quinta-feira, 29 de outubro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais\Opiniões

STF tem de sortear o inquérito sobre dinheiro estrangeiro

Por O Globo

Dino se tornou relator da investigação de Flávio graças a manobra que viola princípio estabelecido por Fachin

É meritória a investigação das suspeitas de financiamento estrangeiro à campanha eleitoral derrotada do senador Flávio Bolsonaro (PL). O PT e o partido Missão apresentaram ao Supremo Tribunal Federal (STF) e ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) indícios de que empresas de fora do país aportaram recursos em benefício de Flávio e de que sua propaganda foi veiculada em perfis estrangeiros de redes sociais sem identificação do pagador — tudo isso em desafio à lei eleitoral. O próprio Conselho Supervisor da Meta (dona de Instagram, Facebook e WhatsApp) manifestou preocupação com o descumprimento de normas eleitorais brasileiras pela empresa, em detrimento da candidatura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Mas o método adotado para colocar sob a supervisão do ministro Flávio Dino a investigação de tais suspeitas viola princípios legais e expõe mais uma vez o uso do Judiciário para fins políticos.

Desafios imediatos para os vencedores, por Míriam Leitão

O Globo

O governo tem que se concentrar nos problemas a resolver. Na prática o novo mandato já começou. A fuga de Flávio Bolsonaro é a crise da oposição

O novo mandato do presidente Lula, na prática, já começou e o governo tem decisões a tomar. A instabilidade financeira precisa ser entendida com racionalidade. O governo aumentou muito os gastos no período eleitoral e a economia está sem parâmetros. A oposição está às voltas com a fuga de Flávio Bolsonaro. Ela foi planejada com muita antecedência. As informações desencontradas da terça eram parte de uma operação despiste. O país ficou preso nas versões, enquanto Flávio Bolsonaro permanecia em solo brasileiro. O governo não pode ser tragado pela confusão criada pelo perdedor. Deve focar em suas próprias prioridades. A economia é uma delas.

Carta encolhe ainda mais Flávio, por Julia Duailibi

O Globo

Candidato derrotado virou uma caricatura de líder de oposição, autoexilado sob o sol de Miami Beach

Flávio Bolsonaro conseguiu um feito impressionante. Em tempo recorde, se apequenou como líder da oposição e conseguiu produzir algo que parecia improvável: juntou setores da direita e do governo nas críticas a suas declarações golpistas. Para atingir tal façanha, não foi necessário nenhum fato novo revelado pela Polícia Federal nem a publicação de eventual conversa pouco republicana. Flávio precisou apenas de ausência de tino político, sinapse tortuosa e conselhos ruins de meia dúzia de aloprados. Como resultado, no curto prazo de três dias, fez evaporar parte considerável do capital político adquirido com os quase 60 milhões de votos que recebeu.

Flávio Bolsonaro submete a direita ao vexame com fuga e carta golpista, por Malu Gaspar

O Globo

O pouso de Flávio Bolsonaro (PL) no aeroporto de Opa-Locka encerrou ontem uma bem-sucedida operação de contrainformação que lhe permitiu chegar em segurança à terra de Donald Trump a partir do país comandado por Javier Milei. Enquanto escapava do Brasil para a Argentina, ainda não se sabe exatamente como, seu irmão Eduardo, com alguns asseclas, plantava notas na imprensa brasileira dizendo que Flávio estava voando ou já havia chegado a Miami e em breve daria uma entrevista coletiva para se explicar. As horas seguintes mostraram que aquela tinha sido a parte fácil e, por incrível que pareça, menos patética do plano.

Napoleão de hospício, por Merval Pereira

O Globo

Depois de fugir, Flavio Bolsonaro se coloca como presidente eleito, como se o mundo estivesse no lugar errado, e ele no certo

Qual um Napoleão de hospício, o candidato derrotado à Presidência da República no Brasil, Flávio Bolsonaro, anuncia-se ao mundo como presidente eleito, depois que esse mesmo mundo, por meio dos principais países e organismos internacionais, cumprimentou o presidente Lula por sua reeleição. Talvez o mundo de Flávio seja mesmo outro. Na carta, ele revela que teve ajuda da Argentina, do também extremista de direita Javier Milei, e dos Estados Unidos de Donald Trump, o que representa uma ação política irresponsável daqueles dois países. Até o partido do candidato derrotado aceitou o resultado, reconhecendo Lula como legítimo presidente eleito.

