sexta-feira, 30 de outubro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais\Opiniões

Fuga de Flávio caiu no ridículo

Por O Globo

Carta golpista é rechaçada pelos próprios aliados, e episódio revela oposição mais madura e democrática

Ao fugir do país de forma vergonhosa e sorrateira depois de perder a eleição no último domingo, o senador Flávio Bolsonaro (PL) desrespeitou não apenas a ordem judicial para entregar seus passaportes, mas o voto dos mais de 59 milhões que o escolheram na urna. Ao publicar, na chegada ao autoproclamado “exílio” nos Estados Unidos, uma carta contestando o resultado da eleição e se proclamando “presidente eleito” do Brasil (ou “líder”, numa versão corrigida), deu prova não apenas de desconexão absoluta da realidade, mas do mesmo DNA golpista que levou à cadeia seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado por tramar uma insurreição depois de perder a eleição de 2022.

Desafios à renovação do lulismo, por Fernando Luiz Abrucio

Valor Econômico

Ampliação da base social de apoios, acréscimo de novos temas prioritários, conjugação do ajuste fiscal com a agenda social e reformulação da forma de relacionamento com o sistema político estão entre as necessidades

Renovação se tornou a palavra de ordem do quarto e último mandato de Lula. As lições da eleição de 2026 apontam para esse caminho. Renovar não é abandonar tudo que o lulismo trouxe de ganhos à sociedade brasileira, fato comprovado pela sua força política de congregar, regularmente, algo próximo da metade do eleitorado. O desafio é combinar o aperfeiçoamento de políticas sociais com uma nova estratégia, marcada por um contexto diferente, por novas questões e alianças, além de necessitar de um processo deliberado de sucessão no quadro dirigente do governo e do petismo.

A reeleição de Lula o consagra como o maior líder político da história brasileira. Ele começou sua carreira como oposicionista vindo do movimento sindical e depois ajudou a fundar o Partido dos Trabalhadores. Perdeu três eleições presidenciais, mas posteriormente ganhou quatro disputas, tornando-se o maior vencedor em períodos democráticos. A virada do segundo turno, algo inédito em toda a redemocratização, deveu-se muito a suas qualidades como liderança, com seu carisma, compromisso popular, a herança de suas políticas sociais e a capacidade de falar para diferentes grupos de brasileiros.

O quarto mandato de Lula, por José de Souza Martins*

Valor Econômico

As pesquisas de opinião eleitoral lidam insuficientemente com a complexidade sociológica da realidade política e suas determinações antropológicas e, em grau menor, econômicas e mesmo políticas

A eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na noite de 25 de outubro, às 9 horas da noite, para um quarto mandato presidencial, envolveu um conjunto de fato extenso de surpresas e revelações de natureza histórica. Pendências, irracionalidades e injustiças acumuladas desde o golpe militar de abril de 1964 agravaram-se durante a ditadura e emergiram aos poucos durante o cansativo regime de Jair Messias Bolsonaro, foram se depositando na consciência social e explodiram em atitudes do seu governo durante a pandemia.

As pesquisas eleitorais não levaram em conta o que é próprio da realidade política que não aparece nelas, mas aparecem no resultado das eleições. Mesmo com o recurso preventivo do chamado cálculo do erro amostral.

Reforma do Judiciário pode blindar ministros do STF, por Andrea Jubé

Valor Econômico

Esforços agora se voltam para o arrefecimento da crise institucional e a tentativa de reconstrução da imagem do Supremo

Enquanto as principais forças políticas da direita, do centro e da esquerda se alinharam para reconhecer o resultado da eleição presidencial, isolando o candidato derrotado à Presidência, senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), os esforços agora se voltam para o arrefecimento da crise institucional e a tentativa de reconstrução da imagem do Supremo Tribunal Federal (STF).

O que esperar de novo para Lula 4, por Vera Magalhães

O Globo

Em discurso da vitória, presidente disse ter entendido necessidade de fazer governo diferente, mas velhas premissas aparecem nas primeiras conversas

Lula deu poucos sinais sobre como pretende implementar a promessa que fez de improviso, no discurso da vitória, de que o novo governo será diferente do atual. Mas uma coisa a virada épica e os recados das urnas e das ruas no segundo turno deixam clara: não é possível agir com as premissas de sempre para chegar a um resultado novo.

