quarta-feira, 19 de agosto de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Crise no varejo reflete ambiente hostil de juros altos

Por O Globo

Recuperação judicial de Casas Bahia e Marabraz expõe danos da irresponsabilidade fiscal do governo

No último fim de semana, o Grupo Casas Bahia e as Lojas Marabraz, dois dos nomes mais tradicionais do varejo brasileiro, entraram com pedido de recuperação judicial por não ter como arcar com o pagamento de dívidas. Há 986 varejistas na mesma situação, alta de 20,4% nos últimos 12 meses, de acordo com o monitor mantido pelas consultorias RGF e Bizdoc. Nos mais variados setores, há 9,1 milhões de empresas inadimplentes, com R$ 233 bilhões de dívidas em atraso, pelos números da Serasa Experian — recorde na série histórica iniciada em 2016. O pano de fundo da crise de endividamento é a economia com juros reais entre os maiores do mundo.

Bombas contra a ABI e a imprensa que a linha-dura não calou, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O que houve foi um atentado terrorista da linha-dura do regime militar, contra a liberdade de imprensa, e uma advertência a todos os que ousavam questionar aquela ditadura

Há 50 anos, a bomba que explodiu na sede da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), em 19 de agosto de 1976, não tinha como alvo apenas o icônico Edifício Herbert Moses, na Rua Araújo Porto Alegre, 71, no Centro do Rio de Janeiro, simbolo do Modernismo brasileiro. Construído entre 1936 e 1938, e projetado pelos Irmãos Roberto, é uma joia da nossa arquitetura, com funcionalidade e plantas livres, além de uma fachada com quebra-sóis em venezianas de concreto para barrar o sol forte e pilotis sem portaria fechada na entrada.

O que houve foi um atentado terrorista da linha-dura do regime militar contra a liberdade de imprensa e uma advertência a todos os que ousavam questionar aquela ditadura. A explosão atingiu o sétimo andar do prédio da ABI, próximo à presidência da entidade, danificando salas, elevadores e outros pavimentos. Não houve feridos, mas os prejuízos foram estimados em cerca de 1 milhão de cruzeiros. Em panfleto deixado no local, a autodenominada Aliança Anticomunista Brasileira assumiu a autoria e acusou a associação de estar dominada por comunistas.

O conservadorismo empático da classe C, por Renato Meirelles

O Globo

A tia que é contra o aborto e acolheu a sobrinha; não é uma teoria política nem uma plataforma de campanha: é algo que está diante de nós há muito tempo

Vou chamá-la de dona Neusa. Não é uma pessoa. É a soma de muitas mulheres que conheci em 25 anos tentando aprender com o Brasil da maioria.

Ela tem 54 anos, trabalha como auxiliar de cozinha na Zona Leste de São Paulo e frequenta a mesma Assembleia de Deus há décadas. É contra o aborto. Fala isso sem levantar a voz, como quem está dizendo uma coisa sobre a qual nunca teve muita dúvida.

Há dois anos, uma sobrinha de 19 anos apareceu na casa dela depois de ter feito um aborto. Dona Neusa não perguntou muito. Fez chá, emprestou uma calça de moletom, ficou acordada até tarde. A menina chorou. Talvez de medo, culpa, alívio, cansaço. Talvez de tudo isso junto. Dona Neusa não tentou dar nome ao choro. E não contou a ninguém. Nem à irmã. Nem ao pastor.

Marketing político em transe, por Vera Magalhães

O Globo

Crises em várias campanhas mostram impasse em relação a uso de redes, financiamento e impacto da IA

Depois de alguns ciclos eleitorais em que ocupou as manchetes pela relação com escândalos de corrupção, o marketing político volta a movimentar o noticiário às vésperas do início da propaganda eleitoral na TV e no rádio, mas por outra razão: o intenso entra e sai de profissionais em várias campanhas, inclusive presidenciais.

A última troca se deu com a saída do publicitário Paulo Vasconcelos do comando do marketing de Ronaldo Caiado (PSD), anunciada nesta semana. O mesmo movimento já aconteceu, e duas vezes, na cozinha de Flávio Bolsonaro. E as conversas de bastidores dão conta de intensa disputa, com bateção de cabeça, também no Q.G. da campanha de Lula.

