quarta-feira, 1 de abril de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

República do Supremo que pode tudo

Por Folha de S. Paulo

Regime em que ministros atingem qualquer tema sem provocação nem distanciamento precisa de correção

Contrapeso do colegiado esbarrou no corporativismo quando dois de seus membros passaram a ter condutas questionadas no caso Master

Para um ministro do Supremo Tribunal Federal, tudo. Para os demais cidadãos, a lei —tal como amplamente interpretada por um ministro do Supremo. Cristaliza-se no Brasil um regime anômalo de prevalência de dez indivíduos sobre o restante da sociedade.

Como se vê pelas decisões de Alexandre de Moraes, a latitude de um juiz da corte quando os seus próprios interesses estão em jogo é máxima. Fulmina-se a regra que exige do magistrado afastamento de casos em que ele conste como vítima potencial.

Lula tenta apagar fogo com caneca, por Vera Magalhães

O Globo

Tentar melhorar popularidade do presidente com anúncios pontuais ignora o fato de que razões para rejeição ao petista são mais cristalizadas

O balanço feito por Lula na reunião ministerial “saideira” de boa parte do time titular dos ministérios evidenciou a preocupação com o ponteiro da popularidade, que, depois de mais de um ano na mudança na diretriz da comunicação do governo, voltou a indicar o tanque vazio.

Acontece que nem o problema de fundo do petista e de sua gestão reside na comunicação, nem as medidas pontuais anunciadas ou em gestação no Planalto parecem eficazes para mudar a pior notícia trazida pelas recentes pesquisas ao presidente: a maioria dos eleitores considera pior reelegê-lo do que trazer de volta ao comando do país alguém da família Bolsonaro. A determinação de Lula de passar a traçar comparações entre seu governo e o de Jair Bolsonaro visa a atacar justamente essa percepção, que, se persistir, põe em xeque a viabilidade de um quarto mandato.

O rei do gado, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Caiado promete indulto a Bolsonaro, mas quer disputar rebanho que já tem dono

Gilberto Kassab apresentou seu novo candidato ao Planalto. É Ronaldo Caiado, o patriarca da direita ruralista. O escolhido já tem experiência em eleições presidenciais. Terminou a de 1989 em décimo lugar, com 0,7% dos votos.

Ao se lançar na disputa, Caiado anunciou que seu primeiro ato no poder seria um indulto a Jair Bolsonaro. No mesmo discurso, prometeu “desativar a polarização”.

Difícil entender como uma coisa levaria à outra. A história mostra que dar impunidade a golpistas não pacifica o país. Ao contrário: aprofunda divisões e serve de incentivo para novas tentativas de ruptura.

Caiado entrou na disputa, por Elio Gaspari

O Globo

Ao oferecer a anistia para os condenados pela trama golpista de 2022-2023, Ronaldo Caiado saltou atrás das linhas de Flávio Bolsonaro. É lá que estão os votos capazes de viabilizar uma terceira via. Os próximos meses dirão se esse caminho existe. Coberto de razão, o atual governador de Goiás disse que “você só alimenta um projeto político da polarização quando você se beneficia dele”.

Com 88% de aprovação em seu estado e fala mansa, Caiado é uma esperança para quem não quer Lula ou um Bolsonaro no Palácio do Planalto. Pelas pesquisas, ele patina com um só dígito. Faltam seis meses para a eleição, e nada impede que tente chegar ao segundo turno. Afinal, ao seu lado está o clarividente Gilberto Kassab.

Caiado critica o PT, mas seu alvo é Flávio Bolsonaro. Oferece um passado de democrata, gestor com militância conservadora e mais de 80% de aprovação.

A onda que o Supremo consegue antever, por Fernando Exman

Valor Econômico

Alguns integrantes do STF se arriscam a dizer que o que se avista no horizonte pode ser um tsunami

Do alto do anexo do edifício-sede do Supremo Tribunal Federal, onde estão instalados os gabinetes dos ministros do STF, é fácil perceber para onde vão os ventos da política e se eles estão formando alguma onda.

