Políticos, na situação ou na oposição, parecem considerar um direito inalienável gastar dinheiro público para ganhar eleições

Os preços do diesel e da gasolina caíram em maio, na comparação com abril. É o que mostra o IPCA, índice oficial de inflação, medido pelo IBGE. Considerando apenas esses dados, se poderia dizer que deram certo as medidas do governo de zerar impostos e conceder subsídios aos combustíveis. Os consumidores deveriam estar satisfeitos, dando votos ao governante que distribuiu as bondades, no caso o presidente Lula. Será?

Nessa junção de economia e política, as coisas nem sempre são o que parecem. Tome-se o caso do óleo diesel. Em maio, depois das medidas postas em prática pelo governo, o preço caiu exatos 2,34%. Ocorre que, nos meses anteriores, a alta havia sido bem maior — 13,90% em março, mais 4,46% em abril, acumulando quase 19%.

Incentivo populista, por Diogo Schelp

O Estado de S. Paulo

Pela primeira vez, temos um governo do PT que enfrenta uma oposição populista

O ciclo político-eleitoral nas democracias obedece a um padrão: à medida que as eleições se aproximam, os políticos deixam de lado reformas de longo prazo e passam a se dedicar a medidas imediatistas de apelo popular garantido. O orçamento público é o alvo preferencial. Governos não apenas gastam mais em ano eleitoral, como direcionam os recursos para programas mais vistosos e eleitoralmente atraentes, em detrimento de investimentos estruturais. Lula está botando centenas de bilhões de reais na rua com esse propósito – e os congressistas não querem ficar atrás, basta ver o avanço de pautas-bomba distributivistas (que favorecem nichos eleitorais como categorias profissionais e igrejas, mas não o todo da sociedade).

Crime e soberania, por Denis Lerrer Rosenfield*

O Estado de S. Paulo

O Brasil – somos obrigados a reconhecer – já perdeu parte de sua soberania para as organizações criminosas

A recente decisão americana de designar como organizações terroristas as organizações criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), de caráter transnacional, tem suscitado uma grande celeuma, como se o Brasil estivesse a ponto de perder a sua soberania.

As declarações espalhafatosas do presidente Lula aumentaram ainda mais a confusão, com um demagogo falando em função do processo eleitoral em curso, em vez de um estadista procurando defender os interesses nacionais. A palavra soberania foi a mais utilizada, como se estivéssemos na iminência de uma invasão militar americana. Um completo disparate.

Um golpe à reputação dos EUA, por Oliver Stuenkel

O Estado de S. Paulo

O que está sobre a mesa não é um tratado de paz, mas o compromisso de continuar negociando

Há mais de cem dias, a maior potência do mundo entrou em guerra contra o Irã para eliminar o programa nuclear iraniano, destruir suas capacidades militares e derrubar o regime. Nenhum desses objetivos foi atingido. Pelo contrário: não há sinais de que o Irã tenha interrompido seu programa nuclear; suas forças seguem atacando os vizinhos e o regime, antes fragilizado, passou por uma renovação e radicalização.

Quem parece acuado não é Teerã, mas Washington. Ontem, em seu aniversário de 80 anos, Donald Trump anunciou que o acordo estava concluído, autorizou a reabertura do Estreito de Ormuz e o fim do bloqueio aos portos iranianos. O entendimento, mediado por Paquistão e Catar, prevê a assinatura na Suíça e estende por 60 dias o cessar-fogo.

Só não gosta do marco do fomento quem não faz cultura, por Margareth Menezes*

Folha de S. Paulo

Estamos migrando de um controle meramente formalista e burocrático para uma sistemática orientada a resultados

O objetivo é um só: usar bem os recursos públicos para que a cultura brasileira floresça em todos os seus tons e cores

O debate público sobre o fomento à cultura é, e deve ser, constante. É um reflexo da vitalidade de um setor que pulsa em cada canto do nosso país, gerando emprego, renda e, acima de tudo, identidade.

Recentemente, a imprensa trouxe à tona discussões sobre a prestação de contas no Ministério da Cultura (MinC), ecoando preocupações legítimas sobre a gestão dos recursos públicos. É fundamental, contudo, que essa discussão seja pautada pela verdade dos fatos e pelo reconhecimento dos avanços que estamos implementando.

É preciso, antes de tudo, contextualizar. O passivo de prestações de contas que o MinC enfrenta hoje não é uma criação da gestão atual. É um desafio histórico, acumulado ao longo de décadas, sob diferentes governos e regras. A desestruturação e o desmonte do Ministério da Cultura em períodos anteriores agravaram essa situação, deixando um legado de processos represados e equipes insuficientes.

