quarta-feira, 24 de junho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

BC peca por falta de clareza em decisão sobre juros

Por O Globo

É defensável evitar flutuação abrupta na Selic, mas faltou transparência à forma como Copom se justificou

Depois da reunião na semana passada, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) anunciou o terceiro corte consecutivo da taxa básica de juros, a Selic, de 14,5% para 14,25% ao ano. A decisão era esperada, mas o comunicado divulgado em seguida gerou ruído. Mudanças na Selic são extremamente importantes para as projeções e expectativas do mercado financeiro, mas não têm consequências imediatas na economia. Quando muda a Selic, o Copom calcula os efeitos num período conhecido como “horizonte relevante”, intervalo de 18 meses, hoje com duração até o quarto trimestre de 2027. Ao mencionar o primeiro trimestre de 2028, porém, o comunicado causou estranheza. Por que a autoridade monetária teve de alongar o prazo de modo a justificar o corte nos juros? Teria sido falta de cautela com a inflação?

Guerra no STF agora é declarada, por Vera Magalhães

O Globo

Entrevista de Gilmar escancara divisão na corte e tensão provocada pelo caso Master

Há pouco menos de 20 dias, escrevi neste espaço que as tensões no Supremo Tribunal Federal (STF) estavam prestes a deixar os bastidores e explodir em público. Não demorou. Em entrevista ao “Roda Viva”, o decano da Corte, Gilmar Mendes, explicitou a divisão interna na Corte e deixou claro quem joga em que time.

No seu, estão Alexandre de Moraes, Flávio Dino, Dias Toffoli e, mais discretamente, Cristiano Zanin. Os demais se dividem em dois grupos que foram alvo de ataques de Gilmar. Ao presidente, Edson Fachin, e a Cármen Lúcia, ele atribui o desgaste de imagem do STF, pela insistência em agendas como o código de conduta do Judiciário. O maior incômodo, no entanto, parece recair sobre André Mendonça, que claramente vem ganhando protagonismo no Supremo com relatorias de casos espinhosos e de alto impacto político, como o Master e o da máfia do INSS.

Memórias do inferno, por Bernardo Mello Franco

O Globo

"Anatomia do caos", de Dandara Ferreira, reconstitui atuação de Bolsonaro a favor do vírus

Em depoimento ao Senado, o taxista Márcio Antônio Silva lembrou a última vez que viu o filho, morto aos 25 anos. O corpo do rapaz estava embrulhado num saco plástico, seguindo os protocolos da pandemia.

“Minha dor não é mimimi”, desabafou o pai enlutado. Representava milhares de famílias ofendidas por um presidente que fazia piada com a tragédia, recusava-se a comprar vacinas e chamava cidadãos de “frouxos” e “maricas”.

A emoção de Márcio humaniza a pauleira de “Anatomia do caos”, que estreia semana que vem nos cinemas. O documentário de Dandara Ferreira reconstitui os passos da CPI da Covid, que propôs o indiciamento de Jair Bolsonaro e outros 77 suspeitos de crimes na emergência sanitária.

Lula precisa de um momento Messi, por Elio Gaspari

O Globo

Um presidente reprovado por metade dos entrevistados é o preferido com dez pontos percentuais de vantagem sobre o segundo colocado

Depois de ter perdido um pênalti, Messi fez dois gols contra a Áustria e decidiu a partida. Terminada a Copa, começará a campanha eleitoral. Até outubro, Lula precisará destravar uma dissonância das pesquisas. Segundo o Ipec, 50% dos entrevistados desaprovam seu governo. Segundo o Datafolha, 38% acham que Lula 3.0 é ruim, ante 32% satisfeitos. Tudo bem, perdendo um pênalti, Messi não é mais o mesmo.

Fulanizando a disputa, o Datafolha mostrou que Lula teria 41% contra 31% de Flávio Bolsonaro no primeiro turno. A terceira via patina com Ronaldo Caiado e Renan Santos (3%), mais Romeu Zema e Aécio Neves (2%).

Um presidente reprovado por metade dos entrevistados é o preferido com 10 pontos percentuais de vantagem sobre o segundo colocado. Marcando um gol poucos minutos depois, Messi é o grande artilheiro das Copas.

