terça-feira, 13 de outubro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais \ Opiniões

Nunes Marques insiste em censura pró-Flávio

Por Folha de S. Paulo

Após vetar divulgação de pesquisa, agora presidente do TSE resolve derrubar canal de WhatsApp

Trata-se de extrapolação do poder de uma Justiça Eleitoral já paternalista, o que só faz aumentar a percepção de parcialidade das instituições

O ministro Kassio Nunes Marques, presidente do Tribunal Superior Eleitoral, investe novamente em censura, prejudicando ainda mais a credibilidade do Judiciário.

No domingo (11), ele determinou a suspensão do canal de WhatsApp "Exército de Lula", administrado pelo deputado André Janones (Rede-MG); em junho, acatara pedido do PL para vetar a divulgação de pesquisa que apontava queda nas intenções de voto de Flávio Bolsonaro (PL).

Lula sai das redes para as ruas e Flávio tenta barrar essa reação no TSE, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O canal de WhatsApp “Exército do Lula”, criado pelo deputado André Janones, com cerca de 3,6 milhões de inscritos, se tornou alvo da campanha do Flávio Bolsonaro

O PT conseguiu, na última semana, dar forma política à reação de setores da sociedade ao resultado do primeiro turno. Depois da perplexidade provocada pela vantagem de Flávio Bolsonaro (PL), a campanha de Luiz Inácio Lula da Silva começou a encontrar nas ruas uma energia que lhe faltara antes da votação. Universitários e secundaristas aparecem como protagonistas dessa retomada. A mobilização ainda não comprova uma virada eleitoral, mas rompe a imagem de uma candidatura paralisada diante do avanço do adversário.

Flávio busca preservar sua vantagem e conter a recuperação do adversário, inclusive pela via judicial. Lula precisa fazer a energia dos estudantes e das manifestações chegar às periferias, aos trabalhadores e aos eleitores que rejeitam ambos. A rua devolveu iniciativa à campanha governista. A mudança consiste em aproximar a estrutura partidária de uma disposição de resistência política ampla, que ultrapassa suas fronteiras.

Ecos da resistência, da rua ao Congresso, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Há sinais fartos de que o país não ficará a reboque de um eventual endurecimento do regime

Dê Flávio, dê Lula, as ruas deixaram de ser território cativo do bolsonarismo. Foi o que as manifestações deste feriado mostraram. Se serão suficientes para uma virada é difícil dizer, mas a reocupação traz um dado que ultrapassa a conjuntura eleitoral. Se perdurarem, podem vir a respaldar a resistência ao acachapante avanço do PL no Congresso.

A primeira impressão foi a de que a captura do Congresso, ante um Supremo nas cordas proporcionaria a um Flávio Bolsonaro eleito presidente um poder sem freio e a um Luiz Inácio Lula da Silva de mandato renovado, a condição de refém de uma maioria legislativa ainda mais à direita. A assertiva, que caiu como um facão da fatalidade sobre o destino da nação, não durou uma semana.

Há sugestões, inclusive ortodoxas, para o fim dos juros absurdos, por Pedro Cafardo

Valor Econômico

Nível dos juros é uma das questões atuais mais importantes da economia brasileira e será tema de debate em 2027 qualquer que seja o presidente eleito

Alunos de jornalismo aprendem o que é lide (do inglês lead) nas primeiras aulas da faculdade. Lide é o parágrafo inicial de uma notícia, que resume a informação principal.

Jornalistas procuram, portanto, escrever notícias numa espécie de pirâmide invertida. Começam com o fato mais relevante e o detalham aos poucos, de forma que o leitor mais preguiçoso possa parar a leitura após dois ou três parágrafos já conhecendo a informação essencial.