Na natureza, a mecânica é conhecida. Quando o vento sopra, exerce um atrito na superfície do mar que transfere energia para as partículas de água. Pequenas ondulações se formam, as quais crescem e viram ondas maiores de acordo com a força e a constância do vento, até que o mar fica raso. A parte de baixo da água desacelera, e a de cima continua rápida. Como resultado, a onda fica instável e “quebra”, fazendo a alegria dos surfistas e gerando pavor entre os que não sabem nadar.

Alckmin deu upgrade ao Mdic na hora certa, por Lu Aiko Otta

Valor Econômico

Atuação como ministro é alvo de elogios de representantes do empresariado

O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) viveu nos últimos três anos e três meses um período de destaque inédito, enquanto esteve comandado pelo vice-presidente Geraldo Alckmin.

Primeiro, pela natureza da pasta. Ela está fora do núcleo duro da estrutura do governo federal - tanto que já foi extinta e rebaixada a secretaria duas vezes desde a redemocratização, em 1990 e em 2018. Por essa condição, só tem sucesso em suas agendas quando o ministro é influente no Palácio do Planalto. Foi o caso.

Segundo, por causa do tarifaço de Donald Trump. O interesse da população foi tamanho que Alckmin esteve no programa de Ana Maria Braga, na TV Globo, para explicar o que estava acontecendo. A reação diante da crise rendeu ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva o melhor momento de popularidade no atual mandato.

Na luta pela sobrevivência, vice jogou parado, por César Felício

Valor Econômico

Pressões para que Alckmin disputasse em São Paulo começaram ainda em 2023

No dia 5 de fevereiro, em entrevista ao portal UOL, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva expôs à luz do dia uma articulação que se processava nos bastidores praticamente desde o início do seu governo. Colocou em dúvida a permanência do vice-presidente Geraldo Alckmin na chapa, afirmando que ele e o então ministro da Fazenda, Fernando Haddad, “tinham um papel a cumprir em São Paulo”. Hoje, na reunião ministerial que formalizou a saída de parte da equipe para concorrer às eleições, Lula confirmou a manutenção de Alckmin na chapa. Foi a volta do que não foi. O que mudou?

Lula confirma Alckmin na vice. Leite não decide o rumo, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O governador gaúcho, que foi preterido por Gilberto Kassab, está recebendo convites para disputar a Presidência por outros partidos, como o PSDB-Cidadania e o Solidariedade

O tabuleiro das eleições presidenciais está quase armado. Ontem, em reunião ministerial, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou que o vice-presidente Geraldo Alckimin (PSB), que deixa o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, será mesmo seu companheiro de chapa. Até agora, 14 ministros estão deixando o cargo para disputar as eleições — mais quatro poderão seguir o mesmo caminho.

Com isso, a cena eleitoral da disputa pelo Palácio do Planalto está quase definida. A incógnita é a decisão do governador gaúcho Eduardo Leite (PSD), que foi preterido por Gilberto Kassab, presidente da legenda, e está recebendo convites para disputar a eleição por outros partidos, como o Cidadania e o Solidariedade. O mais provável, por ora, é que conclua o mandato e tente fazer o sucessor.

Minas Gerais, o pêndulo da campanha de 2026, por Gaudêncio Torquato

O Estado de S. Paulo

O ponto central é reconhecer que Minas funciona como síntese porque abriga, numa mesma unidade, vários ‘Brasis’ convivendo lado a lado

Minas Gerais, terra das grandes “raposas” da sapiência política (José Maria Alckmin, Gustavo Capanema, Juscelino Kubitschek e Tancredo Neves, entre outros), voltará a ser, em 4 de outubro de 2026, o maior “termômetro” da eleição presidencial. Não é superstição: é estatística, geografia humana e política comparada. O Estado reúne cerca de 16,5 milhões de eleitoras e eleitores – o segundo maior colégio eleitoral do País, atrás apenas de São Paulo – e, por tamanho e capilaridade, impõe uma realidade simples: quem quer vencer no Brasil precisa competir de verdade em Minas.