Digimais, Master e a ameaça de um risco sistêmico silencioso, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Além das possíveis infrações penais, o caso do banco do Bispo Edir Macedo, da Igreja Universal, é a repetição do modelo observado anteriormente no Banco Master

A Operação Miragem, deflagrada pela Polícia Federal (PF) contra o Banco Digimais, controlado pelo empresário e chefe religioso Edir Macedo, bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, vai além do que seria mais um escândalo financeiro. As suspeitas de manipulação contábil, ocultação de prejuízos, superavaliação de ativos, venda de créditos sem lastro e transferência de riscos para terceiros revelam um padrão recorrente de comportamento em instituições financeiras de médio porte que trabalham com altas taxas de risco. Isso pode representar uma ameaça estrutural à estabilidade do sistema financeiro nacional.

Desigualdade se tornou tão comum que injustiça não é mais vista como emergência moral, por Ricardo Viveiros*

Folha de S. Paulo

Reivindicar que pessoas vivam sem fome e sem medo é tratado como mera opinião política

Extremistas veem demandas de dignidade como excessos e ameaças ideológicas

É estranho nascer, crescer e viver em um país como o Brasil. A cada novo dia sinto que defender a dignidade humana é visto como um posicionamento "ideológico" questionável, e não um mínimo princípio ético. Como se reivindicar que as pessoas vivam sem fome, sem medo, sem abandono do Estado ou sem violência estrutural fosse apenas mais uma opinião política dentro do mercado eleitoreiro, e não um princípio básico de convivência.

Sabemos que a democracia implica debater e disputar ideias, até persuadir pelo diálogo. Mas há uma enorme diferença entre discutir modelos econômicos ou formas de administração do Estado e precisar esclarecer alguém de que certos grupos humanos merecem direitos, proteção e condições materiais mínimas. Dignidade.

O banco de Edir Macedo no templo da perdição que junta finança, crime e política no Brasil, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Digimais maquiava balanços para esconder que estava quebrado e sumir com dinheiro, diz PF

Estouro da boiada de fintechs facilitou união de facções, políticos e dinheiro do mais podre

Há podridão extensa na finança —se estende da bandidagem de rua à da política. Isto é, crimes financeiros, gangues no controle de instituições financeiras, o crime organizado "comum" se valendo de instituições de pagamentos, "fintechs", e fundos para sumir com dinheiro, com apoio de parte da elite política graúda. Nem vamos lembrar da Americanas e de tantas empresas com balanços "com problemas".

O Digimais pode ser um Masterzinho, diz a Polícia Federal. Ou mais do que isso. Edir Macedodono do banco, não ocupa ou ocupou cargo político, mas lidera corrente do evangelismo político. Ele, seus vassalos ou fiéis poderosos mandam em um partido, o Republicanos. O Congresso está à beira de aprovar mais favores tributários para igrejas.

Dribles do acaso, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Aleatoriedade tem mais influência no futebol do que em outros esportes coletivos

Raridade do gol e abundância de eventos imprevistos estão entre as razões da diferença

O ser humano é um bicho esquisito. Como espécie, temos horror ao acaso. Inventamos as religiões precisamente para fingir que ele não existe. Mas, quando se trata de eleger um esporte, a maior parte do mundo civilizado fica com o futebol. E o que caracteriza o futebol é justamente expor-se muito mais ao acaso do que outros esportes coletivos. É o imponderável que dá sabor à coisa. No basquete, é altamente improvável que um time muito ruim vença um muito bom, mas, no futebol, zebras fazem parte da ordem natural dos acontecimentos.

A hora e a vez do ‘salva-se quem puder’, por Vera Rosa

O Estado de S. Paulo

A política virou um “salve-se quem puder”. A quase três meses da eleição de outubro, o Palácio do Planalto já se prepara para enfrentar uma nova leva de investigações da Polícia Federal contra a chamada “República da Bahia”, com potencial para atingir homens da confiança do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Interlocutores de Lula receberam informações de que, além do líder do governo no Senado, Jaques Wagner, o ex-ministro da Casa Civil Rui Costa poderá ficar muito mal na foto.