Não é assim nos artigos de opinião. Tal qual em teses acadêmicas, o articulista em geral faz longas observações e coloca a informação principal na conclusão do artigo. Foi o que fez o professor Thiago de Moraes Moreira, do Ibmec/RJ e ESPM/SP, em excelente artigo no Valor (22/9). Na última frase do texto, ele dá o que seria o lide: o Brasil estaria pondo no bolso dos rentistas, desnecessariamente, de R$ 230 bilhões a R$ 340 bilhões por ano. Isso porque a taxa Selic (13,75% ao ano) estaria em nível incompatível com os fundamentos macroeconômicos do país. Se fosse compatível, a taxa ficaria entre 8% e 10% ao ano.

Brasil: Esperanzar, un verbo para aquellos que luchan, por Fernando de la Cuadra*

Clarin (Chile)

En su libro Pedagogía de la esperanza. Un reencuentro con la pedagogía del oprimido, Paulo Freire nos brinda con la génesis de su concepción sobre lo que vendría a llamar esperanzar. En sus páginas, el pensador pernambucano sostiene que el concepto de esperanzar implica mucho más que la simple esperanza pasiva, de esperar pacientemente que la realidad se comporte de una manera consonante con nuestras aspiraciones. Por lo mismo, dicha espera se puede transformar inevitablemente en desesperanza. Y esta desesperanza nos inmoviliza y nos hace sucumbir al fatalismo en que no es posible reunir las fuerzas indispensables para el embate recreador del mundo.

Não é opinião, são os fatos, por Míriam Leitão

O Globo

País pode optar por ignorar o histórico familiar e levar Flávio Bolsonaro ao Planalto. Mas os fatos até aqui permitem dizer que a democracia correrá riscos

A democracia correrá riscos em um possível governo Flávio Bolsonaro. Isso não é opinião. É o resultado da análise dos fatos, matéria-prima do jornalismo. O pai dele quando esteve no governo tentou dar um golpe de Estado. A família Bolsonaro tem diversas brigas internas, mas total concordância sobre alguns pontos: acham que a ditadura militar foi boa, admiram o Coronel Brilhante Ustra e seus métodos de tortura e morte de adversários políticos, elogiam o Ato Institucional número 5, aprovam as decisões e palavras do ex-presidente Jair Bolsonaro e negam que durante aquele governo tenha havido conspiração para um golpe, que terminou com a quebra física dos prédios dos Três Poderes.

Salto alto, por Merval Pereira

O Globo

A campanha da direita, deslumbrada com o resultado do primeiro turno, deixou-se levar pela expectativa de poder, subiu no salto alto e não foi às ruas

O marasmo da campanha presidencial do PT no primeiro turno sofreu uma reviravolta revigorante provocada pelo susto da derrota provável, não na cúpula da burocracia partidária, mas na base estudantil que tomou a frente das ações sem rédeas oficiais. As manifestações em diversas capitais, especialmente no Rio e em São Paulo, deram uma nova vida à candidatura à reeleição do presidente Lula, rejuvenescendo-a. A ação digital também melhorou. No entanto, esses avanços precisam ser mais bem avaliados para que não saiam do controle.

O caso da deputado federal Ana Elisa, eleita aos 21 anos por Minas, é exemplar. Tirada de seu nicho eleitoral para comandar a digitalização da campanha, trouxe junto um passado de ativista radical que em nada ajuda a tentativa de Lula de buscar entre os independentes e os que não votaram no primeiro turno os votos de que necessita para virar a eleição. As passeatas, além de exibir a força da juventude a favor de um candidato octogenário —neutralizando um dos pontos fracos de Lula —, servem para extravasar radicalismos que em nada ajudam a campanha. Ela tem de buscar os votos que faltam no centro e na direita democráticos.

Uma eleição on-line, por Fernando Gabeira

O Globo

Hegemonia das redes sociais provoca nos eleitores o mesmo efeito que já vemos em nosso cotidiano: um déficit de atenção

A eleição não acabou, mas posso dizer que foi uma das mais singulares da História. Assisti a algumas antes e a todas depois da redemocratização. Uma das características de agora é a incontestável hegemonia das redes sociais.

