sábado, 23 de maio de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais /Opiniões

O filme e a caneta

Por Revista Será?

O tabuleiro eleitoral do Brasil registrou uma importante inflexão nos últimos dias pelo efeito combinado do filme de Bolsonaro e da caneta do presidente da República, combinação que favorece a reeleição de Lula. Se, até outubro, não houver nenhuma grande surpresa no jogo eleitoral, o Presidente Lula da Silva tem tudo para ser conduzido ao seu quarto mandato. A candidatura de Flávio Bolsonaro tende a afundar depois da lambança que evidenciou a sua intimidade com o tóxico banqueiro Daniel Vorcaro, com a visita em prisão domiciliar e o pedido de dinheiro para financiar um filme que contaria a vida política do seu pai. Curioso que depois de toda incompetência de Jair Bolsonaro e do seu desastroso governo, o que vai desmontar o projeto de poder da família de extrema-direita é um filme que conta a sua lamentável biografia. E que estava sendo produzido para constituir uma peça de propaganda eleitoral de Flávio.

Master fere, mas não mata campanha do senador, por Vera Magalhães

O Globo

Revelação de pedido de dinheiro a Daniel Vorcaro não inviabiliza candidatura de filho de Bolsonaro, e presidente abre frente modesta, mas polarização segue intocada

A revelação de que Flávio Bolsonaro pediu R$ 134 milhões a Daniel Vorcaro para financiar o filme sobre seu pai feriu a pré-candidatura do senador do PL à Presidência, mas, passada uma semana, o estrago não é suficiente para inviabilizá-lo e obrigar o bolsonarismo a buscar um novo nome. Esta é a principal conclusão que se pode extrair da pesquisa extraordinária que o Datafolha realizou, menos de uma semana depois da divulgação de sua rodada regular, agora depois de o caso já ser amplamente conhecido.

O instituto voltou a campo na quarta e na quinta-feiras e, no intervalo de menos de uma semana, captou uma discreta movimentação nos cenários de primeiro e segundo turnos que têm Lula e Flávio Bolsonaro. O presidente oscilou de 38% para 40% na simulação de primeiro turno, enquanto Flávio caiu de 35% para 31%.

Bolsonarismo vivo, por Flávia Oliveira

O Globo

Jair escolheu o filho e vai com ele, na vitória e na derrota

A relação — pessoal e financeira — do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro cobrou seu preço na pesquisa Datafolha pós-revelação do áudio e das mensagens pelo Intercept Brasil. À primeira vista, quem se beneficiou com o episódio foi o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), na briga por um quarto mandato. De uma semana para outra, a distância entre o incumbente e o filho içado a candidato pelo pai condenado pela trama golpista aumentou de 3 para 9 pontos percentuais na simulação de primeiro turno. O bolsonarista perdeu competitividade, não posição. A pouco mais de dois meses da formalização das chapas, não parece haver fato capaz de tirar o Zero Um da disputa.

Cala-boca renasceu, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

O Direito xandônico, perversor do verbo “atacar”, molda os costumes, tornado normal entre nós o recurso à censura prévia. O recurso à censura prévia, com seu custo depredador sobre a democracia, em nome da saúde da democracia. Censura prévia pelo bem, para sacrifício do ambiente garantidor das liberdades. Censura prévia do bem, claro. É o que aliados de Lula pedem formalmente ao TSE contra o filme-exaltação a Jair Bolsonaro: que não seja exibido antes das eleições, para proteger a pureza do nosso voto contra o perigo de a obra nos corromper – neste país em que milhões de pessoas votam sob o fuzil do crime organizado.

O mundo está se abrasileirando, por Fabio Gallo

O Estado de S. Paulo

O mundo rico começa a descobrir que estabilidade monetária não é algo permanente

O mundo rico passou décadas ensinando estabilidade monetária ao resto do planeta. Entre os anos 1990 e 2020 prevaleceu um ambiente relativamente estável – a chamada Grande Moderação – sem eliminar crises ou recessões. O que mudou naquele período foi a forma como os mercados passaram a reagir aos choques: após cada crise, inflação e juros tendiam a cair, enquanto bancos centrais estabilizavam o sistema com liquidez abundante. A crise de 2008 reforçou essa lógica. O problema atual é diferente.

