quinta-feira, 7 de maio de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Supremo tornou-se comitê de acerto de contas políticas

Por Folha de S. Paulo

Ação contra Malafaia se soma a outras e mostra que qualquer crítico pode cair na teia repressiva da corte

Ao perseguir quem os questiona, alguns ministros flexibilizam garantias constitucionais como direito à expressão e ao juiz natural

Houve um tempo em que os brasileiros podiam contar com a ortodoxia do Supremo Tribunal Federal na defesa de direitos básicos, como o de livre expressão e crítica e o de não ser submetido a arbitrariedades por agentes do Estado.

As barbaridades de analfabetismo constitucional vinham de outros lugares, mas eram corrigidas na corte. Agora, extravagâncias partem do próprio tribunal.

O julgamento que converteu o pastor Silas Malafaia em réu, sob a acusação de injuriar os generais do Alto Comando do Exército, é apenas o exemplo mais recente de que as garantias civis podem ser flexibilizadas quando a motivação é acertar contas com adversários políticos de ministros.

O tempo passou e Lula não viu, por Paulo Celso Pereira*

O Globo

Não existe mais o Congresso com que ele lidou em seus primeiros mandatos, quando a Presidência tinha poder imperial

Lula testou a água por três vezes. Na primeira, emplacou seu advogado pessoal Cristiano Zanin, que liderou com sucesso a campanha para desmonte da Lava-Jato. Depois, veio Flávio Dino, seu ministro da Justiça e por 15 anos um dos maiores expoentes do PCdoB. Na terceira vez, optou por Jorge Messias, um discreto procurador da Fazenda que se tornou conhecido nacionalmente pela confiança que Lula e a ex-presidente Dilma Rousseff depositavam nele, a ponto de torná-lo emissário da carta que garantia a nomeação do líder petista como ministro no auge da Lava-Jato. O Senado, de inclinação oposicionista, não aprovou o terceiro companheiro.

A soberba é a véspera do erro, diz o ditado, e só ela explica o fato de Lula ter ignorado avisos de aliados e as enormes diferenças que separavam essa escolha das anteriores. Messias tem trajetória jurídica menos reluzente que Zanin e Dino, mas semelhante à de Dias Toffoli ao ser indicado à Suprema Corte. Sozinha, não seria impeditivo para sua aprovação, não fossem dois fatos que o presidente menospreza desde o início do terceiro mandato: tanto a sociedade brasileira quanto os três Poderes mudaram radicalmente desde 2010, quando ele desceu a rampa apoiado por 83% dos brasileiros.

A expectativa da reunião com Trump, por Míriam Leitão

O Globo

Viagem de Lula tem vários objetivos: manter canal aberto, avançar no combate ao crime e responder a pressões comercias

O governo brasileiro quer, na visita do presidente Lula a Washington, “manter o diálogo de alto nível e tratar muito concretamente temas que formem uma agenda positiva”. Foi o que ouvi de pessoa próxima ao presidente. Parece simples, mas é difícil no atual contexto. Mais do que algum acordo, o objetivo é manter o canal de diálogo presidencial, apesar de todas as diferenças. Além disso, o Brasil tem o desejo de que avance a cooperação na área de combate ao crime organizado.

Houve um momento na terça-feira em que a Casa Branca ainda não havia confirmado oficialmente a reunião, mas inúmeros funcionários envolvidos no encontro, inclusive o cerimonial, tratavam com suas contrapartes no Brasil. Aqui decidiu-se continuar os preparativos. Só no fim do dia veio a confirmação. A conversa estava prevista havia tempos, nunca chegou a ter data e foi sendo adiada por causa da guerra.

Armadilha na visita a Trump, por Julia Duailibi

O Globo

Bloquear a classificação do PCC e do CV como organizações terroristas terá custo eleitoral para Lula

O governo brasileiro avalia que a visita a Donald Trump pode reverter a maré baixa de popularidade de Lula e que o encontro entre os dois hoje tem potencial para alterar o marasmo de quem ainda não se emocionou com Desenrolas, isenção de Imposto de Renda e afins. A comitiva presidencial poderá bater o bumbo se atingir dois objetivos: dissuadir os americanos de classificar as facções brasileiras como organizações terroristas e, de lambuja, ampliar a cooperação entre os dois países na área de segurança, principalmente no combate à lavagem de dinheiro e ao tráfico de armas.

