quinta-feira, 8 de outubro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Cláusula de barreira continua a depurar quadro partidário

Por O Globo

Fragmentação partidária caiu pela metade desde 2018, e Brasil alcança patamar de democracias sólidas

A exigência de que os partidos alcancem uma proporção mínima de votos para garantir acesso ao fundo partidário e à propaganda eleitoral gratuita, associada à proibição de coligações nas eleições proporcionais, continua a reduzir a fragmentação do Congresso e a depurar o sistema político-partidário brasileiro, aumentando sua coerência programática e ideológica. Ninguém está proibido de fundar uma legenda, registrá-la e eleger representantes. Mas o uso de dinheiro público para custear seu funcionamento é reservado aos partidos que conquistam alguma base eleitoral, princípio conhecido como “cláusula de barreira” ou “cláusula de desempenho”, coerente com regras em vigor nas democracias mais sólidas.

Campanha de Bolsonaro vive euforia enquanto Lula organiza contraofensiva, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O sintoma mais visível de que os aliados de Bolsonaro já imaginam ter o caneco na mão é a discussão sobre a distribuição de ministérios antes de conquistar a Presidência

A eleição presidencial entrou no segundo turno com duas campanhas em estados de espírito opostos. A de Flávio Bolsonaro vive uma euforia que já beira o salto alto, enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva procura superar a perplexidade de uma campanha que esperava chegar à etapa decisiva na liderança. O resultado de domingo fortaleceu a oposição, alterou as expectativas do mercado e acelerou a adesão de aliados. Mas a distância de 1,87 ponto percentual entre os candidatos não é intransponível: Flávio recebeu 47,03% dos votos válidos; Lula, 45,16%. O favoritismo mudou de lado, mas a eleição continua aberta.

Sete dúvidas sobre a conta fiscal de Flávio Bolsonaro, por Alex Ribeiro

Valor Econômico

Reação positiva do mercado esbarra em questões sobre se as medidas seriam adequadas e fortes o suficiente para equacionar o problema

O mercado reagiu positivamente ao primeiro turno das eleições, que aumenta a chance de um ajuste fiscal num eventual governo Flávio Bolsonaro, mas ainda há muitas dúvidas sobre se as medidas seriam adequadas e fortes o suficiente para equacionar o problema.

Abaixo, sete questões que sugerem por que a matemática do ajuste conhecido até agora pode ser insuficiente para estabilizar a dívida bruta, que está em elevados 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB) e que, neste ano, subiu 4,2 pontos percentuais (pp) do PIB apenas de janeiro a agosto.

O exitoso diversionismo da reforma constitucional, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Flávio Bolsonaro coloca a carta da ‘redemocratização’ na mesa num momento em que PT abandona o Master e vai pra cima de seus planos econômicos

O candidato do PL à Presidência, senador Flavio Bolsonaro, colocou na roda sua pretensão de fazer uma reforma constitucional para “redemocratizar” o país. Pautou a campanha. Numa hora encolhe o Supremo, noutra, o mandato presidencial para impedir reeleição. Colocou nesta reforma até a castração química e a redução da maioridade penal. Vai com tudo para “arregaçar com vagabundo”. Não se fala em outra coisa. Depois que a campanha adversária concluiu que o Master não rendeu voto e se mostra disposta a arrancar do senador seus planos econômicos, Flávio Bolsonaro decidiu colocar a carta da “redemocratização” na mesa.

A persistência da direita em busca do poder, por Maria Clara R. M. do Prado

Valor Econômico

O governo de Jair Bolsonaro foi um desastre em todas as áreas

Em 13 de junho de 2013, rapazes e moças arregimentados pela mídia social tomaram espontaneamente as ruas da cidade de São Paulo em protesto contra o aumento na tarifa dos transportes. A mobilização cresceu e em poucos dias se alastrou pelo país, incorporando outras pautas: contra a corrupção, a situação da saúde e da educação e até contra a Copa do Mundo que se realizaria no ano seguinte no Brasil.

Sob o olhar perplexo de expoentes do PT, que chegaram a considerar a insatisfação popular uma ingratidão do povo, as manifestações logo passaram a ser orquestradas pela direita que viu ali um caminho para voltar ao poder.

