quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Não há falta de futuros, mas há falta de sentidos, por Rui Tavares

Folha de S. Paulo

A democracia tem que saber em que acredita; e dizê-lo

Se não dermos sentidos para o progresso e até para a humanidade, não teremos vidas que valham a pena ser vividas

"Estamos fartos", diz um dos participantes nos protestos estudantis em França. "Não há futuro para nós", diz outro. As mesmas frases poderiam ser ditas —e foram— sobre outros protestos e revoltas na história; as mesmas frases têm sido usadas para descrever as reações de eleitorados em todo o mundo, a cada vez que uma eleição corre como não era previsto. Não é impossível que os protestos deste ano na França acabem por ajudar à eleição de Marine Le Pen no próximo ano. Mas será que o lugar-comum faz sentido?

Como o Plano Barrabás e mexida na Constituição ameaçam ajuste fiscal de um Bolsonaro 2, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Expectativa de vitória já diminui taxas de juros, mas Flávio esconde programa econômico

Ataques ao sistema e histórico de governo Bolsonaro 1 lançam dúvidas sobre plano

Donos e administradores do dinheiro grosso tiveram de alterar suas aplicações porque Flávio Bolsonaro (PL) venceu o primeiro turno. Dadas as alternativas, Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), cresceu um pouco a probabilidade de contenção de gasto e dívida do governo, o que afeta juros, moeda, etc.

Não interessa agora se a expectativa vai se confirmar. Amanhã vai ser outro dia. Importa falar dos riscos das expectativas para Bolsonaro 2.

O caminho mais seguro para perder uma eleição presidencial, por Wilson Gomes

Folha de S. Paulo

Confundir merecimento com voto e certezas com realidade é caminho seguro para a derrota

Se é preciso virar um jogo, o eleitor decisivo é justamente aquele que não fala a sua língua

Vamos supor que você queira disputar uma eleição presidencial numa situação em que quase metade do eleitorado diz que não votaria em você em hipótese alguma. O país está ávido por mudança, mas esta é a sétima vez que você concorre ao mesmo cargo.

É verdade que seu adversário tem rejeição semelhante. Mas há uma diferença importante: é você quem governa o país. É de você que se cobram os problemas que continuam sem solução e as coisas que as pessoas acham que um governo deveria entregar. Para piorar, há mais brasileiros avaliando negativamente a sua administração do que aprovando-a.

A síndrome do segundo mandato, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

A exemplo de Trump e Netanyahu, um novo governo do clã Bolsonaro tenderia à radicalização

Fraqueza do STF e Congresso dominado pela ultradireita agravam os riscos institucionais

Biológica e juridicamente, Jair e Flávio Bolsonaro são seres distintos. Mas, politicamente, atuam como um coletivo. Assim, uma vitória de Flávio iniciaria não o seu primeiro mandato, mas o segundo do clã Bolsonaro. E é aí que mora o perigo.

A literatura mostra que processos de erosão democrática patrocinados por líderes autoritários costumam ficar mais agudos a partir de seus segundos mandatos. E esses movimentos tendem a intensificar-se ainda mais se o dirigente tiver sido removido do poder por um período e depois retornado. É aí que eles vêm com sangue nos olhos. Vimos isso claramente nos casos de Trump 2, de Netanyahu pós-2022 e do último Viktor Orbán. Candidatos a explicar a radicalização incluem os ressentimentos acumulados, o maior conhecimento das engrenagens do poder, que torna suas ações mais eficazes, e o afastamento dos membros mais moderados de suas coalizões.

Perfil do Congresso será conservador como sempre foi, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

É precipitada e incorreta a conclusão de que houve, agora, um avanço inédito da direita no Parlamento

A diferença é o desempenho dos radicais, que, no fim, se alinham sob o guarda-chuva pragmático do centrão

O Congresso Nacional eleito para os próximos quatro anos não será mais nem menos conservador do que sempre foi se olharmos o perfil geral pela predominância de representação do centro à direita.

No quadro mais amplo, a Câmara dos Deputados, isso se vê melhor: dos 57% atuais, esse campo vai para 59% dos deputados. A esquerda segue minoritária como sempre, com os mesmos 24%, considerando o PT e agregados.