Gilberto Freyre e o ‘foot-ball mulato’, por Marcus André Melo*

Folha de S. Paulo

Para ele, nossos triunfos deviam-se a termos abandonado a restrição a negros que vigia também no Itamaraty

O autor argumenta que o futebol criara as condições para, finalmente, o surgimento de heróis nacionais negros

Gilberto Freyre são atribuídos alguns mitos populares. Mas a tese de que a superioridade do futebol brasileiro se deve à miscigenação —ou, mais precisamente, ao "mulatismo"— não está entre eles. Provavelmente deveria estar. Em artigo intitulado "Foot-ball mulato", em sua grafia original, denotando as origens inglesas ainda muito presentes, Freyre escreveu: "Uma das condições dos nossos triunfos este ano me parecia a coragem que afinal tivéramos completa de mandar à Europa um team fortemente afro-brasileiro. Brancos alguns, é certo; mas grande número de pretilhões bem brasileiros e mulatos ainda mais brasileiros".

O contexto era a Copa do Mundo de 1938, quando o país ficou em terceiro lugar e Leônidas foi eleito o melhor jogador. Era também o início da ditadura do Estado Novo que viria a persegui-lo e a confiscar sua correspondência.

O país dividido também no comparecimento eleitoral, por Lara Mesquita*

Folha de S. Paulo

Sanções eleitorais ajudam a explicar por que a participação cresce com a escolaridade

Punições afetam mais a classe média escolarizada, para quem passaporte, concurso e CPF regularizado importam diretamente

A obrigatoriedade do voto no Brasil talvez funcione menos como instrumento de inclusão democrática do que como filtro burocrático de classe. Essa é uma das conclusões mais provocativas do novo livro de Jairo Nicolau"O País Dividido: Duas Décadas de Eleições Presidenciais no Brasil".

Nicolau usa dados de comparecimento, abstenção e justificativa de ausência para recolocar a discussão sobre voto obrigatório. No debate brasileiro, a defesa do voto facultativo costuma vir acompanhada de um argumento elitista: a democracia melhoraria se eleitores mais pobres deixassem de votar. A ciência política, por sua vez, parte da premissa oposta: o voto obrigatório impediria a exclusão dos mais pobres das urnas. Seria, portanto, um instrumento para mitigar o risco de que a desigualdade econômica se traduza também em desigualdade política.

Quando vamos encarar que o Brasil envelheceu? Por Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

Quando a pirâmide etária se inverte a coisa mais sensata a fazer é encarar a realidade e se preparar para a velhice

Somos, segundo a ONU, a sexta nação com maior quantidade de idosos no planeta

Numa sociedade que cultua e idolatra a juventude, envelhecimento é assunto tabu. Mas quando a pirâmide etária se inverte rumo ao predomínio dos idosos em relação aos jovens, a coisa mais sensata a fazer é encarar a realidade e se preparar para a velhice.

O número de pessoas com 60 anos ou mais já supera o número de jovens entre 15 e 24 anos (IBGE). Somos, segundo a ONU, a sexta nação com maior quantidade de idosos no planeta. Ou seja: o Brasil envelheceu!

Antes que alguém diga que "os 60 são os novos 40" (rsrsrsrs), eu afirmo: não são não! Assim como há coisas que só a idade nos dá, há outras tantas que ela nos tira. E olha que eu considero o envelhecimento uma dádiva da vida.

Poesia | A Garça triste, de Castro Alves

 

Música | Clara Nunes - Canto das três raças (Paulo Cesar Pinheiro)

 

domingo, 14 de junho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Juros de títulos do Tesouro expõem gasto insustentável

Por Folha de S. Paulo

Taxas chegam a superar 8% acima do IPCA; inflação em alta trava abrandamento

Cenário deixa poucas opções ao próximo governo além de ajuste rigoroso. Alternativa será fechar as contas com alta de preços, à custa dos mais pobres

Como tem sido a regra na gestão de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a conduta perdulária com as contas públicas cobra seu preço na forma de juros cada vez mais altos.

Desde maio, dispararam as taxas futuras no mercado, que já não consideram haver mais espaço para cortes na estratosférica Selic, hoje em 14,5% ao ano.

O Espelho Argentino, por Merval Pereira

O Globo

Para o Brasil contemporâneo, preso a uma polarização estéril entre as tribos lulista e bolsonarista, as lições que vêm do Sul são providenciais

“Eu sou você amanhã”. O bordão propagandístico de uma marca de vodca tornou-se famoso no país como um alerta para as consequências de atitudes irresponsáveis, como tomar vodca vagabunda que dá ressaca, e não por acaso, tornou-se comum usar a expressão para comparar os equívocos econômicos de governos populistas brasileiros com o perigo de o Brasil tornar-se a Argentina, um país que já esteve entre as dez maiores economias do mundo - como o Brasil está hoje - e nos últimos anos esteve envolvido em crises diversas.