São muitas essas premissas, a começar por uma clássica do modo lulista de compor equipes: premiar companheiros leais, tenham sido eles vitoriosos ou derrotados nas próprias disputas. Não há ministérios suficientes para recompensar a todos os que não se elegeram num primeiro turno que foi uma carnificina para a esquerda. Além disso, recorrer a esse expediente comum aos mandatos de Lula seria dar a seu derradeiro quadriênio uma cara de mais do mesmo que não condiz com o reconhecimento de que ele foi eleito não pelas qualidades do governo, mas pelo somatório de muitos e complexos fatores.

Flávio Bolsonaro encarnou o Brazil que não conhece o Brasil, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Ao errar nome do próprio país, ex-presidenciável mostrou que letra de Aldir Blanc continua atual

O Brazil não conhece o Brasil. No último debate presidencial, Flávio Bolsonaro ofendeu moradores de Belém ao descrever a cidade como um “esgoto a céu aberto”. “É urubu revirando comida na porta de casa, e as pessoas se acostumando a morar, a viver num lugar que tem cheiro ruim”, disse.

O Brasil nunca foi ao Brazil. Instado a apresentar ideias para o Nordeste, o senador afirmou: “Vou ser o carioca mais nordestino que vocês já viram na face da Terra”. Na Presidência, seu pai costumava se referir aos habitantes da região como “paus de arara”. “Se chamar cearense de cabeçudo, você não consegue identificar ninguém, lá todo mundo é cabeçudo”, gracejou, certa vez.

O perigoso legado de Janones, por Pablo Ortellado

O Globo

Deputado dá ideia de que só é possível vencer eleições com centralização, obediência e uma moral flexível

A surpreendente vitória de Lula, revertendo a derrota no primeiro turno, tem sido atribuída à estratégia digital de André Janones. Mas uma análise do canal de WhatsApp “Exército do Lula” sugere que a centralização da campanha pode ter limitado sua eficácia e, sobretudo, deixado um legado preocupante para a política brasileira.

Trump mantém críticas às eleições, porém anuncia que conversará com Lula, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

A disposição para o contato abre uma possibilidade de acomodação, mas convive com declarações que alimentam a narrativa do candidato derrotado

A fuga de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos foi politicamente desastrosa aqui no Brasil. Derrotado nas urnas, o senador tinha condições de disputar o comando de uma oposição numerosa, com força no Congresso e nos estados. Ao deixar o país e divulgar uma carta na qual se proclamava "verdadeiro presidente eleito do Brasil", transformou esse patrimônio numa crise de credibilidade. O recuo, substituindo a expressão por "líder do Brasil", agravou o constrangimento. Sua iniciativa não encontrou sustentação entre seus próprios aliados nem teve respaldo da Casa Branca.

O fim de duas eras se aproxima na política brasileira: o bolsonarismo e o lulismo, por Roberto Fonseca

Correio Braziliense

A disputa presidencial de 2026 sela o esgotamento do bolsonarismo e abre a contagem regressiva para a sucessão de Lula, exigindo renovação total nas urnas

A eleição presidencial, finalmente, chegou ao fim. Com uma virada inédita na disputa pelo Palácio do Planalto, temos hoje um cenário impensável uma semana atrás. Não pela vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, afinal, as pesquisas mostravam um empate técnico, com uma grande mobilização petista nas ruas e nas redes sociais na reta final. Mas por termos o candidato derrotado optado por deixar o país para trás, com seus quase 60 milhões de votos, e adotar um tom golpista menos de 72 horas após a apuração das urnas.

O voto não pode custar o emprego, por Valdir Florindo e Thomaz Werneck*

Correio Braziliense

As orientações presentes nas redes sociais para que empregadores examinassem os perfis dos empregados sinalizam que o próprio sustento do empregado pode estar em risco, mesmo com o voto protegido pelo sigilo

Entre 26 e 28 de outubro, após o segundo turno, o Ministério Público do Trabalho recebeu mais de 1.100 denúncias de assédio eleitoral. Circularam nas redes sociais orientações para que empregadores examinassem os perfis dos empregados e escolhessem quem deveria ser demitido. Até uma curtida pode virar indício de deslealdade profissional.

A disseminação dessas mensagens motivou o MPT a ajuizar, em 29 de outubro, ação civil pública contra a Meta, responsável pelo Instagram, Facebook e Threads. O órgão pede que a empresa retire publicações apontadas como incentivo à discriminação política e pague indenização de R$ 50 milhões por danos morais coletivos.