É claro que anúncios envolvendo terras-raras, data centers, big techs e a Seção 301 —trecho da legislação usado pelos americanos para reclamar do Pix ao comércio paulistano da Rua 25 de Março — são relevantes. Mas, do ponto de vista político, voltar para casa com uma vitória na área de segurança é o melhor dos mundos para o Planalto — e ainda teria um gostinho especial, já que o maior adversário de Lula hoje, o senador Flávio Bolsonaro, embarcou numa viagem para os Estados Unidos na mesma semana.

O sujeito oculto, por Malu Gaspar

O Globo

Até onde se sabe, a pauta do encontro de Lula e Donald Trump, marcado de última hora para hoje, será tomada pelos assuntos “de sempre”: a investigação sobre concorrência desleal envolvendo principalmente o Pix, a exploração das terras-raras e o combate ao crime organizado na América Latina, incluindo o impasse sobre considerar Comando Vermelho e Primeiro Comando da Capital organizações terroristas.

Embora não se saiba ainda ao certo por que se decidiu fazer a reunião agora, nem seja possível antecipar os resultados, é fácil concluir que os dois presidentes procurarão tirar dividendos eleitorais da ocasião.

Zanga bolsonarista é prenúncio de química Lula-Trump, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Tanto o Brasil quanto os EUA têm a ganhar com o encontro hoje na Casa Branca

O mais auspicioso prenúncio do encontro desta quinta entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump foi feito por Paulo Figueiredo. O influenciador, que reinvindica a condição de interlocutor do bolsonarismo com o governo americano, disse, em seu programa no Youtube na terça-feira, que a visita é fruto do empenho do empresário brasileiro Joesley Batista. O grupo J&F, disse, estaria por trás de um suposto investimento de interesse binacional em minerais estratégicos no Brasil a ser anunciado na Casa Branca.

Figueiredo atribui a um grupo que financiou a posse de Trump, mas hoje é investigado por cartel nos EUA, o poder de confirmar um encontro que, há mais de um ano, é perseguido pela diplomacia brasileira e formatar um negócio de “bilhões de dólares” num momento em que o Brasil sequer tem um marco regulatório concluído do setor.

Entre o alívio momentâneo e o “reenrola”, por Eduardo Belo*

Valor Econômico

Com a popularidade pressionada, o governo Lula vê na segunda versão do Desenrola uma oportunidade de melhorar sua imagem.

O programa atende quem ganha até cinco salários mínimos e tem dívidas em atraso entre 90 dias e dois anos, com descontos e juros limitados a 1,99%, além de uso parcial do FGTS. O governo estima em 30 milhões de pessoas o público potencialmente favorecido.

O Novo Desenrola tem a vantagem de trocar dívidas pesadas por crédito mais barato, mas embute riscos. A promessa de fôlego financeiro vem acompanhada da possibilidade de contratação de novas dívidas. Foi o que ocorreu com a primeira versão do programa, lançada há menos de três anos.

Com algum alívio no orçamento, parte da população de baixa renda tende a voltar ao crédito para recompor consumo reprimido, criando uma espécie de “reenrola”.

Imprevisibilidades dominantes, por Maria Clara R. M. do Prado*

Valor Econômico

Centro de estudos na Dinamarca propõe ferramentas econométricas para lidar com as incertezas dos tempos atuais na administração da inflação

Assentada em um mundo de certezas que parecia mover-se sem amarras comerciais e financeiras, com mobilidade humana e sem grandes disputas territoriais, uma nova forma de administrar o processo inflacionário surgiu no início da década de 90 e rapidamente consolidou-se como modelo adotado pelos bancos centrais em geral. Ao invés de controlar a emissão de moeda, passou-se a pré-determinar o nível de inflação almejado para o futuro. Atingir a meta revelou-se o objetivo maior da política monetária.

O novo modelo foi construído na suposição de que a convergência das expectativas dos agentes econômicos — leia-se sistema financeiro, uma vez que nem o setor empresarial nem o de serviços foram formalmente integrados ao modelo — a respeito do comportamento dos indicadores mais relevantes levaria inexoravelmente a inflação para a meta traçada. A taxa de juros de curto prazo fixada pelos bancos centrais para administrar a liquidez nas suas relações com os bancos comerciais tornou-se o único instrumento viável para guiar o rumo das expectativas em direção à meta de inflação.