Entrevista | Demanda por mudança ficou evidente na eleição, diz Boulos, por Sofia Aguiar e Lucas Borges Teixeira

Valor Econômico

Ministro da Secretaria-Geral da Presidência reconhece que aumento do custo de vida prejudicou o presidente na disputa eleitoral

Vencida a eleição presidencial, o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, afirma que durante a disputa ficou evidente a demanda da população por mudança e, portanto, o governo Lula 4 deve ser diferente deste terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ele reconheceu que o aumento do custo de vida gera um mal-estar que prejudicou o governo no pleito, um fenômeno mais complexo e que vai além da comunicação.

Olhando para o futuro, diz que o Executivo precisará do apoio das ruas para governar, diante das dificuldades que enfrentará no Congresso. Ao mesmo tempo em que defende que se avance na agenda da “justiça tributária”, o ministro aponta a necessidade a construção de um “pacto nacional de aumento da produtividade”. Segundo ele, esse pacto buscará a promoção do investimento em pesquisa, desenvolvimento e inovação, sobretudo nos setores digital, de processamento e refino de minerais críticos e de transição energética. “Essa é a economia do século 21”, disse ele em entrevista exclusiva ao Valor. “Essa é uma agenda que não tenham dúvidas estará presente no Lula 4.” Ele também voltou a defender que o governo encaminhe um projeto de regulamentação de motoristas de aplicativo, mas acha difícil que aconteça ainda este ano.

Atual responsável pela articulação do Planalto com movimentos sociais, Boulos, que hoje é deputado federal licenciado e não terá mandato a partir do ano que vem, disse que ainda não conversou com Lula se permanecerá no atual ministério ou se seguirá para outra pasta. Sobre a possibilidade de sair do Psol e ir para o PT, disse que discussões nesse sentido ainda serão feitas neste ano, mas, por ora, não há nenhum acordo fechado. Para ele, Lula precisa fazer um “grande governo” para que a esquerda chegue com força em 2030, quando o presidente não poderá tentar a reeleição. Segundo o ministro, sua preocupação é garantir o campo progressista unificado no próximo pleito.

A seguir os principais pontos da entrevista ao Valor:

Se Flávio Bolsonaro tinha pressa é porque sabe o que fez, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

O eleitor já fez sua parte, cabe agora às instituições fazerem a sua

Na manhã desta quarta-feira, segundo comunicado da imigração da Argentina, o senador Flávio Bolsonaro cruzou a ponte Tancredo Neves para entrar naquele país. A se fiar nesta informação, o candidato derrotado do PL à Presidência ainda estava em território brasileiro quando Tarcísio de Freitas e Michelle Bolsonaro tomaram suas posições.

O governador publicou um vídeo em que reconhece o resultado das eleições e convoca a direita para fiscalizar o governo federal, e a senadora eleita posou para foto com Valdemar Costa Neto nas redes do presidente do partido. Quando Flávio Bolsonaro já estava quase em Miami, depois de escala em Guayaquil, no Equador, outro candidato a herdeiro, o senador eleito Carlos Bolsonaro, gravou vídeo em que, sem citar o irmão, relatou visita ao ex-presidente em prisão domiciliar: “Desculpa, pai, a gente falhou”.

Lula tira por menos a fuga de Flávio, mas subestimar Bolsonaro é um erro, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

É prematuro afirmar que a oposição está acéfala e se abriu caminho para uma substituição rápida de comando. O bolsonarismo continua tendo Jair Bolsonaro como principal referência

O autoexílio de Flávio Bolsonaro nos Estados Unidos pode custar ao senador prestígio entre aliados, mas seria um erro do governo Lula confundir sua fuga com a desarticulação do bolsonarismo. A distância física não elimina a capacidade de mobilização de um movimento de massas, de características messiânicas, sobretudo quando um de seus principais representantes encontra acolhimento na maior potência mundial. A associação com o secretário de Estado americano, Marco Rubio, mesmo sem passar recibo, deve ser considerada um problema político e diplomático, cujo alcance ultrapassa o destino do candidato derrotado.

