sábado, 7 de novembro de 2026

O identitarismo perdeu a eleição , por Thaís Oyama

O Globo

Eleitores escolheram quem acreditam poder atender seus interesses, não necessariamente quem se parece com eles

Direita e esquerda têm uma tendência irresistível a idealizar vitórias. Jair Bolsonaro, em 2018, e Donald Trump em 2024, falaram em “libertação da pátria” e “restauração moral” da sociedade. Na esquerda, o “triunfo da consciência democrática” foi o mote do discurso da vitória de Lula em 2022. Agora, a virada épica do petista sobre o rival, reza a narrativa vencedora, deveu-se à mobilização da juventude que saiu às ruas para lutar contra o fascismo. Quem ganha a eleição gosta de acreditar que o eleitor abraçou seus ideais mais elevados. A possibilidade de que ele tenha votado para gastar menos no supermercado, ganhar mais benefícios, melhorar de vida, ficar com o “menos pior” ou simplesmente se livrar de quem governa fica sempre em segundo plano.

O voto brasileiro, por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

A formidável e surpreendente vitória de Lula contra a extrema-direita no Brasil foi ponto de honra. Exemplo para o eleitor norte-americano

A democracia é o pior regime de governo, excetuados todos os outros. A frase é de Winston Churchill. É uma verdade incontestável. A guerra contra o Irã, que as forças armadas dos Estados Unidos não conseguiram resolver, provocou a derrota de Donald Trump. Os eleitores colocaram os democratas na frente de governos, fizeram a maioria nas duas casas do Congresso e ainda elegeram sete brasileiros para câmaras estaduais. O Partido Democrata alcançou feito só comparável à vitória obtida em pleito após o escândalo de Watergate, quando repórteres do Washington Post descobriram que o então presidente Richard Nixon havia determinado a invasão do escritório do Partido Democrata. 

Tsunami azul enfraquece a ultradireita nos EUA, por Marco Aurélio Nogueira*

Revista Será?

A eleição de Lula no Brasil e a dos democratas nos EUA separaram-se por cerca de dez dias, a primeira em 25 de outubro e a segunda em 3 de novembro. Ambas foram comemoradas como conquistas democráticas, embora tenham tido características distintas. E resultaram de posicionamentos eleitorais dominados pela rejeição de candidaturas de extrema direita, Flavio Bolsonaro no Brasil, Donald Trump nos EUA.

Os democratas norte-americanos venceram embalados por um grande repúdio ao governo Trump. Subiram à tona o custo de vida, a inflação, as denúncias de corrupção, os gastos nababescos do governo, as guerras e as intervenções, as ameaças e acusações cruéis contra minorias e imigrantes. As promessas megalomaníacas que Trump fez em 2016 e repetiu em 2024 desmoronaram diante dos fatos eloquentes da vida cotidiana.

A vitória e o desafio dos democratas, por Hubert Alquéres*

Donald Trump pediu aos americanos que votassem nas eleições de meio de mandato como se seu nome estivesse nas urnas. Foi atendido. A derrota republicana de 3 de novembro devolveu aos democratas o controle das duas Casas do Congresso e atingiu estados que pareciam protegidos pela fidelidade ao presidente. As urnas impuseram um limite ao seu poder. Mas seria precipitado confundir esse resultado com o encerramento dos riscos de seu governo.

Os números dão a dimensão da mudança. Até o fechamento das edições de quinta-feira, o bloco democrata tinha 54 cadeiras asseguradas no Senado, contra 44 republicanas, com duas disputas pendentes. Conquistou sete cadeiras antes ocupadas pelos republicanos, incluindo as do Texas, Kansas, Ohio e das duas Carolinas. Na Câmara dos Representantes, já havia conquistado 237 das 435 cadeiras, com a apuração ainda em andamento.