Alckmin fica, apesar do PT, por Vera Rosa

O Estado de S. Paulo

A decisão do presidente Lula de manter a dobradinha com o vice Geraldo Alckmin (PSB) na chapa da reeleição foi um sinal importante para o eleitorado mais conservador em uma disputa polarizada como a que ocorrerá em outubro. Afinal, Alckmin vinha sendo “bombardeado” por uma ala do PT, sob a alegação de que era preciso ampliar a aliança para a centro-direita. Mas, quem diria, acabou defendido pela velha-guarda petista que antes o esnobava.

O ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, por exemplo, chegou a afirmar que tirar o ex-governador da chapa significava pôr em risco a reeleição de Lula. O próprio presidente, porém, ficou em dúvida e Alckmin foi sendo “empurrado” de lá para cá na montagem dos palanques.

O mundo é um corpo? Por Roberto DaMatta*

O Estado de S. Paulo

Cada especialista em Brasil apontou alguma ausência: faltaram pureza racial, um colonizador mais avançado, partidos políticos com valores definidos. Talvez fosse melhor falar do que temos de sobra, como hipocrisia e carisma na sua forma mais degradante: o populismo e uma incurável parcialidade. Entre nós, ignorar a lei e o bom senso é sinal de importância social.

Nosso modo de encarar esse dilema segue um inabalável legalismo. Criamos regras acreditando que um confuso aparelhamento burocrático soluciona problemas de costumes, tal como Donald Trump acredita que seus desmesurados portaaviões agenciem a rendição do Irã. É a velha ilusão de que foguetes e drones resolvem guerras, destruindo muito e perdendo pouco, pois temos a maior força militar do planeta. Um planeta, aliás, que deixou de ser vivido em sincronia com a natureza.

Entre perdas e danos, por Fábio Alves

O Estado de S. Paulo

Os ativos financeiros de Brasil e Colômbia perderam menos que os de outros países com a guerra

Após um mês inteiro de conflito no Oriente Médio, o Brasil e a Colômbia estão entre os países emergentes que apresentaram o melhor desempenho de seus ativos financeiros – perdas menores das Bolsas de Valores e das moedas – em meio à turbulência geopolítica mundial, que levou à disparada nos preços do petróleo e à valorização do dólar, para onde correram os investidores globais em busca de refúgio.

Caiado terá de bater muito em Bolsonaro filho para não ser assistente de palco do show da direita, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Candidato do PSD tem de disputar voto da direita braba e não tem base política digital

Político goiano também não terá apoio de seu partido na maior parte dos estados

Na falta de notícias políticas que não sejam caso de polícia, o lançamento de Ronaldo Caiado a presidente pelo PSD teve alguma atenção do público, pelo menos de quem se ocupa um pouco de política. Foi bem pouco mesmo, dizem aqueles que medem interesses populares nas redes.

Mas qual papel Caiado pode ter em 2026? O governador de Goiás tem uns 4% nas pesquisas. Pode ser candidato a descer a 1% ou a fazer figuração maior —isso quando o povo prestar atenção à eleição, bem depois da metade do ano. Sua campanha terá de lidar com situações incontornáveis: 1) O grosso dos votos que pode virar estão na direita e na extrema direita; 2) Não terá apoio da maioria folgada de seu partido; 3) Para aliviar tais limitações, Caiado teria de se tornar uma estrela da política digital, empurrado por militância experiente e conectada com humores e odores desse ambiente —não deve acontecer, né.

Flávio Bolsonaro segue os passos do pai e planta sementes da desconfiança eleitoral, por Ana Luiza Albuquerque

Folha de S. Paulo

Em discurso na maior conferência conservadora dos EUA, senador pediu 'pressão diplomática' para eleições livres e justas no Brasil

Assim como Jair Bolsonaro em 2018, pré-candidato à Presidência disse que vencerá se os votos forem contados corretamente

Para os que ainda têm fé no bolsonarismo moderado, é recomendável assistir ao discurso do senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à Presidência, na Cpac, a maior conferência conservadora dos Estados Unidos.

No fim de semana, em Dallas (Texas), Flávio seguiu à risca a cartilha do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), disseminando teorias conspiratórias, colocando em xeque a lisura do processo eleitoral brasileiro e vestindo a roupagem do populismo autoritário e antissistema que assola democracias ao redor do mundo.