O grande Rio de Janeiro, por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

Com suas trapalhadas e suas amizades escandalosas, Flávio Bolsonaro sugere que o Brasil se transforme no grande Rio de Janeiro, onde o poder público foi envolvido pela corrupção

Chico Buarque disse, com sua boa música e melhor poesia, que o Brasil poderia se transformar em imenso Portugal. A brincadeira poético-musical era elogiosa, porque a pátria mãe, que durante muitos anos foi vista como um país no norte da África, foi aceita pela União Europeia e se transformou. Passou a contar com bons hotéis, melhores restaurantes e grandes centros de compras. O país deixou de ser o local apenas para comer bacalhau e passou a oferecer múltiplas oportunidades. Os brasileiros fazem a festa por lá.

O carma político de Ciro Gomes, por Juliana Diniz*

O Povo (CE)

É provável que Flávio Bolsonaro não suba no palanque cearense ao lado de Ciro. Também se evitará a qualquer custo a imagem ou o nome do presidenciável no material de campanha. Em um estado simpático a Lula, não convém mostrar muita amizade ou aliança com um aliado muito enrolado, hoje incômodo a seus aliados

Ciro Gomes foi apresentado como pré-candidato ao governo do estado nas eleições deste ano, pondo fim a qualquer especulação sobre eventual candidatura ã presidência. O timing do anúncio não poderia ser mais infeliz, ocorrendo a dias da divulgação dos áudios em que Flávio Bolsonaro pede dinheiro ao banqueiro preso Daniel Vorcaro. A toxidade da aliança é notória: como candidato do PL no estado, é hoje impossível para Ciro se dissociar do bolsonarismo e do filho do ex-presidente.

Datafolha: Lula abre vantagem sobre Flávio após 'Dark Horse', por Igor Gielow

Folha de S. Paulo

Distância no 1º turno sobe de 3 para 9 pontos; no 2º turno, petista agora supera senador por 47 a 43

Nome cogitado na crise, Michelle Bolsonaro tem desempenho semelhante ao do senador no tira-teima

Na primeira pesquisa do Datafolha feita integralmente após a eclosão do caso "Dark Horse" na campanha de Flávio Bolsonaro, o presidente Lula (PT) ampliou de 3 para 9 pontos a vantagem sobre o senador pelo PL do Rio na simulação de primeiro turno, marcando 40% ante 31% do rival.

Há uma semana, Lula estava em empate técnico dentro da margem de erro de dois pontos percentuais do levantamento: 38% a 35%. No cenário do segundo turno, a igualdade em 45% virou agora uma vantagem de 47% a 43% para o petista.

Na semana passada, o instituto havia divulgado um levantamento cuja maioria das entrevistas havia sido feita antes da revelação de que Flávio havia pedido dinheiro para o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, sob a justificativa de financiar um filme sobre a vida de seu pai, o ex-presidente condenado por tentativa de golpe Jair Bolsonaro.

Flávio, entre a polícia e a política, por Demétrio Magnoli

Folha de S. Paulo

Colapso da narrativa anticorrupção é a ameaça mais grave à candidatura

Com Vorcaro como fonte provável das revelações, corrida eleitoral se abre para o inesperado

Desde a divulgação de seus pactos com Vorcaro, Flávio Bolsonaro enfrenta um duplo dilema. Numa ponta, a investigação policial e judicial; na outra, o colapso de uma narrativa política. No crítico estado atual do STF, o segundo representa ameaça mais grave.

Provocada, a PGR autorizou a PF a seguir o dinheiro. Tudo ali é suspeito: os valores multimilionários associados ao filme; o papel dos dois irmãos na gerência da transação; o trajeto alegado da grana, via um fundo gerido pelo advogado de Eduardo Bolsonaro; o suposto sigilo contratual absoluto sobre a participação do Master no patrocínio da obra. Crimes possíveis: lavagem de recursos do Master e financiamento da aventura americana do 03.

Datafolha dá respiro para Lula, mas sem salto alto, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Resultado de pesquisa após caso 'Dark Horse' não legitima clima de já ganhou

Desafio do governo é fazer medidas econômicas acontecerem a tempo de o eleitor colocar o voto na urna

O resultado da primeira pesquisa do Datafolha feita integralmente após a eclosão do caso "Dark Horse" mostrou vantagem para o presidente Lula frente a Flávio Bolsonaro, mas não legitima o clima de já ganhou que circulava nos bastidores dos gabinetes de aliados do governo em Brasília nesta semana.