O que a mídia pensa | Editoriais\Opiniões

Revés extremista

Por CartaCapital

O simbolismo da derrota de Trump e dos percalços de Benjamin Netanyahu

Vermelha no Brasil, a onda mudou de cor ao chegar aos Estados Unidos. O azul do Partido Democrata coloriu o mapa da “América” na terça-feira 3 e impôs uma derrota incontestável a Donald Trump. Insatisfeitos com o custo de vida, os rumos da guerra no Irã e a transformação da Casa Branca em um guichê de negócios, os eleitores norte-americanos decidiram impor os primeiros limites aos delírios imperiais de um presidente que havia ultrapassados todas as linhas vermelhas da compostura e da decência. Caberá à oposição entender não só o voto de confiança, mas a responsabilidade de comandar a Câmara dos Deputados e do Senado e oferecer uma alternativa competitiva de poder. Sob Trump, os EUA se tornaram uma ameaça ainda maior à liberdade, ao multilateralismo e à paz mundial. E sem conseguir reverter o lento, porém inexorável, declínio político e econômico do país. Nero moderno, o republicano incendeia a nação e joga a culpa nos outros – nos aliados “incompetentes”, nos “comunistas”, nos imigrantes.

Chantagem macroeconômica, por Luiz Gonzaga Belluzzo e Manfred Back

CartaCapital

O câmbio, refém da volatilidade de capitais, afeta de modo inapelável a determinação dos juros

André Lara Resende, em seu artigo “Eu acuso”, tem o papel importante de restabelecer o debate a respeito das políticas monetária e fiscal e questionar os dogmas do pensamento único. Nosso artigo de hoje tem o propósito de considerar as sugestões oferecidas por André.

Vamos iniciar nosso despretensioso périplo escrevendo sobre o dinheiro, um bicho nervoso, sensível e pragmático. Tem sua própria lógica, vive procurando oportunidades de acumular mais dinheiro. Os “técnicos” no assunto afirmam que o dinheiro não tem ideologia e partido político. Discordamos: na economia monetária-financeira, quem comanda o jogo é a “ideologia” nascida do poder do dinheiro.

Um país para depois da vitória, Celso P. de Melo*

CartaCapital

A experiência de Mandela permite entender por que vencer uma eleição difere de reconstruir uma sociedade

Na noite de 25 de outubro, poucas horas depois de confirmada sua vitória, Lula disse que, encerrada a eleição, já não tinha mais adversários: precisava governar para 215 milhões de brasileiros. Ninguém era obrigado a gostar do presidente eleito, acrescentou, mas ele teria de governar para todos. A frase parece simples. Não é. Uma eleição termina quando os votos são contados. As divisões que revelou não desaparecem na mesma noite. Vencedores e vencidos continuam morando nas mesmas cidades, trabalhando lado a lado e dependendo das mesmas instituições. O adversário derrotado continua sendo cidadão no dia seguinte.

Primavera brasileira, por Pedro Serrano*

CartaCapital

O Brasil vira exemplo de resistência ao avanço da extrema-direita

Não é exagero chamar de épica a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva em 2026. Um dos marcos históricos desse pleito é o de ter sido a primeira vez, desde a adoção do sistema de dois turnos, em 1989, que um candidato acabou eleito após ficar em segundo lugar na primeira votação, feito que a mídia e a sociedade consideravam praticamente impossível.

A maneira pela qual se deu essa virada nas urnas é especialmente memorável. Ela foi fruto de uma grande mobilização nacional, que envolveu sobretudo a juventude do País, tanto nas redes sociais quanto nas ruas, constituindo um espaço único e fluido de troca de ideias e encaminhamento de ações. Um dos aspectos mais comoventes dessas movimentações é, sem dúvida nenhuma, o seu caráter espontâneo, o fato de não terem sido orquestradas por qualquer diretriz oficial de campanha. Essa característica foi constatada desde a primeira das manifestações, ocorrida em 5 de outubro, logo após a divulgação da predominância de Flávio Bolsonaro no primeiro turno. Na ocasião, estudantes da Universidade Federal Fluminense, em Niterói, saíram às ruas em apoio a Lula de forma orgânica e autêntica. Segundo depoimentos dos próprios participantes, a motivação principal dessa manifestação foi evidenciar que a democracia estaria gravemente ameaçada numa eventual vitória do senador.

Terceiro turno, a batalha da vez, por Roberto Amaral*

A Bolsa de Valores comemorou o resultado do primeiro turno batendo recorde de ganhos, com uma alta de 7,7%, completada com o recuo do dólar em 4%. Os especuladores fizeram sua festa. Contudo, a aposta do mercado, que tinha nome e programa, foi, para alívio do país, derrotada nas urnas na segunda volta, assustando a coalizão financeiro-rentista que capturou o orçamento da União e, por ofício, transfere renda para uma minoria mínima, aprofundando a desigualdade social. 