O discurso contrasta com a imagem de moderação que a pré-campanha do senador tenta construir, em busca do eleitorado independente que será o fiel da balança de uma acirrada disputa eleitoral contra o presidente Lula (PT).

O complô selenita, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Datafolha mostra que 34% dos brasileiros não acreditam que homem pisou na Lua

Embora mais instruídos, americanos também creem em seu quinhão de bobagens

Deu no Datafolha que 34% dos brasileiros não acreditam que o homem já pisou na Lua. Não é algo que devesse ser colocado em dúvida. O esforço científico para levar astronautas ao satélite natural da Terra e trazê-los de volta está fartamente documentado.

O primeiro passeio de Neil Armstrong em território selenita foi transmitido ao vivo pela TV em 1969 e testemunhado por milhões de terráqueos. Para ser cético em relação à conquista da Lua é preciso ter fé cega em conspirações secretas.

Para o PSD, o inimigo agora é Flávio, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Ronaldo Caiado deixou muito claro que a ideia inicial é avançar no eleitorado da família Bolsonaro

Eduardo Leite daria um colorido de centro à candidatura, mas não conseguiria ocupar a vaga da direita no 2º turno

Na escolha de Ronaldo Caiado em detrimento de Eduardo Leite, o PSD deixou claro seu plano, ao menos na linha inicial: avançar no eleitorado de Flávio Bolsonaro (PL) para tentar uma vaga no segundo turno.

Ou seja, investir em 2026 e não na construção de possibilidade para 2030. Assim seria se a opção tivesse sido pelo governador gaúcho, hipótese preferida pela ala de centro com plumagem tucana que orbita em torno do projeto alternativo, hoje tendo como referência Gilberto Kassab, mas sem garantia de efeito duradouro.

O Congresso fatura com a indignação moral, por Wilson Gomes

Folha de S. Paulo

Legislativo federal passou a operar sob a lógica das redes

A encenação de superioridade moral se impõe sobre a deliberação racional e pragmática

A política brasileira atravessa um processo de transformação que, apesar de barulhento e exaustivo, pode passar despercebido. Não se trata apenas da radicalização do debate público nem da intensificação das disputas ideológicas. O que está em curso é algo mais complicado: a política parlamentar passou a viver de ondas de indignação moral.

Não por acaso, nos últimos anos, aprendemos a reconhecer esse fenômeno nas redes sociais. Plataformas digitais passaram a premiar conteúdos que despertam indignação, convocam juízos morais extremos e se baseiam em uma classificação nítida entre bons e maus. Nada engaja mais —nem estimula tanto a produção de conteúdo— do que uma boa revolta moral.

Uma Emergência chamada Brasil, por Vagner Gomes

A Sociologia da Medicina é Sociologia: é a aplicação de critérios de métodos metodológicos de análise e de interpretação de processos  sociais, de relações interpessoais e de relações intergrupais, àquela matéria de interesse médico constituída pela Etiologia e Ecologia Sociais de doenças, pelos componentes sociais ou socioculturais de terapêutica e, ainda, pelas relações  entre médicos e enfermos, entre enfermos e suas famílias, entre médicos e famílias e ambientes socioculturais de enfermos, entre médicos – higienistas, sanitaristas, psiquiatras – e comunidades e aquelas suas instituições e aqueles seus complexos mais relacionados com os problemas de deterioração da saúde, de conservação e de defesa da saúde, de promoção da saúde. Saúde compreendida no seu sentido mais amplo, isto é, além do físico, e alcançando o bem-estar psicossocial das pessoas sociais, membros de um grupo, em particular, e de uma comunidade e, mais do que isto, de um sistema sociocultural em geral.

Gilberto Freyre, Médicos, doentes e contextos sociais: uma abordagem sociológica. p. 61.

Poesia | Alceu Valença - Orapa, França e Bahia, de Ascenso Ferreira

 

Música | Caetano Veloso e Gilberto Gil cantam ‘Cajuína’ | Altas Horas 11/10/2025

 

terça-feira, 31 de março de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais /Opiniões

O peso histórico do 31 de Março no Brasil

Por O Povo (CE)

A data de 31 de Março tem um peso simbólico importante para a história do Brasil e precisa ser lembrada a cada ano dentro da perspectiva que oferece. Seja pelo que representou em termos de passado, seja pelas dúvidas que alimenta num olhar de futuro, diz respeito a um momento que merece uma ampla reflexão da sociedade.

