terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Opinião do dia - Giuseppe Vacca

"Para Pasquino, a passagem do velho ao novo “reformismo” consistiria em promover, mais do que coalizões segundo interesses, coalizões segundo valores. Entre estes, como vimos, indica o ambiente, o direito à informação, a paz, associando-os à complementação da democracia política com a democracia social e à penetração da “cultura dos serviços” nos aparelhos da administração pública. São os novos “desafios” que a esquerda tem diante de si. Mas todos – uns mais, outros menos – pressupõem a possibilidade de desenvolver uma eficaz ação política supranacional. Não só as políticas de ambiente, paz e informação (que não poderiam ser implementadas sem a iniciativa pactuada dos países europeus e sem a ação que a Europa unida poderia desenvolver no cenário mundial), mas também o desenvolvimento da democracia econômica e da democracia social (que implicam o controle sobre a acumulação e a inovação, decididas de modo cada vez mais direto por “potências” econômicas supranacionais) e a reorientação dos aparelhos da administração pública e dos serviços requerem a unificação dos mecanismos de regulação em escala europeia e a superação dos modelos burocráticos herdados do Estado nacional."

*Giuseppe Vacca, ‘Por um novo reformismo”. Pág. 92. Fundação Astrojildo Pereira/Contraponto, 2009.

 

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Protestos no Irã alimentam esperança

Por O Globo

Aiatolás voltam a reprimir oposição com violência, mas padecem de fraquezas internas e externas

Não é a primeira vez que a teocracia iraniana é convulsionada por protestos populares. Em 2009, manifestações estudantis contestaram por meses o resultado de eleições, na mobilização conhecida como Movimento Verde. Em 2012, 2017, 2018 e 2019, crises resultantes de alta do câmbio, dos combustíveis e outros fatores econômicos levaram multidões às ruas de Teerã. Em 2021, regiões do interior foram sacudidas em razão da falta de água. Em 2022, a morte da jovem Mahsa Amini pela “polícia da moralidade” desencadeou uma rebelião em defesa do direito de mulheres e minorias. Há duas semanas, novas manifestações eclodiram a partir da revolta de pequenos comerciantes com o naufrágio do rial, a moeda iraniana. Todos esses protestos despertaram a mesma reação do regime dos aiatolás: repressão violenta, centenas de mortos, milhares de detidos e torturados nas masmorras. E a teocracia se manteve no poder, praticamente intacta.

Projeto da burrice é antigo. Por Larissa Leão de Castro

O Globo

Hélio Pellegrino descreveu em livro há mais de 30 anos não apenas o Brasil da ditadura, mas o país em que ainda vivemos

Há pensamentos que o tempo não consome porque são escritos no nervo exposto de um país. O de Hélio Pellegrino é um deles. Resgatar hoje sua obra “A burrice do demônio”, mais de três décadas depois, é perceber como ele descreveu não apenas o Brasil da ditadura, mas o país em que ainda vivemos, atravessado por desigualdades brutais, violências de Estado e uma tentativa insistente de organizar a burrice como projeto político.

Psicanalista, marxista, homem de fé e de poesia, recusou compartimentos. Para ele, a psicanálise não era luxo de consultório, mas instrumento de justiça social. Ao falar de desejo, falava também de salário, de moradia, de racismo, de tortura, de manicômios. Foi um dos primeiros a formular ideias como “sintoma social”, “patologia social” e “perversão social”, mostrando que alguns sofrimentos não cabem apenas no código do diagnóstico, nascem de estruturas históricas perversas, de pactos silenciosos de exclusão.

Democracia como limite. Por Merval Pereira

O Globo

As milícias armadas pelo chavismo/madurismo espalham terror pelas ruas na Venezuela, e a insegurança jurídica impede que se faça um planejamento de longo prazo para o país.

A estratégia de Donald Trump de não invadir a Venezuela, mas transformar o governo chavista em marionete manipulada à distância, como se fosse um drone teleguiado, esbarra em detalhes fundamentais: a violência interna está aumentando, com repressão até mesmo aos que apoiam os Estados Unidos. As milícias armadas pelo chavismo/madurismo espalham terror pelas ruas, e a insegurança jurídica impede que se faça um planejamento de longo prazo para o país.