Jornada 6x1 e a falta de tempo na vida das mulheres, por Márcia Lopes*

Correio Braziliense

Para as mulheres, a realidade da jornada 6X1 é ainda mais dura. A desigual distribuição do trabalho de cuidado não remunerado faz com que o tempo simplesmente não seja suficiente

Durante muito tempo, o debate sobre o trabalho no Brasil esteve centrado na geração de empregos. No entanto, torna-se cada vez mais evidente que não basta ter um trabalho. É fundamental olhar para as condições em que ele acontece e para o tempo de vida que sobra fora dele.

A jornada 6x1, com seis dias de trabalho para apenas um de descanso, ainda é uma realidade para milhões de brasileiras e brasileiros. Esse modelo, muitas vezes naturalizado, limita a qualidade de vida, reduz o convívio familiar e compromete o direito ao descanso.

Lula corre grandes riscos, mas não poderia recusar o convite de Trump, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Se o convite ocorreu de uma hora para outra, a agenda do encontro está sendo negociada pelo Itamaraty desde a primeira conversa entre ambos

A visita do presidente João Goulart (Jango) aos Estados Unidos, realizada em abril de 1962, é considerada um marco da deterioração das relações Brasil-EUA. Foi decisiva para o cenário de desestabilização que levou ao golpe de 1964. Embora tenha sido recebido com toda pompa por John F. Kennedy, o resultado prático foi um estrondoso fracasso econômico e político. Jango tinha a vã esperança de receber a ajuda da Casa Branca. Kennedy condicionou qualquer ajuda à adesão rígida às normas do FMI, à contenção de salários e a medidas fiscais rigorosas, algo que Jango queria evitar para não penalizar a população mais pobre.

A política de não intervenção em Cuba e o diálogo com a União Soviética e a China, na linha da política externa independente de Jango, eram o grande contencioso entre os dois países no plano internacional. Mas havia também fatores internos, principalmente a nacionalização de subsidiárias de empresas americanas (como a ITT) no Brasil, realizada por Leonel Brizola, cunhado de Jango. Os EUA não somente suspenderam os empréstimos como exigiam indenização imediata.

Vazio de poder, por William Waack

O Estado de S. Paulo

Não existe uma instância capaz de controlar sozinha a crise política

Uma grande dificuldade hoje no Brasil é identificar claramente onde está o centro do poder político. Ao longo dos últimos anos, o Legislativo cresceu à custa do Executivo e o STF à custa dos outros dois. Uma característica relevante da crise hoje é o fato de que nenhum desses “centros” controla sozinho ou dita rumos de acontecimentos políticos.

O Legislativo é fracionado e de baixa representatividade. A ausência de partidos políticos dignos desse nome molda o Congresso como uma instância poderosa na distribuição de recursos (o que mais interessa às oligarquias regionais), mas incapaz de pensar o País em termos abrangentes. Ou seja, não existe uma “agenda” além das convergências de interesses em questões imediatas ou setoriais.

Rejeição a Messias agrava crise no STF, por Carolina Brígido

O Estado de S. Paulo

Mendonça e Lula amargam derrota, enquanto Moraes e Alcolumbre dão abraço da vitória

A rejeição do Senado ao nome de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal colocou no mesmo balaio de derrotados o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro André Mendonça. No time dos vencedores, se abraçam o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), e o ministro Alexandre de Moraes.

A aparente discrepância dos aliados se explica nas alianças políticas – que, no Brasil, não se limitam a governo e Congresso, mas inclui STF. Entre vencedores e derrotados, cada um defendeu os próprios interesses.

Ministro Durigan aponta um bom caminho, por Felipe Salto*

O Estado de S. Paulo

Fato é que será necessário avançar até um superávit de 1,5% a 2,0% do PIB em dois ou três anos

Na entrevista concedida ao Programa Roda Viva, da TV Cultura, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, foi enfático a respeito da responsabilidade fiscal.

Defendeu, obviamente, o programa de ajuste do atual governo, sob a regra aprovada em 2023, o novo arcabouço fiscal, mas apontou caminhos importantes para o próximo ano. De fato, o desafio de reorganizar as contas públicas e restabelecer as condições de sustentabilidade da dívida pública pende de solução.