A reação não se fez esperar: no pregão do dia 26, puniu o voto. O Ibovespa caiu 13,88%, o dólar subiu 8,21% e os juros futuros saltaram para 15,25%.

A revanche do capital não é uma reação conjuntural de operadores, mas a forma política necessária de um capital que não se valoriza pela produção, e precisa submeter a política eleitoral e o orçamento público à sua reprodução. A análise política explicita o movimento: depois de apostar no bolsonarismo e perder, a Faria Lima cobra de Lula o programa derrotado nas urnas. O dito “mercado” não aceita o resultado eleitoral como definição da vontade política; desloca a disputa para o orçamento e para a política monetária, tentando transformar o programa derrotado nas urnas em precondição da governabilidade. 

O indecifrável diálogo entre economia e política, por Marcus Pestana

Quis o destino que eu frequentasse esses dois universos:  o da política e o da economia. Às vezes parece conversa de bêbado – um mar de incompreensões e mal-entendidos. As motivações são semelhantes, mas os caminhos nem sempre se encontram. Toda corporação profissional tem lá sua linguagem complexa e hermética como proteção defensiva de seu campo específico de conhecimento. Data a máxima vênia é a senha dos advogados para barrar o acesso de intrusos à sua órbita de ação. Basta indicar talimogene laherparepvec, identificar um sinal patognomônico ou diagnosticar uma tromboangeite obliterante para um médico demarcar campo com leigos metidos à auto diagnose e automedicação.

La América Latina y la Sostenibilidad: ¿cuáles son las perspectivas y retos? Por George Gurgel de Oliveira*

I. Las Relaciones Sociedad y Naturaleza 

Vivimos tiempos sombríos y de grandes desafíos para la afirmación y la defensa de la democracia, de la Paz y de la sostenibilidad de nuestra América Latina y del planeta.

 La ampliación de la conciencia ambiental a nivel mundial es una necesidad para la construcción de una nueva perspectiva de sociedad que sea democrática y sostenible. Los problemas económicos, sociales y ambientales, tanto mundiales como continentales y nacionales, continúan siendo retos políticos a ser resueltos para la construcción de otra perspectiva de ocupación del planeta por la sociedad humana.

¿Es posible una sociedad mundial sostenible?

La búsqueda de alternativas para la superación de la realidad actual insostenible, reclama la necesidad de construir una nueva agenda para las cuestiones de la sostenibilidad mundial, continental y nacional (Agenda 21, ONU, ECO 92, Agenda 20-30).

Poesia | O Cão Sem Plumas, de João Cabral de Melo Neto

 

Música | Caetano Veloso - EVOCAÇÃO Nº 1, de Nelson Ferreira

 

sexta-feira, 6 de novembro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais\Opiniões

Crise no Paraguai expôs regulação bancária frágil

Por O Globo

Paralelo entre fraude que derrubou presidente e escândalo Master é tentador, mas casos são distintos

A renúncia do presidente do Paraguai, Santiago Peña, não foi aceita ontem no Congresso e não evitou que a Câmara aprovasse processo de impeachment contra ele. Foi o resultado natural da corrida bancária causada pelo colapso do Ueno Bank, o maior banco digital do país. Na terça-feira, o Banco Central (BC) assumiu o controle do Ueno, a Procuradoria emitiu mandado de prisão contra vários de seus executivos, e 3 milhões de correntistas não conseguiram mais acessar suas contas. Apesar de o Paraguai dispor de um fundo para garantir depósitos bancários, o BC limitou saques. O comunicado gerou pânico, e imediatamente o Parlamento se movimentou pelo impeachment.

Oásis fiscal paraguaio era uma miragem que atraiu empresas brasileiras, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Os baixíssimos impostos melhoravam os resultados das empresas, porém já não garantem que o dinheiro destinado à folha de pagamento estará disponível na manhã seguinte

A crise do Ueno Bank e a derrocada de Santiago Peña desfizeram uma ilusão vendida a empresários brasileiros de que bastaria atravessar a fronteira para encontrar impostos baixos, energia barata e segurança permanente para investir. Peña apresentou sua renúncia nesta quinta-feira, enquanto avançava na Câmara a acusação para seu impeachment. O desmoronamento de seu governo já expõe a fragilidade do paraíso anunciado.