Entrevista | Antonio Lavareda: ‘Voto para presidente não mostra revolução de direita’, por Hugo Henud

O Estado de S. Paulo

Cientista político atribui o revés de Lula no 1.º turno à abstenção e ao pessimismo econômico

Sociólogo, é professor colaborador da pós-graduação em Ciência Política da UFPE e especialista em comportamento eleitoral

A dianteira de Flávio Bolsonaro (PL) sobre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no primeiro turno não representa, na avaliação do cientista político Antonio Lavareda, uma “revolução de direita” no voto presidencial. Para Lavareda, pequenos deslocamentos do eleitorado em relação a 2022 foram suficientes para produzir um resultado politicamente expressivo e colocar o senador à frente do presidente na disputa pelo Palácio do Planalto. “Aqueles que interpretam que houve uma grande revolução de direita podem usar outros parâmetros, mas o voto presidencial não mostra isso”, diz.

Em entrevista ao Estadão, Lavareda afirma que a abstenção ajuda a explicar por que a vantagem de Lula registrada por pesquisas às vésperas da votação não apareceu nas urnas. Para o segundo turno, Lavareda afirma que uma virada de Lula é possível, embora difícil, e exigiria movimentos em três frentes: recuperar parte dos eleitores que se abstiveram, disputar os votos das candidaturas eliminadas, em sua maioria, segundo ele, de perfil conservador, e avançar inclusive sobre quem escolheu Flávio no primeiro turno. 

Leia os principais trechos:

As ilusões perdidas, por Marcelo Godoy

O Estado de S. Paulo

A direita tradicional pensou que trataria o bolsonarismo como o MDB fazia com as siglas da esquerda

Ao fazer o retrato inicial de Lucien Chardon, o jovem de origem modesta que aspirava à aristocracia adotando o nome da mãe – Rubempré –, Balzac escreveu que suas “belas ilusões da juventude” ainda não “haviam sido afetadas pelos desejos e pelas dificuldades da vida”. Lucien reencontrava suas recordações, suas ilusões e seus vinte anos ao voltar à sua terra. Esse parece o caso, em cada eleição, das principais forças políticas do País.

Seria preciso um Balzac para demonstrar como a terceira via se iludiu durante quatro anos ao se juntar aos Bolsonaros em cada manifestação da Avenida Paulista em vez de lhes disputar a hegemonia na oposição? Quem passou a vida vendo a banda passar sai da urna da mesma forma que entrou. Ou pior: desempregado. Esperidião Amin que o diga. A direita tradicional pensou que trataria o bolsonarismo como o velho MDB tratava as siglas de esquerda que abrigava nos anos 1980: uma turma do barulho, mas que lhe trazia votos.

Voto em Flávio Bolsonaro vai soltar Jair, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Kassio Nunes Marques indica que pode dar canetada e libertar ex-presidente após eleição

Kassio Nunes Marques mandou avisar: encerrada a eleição, quer julgar o pedido de revisão criminal apresentado pela defesa de Jair Bolsonaro. Para surpresa de ninguém, o ministro fez circular que vê “exageros” na condenação do ex-presidente. Acrescentou que também estuda soltá-lo com uma liminar, antes de levar o processo a plenário.

Flávio Bolsonaro nunca escondeu que sua primeira medida, se eleito, será assinar um indulto para tirar o pai da cadeia. A novidade é a disposição de Kassio, enrolado no escândalo do Banco Master, para antecipar o processo com uma canetada. Os bolsonaristas que demonizam as decisões monocráticas do Supremo não devem protestar.

O que vem por aí caso Flávio vença, por Vera Magalhães

O Globo

Mercado espera reforma fiscalista, mas ênfase da campanha, inclusive do início do segundo turno, é em ameaças ao STF e buscar indulto a Jair e demais condenados

A euforia nos mercados depois do primeiro turno em que Flávio Bolsonaro terminou na frente de Lula parte do princípio de que, se o senador do PL vencer a eleição no próximo dia 25, haverá reformas econômicas no período inicial do mandato, conhecido por representar uma lua de mel entre o presidente eleito e o Congresso. Todas as indicações do candidato e do comando de sua campanha, no entanto, deixam claro que essa está longe de ser a prioridade.