Flávio toca um disco velho, por Elio Gaspari

O Globo

2026 não é 2018

Começou uma campanha eleitoral imprevisível e com cheiro de mofo. Lula foi a São Bernardo para relembrar as greves históricas de 1979, e Flávio Bolsonaro retomou o discurso errático de seu pai.

A imprevisibilidade começa quando, segundo a última pesquisa da Quaest, a percentagem de entrevistados que desaprovam o governo (48%) é superior à dos que aprovam (46%). Na realidade, esses números refletem um empate, e esse equilíbrio se repete na liderança de Lula num eventual segundo turno: 43% x 40%. As entrelinhas dessa pesquisa não permitem saber com precisão para onde vão as preferências dos outros candidatos num eventual segundo turno.

O cheiro de mofo vem da escolha de Lula para iniciar a campanha onde começou sua vida pública, há 47 anos. Cheira a mofo a essência do discurso de Flávio em Copacabana, ecoando as falas do pai.

Deus no palanque, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Presidenciáveis usaram e abusaram do nome dEle ao lançar camapanhas

Deus não vota, mas foi arrastado para o centro da corrida presidencial. No domingo que abriu a disputa, os principais candidatos ao Planalto usaram e abusaram do nome dEle. Buscavam atrair o eleitorado religioso, cada vez mais visado pelas campanhas.

Em comício na Vila Euclides, o presidente invocou Deus nada menos do que 11 vezes. “Sou muito agradecido porque Deus sempre foi muito generoso comigo. Deus fez vocês, e vocês fizeram o Lula ser o que ele é”, disse, falando de si mesmo na terceira pessoa.

Em ato na Praia de Copacabana, Flávio Bolsonaro tentou atribuir sua candidatura a um desígnio divino. “Estou aqui com toda a humildade, aceitando essa missão que o presidente Bolsonaro me passou, porque eu tenho a convicção de que há um propósito de Deus para o nosso país”, discursou.

As idades do cronista, por Roberto DaMatta

O Estado de S. Paulo

Em meio aos meus sofrimentos, não abandonei a seara da paz, da harmonia e da esperança

É maravilhado, surpreso e assustado que, pensante e andante, fui vestido por 90 anos no dia 29 do mês passado. Aliás, fui distinguido com uma foto na primeira página e entrevista neste jornal no qual escrevo desde 2001, o que tocou fundo o meu coração.

Aos 90, você não mais “faz”, “chega”, “completa” ou tem primaveras, pois são as primaveras que têm você. Viramos uma espécie de vivente além da conta, pois coisas velhas deveriam estar num porão, mas a vivência insiste em nos manter vivos. Ser um velho mantendo dentro de si um jovem e uma criança, um demônio e um anjo, um mortal e, quem sabe, o desejo amaldiçoado da imortalidade, é um paradoxo. Causa espanto e, nuns poucos, desolação. Na grande seara dos invejosos, chegar aos 90 falando, andando e pensando teimosamente feliz é, como dizia Tom Jobim, uma ofensa.

Adeus à pechincha na feira, por Fábio Alves

O Estado de S. Paulo

Movimento de queda nos preços dos alimentos deve perder força a partir deste mês

Aqueda nos preços dos alimentos em magnitude maior do que o mercado estimou nos meses de junho e julho foi um dos fatores que mais contribuíram para puxar para baixo a inflação corrente. Essa surpresa levou os investidores a precificar cortes de juros, endossando as últimas decisões do Copom, a despeito de expectativas inflacionárias de longo prazo ainda desancoradas e de elevadas incertezas nos cenários doméstico e externo.

Um pesadelo chamado Lulinha, por Vera Rosa

O Estado de S. Paulo

Os desdobramentos dos inquéritos envolvendo o empresário Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, preocupam cada vez mais o comando da campanha do presidente Lula à reeleição. A equipe petista não sabe o que está por vir e, para se desviar da crise, aposta no crescimento das denúncias contra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), principal adversário do presidente, a partir do dia 28, quando começa a propaganda no rádio e na TV.