Lá vem o dólar, por Fábio Alves

O Estado de S. Paulo

Fatores diversos vão afetar o valor do dólar em cada país; No caso do Brasil, a eleição será o principal

Não são poucos os analistas que apostam que o pior momento para o dólar em 2026 ficou para trás, mas ainda não há consenso sobre se a valorização ante as principais moedas fortes e também de países emergentes, registrada na semana passada, seguirá firme no segundo semestre do ano.

Os que defendem que a trajetória do valor global do dólar é de fortalecimento argumentam que, no curto prazo, a expectativa de alta dos juros pelo Federal Reserve (Fed) será o principal vetor de influência sobre o mercado de câmbio. Até há pouco tempo, o dólar e as outras moedas mundiais vinham oscilando conforme os rumos da guerra no Irã, que gerou um choque de oferta e fez disparar os preços do petróleo. É justamente agora, quando as cotações do petróleo começam a recuar com a resolução do conflito no Oriente Médio, que os próximos passos da política monetária americana assumem maior peso sobre o humor dos investidores.

Banco Digimais assumiu consignados com militares da Aeronáutica, por Roseann Kennedy

O Estado de S. Paulo

Banco de Edir Macedo foi alvo de operação da PF; procurada, Força não respondeu

Aeronáutica tem um contrato até 2030 para crédito consignado com o Banco Digimais, que nesta terça-feira, 23, foi alvo de uma operação da Polícia Federal (PF) e teve R$ 670 milhões bloqueados de investigados, a exemplo do dono da empresa e líder da Igreja Universal, Edir Macedo. A PF aponta que o Digimais replicou a tática fraudulenta do Banco Master, que também fazia descontos na folha de pagamento dos militares, como mostrou a Coluna do Estadão.

Um legado de Fachin para a reforma tributária, por Fernando Exman

Valor Econômico

STF quer evitar uma avalanche de processos capaz de dominar a agenda de 2027

O turbilhão no qual foi envolvido o Supremo Tribunal Federal (STF) deixou em segundo plano uma iniciativa crucial de seu presidente, o ministro Edson Fachin, para tentar reduzir o potencial contencioso envolvendo a reforma tributária do consumo.

Poucos discordam que a aprovação da reforma, ocorrida após mais de três décadas de idas e vindas, foi um feito histórico. Ela deve finalmente simplificar o que se acostumou a chamar de “manicômio tributário”, o emaranhado de regras e impostos que por anos atrapalhou empreendedores e travou o desenvolvimento nacional.

A seis meses da reforma, CBS ainda é mistério, por Lu Aiko Otta

Valor Econômico

Calendário eleitoral é o motivo da demora, pelo que se fala nos bastidores

Faltando 191 dias para a estreia do novo sistema tributário sobre o consumo, ainda não se sabe qual será a alíquota da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), que começará a ser cobrada no dia 1º de janeiro. Com isso, empresas não conseguem definir preços e estratégia para 2027.

O principal motivo da demora é o calendário eleitoral, pelo que se fala nos bastidores. Para calcular a alíquota da CBS, é preciso saber primeiro quanto será arrecadado com o Imposto Seletivo, também criado pela reforma e conhecido como “imposto do pecado”. Vai ser cobrado sobre bebidas alcoólicas, bebidas açucaradas, cigarros, veículos, aeronaves, produtos minerais e bets.

O homem que virou cinema, por Cristovam Buarque*

Correio Braziliense

Alfredo Bertini deixa de ser organizador, articulador, arquiteto artístico e engenheiro financeiro para tornar-se o vento que conduzirá cada futura edição do Cine/PE

Alfredo Bertini faleceu durante cirurgia de transplante de órgão no terceiro dia da 30ª edição do Festival de Cinema de Pernambuco, que ele idealizou e realizou anualmente desde 1996. Se esse fosse o roteiro de um filme, o diretor seria acusado de falsificar a realidade para servir ao drama; a crítica diria que a vida do personagem — economista, cinéfilo, escritor, filósofo, pai de família, agregador de amigos e realizador do festival — seria suficiente para dispensar esse recurso teatral; os assistentes da 30ª edição do Cine/PE sentiram a emoção de viverem a realidade mais surpreendente do que a ficção a que assistiam na tela. Na sua 30ª edição, Bertini foi mais do que o organizador do Cine/PE, foi seu principal personagem. 