A miragem não estava na existência de vantagens competitivas paraguaias. Estava na promessa de que elas dispensariam instituições sólidas, fiscalização independente e proteção efetiva da poupança. Os baixíssimos impostos melhoravam os resultados das empresas, porém já não garantem que o dinheiro destinado à folha de pagamento estará disponível na manhã seguinte. Quando o aplicativo do banco já não funciona e os depósitos são bloqueados, o oásis da simplicidade tributária vira uma miragem sem encantamento.

A ilusão paraguaia, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Flávio exaltou 'visão de futuro' de Santiago Peña, que renunciou em meio a escândalo bancário

O chamado foi feito por Luciano Hang, dono das lojas Havan. “Empresários brasileiros, venham para o Paraguai!”, conclamou. “Aqui empresário não paga a ineficiência do governo. Aqui você paga poucos impostos. Pode se desenvolver, pode crescer”, animou-se o bilionário catarinense.

O Louro José do bolsonarismo estava empolgado. Convidado pelo presidente Santiago Peña, aproveitou a viagem para propagandear as maravilhas de Assunção. “Olha só os prédios. Muita modernidade! Você nota nas ruas e nas pessoas a alegria. Parabéns, Paraguai!”, derramou-se.

Para uma nova esquerda III, por Pablo Ortellado

O Globo

Concepção simpática ao crime permanece difusa na cultura política

Concluo hoje a série de colunas sobre os desafios da esquerda. Na série, argumento que a missão atual da esquerda é dupla: precisa oferecer respostas alternativas aos problemas colocados pelo populismo radical de direita, mas sem se deixar confundir com ele. Em outras palavras, tem de enfrentar as questões levantadas pelo conservadorismo moral, pelas novas formas de trabalho e pelo populismo penal, oferecendo uma abordagem alternativa que seja distintivamente progressista. A nova conjuntura, porém, pode levá-la a adiar mais uma vez a tarefa de se reinventar, apostando que a vitória nas eleições presidenciais abre o horizonte de vitórias eleitorais sucessivas, até que o populismo de direita morra de cansaço e desapareça por si só.

O povo segurou a democracia, por Vera Magalhães

No Brasil e nos Estados Unidos foi a sociedade civil que conteve movimentos que colocavam em risco as instituições e os direitos civis; a Lula e aos democratas resta entender as razões da vitória

As realidades das eleições no Brasil e nos Estados Unidos são em tudo distintas, mas os tombos que bolsonarismo e trumpismo levaram num intervalo de poucos dias têm em comum a resposta rotunda da sociedade dos dois países a riscos concretos e já experimentados para a normalidade democrática. O povo foi às ruas, às redes e às urnas e disse, alto e bom som, que a democracia é um valor absoluto e que líderes com propensões autocráticas e uma agenda personalíssima podem ter seu apelo, mas não são capazes de dar respostas duradouras e seguras aos desafios complexos de um mundo em profunda e rápida transformação.

A insurreição silenciosa, por José de Souza Martins

Valor Econômico

O milhão de jovens na avenida Paulista mostrou a cara de um novo sujeito político: os que recusam a iniquidade de nascer para o abandono de uma sociedade cada vez mais rica e de alguns

Até os últimos minutos da apuração dos resultados eleitorais do pleito presidencial de 25 de outubro, havia sérias dúvidas quanto a qual dos candidatos seria o eleito para a Presidência da República. As dúvidas tinham fundamento na comprovada eficácia aos recursos ilícitos criados e movimentados nas últimas décadas para impedir a alternância democrática de governo.

A disputa não era e nem tem sido entre esquerda e direita. Nem tem sido uma manifestação da luta de classes. É inútil invocar esses chavões da história do último século para explicá-la. Aqui há cientistas sociais que propõem essa compreensão da realidade política.

Esses marcos estão referidos a uma concepção de temporalidade histórica de um agora de horas e minutos próprios do imediato da sociedade de consumo e não próprios do processo histórico e político. Os de uma sociedade que teve sua concepção de destino usurpada pelos beneficiários das urgências da reprodução ampliada do capital. As de um capital rentista, anticapitalista. Uma riqueza de mera reprodução do subdesenvolvimento econômico e social.