Um dos primeiros atos de Rogério Marinho, coordenador da campanha e visto como homem forte de um possível governo Flávio, foi visitar o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Edson Fachin, para deixar claro que o futuro governo não “se omitirá” em relação a ministros da Corte.

A direita veio para ficar, por Elio Gaspari

O Globo

O mapa eleitoral replica o de 1974 desde 2022

Desde a eleição presidencial de 2022, o mapa eleitoral mostra que Bolsonaro prevalecia no Sul e no Sudeste. Lula prevaleceu em Minas e no Nordeste.

Em 1974, a ditadura estava certa de que triunfaria e tomou uma bofetada eleitoral. A oposição elegeu 16 dos 22 senadores. (Naquele tempo, os governadores eram eleitos indiretamente; a disputa pelo Senado era a maior eleição majoritária disponível.)

A ditadura foi ferida de morte. Numa análise grosseira, em 1974 o PIB votou na oposição, e o regime ficou com os grotões. Em 2022, o mapa foi semelhante, e em 2026 a escrita repetiu-se, aprofundando-se.

A ditadura foi surpreendida em 1974. Em 2026, o PT foi para a guilhotina com indolência. Em São Paulo, a vitória de Orestes Quércia era inimaginável em 1974, tanto que Ulysses Guimarães não quis disputar o Senado. Em 2026, depois de ter perdido a capital por uma margem de 1 milhão de votos, o PT marcou presença e lançou Fernando Haddad ao governo e foi derrotado com uma diferença de 6 milhões de votos (36%).

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Pretensão de Kassio de soltar Bolsonaro é um acinte

Por Folha de S. Paulo

Ministro do STF cogita anular os efeitos da justa condenação do ex-presidente por tentativa de golpe

A via correta para reduzir penas exageradas é o plenário da corte autorizar logo a vigência da lei da dosimetria, aprovada pelo Congresso

Causa espécie a notícia de que o ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal, cogita anular os efeitos da condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e permitir a sua soltura, mediante decisão monocrática. Parece que juízes da corte constitucional não compreenderam a intolerância da sociedade com esse padrão de intromissão político-partidária.

A causa é acintosa. Não há dúvidas da participação do então candidato derrotado à reeleição numa trama para subverter o resultado das urnas. Testemunhos e provas asseguram que o Brasil só não viveu a recidiva autoritária pela resistência da cúpula das Forças Armadas, liderada pelo general Freire Gomes, do Exército.

Poesia | O Vento na Ilha, de Pablo Neruda

 

Música | Não vai dar certo - Celso & Pedro Viáfora (2025)

 

terça-feira, 6 de outubro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Segundo turno exige comedimento do Judiciário

Por O Globo

TSE e STF precisam ter sensatez nas decisões sobre o pleito, para não interferir na vontade do eleitor

Definido o resultado do primeiro turno, com o senador Flávio Bolsonaro (PL) chegando à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) por diferença de quase 2 pontos percentuais, a disputa ao Palácio do Planalto entra agora numa fase decisiva. Os dois candidatos confrontarão suas ideias por meio de propaganda eleitoral, entrevistas e debates, para dar aos eleitores oportunidade de escolher entre os dois projetos. É fundamental que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e o Supremo Tribunal Federal (STF) demonstrem sensatez e comedimento em suas decisões relacionadas ao pleito, de modo a não interferir na vontade do eleitor. Devem agir sobretudo nos casos absolutamente necessários, para impedir ou corrigir injustiças.

Direita avança, Congresso muda e estados pesam no segundo turno, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Caiado e Zema sinalizam oposição ao PT; Cury e Renan não orientam eleitores. Flávio busca novas adesões e Lula votos no Sudeste

O primeiro turno deu a Flávio Bolsonaro mais do que a dianteira na disputa presidencial. Entregou ao candidato do PL palanques fortalecidos, a maior bancada da Câmara e um avanço expressivo no Senado. Lula preservou sua fortaleza nordestina, mas precisará ampliar suas fronteiras eleitorais para vencer em 25 de outubro. A eleição também revela uma mudança na composição da classe política: lideranças mais jovens, familiares de políticos tradicionais e personagens projetados pelas redes sociais ganham espaço, combinando renovação geracional e continuidade de correntes ideológicas e oligarquias conservadoras no poder.