Um dia não é uma tese, por Giovanni Beviláqua*

Correio Braziliense

Um dia de queda de 13,88% não diz que a economia brasileira piorou na madrugada de domingo para segunda. Diz que muita gente estava do mesmo lado e que o lado perdeu

Toda segunda-feira depois de eleição produz o mesmo espetáculo retórico. De um lado, manchetes que tratam uma queda de bolsa como sentença sobre o futuro do país. De outro, uma tentativa igualmente apressada de negar que algo relevante tenha acontecido. Os dois erros têm a mesma raiz: confundir o preço de um dia com uma tese sobre a economia.

Vale começar pelo que efetivamente ocorreu. Na segunda-feira, o Ibovespa caiu 13,88%, e o dólar subiu 8,21%. São números enormes, os maiores em décadas, e não há nenhum interesse em minimizá-los. Mas número grande não é sinônimo de diagnóstico grave. É preciso perguntar o que aquele preço estava medindo.

A resposta é direta para quem conhece a mecânica: media a posição dos investidores, não a saúde da economia. O primeiro turno havia produzido um rali ancorado na expectativa de vitória da oposição e de ajuste fiscal mais duro. O capital estrangeiro entrou pesado nessa tese, com R$ 19,13 bilhões líquidos em outubro até o dia 22. Quando o resultado contrariou a aposta, todo mundo precisou sair pela mesma porta ao mesmo tempo. E quando todo mundo vende junto, o preço que se forma na abertura não é a média das avaliações sobre o Brasil, é o preço de uma fila.

Flávio, amigão de Lula, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Flávio isolou o bolsonarismo, lançou Tarcísio e deixou a direita livre para negociar com Lula

Com a sua fuga patética para os braços de Donald Trump e para o antro do sempre equivocado irmão Eduardo, Flávio Bolsonaro uniu o mundo político num rechaço uníssono, deu o pretexto que a direita precisava para negociar com Lula e isolou o bolsonarismo mais danoso no Congresso. É a volta da normalidade, com suas qualidades e defeitos, mas democrática.

Presentão de aniversário de 81 anos de Lula, que entra no quarto mandato mais aliviado e diante de mais equilíbrio e sensatez na Câmara e no Senado. Um presentão, também, para Tarcísio de Freitas, que, com uma ressalva conveniente daqui, outra dali, para não magoar Jair Bolsonaro, já está em plena campanha.

Entre Moraes, Alcolumbre e o PL, por Raquel Landim

O Estado de S. Paulo

A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva mudou significativamente a disputa pelo controle do Senado e, consequentemente, ajudou a dar fôlego ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, que vinha acuado pelo caso Vorcaro.

Enquanto o senador Rogério Marinho (PL-RN), candidato do PL que tenta ocupar a Presidência da Casa, quer pautar o impeachment do ministro, o atual presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil – AP), candidato à reeleição, já disse ser contra. Quando Flávio era o favorito, era jogo jogado. O PL somou impressionantes 29 cadeiras para a próxima legislatura e com os partidos do centrão apoiando-o, parecia simples fazer a presidência do Senado. Mais complicado seria chegar aos 54 votos necessários para impichar um ministro do Supremo, mas o ambiente político poderia criar uma espécie de “onda”. Ao frustrar os planos dos Bolsonaros de voltar ao Planalto, Lula virou a partida favorecendo Alcolumbre e Moraes. Com Lula na presidência e o PL com a maior bancada, os dois lados agora vão precisar conquistar o centrão para atingir seus objetivos.

Dizer que Lula 4 será Dilma 2 é exagero, assim como achar que não há risco de colapso, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Aperto das condições financeiras que houve depois da eleição logo chega à economia real

Cumprir à risca o arcabouço fiscal evita explosão certa, mas crescimento será bem baixo

Produção, vendas e emprego caíam no trimestre final de 2014. Despencavam quando Dilma Rousseff estava para voltar ao governo em 2015. Não há números indiretos e muito menos indicadores (que saem com atraso de uns dois meses) de que tal derrocada esteja acontecendo agora. Também não se está dizendo que Lula 4 seria reprise de Dilma 2. Primeiro, porque há providências a tomar a fim de impedir tal desastre. Segundo, porque o colapso que se viu a partir de 2015 não se deveu apenas à pavorosa política econômica.