Ajustar as contas públicas não é tarefa simples. Em março, a dívida ultrapassou a marca de 80% do Produto Interno Bruto (PIB). Já são 8,4 pontos porcentuais do PIB de aumento desde dezembro de 2022, na esteira de juros elevados e déficit primário persistente.

O Desenrola, perdão que se perpetua, por Celso Ming

O Estado de S. Paulo

A operação Desenrola-2, que pretende produzir alívio no endividamento das famílias, é tecnicamente limitada e, do ponto de vista estrutural, traz mais malefícios do que benefícios. Mas tem de ser vista sob o ponto de vista do objetivo a que se destina, que é eleitoreiro. Foi criada para amolecer a disposição do eleitor em relação à candidatura Lula e, nisso, pode ter lá sua eficácia.

A crise é séria, mas não institucional, por Hermínia Tavares

Folha de S. Paulo

Eleitor vota em presidente de esquerda, mas no Legislativo escolhe a direita

Esquerdas sempre foram minoritárias nas duas casas legislativas federais

Na semana passada, o Senado rejeitou a indicação do presidente Lula para uma vaga no Supremo Tribunal Federal; no dia seguinte, o Congresso derrubou os vetos do Planalto ao PL da Dosimetria. Esses dois fatos, somados à erosão do prestígio da corte e à crispação pré-eleitoral, avivaram o perene debate sobre as instituições da República e a necessidade de reformá-las.

O trabalho infantil do Zema, por Thiago Amparo

Folha de S. Paulo

Ex-governador de Minas ajuda Flávio Bolsonaro a parecer mais palatável ao eleitorado

Zema já criticou restrições ao trabalho infantil e chamou beneficiários do Bolsa Família de imprestáveis

O ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo) está fazendo um ótimo trabalho para que Flavio, o outro presidenciável que já foi denunciado por rachadinha e elogiou milicianos como um "novo tipo de policiamento", pareça palatável quando não o é. Zema tem defendido posições extremistas em sua pré-candidatura à presidência que fazem qualquer Delfim Moreira, presidente entre 1918-1919 que tinha fama de ter alucinações, parecer um político são e equilibrado.

Advogados da União querem permissão para fazer bico no setor privado, Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Carreiras jurídicas federais poderão advogar no setor privado caso projeto avance no Congresso

Querem o melhor dos mundos, com mais privilégios

Um abre alas geral e institucionalizado para o popular bico no trabalho. É o que querem os advogados da União, procuradores da Fazenda Nacional, procuradores federais e procuradores do Banco Central.

Os servidores dessas carreiras jurídicas federais poderão advogar no setor privado, fora das suas atribuições funcionais, caso a tramitação de um projeto, aprovado nesta semana na Comissão de Constituição e Justiça, avance no Congresso.

Querem o melhor dos mundos dos setores privado e público.

Não se irrite; fale do seu, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Essas frases não são minhas, quisera eu: são de Arthur Mühlenberg, grande torcedor do Flamengo

Mühlenberg nos deixou em abril; ficará sem ver o que o Flamengo ainda nos reserva pela eternidade

Esta coluna se compõe de frases sobre o Flamengo. Se você for Flamengo, vai adorar. Se não for, não se irrite atacando-o —em vez disso, fale das maravilhas do seu clube.

"A vida é aquilo que acontece entre dois jogos do Flamengo." "Gosto de pensar que a célula rubro-negra original já estava presente quando eu era apenas um homozigoto. Mas me lembro vagamente de algumas emoções flamengas enquanto eu ainda boiava em semiconsciência no líquido amniótico no útero da mamãe." "A grandeza do Flamengo transcende meros patrimônios imobiliários. O Flamengo tem o Maracanã, do qual ocupa 80% de sua capacidade há décadas, a Inter de Milão e o Milan não têm estádios próprios. Já o Chievo e o Siena têm. Você acha que alguém em Milão se preocupa com isso?"

Poesia | Entre o ser e as coisas, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Caetano Veloso - Gente

 

quarta-feira, 6 de maio de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Inflação da guerra e da comida precisa ser enfrentada

Por Folha de S. Paulo

Altas dos preços de combustíveis e alimentos geram efeitos sobre custos de outros setores da economia

Margem estreita para redução da Selic cria panorama inóspito, mas chancelar um patamar inflacionário elevado prejudicaria os mais pobres

As expectativas para a inflação deste ano sobem há oito semanas, em razão do impacto da guerra no Oriente Médio sobre os preços do petróleo e de seus derivados. De março para cá, segundo pesquisas do Banco Central, a projeção mediana se elevou de 3,91% para 4,89%, já acima do teto oficial —meta de 3% com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual.