A candidatura de Flávio desidratou. O deslocamento na pesquisa foi significativo para a campanha.

Como o Jair de 'Dark Horse', Flávio Bolsonaro está à espera de um milagre, por Angela Alonso

Folha de S. Paulo

Filme financiado por Vorcaro propagandeia liberalismo radical, embaralha fatos e ficções e esquece o filho 04

Manifestações pró-Mito são a única referência ao 8 de Janeiro; não espere oração para pneu nem patriota do caminhão

Flávio B. deve estar pedindo misericórdia aos céus. Depois dos chocolates, malogrou no cinema e periclita na política. O perrengue da vez veio de Raleigh, na Carolina do Norte, a terra escravista da qual o roteiro de "Dark Horse" é assinado.

O título alude àqueles tempos por repetir o de livro sobre o reformista James Garfield. Levado à Presidência graças ao racha no Partido Republicano (que fez a abolição) em 1881, levou bala no primeiro ano de governo. Seu assassinato virou série da Netflix. Já a facada em Bolsonaro deu filme. A semelhança acaba aí. Nos dois casos, há um azarão, mas o segundo faz também jus ao apelido juvenil: Cavalão.

Encurralado, filho 01 entra no modo choradeira, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Sem conseguir justificar sua intimidade com Vorcaro, Flávio quer censurar pesquisas

Abacaxi difícil de descascar, caso Dark Horse faz cúpula do PL temer novas revelações

Em abril, quando nem ele acreditava que sua aventura presidencial estivesse sendo levada a sério e se tornasse competitiva em tão pouco tempo, o filho 01 armou com o dono do Paraná Pesquisas para que incluísse o nome de sua mãe, Rogéria, numa sondagem de intenções de voto para o Senado no Rio.

A ideia era dar um chute no ex-governador Cláudio Castro, que, caído em desgraça, não tinha mais serventia para o clã. A ex-mulher de Jair, de quem ninguém ouvia falar desde que tentou sem sucesso se eleger deputada estadual em 2022, surgiu tecnicamente empatada com a petista Benedita da Silva. Um milagre de ressuscitação.

Ruim com Ele, Pior sem Ele, por Orlando Thomé Cordeiro*

Revista Será?

No dia 13 de maio, o site The Intercept tornou pública a relação amistosa e de negócios entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro. Os diálogos entre os dois caíram como um míssil de proporções nucleares sobre a pré-candidatura do filho 01. A coordenação de sua pré-campanha, bem como seus principais aliados, foi pega de surpresa. E cada explicação era seguida da divulgação de novos elementos que a contradiziam, reforçando o clima de desconfiança. Do outro lado, o governo e seus apoiadores, por óbvio, demonstravam contentamento, e começaram a surgir avaliações de que seria o fim da linha para o senador, com a expectativa de uma queda vertiginosa nas primeiras pesquisas que captassem a reação do eleitorado ao fato.

Eletrocardiograma eleitoral, por Murillo de Aragão

Revista Veja

As falhas mudam rapidamente o comportamento do eleitor

As eleições presidenciais brasileiras se assemelham a um eletrocardiograma alterado de um paciente cardíaco. Com súbitas variações inesperadas e transformações no comportamento do eleitor em intervalos curtos. Embora Lula e Flávio Bolsonaro mantenham competição equilibrada, a estabilidade é praticamente ficção estatística. Qualquer falha muda o ritmo da disputa que está submetida a vazamentos, delações e desdobramentos dos escândalos sob investigação.

Nosso outro 13 de Maio, por Cristovam Buarque

Revista Veja

O fim da escravidão não veio com o direito de acesso à educação

Na semana passada, em 13 de maio, a sociedade brasileira lembrou o único gesto revolucionário de sua história, com a Lei Áurea, de 1888: a desapropriação sem indenização dos donos de 800000 seres humanos. Mesmo assim, foi uma revolução incompleta. As algemas foram abertas, mas não se ofereceu a ex-escravizados um caminho. Não lhes coube acesso à educação. Foram soltos, mas não libertados. O abolicionismo foi vitorioso em seu propósito de aprovar uma norma com um único artigo que declarava “extinto o trabalho servil em todo o território nacional”. Contudo, nada se apresentou na direção de um sistema nacional de educação para aquelas pessoas.