Mas a dívida do governo e a dívida das pessoas são maiores do que no final de Dilma 1. Diminuir endividamento quando receita e salário crescem menos, se crescem, é mais difícil. Para piorar, problemas como gasto, dívida e eficiência da despesa do governo estão amarrados por uma camisa de força.

Janones e militância deram impulso decisivo à campanha de Lula, por Angela Alonso*

Folha de S. Paulo

Canal de WhatsApp encabeçado pelo deputado centraliza tarefas e acelera a ação nas plataformas

Estratégia converte apoiadores comuns em ativistas disciplinados

"Espontâneo" é juízo corriqueiro para megamobilizações, como a pró-Lula no segundo turno. O adjetivo oculta o trabalho organizacional que o enunciador desconhece.

A campanha foi tessitura de vários tecelões. Constituiu-se como rede nacional (com pernas globais), amarrio de iniciativas autônomas: militância partidária da base governista, lobby junto a elites sociais, ativismo presencial e digital.

Parte foi de carne e osso. Três exércitos de profissionais treinados no ativismo foram para a batalha. Um foi o petista raiz, socializado na redemocratização, que fez corpo a corpo e encheu os eventos de movimentos e sindicatos próximos ao PT.

As peripécias de um Bolsonarinho derrotado, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Flávio se evade para a Flórida e publica carta delirante com efeito cômico involuntário

Família fica isolada politicamente, mas resiliência do clã não deve ser subestimada

Marx errou. Ao menos no Brasil, a história não se repete como farsa, mas como sátira. O pós-derrota eleitoral de Flávio Bolsonaro superou o de Jair no quesito delírio com efeitos humorísticos involuntários.

Ambos optaram por curar a ressaca nos EUA, mas Flávio, em tese o moderado da família, recorreu a uma evasão rocambolesca e publicou uma carta que entrará para os anais da psiquiatria política na qual se declarou "verdadeiro presidente eleito" e que ilustrou com um brasão de armas da República com a inscrição "Estados Unidos do Brazil", que deixou de ser o oficial em 1968. Pensar que a população quase entregou as chaves do Planalto a este homem escancara as vulnerabilidades irredutíveis da democracia.

Aos trancos, os Bolsonaros dissolvem o capital político da família, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Flávio é o terceiro do clã a ficar de fora da cena nacional por erro de cálculo sobre os efeitos dos próprios atos

Considerando que na política não há vácuo, cedo ou tarde o lugar será ocupado por alguém na fila da direita

Os quase 60 milhões de brasileiros que optaram pelo candidato derrotado na eleição à Presidência tiveram seus votos inutilizados por ele. Em suma, foram feitos de palhaços.

No lance da fuga, de uma tacada Flávio Bolsonaro (PL) revelou sua face golpista e mostrou-se um colosso em matéria de autodestruição. Virou as costas para o eleitorado, deixou no "ora, veja" os políticos aliados, provou-se inabilitado para liderar a oposição e lustrou de razão o equívoco tático de Alexandre de Moraes de retomar a ofensiva judicial na base da afobação.

Advogado de araque, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Dos 38 presidentes da República, 23 eram advogados; isso não impediu os golpes

Flávio Bolsonaro, especialista em advogar em causa própria, quase foi mais um

No domingo (25) da eleição, os jornais abriram páginas com a galeria dos presidentes da República. Sob as fotos, a profissão e o mandato de cada um. Três foram eleitos, mas, por impedimento (Júlio Prestes) ou morte (Rodrigues Alves e Tancredo Neves), não tomaram posse.

Oito (Deodoro, Floriano, Getúlio e os cinco milicos de 1964) não foram eleitos —nem precisavam, porque tinham cavalos e tanques. E quatro exerceram mandatos-tampão constitucionais. Excluindo as reeleições (donde Lula só contou uma vez), foram 38 presidentes.

Direita entra em parafuso com fuga de Flávio, e Tarcísio desponta como novo líder, por Fábio Zanini

Folha de S. Paulo

Clã poderá ter de abrir espaço para nome mais ao centro em 2030

Senador havia saído fortalecido de eleição, mas pôs tudo a perder com ida aos EUA e carta golpista

O que acontecerá com a direita brasileira após a fuga espetacular de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos?

Seria o fim do domínio dessa família sobre a parte mais conservadora do eleitorado?

Passado o choque inicial da escapada do senador na calada da noite, essas são as perguntas que vêm sendo feitas por bolsonaristas que agora se sentem meio órfãos.