A metamorfose das direitas, por Maria Hermínia Tavares

Folha de S. Paulo

Ascensão do PL vai consolidando a liderança da extrema direita

Sigla está servindo à ambição eleitoral dos políticos de direita

O exercício da Presidência não assegurou a Lula a mesma porcentagem de eleitores que lhe entregou as chaves do Palácio do Planalto há quatro anos. A diferença entre o número de votos recebidos por Lula e Flávio Bolsonaro é muito próxima da que levou o presidente ao segundo turno contra o pai do candidato do PL. Apenas inverteram-se as posições de chegada.

Entre 2022 e agora, o líder petista perdeu eleitores em todo o país. Usando dados preliminares do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), o cientista político Marco Faganello (CPESP-FGV) mostrou que a sangria foi de 3,4 milhões de votos, espalhados por 98% dos municípios brasileiros. Praticamente todos, exceto as capitais dos estados.

Com Flávio, Brasil vai virar a Venezuela ou a Hungria? Por Thiago Amparo

Folha de S. Paulo

O segundo mandato de governantes autocráticos é sempre mais perigoso

Com Suprema Corte e Congresso governistas, não vai adiantar chorar o leite derramado

Cientistas políticos como Steven Levitsky apontam que o segundo mandato de governantes autocráticos é sempre mais perigoso.

Bolsonaro pai tentou um golpe à moda antiga e foi condenado por isso; Bolsonaro filho, um pouco mais esperto, vai perdoar o pai no primeiro dia como presidente e tentar um golpe à moda contemporânea, refundando a Constituição.

Mal passou o primeiro turno, Flávio já cogita ampliar o mandato do presidente, no caso, o dele.

Muitos Bolsonaros para um Brasil só, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Dos 20 Bolsonaros que concorreram, 13 se elegeram ou ficaram como suplentes já no aquecimento

Hélio Negão, fiel Bolsonaro cenográfico, não pôde concorrer como Hélio Bolsonaro e perdeu

Foi a vitória de Deus, da pátria e da família Bolsonaro. Deus ainda terá de aguardar para saber com o que será aquinhoado —a promoção, talvez, da praça dos Três Poderes para a dos Quatro Poderes. A pátria nem imagina o que a espera, mas já decidiu que será bom para ela também. E a família já se garantiu —dos 20 Bolsonaros que concorreram às eleições, 1 aguarda o segundo turno e 13 se elegeram ou ficaram como suplentes, já no aquecimento para entrar em campo. As demais famílias brasileiras continuam onde estavam, vivendo através das redes sociais.

Imobilismo ou estelionato eleitoral nos programas econômicos de Flávio e Lula, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Finalistas escondem plano fiscal, discussão é ruim e não se trata de outros assuntos

O que um Bolsonaro 2 fará de trabalho, comércio exterior, pesquisa e desenvolvimento?

A discussão de programa econômico dos candidatos a presidente quase inexiste. Sabemos de inanidades, camuflagens e frases de efeito, soporífero ou revoltante, a depender da bobagem.

Trata-se quase apenas do "fiscal", do que fazer de gastos do governo e impostos, que é assunto grave e urgente, mas longe de único. A possibilidade de que seja votado o fim da escala 6x1 levou os finalistas a se engajarem. Mas não se diz grande coisa sobre os problemas dramáticos do mundo do trabalho e do financiamento da Previdência (quanto mais pejotização, precarização e informalidades, mais faltará dinheiro, entre outros problemas). Lula defende o fim da 6x1, um projeto muito necessário, mas péssimo, na atual versão, com risco inclusive para quem trabalha. Flávio diz que vai libertar trabalhadores para negociarem seu tempo de trabalho com as empresas, escárnio que não precisa de comentário.

'Papai, por que você votou no Hitler?' Por Conrado Hübner Mendes

Folha de S. Paulo

No Dia das Crianças, livro de Didier Daeninckx vale para toda a família

A banalidade do voto, a responsabilidade e a cumplicidade na linguagem infantil

Em 5 de março de 1933, Otto, garoto de 5 anos, vê seus pais discutindo. A mãe repudiava o voto do pai no dia da eleição. O pai, com medo da crise econômica no país, aponta as promessas de emprego e prosperidade de seu candidato.