‘Há duas questões centrais em jogo: em primeiro lugar, a democracia’, por Sérgio Abranches

Valor Econômico

Há, para mim, duas questões centrais em jogo. Em primeiro lugar, a democracia. O ponto, digamos, mais profundo de risco à democracia é a negação da tentativa de golpe de 2022 por Flávio Bolsonaro.

A crise no STF completou o processo de esgarçamento institucional. O presidencialismo de coalizão está paralisado com o desequilíbrio nas relações Executivo/Legislativo. O resultado das eleições para o Congresso agrava esse quadro com uma bancada expressiva de extrema-direita. E a crise no STF atinge a capacidade de mediação e resolução de conflitos entre os dois Poderes.

Lula revê estratégia para recuperar eleitores

Valor Econômico, por Sofia Aguiar, Lucas Borges Teixeira, Cristiane Agostinee Lu Aiko Otta

Decepcionado com o resultado do primeiro turno, o “day after” da contagem dos votos serviu para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) dar início a um freio de arrumação de olho na reeleição. Uma das principais preocupações da campanha é rever as estratégias para recuperar eleitores de São Paulo, Minas Gerais e dos Estados da região Nordeste, com o objetivo de melhorar o desempenho do petista. Em outra frente, a comunicação da campanha é pressionada a mudar e é vista como uma das responsáveis pela performance aquém do esperado nas urnas no domingo (4).

Com o intuito de renovar a estratégia para os próximos 20 dias, Lula realizou, na segunda-feira (5), reuniões com o grupo político de seu governo e candidatos derrotados, vitoriosos e que ainda concorrem ao segundo turno, além de integrantes do núcleo duro da campanha.

Em um dos encontros, o presidente admitiu que precisa falar mais e fazer mais mobilização. Segundo ele, é preciso “fazer mais rádio, mais selfie, conversar mais e arrumar tempo para fazer campanha”. Nesse sentido, afirmou que é importante participar dos debates nesta segunda etapa - o que não fez no primeiro turno - “porque é tête-à-tête”, em referência a um embate direto com o candidato do PL, Flávio Bolsonaro, que conquistou mais votos que o petista nas urnas.

O poder do voto sobre a toga, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Resultado eleitoral no Rio mostra o efeito rebote da intervenção judicial

Nas primeiras falas do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, e no resultado eleitoral do Rio, há um mapa de 2º turno. O comandante da avalanche do PL nas eleições majoritárias e proporcionais disse que o ex-presidente Jair Bolsonaro, caso o filho se eleja, será reabilitado para disputar a Presidência da República.

As perspectivas de reabilitação do ex-presidente, as ambições da senadora eleita Michelle Bolsonaro (DF) e a maiúscula votação do deputado federal Nikolas Ferreira (MG) deixam claro que, nem tão cedo, o PL pretende ceder o manche para a direita tradicional. Ainda que o senador Flávio Bolsonaro (PL) cumpra sua promessa de pôr fim à reeleição, não parecerá disposto, se eleito, a entregar o poder para que outro aventureiro lance mão.

Brasil marcha à direita, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Virada de Lula no segundo turno não é impossível, mas é bem difícil

País se junta a outras nações em onda de ultradireita

A direita fez barba, cabelo e bigode nestas eleições. Se o futuro é contingente, não dá para descartar uma virada de Lula contra Flávio Bolsonaro no segundo turno, mas ela é improvável. Os menos de dois pontos percentuais que separam o petista de seu adversário podem não parecer muita coisa, mas os eleitores de Renan Santos, Augusto Cury e Ronaldo Caiado, que ficaram órfãos, tendem a ter um perfil mais conservador. Difícil imaginar que migrem para Lula em desproporção tal que compense e supere a diferença.

É claro que o imponderável pode dar as caras. Eleitores sempre podem mudar de ideia. Imagino até que os serviços de "opposition research" do petismo tenham guardado algum vazamento suculento contra Flávio. Tudo é possível, mas nada aponta um caminho muito fácil para a virada.