Afinal, Jair está preso, enquanto Eduardo e Flávio estão fora do país. Carlos e Michelle Bolsonaro, os novos senadores da família, são meio inexperientes e ainda uma incógnita. Tem também o Jair Renan, eleito deputado federal, mas esse deixa para lá.

Poesia | André Morais | Por que cantamos, de Mario Benedetti

 

Música | Elis Regina - Maria, Maria

 

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais\Opiniões

STF tem de sortear o inquérito sobre dinheiro estrangeiro

Por O Globo

Dino se tornou relator da investigação de Flávio graças a manobra que viola princípio estabelecido por Fachin

É meritória a investigação das suspeitas de financiamento estrangeiro à campanha eleitoral derrotada do senador Flávio Bolsonaro (PL). O PT e o partido Missão apresentaram ao Supremo Tribunal Federal (STF) e ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) indícios de que empresas de fora do país aportaram recursos em benefício de Flávio e de que sua propaganda foi veiculada em perfis estrangeiros de redes sociais sem identificação do pagador — tudo isso em desafio à lei eleitoral. O próprio Conselho Supervisor da Meta (dona de Instagram, Facebook e WhatsApp) manifestou preocupação com o descumprimento de normas eleitorais brasileiras pela empresa, em detrimento da candidatura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Mas o método adotado para colocar sob a supervisão do ministro Flávio Dino a investigação de tais suspeitas viola princípios legais e expõe mais uma vez o uso do Judiciário para fins políticos.

Desafios imediatos para os vencedores, por Míriam Leitão

O Globo

O governo tem que se concentrar nos problemas a resolver. Na prática o novo mandato já começou. A fuga de Flávio Bolsonaro é a crise da oposição

O novo mandato do presidente Lula, na prática, já começou e o governo tem decisões a tomar. A instabilidade financeira precisa ser entendida com racionalidade. O governo aumentou muito os gastos no período eleitoral e a economia está sem parâmetros. A oposição está às voltas com a fuga de Flávio Bolsonaro. Ela foi planejada com muita antecedência. As informações desencontradas da terça eram parte de uma operação despiste. O país ficou preso nas versões, enquanto Flávio Bolsonaro permanecia em solo brasileiro. O governo não pode ser tragado pela confusão criada pelo perdedor. Deve focar em suas próprias prioridades. A economia é uma delas.

Carta encolhe ainda mais Flávio, por Julia Duailibi

O Globo

Candidato derrotado virou uma caricatura de líder de oposição, autoexilado sob o sol de Miami Beach

Flávio Bolsonaro conseguiu um feito impressionante. Em tempo recorde, se apequenou como líder da oposição e conseguiu produzir algo que parecia improvável: juntou setores da direita e do governo nas críticas a suas declarações golpistas. Para atingir tal façanha, não foi necessário nenhum fato novo revelado pela Polícia Federal nem a publicação de eventual conversa pouco republicana. Flávio precisou apenas de ausência de tino político, sinapse tortuosa e conselhos ruins de meia dúzia de aloprados. Como resultado, no curto prazo de três dias, fez evaporar parte considerável do capital político adquirido com os quase 60 milhões de votos que recebeu.

Flávio Bolsonaro submete a direita ao vexame com fuga e carta golpista, por Malu Gaspar

O Globo

O pouso de Flávio Bolsonaro (PL) no aeroporto de Opa-Locka encerrou ontem uma bem-sucedida operação de contrainformação que lhe permitiu chegar em segurança à terra de Donald Trump a partir do país comandado por Javier Milei. Enquanto escapava do Brasil para a Argentina, ainda não se sabe exatamente como, seu irmão Eduardo, com alguns asseclas, plantava notas na imprensa brasileira dizendo que Flávio estava voando ou já havia chegado a Miami e em breve daria uma entrevista coletiva para se explicar. As horas seguintes mostraram que aquela tinha sido a parte fácil e, por incrível que pareça, menos patética do plano.