Mudança na expectativa de poder alerta aliados de Lula, por Fernando Exman

Valor Econômico

Próxima indicação para o STF terá que ser dialogada com o Senado, ainda que a ficha tenha voltado para as mãos de Lula

Um “choque de realidade” com consequências ainda imprevisíveis. Assim é classificado, nos bastidores do governo, o episódio que culminou na rejeição da indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, para o Supremo Tribunal Federal (STF).

As pontes do Palácio do Planalto com o STF e a cúpula do Senado não serão mais as mesmas. As bases dessas relações foram rachadas.

Também ficou a percepção, para interlocutores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que o palanque do petista em Minas Gerais pode estar sendo erguido sobre areia movediça e algo precisa ser feito. O Estado é o segundo maior colégio eleitoral brasileiro, território fundamental para quem quer vencer uma eleição presidencial. Mas, sobretudo, o que mais pesa nas avaliações de alguns interlocutores de Lula é o fato de o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que arrancou nas pesquisas de intenção de voto e transformou-se num incômodo adversário antes do que se esperava, sair com um importante troféu desta etapa preliminar da campanha.

Trump, tarifaço e a nova lei das terras raras, por Lu Aiko Otta


Valor Econômico

Encontro com presidente americano será uma oportunidade para Lula fazer funcionar sua química

Aguardada pelo lado brasileiro para esta quinta-feira, depois de haver ficado em suspenso durante semanas por causa da guerra no Irã, a reunião do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o mandatário dos Estados Unidos, Donald Trump, ocorre sob sombra de um possível novo tarifaço, por causa de supostas práticas desleais do Brasil, em temas que vão de Pix a desmatamento. O Brasil é investigado com base na Seção 301 da Lei do Comércio, o que pode resultar em tarifas adicionais.

Por outro lado, Lula tem em mãos o trunfo das terras raras, que são no momento o maior ponto de interesse dos Estados Unidos no Brasil.

Escravidão, trabalho e atraso, por Tiago Cavalcanti*

Valor Econômico

A inovação tecnológica não é neutra e pode ser direcionada para contornar restrições de fatores produtivos

História econômica é um campo de pesquisa fascinante. Um aspecto importante da minha formação como economista sempre foi o seu estudo, seja nas disciplinas da graduação e do doutorado, seja nas minhas horas de lazer. Há uma discussão sobre a redução do número de cadeiras obrigatórias no curso de economia da Universidade de Cambridge. Sou totalmente contra.

Na graduação na UFPE, tive ótimos cursos sobre a formação econômica do Brasil e do Nordeste com o professor Policarmo Lima. O livro que estudei sobre o Nordeste foi escrito pelo meu sogro, o professor Leonardo Guimarães Neto. A obra tem uma bela capa, com a foto de uma fazenda com escravos, provavelmente na zona da mata pernambucana. Em um contexto de forte interesse pelas raízes do atraso econômico regional, influenciado por trabalhos de Celso Furtado, como o documento GTDN de políticas públicas para o desenvolvimento regional, Leonardo Guimarães Neto analisa a trajetória do Nordeste, enfatizando suas relações comerciais com o mundo e com o restante do país.

O soft power de Flávio Bolsonaro em busca dos votos voláteis do centro, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Lula mantém sua base social tradicional nos estratos de menor renda, mas enfrenta limites claros para expandir sua coalizão e dialogar com o eleitor moderado

Por definição, a expressão soft power, ou seja, “poder brando”, é usada nos meios diplomáticos para explicar a capacidade de um país influenciar o comportamento e as preferências de outras nações por meio da atração e persuasão, em vez de coerção militar ou econômica (hard power). Ou seja, tudo ao contrário do que faz o atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