O líder prometia ordem e trabalho, o resto era menos importante. As ameaças, as propostas, o ódio, tudo era periférico. "Papai dizia que era preciso que as coisas mudassem."

Ao longo do livro, Otto testemunha os efeitos do regime apoiado por seu pai. Vizinhos desaparecem, livros queimados, censura, um primeiro campo de concentração para homossexuais, ciganos, judeus, pessoas com deficiência. Até que chega a tragédia familiar: nasce sua irmã, bebê com deficiência mental, alvo das políticas de eugenia do governo que seu pai ajudou a eleger.

Flávio assume o sobrenome ao revelar seu programa, por Igor Gielow

Folha de S. Paulo

Plano de mudança constitucional, da lei penal e de mandato não havia sido mencionado em público

Fazer proposta é legítimo, mas levanta suspeita de ser mistura de golpismo bolsonarista e Trump 2.0

Quando chegou ao poder em 2019, Jair Bolsonaro prometia uma revolução contra o que chamava de sistema, um ente etéreo e útil como alvo de críticas por radicais à direita e à esquerda.

O deputado acreditava ser possível moldar a política brasileira a seu gosto apenas com os votos que recebera.

Politicamente, mostrou-se desdentado, amparado por uma amálgama de militares, aderentes de ideologias exóticas e boa vontade do dito mercado, enquanto isso foi lucrativo.

Afago ao bolsonarismo, por Carolina Brígido

O Estado de S. Paulo

Eventual vitória de Flávio deixa ministros do STF próximos de Lula mais perto do impeachment

Flávio Bolsonaro arrancou na frente no primeiro turno e o Supremo Tribunal Federal (STF) foi atrás dele. Desde a divulgação do resultado das urnas, ministros próximos de Luiz Inácio Lula da Silva tomaram decisões favoráveis ao bolsonarismo. Eventual vitória de Flávio no dia 25 deixa esse grupo mais perto do impeachment em 2027.

Ao menos 31 dos senadores eleitos defendem o afastamento de ministros da Corte. O presidenciável do PL fez dessa ideia bandeira de campanha. Nesse cenário, Gilmar Mendes arquivou investigação por estupro contra Alfredo Gaspar, vice na chapa de Flávio.

O risco do cheque em branco, por William Waack

O Estado de S. Paulo.

Os limites da euforia com os resultados até aqui das eleições estão na política

Os agentes econômicos consideram a eleição terminada e decidida contra o atual governo. De fato, os profissionais em pesquisas consideram bastante improvável uma virada de Lula no segundo turno, embora não seja impossível. Esse é o fator mais imediato da “euforia” traduzida em alguns números nos mercados.

O outro fator imediato é um dado inédito na recente história política brasileira, surgido do primeiro turno: a possibilidade (caso Flávio vença) de um presidente com maiorias confortáveis nas duas casas do Legislativo. O efeito manada entre as agremiações fisiológicas está em pleno curso no Congresso, atraídas pela perspectiva de poder. É a projeção dessa maioria no Senado e na Câmara que já levou Flávio a falar em alterações na Constituição.

Nada decidido até o eleitor falar, por Míriam Leitão

O Globo

A 17 dias da eleição, nada está definido. A distância não é grande, há vantagens para Flávio Bolsonaro e possibilidades para o Lula

O país viverá os próximos 17 dias em emoção na intensidade máxima. A eleição não acabou, nem está definida, até porque o eleitor faz o que quer com o voto. O que tenho ouvido de especialistas é que a distância não é grande, há vantagens para Flávio Bolsonaro e possibilidades para o presidente Lula. Para além dos cálculos dos políticos, há uma dúvida mais aguda: quais são as intenções de Flávio Bolsonaro em relação à democracia? A fala dele sobre usar a maioria conservadora e mudar a Constituição para “redemocratizar o país”, assustou. E assustou exatamente por ele ser quem é e filho de quem é.

Frente ampla evapora nas urnas, por Julia Duailibi

O Globo

O governo mirou basicamente os seus, na forma e na confecção das políticas públicas

É comum no meio político a avaliação de que a perspectiva de poder tem um valor de mercado maior que o próprio poder. Nos últimos três dias, depois do resultado do primeiro turno, os movimentos favoráveis à campanha de Flávio Bolsonaro comprovam a máxima.