Ao chegar aos Estados Unidos, Flávio agradeceu a Donald Trump e ao presidente argentino, Javier Milei, alegou fraude eleitoral e apresentou sua saída como reação a uma perseguição política. Proclamou-se o verdadeiro presidente eleito do Brasil. A declaração parece estapafúrdia, mas tem a finalidade de tratar a derrota nas urnas como uma usurpação do poder e sua escapada como uma estratégia de resistência. A fuga deve ser avaliada pela repercussão entre os seguidores, para os quais a denúncia de perseguição confirma convicções anteriores.

O jornalismo e as eleições, por Eugênio Bucci

O Estado de S. Paulo

Não há como chamar a direita e a extrema direita antidemocrática pelo mesmo nome. Os dois fenômenos são distintos, jamais poderiam ter se embaralhado no discurso jornalístico

E, de repente, não menos que de repente, a coisa não coube mais no próprio nome, o fato escapou ao relato e o objeto discrepou do conceito. Parecia haver um problema com os eventos da realidade, mas não era isso. O problema não estava nas coisas, nos fatos e nos objetos, mas no modo como o jornalismo os nomeava. Recapitulemos.

Enquanto a campanha eleitoral pegava fogo, gente de direita começou a dizer que não estava à vontade na direita. Personagens expressivos do chamado campo conservador, ou seja, personagens notoriamente da direita, passaram a atacar a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL), que vinha sendo qualificada nos órgãos de imprensa, com poucas exceções, como a chapa de direita. O general Santos Cruz, a ex-deputada Joice Hasselmann e até João Amoêdo, entre várias outras pessoas, todas de direita, passaram a repudiar a candidatura que representaria a direita no segundo turno. Mas como assim, perguntava o cidadão? Não eram todos igualmente de direita? O público se sentia tragado por uma dissonância cognitiva. Se Flávio Bolsonaro era o representante da direita, como diziam os jornais, o rádio e a TV, por que tanta gente da direita o rejeitava?

Buscando nomes, por William Waack

O Estado de S. Paulo

O bolsonarismo vai se despedindo da condição de comandar a ‘direita’

Há algumas leis da prática da política que transcendem postulados ideológicos. Uma delas é que poste de líder vivo não vira líder. No caso do impedimento do líder, preso ou fora do País, o poste precisa estar onde o líder não está – ou seja, na rua ou no País.

Flávio Bolsonaro já não teria como comandar a oposição a Lula mesmo antes da patética postura de assinar e recuar de uma carta golpista lá nos distantes EUA. Sua principal credencial como candidato tinha sido o dedo do pai, que excluiu qualquer nome de fora do clã por interesse pessoal. Arriscou perder a eleição para não perder o “comando” da direita. Perdeu os dois.

Ex-presidentes do PT veem necessidade de que governo Lula 4 fale com novas bases políticas, por Leonardo Fuhrmann

Folha de S. Paulo

Tarso Genro, José Genoino e Olívio Dutra admitem que vitória só veio por eleitores que consideraram Flávio Bolsonaro ameaça à democracia

Para eles, além dialogar com forças democráticas de direita, presidente precisa reforçar participação popular nas decisões

Na avaliação de três ex-presidentes do PT, a vitória do presidente Lula no segundo turno da eleição deste ano foi muito maior do que a do partido e mesmo a de seus aliados na eleição. O petista teve apoio da Rede, PSOL, PSB, PV e PDT e grupos locais de partidos como o PSD e o MDB.

Por isso, apontam a necessidade de que o PT amplie o diálogo, principalmente com os eleitores que lotaram as ruas durante o mês de outubro. Outros líderes de esquerda que participaram das manifestações destacaram, em discursos, a necessidade de manter uma mobilização popular mesmo após a vitória, inclusive como resposta à força da direita e da extrema direita em governos estaduais, na Câmara dos Deputados, no Senado e nas Assembleias Legislativas.

Quem vai aderir ao novo golpe dos Bolsonaros? Por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Flávio quer revolta golpista contra eleição 'roubada' e 'tirania', mas por ora está sozinho

Senador escafedido compara Brasil a país sob ocupação nazista ou domínio colonial

Flávio Bolsonaro coroou-se líder de uma campanha contra uma "tirania", um "regime de exceção", uma eleição "roubada". Comparou-se a Charles de Gaulle (1890-1970), general que liderou a resistência contra a ocupação nazista da França (1940-1944), depois presidente do país.