Nos bastidores da campanha de Lula há um clima de constrangimento e apreensão. “É dolorido para nós”, disse à coluna um dos principais auxiliares do presidente, sob a condição de anonimato. O discurso oficial é que todos serão investigados, “doa a quem doer”. Mas, como na política a melhor defesa sempre parece ser o ataque, a cobrança do governo e do PT se volta agora para o ministro do STF André Mendonça.

Putin e Trump empurram mundo para a bomba, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Ações de dirigentes mudam cálculos de países acerca da conveniência de ter armas nucleares

Proliferação aumenta chances de episódios de estresse como a crise dos mísseis de 1962

Eu sou muito novinho, mas a geração de meus pais viveu dias de pânico em outubro de 1962, durante a crise dos mísseis em Cuba, quando a perspectiva de enfrentamento nuclear entre EUA e URSS não apenas era real como pôde ser acompanhada de perto por jornais e rádio. Eu e meus coetâneos fomos poupados daqueles momentos de tensão, mas ainda crescemos num mundo sobre o qual pairava a ameaça de holocausto atômico.

PT atrela futuro à saudade do passado, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Aposta no culto à personalidade leva à conclusão de que Lula seja o único ativo disponível aos petistas

Trajetória de luta e superação não oferece as respostas necessárias ao enfrentamento dos desafios do país

Luiz Inácio da Silva mais uma vez, e como sempre, cultuou a si no primeiro ato oficial de uma campanha em moto contínuo desde que a anterior oficialmente terminou, em outubro de 2022. Lula, sem dúvida, é o principal ativo do PT; a insistência na exaltação da figura alimenta a suspeita de que seja o único.

O partido se propõe a comandar o país pela sexta vez em 24 anos e o que lhe ocorre fazer para convencer o eleitorado a aderir ao plano é apresentar um muito bem montado e produzido show de sessão nostalgia.

Janones desafia a esquerda a abandonar a 'campanha fofa', por Wilson Gomes

Folha de S. Paulo

Deputado defende usar contra a direita as mesmas armas da guerra digital

Conflito nas redes podem mobilizar militantes, mas não necessariamente conquistar novos eleitores

André Janones anunciou no X que está de volta à linha de frente da campanha de Lula. Disse ter "aceitado a missão", publicou uma foto com o presidente e prometeu seguir a estratégia que, segundo ele, a esquerda precisa adotar para enfrentar a direita: abandonar a "campanha fofa" e entrar na guerra digital "sem medo, sem pudor e sem remorso".

Tudo isso, porém, compõe até agora um roteiro apresentado pelo próprio Janones nas redes. A campanha de Lula não confirmou publicamente que o deputado tenha sido incorporado à sua estratégia eleitoral.

O roteiro vem sendo escrito há semanas. Primeiro, Janones anunciou que a meta deveria ser o "extermínio completo do bolsonarismo" e declarou-se pronto para "matar ou morrer". Depois, acusou seu campo de "treinar fofo", enquanto os bolsonaristas já estariam dominando as narrativas e o engajamento.

O Brasil da castração química não quer saber do diesel caro ou dos juros nos EUA, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Custo do dinheiro sobe nas economias do centro do mundo e isso deveria nos interessar

Preço do diesel em alta no mercado americano é mais uma febre que pode nos afetar

Em uma semana, o Brasil deve estar discutindo ideias brilhantes como castração química, "prendeu, matou", a lotação de prisões com adolescentes para alimentar tropas do PCC ou as maneiras pelas quais o governo federal vai impedir roubo de celular aí na sua calçada.

Vai começar a campanha eleitoral na TV; vai aumentar a torrente de mentiras e burrice nos grupos de zap e outras mídias atrozes. Ou melhor, apenas talvez as pessoas se ocupem disso já na semana que vem. Segundo marqueteiros políticos, está grande o desânimo de "nós, o povo", com a eleição.

Poesia | Horas de Saudade, de Castro Alves

 

Música | Elizeth Cardoso e Pery Ribeiro - Samba em Prelúdio (Baden Powell e Vinicius de Moraes)

 

terça-feira, 18 de agosto de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Descoberta na Margem Equatorial é promissora

Por O Globo

Indícios de petróleo são apenas passo inicial. Ibama deve acelerar licenças para pesquisa em novos poços

A descoberta de hidrocarbonetos em poço exploratório na Bacia da Foz do Amazonas significa que há indícios de petróleo ou gás natural numa região que pode vir a ser a nova fronteira petrolífera do país, a Margem Equatorial. Por enquanto, porém, são apenas indícios. É fundamental que a Petrobras continue o trabalho de pesquisa para investigar a extensão da descoberta e se a exploração é viável economicamente. Qualquer decisão depende dessa análise.