Do próprio veneno, por Jamil Chade

CartaCapital

Apoiadores que ousaram criticar Flávio Bolsonaro são triturados pela máquina de ódio da extrema-direita

Ninguém nasce odiando. O ódio é ensinado. A extrema-direita foi além e colocou o ódio como um instrumento político, como arma de mobilização.

Hoje, com as redes sociais, milícias digitais assassinam reputações, assediam e transformam a vida de jornalistas, acadêmicos, ativistas ou qualquer um que represente uma ameaça ao pensamento reacionário.

Nos últimos dias, foi justamente, porém, a extrema-direita que descobriu a dimensão do seu próprio veneno. Em postagens, personagens ultraconservadores e que por anos têm promovido ideias golpistas e ataques contra a democracia foram alvos de ofensas abomináveis. A operação não veio da oposição. Quem liderou a tentativa de intimidação foi justamente uma ala da extrema-direita brasileira inconformada com o posicionamento dos ex-aliados e vozes que se apresentavam como as grandes referências do movimento autoritário. O motivo: terem ousado dizer o óbvio sobre Flávio Bolsonaro e suas mentiras cinematográficas.

Democracia fiscal, por Eliane Barbosa da Conceição*

CartaCapital

O sistema tributário precisa combater as desigualdades

O debate tributário brasileiro costuma ser apresentado como uma discussão técnica sobre arrecadação, alíquotas ou equilíbrio fiscal. Mas a tributação é, antes de tudo, uma disputa sobre o tipo de país que se deseja construir. O sistema tributário não apenas reflete desigualdades, ele contribuiu para produzi-las, aprofundá-las ou enfrentá-las. Como sintetizaram Liam Murphy­ e Thomas Nagel, mercado, propriedade e riqueza não existem antes do Estado, mas dependem de instituições jurídicas e decisões políticas que tornam possível a sua própria existência. A tributação, portanto, não é mera intervenção externa sobre a economia, ela integra a própria organização social e define quais atividades econômicas serão incentivadas, quais grupos financiarão o Estado e quais interesses serão favorecidos pelas escolhas públicas de tributação e gasto.

Prêmio ao ócio, por Antonio Corrêa de Lacerda*

CartaCapital

As taxas de juro são um dos maiores entraves ao desenvolvimento

O Brasil, assim como os demais países, enfrenta enormes desafios advindos do quadro internacional complexo e incerto, os quais trataremos na sequência. A este fator se acrescenta a inconstância de políticas de longo prazo. Os avanços obtidos no período 2003–2014, governos Lula I e II, e Dilma I e II, o último interrompido, foram descontinuados no período seguinte de Temer e Bolsonaro. O governo Lula III tem desenvolvido importante esforço de reconstituição das instituições democráticas e a retomada do papel do Estado, das políticas públicas para o desenvolvimento.

Delirius economicus, por Luiz Gonzaga Belluzzo e Manfred Back

CartaCapital

Segundo essa escola, o Estado entope as artérias com o gasto e provoca calote, inflação e miséria

Adam Smith, grande filósofo escocês, cunhou a expressão Homo ­economicus, uma herança genética presente em todos os seres humanos: nascem com noções básicas de economia no seu DNA.

Doctor Smith também lançou duas expressões bastante conhecidas e talvez ainda hoje mal compreendidas: o egoísmo aparente, segundo o qual, se cada um buscar o melhor para si, todos ganham, ou seja, uma sociedade mais rica. A outra seria a mão invisível, que faria o mercado funcionar. Nada a ver com a noção de equilíbrio, mas supõe que consumidores e produtores se autoajustem dinamicamente. É importante sublinhar a palavra “dinamicamente” para escapar do enclausuramento da economia capitalista nas masmorras do equilíbrio.

Corrupção de volta à ribalta, por Marcus Pestana

Volta e meia, no Brasil, a corrupção reaparece em cena como tema prioritário. Bastaram vir à tona os escândalos do INSS e do Banco Master, para o assunto saltar de 4º. lugar na lista de maior preocupação dos brasileiros, atrás de violência, problemas sociais e economia, em maio de 2025, nos números da Genial/Quaest, com 13%, para o segundo lugar, atrás apenas da violência, agora em maio de 2026, com 18%.