Em grau de delírio ignaro um tanto menor, mas politicamente mais perigoso, se comparou a políticos que combatiam no exílio a ditadura chavista. Estaria sugerindo uma intervenção trumpista? Qual delas? A que sequestrou o ditador Nicolás Maduro ou aquela que mantém no poder da Venezuela a esbirra neocolonial Delcy Rodríguez?

Flávio não é perseguido, não há ditadura judicial, por Conrado Hübner Mendes

Folha de S. Paulo

Casas de tolerância à delinquência política explicam como Bolsonaros são possíveis

Ordem de retenção de passaporte precisa ser escrutinada pelo STF, mas não faz de senador um perseguido em regime ditatorial

A família Bolsonaro nunca se destacou pela coragem. Nem pela honestidade ou defesa da liberdade. Encontre na família uma virtude, um projeto de valor público, um gesto de civilidade. Uma ideia que não remeta à arma ou à tortura.

A reincidência na covardia e na mentira está catalogada nos registros da história e nas investigações criminais. Nem se fale do uso do cargo para fins privados. Da corrupção, enfim.

Flávio prometia mudança e se mudou. Fugiu para o país ao qual oferecia, se eleito, nossas riquezas naturais, como minerais críticos, e institucionais, como o Pix. Flávio disse que aceitaria o resultado, entregaria os passaportes e não fugiria. Do mesmo jeito que afirmou não conhecer Daniel Vorcaro nem o careca do INSS, nem ser sócio de Willer.

Com chanchada política, Flávio menospreza Brasil e apoiadores, por Marcos Augusto Gonçalves

Folha de S. Paulo

Carta delirante em que se autoproclama presidente e se compara a Rui Barbosa evidencia equívoco de apoio de setores das elites e mercado ao candidato

Direita democrática não consegue erigir candidatura competitiva à Presidência e pega carona em populistas e autoritários

A fuga de Flávio Bolsonaro para Miami se já era patética, tornou-se uma chanchada política com a carta que o candidato derrotado divulgou. No documento golpista, inicialmente acompanhado do antigo brasão do Brasil, vigente entre 1889 e 1968, o fujão se autoproclamou presidente eleito do Brasil e comparou-se a Rui Barbosa. Parece viver num mundo paralelo, numa ficção bizarra e insustentável.

Êxito além-fronteiras, por Maria Hermínia Tavares

Folha de S. Paulo

Reeleição de Lula tem ao menos três efeitos de importância internacional

Brasileiros provaram ser possível vencer a extrema direita votando livremente

Imprevisível, inédita e inquestionável, a reeleição do presidente Lula tem efeitos positivos mais vastos do que a auspiciosa derrota do que há de pior na política brasileira. Três deles, ao menos, possuem dimensão internacional e potencial para fortalecer a presença externa do Brasil.

O primeiro é que a amazônia escapou do previsível avanço da degradação, patrocinado pelo negacionismo em aliança com o crime. A proteção da floresta continua a ser um problema maiúsculo de interesse global. Seu enfrentamento requer do governo clareza de objetivos; capacidades estatais acrescidas; recursos utilizados com sabedoria; cooperação internacional; e inteligência política para dialogar e arbitrar interesses legítimos e conflitantes: populações indígenas e tradicionais; produtores rurais; pecuaristas; mineradores legalizados; a numerosa população que vive em suas cidades.

A diferença entre direita e esquerda, por Marcelo Rubens Paiva

Folha de S. Paulo

Um lado vê a desigualdade como um problema a ser enfrentado pela ação do Estado

O outro prefere um Estado mínimo, com as pessoas cuidando da sua segurança, saúde e educação

Na semana da eleição, um grupo de 50 estudantes do segundo ano do ensino médio, de cinco escolas paulistanas, queria que eu explicasse o que era direita e esquerda. Votariam pela primeira vez.

Formaram um círculo de cadeiras de plástico brancas no salão de festas do meu condomínio. Sei que aqui tem alunos de direita, ou que a família é de direita, e respeito a convicção de cada um de vocês, comecei.

Isso é democracia. Aliás, se fosse na ditadura militar, esta reunião jamais seria possível. O zelador ou o síndico chamaria a polícia, seríamos presos e talvez torturados, contei.