Ouso dizer que essa hegemonia provoca nos eleitores o mesmo efeito que já vemos em nosso cotidiano: um déficit de atenção. Não discutimos tópicos de programas. Saltamos de um tema para outro, e eles se sucedem com rapidez. Nossa Senhora, “Dark Horse”, uma ou outra frase mal colocada pelos adversários. Os problemas deixam de tratar do futuro nacional e se transformam em simples trends.

A soma de direita e esquerda, por Pedro Doria

O Globo

Nenhum lado do espectro político lhe entrega o que busca. Daí fica zanzando de um canto ao outro

A eleição presidencial não acabou, e quem acha que está decidida se engana. É verdade que jamais o vencedor do primeiro turno perdeu no segundo. Mas também é verdade que nunca a vitória de um sobre o outro foi tão estreita. Não bastasse isso, os votos que Flávio ganhou a mais, neste pleito agora, foram de Lula em 2022. Não se trata de um eleitor antipetista. Ainda assim, Flávio é favorito, e por uma razão apenas: tem errado menos. A pista que explica o que levou Lula à vitória em 2022 e deu a Flávio a vantagem nesta eleição pode estar na leitura que um jornalista americano faz dos Estados Unidos. É Chuck Todd, ex-diretor da sucursal de Washington da rede NBC. O eleitor deseja valores conservadores e uma política de Estado à esquerda. Nenhum lado do espectro político lhe entrega o que busca. Daí fica zanzando de um canto ao outro, sempre insatisfeito com o que o presidente lhe entrega.

Bang bang institucional, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

A campanha do presidente Lula dormitou no primeiro turno todo, mas acordou com força no segundo, ativando o canal “Exército do Lula”, com quase quatro milhões de seguidores na internet, e megamanifestações em São Paulo, Rio e diversas capitais. São fatos políticos relevantes, que podem ter impacto na eleição, e a campanha de Flávio Bolsonaro reage.

Os mega-atos foram trunfo do PT durante décadas, mas perderam vigor com mensalão e petrolão e abriram espaço para as multidões de Jair Bolsonaro, pelo Brasil afora, nas suas disputas à Presidência. Deu certo em 2018, mas não foi suficiente para elegê-lo em 2022. O PT, agora, retoma as ruas.

O chicote mudou de mãos, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

O presidente do TSE mandou derrubar o canal de WhatsApp “Exército do Lula”, administrado por André Janones. O deputado aplica contra o bolsonarismo aquilo que o bolsonarismo sempre aplicou contra os adversários: a difusão em massa de comandos para espalhamento de informações frequentemente mentirosas.

Lula reclamou do presidente do TSE: “Estou percebendo muitas decisões tendenciosas contra nossa campanha. Não é possível que o presidente da Justiça Eleitoral não tenha um compromisso civilizado, republicano, de permitir que as eleições fluam sem interferência da Justiça”. A fala poderia ser de Jair Bolsonaro, em 2022.

Itamaraty: instituição ameaçada, por Rubens Barbosa

O Estado de S. Paulo

O Itamaraty, como instituição de Estado, está ameaçado, qualquer que seja o resultado do segundo turno. Levando em conta as políticas implementadas nos três mandatos do PT e no governo de Jair Bolsonaro, as declarações durante a campanha eleitoral e de acordo com os programas dos candidatos, são preocupantes as perspectivas para a política externa e para a diplomacia nacional nos próximos quatro anos.

Do lado do lulismo, tudo indica que se repetirá a influência e o predomínio da ideologia e do partidarismo, deixando muitas vezes o interesse nacional em segundo plano. Com isso, continuará o esvaziamento do Itamaraty pela perda de espaço no âmbito da administração federal e pela deficiente formulação de políticas que respondam aos desafios do novo mundo e às prioridades nacionais.