Poesia | O Rio, de João Cabral de Melo Neto, voz do autor

 

Música | Paulinho da Viola, Elton Medeiros, Jair do Cavaquinho, Anescar do Salgueiro e Nelson Sargento

 

sexta-feira, 22 de maio de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais /Opiniões

Decretos de Lula sobre redes sociais são oportunos

O Globo

Diante da omissão do Congresso, ação do Executivo e do Judiciário se faz necessária para coibir crimes

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva baixou decretos atualizando a regulamentação do Marco Civil da Internet, com base na decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que criou, para plataformas digitais, obrigações sobre o conteúdo que veiculam. Embora tal caminho regulatório seja incomum, são medidas necessárias diante dos crimes no meio digital e do vácuo resultante da omissão reiterada do Congresso, onde o Projeto de Lei das Redes Sociais não avança.

Um dos decretos determina que as plataformas ofereçam canais para notificação de crimes ou atos ilícitos. Uma vez notificadas, são consideradas corresponsáveis e devem remover o conteúdo imediatamente, sem esperar decisão judicial, mecanismo que já vigora na União Europeia e noutros países. A exclusão deve ser informada e justificada ao responsável, que poderá contestá-la. O decreto trata exclusivamente de crimes previstos na legislação, como fraudes, exploração sexual de crianças e adolescentes, incentivo à automutilação ou ao suicídio, tráfico humano, terrorismo ou violência contra mulheres.

A Síndrome de Estocolmo da direita, por Fernando Luiz Abrucio*

Valor Econômico

Nos últimos quatro anos todos os pretendentes à direita fora da família Bolsonaro não tiveram a coragem de buscar a independência, seja por amor ou medo do patriarca

O bolsonarismo tem significado a redenção e a desgraça da direita brasileira. Esse paradoxo está ficando cada vez mais claro com a crise na campanha presidencial de Flávio Bolsonaro. Suas relações com Daniel Vorcaro são mal contadas e injustificáveis, pensam aliados e outros candidatos do lado direitista. Porém, como criticar profundamente ou abandonar o filho de um grande líder popular que reordenou o mapa ideológico do país, antes com predomínio inconteste do espectro que vai do centro para a esquerda?

Compreender as razões desse dilema é fundamental para a direita não bolsonarista. Ela vive hoje uma espécie de Síndrome de Estocolmo, caracterizada por uma simpatia ou lealdade irrestrita em relação ao sequestrador. O bolsonarismo sequestrou quase todos os políticos direitistas e mesmo uma parcela mais ao centro. Tal aprisionamento impede críticas às posições ou atos da família Bolsonaro e dificulta sobremaneira um projeto efetivamente independente de poder, mesmo quando hoje temos mais presidenciáveis à direita do que à esquerda.

O desmanche político, por José de Souza Martins*

Valor Econômico

Explicação de Flávio Bolsonaro para pedido a Vorcaro é episódio que desconstrói o enredo e a trama e expõe cruamente a incongruência do visível, mas sobretudo a extensão do invisível

O programa de Julia Duailibi, com Malu Gaspar e Otávio Guedes, na GloboNews da quinta-feira dia 14, foi muito mais do que um programa rotineiro sobre temas da atualidade política. Horas antes o pré-candidato da extrema direita à Presidência da República Flávio Bolsonaro teve que ver-se com a divulgação de sua própria conversa com o principal protagonista do caso do Banco Master, de pedido de recursos milionários para realização de um filme sobre o ex-presidente Jair Messias.

Os entrevistadores foram objetivos e claros no questionamento do entrevistado quanto à coerência de seus argumentos para defender-se de ser impróprio o pedido de dinheiro envolvendo um banco em situação anômala. O banqueiro seria preso no dia seguinte ao do pedido.

Alcolumbre repetiu erro de Eduardo Cunha? Por Andrea Jubé

Valor Econômico

Fontes bem informadas da cúpula do PL descartam chance de substituição de Flávio Bolsonaro pela ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro na corrida presidencial

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não é mais o nosso Lionel Messi, o craque argentino, hoje no Inter Miami, que corre o meio de campo, dribla adversários, bate o escanteio e faz a rede balançar.