O termo foi criado por Joseph Nye, que foi professor e reitor de Harvard, o pioneiro ao defender a projeção de poder de forma intangível, por meio da música, do cinema, da gastronomia, da literatura, da cooperação e do humanismo, entre outras formas. É uma estratégia para ganhar “corações e mentes” em vez de território. O bolsonarismo não tem nada a ver com o soft power, certo? Errado. Um vídeo de Flávio Bolsonaro que viraliza nas redes mostra o principal candidato de oposição em contraponto, digamos, imagético, ao próprio pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Lula e o fantasma das Laranjeiras, por Marcelo Godoy

O Estado de S. Paulo

O último dos espíritos que rondam Brasília aparece a Lula nas noites insones do Alvorada

Em 30 de outubro de 1897 o Jornal do Brasil noticiou em sua primeira página: “Às primeiras badaladas da meia-noite, descia a Ladeira do Ascurra nas Laranjeiras, no Rio, em direção ao Largo do Machado, um vulto de mulher, ora decapitado, ora ostentando uma cabeça povoada de cabelos negros”. Milhares acorreram nos dias seguintes à ladeira para tentar flagrar a assombração.

A história do fantasma que apavorou a capital federal meses antes do atentado contra o presidente Prudente de Morais está no livro 1897, A República polarizada e o atentado contra Prudente de Morais, do professor Ely Carneiro de Paiva, da Unicamp. Ela marcou o último ano do primeiro governo civil da República. Na noite de quinta-feira, dia 30 de abril, milhares de pessoas se aglomeraram na Praça Charles Miller, no Pacaembu, no centro de São Paulo. Chegaram pouco a pouco em suas motocicletas e com seus baús e mochilas.

Destruição de demanda, por Fábio Alves

O Estado de S. Paulo

Com a guerra no Irã em seu terceiro mês, os analistas redobraram as previsões mais sombrias acerca da economia mundial e do impacto da disparada do preço do petróleo, da gasolina, do combustível de aviação e de outros derivados. Se até o fim deste mês o Estreito de Ormuz permanecer praticamente fechado, afetando um quinto da produção global de petróleo, um novo conceito econômico poderá entrar para o vocabulário dos leigos: destruição de demanda.

Isso acontece quando o poder de compra de consumidores sofre um tombo por conta da disparada nos preços de um produto ou serviço, ou ainda quando um choque de oferta limita a capacidade dos consumidores de comprar bens e serviços. Muitos analistas passaram a estimar picos de US$ 150 a US$ 200 para o barril do petróleo Brent, caso o Estreito de Ormuz siga fechado nas próximas quatro a seis semanas.

Erosão institucional, por Zeina Latif

O Globo

Rejeição ao indicado ao STF vai além da polarização de extremos, algo mais grave corrói as instituições

A histórica rejeição do Senado ao indicado ao STF pelo presidente é mais um sinal de alerta para o mau funcionamento das nossas instituições.

São várias as versões, de motivação política, para esse episódio, enquanto não se discutiu a norma constitucional, que condiciona a investidura no cargo ao notável saber jurídico e à reputação ilibada — o que não surpreende considerando o padrão nas últimas décadas.

Lula e o 'sistema', por Vera Magalhães

O Globo

Ao buscar justificativa para derrotas e pesquisas adversas, presidente replica discurso perigoso que tem fragilizado instituições

A grande surpresa do longo e pouco empolgante pronunciamento de Lula no Primeiro de Maio foi o apelo a um expediente tão gasto quanto capcioso para tentar explicar as recentes derrotas no Congresso e a dificuldade de implementar sua agenda de governo: na falta de outra justificativa, o presidente resolveu culpar o “sistema”.

Não dá para colocar na conta de um desabafo circunstancial tamanha inflexão política e retórica. Afinal, se há um político que não só foi forjado no sistema, como praticamente passou a defini-lo, este é Luiz Inácio Lula da Silva. Ele refundou um sindicato, fundou uma central sindical, depois um partido, foi candidato em quase todas as eleições presidenciais desde a redemocratização, foi deputado constituinte… Na última campanha, fez um apelo justamente ao “sistema”, encampando a defesa de instituições que haviam sido atacadas, perseguidas ou enfraquecidas por Jair Bolsonaro.