A situação da Argentina é tão peculiar que o economista Simon Kuznets, russo naturalizado americano, Nobel de Economia de 1971, cunhou a máxima de que existem quatro tipos de países - os desenvolvidos, os subdesenvolvidos, o Japão e a Argentina. A situação ganha contornos de urgência para o leitor brasileiro no novo livro do economista Fabio Giambiagi, “Argentina para Brasileiros: Un País de Película”. A obra, que conta com a chancela do ex-ministro da Fazenda Pedro Malan em sua "orelha”, é um exercício de história econômica comparada, uma advertência rigorosa para um Brasil que teima em ignorar os sinais de fadiga de seu próprio tecido institucional às vésperas do novo ciclo eleitoral.

Lula festeja queda no desmatamento, e Flávio Bolsonaro promete afrouxar leis ambientais, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Em campanha, candidatos ao Planalto expõem visões opostas sobre a Amazônia

A Amazônia entrou na pauta da corrida presidencial. Na quinta-feira, Lula e Flávio Bolsonaro expuseram suas ideias sobre a região. Vale a pena conferir o que disseram.

Em Brasília, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais anunciou uma nova queda no desmatamento. A devastação recuou ao menor patamar em uma década. No último ano, a redução foi de 37,5%.

Lula festejou os números e defendeu a preservação da floresta. “Enquanto o desmatamento pode enriquecer uma ou duas pessoas, não desmatar ajuda o Brasil, a Amazônia e o mundo”, discursou.

O presidente aproveitou para fazer um alerta aos desmatadores: “Não faça coisa errada, que vai ser punido, porque nós queremos que a nossa floresta seja preservada para o bem da Humanidade”.

Flávio, um candidato pesado, por Elio Gaspari

O Globo

O senador, como o pai, cavalga o antipetismo, e só. Os eleitores independentes migraram e passaram ao largo de Romeu Zema e Ronaldo Caiado. Em 2026 o antipetismo está num nicho, encolhido por falta de agenda

O filme parcialmente financiado por Daniel Vorcaro, a diplomacia suicida e a plataforma oca de Flávio Bolsonaro cobraram seu preço na última pesquisa Quaest. Lula ultrapassou-o, marcando 44% contra 38%. Junho é cedo para se prever o resultado de uma eleição marcada para outubro, mas alguma coisa vai mal com o candidato.

Lula conseguiu sair de um viés de queda para outro, de alta, na segunda metade de um terceiro mandato e a poucos meses da eleição. De novo, nesta eleição, até agora a única novidade é a recuperação do presidente. Essa proeza foi conseguida muito mais pelos escorregões e abulias dos adversários do que por mais de três anos de desempenho.

Plano de estourar os cofres públicos, por Míriam Leitão

O Globo

O Senado ataca os cofres públicos ao aprovar bombas fiscais para atingir ao governo Lula, mas, na verdade, erra o alvo e acerta o país

Todo ano eleitoral, os políticos, de governo e oposição, ampliam gastos públicos, mas é difícil encontrar paralelo ao que está acontecendo agora. O Senado resolveu atacar os cofres públicos com dois objetivos, ambos condenáveis: fazer demagogia eleitoral e constranger o presidente Lula. O que se diz em Brasília é que o senador Davi Alcolumbre, por rancor, continua tentando atirar em Lula. Errou o alvo, senador, e acertou o Brasil.

Os senadores da oposição estão acusando o governo de gastador e fazendo o elogio da austeridade. Ao mesmo tempo, criam mais despesas. Quando criticam a gestão atual têm razão em vários pontos, mas as pautas que avançam no Senado desequilibram o país.

História, memória... e FHC, por Pedro Malan*

O Estado de S. Paulo

As palavras de FHC continuam expressando no Brasil de hoje, passados mais de 32 anos, necessidade, relevância e urgência

Este artigo é uma homenagem aos 95 anos de Fernando Henrique Cardoso (FHC) e à sua contribuição para a modernização do Brasil. É também um apelo por uma resposta, com visão de futuro, para a situação econômica, social e político-institucional do Brasil nesta quadra difícil e perigosa em que se encontram nosso País e o mundo. Já o fizemos no passado. Será necessário voltar a tentar, e com sentido de urgência.