O escândalo Master pode ajudar o Brasil. Por Fernando Gabeira

O Globo

O lado sombrio do país tem se projetado com efeito mais devastador do que a intensa luz do sol iluminando todo esse processo

Algumas vozes defendem que o escândalo do Banco Master não seja totalmente revelado. Segundo elas, o impacto seria tão grande que o Brasil não aguentaria. É um grande equívoco. Apesar de sua fragilidade, a democracia brasileira não só aguentaria saber de tudo, como poderia usar a revelação de combustível para algumas reformas. O que envenena a convivência democrática é ver o enorme esforço que se faz para abafar o escândalo.

Bancos centrais enfrentam ataque. Por Míriam Leitão

O Globo

Parece uma temporada de ataques a bancos centrais: o Fed na mira de Trump e o BC às voltas com o desenrolar do caso Banco Master

O Fed sob um ataque tão direto e diante de uma tentativa de intimidação tão explícita não é apenas algo que nunca se viu. É que não se pensava que pudesse acontecer. A reação foi imediata, e quem deu o tom foi o próprio Jerome Powell. Normalmente comedido diante das grosserias de Donald Trump, o presidente da instituição não mediu palavras. Através de comunicados, ex-presidentes do banco central americano, de ex-secretários do Tesouro e de bancos centrais de vários países apoiaram Powell. Todo mundo sabe o custo para a sociedade de tirar a credibilidade do banco central. Todo mundo, menos Trump.

Memória e esquecimento: O Agente Secreto mostra a vida banal na ditadura. Por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Kleber Mendonça Filho recusou soluções fáceis e o mito clássico do herói grego, o homem que faz coisas incomuns; Wagner Moura deu conta do recado. Ganharam o Globo de Ouro

A universalidade de O Agente Secreto, dirigido por Kleber Mendonça Filho, que acaba de ganhar o Globo de Ouro como melhor filme em língua não-inglesa, não está na reconstituição explícita da repressão do regime militar, mas na maneira como a ditadura se infiltrava na vida cotidiana, no aparentemente insignificante, ou seja, naquilo que Milton Santos, nosso grande geografo, chamou de “vida banal”. É justamente nesse território do dia a dia — feito de gestos mínimos, silêncios, ruídos e deslocamentos — que o filme constrói sua crítica política mais profunda.

A internet do Irã. Por Pedro Doria

O Globo

O que está acontecendo no Irã não é reedição do que ocorreu na Primavera Árabe. Há 15 anos, as redes sociais nascentes permitiram que grupos diferentes na Síria, no Egito e em tantos outros países se organizassem para protestar contra os regimes em que viviam. Os aiatolás entendem isso. Desde então, promoveram apagões de internet em todo o território nacional sempre que havia novas ondas de manifestações. Mas isso não quer dizer que a internet não seja usada. Os manifestantes também aprenderam a lidar com a estratégia do regime.

Fé, esforço e disciplina não bastam para empreender. Por Pedro Cafardo

Valor Econômico

É óbvia a existência do desejo de viver sem patrão, uma busca de autonomia natural do ser humano, mas a opinião favorável à carteira assinada é uma realidade que se impõe em razão da segurança e dos benefícios da CLT

É difícil tirar os olhos do cenário global após a invasão da Venezuela pelos EUA. Mas vem aí a campanha eleitoral e não há como deixar de olhar para questões internas. Quando acabou o segundo turno das eleições municipais, em outubro de 2024, fervilharam análises para explicar as derrotas da esquerda.

Entre as causas, teve destaque a opinião de que a esquerda perdeu contato com as periferias. E a receita muito recomendada para retomar o diálogo era o apoio ao empreendedorismo.

O assunto voltou à discussão um ano atrás com o caso do atrapalhado anúncio da fiscalização das transferências bancárias acima de R$ 5 mil. Ganhou credibilidade naquele momento a mensagem falsa de que, com a medida, o governo iria taxar o Pix.

O cinema e a alma nacional. Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Assim como o tetra de 1994 favoreceu FH, o cinema pode melhorar o humor nacional, a favor de Lula

O cinema nacional está lavando a nossa alma, tão machucada pela tentativa de golpe e por escândalos, privilégios, insegurança e desigualdade social, e não se pode desconsiderar o efeito político, e particularmente eleitoral, que o sucesso internacional de Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto pode ter no Brasil. O “País do Futebol” é também o país do cinema.