Partidos do Centrão, que traçam seus movimentos guiados pelo melhor custo-benefício, correram para se sentar na janelinha da campanha de Flávio, já de olho numa composição de governo. Há poucos meses, torciam o nariz, em parte porque ainda velavam a candidatura à Presidência de Tarcísio de Freitas e porque também abraçavam o diagnóstico do presidente do PSD, Gilberto Kassab: a chance de Flávio ganhar é zero.

STF manda recados para um eventual governo de direita, por Merval Pereira

O Globo

É um sinal muito ruim de que vamos continuar na direção de ter um tribunal que faz acordos políticos.

Depois do resultado do primeiro turno da eleição presidencial, o STF tomou cinco decisões que chamam a atenção: foram arquivados processos envolvendo dois blogueiros bolsonaristas e o ex-deputado Marcos do Val — todos no inquérito das fake News — , as condições da prisão de Debora do Batom foram aliviadas, a visita de Flavio Bolsonaro a seu pai foi autorizada pela PGR, e também foi arquivado o processo do deputado Alfredo Gaspar, vice de Flavio Bolsonaro.

Poesia | A verdade , de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Paulinho da Viola - Filosofia (Noel Rosa)

 

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Pretensão de Kassio de soltar Bolsonaro é um acinte

Por Folha de S. Paulo

Ministro do STF cogita anular os efeitos da justa condenação do ex-presidente por tentativa de golpe

A via correta para reduzir penas exageradas é o plenário da corte autorizar logo a vigência da lei da dosimetria, aprovada pelo Congresso

Causa espécie a notícia de que o ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal, cogita anular os efeitos da condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e permitir a sua soltura, mediante decisão monocrática. Parece que juízes da corte constitucional não compreenderam a intolerância da sociedade com esse padrão de intromissão político-partidária.

A causa é acintosa. Não há dúvidas da participação do então candidato derrotado à reeleição numa trama para subverter o resultado das urnas. Testemunhos e provas asseguram que o Brasil só não viveu a recidiva autoritária pela resistência da cúpula das Forças Armadas, liderada pelo general Freire Gomes, do Exército.

Lula e Flávio representam dois projetos de nação que dividem o Brasil, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O segundo turno não será apenas o confronto entre os dois candidatos mais votados. As urnas deslocaram a expectativa de poder de Lula para Flávio Bolsonaro

O segundo turno da eleição brasileira mobiliza complexos interesses. Terras-raras, energia, alimentos, dados, infraestrutura e Amazônia integram a disputa entre Washington e Pequim. Uma vitória de Flávio Bolsonaro aproximará Brasília da agenda de Trump, encurtando a distância política que Lula preserva. O comércio com a China dificulta uma ruptura, mas cresce a pressão por um realinhamento diplomático radical.

O Brasil vive uma encruzilhada geopolítica e, ao mesmo tempo, de modelo de desenvolvimento: negociar sua inserção como produtor de tecnologia e bens de maior valor ou ampliar o papel de fornecedor de produtos agrícolas e recursos minerais estratégicos. A aproximação americana pode trazer investimentos, mas restringir as alternativas. Em contrapartida, a autonomia que Lula defende precisa produzir resultados. A diplomacia não supera, sozinha, a dependência tecnológica.

Cláusula de desempenho: menos partidos no Legislativo, mais ideologia? Por Evelyn Apolinaria e Isaac Jordão Sassi*

Correio Braziliense

Menos siglas não significa mais identidade programática, mas pode significar grandes blocos mais heterogêneos

Dezesseis dos 30 partidos registrados no país não alcançaram os requisitos da cláusula de desempenho nas eleições de domingo e ficarão sem fundo partidário, sem tempo de rádio e de TV a partir de 2027. A inspiração para essa regra, porém, remonta à Alemanha pós-Segunda Guerra Mundial como um mecanismo para impedir que partidos minoritários pudessem ascender lentamente à participação do parlamento.