200 anos do Congresso Anfictiônico do Panamá: passado e presente, por Gustavo Menon*

Correio Braziliense

O sonho ambicioso de criar uma "Pátria Grande" latino-americana não prosperou. O quadro é de fragmentação política, divisão social e desintegração econômica na América Latina

Em 22 de junho de 1826, iniciou-se, no istmo do Panamá, o Congresso Anfictiônico, convocado por Simón Bolívar como ápice das lutas de independência que buscavam transformar os antigos vice-reinos e colônias da América Latina em uma grande comunidade política. Tratava-se de mais do que uma conferência diplomática: era o momento de tentar materializar o ideal de uma confederação de repúblicas soberanas, capaz de defender a independência recém-conquistada e formular uma política comum de autonomia frente às potências da época. O diagnóstico do "libertador" era claro: sem união, a fragmentação política abriria caminho a novas formas de dominação externa. Bolívar estava preocupado com questões de vulnerabilidade e dependência das repúblicas recém-formadas diante do sistema internacional. Passados 200 anos, mesmo que com novas configurações, a inquietação persiste, em razão, por exemplo, de aberturas para a atuação de forças extrarregionais sobre o subcontinente. 

Poesia | Ela, de Machado de Assis

 

Música | Elis Regina - Sinal Fechado (Paulinho da Viola)

 

terça-feira, 23 de junho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

É preocupante a retirada de policiais cedidos a tribunais

Por O Globo

Supremo deve continuar preservado, ou haverá interferência indevida em investigações que atingem o governo

Investigações contra corrupção no Brasil esbarram com frequência em obstáculos que contribuem para transmitir a sensação de impunidade. O exemplo mais citado costuma ser a Operação Lava-Jato, desmontada depois que vieram à tona erros processuais, em especial a ação coordenada entre magistratura e procuradoria — que levou à anulação da vasta maioria das condenações, mesmo de réus confessos, diante de provas irrefutáveis.

Dar emprego a todos que queiram trabalhar: uma utopia? Por Pedro Cafardo

Valor Econômico

Ano eleitoral é momento para pensar o Brasil além de questões econômicas de curto prazo, como inflação, juros estratosféricos e responsabilidade fiscal

Mais cedo ou mais tarde, não muito tarde, o Brasil e outros países terão de enfrentar o problema do desemprego estrutural. Vários fatores, principalmente as inovações tecnológicas, aceleradas pela inteligência artificial (IA), indicam que o simples crescimento econômico não será suficiente para gerar postos de trabalho que garantam ocupações dignas e o sustento das famílias.

A despeito dos baixos níveis atuais de desemprego, a informalidade é uma marca do mercado brasileiro, com 40 milhões de trabalhadores, muitos deles iludidos pelo discurso do empreendedorismo.

A constatação da incapacidade de o sistema capitalista prover pleno emprego não é nova. O excedente estrutural de mão de obra sempre foi uma arma para redução de custos. Já nos anos 1960, o economista Hyman Minsky defendia a tese do “Estado como empregador em última instância”. Mas a constatação de que há uma emergência no enfrentamento desse problema fez ressurgir nos meios acadêmicos do país o debate sobre a criação de um Programa de Garantia de Emprego (PGE).

As chances de uma eleição de turno único em SP, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Saída de dois pré-candidatos da disputa aumenta chances de reeleição de Tarcísio no primeiro turno deixam Lula sem palanque no segundo

A desistência de dois pré-candidatos ao governo de São Paulo, o deputado federal Kim Kataguiri (Missão) e ex-prefeito de Santo André, Paulo Serra (PSDB), faz da eleição em turno único o cenário mais do que provável no Estado que agrega 22% do eleitorado nacional. A perspectiva de enfrentar um 2º turno sem palanque em São Paulo, visto que as projeções de todos os institutos são de elevadas chances de reeleição do governador Tarcísio de Feitas, levou a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a refazer as contas.