O anúncio acontece dez meses depois de o Ibama ter concedido licença para a estatal perfurar o primeiro poço, em meio a debates sobre impactos na fauna, na flora e nos povos da floresta. A área de prospecção fica a 175 quilômetros da costa do Amapá, numa profundidade de 2.886 metros. A Petrobras aguarda autorização do órgão ambiental para perfurar outros três poços. “Não vejo razão para negar a licença”, diz a presidente da estatal, Magda Chambriard.

Por que juros extorsivos e metas irrealistas destroem o Brasil sem baixar a inflação, por José Luís Oreiro*

Correio Braziliense

Essa narrativa, embalada por jargões técnicos para impressionar o leigo, tenta convencer a opinião pública de que o remédio amargo dos juros reais mais altos do mundo é a única alternativa para conter os preços

Tornou-se um dogma quase religioso entre analistas e economistas ligados ao sistema financeiro a tese de que a desaceleração da atividade econômica é um "efeito desejado" do aperto monetário e que o Banco Central precisa manter a taxa de juros nas alturas para "reconstruir sua credibilidade". Essa narrativa, embalada por jargões técnicos para impressionar o leigo, tenta convencer a opinião pública de que o remédio amargo dos juros reais mais altos do mundo é a única alternativa para conter os preços. Trata-se, contudo, de um diagnóstico profundamente equivocado, que confunde a doença com o remédio e sacrifica o desenvolvimento nacional no altar do rentismo.

O vício de origem desse arranjo reside na fixação de uma meta de inflação em 3% ao ano. Nos últimos 27 anos de vigência do sistema de metas no Brasil, a média histórica do IPCA acumulado em 12 meses situou-se acima de 5,5%. Essa diferença não é mero detalhe estatístico: reflete a realidade de uma economia dotada de forte memória inflacionária e mecanismos arraigados de indexação formal e informal.

Vila Euclides, São Januário e Pacaembu, palcos da história política do Brasil, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Os maiores comícios foram os das Diretas Já, que empolgaram o país, mas nem por isso garantiram a aprovação da Emenda Dante de Oliveira. A ditadura caiu no Colégio Eleitoral, com eleição indireta de Tancredo Neves

O primeiro comício a que assisti foi o da Central do Brasil, realizado em 13 de março de 1964, na Praça da República, no Rio de Janeiro, que reuniu entre 150 mil e 200 mil pessoas. O presidente João Goulart (Jango) e Leonel Brizola lideraram o evento para defender as reformas de base e pressionar o Congresso.

Era apenas um menino, levado pelos pais ao ato político no qual Jango anunciou que faria reformas por decreto, entre as quais a agrária. Carrego poucas recordações de criança: pessoas no teto das plataformas de bonde, penduradas nos postes e nas árvores; eu sobre os ombros de meu pai. Aquele comício era um “apelo às massas” para que apoiassem Jango. Talvez seja o mais famoso da nossa história política porque, semanas depois, houve o golpe militar de 1964.

Os maiores foram os das Diretas Já, que empolgaram o país, mas nem por isso garantiram a aprovação da Emenda Dante de Oliveira. A ditadura caiu no Colégio Eleitoral, com a eleição de Tancredo Neves, cuja campanha também promoveu grandes comícios. Tão grandes que, em determinado momento, o velho pessedista resolveu suspendê-los, porque temia perder o controle do povo nas ruas. Dois outros são históricos: o de Getúlio Vargas, em São Januário, e o de Luiz Carlos Prestes, no Pacaembu.

Lula e Flávio traçam rotas opostas, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Presidente apela à memória do eleitor e senador, à tecla do antipetismo

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro partem quase empatados e se assim continuarem daqui a 45 dias não é porque terão seguido a mesma rota. Aquelas traçadas no lançamento de suas campanhas foram opostas.