No Brasil, a tentativa de implementar um mecanismo semelhante aconteceu pela primeira vez em 1995, por meio da Lei dos Partidos Políticos, como um mecanismo para impedir que partidos nanicos ocupassem cada um poucas cadeiras na Câmara e causassem fragmentação excessiva. Contudo, o início da aplicação da cláusula foi adiado para 2006, quando foi declarada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

Tsunami do PL poderia ter sido previsto, por Fernando Exman

Valor Econômico

Deve-se esperar um intenso trabalho nos bastidores dos chineses junto às autoridades brasileiras, em meio à guerra tarifária iniciada pelos EUA

Entre aliados do senador Flávio Bolsonaro, há uma avaliação de que muitos dos 56,1 milhões de eleitores que votaram no candidato do PL à Presidência da República no domingo (4) o fizeram mais para se posicionar “contra” a atual situação do país do que por estarem necessariamente a favor do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro. “Contra os excessos da Justiça, contra a falta de segurança nas ruas, contra o endividamento, contra a carestia.” Contra algo e alguém, neste caso o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e seu governo.

O dilema da campanha: Faria Lima ou povão? Por Lu Aiko Otta

Valor Econômico

Há na área econômica do governo sérias dúvidas sobre a eficácia do lançamento de novas ‘bondades’ neste segundo turno

Há na área econômica do governo federal sérias dúvidas sobre a eficácia do lançamento de novas “bondades” neste segundo turno eleitoral. Primeiro, porque não há nada pronto para ser anunciado. Segundo, porque uma medida sacada da cartola a essa altura do campeonato, com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) atrás de Flávio Bolsonaro (PL) na corrida pela Presidência da República, poderia até ser malvista, ao passar um clima de “fazer o diabo para ganhar a eleição”.

Mesmo assim, ninguém jura que não haverá novas medidas daqui até o dia 25 de outubro. A postura nos bastidores da equipe econômica é de colaboração.

A hesitação entre lançar ou não mais “bondades” reflete um dilema que corre entre estrategistas da campanha de Lula em relação a temas econômicos: fazer um aceno para os agentes de mercado ou falar ao povão. O presidente precisa se aproximar dos dois grupos, mas agradar a um quase sempre é desagradar ao outro.

Não há falta de futuros, mas há falta de sentidos, por Rui Tavares

Folha de S. Paulo

A democracia tem que saber em que acredita; e dizê-lo

Se não dermos sentidos para o progresso e até para a humanidade, não teremos vidas que valham a pena ser vividas

"Estamos fartos", diz um dos participantes nos protestos estudantis em França. "Não há futuro para nós", diz outro. As mesmas frases poderiam ser ditas —e foram— sobre outros protestos e revoltas na história; as mesmas frases têm sido usadas para descrever as reações de eleitorados em todo o mundo, a cada vez que uma eleição corre como não era previsto. Não é impossível que os protestos deste ano na França acabem por ajudar à eleição de Marine Le Pen no próximo ano. Mas será que o lugar-comum faz sentido?

Como o Plano Barrabás e mexida na Constituição ameaçam ajuste fiscal de um Bolsonaro 2, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Expectativa de vitória já diminui taxas de juros, mas Flávio esconde programa econômico

Ataques ao sistema e histórico de governo Bolsonaro 1 lançam dúvidas sobre plano

Donos e administradores do dinheiro grosso tiveram de alterar suas aplicações porque Flávio Bolsonaro (PL) venceu o primeiro turno. Dadas as alternativas, Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), cresceu um pouco a probabilidade de contenção de gasto e dívida do governo, o que afeta juros, moeda, etc.

Não interessa agora se a expectativa vai se confirmar. Amanhã vai ser outro dia. Importa falar dos riscos das expectativas para Bolsonaro 2.

O caminho mais seguro para perder uma eleição presidencial, por Wilson Gomes

Folha de S. Paulo

Confundir merecimento com voto e certezas com realidade é caminho seguro para a derrota

Se é preciso virar um jogo, o eleitor decisivo é justamente aquele que não fala a sua língua

Vamos supor que você queira disputar uma eleição presidencial numa situação em que quase metade do eleitorado diz que não votaria em você em hipótese alguma. O país está ávido por mudança, mas esta é a sétima vez que você concorre ao mesmo cargo.