Lula fala em responsabilidade fiscal para atrair capital estrangeiro

Por Giordanna Neves, Lu Aiko Otta, Mariana Andrade e Lucas Teixeira, \ Valor Econômico

Declaração ocorre após encontro com ex-ministro e economistas próximos para discutir diretrizes para a economia no quarto mandato

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu nesta quinta-feira (5) que são necessárias responsabilidades fiscal e jurídica para atrair investimentos estrangeiros ao Brasil. Em meio à crescente preocupação do mercado com a política fiscal, as afirmações foram feitas horas depois de reunião realizada por ele com o vice-presidente Geraldo Alckmin, ministros, ex-ministros e economistas próximos do próprio Lula.

“Nós temos de ter responsabilidade jurídica e responsabilidade fiscal. Por isso que a gente não pode brincar de fazer parcerias", afirmou durante a primeira reunião do Conselho Nacional para a Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos (Cimce), no Palácio do Planalto. “Sabemos que, para atrair, temos que ter uma economia arrumada. As pessoas querem saber se estamos falando sério.”

Quem é o verdadeiro ministro da Fazenda de Lula, por Andrea Jubé

Valor Econômico

Independentemente de quem se sentar na cadeira de ministro da Fazenda, a palavra final sobre a política fiscal será, invariavelmente, de Lula

Duas ausências chamaram a atenção no almoço do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, nessa quinta-feira (5), com economistas: do governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles (PT), que continua cotado para o Ministério da Fazenda, mas submergiu; e de André Lara Resende, que não teve agenda com Lula, conforme esclareceu o ministro da Fazenda, Dario Durigan.

Além de ouvir os convidados sobre medidas para frear a alta da dívida pública, a obsessão do presidente é encontrar instrumentos viáveis para reduzir os juros. Alguns auxiliares o aconselharam a antecipar o nome do futuro ministro da Fazenda. Se o escolhido se comprometer com algum ajuste fiscal - um ajuste rigoroso tem o veto de Lula -, e despertar credibilidade no mercado, os juros futuros poderiam começar a cair, e isso abriria caminho para o recuo gradual da Selic. Mas o presidente descartou essa antecipação. Mais do que isso, fontes do entorno presidencial afirmam que ele ainda não escolheu o ministro da Fazenda, nem formalizou nenhum convite.

Paisagem depois da batalha, por Fernando Gabeira

O Estado de S. Paulo

O novo governo terá a possibilidade de lançar na mesa alguns temas de unidade nacional

As eleições trouxeram novidades substanciais para os dois lados. À esquerda, o extraordinário movimento dos eleitores que deram mais 10 milhões de votos a Lula abre a possibilidade para um mandato mais rico do que os outros. À direita, a segunda derrota de um Bolsonaro em eleições majoritárias deve trazer um momento de recomposição e busca de novos nomes para liderar a corrente política.

Em alguns países do mundo com sistema parlamentarista, eleitores costumam votar num presidente à direita e num Congresso à esquerda, em busca de equilíbrio. No Brasil, não parece ter havido essa intencionalidade. Mas o fato de o Congresso ter representado uma guinada maior para os conservadores pode ter contribuído para uma importante variável: o medo da volta dos Bolsonaro ao poder central. Essa variável já era alta nas pesquisas, mas certamente cresceu diante do perigo de concentração de poder num candidato que muitos consideram imaturo, temor reforçado pela performance de Flávio nos debates.

Efeito Trump ao contrário, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

‘Nova direita’ da América do Sul sofre com crises, queda de popularidade e derrota de Trump

As voltas que o mundo dá... O trono do imperador Donald Trump começa a ruir e já há sinais de que, assim como puxou para cima a tal “nova direita” na América do Sul, passe a puxar para baixo a partir de agora. Aliás, como está acontecendo neste momento no Paraguai e foi previsto aqui na coluna em maio.

O Brasil foi o líder da resistência à invasão americana na região e consolidou espetacularmente essa posição com a eleição de Lula e a derrota de Flávio Bolsonaro, comemoradas por governos, entidades e cidadãos ao redor do mundo, inclusive nos EUA, como vitória da democracia e da soberania.