A fuga do amarelão, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Não faltam sinônimos para definir Flávio Bolsonaro como covarde e mentiroso

Os braços musculosos sob a camiseta amarela são incapazes de encarar a lei

Qual você prefere? Amarelão, covarde, medroso, pusilânime, frangote, maricas, desertor, foragido, poltrão, peidão, pipoqueiro, frouxo, trêmulo, borrão, arregão? Ou, numa palavra, cagão —digo, fujão? Se você for um dos meus fiéis leitores bolsonaristas ou um dos 59.826.041 eleitores que cravaram o número de Flávio Bolsonaro na urna neste domingo (25), a escolha é farta. Todas definem o caráter do homem que, não fosse por outros 64.256.232 brasileiros, poderia ser agora o presidente da República. Derrotado e sujeito a investigação e processo por uma quantidade de acusações —a escolha também é farta—, preferiu escafeder-se a enfrentar a Justiça. Onde está o machão que ele fingia ser?

Entrevista | Alberto Aggio – El Clarin – 28 de Outubro de 2026

Entrevista de Alberto Aggio concedida a Edison Ortiz, historiador e organizador cultural chileno, e publicada no El Clarin (Chile, 28.10.2026). Na entrevista se registram as interpretações do historiador sobre as razões e os eixos de mobilização que marcaram a vitória eleitoral de Lula e os desafios que se abrem doravante. Para Aggio, não há duvida de que a vitória de Lula foi um resgate, em novos termos, do que vem significando, apesar de muitos descaminhos e insuficiências, a construção da democracia, que agora se vê fortalecida.

Presidente do PT, Edinho Silva, explica estratégia do governo Lula para a segurança pública - Globonew

 

Poesia | Hoje que a tarde é calma e o céu tranquilo, de Fernando Pessoa

Hoje que a tarde é calma e o céu tranquilo,

E a noite chega sem que eu saiba bem,

Quero considerar-me e ver aquilo

Que sou, e o que sou o que é que tem.

Olho por todo o meu passado e vejo

Música | Paulinho da Viola - Timoneiro

 

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais\Opiniões

Lula não tem mais como adiar plano de ajuste fiscal

Por O Globo

Mais importante que especular sobre nomes para Fazenda é uma proposta confiável para conter a dívida pública

Como era esperado, o mercado ficou estressado com a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Bolsa caiu, juro futuro subiu, dólar disparou — e o Tesouro teve de intervir. A tensão diminuiu ontem, mas a incerteza persiste. O motivo é, na imagem feliz do colunista do GLOBO Carlos Alberto Sardenberg, a “herança maldita” de Lula para si mesmo. No atual governo, ele tratou com desdém a explosão da dívida pública, passou a campanha empilhando promessa sobre promessa sem nem querer ouvir falar em custo ou ajuste. Quem sabe fazer a conta constatou: ela não fecha. Sem ajuste, o país quebra.

O Zero Um sumiu: para onde vai a direita? Por Vera Magalhães

O Globo

Fuga de Flávio abre vácuo de liderança e expõe dificuldade da oposição a Lula de se desvencilhar do bolsonarismo

Quando parece que o Brasil vai curar a ressaca da comemoração ou do luto, o roteirista surpreende e oferece uma fuga espetacular de Flávio Bolsonaro do país, com plano ainda incerto e em tempo recorde depois da decisão de Alexandre de Moraes para que ele entregasse os passaportes.

E, como tudo no país é passível de interpretações opostas, o filho Zero Um de Jair é, para 64 milhões de brasileiros, um covarde que tem o que temer e, para boa parte dos 59 milhões que votaram nele, um perseguido por Moraes.

Se é verdade que o timing da decisão de Moraes foi coincidente com a eleição e que ela foi tomada sem que ele consultasse o Ministério Público ou que Flávio tivesse sido indiciado, também são concretos os argumentos da Polícia Federal (PF) para pedir a medida preventiva. A PF enumerou os seguintes fatos: o amigo e provável sócio de Flávio, Willer Tomaz, investigado no mesmo inquérito, já está na Flórida; o envio de vultosas quantias de recursos ainda não explicadas aos Estados Unidos pelo ex-candidato a presidente; e a declaração do irmão já foragido, Eduardo, de que, se perdesse, Flávio deveria se juntar a ele.