É verdade que seu adversário tem rejeição semelhante. Mas há uma diferença importante: é você quem governa o país. É de você que se cobram os problemas que continuam sem solução e as coisas que as pessoas acham que um governo deveria entregar. Para piorar, há mais brasileiros avaliando negativamente a sua administração do que aprovando-a.

A síndrome do segundo mandato, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

A exemplo de Trump e Netanyahu, um novo governo do clã Bolsonaro tenderia à radicalização

Fraqueza do STF e Congresso dominado pela ultradireita agravam os riscos institucionais

Biológica e juridicamente, Jair e Flávio Bolsonaro são seres distintos. Mas, politicamente, atuam como um coletivo. Assim, uma vitória de Flávio iniciaria não o seu primeiro mandato, mas o segundo do clã Bolsonaro. E é aí que mora o perigo.

A literatura mostra que processos de erosão democrática patrocinados por líderes autoritários costumam ficar mais agudos a partir de seus segundos mandatos. E esses movimentos tendem a intensificar-se ainda mais se o dirigente tiver sido removido do poder por um período e depois retornado. É aí que eles vêm com sangue nos olhos. Vimos isso claramente nos casos de Trump 2, de Netanyahu pós-2022 e do último Viktor Orbán. Candidatos a explicar a radicalização incluem os ressentimentos acumulados, o maior conhecimento das engrenagens do poder, que torna suas ações mais eficazes, e o afastamento dos membros mais moderados de suas coalizões.

Perfil do Congresso será conservador como sempre foi, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

É precipitada e incorreta a conclusão de que houve, agora, um avanço inédito da direita no Parlamento

A diferença é o desempenho dos radicais, que, no fim, se alinham sob o guarda-chuva pragmático do centrão

O Congresso Nacional eleito para os próximos quatro anos não será mais nem menos conservador do que sempre foi se olharmos o perfil geral pela predominância de representação do centro à direita.

No quadro mais amplo, a Câmara dos Deputados, isso se vê melhor: dos 57% atuais, esse campo vai para 59% dos deputados. A esquerda segue minoritária como sempre, com os mesmos 24%, considerando o PT e agregados.

Entrevista | Antonio Lavareda: ‘Voto para presidente não mostra revolução de direita’, por Hugo Henud

O Estado de S. Paulo

Cientista político atribui o revés de Lula no 1.º turno à abstenção e ao pessimismo econômico

Sociólogo, é professor colaborador da pós-graduação em Ciência Política da UFPE e especialista em comportamento eleitoral

A dianteira de Flávio Bolsonaro (PL) sobre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no primeiro turno não representa, na avaliação do cientista político Antonio Lavareda, uma “revolução de direita” no voto presidencial. Para Lavareda, pequenos deslocamentos do eleitorado em relação a 2022 foram suficientes para produzir um resultado politicamente expressivo e colocar o senador à frente do presidente na disputa pelo Palácio do Planalto. “Aqueles que interpretam que houve uma grande revolução de direita podem usar outros parâmetros, mas o voto presidencial não mostra isso”, diz.

Em entrevista ao Estadão, Lavareda afirma que a abstenção ajuda a explicar por que a vantagem de Lula registrada por pesquisas às vésperas da votação não apareceu nas urnas. Para o segundo turno, Lavareda afirma que uma virada de Lula é possível, embora difícil, e exigiria movimentos em três frentes: recuperar parte dos eleitores que se abstiveram, disputar os votos das candidaturas eliminadas, em sua maioria, segundo ele, de perfil conservador, e avançar inclusive sobre quem escolheu Flávio no primeiro turno. 

Leia os principais trechos:

As ilusões perdidas, por Marcelo Godoy

O Estado de S. Paulo

A direita tradicional pensou que trataria o bolsonarismo como o MDB fazia com as siglas da esquerda

Ao fazer o retrato inicial de Lucien Chardon, o jovem de origem modesta que aspirava à aristocracia adotando o nome da mãe – Rubempré –, Balzac escreveu que suas “belas ilusões da juventude” ainda não “haviam sido afetadas pelos desejos e pelas dificuldades da vida”. Lucien reencontrava suas recordações, suas ilusões e seus vinte anos ao voltar à sua terra. Esse parece o caso, em cada eleição, das principais forças políticas do País.