Em seu livro O Improvável Presidente do Brasil, de 2013, Fernando Henrique admitiu que nunca deu a menor bola para futebol, mas virou torcedor obsessivo na campanha presidencial de 1994 e colheu os gols, ou louros, do tetracampeonato brasileiro do mesmo ano. Segundo ele, a Copa trouxe otimismo ao País e ajudou a impulsionar o Plano Real e, depois, sua eleição à Presidência.

Flávio se empolga, mas falha na moderação. Por Roseann Kennedy

O Estado de S. Paulo

O que no começo era um movimento para frear o avanço político da exprimeira-dama Michelle Bolsonaro (PL-DF) e, também, um balão de ensaio para testar viabilidade eleitoral e manter a família em evidência começou a ganhar musculatura. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) empolgou-se com sua pré-candidatura presidencial e passou a dar passos mais arrojados para tentar garantir apoios e sustentação à sua pretensão palaciana. Ele procurou empresários, agentes do mercado financeiro e foi até rezar numa igreja evangélica em Orlando. Agora, neste janeiro de 2026, já circula na Faria Lima que o filho zero um de Jair Bolsonaro conseguiu promessas de apoio para o cofre de sua campanha.

Procura-se um candidato. Por Rubens Barbosa

O Estado de S. Paulo

Não haverá saída e recuperação sem medidas estruturais de médio e longo prazo

O Brasil enfrenta uma situação interna de extrema complexidade. A disfuncionalidade do sistema político afeta a governança e o equilíbrio entre os Três Poderes. Não haverá saída e recuperação sem medidas estruturais de médio e longo prazo. O programa mínimo que a seriedade da crise atual exige é passar o Brasil a limpo e mudar o que tem de ser mudado dentro dos princípios democráticos.

Não se pode ignorar que tudo o que ocorre hoje é resultado de 20 anos de governos de esquerda e de direita que, pelas suas prioridades ideológicas, não levaram em conta as mudanças internas e as transformações globais e seus impactos sobre o País. A ausência de liderança no Executivo, no Legislativo, no Judiciário, no meio empresarial e no meio dos trabalhadores agrava o quadro nacional e exige de todos os que se preocupam com o futuro do Brasil um esforço para promover um debate sobre as mudanças que a sociedade brasileira terá de enfrentar para restaurar o crescimento em nível mais elevado, aumentar o emprego de forma sustentável, combater a corrupção sistêmica e a violência do crime organizado.

Trump contra o mundo. Por Jorge J. Okubaro

O Estado de S. Paulo

Trump reforça o isolamento dos Estados Unidos. O país está fora da mesa em que o mundo discute seus grandes dramas

Trump não conseguirá destruir o mundo para cumprir sua promessa de fazer os Estados Unidos grandes novamente – Make America Great Again (Maga), seu lema de campanha –, que encantou certos políticos daqui). É o que esperam bilhões de pessoas que habitam o planeta. Mas Trump está destruindo as instituições que o mundo conseguiu erigir nas últimas décadas para estabelecer um complexo de relações e compromissos por meio do qual os países conseguem debater problemas comuns, encontrar soluções e preservar relações de convivência entre si, cada um cedendo ou ganhando para ficar em paz com os demais. Há esperanças de que, em algum tempo, suas decisões sejam revistas por pessoas mais sensatas que venham a sucedê-lo no cargo. No momento, o mundo perde.

Para os homens do século 21, é muito melhor ser uma vítima do que ser um herói. Por João Pereira Coutinho

Folha de S. Paulo

Os que sofrem merecem empatia, mas não são heróis

A dor nem sempre atesta a superioridade moral do sujeito

Aconteceu em 2015. Pela primeira vez na história da França, um presidente, François Hollande, considerou conceder a Legião de Honra —a mais alta condecoração da República, destinada a celebrar feitos valorosos de militares ou civis— às vítimas do atentado terrorista no teatro Bataclan, em Paris.

À primeira vista, a decisão poderia passar sem grande repercussão. Se existe fenômeno que define o nosso tempo é a elevação da vítima a um lugar cimeiro na imaginação moral dos contemporâneos.

Ainda assim, a repercussão veio —e Hollande recuou, optando por criar uma Medalha Nacional de Reconhecimento das Vítimas do Terrorismo. Fim da história?