A embalagem era passadista, do nome com que foi batizado - “Onde tudo começou”-, às camisetas dos velhos companheiros, “ó nóis (sic) aqui outra vez” -, mas o candidato à reeleição, desta vez, tinha foco. Não foi apenas na duração, cortada pela metade, que o discurso se diferenciou do emaranhado de ideias da convenção do PT.

Como Trump revitaliza a democracia, por Jan-Werner Mueller*

Valor Econômico

Testemunhamos um efeito global inesperado do trumpismo: um governo que se alia ao governo mais corrupto da história dos EUA corre o risco de abrir espaço para que adversários internos se levantem contra ele

Na capital da Albânia, os recepcionistas dos hotéis fazem questão de ressaltar que os protestos em andamento do lado de fora são totalmente pacíficos. Aparentemente, houve um número considerável de cancelamento de reservas desde que as manifestações em massa começaram no segundo trimestre. Mas, se perguntados diretamente, eles podem insinuar discretamente que veem com bons olhos a participação de turistas nos protestos. Todas as noites, pessoas de todas as idades se reúnem diante do escritório do primeiro-ministro Edi Rama para denunciar a corrupção e exigir sua renúncia.

A chamada “Revolução dos Flamingos” foi deflagrada por um acordo que muitos consideram questionável entre o governo albanês e Jared Kushner, genro do presidente americano Donald Trump. Assim, estamos testemunhando um efeito global inesperado do trumpismo: um governo que se alia ao governo mais corrupto da história dos Estados Unidos corre o risco de abrir espaço para que adversários internos se levantem contra ele.

Caminhos tortuosos, por Merval Pereira

O Globo

É inacreditável que um ministro do STF possa servir de mediador de um encontro político.

O presidente da República visitou o Amapá para ver de perto o local onde a Petrobras descobriu indícios de petróleo na Foz do Rio Amazonas. A seu lado, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, que até há poucos dias estava rompido com Lula, mas se acertou com ele após um encontro de reconciliação promovido pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes. Mas, advertem seus assessores, fez a viagem não na qualidade de candidato à reeleição, mas com o chapéu (literalmente) de presidente.

Na estação das escolhas, por Míriam Leitão

O Globo

É fundamental lutar contra o desalento das generalizações indevidas. Há pessoas que querem sinceramente servir ao país 

Todos os políticos devem estar sob o mesmo escrutínio popular, eles representarão o país inteiro e, por isso, têm contas a prestar. Porém, não se pode tratar todo mundo com a mesma desconfiança. Há uma convicção disseminada de que eles e elas estão nesse caminho para ter vantagem pessoal. Esse sentimento difuso não surgiu à toa. Veio na esteira dos inúmeros escândalos políticos, das desculpas esfarrapadas dadas por muitos, e das imagens dos dinheiros em caixas, malas, bolsas, cofres, cuecas. No país das altas taxas de juros, nenhum dinheiro guardado em casa, em grande quantidade, parecerá inocente. No banco estaria rendendo.

Quando as máquinas falham, por Fernando Gabeira

O Globo

Reflexões não são uma oposição ao desenvolvimento tecnológico. Ele deveria obedecer às necessidades humanas e sociais de segurança

A morte da menina de 13 anos numa transmissão ao vivo na plataforma Discord trouxe um grande e importante debate. Apesar de tantas intervenções esclarecedoras, fiquei com muitas dúvidas.

O Discord comunicou ao governo que suas máquinas de aprendizagem detectaram o problema, mas foram incapazes de mensurar sua gravidade e acionar o alarme. Na verdade, quem parece ter acionado o alarme foi a vigilância humana de um núcleo digital da Polícia Civil de São Paulo.

De quem é o poder da IA? Por Pedro Doria

O Globo

Mark Zuckerberg propõe que a solução é colocar inteligências artificiais poderosas nas mãos de todo mundo

Mark Zuckerberg soltou, na semana passada, um manifesto para tratar de inteligência artificial. A esta altura, deve ser o quinto ou sexto ensaio ou manifesto que algum figurão do Vale do Silício divulga para tratar do tema. Há um aspecto nisso que passa pelo encontro do marketing e da antropologia — o Vale passou a se comunicar com o mundo por ensaios e manifestos, como costumam fazer os movimentos políticos. Mas, no caso de Zuck, há algo de diferente. É, incrivelmente, um manifesto com um tom liberal que não se ouve faz tempo vindo daquele canto da Califórnia.