Difícil, mas Lula pode virar se mudar a rota e souber jogar, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Se nunca houve reviravolta entre os dois turnos, nunca a distância do primeiro para o segundo lugar foi tão pequena

A dúvida é se o presidente terá força e discernimento bastantes para corrigir os erros a tempo de ganhar

O desempenho da direita impressionou, mas não o suficiente para consolidar a impressão de que a eleição esteja resolvida, Jair Bolsonaro indultado e os golpistas anistiados.

É verdade que não há registro de virada do segundo sobre o primeiro colocado de um turno a outro, e é fato também que nunca a distância foi tão estreita.

A derrocada da esquerda é ainda mais dura que a de 2018, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Bolsonaro pai planejou fazer sua volta ao poder usando a força do voto

Filho 01 pensa no acerto de contas e já age como se estivesse no Palácio do Planalto: fim do PT

Preso em novembro de 2025 por tramar um golpe de Estado para impedir a posse de Lula em 2023, Bolsonaro planejou fazer a volta ao poder usando a força do voto. É paradoxal, mas o bolsonarismo é assim.

Até agora está tudo dando certo. O filho Flávio venceu o primeiro turno por uma diferença de 2,4 milhões de votos e, dependendo da reação de Lula, que no momento parece improvável, deverá ser eleito presidente no último domingo de outubro. Ao som do funk, o 01 já age como se estivesse no Palácio do Planalto comandando o acerto de contas: "Está decretado o fim da era PT".

Para entender a euforia do mercado com Flávio Bolsonaro, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Mera expectativa de 'ajuste' incerto derruba juros, maior queda em quase 20 anos

Queda de juros revela custo que país paga quando não há nem promessa de ajuste econômico

Dólar e Bolsa são os sinais mais "pop" da euforia de "o mercado" com a possibilidade agora muito maior da vitória de Flávio Bolsonaro (PL). Presta-se menos atenção ao que se passa no mercado de juros. Isto é, onde grosso modo se definem taxas de empréstimos para o governo federal, em vários prazos, mercado de títulos da dívida pública, em geral o piso das taxas para a economia inteira. Na manhã desta segunda (5), as taxas caíam para todos os prazos, em particular para títulos de prazo de dois anos ou mais. As baixas mereciam aquele clichê jornalístico, "despencam", com quedas de mais de 1 ponto percentual para negócios de cinco anos, uma brutalidade. Caíam tanto que a B3 teve de ampliar limites máximos de variação diária. Estourou a boca do balão.

Sob a onda conservadora, por Jorge J. Okubaro

O Estado de S. Paulo

O segundo turno é uma nova eleição, que está apenas começando. Como surpreendeu no primeiro turno, Flávio Bolsonaro pode ser surpreendido no segundo

Além de surpreendente, pois até a véspera a maioria das pesquisas de intenção de voto não a indicava, a vitória numérica do candidato Flávio Bolsonaro no primeiro turno das eleições presidenciais mostra de modo eloquente a consolidação do prestígio da direita. É preciso observar, porém, que, mesmo expressiva, a vantagem de 2,2 milhões de votos que Bolsonaro obteve sobre seu principal adversário, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, não é garantia antecipada de vitória no segundo turno. Em 2022, nas quatro semanas entre o primeiro e o segundo turnos, o pai de Flávio, o hoje preso expresidente Jair Bolsonaro, conseguiu reduzir em 4,1 milhões de votos, de 6,2 milhões para 2,1 milhões, a diferença que o separava do mesmo candidato que o filho enfrenta neste ano. Mas Flávio começa a campanha do segundo turno com vantagem.

Todas as condições contra Lula, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Os ventos são contra Lula, mas ele parece não entender que o problema não é Flávio, é a onda da direita

A onda é a favor de Flávio Bolsonaro e contra Lula, que encontra condições de tempo e temperatura bastante desfavoráveis para atravessar o segundo turno com chance de vitória. Hoje, já se pode fazer o que não foi possível no fim do primeiro turno: apontar um favorito, que é Flávio.