Lula valorizou o salário mínimo, Flávio Bolsonaro vai congelá-lo? Por Michael França

Folha de S. Paulo

Petista gerou um aumento do poder de compra cerca de dez vezes maior que o registrado por Jair Bolsonaro

Candidato do PL promete repor a inflação, mas não assegura ganho real

Em 2026, o salário mínimo chegou a R$ 1.621, acumulando uma alta de 11,8% acima da elevação dos preços durante o governo Lula. Isso significa que os trabalhadores que o recebem tiveram um aumento em seu poder de compra.

A trajetória contrasta com a do governo de Jair Bolsonaro, cujos reajustes praticamente acompanharam a elevação dos preços, com ganho no poder de compra de apenas 1,2%.

O reajuste de 2019 ainda seguiu a regra antiga de valorização. Boa parte do 1,2% vem dessa alta herdada. Nos aumentos de 2020 a 2022, decididos pelo próprio governo Bolsonaro, o ganho real foi praticamente zero.

Se Jair Bolsonaro tivesse permanecido no poder e mantido a política de reajustes de seu governo, sem nenhum ganho do poder de compra, o salário mínimo chegaria a cerca de R$ 1.450 em 2026.

Seriam R$ 171 a menos por mês em comparação com o valor atual, uma diferença de cerca de R$ 2.200 ao ano, considerando o 13º salário.

É corrupto, mas é o meu corrupto, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Pleito mostra que o eleitorado não é muito consistente na aplicação de critérios éticos

Bolsonaristas cobram higidez de Lula, mas ignoram suspeitas fortes contra Flávio

Faz todo o sentido que o eleitorado rejeite a corrupção. Até algumas décadas atrás, ainda havia uma corrente de economistas que descrevia o fenômeno em termos mais benignos, como uma "graxa" que lubrificaria engrenagens travadas por instituições disfuncionais ou por excesso de regulação. Mas essas ideias, que já caíram em descrédito na academia, nunca fizeram muito sentido quando consideradas do ponto de vista do cidadão, que é a parte prejudicada pelos desvios, seja pela subtração direta de recursos públicos, seja pela perda de eficiência em sua alocação.

STF avançou e revelou-se mau jogador na política, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Supremo participa da guerra eleitoral, mesmo quando quer dar a impressão de que se afasta da disputa

Isso acontece porque aos magistrados falta o tino necessário para atuar em terrenos alheios à alçada da Justiça

O Supremo Tribunal Federal participa da guerra política mesmo quando quer dar a impressão de que se afasta dela. Toma decisões referidas no placar da primeira etapa da disputa eleitoral, evidenciando falta de tino para atuar em terrenos alheios à sua alçada.

A série de acenos favoráveis aos bolsonaristas parece antes uma tentativa de não atrapalhar o presidente Luiz Inácio da Silva (PT) mais do que já atrapalhou.

Vorcaro aposta em Flávio para salvar a própria pele, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Empresário ressurge no calor da campanha presidencial com suspeita de mais falcatruas

Quem gravou o áudio dentro da prisão com acusações a Lula? Quem mandou gravar?

O escândalo do Banco Master funcionou como um radar da campanha presidencial. O míssil, contudo, atingiu em cheio a imagem do STF. A divisão interna entre ministros acabou favorecendo Flávio Bolsonaro, que conseguiu plantar a ideia de que Lula e Alexandre de Moraes são a mesma coisa.

A nova composição do Senado, predominantemente bolsonarista, sela o impeachment de Moraes. Ainda pode sobrar para Dias Toffoli, o mais enrolado de todos, e Flávio Dino, que não se lambuzou com o Master, mas investiga o desvio de emendas. Apesar de ligados ao esquema Vorcaro, Kassio Nunes Marques e Luiz Fux dormem tranquilos.

Uma escolha simples, por Angela Alonso*

Folha de S. Paulo

Segundo turno não põe dilema para democratas, já que a clivagem é entre a garantia de direitos e o primado da força

O que pode significar reforma da Constituição para 'redemocratizá-la' no dicionário de um fã do torturador Ustra?

