Inflação e juros enrolam Lula
Por Folha de S. Paulo
Petista chega ao fim do mandato com guerra
pressionando preços e Selic elevada pela gastança do governo
Desenrola 2 pode gerar algum efeito prático e
imediato para devedores de baixa renda; seu alcance, porém, tende a ser
limitado e pontual
Como esperado, Luiz Inácio Lula da
Silva (PT)
aproveitou seu pronunciamento por ocasião do Dia do Trabalho para
anunciar o Desenrola 2, segunda versão de seu programa para
refinanciar dívidas de famílias. Um dia antes, também como esperado, o Banco Central deu
notícias incômodas sobre a inflação e
a taxa de juros.
Por mais bem-vinda que seja a
redução da Selic de 14,75% para 14,5% ao ano, evidencia-se o patamar
ainda extraordinariamente elevado da taxa, em grande medida causado pela gestão
perdulária das contas públicas. As perspectivas de alívio monetário, ademais,
tornaram-se mais incertas.
A motivação do BC para manter o ritmo
cauteloso do ajuste reside no cenário inflacionário complexo. As cotações do
petróleo dispararam com o agravamento dos conflitos no Oriente Médio,
elevando custos em toda a cadeia produtiva. No plano doméstico, a atividade não
desacelerou o bastante para conter pressões de preços como a do setor de
serviços.
Esses fatores tornam mais árdua a
convergência do IPCA para a meta de 3%, como indicado nas projeções do Banco
Central. Para este ano, a estimativa passou de 3,9% na reunião anterior para
4,6% agora; para o horizonte relevante em 2027, o número subiu de 3,3% para
3,5%. As expectativas de mercado são ainda piores, de 4,9% e 4%,
respectivamente.
O aumento da incerteza em torno dessas
previsões —agravado pela falta de clareza quanto à duração e ao alcance dos
choques geopolíticos— justifica que o Comitê de Política Monetária (Copom)
avance com cautela redobrada no ciclo de corte dos juros. Tanto que, em seu
comunicado, o colegiado não se compromete com movimentos futuros.
Em que pese a conjuntura externa
desfavorável, o patamar anômalo da Selic,
que se espraia pelas taxas de mercado, não pode ser dissociado das escolhas
imprudentes do próprio governo. Ao longo de todo este terceiro mandato de Lula,
a expansão de gastos públicos foi ininterrupta, pressionando a demanda e elevando
temores em relação à solvência da dívida pública.
Não é surpresa, assim, que o endividamento e
o comprometimento da renda das famílias com o pagamento de juros e amortizações
continuem em nível recorde mesmo depois da primeira edição do programa
Desenrola, lançada em 2023.
Ao elevar o custo de capital, o governo
contribui diretamente para o aperto no orçamento doméstico, o aumento da inadimplência e
o recurso crescente a modalidades caras de crédito.
A poucos meses da eleição presidencial, o
Desenrola 2 pode até produzir algum efeito prático e imediato para devedores de
baixa renda, ao facilitar renegociações com descontos expressivos.
Sem queda firme da inflação e dos juros,
porém, seu alcance tende a ser limitado e pontual. Lula terá dificuldade para
se desenrolar de consequências das más escolhas econômicas de sua gestão.
Mais infiltrações do crime organizado na
política
Por Folha de S. Paulo
Operação em São Paulo apura elos alarmantes
de facções como o PCC com agentes que atuam no setor público
Contratos com prefeituras seriam usados em
lavagem de dinheiro; é preciso inteligência na investigação das redes de
financiamento ilícitas
Na última segunda (27), uma operação da Polícia Civil de São Paulo prendeu
quatro pessoas que atuam no setor público por suspeita de
lavagem de dinheiro para a facção Primeiro Comando da Capital (PCC) por meio
de contratos entre prefeituras e uma fintech.
Mais de R$ 513 milhões em bens foram
bloqueados e 22 mandados de busca e apreensão foram executados em 7 cidades do
estado.
Um dos líderes do esquema seria o empresário
João Gabriel de Mello Yamawaki, que, em 2022, durante a gestão de João Doria,
obteve aval para
pousar um helicóptero no Palácio dos Bandeirantes. Yamawaki fundou
uma fintech que, de acordo com as investigações, era usada para movimentar
recursos do crime.
Por meio de contratos públicos, firmados com
a articulação de assessores de prefeituras, o dinheiro do crime era
"legalizado".
Também na segunda (27), foi preso Thiago
Rocha de Paula, ex-vereador de Santo André suspeito de ligação com lideranças
do PCC na região do ABC. Outros agentes políticos —como Matheus Tognella,
presidente do PSB de Nova Odessa que já ocupou cargo na Prefeitura de Campinas—
também são alvo de investigações da Polícia Civil.
Trata-se de mais um caso que indica conexões
alarmantes do crime
organizado com o setor público, o que não é exclusividade
paulista. No final de 2025, operações da Polícia
Federal no Rio prenderam um
deputado estadual, o presidente da Assembleia Legislativa do estado e
um desembargador, além de policiais.
A imbricação do crime com políticos e agentes
da Justiça ou das forças de segurança pode tanto dificultar investigações de
membros das facções como dar aparência de legalidade à rede de financiamento
desses grupos.
Por isso operações como essa mais recente em
São Paulo e a Carbono Oculto, que em 2025 revelou a infiltração do PCC no setor
de combustíveis e no mercado financeiro em dez estados, precisam ser
priorizadas.
Afinal, seguir o rastro do dinheiro das
facções passa por desvendar as relações políticas e empresariais nas quais
atividades lícitas e ilícitas se misturam.
Só o policiamento inteligente, com cruzamento
de dados e recursos tecnológicos, é capaz de desmantelar as redes de
sustentação do crime organizado, que se espalham por setores tão diversos como
combustíveis, contrabando de bebidas e garimpo.
Também é imprescindível que o poder público
crie mecanismos de monitoramento interno para, de modo preventivo, cortar os
laços de seus agentes com o crime.