Amigos, amigos, eleições à parte. Saída de Wagner é dilema de Lula, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Escândalos raramente são julgados pela gravidade objetiva dos fatos. Seu impacto depende da capacidade de atingir simbolicamente o poder. Foi assim no mensalão e na Lava Jato.

A permanência do senador Jaques Wagner na liderança do governo no Senado é insustentável, não apenas pelo desgaste pessoal provocado pela Operação Compliance Zero, mas pelo risco crescente de que o Caso Master ultrapasse as fronteiras de uma investigação financeira e alcance o núcleo político do governo Lula. No Palácio do Planalto, a compreensão é de que o problema deixou de ser exclusivamente jurídico. Virou uma ameaça com potencial para influenciar a sucessão presidencial de 2026.

Onde está a magia do futebol brasileiro? Por Fernando Gabeira

O Globo

O futebol era o nosso principal recurso em ‘soft power’, era a forma pacífica de afirmar a influência nacional

Como a maioria dos brasileiros, sou apaixonado por futebol. Isso me dá o direito de escrever sobre o tema, dentro de certos limites. Perguntar, por exemplo, onde está a velha magia do nosso futebol. O que fazer para recuperá-la?

No passado, sempre reagiam com um sorriso ao saber que éramos brasileiros. Brasil? Ah, sim, Pelé, Garrincha, Rivelino. O futebol era nosso principal recurso em soft power, era a forma pacífica de afirmar a influência nacional.

Foi usado no Haiti, em 2004, para fortalecer o papel militar do Brasil na pacificação daquele caos que motivou a presença da ONU. Nossos craques desfilaram nos tanques que faziam o patrulhamento de áreas perigosas, como a favela Cité Soleil. Arrastaram multidões para saudá-los e agregaram simpatia às nossas tropas, que continuariam ali para patrulhar a turbulenta vida cotidiana.

Forma e conteúdo, por Merval Pereira

O Globo

Não se fala mais em fim da corrupção como projeto de governo. É como se dissessem: como todos são ladrões, quem rouba menos tem vantagem. Parece briga de crianças: “Foi ele quem começou”.

Os petistas agora fazem uma conta estranha: quantos bolsonaristas estão envolvidos no escândalo do Banco Master, e quantos petistas estão na mesma situação? Como se quem tenha menos indiciados ou investigados por corrupção leve vantagem sobre o outro grupo. Não se fala mais em fim da corrupção como projeto de governo. É como se dissessem: como todos são ladrões, quem rouba menos tem vantagem. Parece briga de crianças: “Foi ele quem começou”.

Juros, inflação e contas públicas, por Míriam Leitão

O Globo

Os economistas discordam sobre a elevação da meta de inflação, mas concordam sobre a necessidade do ajuste fiscal de forma urgente

É uma boa ideia aumentar a meta de inflação para 4,5%, em vez dos atuais 3%, ou essa é uma proposta inflacionista? O economista Sérgio Werlang, que implantou o sistema de metas de inflação em 1999, defendeu que seja elevada. Arminio Fraga, que era presidente do Banco Central quando foi adotado o sistema, discorda de Werlang. Prefere que se discuta o “alongamento da convergência”, ou seja, que o prazo para que a meta seja atingida seja maior do que os atuais 18 meses. Arminio teme uma crise de crédito. O economista Bráulio Borges me disse que a mudança da meta é a discussão que ninguém gosta de ter, e a chamou de tabu.

Esquerdista or not esquerdista? Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Lula dizer que ‘nunca foi de esquerda’ muda o quê, na eleição, nas Américas e no mundo?

Não é novidade o presidente Lula dizer agora que “nunca foi esquerdista”, mas o local, o momento e o ambiente político da América do Sul indicam que, desta vez, há uma clara intenção eleitoral, para ficar bem com o grande capital no Brasil e no mundo. Logo, foi um movimento calculado, em pleno G-7, o grupo dos países mais ricos.