A festa da democracia virou balada da extrema direita. O seu batalhão tomou a Câmara dos Deputados, o Senado e muitos governos estaduais. Faltam a Presidência e o sistema de Justiça. Dominadas estas últimas trincheiras, veremos, como querem os bolsonaristas, um arremedo do governo Donald Trump no Brasil.

O segundo turno não põe dilema para democratas, já que os candidatos diferem no fundamental: os meios democráticos ou os violentos para dirigir o país.

A política nacional teve outros momentos de decisões assim cruciais. Foi o caso dos dois 88.

Na batalha da escravidão, um lado lutou por direitos para indivíduos reduzidos a mercadorias e o outro, para manter a crueldade do escravismo e a compra e a venda de pessoas. Pulando um século, o embate opôs partidários de um Estado de exceção e de censura, governado por militares, e outro democrático, que garante o próprio direito de divergir.

O conhecimento saiu na frente, por Ivan Alves Filho*

Ele participou de dezenas de teses de doutorado e era considerado um dos grandes intelectuais franceses do seu tempo. No total, integrou mais de 150 bancas e defesas de tese na verdade. Não era para qualquer um. 

E, ainda por cima, foi o redator do projeto que daria origem à Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (EHESS), uma das mais prestigiosas da França e da própria Europa, onde eu estudei por alguns anos, participando de sua primeira turma, em 1975. A EHESS era então dirigida por Claude Lévi-Strauss e Fernand Braudel, outros dois extraordinários intelectuais. 

Poesia | As sem-razões do amor, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Carta ao Tom 74 - Vinícius de Moraes

 

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Opinião do dia – Antonio Gramsci*

“O político em ato é um criador, um suscitador, mas não cria a partir do nada nem se move na vazia agitação de seus desejos e sonhos. Toma como base a realidade efetiva: mas o que é esta realidade efetiva? Será algo estático e imóvel, ou, ao contrário, uma relação de forças em continuo movimento e mudança de equilíbrio? Aplicar a vontade à criação de um novo equilíbrio das forças realmente existentes e atuantes, baseando-se naquela determinada força que se considera progressista, fortalecendo-a para fazê-la triunfar, significa continuar movendo-se no terreno da realidade efetiva, mas dominá-la e superá-la (ou contribuir para isso). Portanto, o “dever ser” é algo concreto, ou melhor, somente ele é interpretação realista e historicista da realidade, somente ele é história em ato e filosofia em ato, somente ele é política.”

*Antonio Gramsci (1891-1937), Caderno 13 – Cadernos do Cárcere, v.3. p.35. 3ª Edição. Editora Civilização Brasileira, 2007.

O que a mídia pensa | Editoriais \ Opiniões

Novo Congresso traz risco de desmonte de leis ambientais

Por O Globo

Retrocesso na agenda de conservação é um dos riscos mais evidentes da composição do Parlamento eleito

Entre os retrocessos trazidos pela ampliação da bancada conservadora no Congresso, um dos principais destaques será o espaço aberto à aprovação de projetos que enfraqueçam a proteção ao meio ambiente. Em torno de sete em cada dez deputados e senadores têm um perfil refratário à agenda ambiental, ante 64% no atual Parlamento, de acordo com levantamento do Observatório do Clima noticiado pelo GLOBO.

Abstenção ou desilusão, por Carlos André Machado*

Correio Braziliense

Abstenção não é voto nulo nem voto em branco. Quem anula ou vota em branco comparece e é contado — apenas não escolhe ninguém. Quem se abstém nem chega à urna

Trinta e três milhões e meio de brasileiros estavam no colégio eleitoral na eleição de domingo e decidiram não decidir nada. É a maior abstenção de primeiro turno desde o recorde de 1998 (21,49%) e quase o alcança: 21,08% do eleitorado ficou em casa nesta eleição, contra 20,95% em 2022. O índice sobe há cinco eleições seguidas. E, como toda ausência em política, essa também fala — só que mais baixo, e é preciso prestar atenção para ouvir o que ela diz.