Num dia como hoje, há 62 anos, entrávamos numa sombra política que se estenderia até 1985, quando o País começou a traçar a trajetória que o levaria de volta à democracia plena, devolvendo-se ao cidadão o direito de definir, pelo voto, seu próprio destino. Foram, desde então, nove eleições seguidas nas quais o brasileiro pode escolher o presidente da República, errando e acertando como é próprio de um regime democrático.

O que fazer quando o 'bem público' da informação se torna nocivo, por Martin Wolf

Financial Times /Valor Econômico

Criação e disseminação de informação confiável está em desvantagem econômica

Espalhar mentiras e fraudes pode ser um bom negócio, e a IA parece propensa a piorar a situação

A criação, comunicação e exploração do conhecimento são as habilidades que definem os seres humanos como animais sociais. Essas capacidades, mais do que qualquer outra coisa, tornaram os seres humanos senhores do planeta. Isso faz com que nossas ferramentas de comunicação —da linguagem à escrita, impressão, telecomunicações, rádio, televisão e agora a internet— sejam as tecnologias definidoras de suas épocas. Sua invenção e uso moldaram não apenas o que podemos fazer em cada momento, mas quem somos.

Novas tecnologias de comunicação transformam a sociedade. Como argumentou Jürgen Habermas, a democracia liberal, hoje em perigo, foi filha do livro, do panfleto e do jornal. As tecnologias digitais de nosso tempo são igualmente transformadoras. Infelizmente, junto com muitos ganhos, elas trazem enormes danos potenciais que hoje ameaçam a saúde de nossas sociedades. Esses danos não são teóricos; são visíveis demais.

PIB, produtividade e jornada de trabalho, por João Saboia*

Valor Econômico

Reduções na jornada de trabalho poderiam ser mais facilmente assimiladas se a economia voltasse a crescer a taxas mais elevadas

Discuti em artigos anteriores aqui no Valor Econômico o comportamento da produtividade do trabalho no Brasil nos últimos anos. Os dados são bastante desfavoráveis. Excetuando-se os casos da agropecuária, da indústria extrativa mineral, dos serviços industriais de utilidade pública e da intermediação financeira, a regra geral foi a estagnação ou queda da produtividade nos últimos trinta anos.

O período mais favorável para a evolução da produtividade agregada na economia brasileira ocorreu entre 2003 e 2013. Nesse período, a produtividade por pessoal ocupado cresceu 20,9% e a produtividade por horas trabalhadas aumentou 25,2%. Tal diferença se deve à redução das horas trabalhadas por pessoa ocupada no período.

Terceira via de governador goiano aprofunda divisão, por César Felício

Valor Econômico

Caiado se apresenta como mais eficaz que Flávio para derrotar Lula

O governador de Goiás, Ronaldo Caiado, agora pré-candidato exclusivo do PSD à Presidência, definiu na segunda-feira (30) no evento do partido em São Paulo qual a linha divisória que pretende traçar na campanha para se diferenciar do senador Flavio Bolsonaro (RJ), pré-candidato do PL: a experiência. Todo o discurso de Caiado centrou-se neste raciocínio: é ele, com seus 77 anos a serem completados em setembro, seus cinco mandatos de deputado federal, oito anos como senador e oito anos com governador, que dará ao Brasil governabilidade pela direita.

Kassab rifa Eduardo Leite e indica Caiado candidato do PSD à Presidência, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Ao escolher Caiado, Kassab também abandona o projeto de um centro autônomo e aposta em uma candidatura mais palatável aos eleitores do governador de São Paulo

A decisão do PSD de lançar Ronaldo Caiado à Presidência, rifando Eduardo Leite, é a afirmação de uma candidatura de centro-direita, com ambição de unir liberais e conservadores, em reconhecimento pragmático dos limites que as pesquisas vêm impondo ao centro político brasileiro. Embora Gilberto Kassab tenha procurado vender a escolha como um “privilégio” diante de três nomes competitivos, a verdade é que os levantamentos recentes — especialmente Genial/Quaest, Datafolha e Atlas — indicam um cenário de crescente cristalização da disputa entre Lula e o campo bolsonarista, hoje representado por Flávio Bolsonaro. Nesse contexto, a margem para uma candidatura alternativa não apenas é estreita; na sua avaliação, exige um perfil com maior capacidade de polarização, ainda que sob o discurso de superá-la.