Da fuga fez sua verdade, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Direção Nacional de Migrações afirma que senador entrou no país às 22h50 desta terça

A Direção Nacional de Migrações, órgão do governo argentino, informou que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) entrou no país por via terrestre e decolou na madrugada desta quarta num jato particular rumo ao Equador.

De acordo com o plano de voo informado às autoridades locais, a aeronave decolou de Puerto Iguazú e deve pousar em Guayaquil, no Equador.

De lá, é esperado que o ex-presidenciável e a família sigam viagem rumo aos Estados Unidos, com autorização do presidente Donald Trump.

O Brasil voltou ao normal, por Elio Gaspari

O Globo

A ameaça do candidato do PL durou uma noite

Para quem se lembra do pesadelo vivido pelo Brasil há quatro anos, a decisão de Flávio Bolsonaro de desistir de batalhar pela anulação do pleito foi um alívio. Sinal de que a direita, derrotada por uma margem de 4,4 milhões de votos, decidiu aquietar-se nos Estados Unidos.

Há quatro anos, vivandeiras acampavam diante de quartéis, pedindo um golpe de Estado. O afastamento dos militares da política foi uma das maiores realizações do Lula 3.0.

Ele conseguiu isso porque, ao contrário de seu antecessor e de alguns çábios do mercado, não opera jogando na tensão. A vitória de Lula foi um poderoso sinal de que, em quatro anos, ele recolocou o Brasil no caminho da normalidade. Até Donald Trump e presidentes latino-americanos deram-se conta disso.

Janela para rearranjos das forças de esquerda e direita, por Fernando Exman

Valor Econômico

Nos bastidores, há também uma cobrança para que Lula prestigie novas lideranças locais

Concluída a eleição, esquerda e direita devem passar por processos de reorganização de suas forças políticas. À esquerda, o que se espera é que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) lidere pessoalmente o processo e não repita o “erro” dos últimos quatro anos de não aproveitar o comando do governo central para fortalecer novas lideranças e partidos aliados - não apenas o PT. A avaliação é que, em caso de derrota no domingo (25), a esquerda só voltaria ao poder em um horizonte de longo prazo, o que não ocorreu por muito pouco. Em relação à direita, o desafio é distinto: aproveitar a fuga de Flávio para os Estados Unidos e abrir caminho a uma liderança que não tenha o sobrenome nem dependa do crivo do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Cenário cria fissura na extrema direita, diz pesquisador, por Lucas Monteiro

Valor Econômico

Para Odilon Caldeira Neto, campo bolsonarista terá que disputar com esquerda mais organizada nas redes

A possível fuga do senador e candidato derrotado à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ), do Brasil para os Estados Unidos, provoca uma fissura e abre espaço para novos nomes na extrema direita, mas o bolsonarismo tem pela frente o desafio de disputar as ruas com o que chama de campo democrático, avalia Odilon Caldeira Neto, professor de História na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e coordenador do Observatório da Extrema Direita.

“Com Jair Bolsonaro preso; Eduardo e possivelmente Flávio nos Estados Unidos e a incógnita na articulação política que representam Carlos e Jair Renan, foram criadas fissuras no campo da extrema direita, que podem se refletir numa reorganização das alas desse grupo”, afirma o professor. As alas às quais Odilon se refere são a evangélica, a feminina e a de segurança.

O homem que viu o trem passar e a fuga de Flávio Bolsonaro para os EUA, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Flávio Bolsonaro recebeu 48% dos votos. A votação não lhe concede imunidade penal, mas aumenta a responsabilidade das autoridades de explicar suas decisões

 George Simenon foi um dos mais importantes e produtivos escritores de romances policiais, a maioria deles tendo como protagonista o Comissário Maigret. “O homem que via o trem passar” (1938) é um célebre romance psicológico do autor, cujo principal personagem é Kees Popinga, holandês pacato, burguês e exemplar chefe de escritório na cidade de Groningen, que pira quando descobre que seu patrão faliu e fraudou a empresa.

Lula usará a sua força popular para garantir a governabilidade? Por Pedro Neiva*

Correio Braziliense

Lula pode mobilizar apoio público para aumentar o custo político da resistência parlamentar e melhorar suas condições de negociação

Depois da vitória do presidente Lula no domingo, a pergunta que fica é: como irá governar com um Legislativo dominado pelo Centrão e pela extrema-direita? Será ele um “pato manco” ou será capaz de fechar a sua biografia de forma triunfante? Difícil dizer com certeza, mas podemos especular. 