Tapete vermelho na Paulista, por Maria Beatriz Giusti

Correio Braziliense

Mobilizada, especialmente, por estudantes, uma multidão ocupou a famosa avenida, tradicional centro econômico paulistano. Houve manifestações em mais de 300 locais do Brasil. Também em São Paulo, Flávio encontrou-se com prefeitos

A campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, candidato à reeleição, reuniu ontem, na Avenida Paulista, mais de um milhão de apoiadores, segundo cálculo dos organizadores.  O ato "Marcha pela Democracia" contou com a participação de artistas e de lideranças políticas de São Paulo.

Tradicional centro econômico de São Paulo, a avenida abriga sedes de bancos comerciais, consulados e sindicatos. Também é conhecida como importante polo cultural, onde está o Masp, IMS, Japan House, Sesc, além de diversos cinemas e livrarias.

"Estamos nas ruas para defender nossos direitos, nossa democracia e um Brasil que respeite os interesses do povo brasileiro! Ninguém vai nos calar! Quando o povo se une e ocupa as ruas, a democracia avança e o Brasil muda! Vamos ocupar as ruas e as redes, enfrentar as ameaças de retrocessos e lutar por mais direitos, justiça e oportunidades para todos!", escreveu Lula em uma rede social. 

A falta que ainda nos faz uma boa direita, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Quem esperava algo ao menos parecido com liberalismo econômico no governo Bolsonaro topou com o populismo

Em 2007, escrevi neste jornal que o Brasil precisava de uma boa direita. Voltei ao assunto em 2013. E outra vez em 2019. Quase 20 anos depois da primeira coluna, faz todo o sentido perguntar: a direita apareceu? Apareceu uma direita. Ganhou eleições, mobilizou milhões de pessoas, construiu um movimento político. Em 2019, colocou seu presidente no Palácio do Planalto e, hoje, tem o candidato favorito para este segundo turno. Além disso, se tornou a principal força do Congresso. Mas não é a direita de que eu falava.

Pensava numa direita liberal na economia e democrática na política. Defendia menos Estado onde o Estado atrapalha, mais eficiência onde ele é indispensável, contas públicas equilibradas, economia aberta, competição, investimento privado, liberdades individuais e de imprensa.

O governo Jair Bolsonaro obviamente não cabe nesse figurino. Sua inspiração assumida era a ditadura militar que dominou o país de 1964 a 1985. Além da opressão política, da tortura, dos assassinatos e da censura à imprensa, a ditadura aplicou um modelo econômico que nada tinha a ver com o liberalismo. Bem ao contrário, foi uma política estatizante e intervencionista.

Vivemos a política do espetáculo, por Preto Zezé

O Globo

Tem gente com carro financiado em 77 prestações, comendo arroz puro, que se enxerga no rico, mas não vive a vida dele

Eu curto ouvir ideia de roda de favela. No domingo, dia 4, fui votar nas Quadras, onde nasci, favela dentro da Aldeota, bairro rico de Fortaleza, e levei minha mãe, Dona Fátima, que sempre vota comigo. Na roda, o debate era política, e a palavra era polarização. Eu chamo de espetáculo, que não é o vídeo que chega no celular. É quando ele passa a decidir com quem a gente conversa, de quem tem medo e em quem vota. O principal desse show não é o que mostra, é o que esconde.

Tem gente em casa sem banheiro, em rua sem saneamento, discutindo quem pode usar o banheiro do shopping. Quem mora na favela e quem mora no prédio ao lado até parecem iguais na passeata. No dia a dia, um é patrão e o outro é empregado, e não têm as mesmas demandas. O espetáculo cria a miragem de que são iguais numa sociedade desigual e injusta.