Seria preciso um Balzac para demonstrar como a terceira via se iludiu durante quatro anos ao se juntar aos Bolsonaros em cada manifestação da Avenida Paulista em vez de lhes disputar a hegemonia na oposição? Quem passou a vida vendo a banda passar sai da urna da mesma forma que entrou. Ou pior: desempregado. Esperidião Amin que o diga. A direita tradicional pensou que trataria o bolsonarismo como o velho MDB tratava as siglas de esquerda que abrigava nos anos 1980: uma turma do barulho, mas que lhe trazia votos.

Voto em Flávio Bolsonaro vai soltar Jair, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Kassio Nunes Marques indica que pode dar canetada e libertar ex-presidente após eleição

Kassio Nunes Marques mandou avisar: encerrada a eleição, quer julgar o pedido de revisão criminal apresentado pela defesa de Jair Bolsonaro. Para surpresa de ninguém, o ministro fez circular que vê “exageros” na condenação do ex-presidente. Acrescentou que também estuda soltá-lo com uma liminar, antes de levar o processo a plenário.

Flávio Bolsonaro nunca escondeu que sua primeira medida, se eleito, será assinar um indulto para tirar o pai da cadeia. A novidade é a disposição de Kassio, enrolado no escândalo do Banco Master, para antecipar o processo com uma canetada. Os bolsonaristas que demonizam as decisões monocráticas do Supremo não devem protestar.

O que vem por aí caso Flávio vença, por Vera Magalhães

O Globo

Mercado espera reforma fiscalista, mas ênfase da campanha, inclusive do início do segundo turno, é em ameaças ao STF e buscar indulto a Jair e demais condenados

A euforia nos mercados depois do primeiro turno em que Flávio Bolsonaro terminou na frente de Lula parte do princípio de que, se o senador do PL vencer a eleição no próximo dia 25, haverá reformas econômicas no período inicial do mandato, conhecido por representar uma lua de mel entre o presidente eleito e o Congresso. Todas as indicações do candidato e do comando de sua campanha, no entanto, deixam claro que essa está longe de ser a prioridade.

Um dos primeiros atos de Rogério Marinho, coordenador da campanha e visto como homem forte de um possível governo Flávio, foi visitar o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Edson Fachin, para deixar claro que o futuro governo não “se omitirá” em relação a ministros da Corte.

A direita veio para ficar, por Elio Gaspari

O Globo

O mapa eleitoral replica o de 1974 desde 2022

Desde a eleição presidencial de 2022, o mapa eleitoral mostra que Bolsonaro prevalecia no Sul e no Sudeste. Lula prevaleceu em Minas e no Nordeste.

Em 1974, a ditadura estava certa de que triunfaria e tomou uma bofetada eleitoral. A oposição elegeu 16 dos 22 senadores. (Naquele tempo, os governadores eram eleitos indiretamente; a disputa pelo Senado era a maior eleição majoritária disponível.)

A ditadura foi ferida de morte. Numa análise grosseira, em 1974 o PIB votou na oposição, e o regime ficou com os grotões. Em 2022, o mapa foi semelhante, e em 2026 a escrita repetiu-se, aprofundando-se.

A ditadura foi surpreendida em 1974. Em 2026, o PT foi para a guilhotina com indolência. Em São Paulo, a vitória de Orestes Quércia era inimaginável em 1974, tanto que Ulysses Guimarães não quis disputar o Senado. Em 2026, depois de ter perdido a capital por uma margem de 1 milhão de votos, o PT marcou presença e lançou Fernando Haddad ao governo e foi derrotado com uma diferença de 6 milhões de votos (36%).

Poesia | O Vento na Ilha, de Pablo Neruda

 

Música | Não vai dar certo - Celso & Pedro Viáfora (2025)

 

terça-feira, 6 de outubro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Segundo turno exige comedimento do Judiciário

Por O Globo

TSE e STF precisam ter sensatez nas decisões sobre o pleito, para não interferir na vontade do eleitor

Definido o resultado do primeiro turno, com o senador Flávio Bolsonaro (PL) chegando à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) por diferença de quase 2 pontos percentuais, a disputa ao Palácio do Planalto entra agora numa fase decisiva. Os dois candidatos confrontarão suas ideias por meio de propaganda eleitoral, entrevistas e debates, para dar aos eleitores oportunidade de escolher entre os dois projetos. É fundamental que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e o Supremo Tribunal Federal (STF) demonstrem sensatez e comedimento em suas decisões relacionadas ao pleito, de modo a não interferir na vontade do eleitor. Devem agir sobretudo nos casos absolutamente necessários, para impedir ou corrigir injustiças.