Caiado de ‘centro’? por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Com Caiado candidato, a direita despe a fantasia de ‘centro’ e tende a fechar com Flávio

O quase ex-governador Ronaldo Caiado pode ser tudo, menos de “centro”, e o anúncio de sua candidatura à Presidência confirma o quanto as várias frentes de direita vêm ocupando espaços de poder, enquanto a esquerda vai se fechando numa bolha que não aponta para o futuro.

O pior na escolha monocrática de Gilberto Kassab, um grande perdedor nessa história, é que Caiado, além de ser assumidamente de direita, é da direita mais identificada com o bolsonarismo do que daquela que tem resistência a ele ou o rejeita.

Xandão vai salvar o Rio, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Largaram a mão do “Cláudio” – o patrocinador, para quem entregavam cabeças. Descobriram de repente o assalto milionário à fundação Ceperj, por meio do qual – com abuso de poderes político e econômico – Castro e seus bacellares desequilibraram a disputa eleitoral de 2022; e em função do qual foram correta e tardiamente condenados pela Justiça Eleitoral.

O ex-governador – que sempre foi o que é, e sobre cuja administração escrevi, neste jornal, em 25 de outubro de 2024, o artigo O governo de Cláudio Castro acabou sem ter começado – já era. Rei morto (“Cláudio” tem todo o direito de se sentir traído), rei posto. Ou rei projetado: Eduardo Paes, aquele a ser beneficiado pela eleição direta a governadortampão. Governador-tampão em junho – a se reeleger em outubro. Essa é a conta de chegada. Porque será direta a eleição-tampão – comunica a blitz editorial combinada à legislação de Alexandre de Moraes. Para limpar o Rio do comando criminoso. Uma chance única – é desse modo explícito que se convoca o STF a decidir politicamente. (Uma chance única – não que seja mentira.)

A democracia é a questão central, por Míriam Leitão

O Globo

Flávio Bolsonaro deu novas demonstrações de fazer o mesmo caminho do pai. Caiado promete anistia a Bolsonaro e o defendeu em palanque

O golpismo da direita continua sendo o problema da eleição. Da mesma forma que foi nas duas disputas presidenciais anteriores. O senador Flávio Bolsonaro, como seu pai, não tem credencial democrática, e já demonstrou desrespeito institucional. Infelizmente, outras forças da direita não quiseram condenar o golpismo. O PSD, de Gilberto Kassab, teve uma chance com o governador Eduardo Leite, que demonstrou ter entendido o ponto central. Neste fim de semana, Flávio Bolsonaro repetiu o pai e pôs em dúvida, diante de uma plateia estrangeira, a lisura do processo eleitoral brasileiro. Hoje, 62 anos depois do golpe militar, estamos de volta à quadra um.

Cuba é o próximo alvo de Trump, por Fernando Gabeira

O Globo

Ajudar o povo cubano não significa apoio a seu governo. Latino-americanos precisam, mais que nunca, ser solidários

Se você acorda com a sensação de que este mundo é maluco, tem razão. Uma das causas: o homem mais poderoso é um estúpido. Trump declarou guerra ao Irã usando o falso pretexto de que havia ameaça à segurança americana. A capacidade nuclear dos iranianos já tinha retrocedido décadas com os bombardeios de junho.

Trump achou que o bombardeio levaria multidões às ruas para derrubar a ditadura sangrenta dos aiatolás. Tremendo erro de avaliação. Ninguém sairia às ruas para ser morto pela Guarda Revolucionária, quase ninguém se sentiria à vontade para lutar ao lado dos Estados Unidos e de Israel, horrorizados com a destruição de uma escola em que morreram mais de 150 crianças.