Na opinião de um observador político, o Lula do terceiro mandato está mais para o Romário: “precisa que alguém arme o jogo e coloque a bola na cara do gol pra ele chutar”, provocou. O ex-artilheiro do Flamengo entrou para a política, está filiado ao PL e se reelegeu senador do Rio de Janeiro em 2022.

A percepção de que o líder petista deixou de ser o craque da política nacional não é isolada. Mas aliados ressalvam que, seja no campo de futebol, seja no tabuleiro de xadrez, Lula continua sendo um estrategista capaz de driblar outros jogadores e surpreender opositores.

Congresso derruba vetos de Lula e amplia o vale-tudo eleitoral

Medida libera doações federai a estados e prefeituras, obras em rodovias e repasses a cidades pequenas inadimplentes nos três meses antes do pleito

Vale tudo pelo voto

Com derrubada de veto de Lula, Congresso libera doação antes das eleições e reforça caixa de aliados em redutos

Por Letícia Pille, Lauriberto Pompeu e Paulo Assad – O Globo

Contaminado pelo ambiente de pré-campanha, o Congresso deu aval ontem a mais um pacote de bondades para favorecer aliados de parlamentares em seus redutos eleitorais. Sem dificuldades e com apoio de quase todos os partidos, Senado e Câmara retomaram, em sessão conjunta, dispositivos legais que vão aumentar os repasses federais a municípios ainda neste ano. A liberação, contrariando consultoria técnica do Legislativo, facilita o empenho de mais emendas e ocorreu a partir da derrubada de vetos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva feitos à Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO). Em plenário, governistas e o PT respaldaram a decisão.

Especialistas avaliam que a manifestação do Congresso viola tanto a legislação eleitoral quanto a Lei de Responsabilidade Fiscal.

Um dos trechos derrubados diz respeito ao artigo 95 da LDO, que estabelece que a “doação de bens, valores ou benefícios” públicos não configura descumprimento das restrições da legislação eleitoral, desde que haja contrapartida. Na prática, o dispositivo flexibiliza repasses, transferências e doações, como cestas básicas e tratores, por exemplo, em período eleitoral — a lei proíbe esse tipo de prática três meses antes da eleição. O placar foi de 329 a 194 pela derrubada.

Congresso revoga o Axioma de Tiririca, por Vera Magalhães

O Globo

'Libera geral' promovido nesta semana por deputados e senadores supera em falta de cerimônia a tentativa de aprovação da PEC da Blindagem

Em 2010, o humorista e cantor Tiririca explodiu em votos para deputado federal com um slogan justificando sua decisão de entrar para a política: "Pior do que tá, não fica". Ele se elegeu, se reelegeu e pode-se dizer que a qualidade do trabalho piorou muito — e o artista que começou sua carreira no circo não pode ser responsabilizado por isso, nem pela profecia errada.

A lambança promovida por deputados e senadores nesta rara semana em que resolveram pegar no batente presencialmente supera, em desfaçatez e ousadia, a malfadada jornada pela aprovação da PEC da Blindagem no ano passado. Supera porque, desta vez, o Senado não se sente pressionado a “corrigir” as decisões escandalosas e participa delas ativamente.

O teatro da CPI, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Ao se dizer favorável a investigação, senador ameaça tirar prêmio de Jim Caviezel na categoria pior ator

O senador Davi Alcolumbre pode ser acusado de muitas coisas. Menos de impaciente. Na sessão de ontem do Congresso, ele deixou parlamentares do governo e da oposição se esgoelarem à vontade. Num raro momento de consenso, todos cobravam a instalação da CPI do Master.

“Vossa Excelência não vai conseguir ficar sentado em cima dessa CPI”, bradou o petista Lindbergh Farias. “É obrigatória essa instalação”, reforçou o bolsonarista Carlos Jordy.

Depois de uma hora e meia de falatório, Alcolumbre retomou a palavra para o que chamou de “esclarecimento de ordem técnico-regimental”. Sem alterar a voz, informou que não leria os requerimentos de abertura da CPI. Disse que a decisão era um “ato discricionário da Presidência da Mesa do Congresso Nacional” — ou seja, dele mesmo.

Atualização do Marco Civil traz dois perigos, por Pablo Ortellado

O Globo

Conceito de publicidade enganosa sobre políticas públicas não está bem definido

Ontem o governo publicou dois decretos regulamentando a decisão do STF de junho de 2025 que mudou o entendimento sobre a responsabilidade civil no Marco Civil da Internet. Embora os decretos sejam em geral corretos, dois dispositivos ampliam de forma preocupante o poder do governo sobre o discurso digital.