Direita avança, Congresso muda e estados pesam no segundo turno, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Caiado e Zema sinalizam oposição ao PT; Cury e Renan não orientam eleitores. Flávio busca novas adesões e Lula votos no Sudeste

O primeiro turno deu a Flávio Bolsonaro mais do que a dianteira na disputa presidencial. Entregou ao candidato do PL palanques fortalecidos, a maior bancada da Câmara e um avanço expressivo no Senado. Lula preservou sua fortaleza nordestina, mas precisará ampliar suas fronteiras eleitorais para vencer em 25 de outubro. A eleição também revela uma mudança na composição da classe política: lideranças mais jovens, familiares de políticos tradicionais e personagens projetados pelas redes sociais ganham espaço, combinando renovação geracional e continuidade de correntes ideológicas e oligarquias conservadoras no poder.

‘Há duas questões centrais em jogo: em primeiro lugar, a democracia’, por Sérgio Abranches

Valor Econômico

Há, para mim, duas questões centrais em jogo. Em primeiro lugar, a democracia. O ponto, digamos, mais profundo de risco à democracia é a negação da tentativa de golpe de 2022 por Flávio Bolsonaro.

A crise no STF completou o processo de esgarçamento institucional. O presidencialismo de coalizão está paralisado com o desequilíbrio nas relações Executivo/Legislativo. O resultado das eleições para o Congresso agrava esse quadro com uma bancada expressiva de extrema-direita. E a crise no STF atinge a capacidade de mediação e resolução de conflitos entre os dois Poderes.

Lula revê estratégia para recuperar eleitores

Valor Econômico, por Sofia Aguiar, Lucas Borges Teixeira, Cristiane Agostinee Lu Aiko Otta

Decepcionado com o resultado do primeiro turno, o “day after” da contagem dos votos serviu para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) dar início a um freio de arrumação de olho na reeleição. Uma das principais preocupações da campanha é rever as estratégias para recuperar eleitores de São Paulo, Minas Gerais e dos Estados da região Nordeste, com o objetivo de melhorar o desempenho do petista. Em outra frente, a comunicação da campanha é pressionada a mudar e é vista como uma das responsáveis pela performance aquém do esperado nas urnas no domingo (4).

Com o intuito de renovar a estratégia para os próximos 20 dias, Lula realizou, na segunda-feira (5), reuniões com o grupo político de seu governo e candidatos derrotados, vitoriosos e que ainda concorrem ao segundo turno, além de integrantes do núcleo duro da campanha.

Em um dos encontros, o presidente admitiu que precisa falar mais e fazer mais mobilização. Segundo ele, é preciso “fazer mais rádio, mais selfie, conversar mais e arrumar tempo para fazer campanha”. Nesse sentido, afirmou que é importante participar dos debates nesta segunda etapa - o que não fez no primeiro turno - “porque é tête-à-tête”, em referência a um embate direto com o candidato do PL, Flávio Bolsonaro, que conquistou mais votos que o petista nas urnas.

O poder do voto sobre a toga, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Resultado eleitoral no Rio mostra o efeito rebote da intervenção judicial

Nas primeiras falas do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, e no resultado eleitoral do Rio, há um mapa de 2º turno. O comandante da avalanche do PL nas eleições majoritárias e proporcionais disse que o ex-presidente Jair Bolsonaro, caso o filho se eleja, será reabilitado para disputar a Presidência da República.

As perspectivas de reabilitação do ex-presidente, as ambições da senadora eleita Michelle Bolsonaro (DF) e a maiúscula votação do deputado federal Nikolas Ferreira (MG) deixam claro que, nem tão cedo, o PL pretende ceder o manche para a direita tradicional. Ainda que o senador Flávio Bolsonaro (PL) cumpra sua promessa de pôr fim à reeleição, não parecerá disposto, se eleito, a entregar o poder para que outro aventureiro lance mão.