Outra má notícia para os Bolsonaros, por Raquel Landim

O Estado de S. Paulo

Aumentar a pressão sobre Flávio e Eduardo dependerá de lobby diplomático brasileiro

A derrota republicana no Congresso dos Estados Unidos é má notícia para a família Bolsonaro em várias frentes.

A primeira e mais óbvia é o enfraquecimento do trumpismo, expoente máximo da estratégia de internacionalização da direita em que os Bolsonaros sempre se apoiaram. Com Trump derrotado, a direita global perde força.

A segunda é que pode diminuir o respaldo político em favor da família Bolsonaro.

Lula tem três opções de política econômica, por Roberto Macedo

O Estado de S. Paulo

O mais provável é que Lula opte por um pouco de ajuste e a velha politicagem a que é contumaz

Vejamos estas opções que Lula tem para a política econômica. A primeira é que continue a política que o levou à reeleição. Como não poderá ser reeleito, escolheria um candidato petista para o próximo governo e tentaria promovê-lo com medidas populistas como as que tomou às vésperas de sua reeleição, a exemplo de um aumento de 15% para todos os inscritos no programa Bolsa Família, do governo federal. Esse caminho oferece riscos, como o do contínuo e elevado crescimento da dívida pública, mas é o que ele gosta de fazer.

Risco de crise feia nos EUA é mais um motivo para o Brasil apressar conserto da economia, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Preços das ações levam tombo e criam novo surto de medo de que bolha de IA chegue ao fim

Queda de Bolsas e menos investimento em inteligência artificial também diminuiriam crescimento americano

A situação econômica do Brasil em 2027 não vai ser fácil. Ficaria bem difícil em caso de crise nos EUA. É mais um motivo para que se adotem medidas urgentes e prudentes de conserto econômico.

Os preços das ações nos EUA levaram um tombão nesta quinta (5). Pode ter sido um dia de furacão, seguido de uma semana de céu azul. Ou o começo de meses de explosões. Sendo otimista, talvez se trate de uma bolha começando a desinflar de modo ordenado. O sinal de fim de longo ciclo de crescimento econômico. Sabe-se lá.

Ajuste fiscal com justiça social, por Sergio Firpo

Folha de Paulo

Ajuste próximo de 3% do PIB pode ser feito sem cortar os programas mais progressivos do orçamento

Dívida bruta avança em 2026 e reforça pressão por correção fiscal

Segundo o Banco Central, a dívida bruta do governo geral chegou a 82,9% do PIB (Produto Interno Bruto) em setembro de 2026, R$ 11,1 trilhões, 4,3 pontos percentuais acima do registrado no início do ano. Estimativas recentes situam o ajuste primário necessário para estabilizá-la em pelo menos 3 pontos percentuais do PIB.

Mas quem pagaria a conta? Um ajuste concentrado nos aposentados de baixa renda e nos beneficiários de programas sociais imporia o maior sacrifício às famílias com menos recursos, enquanto preservaria renúncias e subsídios que beneficiam principalmente os mais ricos.

Como antibolsonarismo aqui, antitrumpismo vence nos EUA, por Marcos Augusto Gonçalves

Folha de S. Paulo

Populista se esmerou em ser derrotado nas urnas ao fazer tudo ao contrário do que prometeu

Não é nada mau para o mundo que o presidente dos EUA tenha sua força política interna abalada

Donald Trump deu aula de como perder uma eleição. Transformou em motivo para a derrota nas legislativas de meio de mandato a frustração das promessas essenciais que o levaram de volta à Casa Branca.

Eleito para recuperar a prosperidade americana, reduzir o custo de vida e manter os EUA afastados de guerras distantes, acabou produzindo resultados inversos.

Quando o povo participa das decisões, por Priscilla Bacalhau

Folha de S. Paulo

Diversificar as formas de participação popular na tomada de decisão é caminho para fortalecer a democracia

Nos EUA, eleitores decidiram diretamente sobre financiamento de habitação e tributação

Você concordaria com a emissão de títulos públicos para financiar programas de habitação popular? Concordaria com a criação de um programa de financiamento para aquisição de imóveis por famílias de renda média? E com a manutenção de uma tributação mais elevada de imposto de renda para pessoas de alta renda, cuja arrecadação tributária será destinada à educação pública e à saúde?