A Flávio, basta não cometer erros. Para Lula ter chance de mais um mandato, é preciso acertar nas estratégias e nos aliados e alvos num ambiente hostil – e com o tempo correndo contra. Imagine-se o clima na campanha de Lula, envolvida em decepção, desânimo e troca de acusações.

A eleição do nariz tapado, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Não estará no gibi – o Supremo como grande eleitor – o quanto de 22 nas urnas Gilmar Mendes e Flávio Dino deram a Flávio Bolsonaro. Podem lhe dar ainda mais, os interventores. Só Nossa Senhora sabe. (Desaparecido Xandão, por ora.) (Sossegado Eduardo Bolsonaro, por ora.). Só Tarcísio poderia lhe dar mais votos; o resultado – a liderança ao fim do primeiro turno – sendo desestimulante para qualquer corpo mole. E já se achegam os donos do Centrão para oferecer o apoio negado três meses atrás. Chama-se perspectiva de poder.

O risco extremo da democracia, por Míriam Leitão

O Globo

Se ganhar, Lula terá uma oposição com força inédita, já Flávio terá maioria para completar o projeto autoritário

Para o Brasil, não há cenários fáceis à frente. Se o presidente Lula for eleito, pode enfrentar crises de governabilidade, a menos que tenha a capacidade de formar uma coalizão diante da direita fortalecida no Congresso. Se o eleito for Flávio Bolsonaro, ele terá nas mãos mais instrumentos para realizar o projeto autoritário do pai: bancadas robustas na Câmara e no Senado, o Supremo Tribunal Federal enfraquecido e o apoio do governo Donald Trump. A ciência política sabe que é no segundo mandato que o projeto autocrata dobra a aposta. Veja-se o caso de Donald Trump. O risco não é de o filho repetir o pai, é de superá-lo.

Ventos de direita: crise anunciada, por Fernando Gabeira

O Globo

Bolsonarismo se valeu da ideia de perseguição política e cresceu na condição de vítima

Aconteceu. Independentemente do resultado do segundo turno, o grande fato político é a vitória da direita no Senado, que, desde já, anuncia um ano de crises institucionais com o STF.

Aconteceu, e não creio que se possam culpar apenas os erros de campanha. A performance do governo teve peso. A frente que venceu em 2022 não foi capaz de crescer após as eleições, não soube se expandir para setores ainda não conquistados.

Escrevi alguns artigos mencionando minhas dúvidas aqui e ali. Mas às vezes as críticas são muito mal recebidas, e o velho argumento de que criticar é favorecer o adversário continua sendo dominante.

Orgulho e preconceito, por Merval Pereira

O Globo

Dirigentes do PT têm a pretensão de ser os donos da verdade, os que sabem guiar o povo para sua redenção.

Sempre se soube que o Brasil é um país conservador, mesmo que seja governado pela quinta vez por um presidente de esquerda (três vezes Lula e duas vezes Dilma). A supremacia surpreendente de Flávio Bolsonaro no primeiro turno da eleição presidencial, no domingo, não quer dizer, porém, que a maioria dos cidadãos seja de extrema direita. Assim como as vitórias de Lula não comprovam que a maioria daqueles momentos era de esquerda, agora também a extrema direita não define a maioria dos que votaram em Flávio.

Aquilo que aconteceu, por Pedro Doria

O Globo

Ela gosta do brasileiro pobre que imagina, despreza o que existe

A única classe social em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva venceu no primeiro turno foi a E. Nacionalmente, recebeu 54,4% dos votos dos brasileiros mais pobres. Mas aquela em que apresentou a menor distância para Flávio foi a classe A: 40,1% ante 48,7% do senador. Em nenhuma região a distância entre os dois, na classe A, foi tão estreita quanto no Sudeste. O filho de Bolsonaro ganhou, mas por 4 pontos percentuais. Na cidade do Rio, Lula venceu na classe A por 46% a 44%. Em São Paulo, foi Flávio quem levou vantagem — 44% a 42%. Lula ganhou entre os 27% mais pobres e foi extremamente competitivo entre os 3% mais ricos. Perdeu no resto.