Já em agosto de 2003, durante viagem à Venezuela, no seu primeiro mandato, Lula reagiu a uma pergunta minha com ênfase: “Em toda minha vida, nunca gostei de ser rotulado de esquerda e, quando me perguntaram se eu era comunista, eu respondi: ‘Sou torneiro mecânico’”.

Pactos, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Ocaso Master estabeleceu a lama como arena para a disputa eleitoral. Em curso a peleja por impor a própria versão sobre quem estará mais enredado na teia vorcárica, reivindicada já a vantagem de ser daquele grupo político com menos tentos no placar de contaminação por Daniel Vorcaro.

Já era sabido que Jaques Wagner, expressão maior do petismo baiano, deitara-se na rede vorcárica. Não se sabia a que custo e com que extensão – segundo a Polícia Federal, tal e qual o de Ciro Nogueira, configurado outro mandato parlamentar instrumentalizado a serviço de interesses privados do banqueiro.

A onda azul da direita sul-americana vai levar o Brasil? Por Joel Pinheiro da Fonseca

Folha de S. Paulo

Há temas que estão em alta e que direitistas souberam trabalhar melhor do que a esquerda

Movimento é pendular e, no futuro, veremos outras 'ondas vermelhas'

Se o padrão ainda não era claro, agora, depois Colômbia e provavelmente o Peru elegerem líderes de direita, ele deve estar: uma onda de direita está varrendo a América do Sul. Quando Lula iniciou seu mandato, Argentina, Colômbia, Peru, Bolívia e Chile tinham líderes de esquerda. Hoje, ou já têm líderes de direita ou acabaram de os eleger.

É um movimento pendular. No futuro, veremos outras "ondas vermelhas". Por enquanto, o trabalho é tentar entender o que está por trás desse movimento à direita. Segurança, corrupção, economia, migração; temas que estão em alta e que a direita soube trabalhar melhor do que a esquerda.

Por una cabeza, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Eleição na Colômbia, a exemplo do que ocorrera no Peru, é decidida por margem mínima de diferença

Polarização afetiva e ambientes de circulação rápida de informações favorecem a volatilidade do eleitorado

Pelas apurações extraoficiais, Abelardo de la Espriella, o candidato da direita radical, foi eleito presidente da Colômbia. As pesquisas já indicavam que Espriella levava vantagem sobre seu rival no segundo turno, o esquerdista Iván Cepeda. O que surpreendeu foi o resultado apertado. Se os números da contagem prévia se confirmarem, o que normalmente acontece, Espriella venceu por uma diferença de apenas um ponto percentual (49,66% a 48,7%). Na Colômbia, os votos em branco são válidos, daí que o vencedor não precisa atingir 50%.

O país da 'generosidade excessiva', por André Borges

Folha de S. Paulo

Parlamentares comparecem ao Congresso basicamente às terças e quartas-feiras

Magistrados e membros do Ministério Público podem parcelar descanso em cotas de cinco dias

No país onde o fim da escala 6x1 é tratado como heresia por setores da economia, ameaça aos empregos e ao crescimento do país, os homens da lei e da Justiça deitam e rolam com seus 60 dias de férias, fora os recessos, as licenças, as benesses e tudo o mais que a criatividade permitir.

É no Congresso, onde os recessos somam 55 dias por ano e parlamentares comparecem, basicamente, nas terças e quartas-feiras, que está o destino de quem labuta de segunda a sábado.

Como outros investigados, Jaques Wagner dá explicações vazias, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Tragado pelo buraco do Master, senador petista vira dor de cabeça para projeto da reeleição

PF não para de investigar esquema de corrupção montado por Vorcaro nem na Copa do Mundo

Jaques Wagner —a mais recente dor de cabeça da campanha petista à Presidência da República— não é da Bahia. É do Rio de Janeiro, nascido em 1951, no seio de uma família judia que fugiu do nazismo. Seu pai militou no Partido Comunista da Polônia. Com 15 anos, o filho começou a fazer política no movimento sionista e a ler Marx. Perseguido pelo regime militar, abandonou o curso de engenharia civil e se estabeleceu em Salvador, onde conheceu Lula nos anos 80, ajudando a fundar o PT. Em 2018, ele quase foi o candidato do partido ao Planalto.