Desde os anos 1990 até 2014, o país vinha sendo governado por meio de uma composição governamental baseada na distribuição de ministérios e cargos entre os partidos e na execução de emendas orçamentárias de interesse dos parlamentares. A forma centralizada de funcionamento do Congresso em torno das lideranças partidárias permitia que o presidente negociasse a sua agenda com as bancadas partidárias, e não com os deputados individualmente. A iniciativa exclusiva do presidente em determinadas matérias, a solicitação de urgência legislativa e a possibilidade de editar medidas provisórias completavam o quadro, dando ao Poder Executivo a capacidade de pautar e acelerar a sua agenda no Congresso.

Fuga de Flávio é problema para a direita e para Lula, por Igor Gielow

Folha de S. Paulo

Senador repete pai e irmão, agindo como culpado de crimes enquanto alega sofrer perseguição política

Aliados serão obrigados a optar entre solidariedade e distância; episódio pode gerar crise com os EUA

Dois dias após receber 59.826.041 votos, credenciando-se como ator central da direita brasileira, Flávio Bolsonaro comportou-se como culpado dos crimes pelos quais é acusado, optando pela fuga e pela fácil retórica da perseguição política.

O senador pelo PL do Rio fez jus ao sobrenome. No penúltimo dia como presidente da República, seu pai Jair embarcou para um autoexílio conveniente nos Estados Unidos, tendo fracassado em arregimentar os militares para dar um golpe e fingindo nada ter a ver com a intentona bolsonarista do 8 de Janeiro.

Depois, já bafejado pela condenação inevitável no julgamento daquela trama, cumprindo medida cautelar, Bolsonaro protagonizou o inacreditável episódio em que tentou romper sua tornozeleira eletrônica com um ferro de solda e escapulir da prisão domiciliar.

Flávio, o mártir do pau oco, quer criar nova revolta dos Bolsonaros contra o 'sistema', por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

No padrão da família, candidato derrotado foge da polícia e quer subverter política

Fuga lança tumulto nas fileiras da oposição a Lula 4 e inspira adeptos da 'direita cheirosa'

A fuga de Flávio Bolsonaro dá o que pensar sobre o destino da oposição a Lula 4 e sobre a montagem de um projeto da direita para 2030. Talvez os Bolsonaros se façam de mártires da desdemocratização do Brasil, de vingadores dos oprimidos pelo "sistema", mote fundamental da família e das extremas direitas.

Podem meter os pés pelas mãos se tentarem, com sucesso, apoio do governo americano para campanha qualquer contra o Brasil. Por exemplo, Donald Trump poderia aceitar um processo de asilo político para os Bolsonaros. Diria assim que o regime brasileiro não é democrático, que persegue politicamente cidadãos. Pelo meio do caminho, haveria sanções, políticas ou comerciais.

Lula ganhou a eleição e agora precisa reconquistar a classe C, por Renato Meirelles

Folha de S. Paulo

Petista ganhou porque, diante de Flávio, pareceu a escolha mais segura

Presidente deu motivo ao eleitor para não trocar o certo pelo duvidoso, mas o quarto mandato precisa oferecer mais do que a opção menos arriscada

Há 25 anos ganho a vida escutando os brasileiros. Em cada eleição, aprendo alguma coisa que não cabe no questionário. A deste domingo me lembrou uma lição antiga: é possível reclamar do governo, desejar mudanças e, diante da alternativa, decidir continuar com o presidente. Foi o que fez uma fatia decisiva da classe C. Sem entusiasmo, somando a rejeição ao adversário à segurança de quem já sabe o que tem em casa.

Escutei muita impaciência com Lula. O preço da feira não voltou ao que era, a dívida não desapareceu e o medo de andar na rua continua. Nada disso sumiu na cabine de votação. Mudou a comparação. No primeiro turno, quando Flávio terminou na frente, bastava ao eleitor descontente manifestar a insatisfação, e o bolsonarismo era o endereço mais à mão. No segundo, ele precisava decidir quem colocaria no lugar de Lula.