Sobre “pós-tudo”: o que já está posto e o que está por vir, por Paulo Fábio Dantas Neto*

Achei boa a fala de Lula após a apuração dos votos do primeiro turno. Penso que foi o melhor possível como reação serena, no calor da hora, num momento em que ele está diante, talvez, da competição mais fatal da sua vida pública.  Admitir, como admitiu, que tomou uma lição de democracia insinua um bom recomeço. Logo saberemos se essas palavras se sustentarão ou se a força da inércia do seu campo ou da sua personalidade o manterá na busca de uma “bala de prata”, ou, ainda se, além disso, deslizará para ceder a tentações como a de usar a AGU pra espalhar suspeitas sobre a eleição. Mas o arriar de malas para o segundo turno foi um gesto de experiente profissional. Bem melhor do que o da criatura imprudente que está vencendo a eleição e decretou o “fim da era do PT” antes da batalha decisiva.

Brasil: La urgencia de remontar esta nueva batalla electoral, por Fernando de la Cuadra

Clarin Chile

Antes del pleito de este domingo, la casi totalidad de las encuestan daban como ganador al presidente Lula da Silva -aunque por un estrecho margen-, en torno de dos o cuatro puntos porcentuales. Con el 100 por ciento de los cómputos escrutados ya en la madrugada, esta situación se invirtió y aparece Flavio Bolsonaro con un 47,03 por ciento de los votos, frente al actual mandatario que obtuvo un 45,16 por ciento, es decir, poco menos de 2 puntos de diferencia.

Um pouco de autocrítica não faz mal a ninguém, por Pablo Spinelli

Escrito no calor da hora, pode-se errar na análise quanto ao tom, mas urge uma reflexão para que se possa relacionar ciência com política. Parafraseando uma famosa frase da escrita do escritor Mario Vargas Llosa, “quando esse governo se deu mal?”

A começar pela subida da rampa quando a simbologia daqueles personagens – que não se sabe se subiram novamente – já dificultava o entendimento do que foi prometido: um governo de pacificação e união nacional e a governabilidade com a Frente Democrática. Nem um gesto para a construção do “ministério do amor” e do “vamos namorar”, palavras ditas em tom de gracejo do então candidato Lula. Como os jovens poderiam namorar com dívidas? Sem ir ao cinema, tomar um sorvete, nada. As políticas de entrega de dinheiro à sociedade já foram internalizadas como direitos ou como uma prática de compra do voto, das mentes e dos corações que seriam respondidas pela traição na urna. A péssima política educacional ficou resumida ao “pé-de-meia”, uma política tão neoliberal quanto os vouchers de Paulo Guedes. Há de ser feita uma pesquisa para os “pés-de-meia” quanto aos seus votos.

Presidente Lula faz reunião de coordenação - Olhe o vídeo

 

Poesia | Soneto do Amigo, de Vinicius de Moraes

 

Música | MPB4 e Verônica Sabino - Gota d'Água (Chico Buarque)

 

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Segundo turno impõe debate maduro de ideias

Por O Globo

Direita deu demonstração de força; agora Flávio e Lula têm obrigação de trocar ataques estéreis por propostas exequíveis

O eleitor brasileiro ainda não escolheu o presidente da República ontem. Haverá segundo turno no próximo dia 25 entre o senador Flávio Bolsonaro (PL) e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Flávio obteve 47% dos votos, ante 45% de Lula. A abstenção foi de 21%, aproximadamente o mesmo patamar de 2022. Os votos nulos e brancos cresceram em relação à última eleição — 4,7% ante 4,4%. Como em 2018 e 2022, as urnas refletiram o cenário político polarizado, e os demais candidatos não chegaram nem perto de ameaçar a hegemonia das duas maiores forças políticas do país. Mas o recado mais nítido das urnas foi o avanço de candidatos e partidos de direita.

Favoritismo de Flávio obriga Lula a adotar uma estratégia de resistência, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

A Constituição de 1988 produziu quatro décadas de eleições livres, alternância de poder e ampliação de direitos. Entretanto, o Brasil que construiu aquele sistema mudou radicalmente

A eleição deste domingo vai muito além da vantagem de Flávio Bolsonaro sobre Luiz Inácio Lula da Silva. Com mais de 99% das seções totalizadas, Flávio tinha cerca de 47% dos votos válidos, contra aproximadamente 45% de Lula, resultado que confirmou o segundo turno no próximo dia 25. O candidato do PL não apenas superou as pesquisas da véspera como demonstrou que a onda conservadora, iniciada em 2018, será longa e que o centro político está sendo, mais uma vez, capturado pela extrema-direita.