Esses são exemplos reais que os cidadãos da Califórnia, nos Estados Unidos, votaram nas eleições deste ano. Diferentemente do Brasil, os eleitores de diversos estados no país norte-americano escolhem não apenas seus representantes, mas também decidem sobre o financiamento de políticas públicas, tributação, regras eleitorais, entre outros.

No susto, PT admite revisar sua velha cartilha, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Sempre resistentes a reconhecer erros, petistas falam em atualizar o partido depois do sacolejo eleitoral

É tarefa do Lula reeleito mostrar que foi além das palavras ao prometer mudar o jeito de governar

O que mais se ouve hoje entre os petistas é um apelo à autocrítica. "O PT precisa mudar" é a frase síntese das análises do campo governista sobre o transcorrer de uma eleição que quase impôs ao partido a mais humilhante das derrotas de sua trajetória.

O partido nunca foi dado ao reconhecimento de erros, não obstante os alertas de dirigentes e lideranças a respeito da necessidade de revisão da velha cartilha.

À altura dos farialimers, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Os empresários sabiam como era Flávio Bolsonaro e, mesmo assim, o apoiaram

Resta saber o que estão achando hoje dos seus destemperos, despautérios e desatinos

Um dos textos mais importantes deste ano foi publicado na revista piauí de 1º de outubro último: "O que esses brasileiros sabem", do jornalista e cineasta João Moreira Salles. Tratava da tendência de parte da elite brasileira a "desviar o olhar" dos riscos à democracia pela então possível, até provável, vitória de Flávio Bolsonaro na eleição presidencial, em troca de seus interesses empresariais e financeiros. Moreira Salles, ex-acionista do Banco Itaú, faz parte dessa elite —mas não dessa parte da elite.

Um desejo de perseverar na esperança, por Ricardo Marinho

Até muito recentemente, ao final do primeiro turno das eleições, o Brasil era percebido como um país pior do que realmente era. A visão oriunda do materialismo vulgar vicejou. O caminho democrático trilhado há mais de 40 anos era pintado como repleto de erros e abusos.

A defesa dos aspectos virtuosos desse caminho suscitava olhares malévolos e assobios de desaprovação quando se falava de números que indicavam uma transição da mediocridade para a conquista dos melhores indicadores econômicos e sociais das Américas. Os rostos se exasperavam e repetia-se categoricamente: quais os números que significavam alguma coisa?

Poesia | Tomara, de Vinícius de Moraes

 

Música | Alceu Valença - Madeira do Rosarinho (Capiba)

 

quinta-feira, 5 de novembro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais\Opiniões

Trump paga o preço de seus próprios erros

Por O Globo

Derrota republicana resulta de fiasco na economia, truculência com imigração e suspeitas de corrupção

As eleições de meio de mandato nos Estados Unidos costumam funcionar como referendo sobre quem ocupa a Casa Branca. É frequente o partido do presidente perder cadeiras no Legislativo. Mesmo levando isso em conta, porém, a derrota republicana na terça-feira superou todas as previsões. Com vantagem de 13 pontos percentuais nas urnas — maior diferença em 50 anos —, os democratas recuperaram o controle da Câmara e do Senado com maiorias expressivas, derrotaram adversários históricos, elegeram governadores onde não venciam havia décadas e pintaram com a cor azul associada ao partido o mapa de estados improváveis, como Texas, Kansas, Iowa ou Mississippi. A razão para tamanha derrota republicana tem nome e sobrenome: Donald Trump.

O sonho americano, a perseguição aos hispânicos e a derrota de Trump, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

A frustração material se combinou com a hostilidade dirigida às comunidades hispânicas, que catalisou o sentimento de que Trump é uma ameaça à democracia

Publicado em 1909, “Martin Eden”, de Jack London (1876-1916), conta a história de um jovem marinheiro autodidata que luta para se tornar escritor. Inspirado na trajetória do autor, o romance acompanha a conquista do reconhecimento e a desilusão com uma sociedade que mede o valor dos indivíduos pelo dinheiro e pelo prestígio. Também retrata o “sonho americano” na ótica dos trabalhadores que ajudaram a construir os Estados Unidos.