O risco Trump, hoje e amanhã, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Com Trump e bandeira americana, Flávio Bolsonaro ameaça o Brasil com outro tipo de golpe

Os Estados Unidos e o presidente Donald Trump estão no centro da campanha eleitoral do Brasil e isso não vai parar, só piorar, com o presidente Lula usando a “soberania nacional” como sua principal bandeira e o senador Flávio Bolsonaro trocando o slogan de “Pátria e Família” por imensas bandeiras americanas nos seus palanques.

Esse contraste pode ser mais um erro de Flávio, um novo tiro no pé, num momento em que Trump e seu franco-atirador Marco Rubio aumentam a pressão e acrescentam ameaças ao Brasil após os tarifaços que causam prejuízos à economia, aos negócios, a empregadores e empregados do Brasil. O que o eleitor independente acha disso?

O vício alcolúmbrico, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Davi Alcolumbre preside o Senado desde 2019, considerados os anos em que teve Rodrigo Pacheco por fachada, período em que dirigiu a Casa a partir da Comissão de Constituição e Justiça. Entre aquele 19 e este 26, o imperador do Congresso movimentaria mais de R$ 1,2 bilhão em emendas parlamentares para o Amapá, Estado de cujo governo tem o guidão. Imperador do Congresso porque um dos controladores-distribuidores dos dinheiros do orçamento secreto, ferramenta autoritária – fundo eleitoral paralelo – por meio da qual exerce poder e impõe desequilíbrios. Não será auspicioso lhe ter como inimigo. É um querido. Irresistível.

Esforço concentrado é clichê de pura enganação, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Recessos informais são tratados como se fosse natural congressistas serem pagos para gazetear

Convocações extras do Parlamento não compensam as folgas em campanhas, festas juninas e feriados

Congresso Nacional foi chamado a um esforço concentrado na semana passada e, como de hábito, se resumiu à jornada 3x4, com muito de concentrado e pouco de esforço. Há nova convocação para a primeira semana de setembro, cuja expectativa é a de que siga o mesmo ritmo.

Esses períodos de recesso informal em épocas de eleição são tratados como se fosse a coisa mais natural do mundo parlamentares serem pagos para se ausentar enquanto cuidam das próprias sobrevivências eleitorais, ao duplo custo do financiamento público das campanhas. Triplo, considerado o papel das emendas no incremento das despesas.

Com a Bíblia aberta, Eduardo Paes mira primeiro turno, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Parque Terra Prometida é um mimo milionário aos eleitores evangélicos

Ex-prefeito inaugura campanha oficial favorecido pelo isolamento do grupo bolsonarista

Em 2024, ao ser eleito prefeito do Rio pela quarta vez, Eduardo Paes disse que iria concluir o mandato, mas não descartava a candidatura ao governo estadual dali a dois anos. Uma mágica simples: seu pupilo Eduardo Cavaliere assumiria; na prática, ele continuaria no cargo, tendo a máquina municipal a seu dispor.

Em 2018, encaixotado pela onda bolsonarista, Paes perdeu a eleição estadual para Wilson "Atirar na Cabecinha" Witzel em cima do laço, depois de liderar as pesquisas durante toda a campanha. O Palácio Guanabara nunca mais lhe saiu da cabeça.

Poesia | Dorme que a vida é nada, de Fernando Pessoa

 

Música | Mulheres de Atenas, Chico Buarque

 

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Fim de moratória da soja representa retrocesso ambiental

Por O Globo

Decisão do STF validou as leis estaduais que, na prática, sepultam pacto para reduzir o desmatamento

Foi frustrante a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que julgou válidas leis dos estados de Mato Grosso e Rondônia contrárias à moratória da soja, o acordo que veta a compra de safras colhidas em áreas desmatadas da Amazônia a partir de julho de 2008. A legislação dos dois estados por onde se expande a fronteira agrícola proíbe a concessão de benefícios fiscais a empresas participantes de pactos privados que criam restrições à produção agropecuária — e é apontada como responsável por esvaziar a moratória.