Napoleão de hospício, por Merval Pereira

O Globo

Depois de fugir, Flavio Bolsonaro se coloca como presidente eleito, como se o mundo estivesse no lugar errado, e ele no certo

Qual um Napoleão de hospício, o candidato derrotado à Presidência da República no Brasil, Flávio Bolsonaro, anuncia-se ao mundo como presidente eleito, depois que esse mesmo mundo, por meio dos principais países e organismos internacionais, cumprimentou o presidente Lula por sua reeleição. Talvez o mundo de Flávio seja mesmo outro. Na carta, ele revela que teve ajuda da Argentina, do também extremista de direita Javier Milei, e dos Estados Unidos de Donald Trump, o que representa uma ação política irresponsável daqueles dois países. Até o partido do candidato derrotado aceitou o resultado, reconhecendo Lula como legítimo presidente eleito.

Entrevista | Demanda por mudança ficou evidente na eleição, diz Boulos, por Sofia Aguiar e Lucas Borges Teixeira

Valor Econômico

Ministro da Secretaria-Geral da Presidência reconhece que aumento do custo de vida prejudicou o presidente na disputa eleitoral

Vencida a eleição presidencial, o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, afirma que durante a disputa ficou evidente a demanda da população por mudança e, portanto, o governo Lula 4 deve ser diferente deste terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ele reconheceu que o aumento do custo de vida gera um mal-estar que prejudicou o governo no pleito, um fenômeno mais complexo e que vai além da comunicação.

Olhando para o futuro, diz que o Executivo precisará do apoio das ruas para governar, diante das dificuldades que enfrentará no Congresso. Ao mesmo tempo em que defende que se avance na agenda da “justiça tributária”, o ministro aponta a necessidade a construção de um “pacto nacional de aumento da produtividade”. Segundo ele, esse pacto buscará a promoção do investimento em pesquisa, desenvolvimento e inovação, sobretudo nos setores digital, de processamento e refino de minerais críticos e de transição energética. “Essa é a economia do século 21”, disse ele em entrevista exclusiva ao Valor. “Essa é uma agenda que não tenham dúvidas estará presente no Lula 4.” Ele também voltou a defender que o governo encaminhe um projeto de regulamentação de motoristas de aplicativo, mas acha difícil que aconteça ainda este ano.

Atual responsável pela articulação do Planalto com movimentos sociais, Boulos, que hoje é deputado federal licenciado e não terá mandato a partir do ano que vem, disse que ainda não conversou com Lula se permanecerá no atual ministério ou se seguirá para outra pasta. Sobre a possibilidade de sair do Psol e ir para o PT, disse que discussões nesse sentido ainda serão feitas neste ano, mas, por ora, não há nenhum acordo fechado. Para ele, Lula precisa fazer um “grande governo” para que a esquerda chegue com força em 2030, quando o presidente não poderá tentar a reeleição. Segundo o ministro, sua preocupação é garantir o campo progressista unificado no próximo pleito.

A seguir os principais pontos da entrevista ao Valor:

Se Flávio Bolsonaro tinha pressa é porque sabe o que fez, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

O eleitor já fez sua parte, cabe agora às instituições fazerem a sua

Na manhã desta quarta-feira, segundo comunicado da imigração da Argentina, o senador Flávio Bolsonaro cruzou a ponte Tancredo Neves para entrar naquele país. A se fiar nesta informação, o candidato derrotado do PL à Presidência ainda estava em território brasileiro quando Tarcísio de Freitas e Michelle Bolsonaro tomaram suas posições.

O governador publicou um vídeo em que reconhece o resultado das eleições e convoca a direita para fiscalizar o governo federal, e a senadora eleita posou para foto com Valdemar Costa Neto nas redes do presidente do partido. Quando Flávio Bolsonaro já estava quase em Miami, depois de escala em Guayaquil, no Equador, outro candidato a herdeiro, o senador eleito Carlos Bolsonaro, gravou vídeo em que, sem citar o irmão, relatou visita ao ex-presidente em prisão domiciliar: “Desculpa, pai, a gente falhou”.

Lula tira por menos a fuga de Flávio, mas subestimar Bolsonaro é um erro, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

É prematuro afirmar que a oposição está acéfala e se abriu caminho para uma substituição rápida de comando. O bolsonarismo continua tendo Jair Bolsonaro como principal referência

O autoexílio de Flávio Bolsonaro nos Estados Unidos pode custar ao senador prestígio entre aliados, mas seria um erro do governo Lula confundir sua fuga com a desarticulação do bolsonarismo. A distância física não elimina a capacidade de mobilização de um movimento de massas, de características messiânicas, sobretudo quando um de seus principais representantes encontra acolhimento na maior potência mundial. A associação com o secretário de Estado americano, Marco Rubio, mesmo sem passar recibo, deve ser considerada um problema político e diplomático, cujo alcance ultrapassa o destino do candidato derrotado.