O ópio do povo. Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Embora Marx tenha feito crítica forte à religião, esquerda nunca foi muito consistente em condenar regimes teocráticos

Antiamericanismo é parte da explicação, mas também existe um vínculo metafísico que passa pela crença em utopias

Não sei se dá para dizer que a esquerda apoia a teocracia iraniana, mas me parece seguro afirmar que ela é, de um modo geral, econômica na crítica aos aiatolás. Uma boa medida disso é Lula. Ele é um esquerdista ultralight, mas que não perde oportunidades de alinhar-se a Teerã.

Brasil se encolhe na liderança da América Latina. Por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

O presidente condena ação de Trump na Venezuela, mas não assume a defesa pela restauração da democracia

Ambiguidade faz Lula perder a chance de marcar mandato com papel relevante no cenário internacional

O presidente Luiz Inácio da Silva (PT) tem falado ao telefone com mandatários das Américas e, ao que informa o serviço de comunicação do Palácio do Planalto, os assuntos são a Venezuela e o acordo Mercosul-União Europeia. Até aí, temos o óbvio, dada a atualidade dos temas.

Enrolado com o Master, Cláudio Castro foge do Palácio Guanabara. Por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Governador teme que desastre fiscal atrapalhe eleição ao Senado

Sua candidatura, porém, ainda depende de absolvição no TSE

Cláudio Castro fez três pedidos ao gênio da lâmpada. A urgência é escapar da condenação por abuso de poder político e econômico nas eleições de 2022. A ação no TSE teve início em novembro, dias depois da chacina nos complexos do Alemão e da Penha. A relatora Isabel Gallotti votou pela cassação e inelegibilidade. O ministro Antônio Carlos Ferreira pediu vista, e a expectativa é que o processo seja retomado em fevereiro.

Bondi Beach e o massacre. Por Marcus Cremonese*

Neste 14 de janeiro faz exatos 30 dias do atentado antissemita ocorrido em Bondi, praia ícone de Sydney, na Austrália. O mundo ficou chocado com esse massacre que é tido como o maior “atentado terrorista” já acontecido neste país.

Uma semana depois, em 21 de dezembro, a mesma praia e os gramados adjacentes foram o cenário de uma manifestação vibrante de unidade, de reflexão e de respeito mútuo. Nesse dia, cerca de 16.000 pessoas ali se reuniram numa celebração de luto, o “National Day of Reflexion”. Dela participaram o primeiro-ministro, senadores, deputados federais e estaduais e diversas autoridades entre elas rabinos, imãs, padres, pastores e líderes muçulmanos.

Poesia | Tática e Estratégia, de Mario Benedett

 

Música | Chico Buarque e Djavan: Samba do Grande Amor + A Rosa

 

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Novos desastres climáticos desafiam as autoridades

Por O Globo

Pelo menos 83% do território do Rio e metade dos municípios brasileiros são vulneráveis a tragédias ambientais

A tragédia das chuvas na Região Serrana do Rio, um dos maiores desastres naturais da História do país, com mais de 900 mortes, completou 15 anos ontem. Desde 2011, líderes mundiais participaram de 14 conferências do clima, os alertas de especialistas sobre a iminência de novas catástrofes foram mais enfáticos e constantes, e novas tragédias aconteceram para confirmar que não são alarmistas. Temporais mataram 242 pessoas em Petrópolis e 133 em Pernambuco em 2022, 65 no Litoral Paulista em 2023 e 185 no Rio Grande do Sul em 2024, deixando cidades inteiras debaixo de água. Os números assustadores aparentemente não bastaram para que as medidas de prevenção necessárias fossem tomadas.

Entrevista | PEC da Segurança ‘subiu no telhado’, diz José Guimarães

Por Andrea Jubé e Murillo Camarotto / Valor Econômico

Líder do governo na Câmara avalia que proposta não deve ser aprovada, vê feridas na relação com Motta ‘cicatrizadas’ e analisa eleições

Em meio à crise com a saída prematura do ministro Ricardo Lewandowski do Ministério da Justiça, o líder do governo na Câmara dos Deputados, José Guimarães (PT-CE), acha difícil que a proposta que era a bandeira da pasta, a proposta de emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública, seja votada antes das eleições. “Subiu no telhado”, admitiu. Ele também descarta a criação de uma pasta da Segurança Pública ainda neste ano.