O que US$ 200 bi compram, por Pedro Doria

O Globo

A OpenAI, que pretende chegar dois anos depois ao azul, acredita precisar gastar US$ 200 bilhões

Na planilha, a Anthropic planeja chegar ao azul em 2028 — daqui a dois anos. A OpenAI, em 2030. Para chegar ao azul, a primeira companhia espera gastar US$ 22 bilhões de seus investidores. Fazer inteligência artificial é bastante caro. A OpenAI, que pretende chegar dois anos depois ao azul, acredita precisar gastar US$ 200 bilhões. Fazer IA pode ser até muito mais que bastante caro. E, até aqui, os dois modelos das duas companhias, Claude e GPT, são equivalentes. É virtualmente impossível, para quem usa ambos pesadamente, dizer que um é realmente melhor que o outro. Então onde está a diferença? O que se compra com US$ 200 bi que US$ 20 bi não pagam?

Caiado na pista, por Merval Pereira

O Globo

Ronaldo Caiado, candidato do PSD a presidente da República é uma tentativa de abrir espaço alternativo à polarização entre lulistas e bolsonaristas.

A escolha do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, para candidato do PSD a presidente da República é uma tentativa de abrir espaço alternativo à polarização entre lulistas e bolsonaristas. A ideia é que o eleitorado está cansado dessa disputa, existente desde a eleição de 2018, e anseia por uma novidade que o mobilize. Caiado não é exatamente uma novidade na política, mas é um fator novo na disputa, com a vantagem de ter experiência em cargos públicos que o credencia. Novidade seria o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, mas não há indícios de que ele teria condições de enfrentar o presidente Lula ou o clã Bolsonaro.

Kassab libera ala lulista do PSD e avalia que Caiado une mais grupo da direita do que Leite, por Lauriberto Pompeu

O Globo

PSD consultou situação dos diretórios estaduais antes de tomar a decisão

A definição de lançar o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, como candidato à Presidência pelo PSD passou por uma consulta do partido aos diretórios estaduais. A avaliação da cúpula nacional da legenda é que Caiado atrai com mais facilidade os apoios dos líderes regionais da legenda do que o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, que era a outra alternativa presidencial da sigla.

Pelo mapa montado pelo comando nacional do PSD, há um entendimento de que a maioria do Nordeste estará com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em qualquer cenário e que esses estados não dariam palanque nem para Caiado e nem para Leite.

Ao se equilibrar entre os 'valores do Brasil profundo' e o gestor moderno, Caiado tem tarefa quixotesca em eleição polarizada por Lula e Flávio, por Eduardo Graça

O Globo

Governador tem aprovação recorde em estado com pouco peso eleitoral e enfrenta uma série de obstáculos para não repetir este ano sua primeira campanha à Presidência, em 1989, quando não teve sequer 1% dos votos, entre eles a aversão a acenos ao centro e a disputa com o bolsonarismo pelo voto à direita

Obstinado aspirante da segunda via da direita. O título do perfil do governador Ronaldo Caiado (PSD-GO), publicado no selo Persona de O GLOBO há um ano e quatro meses, provou-se tão preciso em retrospecto quanto revelou-se síntese dos obstáculos que o político de 76 anos terá pela frente até outubro, em disputa pela Presidência polarizada pelas candidaturas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

De lá para cá, Caiado trocou o União Brasil pela sigla de Gilberto Kassab para viabilizar sua ambição de encerrar a longeva trajetória pública na disputa pelo mesmo cargo que a iniciou, em 1989, quando mirou o Planalto pela primeira vez. Era então a face da União Democrática Ruralista (UDR) e de um setor agropecuário consideravelmente mais coadjuvante do que hoje, em suas esferas econômica e política. No horário eleitoral, aparecia montado em um cavalo branco. Um ano após a criação do Sistema Único de Saúde (SUS), o líder setorial de 40 anos, personagem da elite goiana, apresentava como trunfo nos debates televisivos sua especialização médica em Paris.

Miséria eleitoral, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Real empenho do PSD na candidatura de Caiado será medido pelas verbas que irão para a campanha

Critérios do financiamento público fazem com que partidos se concentrem em eleger deputados federais

As bases do PSD, isto é, Gilberto Kassab, decidiram que o candidato presidencial do partido será mesmo Ronaldo Caiado. Mas, a menos que Caiado consiga o milagre de subir rapidamente nas pesquisas, eu me pergunto se as bases do PSD estarão dispostas a financiar muito seriamente sua candidatura. Se há algo que mudou na política nos últimos anos, é a estrutura de incentivos à participação em pleitos presidenciais.

Em 1989, a primeira eleição da redemocratização, 22 candidatos concorreram. Não eram obviamente todos competitivos, mas quatro deles saíram do primeiro turno com mais de 10% dos votos válidos e oito marcaram mais de 1%. No pleito de 2022, o total de participantes caiu para 11, dos quais dois ultrapassaram os 10% e só quatro superaram o 1%. Está deixando de ser interessante para partidos políticos lançar candidatos a presidente se não tiverem chance clara de vitória.

Por que Caiado e não Flávio? Por Joel Pinheiro da Fonseca

Folha de S. Paulo

Pelos valores, candidato do PSD está próximo de uma maioria crescente do eleitorado, mas Flávio também

Talvez maior ativo de Caiado seja os resultados positivos de seus sete anos como governador

É bom que o PSD tenha se adiantado na escolha do candidato. Quanto antes Caiado entrar na arena, mais chances tem de virar o jogo. E ele precisa realmente chacoalhar o tabuleiro, porque nada indica que o eleitorado, polarizado e calcificado, pense numa terceira via.

A escolha por Leite seria a aposta na promessa de um eleitorado fora da polarização —abrangendo a centro-esquerda e a centro-direita— que está só esperando um candidato mais ao centro. Até hoje, nunca se concretizou; Marina (2014), Alckmin (2018) e Simone Tebet (2022) estão aí de prova.

Governo não enxerga razões do desgaste, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

O personagem de Lula que falava aos pais e avós já não exerce o mesmo fascínio sobre os filhos

Além disso, o PT perdeu o discurso da ética na política ao estrelar dois históricos escândalos de corrupção

Têm sido frequentes as notícias sobre a justificada preocupação do governo com o crescimento da oposição nas pesquisas de intenção de votos. Esse noticiário diz que no ambiente palaciano não se compreende as razões para tal e, de maneira contraditória, ao mesmo tempo ali se tenta emplacar a ideia de que a eleição pode ser resolvida no primeiro turno em favor de Lula (PT).

Diretas Já no Rio vira laboratório da eleição presidencial, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Pleito popular por mandato-tampão repete disputa entre lulistas e bolsonaristas

Vácuo no poder está ligado à infiltração de organizações criminosas

Eduardo Paes pegou o túnel do tempo, deu um rolé (carioca não dá rolê) em 1984 e voltou sonhando com multidões. Postou nas redes fotos da campanha das Diretas Já, um dos maiores movimentos políticos da história brasileira, que acabou frustrado no Congresso, mas enfraqueceu a ditadura militar. Com o voto popular, o ex-prefeito e candidato a governador do Rio de Janeiro espera conter a infiltração de organizações criminosas nas instituições, sobretudo na Assembleia Legislativa.

STF: quando a blindagem agrava a crise, por André Régis*

Folha de Pernambuco

O Supremo Tribunal Federal já ultrapassou o ponto em que poderia sair desta crise por meios suaves. A fase das explicações laterais, dos gestos cosméticos e do controle de danos ficou para trás. Quanto mais a Corte se fecha para conter o desgaste, mais aprofunda sua crise de autoridade.

Desde o Inquérito das Fake News, o STF passou a depender menos da autoridade que lhe era espontaneamente reconhecida e mais do exercício direto de poder. Como toda corte constitucional, sempre dispôs de poder duro: pode anular atos, impor limites e conter abusos. Mas sua força histórica nunca decorreu apenas disso. Decorreu, sobretudo, do prestígio institucional, da deferência pública e da confiança de que agia como árbitro, não como parte interessada. Esse equilíbrio se rompeu.

Poesia | Desterro, de João Guimarães Rosa

 

Música | Os Originais Do Samba - Clementina de Jesus