A decisão do STF foi contraditória. De um lado, a Corte afirmou que a moratória da soja, que vinha sendo questionada em diversas ações, é constitucional. Os ministros determinaram que juízes e autoridades de todo o país, inclusive do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), encerrem todas as ações decorrentes da moratória. Mas reconhecer a legitimidade a esta altura significa pouco ou nada, uma vez que o pacto, firmado em 2006, não existe mais. Nenhuma empresa quer mais participar do acordo por temer perder benefícios fiscais nos estados.

Assista ao discurso de Lula no evento de lançamento de sua campanha presidencial

 

Petista usa comparação com Bolsonaro para responder por futuro, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Campanha do PT coloca como estratégia central a comparação de indicadores das gestões Lula e Bolsonaro para desconstruir Flávio

A cobrança por sinalizações de futuro sobre a campanha do PT deverá vir por meio de comparações entre as entregas do atual governo e aquele que o antecedeu. Foi isso que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sinalizou, ao lançar sua campanha no estádio da Vila Euclides, em São Bernardo do Campo (SP), no domingo (16), num tom de quem se cansa com a cobrança: “Eu vou dizer pra vocês o que é pensar no futuro”.

Saiu, então, comparando indicadores da redução da evasão escolar do ensino médio, enumerando indicadores que, na redução da evasão escolar no ensino médio, inflação, desemprego, geração de postos de trabalho, investimentos públicos, crédito para a indústria e crescimento da economia.

É por aí que a demanda da militância por desconstrução da candidatura de seu principal opositor, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), deve vir. Quando dirigentes petistas falam em “tocar o terror” na campanha do PL, é o apelo, junto ao eleitor, contra a volta ao passado, que enfatizam. A ausência de menções a escândalos como o Master sugere que a desconstrução virá mais da comparação do que pela exploração da corrupção.

A eleição será decidida pelos endividados, por Bruno Carazza

Valor Econômico

Candidatos precisam apresentar propostas para 50% da população que está com nome sujo na praça

Entre vários números preocupantes da economia brasileira, um deles é dramático: o país tem 83,9 milhões de pessoas negativadas no Serasa. Isso significa 51% dos CPFs ativos atualmente. E, à exceção dos menores de 18 anos e dos maiores de 70, a maioria desses endividados vai votar em outubro. São eles que decidirão quem subirá a rampa do Palácio do Planalto em 5 de janeiro de 2027.

Nas eleições americanas de 1992, o consultor político James Carville deu um conselho ao jovem democrata Bill Clinton, que desafiava George H. Bush em sua tentativa de reeleição: “É a economia, estúpido”.

A mensagem, escrita em letras garrafais num cartaz pregado na parede do comitê de campanha em Little Rock, Arkansas, lembrava ao candidato que ele deveria sempre destacar os efeitos da recessão sobre a população durante entrevistas e debates. A tática deu certo. Clinton derrotou Bush e desde então o mote vem sendo repetido a cada pleito, em qualquer lugar do mundo.

Para Rubio, América Latina é o quintal dos EUA, por Demétrio Magnoli

O Globo

O alinhamento dos novos líderes da região à Casa Branca isola regionalmente o Brasil

‘A Doutrina Monroe moldou a política externa dos Estados Unidos por mais de dois séculos. O domínio americano no Hemisfério Ocidental nunca mais será questionado.’ A legenda do vídeo divulgado há uma semana pelo Departamento de Estado incorre num erro histórico e escolhe uma palavra-chave ausente da doutrina original. Assinala, porém, em meio à desordem estratégica do governo Trump, uma nítida prioridade.

O presidente James Monroe delineou o conceito no discurso do Estado da União do final de 1823. A doutrina ganhou uma versão imperial com o Corolário Roosevelt (1904). Finalmente, tornou-se secundária com a Doutrina Truman (1947), que “moldou” a estratégia dos Estados Unidos do Pós-Guerra, baseando-a na aliança com a Europa Ocidental. O vídeo erra de propósito: na hora em que Trump abandona o compromisso com a proteção da Europa, inventa-se uma narrativa em que desaparece a Guerra Fria.

'Sósia' de Alexandre de Moraes circula entre vips em comício de Flávio Bolsonaro, por Bernardo Mello Franco

O Globo

De toga e fraldão, candidato a deputado posou para selfies em área reservada de comício do PL em Copacabana

Um 'sósia' de Alexandre de Moraes chamou a atenção no comício que abriu a campanha presidencial de Flávio Bolsonaro neste domingo, no Rio.