Sobre o desentendimento do PT com o presidente da Casa, deputado Hugo Motta (Republicanos-PB), no fim do ano, afirmou que as feridas “estão cicatrizando”. Acrescentou que a redução da escala 6 x 1 é prioridade do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva neste semestre.

Vice-presidente do PT e coordenador do grupo de trabalho eleitoral da sigla, ele disse que o partido tem nesta eleição o desafio de alterar a correlação de forças na Câmara e no Senado. A meta é eleger pelo menos 90 deputados federais, e impedir a oposição de fazer maioria no Senado. Em tom de desabafo, reclamou da vida difícil do governo no Congresso: “É dolorosa a realidade aqui dentro. Chega a ser dilacerante”.

Guimarães sustentou que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, não tem o direito de sair do governo e ir pra casa. Ele defende que Haddad seja candidato em São Paulo, ao governo ou ao Senado. “O Haddad tem missão a cumprir”. 

A seguir os principais pontos da entrevista ao Valor:

O BC pode cortar a Selic contra o mercado? Por Alex Ribeiro

Valor Econômico

A mensagem do Copom de dezembro acabou sendo contaminada por outros fatores, como as preocupações com as eleições de 2026 e as remessas de lucros e dividendos ao exterior

O jeito de os banqueiros centrais se comunicarem mudou muito desde que Alan Greenspan, que foi chefe do Federal Reserve (Fed), afirmou que havia aprendido a “murmurar com grande incoerência”. Se algo que ele tivesse dito parecesse muito claro, era porque o ouvinte havia entendido mal. Agora, a nova fronteira é falar até por memes, como fez o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, na entrevista do Relatório de Política Monetária (RPM), citando um deles.

A mensagem que ele queria passar: alguns participantes do mercado financeiro se enganaram quando leram uma mensagem conservadora apenas porque o Comitê de Política Monetária (Copom) do BC não telegrafou que vai começar a cortar os juros já nesta reunião de janeiro.

Na guerra das montadoras, o lobby não tira férias. Por Bruno Carazza

Valor Econômico

Grandes questões econômicas são decididas na surdina, com pouca discussão na sociedade

O Estado brasileiro é uma fonte quase inesgotável de oportunidades de negócios e as grandes empresas que atuam no país sabem que, para se manter lucrativas, precisam combinar estratégias de mercado com o desenvolvimento de relações íntimas com a classe política.

É difícil cravar que as coisas por aqui são piores do que em outros países, mas lacunas institucionais levam a crer que as decisões de políticas públicas e econômicas, no Brasil, quase sempre são tomadas levando em conta apenas os interesses privados, e não o que seria melhor para a sociedade.

Trump: a lei sou eu. Por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Ele parece ignorar algumas questões essenciais sobre o mercado global de petróleo, que pretende controlar

Donald Trump tem certeza de que é o dono do mundo — e age com base nessa convicção —, mas parece não ter conhecimento de questões cruciais envolvendo desde petróleo até armas nucleares. Dentro de um mês, expira o último e mais amplo acordo nuclear entre Estados Unidos e Rússia. Com isso, as duas potências estarão livres para aumentar (e eventualmente usar) seus arsenais sem qualquer restrição. Jornalistas do New York Times perguntaram a Trump, em entrevista na semana passada, como ele se preparava para essa situação. Ele respondeu vagamente:

— Se vai expirar, vai expirar.

Os jornalistas ficaram com a nítida impressão de que Trump simplesmente não estava a par do assunto. Tanto que acrescentou, sem dar qualquer detalhe:

— Faremos um acordo melhor.

Jornalismo investigativo. Por Miguel de Almeida

O Globo

A civilização ganha com a imprensa independente

Por meio de soldados arrependidos, o jornalista Seymour Hersh soube da chacina em My Lai. Na manhã de 16 de março de 1968, helicópteros da Companhia Charlie desceram no pequeno vilarejo vietnamita. A ordem: destruir a aldeia suspeita de abrigar combatentes vietcongues. Entre 7h30 e 11h, os soldados mataram cerca de 500 pessoas, entre crianças, mulheres e idosos. Estupraram mulheres e meninas. Bebês foram mortos a tiros ou na ponta das baionetas.