Uberização: o marco global da OIT e o desafio civilizatório do STF, por Adenir Carruesco*

Correio Braziliense

A flexibilidade valorizada por muitos trabalhadores não pode servir como salvo-conduto para a ausência total de proteção social. É aqui que a ética deve guiar a interpretação jurídica

Em 1750, Jean-Jacques Rousseau alertava que o progresso poderia esconder novas formas de servidão, ao tecer "grinaldas de flores sobre cadeias de ferro". Mais de dois séculos depois, sua metáfora parece descrever com precisão o trabalho em plataformas digitais.

As plataformas tecnológicas oferecem conveniência, flexibilidade e autonomia aparentes. Seriam as novas "grinaldas de flores"? Controles algorítmicos invisíveis, sistemas de pontuação que determinam quem trabalha e quem fica de fora, jornadas exaustivas disfarçadas de "horários livres" implicam em autonomia ou o trabalhador descobre-se amarrando a própria coleira?

O Supremo Tribunal Federal (STF), ao julgar o Tema 1.291 ("uberização"), enfrenta o desafio de remover as grinaldas sem destruir a flor. A questão central é: podemos manter o pensamento maniqueísta, analisando apenas os extremos, entre relação de emprego típica (art. 3º da CLT) e relação autônoma, civil ou comercial? Ou será que se pode pensar em uma decisão que saia desse campo antagonista?

O homem apagado, por Rodrigo Craveiro

Correio Braziliense

Perto de nós existem outros como Vilmar. Pessoas com nome e CPF, mas lançadas à margem da sociedade

Não era apenas um objeto. O homem largado sobre a cadeira de rodas era um ser humano. Repleto de sonhos, de frustrações. Quem sabe de amores perdidos ao longo da vida? Talvez por ser uma pessoa em situação de rua, o homem foi apagado aos olhos dos outros. Morreu dentro da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Recanto das Emas, em circunstâncias que estão sendo apuradas. De repente, o homem deixou este mundo. Parou de respirar. O corpo, inerte sobre a cadeira de rodas, somente foi percebido tempos depois por uma mulher, enfermeira, que estava na sala de espera com o marido.  Mas era tarde demais.

O Filme da Revelação, por Vagner Gomes*

“O interesse, como instância isolada – como já fora percebido nas lições clássicas do radicalismo filosófico inglês, em Hegel, Tocqueville, para não falar de Marx -, conduzia ao particularismo na forma do Estado, e, nas condições retardatárias da sociedade brasileira, onde predominava o estatuto da dependência pessoal, tendia a se combinar com as formas de mando oligárquicas e a sociabilidade de tipo hierárquico que prevaleciam no país. O primado do interesse, na Primeira República, assim, não se confronta com as formas de dominação tradicionais, antes as subordina, convertendo o atraso, tal como na exemplar demonstração de Victor Nunes Leal em seus estudos sobre o coronelismo, em uma vantagem para o moderno que estaria representado pela economia dominante em São Paulo, sob a direção de um patriciado com origem na propriedade fundiária e orientado por valores de mercado – a Prússia paulista será uma invenção da Primeira República.” (Luiz Werneck Vianna, “Weber e a interpretação do Brasil”, 1999)

Poesia | Erro, de Machado de Assis

 

Música | Mônica Salmaso -Mar e Lua

 

segunda-feira, 22 de junho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Congresso deve ao país respostas sobre o caso Master

Por Folha de S. Paulo

PF avança em investigações que mostram relações de Ciro Nogueira e Jaques Wagner com a rede de Vorcaro

Presidente da Câmara recebeu favores, enquanto o do Senado tem seu estado envolvido; regulação do lobby seria medida moralizadora básica

A semana que passou trouxe novas e chocantes evidências do envolvimento de parlamentares na rede de influência do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, sem que as lideranças do Congresso Nacional tenham esboçado uma reação à altura do escândalo.

O caso em apuração mais avançada pela Polícia Federal é o do senador Ciro Nogueira (PP-PI), cujas relações com o ex-controlador do Master eram conhecidas desde antes da quebra do banco.