Em 13 de junho de 1993, menos de um mês depois de FHC ter assumido o Ministério da Fazenda, foi dado a público o Programa de Ação Imediata. Visto em perspectiva histórica, o documento representa um marco importante por razões que guardam relevância para a situação do Brasil de hoje. O programa abre com a seguinte frase: “Somente quatro países do mundo tiveram inflação superior a 1.000% (em 1992): a Rússia, a Ucrânia, o Zaire (Congo) e o Brasil.” O documento deixava claro que o fim da inflação não era objetivo que se esgotasse em si mesmo.

Os problemas que a Copa não resolve, por Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

Depois da Copa do Mundo, que tal olhar um pouco mais para a economia frágil?

Copa do Mundo, eleição e desemprego contido, embora distante da meta, têm garantido alguma animação no Brasil, apesar da inflação de 3,20% de janeiro a maio e de 4,72% em 12 meses, muito acima do alvo oficial de 3%. Se o governo insistir na gastança, o quadro pode piorar. Segundo projeções do mercado, a alta dos preços ao consumidor poderá superar 5% neste ano e 4% no próximo, pressionando mais duramente, como sempre, as famílias pobres e também as de renda média baixa. Essas famílias têm sido favorecidas muito mais pelo assistencialismo e pelo populismo do que pelas oportunidades de avanço profissional, de modernização econômica e de conquista de maior independência.

Uma Copa como nunca se viu, Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Cadê nossa bandeira, o nosso verde e amarelo? A polarização comeu

Cadê o nosso verde e amarelo? Onde estão as bandeiras do Brasil, que sempre encheram de luz, alegria e esperança o País em época de Copa do Mundo, fosse na ditadura militar, no início da redemocratização, nos governos de esquerda, de direita ou de qualquer coisa?

Não foi o gato que comeu e nada disso subiu na árvore. Aliás, nem é por desconfiança na seleção do Ancelotti, nem pelas dúvidas sobre o Neymar, nem mesmo pela aposta do comentarista Juca Kfouri de que o Marrocos iria vencer na estreia brasileira. Então, o que aconteceu com as nossas cores, a bandeira, as camisetas, a torcida interna? A polarização política tragou. Milhões de brasileiros e brasileiras, inclusive aqui na capital da República, onde eu testemunho ao vivo, têm medo de serem confundidos com seus adversários. É o que se ouve por aí: “Eu? Eu, não. Para acharem que sou bolsonarista?”

Acordo à vista no Oriente Médio, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

Um memorando de entendimento para a reabertura do Estreito de Ormuz parece prestes a ser assinado por EUA e Irã. O acordo obedece às condições impostas por Teerã: liberação de depósitos congelados no exterior, extensão do cessar-fogo por dois meses e adiamento da negociação sobre o programa nuclear iraniano para uma segunda etapa.

Os Emirados Árabes Unidos teriam concordado em liberar até US$ 20 bilhões de depósitos iranianos retidos em bancos de Dubai, segundo fontes ouvidas pela agência Reuters. Funcionários iranianos e dos Emirados teriam visitado Abu Dhabi e Teerã, respectivamente.

A profecia do messias Elon Musk tem agora crentes que rezam com trilhões de dólares, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Abertura de capital da SpaceX deu valor de US$ 2,1 tri para a missão do empresário

Prospecto do negócio tem estilo messiânico e plano de salvação da humanidade

As crianças dos anos 2030 talvez não se espantem de ver um céu de muitas luas quando olharem para o poente ou para o nascente. Coletores de energia solar e radiadores de calor de supercomputadores de inteligência artificial, os data centers orbitais, brilhariam como a Lua, mas com um quarto do tamanho.

Parece paisagem de contos de Arthur C. Clarke dos anos 1960, o autor de ficção científica que então imaginou também uma rede mundial de computadores que teria tantas conexões que se tornaria um cérebro com vontade própria.

Eduardo Bolsonaro mandou salvar o Master? Por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Quando o ex-deputado fugiu para os EUA, indicou Filipe Barros para substituí-lo na presidência de comissão

Subitamente, o órgão começou a se meter na regulação do setor financeiro, algo completamente fora de sua alçada

Leitores desta coluna já sabem que o deputado bolsonarista Filipe Barros (PL-PR) apresentou um projeto de lei (PL 4395/2024) para elevar a cobertura do FGC e salvar o Banco Master. Graças à coluna da jornalista Malu Gaspar, agora sabemos que sua atuação a favor do banco de Vorcaro foi muito mais longe. E pode ter envolvido Eduardo Bolsonaro.

O projeto de lei de Barros, é bom lembrar, era exatamente igual à proposta de Emenda 11 à PEC 65/2023, redigida pelo Banco Master e apresentada no Congresso Nacional pelo ex-chefe da Casa Civil de Bolsonaro, Ciro Nogueira. Se tivesse sido aprovado, o rombo deixado pelo Master no sistema financeiro teria sido muitas vezes maior do que foi.