Nenhuma arma foi encontrada.

A face do crime. Por Irapuã Santana

O Globo

Protocolo de Reconhecimento de Pessoas é fundamental para que as polícias abandonem métodos amadores

No dia 5, o Ministério da Justiça e Segurança Pública editou uma norma histórica: a Portaria 1.122/2026, que institui o Protocolo Nacional de Reconhecimento de Pessoas. Trata-se de um guia fundamental para que as polícias brasileiras abandonem métodos amadores e passem a tratar o reconhecimento como prova científica e rigorosa.

Lula e a Venezuela. Por Diogo Schelp

O Estado de S. Paulo

Se governo interino colaborar com Trump, as atenções sobre a Venezuela tendem a diminuir

Pode soar contraintuitivo, mas o ocaso de Nicolás Maduro pode ter vindo em boa hora para os planos de reeleição do presidente Lula. Como assim, se Lula e o PT têm uma relação histórica de amizade e conivência com o regime chavista, que esteve sob o comando de Maduro nos últimos 15 anos? Como assim, se o episódio revela a disposição de Donald Trump de usar a lei do mais forte para fazer valer seus interesses externos? As duas premissas são verdadeiras, mas é preciso analisar quais são os riscos reais que elas carregam para o projeto de poder petista.

Tutelas na América Latina fracassaram. Por Oliver Stuenkel

O Estado de S. Paulo

A promessa de ‘boa governança’ na AL por meio de supervisão externa mostrou-se ilusória

A história das “tutorias fiscais” – protetorados de facto – dos Estados Unidos na América Latina explica a hesitação do setor petrolífero americano com a Venezuela. Na semana passada, após a operação militar dos EUA que levou à queda de Nicolás Maduro, o governo Trump anunciou que pretende administrar, a partir de Washington, a produção, a venda e o uso das receitas do petróleo venezuelano.

A proposta vai além da supervisão técnica: ao sugerir que os EUA poderão decidir o destino dos recursos, dá a Washington influência direta sobre o principal eixo do orçamento do país sul-americano. Trata-se de uma iniciativa sem precedentes no pós-Guerra Fria – mas com paralelos na história americana do início do século XX.

Bye bye’, Maduro. Por Denis L. Rosenfield

O Estado de S. Paulo

Eis uma oportunidade que não poderia ser perdida, capaz de assegurar o futuro da democracia e o enterro do ‘socialismo do século 21’

Maduro, hoje recolhido a uma cela num presídio nova-iorquino – destino merecido – foi um cruel ditador, impiedoso em suas ações. Seus meios de governar, se é que se pode utilizar essa expressão, foram a violência generalizada por meio da repressão, da tortura, do estupro, do silenciamento de toda e qualquer crítica. Utilizou um sistema repressivo baseado nas Forças Armadas, na polícia e nas milícias bolivarianas, com o uso constante da intimidação e do assassinato. Nada o detinha em sua dominação despótica. Eis o resultado do tão alardeado “socialismo do século 21”, produtor de miséria, de desigualdade social extrema, reduzindo a sua população à maior pobreza, enquanto a nomenclatura “socialista”, “comunista” usufrui dos maiores privilégios. Que tal regime tenha sido e seja ainda para alguns, um farol da esquerda beira ao incompreensível.

Master era um morto-vivo. Por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Banco não recolhia nem dinheiro que instituições são obrigadas a deixar no BC

Ativos eram superavaliados ou fictícios, não entrava dinheiro para cobrir o que saía

O Master foi liquidado por "profunda e crônica crise de liquidez" que comprometeu a "capacidade para satisfazer seus compromissos". Por "grave e reiterado descumprimento de normas", em "particular quanto à manutenção dos níveis regulamentares de recolhimentos compulsórios" e gestão de riscos de crédito e liquidez. Por "prática de ilícitos graves no âmbito de operações de cessão de ativos a terceiros". É o que escreveu o Banco Central em esclarecimentos prestados ao TCU (Tribunal de Contas da União) em 18 de dezembro de 2025.