London escreveu o livro durante sua viagem pelo Pacífico a bordo do Snark, quando já era conhecido por “O chamado da selva”, “O lobo do mar” e “Caninos brancos”. Seu alcance ultrapassa a autobiografia. Mostra a correlações entre trabalho, nacionalidade e posição social, as contradições de um país que sempre precisou dos braços de estrangeiros enquanto estabelecia a hierarquias entre eles.

Entrevista | ‘Sucessor de Lula não precisa ser do PT’, diz governador reeleito da Bahia, por Jeniffer Gularte

O Globo

Jerônimo Rodrigues cita Alckmin como possível herdeiro político do presidente, diz que Planalto precisa ‘unificar o país’ e cobra mais espaço para o Nordeste no partido e no quarto mandato

Enquanto o PT debate os próximos passos após a vitória eleitoral, o governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues (PT), afirma que o sucessor do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não precisa, necessariamente, ser do partido. Em entrevista ao GLOBO, ele defendeu que a discussão sobre o futuro seja construída a partir de um campo político mais amplo, capaz de dar continuidade ao projeto do atual governo.

Ainda que reconheça ser cedo para discutir nomes, Jerônimo citou o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) como exemplo de liderança que não integra a legenda e tem papel relevante. Reeleito no primeiro turno na Bahia, estado que deu seis milhões de votos a Lula, o governador cobrou mais espaço para o Nordeste nas decisões tomadas pelo PT e na formação do governo para o quarto mandato.

Pato manco, por Merval Pereira

O Globo

A derrota de Trump e a vitória de Lula significam a mesma coisa

A derrota de Donald Trump, demolidora, instalou em Washington um novo foco de poder que altera não apenas a política interna dos Estados Unidos, como a internacional. Os três maiores países do continente americano — Canadá, Brasil e México — são os que enfrentaram os arroubos autoritários de Trump nestes dois primeiros anos de governo. O sonhado “quintal” dos Estados Unidos não voltará a ser a nossa região, e certamente a fraqueza de Trump poderá gerar uma força adicional nos países do nosso entorno.

Ela mostra que um ciclo se fecha. A tendência é que a direita — que dominava a política internacional a partir da vitória de Trump e de sua influência nas eleições — se enfraqueça. É claro que os Estados Unidos continuam sendo o país mais poderoso do mundo, militar e economicamente, e que Trump tem mais dois anos de mandato. A única indicação é que talvez seja mais fácil negociar com o gigante fragilizado.

Não existe carta branca no Lula 4, por Julia Duailibi

O Globo

Apesar das expectativas, Lula será, na prática, o ministro da Fazenda de Lula

Não tem Palocci 2, Posto Ipiranga ou carta branca para quem assumir a economia no Lula 4. Aviso aos navegantes que, apesar das expectativas, Lula será, na prática, o ministro da Fazenda de Lula. Isso significa que o próximo governo não pretende fazer um “cavalo de pau na economia”, nos moldes do que ocorreu em 2003, segundo definiu à época o então capitão do time, José Dirceu.

Lula quer fazer de Lula 4 algo mais impactante que Lula 3, mas a toada que desenha por enquanto é a mesma. Com exceção de uma ou outra medida de viés mais agressivo, a ideia é não mexer nos compromissos da campanha. Por isso Lula 4 não deve ser o que o mercado quer nem o que parte dos economistas vê como caminho obrigatório para interromper a trajetória de crescimento da relação dívida/PIB e levar à queda dos juros.

Na intensidade do tempo atual, por Míriam Leitão

O Globo

Derrota de Donald Trump reduz a instabilidade global, mas falta de horizonte fiscal leva Banco Central a frear corte da Selic

A decisão do Copom de manter os juros foi tomada no meio do maior bombardeio que o Banco Central independente já enfrentou. Diante da incerteza do tempo presente, manter os juros era o certo a fazer. O ruído dos últimos dias contra o BC torna mais pesado esse começo de um governo que foi consagrado por uma forte vitória nas urnas. O que houve no Brasil, na eleição, foi a reafirmação da democracia como valor e escolha política. O que houve nos Estados Unidos foi a reafirmação da democracia e da diversidade como valor. Num poema do novo livro de Geraldo Carneiro, há um verso que diz: “Amou o semelhante e o diverso”. Foi o que me veio à cabeça quando vi a impressionante representatividade que saiu das urnas americanas.