Valor Econômico, por César Felício
Cientista político vê cenário difícil para
eventual Lula 4, com necessidade de montagem de base ‘anti-impeachment'
Autor de vários livros sobre a estruturação
do bolsonarismo como um partido orgânico de caráter digital, o cientista
político Marcos Nobre vê possibilidades do surgimento de uma “esquerda digital”
no futuro, caso o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) perca a eleição
para o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Para Nobre, caso chegue ao poder, Flávio será
um presidente longe do improviso: firmou liderança dentro do seu grupo, mesmo
depois de contestado publicamente pela madrasta, a senadora eleita Michelle
Bolsonaro (PL-DF). Forjou aliança com os partidos do Centrão e sobreviveu a
escândalos como o da “rachadinha” e do Banco Master.
Nobre aposta que, se eleito, o filho do
ex-presidente Jair Bolsonaro tentará negociar a submissão do Brasil aos Estados
Unidos em troca de investimentos externos que viabilizem uma saída para os
problemas fiscais sem comprometer o desenvolvimento.
Caso a estratégia não dê certo, ele não
considera impossível que o Brasil derive para um modelo autoritário, nos moldes
do de Recep Erdogan, autocrata da Turquia, no poder desde 2003.
Líder conservador, Erdogan enfrentou diversos
obstáculos jurídicos para organizar o seu partido e chegar ao poder. Em seus
dois primeiros mandatos fez governos com alta aprovação, marcados por
crescimento econômico e inflação sob controle. A partir de 2013, com o país em
crise, passou a fechar o regime por meio de medidas judiciais, processo que se
acelerou depois que sofreu uma tentativa de golpe de Estado em 2016. Para
Nobre, a democracia cai em uma espécie de armadilha quando é forçada a recorrer
a medidas arbitrárias para sua própria autodefesa.
A seguir, trechos da
entrevista de Nobre ao Valor: