segunda-feira, 23 de março de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Com Master, BC tem oportunidade de refinar controles

Por O Globo

Pela primeira vez, dois altos funcionários da autoridade monetária foram acusados de corrupção

O caso Master tem oferecido ao Banco Central (BC) uma oportunidade única de aperfeiçoar o sistema de supervisão das instituições financeiras. Não é a primeira vez que um banco comete fraudes, nem a primeira liquidação extrajudicial em que diversos investidores perdem patrimônio. O fato preocupante é que esta é a primeira vez, em todas as ondas de intervenção e liquidação de bancos desde a redemocratização, em que dois altos funcionários do BC são acusados de corrupção.

Belline Santana, ex-chefe do Departamento de Fiscalização Bancária, e Paulo Souza, ex-diretor de Fiscalização, se tornaram, de acordo com as investigações, “consultores pessoais” do banqueiro Daniel Vorcaro. Depois de auditoria interna ter constatado um aumento de patrimônio dos dois que só poderia ser explicado pelo recebimento de vantagens indevidas, o BC os afastou do cargo e comunicou à Polícia Federal (PF). O ministro André Mendonça, relator do caso Master no Supremo Tribunal Federal (STF), os afastou do próprio BC.

Delação de Vorcaro: preguiçosa e conveniente, por Bruno Carazza

Valor Econômico

Daniel Vorcaro é um cara arrojado e inteligente. Ao longo da sua trajetória meteórica, ele sempre seguiu uma estratégia racional, orientando suas jogadas pela exploração dos incentivos errados que os sistemas econômico, político e judicial brasileiro oferecem. E a delação é a sua próxima cartada.

No centro do modelo de negócios do Master estava uma falha do sistema financeiro: sabendo que o Fundo Garantidor de Créditos honraria as aplicações de até R$ 250 mil dos investidores, o banco captou um montante estratosférico no mercado. Quando a bomba explodiu, Vorcaro impôs um prejuízo de mais de R$ 50 bilhões a seus concorrentes, que precisarão recapitalizar o FGC.

MDB, 60 anos: nem Ulysses e Tancredo uniram o partido, por César Felício

Valor Econômico

Partido não deve apoiar ninguém para presidente este ano, mas sem o clima de guerra do passado

Mais à direita do que já esteve na maior parte da sua história, muito menor do que já foi no passado, o MDB completa 60 anos nesta terça-feira mantendo uma singularidade: é o partido onde instâncias regionais, estatutariamente, têm mais poder perante a cúpula da sigla.

Esta particularidade está cobrando seu preço agora, em meio às articulações de palanque que ocorrem junto com a janela partidária. Em dois Estados do Nordeste, Paraíba e Piauí, é provável que o partido simplesmente deixe de lançar candidato a deputado federal.

A formação de uma bancada robusta na Câmara dos Deputados é fundamental para qualquer partido conseguir uma fatia mais relevante do fundo partidário. Mas o MDB, ainda hoje, continua podendo ser chamado de “federação de caciques regionais”. No Piauí, a prioridade da sigla é o acordo com o PSD para a reeleição do senador Marcelo de Castro. Na Paraíba, o partido joga mais alto, e quer eleger o prefeito de João Pessoa, Cícero Lucena para governador, e reeleger o senador Veneziano Vital do Rego. Abrir mão na nominata proporcional ajuda na composição.

Campanha tem batalha de rejeições entre Lula e Flávio Bolsonaro, por Joelmir Tavares

Valor Econômico

Parcela de eleitores que rechaça votar em um ou outro será elemento decisivo, se polarização captada nas pesquisas continuar

A liderança de Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro nas pesquisas, a sete meses da eleição presidencial, evidencia o peso da rejeição aos pré-candidatos, que deve se tornar um ingrediente importante da disputa, caso o cenário de polarização continue.

Os percentuais de eleitores que se recusam a votar no atual presidente - que deve ser o representante do PT na corrida - e no senador - indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro para concorrer pelo PL - podem ser decisivos. Segundo especialistas, a possibilidade de que a eleição vire uma espécie de batalha de rejeições é um reflexo da divisão ideológica acentuada, algo que já tinha aparecido em 2022.

Críticas de Lula ao BC partem de mau conselho, por Alex Ribeiro

Valor Econômico

Críticas de Lula partem de um diagnóstico, nos círculos palacianos, de que o BC é um dos responsáveis pela queda da popularidade do presidente

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou, na semana passada, o corte de apenas 0,25 ponto percentual na taxa básica de juros, para 14,75% ao ano. Ele queria 0,5 ponto. Não é o único ataque ao Banco Central, presidido por Gabriel Galípolo, que, durante o período eleitoral, tende a ficar mais isolado.

A queixa de Lula não foi improvisada. Ela parte de um diagnóstico, que surgiu nas reuniões palacianas com a ala política e representantes da equipe econômica, de que o BC é um dos responsáveis pela queda da popularidade do presidente e pelo avanço do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) nas pesquisas para as eleições deste ano.

Quando a festa é públicas, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

O caso Master traz de volta a corrupção aos altos círculos de Brasília, de onde o tema fora expulso com os seguidos cancelamentos da Lava-Jato

Nas conversas entre Daniel Vorcaro e sua então namorada, Martha Graeff, lá pelas tantas aparece uma ponta de ciúme. É quando a namorada fica sabendo que havia garotas de programa na lista de contatos do celular de Vorcaro. O ex-banqueiro se explica: eram contatos profissionais. E acrescenta que já havia organizado festas com 300 garotas, pois isso fazia parte de seu “business”. Farra com 300 garotas é certamente um exagero, mas não importa. Que fosse com 30 ou com uma, a cena do crime estava armada.

Crime de ódio, por Miguel de Almeida

O Globo

Nega-se à deputada Erika Hilton o 'lugar de fala': sendo trans, não poderia tratar de questões das 'mulheres biológicas'

Às preocupações do brasileiro com o perigo de um conflito nuclear e ao espanto com as cafonices de Daniel Vorcaro, somou-se a batalha entre Ratinho e a deputada federal Erika Hilton. O apresentador mostrou-se indignado com a eleição da deputada ao cargo de presidente da Comissão da Mulher da Câmara. Irritado, disse-se contrário a que uma pessoa trans ocupe a vaga. E explicitou sua visão de mundo:

— Ela é trans. Para ser mulher tem que ter útero, menstruar, tem que ficar chata três, quatro dias. Eu sou contra [a eleição dela]. Eu acho que deveria deixar uma mulher.

Para não deixar dúvidas, acrescentou:

— Mulher, para ser mulher, tem de ser mulher (...). Quero dizer que não tenho nada contra a deputada, ou deputado, não sei.

O STF injustiçado, por Diogo Schelp

O Estado de S. Paulo

Ministros tentam convencer a opinião pública de que se uma conduta não é ilegal, é aceitável

Mesmo com tudo o que já se descobriu a respeito de situaç ões que indicam conflito de interesses ou coisa pior na atuação de ministros do STF, em especial no que se refere ao caso do Banco Master, a cúpula da Justiça, ou pelo menos parte dela, se sente injustiçada.

Na quinta-feira, o ministro Gilmar Mendes chorou durante homenagem a Alexandre de Moraes, a quem atribuiu “ânimo inquebrantável” para suportar “tantas tribulações”. Na fala de Mendes, o colega emerge como um incompreendido, cujo sacrifício pelo País talvez só venha a ser reconhecido por gerações futuras. Faltou pouco para dizer que os brasileiros somos ingratos por não entender a dívida que temos com ele.

Um novo Oriente Médio, por Denis Lerrer Rosenfield

O Estado de S. Paulo

O projeto teocrático de uma grande potência regional dominando o Oriente Médio foi por água abaixo

O Oriente Médio mudou após o ataque americano-israelense e a reação da teocracia iraniana. Nada voltará a ser como antes, goste-se ou não desta nova realidade. O Irã se apresentava com uma grande potência regional, caminhando para deter a produção de bombas nucleares, almejando a destruição pura e simples do Estado de Israel. Utilizava-se, para isso, de seus satélites: Hamas, Jihad Islâmica, Hezbollah e Houthis. Com exceção dos últimos, enfraquecidos, os outros já foram derrotados militarmente. Graças à guerra atual, o Irã já está militarmente vencido, contentando-se com atacar as nações árabes, inclusive xiitas como o Catar, procurando criar o caos no Estreito de Ormuz e forçar um aumento do preço do petróleo e do gás em escala mundial. Só os simpatizantes do Irã e do terror islâmico resistem a reconhecer a nova correlação geopolítica de forças, a esquerda mundial satisfazendo-se com a areia do ódio que a teocracia lança nos seus olhos.

Sem mais silêncio, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

As pessoas que atracam os fones às orelhas o dia inteiro isolam-se da vida

Eles são um passaporte para a alienação, o individualismo, o não-tou-nem-aísmo

O jovem de fones ao ouvido atravessou a rua fora do sinal, costurando entre os carros em movimento e tirando fino das motos entre eles. Perplexo, eu assistia a tudo da calçada. Mas nada aconteceu. O garoto chegou ao outro lado e retomou tranquilo o seu caminho, como se o asfalto fosse uma extensão de sua casa. Perguntei-me que maravilhas estariam saindo dos fones, abafando tudo e permitindo-lhe ignorar as buzinas. Rockrapforrók-pop?

Qual o maior crime contra a humanidade? Por Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

Para a União Africana a resposta é clara: foi a escravização e o tráfico transatlântico de africanos

Efeitos físicos, psicológicos, econômicos e sociais desencadeados pela escravização são sentidos por milhões até hoje

Qual o maior crime já cometido contra a humanidade? A pergunta é instigante, mas para a União Africana (UA), organismo formado pelos 55 países do continente, a resposta é clara: foi a escravização e o tráfico transatlântico de africanos escravizados.

A entidade está em busca do reconhecimento oficial da Organização das Nações Unidas (ONU) desse entendimento. Uma resolução nesse sentido foi aprovada em fevereiro e encaminhada à apreciação da ONU em busca, ao menos, de um pedido formal de desculpas das nações que lucraram com a prática.

Mais poder, menos confiança: o dilema do STF, por Lara Mesquita

Folha de S. Paulo

Protagonismo do Judiciário levanta questionamentos sobre seus efeitos distributivos e sua legitimidade democrática

Atuação deve ser analisada como a de qualquer outra instituição política, sujeita a limitações, incentivos e pressões

O Supremo Tribunal Federal é destaque no noticiário político, e isso não é novidade. A novidade é que o holofote agora está na erosão de sua legitimidade. Pesquisas de opinião divulgadas neste mês de março por diversos institutos (Datafolha, Quaest, Ideia, Atlas Intel) convergem ao apontar a queda da confiança dos eleitores no STF.

Master: entre a punição de malfeitos e o conluio generalizado, por Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

A diversidade e o grande número de envolvidos aumentam as chances de punição ou de impunidade recíproca?

Quando muitos interesses são afetados, ainda que rivais, e o grau de comprometimento ultrapassa certos limiares, o resultado é o conluio geral

Há perplexidade generalizada diante da estrutura tentacular e de dimensões colossais do affair Master. Sobra (quase) ninguém! A mais recente revelação: o filho de um ministro do STF e a nora do líder do governo no Senado teriam recebido somas milionárias do banco. O envolvimento de um número estarrecedor de atores —de autoridades dos três Poderes a empresários—, para além de qualquer clivagem ideológica, suscita uma questão central: quanto maior e mais diverso o número de implicados, maior a probabilidade de emergirem denúncias cruzadas que alimentem uma dinâmica de incriminação recíproca? A resposta otimista é: sim!

Estado, não livre mercado, forjou o capitalismo, afirma professor de Harvard, por Zander Navarro*

Folha de S. Paulo

Livro extraordinário de Sven Beckert ilumina 900 anos de história e mostra que o regime econômico sempre foi global

Para historiador, economia neoclássica ignora fatos e reduz a diversidade da vida econômica a deserto homogêneo

[RESUMO] "Capitalism: a Global History", livro recém-lançado de Sven Beckert, preenche uma lacuna na bibliografia sobre a constituição do regime econômico e desmente narrativas anteriores. Com uma análise empírica da trajetória milenar do capitalismo, argumenta o autor, a obra retorna à melhor criatividade da economia política e sustenta que o regime econômico não é resultado dos mercados, mas um produto direto do poder do Estado.

Ao examinar a evolução do debate econômico do último meio século —da discussão sobre o desenvolvimento dos países ao desmoronamento da ordem mundial formalizada no pós-guerra, passando pela euforia com a globalização e a crise quase letal de 2008—, se nota uma faceta intrigante: há uma lacuna no diagnóstico das entranhas do capitalismo.

O Brasil nas trilhas, por Ivan Alves Filho

Um dia desses, Luiz Carlos Prestes Filho - uma dessas pessoas de cuja amizade só tenho que me orgulhar há dezenas de anos - me convidou para participar de um encontro virtual sobre uma rede de trilhas envolvendo o espaço territorial brasileiro. Seu nome oficial é Rede Brasileira de Trilhas de Longo Curso, uma proposta cultural, ecológica e sensitiva criada em 2017. Um dos seus objetivos é interligar as unidades de conservação presentes em nosso território. Uma destas trilhas pleiteia, justamente, a Coluna Prestes, comandada por seu pai, o lendário Cavaleiro da Esperança, entre 1924 e 1927, percorrendo partes consideráveis do nosso país.

Poesia | O Correr da Vida, de Guimarães Rosa

 

Música | Chico Buarque - Sabiá (1968)

 

domingo, 22 de março de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Raiz do juro alto está nas amarras orçamentárias

Por O Globo

Indexação ao mínimo e vinculação obrigatória de despesas à receita respondem por 40% da alta na dívida

De equívoco em equívoco, o terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva terá representado, ao fim de 2026, uma alta de 10% na dívida pública, para acima de 80% do PIB. Desse aumento, cerca de 40% — ou R$ 518 bilhões — se devem exclusivamente à indexação de benefícios previdenciários e programas sociais ao salário mínimo e à vinculação orçamentária obrigatória de gastos em saúde e educação, de acordo com cálculos do economista Samuel Pessôa. Tal expansão da despesa é o motivo para a taxa de juros brasileira estar entre as mais altas do mundo. Num país célebre pela carga tributária infame, o governo Lula, com o beneplácito do Congresso, apostou no aumento dos impostos para cobrir a despesa. Essa toada é o caminho para o caos. Se a campanha eleitoral permitir algum debate relevante, esse é um tema inescapável.

A democracia desafiada. Recompor a política para um futuro incerto, por Marco Aurélio Nogueira.

Rio de Janeiro, Ateliê de Humanidades, 2023.

INTRODUÇÃO

O presente livro se propõe a interpelar a sociedade e o modo como vivemos, privilegiando alguns de seus aspectos principais, hoje submetidos a amplo debate público. Não pretende oferecer uma teoria abrangente, que dê conta dos múltiplos aspectos da vida como ela é. Trata-se de um ensaio. Não há nele nenhum estudo de caso. Poderei me deixar sensibilizar pelos fatos que transcorrem em meu país, o Brasil, mas o interesse não estará aí. Meu propósito é assumidamente modesto e circunscrito: chamar atenção para certos gargalos que asfixiam a vida atual e sugerir caminhos para compreendê-los.

No centro dos capítulos que se seguirão está a questão da democracia. Trata-se de uma escolha sustentada pela convicção de que não teremos um futuro promissor sem arranjos democráticos sustentáveis. Podemos e devemos discutir de “qual democracia” estamos a falar, que peso deverão ter nela os princípios liberais e socialistas, de que modo será feita a participação dos cidadãos, se os partidos políticos devem ter maior relevo do que as redes sociais, qual o melhor regime para a tomada de decisões, e assim por diante. Mas não há como renunciar à democracia como valor estratégico. Sem isso estaremos sempre a um passo da escuridão autoritária.

O ‘hegemon’ que não sabe recuar, por Luiz Sérgio Henriques

O Estado de S. Paulo

Político talhado para o conflito, Donald Trump é causa e efeito de uma gigantesca destruição não criadora

Um hegemon vingativo, destruidor de instituições que ele próprio ajudou a inspirar, a começar pela ONU e sua Carta de Direitos, está em evidente curso de dissolução da própria hegemonia. Conceito complexo este último. Nutre-se não só do poderio industrial ou militar, mas também, e amplamente, da capacidade de direção política e intelectual – de soft power, em suma. Essa é uma lição secular, anterior a qualquer formulação gramsciana. Já o centauro maquiaveliano, educador de políticos, alertava contra o uso exclusivo da violência. Se o príncipe só mobiliza as qualidades do leão e menospreza as manhas da raposa, ele incute medo nos lobos e termina preso numa armadilha.

Tão longe, tão perto, duração da guerra do Irã pode decidir eleições no Brasil, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

A Operação Fúria Épica parece distante de um fim próximo, embora concebida para durar poucos dias. O nó górdio da guerra é o bloqueio do Golfo de Ormuz, controlado pelo Irã

Neste ano eleitoral, há três fatores imponderáveis para os humores da sociedade: o desfecho do escândalo do Banco Master, em relação à credibilidade das instituições; a prisão em regime fechado do ex-presidente Jair Bolsonaro, com suas recorrentes internações por problemas de saúde; e a guerra do Irã, com forte impacto no preço dos combustíveis e, consequentemente, na inflação. O primeiro favorece uma candidatura outsider, o segundo a do senador Flávio Bolsonaro e, o terceiro, qualquer um dos dois ou um candidato de “terceira via”. Ou seja, para se reeleger, o presidente Luís Inácio Lula da Silva precisa ficar esperto, o tempo fechou.

Trauma, por Dorrit Harazim

 

O Globo

Na reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU, apenas três países condenaram os EUA e Israel pelo ataque: Rússia, China e Somália

A guerra no Oriente Médio arde. Ao iniciar sua quarta semana de combustão, pode dar a impressão de ter expansão errática, moto próprio e embaralhar nossa percepção de quem é o agressor, quem é o agredido. Em benefício dos fatos concretos, convém eliminar qualquer manipulação ideológica: foram os Estados Unidos e Israel que escolheram atacar o Irã dos aiatolás, ponto. As consequências históricas decorrentes dessa opção deverão ser cobradas de seus respectivos líderes, Donald Trump e Benjamin Netanyahu. Importa pouco se o ocupante da Casa Branca foi ou não arrastado por “Bibi” para deslanchar a ofensiva — Trump abraçou a aventura com doses iguais de “fúria épica” (nome da operação) e leviandade. A jornalista e historiadora Anne Applebaum acerta quando escreve na revista The Atlantic que o 47º presidente americano simplesmente não sabe pensar — nem estratégica, nem histórica, geográfica ou racionalmente.

Travessia estreita entre dois fogos, por Míriam Leitão

O Globo

Haddad deixa legado da reforma tributária. Viveu entre o fogo amigo e as críticas da direita. Aumentou impostos? Sim, sobre os muito ricos

A conquista mais importante da gestão Fernando Haddad no Ministério da Fazenda é a reforma tributária, que será mais valorizada no futuro. Foi relevante também a agenda de justiça tributária, pela qual ele aumentou impostos sobre contribuintes de maior renda que estavam subtributados. Alguém pode dizer que não foi justo cobrar dos fundos exclusivos e offshore — investimentos dos super-ricos — o mesmo tributo pago pela classe média? Outro mérito de Haddad foi acolher na Fazenda a pauta ambiental e climática. O balanço de sua gestão tem mais acertos do que erros, mas para executar seu plano no ministério teve que vencer críticas da direita e muita oposição em seu próprio partido. Haddad viveu entre dois fogos.

Uma CPI que perdeu o rumo, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Comissão Parlamentar de Inquérito deve terminar sem resposta para aposentados

A CPI do INSS deve chegar ao fim nesta semana. Criada para investigar fraudes contra aposentados, foi capturada pela disputa eleitoral e perdeu o rumo na tentativa de pegar carona em outro escândalo.

A comissão foi instalada após a descoberta do esquema que afanou idosos com descontos indevidos. Segundo a Controladoria-Geral da União, os desvios somaram R$ 6,3 bilhões entre 2019 e 2024, do início da gestão de Jair Bolsonaro à metade do atual mandato de Lula.

Briga intestina no STF, Por Merval Pereira

O Globo

Gilmar Mendes começa a tentar montar dentro do Supremo um ambiente que permita, mais adiante, anular o processo do Banco Master assim como fez com todos os processos da Operação Lava Jato

A divergência aberta entre os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes, o decano da instituição, e André Mendonça, o relator do caso do Banco Master, é a evidência de que a crise de legitimidade que atinge o Supremo não se resolverá tão cedo, muito menos agora, quando os dois ministros se manifestaram publicamente sobre teses conceituais, um fustigando o outro. O ministro André Mendonça, já colocado na mídia como o novo guardião da moralidade jurídica, mandou seu recado em evento da OAB do Rio, afirmando, entre outras coisas, que não cabe ao juiz “ser uma estrela”, mas simplesmente agir de maneira certa, e julgar dentro do que é certo.

Vorcaro quer pautar a delação, por Elio Gaspari

O Globo

Banqueiro tenta se colocar no papel principal das tratativas com a PF; sugestão de que não pretende envolver o STF ignora o princípio de que delações não são para fazer amizades

Daniel Vorcaro é uma pessoa audaciosa e o que ele fez com o banco Master comprova essa característica. Da cadeia, ele sinalizou que partirá para a delação. Até aí, tudo bem, mas em apenas uma semana ele soltou sinais de fumaça, indicando que pretende ser o maestro do espetáculo.

Quando estava solto e tentava ser recebido pelo ministro Fernando Haddad, ele avisava: “Eu preciso falar para ele o que pode acontecer se algo acontecer comigo”.

Enquanto a Polícia Federal digere o conteúdo de seus oito celulares, os primeiros sinais revelaram-no simultaneamente ameaçador e conciliador. Ameaçou revelar suas conexões com o PT e levantou uma bandeira branca para as ligações com magistrados, revelando que não pretende envolver o Supremo Tribunal Federal na sua delação.

Pontos e contrapontos de Gilmar, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Gilmar erra ao embolar voto por clamor popular com espuma midiática e linchamentos morais

Gilmar Mendes embola o jogo e usa da velha regra de que tudo tem dois lados ou, neste caso, das investigações do Master, dois tipos de posicionamento e ação: um atende ao “clamor popular” para avançar e ganhar aplausos; outro, que ele defende, investiga, toma decisões e pretende julgar ao final com base em fatos objetivos, não jogando para a plateia.

Os erros de cálculo de Trump, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

Os governos de Irã e EUA cometeram sérios erros de cálculo – o primeiro, no que diz respeito à deterrência; o segundo, às consequências políticas e econômicas da guerra. Agora, ambos precisam de tempo para recolocar a guerra na direção de seus objetivos.

Depois que Donald Trump rompeu o acordo nuclear em 2018, o governo do presidente Ebrahim Raisi, um nacionalista morto em acidente de helicóptero em 2024, alardeou avanços no enriquecimento do urânio para o patamar de 60%. O objetivo era mostrar que o rompimento fora um erro e incentivar os EUA de Joe Biden a voltar à mesa de negociações.

As recaídas de Lula, por Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

Petista deveria dar mais atenção ao BC e aproveitar a inflação razoavelmente contida e as condições favoráveis do emprego e da produção

O inferno são os outros, escreveu Sartre no final da peça Entre Quatro Paredes. Lula transformou essa frase – ou alguma equivalente – em explicação mágica para todos os seus problemas e especialmente, é claro, para os problemas dos brasileiros. Segundo o presidente, o combustível ficou mais caro no Brasil por causa de “pessoas que não prestam” e “tiram proveito da desgraça”. Ele também reclamou, mais uma vez, da política monetária, depois do corte de 0,25 ponto na taxa básica de juros. “Acordei triste hoje porque esperava que o Banco Central abaixasse em 0,5% os juros. Essa guerra chegou até no Banco Central? Não é possível, estamos no sacrifício”, disse ele, aparentemente sem acreditar nos efeitos internacionais da guerra no Oriente Médio. Na mesma noite, apresentadores de tevê, sem exibir descrença e também sem cuidar de moralidade, noticiaram impactos da guerra em bolsas de valores.

Alta do diesel é das maiores do século, há pânicos na finança e nos governos, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Preço do combustível dá salto raro no Brasil; bancões preveem mais inflação no planeta

Juros sobem pelo mundo e pulam por aqui; parte do efeito da guerra está garantido

Em fevereiro, logo antes da guerra, o preço médio do diesel estava quase tão caro quanto no mês que antecedeu o caminhonaço de maio de 2018, greve de caminhoneiros, bloqueio de estradas e locautes que pararam o país. Neste março de guerra e de início de pânicos econômicos, o combustível ficou mais caro do que no paradão de 2018 —mesmo com dados preliminares, já é possível dizê-lo.

Chapa Valdemoro tem golpe de Estado, Banco Master e Moro tentando boquinha, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Aliança eleitoral no Paraná é a síntese perfeita de tudo o que há de errado com a direita nacional

Todo mundo erra, a política exige alianças desconfortáveis, mas chega uma hora que não dá mais

Flávio Bolsonaro (PL-RJ) declarou seu apoio à candidatura de Sergio Moro ao Governo do Paraná. Moro, por sua vez, declarou sua adesão ao PL de Valdemar Costa Neto, Jair e Flávio Bolsonaro. O candidato do PL do Paraná ao Senado será Filipe Barros.

A chapa Valdemoro Costa Neto é a síntese perfeita de tudo o que há de errado com a direita nacional. É uma síntese de Banco Master com golpe de Estado e Sergio Moro tentando arrumar boquinha.

Relutância é entrave para Haddad, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Uma das condições essenciais a um candidato é transmitir do eleitor entusiasmo pelo cargo que disputa

Não foi o que exibiu o petista durante meses, ao afirmar que preferia chefiar a campanha de Lula ou sair de cena

Um dos pré-requisitos essenciais ao candidato a cargo eletivo é a capacidade de transmitir ao eleitorado entusiasmo pela função que pretende conquistar. Presidente precisa demonstrar gosto em comandar a nação, governador em administrar o estado e prefeito em gerir a cidade.

O bom aviso da transparência, por Muniz Sodré

 

Folha de S. Paulo

Foi-se o pensador alemão Habermas mas, muito antes, já havia morrido sua ideia de democracia deliberativa

O tempo trumpista não é de razão, mas de canhões e tentativas de trocas de comando em terras alheias

Foi-se o pensador alemão Jürgen Habermas. Muito antes do fato, já havia morrido a sua ideia utópica de democracia deliberativa, sustentada por uma esfera pública onde cidadãos discutiriam racionalmente assuntos de interesse comum. Igualmente, desaparecido o seu anseio de um federalismo soberano da União Europeia. A razão cultuada pelo filósofo não resiste ao digitalismo da internet e das redes sociais, apropriado por empresas neoliberais cujo único interesse é a compressão do espaço-tempo para acelerar transações de mercado. A transparência comunicativa por ele teorizada submergiu em algoritmos e plataformas privadas, dispositivos de pura mobilização emocional.

Poesia | Os Estatutos do homem - Thiago de Mello

 

Música | Sidney Miller & Nara Leão - A estrada e o violeiro

 

sábado, 21 de março de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Lula e Alcolumbre têm de acelerar sabatina de Messias

Por O Globo

Presidente precisa enviar mensagem oficial, e inquirição deve ser logo. STF não pode ficar com ministro a menos

Não é razoável o presidente Luiz Inácio Lula da Silva continuar procrastinando a formalização da indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, à vaga aberta em outubro pela aposentadoria de Luís Roberto Barroso no Supremo Tribunal Federal (STF). Logo em novembro, Lula anunciou que seu escolhido era Messias. O indicado se disse “honrado”, e tudo parecia seguir o rito habitual. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), marcou a sabatina na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) para 10 de dezembro, prazo que não daria a Messias tempo de se apresentar aos senadores. Em seguida desentendimentos emperraram o andamento. O governo, receoso de não contar com os 41 votos necessários para a aprovação, segurou o envio da mensagem presidencial ao Senado com o nome de Messias — e Alcolumbre cancelou a sabatina. Desde então, o Supremo tem funcionado com apenas dez ministros.

A queda de confiança no Supremo, por Oscar Vilhena Vieira

Folha de S. Paulo

Corte está tendo dificuldade para se defender das ameaças internas

Crise não se limita à erosão reputacional dos envolvidos ou da instituição

Temos assistido a um acentuado declínio na confiança da população no Supremo Tribunal Federal, como demonstra a recente pesquisa publicada pelo Datafolha.

Parte dessa desconfiança decorre de um ambiente altamente polarizado, mas sobretudo de eleitores mais conservadores indignados com a postura assumida pelo Supremo no julgamento dos que atentaram contra a democracia. Há, porém, um crescente mal-estar entre aqueles que apoiaram o Supremo naquele episódio. Esse crescente mal-estar está diretamente associado ao comportamento incompatível com as exigências do cargo por parte de alguns ministros.

Bolsonaro foi de ex-atleta imorrível a idoso frágil, por Hélio Schwartsman

Por Folha de S. Paulo

Mortalidade um ano após pneumonia aspirativa chega a 49%

Domiciliar se justifica, mas teria de valer para todos os presos com doença grave

Se você se frustrou (ou ficou feliz) com a recuperação de Jair Bolsonaro, saiba que a situação ainda está longe de resolvida. Os números falam por si. Um estudo sul-coreano de 2019 com 550 pacientes de pneumonia aspirativa, a moléstia que levou o ex-presidente à UTI, mostra que a mortalidade um ano após o evento atinge 49% e vai a 76,9% após cinco anos.

Cláudio Castro teme ser descartado pelo filho 01, por Alvaro Costa e Silva

Por Folha de S. Paulo

Flávio Bolsonaro quer evitar que a sujeira na segurança pública do Rio respingue na campanha

No julgamento do TSE, governador depende dos votos de Kássio Nunes e André Mendonça

Cláudio Castro é acusado de gastar R$ 1 bilhão de recursos obtidos com a privatização da companhia de água e esgoto –privatização aprovada com o objetivo de tirar o Rio de Janeiro da falência– para a compra de cabos eleitorais na campanha da reeleição em 2022.

A investigação do Ministério Público aponta abuso de poder econômico, com saques na boca do caixa feitos por funcionários fantasmas. Após pedido de vista do ministro Nunes Marques, o caso volta ao Tribunal Superior Eleitoral na terça-feira (24). No placar, dois votos pela cassação e a declaração de inelegibilidade do governador.

O Brasil deseja a paz, mas está despreparado para a guerra, por Roberto Amaral*

“Não podemos confiar no fato de que, por sermos um país pacífico ninguém vai nos atacar” - Celso Amorim (Carta Capital, 19/02/2026)

Maior país da América do Sul, com território de 8.510 km², partilhando fronteira com dez países, quinta maior população do mundo (215 milhões de habitantes), 80% urbana, 50% metropolitana, uma costa de 7.401 km (8.500 km se considerarmos as baías e suas reentrâncias), décima economia do planeta, o Brasil é, no entanto, incapaz de se proteger da cobiça internacional. 

Em um mundo em guerra, apresenta-se indefeso, apesar de sua posição estratégica no hemisfério. Indefeso quando é a maior costa do Atlântico Sul, largo corredor de rotas comerciais que levam  ao continente africano. Somos país e território militarmente indefeso, apesar de sermos um dos maiores produtores de alimentos de um mundo que conhece a fome. Ainda indefeso apesar da posse de recursos minerais estratégicos, entre os quais a segunda ou terceira reserva mundial de terras raras, cobiçada por todas as potências guerreiras, a começar, evidentemente, pelos EUA. Chama-se “terras raras” o conjunto de 17 elementos químicos, base de toda a moderna tecnologia, inclusive militar; delas carecem desde reatores de submarinos nucleares a baterias para veículos elétricos. Nosso país é indefeso porque ignora seu destino: sem projeto de ser, sem projeto de nação, sem projeto de país — o trágico mal de origem.