Direita, de uma queda foi ao chão, por Fernando Gabeira

O Estado de S. Paulo

Ao que parece, as revelações não são um mero incidente de campanha, mas revelam o tamanho do erro de essa corrente de opinião se tornar refém da liderança de Jair Bolsonaro

Quando baixar a poeira do envolvimento de Flávio Bolsonaro com o dono do Banco Master, muitas perguntas poderão ser respondidas sobre o futuro da direita e, indiretamente, o futuro imediato do próprio País. Ao que parece, as revelações não são um mero incidente de campanha, mas revelam o tamanho do erro de essa corrente de opinião se tornar refém da liderança de Jair Bolsonaro. É um homem limitado para uma tarefa complexa, e o simples fato de ter optado por um caminho dinástico, apresentando o filho como candidato, já é um sinal de estreiteza.

Erro de cálculo de Vorcaro, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Banqueiro do Master erra feio ao temer mais Flávio e Ciro do que a PF e a PGR

O presidiário e ex-banqueiro Daniel Vorcaro erra feio ao jogar fora a chance de reduzir sua pena por temer mais o senador Ciro Nogueira e o ainda précandidato Flávio Bolsonaro do que a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República. Um erro de cálculo que pode lhe custar décadas atrás das grades e no fundo do precipício.

Vorcaro já deu tudo o que tinha de dar e já recebeu tudo o que tinha de receber de Ciro Nogueira e de Flávio Bolsonaro, que estão em viés de baixa, como se diz na economia, e bastante encrencados, do ponto de vista político e policial.

Embate inédito no Supremo, por Raquel Landim

O Estado de S. Paulo

Há brechas para que Mendonça rejeite a delação de Vorcaro, mesmo com o aval da PGR

A rejeição da delação premiada de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, pela Polícia Federal deixou uma nódoa sobre o processo, mas, juridicamente, ele segue de pé.

A PF desconfia que Vorcaro está protegendo políticos. Seu receio se fundamenta nas provas que já colheu durante as investigações e que vão além do que Vorcaro ofereceu.

Mas o titular da ação penal é a Procuradoria-Geral da República (PGR), que não precisa da PF para selar essa delação.

Na PGR, a visão é oposta. Dizem que não falta seriedade do ex-banqueiro e de sua defesa e que não faz sentido bater a porta de uma possível colaboração. Querem aguardar uma contraproposta.

Meter a mão no dinheiro que o público dá a partidos ficou baratinho, decidem deputados, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

PSOL-Rede, Novo e Missão se opuseram à mumunha; PT votou com centrão e extrema direita

Mudança reduz multa a gorjeta, dificulta punição e facilita jorro de "fake news" por mensagens

Fazer rolo com o Fundo Partidário ficou baratinho. O dinheiro desse fundo serve para bancar o funcionamento dos partidos. Neste ano, vai custar ao público cerca de R$ 1,4 bilhão. Se um partido desse um sumiço ou cometesse irregularidade, digamos, no valor de R$ 1 milhão, fosse pego e condenado, teria de pagar multa de até R$ 200 mil (de até 20%). Agora, a multa máxima é de R$ 30 mil, com 180 meses (15 anos) para pagar, se é que alguém vai ser condenado e pagar. Note-se de passagem que, além desse fundo, os partidos terão neste ano quase R$ 5 bilhões para a campanha eleitoral.

O Brasil das capitanias hereditárias sobrevive nos 'nepo babies' da política, por Eliane Trindade

Folha de S. Paulo

Herdeiros de oligarquias e clãs trafegam com vantagem na disputa por indicações, cargos e visibilidade

Há a ideia de que determinados sobrenomes carregam uma espécie de direito natural à liderança

A entronização de Flávio Bolsonaro como herdeiro-mor do bolsonarismo é exemplo de como o Brasil das capitanias hereditárias sobrevive nos "nepo babies" da política nacional.

O termo em inglês "nepo baby" é usado para descrever filhos de celebridades que seguem a carreira dos pais, herdando contatos e privilégios do nome famoso. Assim como no entretenimento e na moda, os ‘nepo babies’ dão o que falar no meio político, onde herdeiros de oligarquias e clãs trafegam com vantagem na disputa por indicações, cargos e visibilidade.