Final feliz? Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Lula escapou de encerrar carreira perdendo para o pior dos Bolsonaros

Próximos quatro anos não serão fáceis e definirão biografia do petista

Ao conquistar seu quarto mandato, Lula foi abençoado ou amaldiçoado pelos deuses da política? A resposta não é óbvia, e não apenas porque o futuro é contingente.

Atribui-se a Sólon a máxima segundo a qual, diante das reviravoltas da vida, não podemos afirmar que uma pessoa foi feliz até que ela tenha morrido. Divirjo de Sólon. Imaginemos um indivíduo que tenha vivido 80 anos desfrutando de todos os prazeres carnais e intelectuais e em pleno êxtase moral, mas que, em seu último dia de existência, tenha sido torturado e depois degolado. Penso que, objetivamente, pelas métricas mais razoáveis, esse homem foi mais feliz do que infeliz. Falamos de 29.220 dias de bem-aventurança contra algumas horas de dor. Reconheço, porém, e aí convergindo com o sábio grego, que, para efeitos biográficos e de narrativa, finais fazem toda a diferença. E política é narrativa.

País deu recados ao governo e à oposição, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Primeiro turno foi um aviso a Lula, e o segundo alerta à direita sobre malefícios de se atrelar ao bolsonarismo

Antiguidades como fascismo e comunismo não estiveram em disputa na cabeça do eleitorado pragmático

A cena eleitoral de 2026 desenhou com nitidez a escrita de que o segundo turno é uma outra eleição. O primeiro foi um aviso de insatisfação do eleitorado ao presidente Lula (PT); o segundo enviou à direita um recado sobre os malefícios de se manter agarrada ao pé da mesa da família Bolsonaro.

Se o campo que se fortaleceu nos governos estaduais e no Legislativo insistir em lançar desconfiança sobre o resultado das urnas e ficar preso a anistias de golpistas, pode perder o bonde, o controle da agenda e desperdiçar a vantagem no Congresso.

Flávio fujão, por Mariliz Pereira Jorge

Folha de S. Paulo

Tique-taque soa como bomba-relógio; em fevereiro, senador fica sem costas quentes pela primeira vez em 24 anos

País só vai recuperar a sanidade quando essa família for varrida da política pelo voto e pela lei

Fugiu, desapareceu, escafedeu-se. Para Flávio, o Bolsonaro mais corrupto, era isso ou cadeia o que restava. No domingo, derrotado, engrossou a voz para anunciar que pediria anulação do resultado. Na segunda, intimado a entregar os passaportes, gravou vídeo jurando patriotismo: jamais pensara em deixar o país. Na terça, segundo aliados, já está na Flórida com a família, com asilo garantido.

Para que serve a polarização? Por Roberto DaMatta

O Estado de S. Paulo

No domingo, com o seu voto, você ajudou a adormecer uma forma de polaridade: a oposição, burramente vista no Brasil como irreconciliável, entre a direita e a esquerda. Este dualismo, em tese, impede de maneira estúpida qualquer colaboração. Hoje, porém, com um novo presidente eleito, essa polarização terminou para dar lugar a uma oposição que a esquerda e a direita escamoteavam, a saber: a oposição entre a centralidade dos poderosos que vão para os palácios e a situação dos perdedores que são relegados à periferia. Agora, tranquilos, sabemos quem são os mandões e quem são os mandados. Ou seja, voltamos a viver a oposição rotineira entre os que detêm o poder e aqueles que devem se submeter a ele. Recuperamos a concepção tradicional de autoridade e, assim, restauramos o velho reino imperial iniciado com d. João VI e continuado pelos golpes, ditaduras e governos demagógicos.

Mais Alckmin, menos Janja, por Fábio Alves

O Estado de S. Paulo

O sentimento de vários analistas é de que Lula precisa mudar a postura dos últimos quatro anos

No calor do desfecho da eleição presidencial, no domingo à noite, ao ser perguntado sobre o que esperava da política econômica no quarto mandato de Lula, um renomado economista foi lacônico: “Mais Alckmin, menos Janja”. A conversa parou por aí, mas resumiu o sentimento de vários analistas de que o presidente reeleito precisa mudar a postura dos últimos quatro anos, quando deu ouvidos às opiniões das lideranças do PT em detrimento do que esperava a coalizão de centro que o ajudou a derrotar Jair Bolsonaro em 2022.