Azuis e vermelhos, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Enquanto internet discute se juízes são azuis ou vermelhos, ministros recebem cachê para ensinar advogados a atuar em tribunal trabalhista

A fala viralizou no fim de semana. Num congresso jurídico em Brasília, o presidente do Tribunal Superior do Trabalho (TST) se referiu a uma suposta divisão da Corte entre ministros azuis e ministros vermelhos. “Eu diria que não tem azul nem vermelho. Tem quem tem interesse e quem tem causa. Nós, vermelhos, temos causa”, disse Luiz Philippe Vieira de Mello.

O tribunal das redes sociais decidiu rápido. O presidente do TST foi julgado e condenado como um juiz parcial. Por um vídeo de um minuto e meio, transformou-se no novo símbolo de uma Justiça capturada pela política.

Nem guerra nem paz é purgatório para ricos, mas inferno para pobres, por Rui Tavares*

Folha de S. Paulo

Guerra de EUA e Israel contra Irã deve agravar crises alimentares em países da África

Mesmo com fim da tensão no Oriente Médio, normalidade no fornecimento de combustíveis levaria meses

Conta-se que, quando Lenin enviou Trótski a Brest-Litovsk para negociar uma paz com o Império Alemão, as condições impostas pelos emissários do kaiser eram tão duras que era impossível aceitá-las, mas voltar para casa sem a paz prometida era inconcebível.

Trótski tentava fugir ao dilema, e os alemães perguntavam-lhe sempre: "Afinal o que é que vocês querem, paz ou guerra?". Trótski teria respondido: "Nem guerra nem paz".

A resposta lembra o que se passa agora entre Donald Trump e Irã. Não temos guerra ativa; também não temos paz. A situação tanto pode degenerar quanto ficar congelada durante semanas ou meses, dependendo da capacidade de sofrimento de cada lado.

Em princípio, o Irã leva vantagem nesse quesito. Trump tem um povo que detesta pagar US$ 4,50 por galão de gasolina e há eleições de meio de mandato em novembro.

Em ano eleitoral, Congresso avança com pisos e aposentadorias a custo bilionário, por Fernanda Brigatti

Folha de S. Paulo

CNM projeta que apenas pisos salariais podem custar R$ 49 bilhões ao ano às prefeituras

Estratégia do governo Lula (PT) é empurrar votações para depois das eleições

Pisos salariais, jornadas reduzidas, aposentadorias antecipadas e regras de reajustes integram uma espécie de pacote de bondades do Congresso Nacional que pode deixar uma bomba fiscal bilionária para União, governo estaduais e prefeituras.

O tamanho da conta a ser paga é incerto, uma vez que a maioria dos projetos tramita sem cálculo e sem apontar a fonte de custeio. A CNM (Confederação Nacional dos Municípios) projeta que apenas a criação ou o reajuste de pisos salariais pode custar R$ 49 bilhões ao ano às prefeituras.

A ofensiva de categorias na Câmara e no Senado nas últimas semanas surtiu efeito, levando projetos de lei e propostas de emenda à Constituição serem pautados, encaminhados e aprovados em comissões.

Um desses casos é o de agentes comunitários de saúde e agentes de combate a endemias. Representantes das categorias são vistos com frequência nos corredores da Câmara e Senado. A PEC 14 de 2021 foi aprovada na Câmara no ano passado, sob intensa pressão desses trabalhadores, em geral identificados por seus coletes amarelos.

Sem saída, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Donald Trump iniciou uma guerra contra o Irã que não sabe como encerrar

Impopularidade do conflito nos EUA pode ser decisiva nas eleições de novembro

Donald Trump começou uma guerra absolutamente desnecessária contra o Irã, só colheu reveses e agora não consegue sair da encrenca que armou para si mesmo. Embora proclame várias vezes por dia ter vencido brilhante vitória, os fatos são que o regime de Teerã continua de pé, o estreito de Hormuz continua fechado para a navegação e os iranianos continuam em posse de seu urânio enriquecido, sem dar sinais de que pretendam encerrar seu programa nuclear. Pelo contrário, a guerra deve ter reforçado a convicção dos generais persas de que só estarão seguros se desenvolverem armas atômicas.

Desacerto entre aliados é obstáculo para Flávio Bolsonaro, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Senador faz bonito nas pesquisas, mas em casa e na campanha o ambiente é do mais completo desalinho

Arranca-rabos internos suscitam dúvida sobre quem de fato mandaria num novo governo bolsonarista

A campanha de Flávio Bolsonaro (PL) ecoa o velho provérbio que usa a figura da "bela viola" para falar do contraste entre imagens externas e realidades internas.