De gravata e toga semelhante à dos ministros do Supremo, Julio Sergio Carneiro Marques, o Julinho Dborais, circulou na área reservada do ato do PL em Copacabana.

Foi assediado por bolsonaristas, posou para selfies e puxou assunto com figurões da direita como o senador Rogério Marinho, coordenador da campanha de Flávio.

Julinho é candidato a deputado federal pelo Partido Novo. Usa um lema inusitado: "Não vote em ladrão, vote no doidão".

Filantropia brasileira enfrenta desafio, por Preto Zezé

O Globo

Quando o recurso chega à ponta, vem preso a rubricas que não pagam gestão nem quem mantém a luz acesa

Participei, na quarta-feira passada, em São Paulo, de um encontro do Think Tank do Bem, a convite de Elie Horn e Aron Zylberman. Desde 2024, o grupo estimula empresários a doar, iniciativa louvável num país com tamanha concentração de renda. Saí de lá com uma inquietação: todo mundo falava de financiamento e quase ninguém falava de território.

Quando falo em território, muita gente entende endereço, pedaço de chão, mancha no mapa. Não é disso que falo. Território é inteligência. É gente que administra crise todo dia sem ter feito curso de gestão, resolve conflito sem chamar mediador, pega o estigma e devolve carisma, trabalha na escassez e, ainda assim, produz abundância, com um saber que não veio dos bancos da universidade e resolve, no cotidiano, o que a teoria não resolveu. Governança territorial é essa inteligência viva dirigindo o que se faz naquele lugar.

O STF fora da lei, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

O jornalismo que as democracias protegem é aquele das notícias que incomodam os poderosos, do setor público ou privado

“Jornalismo é imprimir aquilo que alguém não quer ver impresso. Tudo o mais é relações públicas.”

É preciso atualizar a frase conhecida nas redações. O jornalismo foi muito além do jornal impresso. Mas a prática continua a mesma: apurar e publicar informações. É verdade que há notícias boas, de que todo mundo quer saber. Por exemplo: a chegada ao mercado das injeções emagrecedoras. Nesses casos, quase não é preciso apurar. O dono dos medicamentos quer divulgá-los, e o público espera ansioso. Publicar isso é quase “relações públicas”.

O jornalismo que as democracias protegem — pelo qual o público mais se interessa — é outro, aquele das notícias que incomodam os poderosos, sejam do setor público ou do privado. Ou ainda de uma junção das duas esferas, como o uso de dinheiro público para lucro privado.

Centrão sendo Centrão, por Carlos Pereira

O Estado de S. Paulo

Não escolher um lado é estratégia para continuar relevante depois da eleição

A decisão da União Progressista e do Republicanos de permanecerem neutros na eleição presidencial – e em boa parte das disputas estaduais – parece confirmar uma velha máxima da política brasileira: Centrão sendo Centrão. Mas por que o Centrão se comporta assim? A explicação usual aponta para pragmatismo, fisiologismo ou falta de identidade programática. Há, porém, uma interpretação menos normativa. Em presidencialismos multipartidários, partidos podem seguir duas trajetórias distintas para conquistar poder.

A primeira é majoritária: lançar um candidato competitivo à Presidência e tentar controlar diretamente o Executivo. É uma estratégia de alto risco e alto retorno. Quem vence fica com o maior prêmio. Quem perde pode passar quatro anos amargando a oposição. É a estratégia historicamente seguida por partidos como PT e, durante muitos anos, PSDB. Mais recentemente, o PL passou a ocupar esse espaço à direita.

Mar de lama ou instituições funcionando? Por Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

Cada operação da PF conta duas histórias: a da expansão do crime organizado e a da resistência das instituições

Tensões entre direção da Polícia Federal e o relator do escândalo do INSS no STF são reveladoras

A profusão de operações policiais no país produz simultaneamente uma crise de confiança e uma demonstração de capacidade institucional. Quanto mais o sistema de controle funciona, mais corrupção se torna visível; quanto mais corrupção se torna visível, mais a sociedade pode concluir que o sistema inteiro está apodrecido.