A apuração chegou a mostrar Flávio acima dos 50% até quase dois terços das urnas contabilizadas. A vantagem diminuiu à medida que avançava a totalização dos estados mais favoráveis a Lula, mas permaneceu suficiente para inverter a expectativa criada pelas últimas pesquisas, nas quais os dois apareciam empatados ou com pequena vantagem do petista. A Quaest, por exemplo, apontava 46% a 45% dos votos válidos para Lula; o Atlas, 47% a 44,1%.

Lula tem desafio de ‘reinvenção’ no segundo turno, por Sofia Aguiar e Cristiane Agostine

Valor Econômico

Avaliação é que Flávio Bolsonaro captou sentimento de mudança dos eleitores e que Lula terá dificuldade para ampliar arco de aliados

A campanha do presidente e candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chega ao segundo turno pressionada a se reinventar nos próximos dias, para tentar garantir um novo mandato petista, depois de terminar o primeiro turno atrás do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Em sua primeira fala após o resultado, Lula admitiu surpresa e desapontamento, mas desafiou o parlamentar e disse ser “bom no mata-mata”. Segundo ele, o pilar da próxima etapa da campanha será investir na “biografia tenebrosa e de ligação com milicianos” da família Bolsonaro.

“A partir de amanhã, a gente começa uma nova campanha. Campanha que vai poder mostrar a diferença entre as propostas que existem para o Brasil”, afirmou Lula em um hotel em São Paulo, de onde acompanhou a apuração.

“O jogo vai começar, estamos na prorrogação. Vamos convencer o povo brasileiro da importância de continuarmos nosso projeto”, disse.

O dique contra avalanche da direita fica por um triz, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Resultados mostram que eleição de Lula em 2022 não foi alicerçada em bases nacionais

O senador Flávio Bolsonaro (PL) passou ao 2º turno da eleição presidencial na liderança de uma disputa em que a direita avançou em todo o país, nos governos estaduais e no Congresso. Impôs, sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a mesma diferença de votos (2,3 milhões) com a qual o pai foi derrotado em 2022. É como se a barreira erguida por Lula contra o avanço da direita iniciado em 2018 não tivesse se alicerçado no conjunto do país e agora esteja prestes a romper.

Não se registra, nas histórias de 2º turno das disputas presidenciais, uma reversão de vantagem, ainda que a diferença tenha sido estreita como a deste domingo. As chances de Flávio consolidar sua vantagem estão na maior afinidade com o eleitorado da terceira via. Somados, Augusto Cury (Avante), Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Romeu Zema (Novo) tiveram 7,5% dos votos, patamar equivalente ao de 2022.

Direita consegue o melhor resultado em eleições presidenciais desde 1989, por César Felício

Valor Econômico

Flávio Bolsonaro fecha primeiro turno com desempenho melhor que o pai; lulistas levam só 5 Estados

A direita conseguiu no primeiro turno da eleição presidencial o seu melhor resultado desde a redemocratização em 1989. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) alcançou 47% dos votos válidos, indo para o segundo turno em primeiro lugar contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que ficou com 45,2 % do total, excluindo votos brancos e nulos. O percentual atingido por Flávio é 3,8 pontos percentuais acima do obtido pelo ex-presidente Jair Bolsonaro em 2022 e um ponto superior ao desempenho do bolsonarismo em 2018, e não veio isoladamente.

O PL garante no momento uma bancada de 28 senadores, a maior da casa legislativa, e bolsonaristas ou aliados táticos de Flávio venceram em primeiro turno a disputa de catorze governos estaduais. Esta conta pode subir para 15 a depender da decisão da Justiça eleitoral a respeito da votação no Rio de Janeiro. Caso os votos de Anthony Garotinho (Republicanos) sejam considerados anulados, o governador eleito será Douglas Ruas (PL).