Ao chegar aos Estados Unidos, Flávio agradeceu a Donald Trump e ao presidente argentino, Javier Milei, alegou fraude eleitoral e apresentou sua saída como reação a uma perseguição política. Proclamou-se o verdadeiro presidente eleito do Brasil. A declaração parece estapafúrdia, mas tem a finalidade de tratar a derrota nas urnas como uma usurpação do poder e sua escapada como uma estratégia de resistência. A fuga deve ser avaliada pela repercussão entre os seguidores, para os quais a denúncia de perseguição confirma convicções anteriores.

O jornalismo e as eleições, por Eugênio Bucci

O Estado de S. Paulo

Não há como chamar a direita e a extrema direita antidemocrática pelo mesmo nome. Os dois fenômenos são distintos, jamais poderiam ter se embaralhado no discurso jornalístico

E, de repente, não menos que de repente, a coisa não coube mais no próprio nome, o fato escapou ao relato e o objeto discrepou do conceito. Parecia haver um problema com os eventos da realidade, mas não era isso. O problema não estava nas coisas, nos fatos e nos objetos, mas no modo como o jornalismo os nomeava. Recapitulemos.

Enquanto a campanha eleitoral pegava fogo, gente de direita começou a dizer que não estava à vontade na direita. Personagens expressivos do chamado campo conservador, ou seja, personagens notoriamente da direita, passaram a atacar a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL), que vinha sendo qualificada nos órgãos de imprensa, com poucas exceções, como a chapa de direita. O general Santos Cruz, a ex-deputada Joice Hasselmann e até João Amoêdo, entre várias outras pessoas, todas de direita, passaram a repudiar a candidatura que representaria a direita no segundo turno. Mas como assim, perguntava o cidadão? Não eram todos igualmente de direita? O público se sentia tragado por uma dissonância cognitiva. Se Flávio Bolsonaro era o representante da direita, como diziam os jornais, o rádio e a TV, por que tanta gente da direita o rejeitava?

Buscando nomes, por William Waack

O Estado de S. Paulo

O bolsonarismo vai se despedindo da condição de comandar a ‘direita’

Há algumas leis da prática da política que transcendem postulados ideológicos. Uma delas é que poste de líder vivo não vira líder. No caso do impedimento do líder, preso ou fora do País, o poste precisa estar onde o líder não está – ou seja, na rua ou no País.

Flávio Bolsonaro já não teria como comandar a oposição a Lula mesmo antes da patética postura de assinar e recuar de uma carta golpista lá nos distantes EUA. Sua principal credencial como candidato tinha sido o dedo do pai, que excluiu qualquer nome de fora do clã por interesse pessoal. Arriscou perder a eleição para não perder o “comando” da direita. Perdeu os dois.

Ex-presidentes do PT veem necessidade de que governo Lula 4 fale com novas bases políticas, por Leonardo Fuhrmann

Folha de S. Paulo

Tarso Genro, José Genoino e Olívio Dutra admitem que vitória só veio por eleitores que consideraram Flávio Bolsonaro ameaça à democracia

Para eles, além dialogar com forças democráticas de direita, presidente precisa reforçar participação popular nas decisões

Na avaliação de três ex-presidentes do PT, a vitória do presidente Lula no segundo turno da eleição deste ano foi muito maior do que a do partido e mesmo a de seus aliados na eleição. O petista teve apoio da Rede, PSOL, PSB, PV e PDT e grupos locais de partidos como o PSD e o MDB.

Por isso, apontam a necessidade de que o PT amplie o diálogo, principalmente com os eleitores que lotaram as ruas durante o mês de outubro. Outros líderes de esquerda que participaram das manifestações destacaram, em discursos, a necessidade de manter uma mobilização popular mesmo após a vitória, inclusive como resposta à força da direita e da extrema direita em governos estaduais, na Câmara dos Deputados, no Senado e nas Assembleias Legislativas.

Quem vai aderir ao novo golpe dos Bolsonaros? Por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Flávio quer revolta golpista contra eleição 'roubada' e 'tirania', mas por ora está sozinho

Senador escafedido compara Brasil a país sob ocupação nazista ou domínio colonial

Flávio Bolsonaro coroou-se líder de uma campanha contra uma "tirania", um "regime de exceção", uma eleição "roubada". Comparou-se a Charles de Gaulle (1890-1970), general que liderou a resistência contra a ocupação nazista da França (1940-1944), depois presidente do país.