De Lima Barreto ao Banco Master. Por Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

A degradacao institucional expõe também o TCU

O vale tudo pós-Lava Jato explica muita coisa, mas não se trata apenas da velha promiscuidade entre Estado e grandes interesses privados

Em "O Triste Fim de Policarpo Quaresma", o personagem Genelício é o arquétipo do barnabé indolente, inepto, e diligente apenas na arte de parecer ocupado. Finge trabalhar enquanto se ocupa obsessivamente de regras obsoletas e protocolos irrelevantes. Dizia dedicar-se à redação de um monumental volume intitulado "Os Tribunais de Contas nos Países Asiáticos" —iniciativa tão inútil quanto o aprendizado do javanês em outro texto cáustico de Lima Barreto. O autor escrevia em 1911. Mais de um século depois, porém, o tema outrora exótico e quase irrelevante dos tribunais de contas converteu-se em questão central da agenda pública na atual conjuntura.

Legitimidade democrática e revisão dos tribunais. Por Lara Mesquita

Folha de S. Paulo

Segundo cientista político, certas elites encontram no Judiciário proteção contra mudanças legislativas

Cortes que revisam leis aprovadas não protegem minorias nem colaboram para o desenvolvimento

Há um ano publiquei meu primeiro artigo neste espaço. Na ocasião, recorri a Adam Przeworski para discutir o que esperamos da democracia e quais são seus principais desafios. Entre estes, mencionei o cenário que se desenhava com o retorno de Donald Trump à Presidência dos Estados Unidos e a fraude nas eleições venezuelanas.

Nesta primeira coluna de 2026 volto a recorrer a Przeworski. Em artigo ainda em fase de preprint, o professor da NYU, em coautoria com José Antonio Cheibub, Fernando Limongi e Ye Wang, analisa diferentes modelos de controle constitucional e o papel contramajoritário das cortes que exercem revisão ex-post, isto é, sobre leis já aprovadas pelo Legislativo (modelo que adotamos no Brasil).

Sobre a noção de classes e grupos subalternos em A. Gramsci

Por Ivete Simionatto e Mirele Hashimoto Siqueira

Serviço Soc. Soc. São Paulo, v.147 (3) 2024

Resumo:

O objetivo do artigo é resgatar a concepção de classes e grupos subalternos no pensamento de Antonio Gramsci, demarcando a relação orgânica do tema com suas condições de vida, suas origens sardas e a “questão meridional”. Através de um estudo bibliográfico e teórico-filológico, recupera-se a presença dos conceitos nos escritos pré-carcerários, o aprofundamento nos Cadernos do cárcere, com destaque para os Cadernos 3 e 25, e as mediações com outras categorias desenvolvidas na obra carcerária.

Palavras-chave:
Gramsci; Classes subalternas; Grupos subalternos

Introdução

“Classes e grupos subalternos” estão entre os conceitos gramscianos mais discutidos nas últimas décadas, empregados nos mais variados discursos acadêmicos, científicos e políticos. Seu uso difundiu-se e alastrou-se largamente, em especial a partir dos estudos do coletivo indiano Subalter Studies, surgido nos anos 1980, ganhando popularidade entre os estudiosos de língua inglesa. Essa rápida disseminação, contudo, não raro vem acompanhada de equívocos interpretativos, decorrentes de uma apropriação indireta da obra de Gramsci, sem recorrer às fontes originais. Não é incomum, por exemplo, encontrarmos referência à discussão da subalternidade sem menção ao nome de Gramsci, o qual, mesmo que muito citado, permanece pouco lido na fonte viva de seu pensamento.

Poesia | Poética, recitado por Vinicius de Moraes

 

Música | Roberta Sá - Virada

 

domingo, 11 de janeiro de 2026

Opinião do dia – Antonio Gramsci*

“O homem ativo de massa atua praticamente, mas não tem uma clara consciência teórica desta sua ação, a qual, não obstante, é um conhecimento do mundo na medida em que o transforma. Pode ocorrer, aliás, que sua consciência teórica esteja historicamente em contradição com o seu agir. É quase possível dizer que ele tem duas consciências teóricas (ou uma consciência contraditória): uma, implícita na sua ação, e que realmente o une a todos os seus colaboradores na transformação prática da realidade; e outra, superficialmente explícita ou verbal, que ele herdou do passado e acolheu sem crítica. Todavia, esta concepção “verbal” não é inconsequente: ela liga a um grupo social determinado, influi sobre a conduta moral, sobre a direção da vontade, de uma maneira mais ou menos intensa, que pode até mesmo atingir um ponto no qual a contraditoriedade da consciência não permita nenhuma ação, nenhuma escolha e produza um estado de passividade moral e política. A compreensão crítica de si mesmo é obtida, portanto, através de uma luta de “hegemonias” políticas, de direções contrastantes, primeiro no campo da ética, depois no da política, atingindo, finalmente, uma elaboração superior da própria concepção do real. A consciência de fazer parte de uma determinada força hegemônica (isto é, a consciência política) é a primeira fase de uma ulterior e progressiva autoconsciência, na qual teoria e prática finalmente se unificam.”