Nas pesquisas de opinião, o senador faz bonito. Aparece vigoroso, com traços de vencedor. Em casa, o ambiente é de completo desalinho. Os irmãos brigam com os companheiros de campo ideológico —ainda distante da condição de aliados—, a mulher do pai preserva distanciamento para lá de crítico e parte dos correligionários ainda prefere a condição de espectadores não engajados.

Que emoção no coração! Por Pablo Spinelli*

Dedicado aos 50 anos de Liberalismo e Sindicato no Brasil, obra de fibra do flamenguista Luiz Werneck Vianna

Filme resenhado: Zico, o samurai de Quintino. 2025.  Direção: João Wainer. Roteiro: Thiago Iacocca

É com uma raridade cada vez mais constante que vemos raios luminosos em dias cinzentos, no cinema atual, com o mesmo brilho e leveza como foram os 103 minutos da exibição de Zico, o samurai de Quintino. 

Uma biografia jamais pode ser considerada uma fonte verdadeira. E muito do que é retratado do perfil do biografado tem maior consonância com o biógrafo ou com o momento conjuntural do que com o perfil a ser exposto. Em um país que se diz do futebol – tal como a Argentina, Itália, Inglaterra, dentre outros – é de difícil compreensão que tão poucos filmes se debrucem sobre o universo futebolístico. Após clássicos sobre Garrincha, Alegria do povo (1962) e sobre Pelé: o nascimento de uma lenda (2017), cremos que o filme completa uma venturosa trilogia daqueles jogadores que transcenderam o espírito clubista e o ranço dos adversários.  

O alienista: a força das eleições virá do centro, e não dos polos, por Aylê-Salassié Filgueiras Quintão*

O brasileiro acaba de ganhar uma nova opção para votar para Presidente da República nas eleições de outubro. É o que, aparentemente, se precisa diante dessa mobilização anárquica pelo País: um psiquiatra. Surgiu Augusto Cury, médico, pesquisador da mente humana, autor de quase 40 milhões de livros de auto ajuda vendidos, preocupado com os desorganização institucional do Brasil, a saúde mental do brasileiro, as expectativas de futuro da juventude, bem como as tendências comportamentais dos políticos atuais. O Brasil tem tradição de transgressão e violência.

Um livro que nos honra a todos, por Ivan Alves Filho*

Terminei de ler, por esses dias, um livro dos mais interessantes. Trata-se de Sorriso escondido, de autoria de Alfredo Maciel. De formação marxista, engenheiro, professor, seu autor rememora sua vida e sua militância, incluindo uma passagem pela antiga União Soviética. Nesta obra, a história pessoal se mescla à História recente do nosso país.

Escrita em linguagem acessível, como uma conversa, o livro cobre um período crucial da nossa trajetória social e política, com ênfase na resistência democrática ao regime instalado no país após 1964. 

Assim, Alfredo Maciel abre espaço para o movimento estudantil, a atuação dos intelectuais, marxistas e/ou católicos. Denuncia as indescritíveis torturas infligidas ao padre Henrique, assessor de Dom Hélder Câmara. No livro, o autor relata seu convívio com figuras importantes da vida cultural e política brasileira. Nomes como Luiz Werneck Vianna, Leandro Konder, Sérgio Augusto de Moraes, Carlos Alberto Torres, Antônio Ribeiro Granja e Edmílson Martins são lembrados por ele com emoção. 

Poesia | Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, de Luís de Camões

 

Música | Nora Ney - Preconceito (Fernando Lobo e Antonio Maria)

 

terça-feira, 5 de maio de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Algo vai mal quando há 2 programas Desenrola em 3 anos

Por Folha de S. Paulo

Alta dos juros provocada por gastos do governo leva Lula a anunciar novo programa de renegociação

Novas medidas serão apenas paliativo efêmero se não forem promovidas condições para a queda sustentável das taxas do Banco Central

Algo vai mal quando um governo lança dois programas de renegociação de dívidas pessoais em apenas três anos, sem que tenha havido uma recessão ou outro grande revés inesperado entre um e outro.

Não se trata apenas de erro de cálculo da política econômica. Iniciativas do gênero não podem se banalizar, sob o risco de incentivar mais endividamentos imprudentes —na expectativa de que novos socorros virão.