Em grau de delírio ignaro um tanto menor, mas politicamente mais perigoso, se comparou a políticos que combatiam no exílio a ditadura chavista. Estaria sugerindo uma intervenção trumpista? Qual delas? A que sequestrou o ditador Nicolás Maduro ou aquela que mantém no poder da Venezuela a esbirra neocolonial Delcy Rodríguez?

Flávio não é perseguido, não há ditadura judicial, por Conrado Hübner Mendes

Folha de S. Paulo

Casas de tolerância à delinquência política explicam como Bolsonaros são possíveis

Ordem de retenção de passaporte precisa ser escrutinada pelo STF, mas não faz de senador um perseguido em regime ditatorial

A família Bolsonaro nunca se destacou pela coragem. Nem pela honestidade ou defesa da liberdade. Encontre na família uma virtude, um projeto de valor público, um gesto de civilidade. Uma ideia que não remeta à arma ou à tortura.

A reincidência na covardia e na mentira está catalogada nos registros da história e nas investigações criminais. Nem se fale do uso do cargo para fins privados. Da corrupção, enfim.

Flávio prometia mudança e se mudou. Fugiu para o país ao qual oferecia, se eleito, nossas riquezas naturais, como minerais críticos, e institucionais, como o Pix. Flávio disse que aceitaria o resultado, entregaria os passaportes e não fugiria. Do mesmo jeito que afirmou não conhecer Daniel Vorcaro nem o careca do INSS, nem ser sócio de Willer.

Com chanchada política, Flávio menospreza Brasil e apoiadores, por Marcos Augusto Gonçalves

Folha de S. Paulo

Carta delirante em que se autoproclama presidente e se compara a Rui Barbosa evidencia equívoco de apoio de setores das elites e mercado ao candidato

Direita democrática não consegue erigir candidatura competitiva à Presidência e pega carona em populistas e autoritários

A fuga de Flávio Bolsonaro para Miami se já era patética, tornou-se uma chanchada política com a carta que o candidato derrotado divulgou. No documento golpista, inicialmente acompanhado do antigo brasão do Brasil, vigente entre 1889 e 1968, o fujão se autoproclamou presidente eleito do Brasil e comparou-se a Rui Barbosa. Parece viver num mundo paralelo, numa ficção bizarra e insustentável.

Êxito além-fronteiras, por Maria Hermínia Tavares

Folha de S. Paulo

Reeleição de Lula tem ao menos três efeitos de importância internacional

Brasileiros provaram ser possível vencer a extrema direita votando livremente

Imprevisível, inédita e inquestionável, a reeleição do presidente Lula tem efeitos positivos mais vastos do que a auspiciosa derrota do que há de pior na política brasileira. Três deles, ao menos, possuem dimensão internacional e potencial para fortalecer a presença externa do Brasil.

O primeiro é que a amazônia escapou do previsível avanço da degradação, patrocinado pelo negacionismo em aliança com o crime. A proteção da floresta continua a ser um problema maiúsculo de interesse global. Seu enfrentamento requer do governo clareza de objetivos; capacidades estatais acrescidas; recursos utilizados com sabedoria; cooperação internacional; e inteligência política para dialogar e arbitrar interesses legítimos e conflitantes: populações indígenas e tradicionais; produtores rurais; pecuaristas; mineradores legalizados; a numerosa população que vive em suas cidades.

A diferença entre direita e esquerda, por Marcelo Rubens Paiva

Folha de S. Paulo

Um lado vê a desigualdade como um problema a ser enfrentado pela ação do Estado

O outro prefere um Estado mínimo, com as pessoas cuidando da sua segurança, saúde e educação

Na semana da eleição, um grupo de 50 estudantes do segundo ano do ensino médio, de cinco escolas paulistanas, queria que eu explicasse o que era direita e esquerda. Votariam pela primeira vez.

Formaram um círculo de cadeiras de plástico brancas no salão de festas do meu condomínio. Sei que aqui tem alunos de direita, ou que a família é de direita, e respeito a convicção de cada um de vocês, comecei.

Isso é democracia. Aliás, se fosse na ditadura militar, esta reunião jamais seria possível. O zelador ou o síndico chamaria a polícia, seríamos presos e talvez torturados, contei.