Entrevista | presidente do PT: ‘Todos envolvidos no escândalo Master terão que se explicar’

Por Andrea Jubé – Valor Econômico

Presidente do PT, Edinho Silva diz que decisão de deixar ou não a liderança do governo no Senado é decisão de Jaques Wagner

O presidente nacional do PT, Edinho Silva, disse ao Valor que a operação da Polícia Federal (PF) que arrastou o líder do governo e quadro histórico do PT, senador Jaques Wagner (BA), para o escândalo do Banco Master não atingirá a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à reeleição. Segundo o dirigente, que é coordenador-geral da campanha, Lula sempre cobrou a investigação das denúncias contra o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e acrescentou que o Master é “criação” do governo de Jair Bolsonaro. Sobre o afastamento de Wagner da liderança, argumentou que a prioridade é a defesa do aliado, e que deixar, ou não, o cargo será uma decisão dele, que terá o seu apoio.

Na área econômica, Edinho relativizou declarações recentes do coordenador do programa de governo, José Sérgio Gabrielli, que provocaram ruído com o mercado e com o setor produtivo. “Só tem um condutor da política econômica, se chama presidente Lula. E o seu porta-voz na economia, que é o ministro Dario Durigan”, afirmou.

Lembrando que o próprio Lula tem defendido a expansão dos gastos públicos, mesmo com a trajetória de alta da dívida, o dirigente ponderou que o presidente fala em meio a uma conjuntura de crise econômica mundial. Argumenta que o déficit é “controlado”, e que isso não significa acomodação, porque o governo vai buscar a responsabilidade fiscal e a eficiência dos gastos.

A seguir os principais pontos da entrevista ao Valor:

A última linha de defesa da racionalidade se foi, por Bruno Carazza*

Valor Econômico

Novos argumentos contra a autonomia financeira e orçamentária do Banco Central

Na semana passada expus minhas preocupações com a possível aprovação da PEC nº 65/2023, que dá autonomia financeira, orçamentária e administrativa ao Banco Central. A publicação do texto mobilizou servidores do Bacen, inclusive amigos, que me procuraram para apresentar as suas divergências aos riscos que apontei.

No artigo, embora tenha reconhecido as atuais limitações orçamentárias e de pessoal da autoridade monetária brasileira, destaquei os temores de que os superpoderes a serem concedidos pela PEC possam, no futuro, se converter em supersalários e irresponsabilidade fiscal.

Juro alto asfixia economia; resposta precisa ser no campo fiscal, por Sergio Lamucci

Valor Econômico

Sem medidas de ajuste das contas públicas, as taxas continuarão a castigar empresas e famílias e a manter as despesas financeiras do setor público na casa do trilhão

Os juros viraram o ano nas alturas, caíram pouco no primeiro semestre e não devem recuar muito mais nos próximos meses - se é que haverá na segunda metade de 2026 mais uma queda da Selic, hoje em 14,25% ao ano. A economia brasileira, tudo indica, vai continuar a conviver com taxas reais (descontada a inflação) de curto prazo próximas a 10%, e acima de 7,5% nos casos dos títulos de longo prazo do Tesouro corrigidos pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Esse nível de juros tem castigado empresas e famílias endividadas e aumentado fortemente o custo financeiro do setor público. Em 12 meses até abril, os gastos com juros atingiram R$ 1,095 trilhão, o equivalente a 8,43% do PIB.

Juros altos, país caro, por Preto Zezé

O Globo

Quem acorda às 4 da manhã para garantir o pão dos filhos não pode colocar a vida em pausa até que os indicadores melhorem

O Brasil é um país curioso. Quando a economia vai mal, a conta chega rapidamente à mesa do trabalhador. Quando melhora, os efeitos demoram a aparecer no supermercado, no crediário e no bolso de quem acorda cedo para fazer a vida acontecer. Nos últimos meses, o Banco Central iniciou um movimento de redução da taxa básica de juros. A Selic caiu para 14,25%, mas continua entre as mais altas do mundo. As projeções apontam desaceleração da economia, com crescimento em torno de 1,9%. Os números recomendam cautela, mas a experiência cotidiana dos brasileiros revela outra coisa: a sensação de que o esforço tem custado cada vez mais caro.