*Antonio Gramsci (1891-1937). Cadernos do Cárcere, v.1. p. 103. Civilização Brasileira, 2006.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Acordo entre Mercosul e UE deve ser celebrado

Por O Globo

Em tempos turbulentos, ele representa uma vitória do multilateralismo e uma derrota do protecionismo

Num mundo fraturado pelo protecionismo, é uma resposta histórica corajosa o acordo entre Mercosul e União Europeia, cuja assinatura oficial está prevista para esta semana em Assunção, no Paraguai. Referendado na última sexta-feira pela UE, ele é o maior tratado comercial já firmado, reunindo um mercado com 721 milhões de consumidores e PIB de US$ 22,34 trilhões. O Brasil será sem dúvida um dos principais beneficiários, tanto pelas exportações quanto pelas importações. O acordo prova que, a despeito das medidas protecionistas que proliferam, livre-comércio e multilateralismo estão vivos — e ainda são o melhor caminho para o planeta.

As negociações se arrastavam desde 1999. Sofreram inúmeras reviravoltas devido à pressão de grupos protecionistas, em especial agricultores europeus (os protestos pela Europa mostram que ainda não desistiram). As tratativas ganharam fôlego depois do tarifaço de Donald Trump, que forçou os países prejudicados a buscar novos mercados e alianças estratégicas. Na Europa, a resistência que emperrava o acordo se tornou gradativamente minoritária. A assinatura estava prevista para dezembro, mas acabou adiada em meio às dúvidas da Itália, que exigia salvaguardas mais robustas para os agricultores. Os italianos cederam depois do ataque americano à Venezuela.

Perda de tempo. Por Merval Pereira

O Globo

O presidente dos Estados Unidos parece ter esquecido, ou não se dá conta, é de que sem uma democracia estabelecida é difícil, quase impossível, fazer negócios que exigem muitos investimentos de longo prazo.

Quando a criação do ministério da Segurança Pública volta a ser uma possibilidade, diante da crise de violência que assola o país, e o domínio do crime organizado torna-se uma ameaça explícita, vale a pena lembrar, e lamentar, que há mais de 20 anos essa mesma discussão dominava a política nacional. O então todo poderoso ministro Chefe do Gabinete Civil, José Dirceu, declarava sua vontade de ser nomeado o “czar antidrogas”, e numa manhã de novembro de 2003, em reunião com políticos, empresários e investidores em Campos de Jordão, deu um choque na plateia ao afirmar que se a América do Sul não se unisse no combate das drogas, os Estados Unidos poderiam invadir a Colômbia e, a partir dela, assumir o controle da Amazônia.

Lembrar é preciso. Por Bernardo Mello Franco

O Globo

Em livro, cientista político Leonardo Avritzer lembra tentativa de golpe e alerta para permanência do extremismo: “Democracia segue sendo um projeto contencioso”

A cada 15 anos, o Brasil esquece o que aconteceu nos últimos 15 anos. A frase foi cunhada por Ivan Lessa antes do surgimento da internet. Na era das redes sociais, há quem precise de apenas 15 minutos para perder a memória.

Na semana em que o 8 de Janeiro completou três anos, parte da elite dirigente fez uma opção pela amnésia. Os presidentes da Câmara e do Senado ignoraram a data. A oposição só se manifestou para pedir impunidade aos golpistas. No Supremo, o ministro Edson Fachin marcou um ato com exposição e rodas de debate. Dos dez juízes em atividade na Corte, foi o único a comparecer.

Relembrar os ataques à democracia brasileira é o mote de “O golpe bateu na trave”, do cientista político Leonardo Avritzer. Lançado no fim de 2025, o livro sustenta que a legalidade foi salva por pouco. E discute os fatores que mantêm o extremismo vivo entre nós.