O filho 01 foi o escolhido pelo ex-presidente Jair Bolsonaro para ser candidato à presidência, como herdeiro de um espólio político que já o fizera saltar de deputado estadual a senador.

Flávio Bolsonaro queima o filme, leva cavalo de pau, e Lula ganha, por Marcos Augusto Gonçalves

Folha de S. Paulo

Há quem aposte que, apesar das mentiras e armações, senador voltará a se revelar competitivo

Desgaste é grande e atinge direita Master e seu espectro conservador que se estende ao mercado

Depois do flagra no escurinho do cinema, quando o site Intercept Brasil publicou o áudio de sua tentativa de pegar dinheiro de Daniel Vorcaro para supostamente financiar a cinebiografia de seu pai, Flávio Bolsonaro vem sofrendo desgaste sobre desgaste. "Dark Horse", azarão em inglês, bem que poderia ser intitulado "O Pangaré Obscuro"

O filme do senador e pré-candidato pelo PL foi queimado por ele mesmo. Sua ascensão nas pesquisas, que causou frisson nos mercados, sofreu um cavalo de pau. Flávio mentiu e continua mentindo para tentar escapar dessa fase negativa. A questão é saber se ele ainda poderá se apresentar como candidato competitivo quando a campanha de fato começar.

Malandragem de deputados tenta fazer o público de mané, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Aproveitando-se da distração geral com o escândalo da vez, a Câmara voltou a legislar em prol dos seus

Na essência, a proteção aos partidos é semelhante à tentativa de blindar parlamentares de ações da Justiça

Distraído que estava o público com o escândalo da vez, a Câmara dos Deputados voltou a fazer o que mais gosta: legislar em prol dos seus. E, de novo, com o método de sempre.

À sorrelfa, no de repente da urgência conveniente, em votação simbólica os deputados aprovaram uma série de facilidades para os partidos, à qual deram o nome de minirreforma do sistema que rege as legendas. Não bastasse, determinaram que a coisa tenha vigência imediata, atropelando a regra de anterioridade anual.

Eu resilo. Tu resilas? Ele resila, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Antes que a palavra ficasse na moda, ninguém era resiliente e não havia problema nisso

Como não podemos mais fugir de resiliência, por que não adotar também o verbo resilir?

Quer um conselho? Não saia de casa sem a palavra "resiliência". É leve, portátil, fácil de carregar —serve para tudo, cabe na memória e, em último caso, será audível e compreensível mesmo se simplesmente sussurrada, devido a seus sons sibilantes. Hoje, sem resiliência, não chegaremos a lugar nenhum. É o que todos querem de si mesmos —ser resilientes.

O Caminho para a Liberdade, por Ricardo Marinho*

Obra resenhada: Joseph E. Stiglitz. O caminho para a liberdade: Transformar a Economia e a Sociedade, criando um futuro livre para todos. Tradução de Maria de Lourdes Sete. Primeira Edição. São Paulo, Benvirá: 2025. 372 págs.

Resenhar o livro mais recente do Prêmio Nobel em Ciências Econômicas de 2001 dispensa apresentações, dada a sua ampla reputação no mundo. Na hipótese de alguém ainda não ter tido a oportunidade de conhecê-lo, Joseph E. Stiglitz é professor da Universidade Columbia e economista-chefe do Instituto Roosevelt. Foi presidente do Conselho de Assessores Econômicos do Presidente Clinton e economista-chefe do Banco Mundial. Ao longo de sua extensa carreira, Stiglitz desenvolveu uma perspectiva crítica sobre as abordagens correntes na economia e sobre os resultados (ineficientes e injustos) da economia de livre mercado (ou como ele sabiamente chama de “economia de mercado descontrolada”, sem regulação, regulamentação e/ou mecanismos de controle). Ele elaborou essa perspectiva crítica da economia em seus livros como A Globalização e seus Malefícios (2002), O mundo em queda livre (2010), O Preço da Desigualdade (2013), O grande abismo: sociedades desiguais e o que podemos fazer sobre isso (2016) e Povo, poder e lucro: Capitalismo progressista para uma era de descontentamento (2020), entre muitos outros.

Poesia | Desencanto, de Manuel Bandeira