Mulheres que querem voltar ao passado fazem barulho na política, por Ana Paula Araújo

O Globo

Antifeministas capturaram um movimento crescente, em que ‘influencers’ romantizam a dependência de marido

Meu único tio por parte de mãe fumou a vida inteira. Eu me dei conta do risco que ele corria quando tinha uns 7 anos e fizeram uma campanha antitabagismo na escola. Recolhi todos os panfletos e cheguei assertiva despejando a papelada em cima do meu tio querido, discorrendo sobre os males do cigarro e exigindo que ele parasse de fumar. Ele me ouviu com paciência, agradeceu, mas não pestanejou:

— Meu amor, se eu não puder viver do jeito que eu quero, de que adianta?

A pergunta dele me deixou com outras, que me acompanham até hoje, nas mais variadas situações. Admiro quem banca os próprios desejos e se dispõe a assumir os efeitos colaterais. Mas como discernir entre coragem e inconsequência? Quando o livre-arbítrio se transforma em autoengano? O que estou disposta a sacrificar?

A culpa pela derrota de Lula no 1º turno é do povo, por Demétrio Magnoli

O Globo

Justificativas ensaiadas têm algo em comum: eximir o presidente e seu partido de qualquer responsabilidade

Quem é o culpado? Sidônio Palmeira, Janja, Alexandre de Moraes, o “imperialismo ianque”, a “imprensa entreguista”, o mordomo? Todas essas hipóteses circulam na campanha de Lula e na base militante petista. Contudo, no fundo, a teoria mais permanente é outra: a culpa seria do povo.

Há muito, quando o PT perdeu uma eleição em São Paulo, a filósofa Marilena Chauí acusou a “classe média fascista”. Era estranho, pois o PT daquele tempo triunfara várias vezes nas grandes cidades do Sudeste, inclusive com o voto majoritário dos bairros de classe média. Afinal, essa camada social tornava-se fascista apenas quando o PT perdia?

A incerteza continua, por Carlos Pereira

O Estado de S. Paulo

Deputados continuam vulneráveis às urnas, mesmo com recursos crescentes

Nunca os deputados federais brasileiros tiveram tantos recursos para construir e preservar suas bases eleitorais. Além dos fundos Partidário e eleitoral bilionários, cada parlamentar dispõe de cerca de R$ 40 milhões anuais em emendas individuais impositivas.

Seria razoável esperar que tamanha vantagem tornasse a reeleição cada vez mais segura. Mas as urnas de 2026 contrariaram essa expectativa. Segundo série histórica, apenas 54% dos deputados renovaram seus mandatos, abaixo da média histórica de 63%.

Embora superior ao resultado de 2018, quando a reeleição atingiu seu menor patamar histórico recente (47%), o porcentual revela que a sobrevivência eleitoral continua longe de ser garantida. Nem mesmo a expansão dos recursos orçamentários à disposição dos parlamentares parece ter revertido essa trajetória.

Direita política não é sinônimo de responsabilidade fiscal, por Cláudio Adilson Gonçalez

O Estado de S. Paulo

O risco é confundir essa mudança política com a solução dos problemas fiscais e de crescimento

O avanço da direita na eleição de 4 de outubro provocou otimismo incomum no mercado financeiro brasileiro. De 2/10 até a tarde da sexta-feira, 9/10, o Ibovespa subiu 9%, o real valorizou 4,6% e os juros futuros longos registraram quedas expressivas, em torno de 1,5 ponto porcentual ao ano.

Há fundamento para parte dessa reprecificação. A probabilidade de alternância de poder aumentou, e o Congresso de 2027 será, em princípio, mais favorável a privatizações, desregulamentação e reformas pró-mercado. O risco é confundir essa mudança política com a solução dos problemas fiscais e de crescimento.

Flávio Bolsonaro quer destruir o que faz do Brasil um dos lugares mais maravilhosos do mundo, por Édouard Louis*

Folha de S. Paulo

Se eleito, senador tentará apagar uma liberdade que existe em poucos países

Político quer uma sociedade do medo e tornaria a vida dos pobres mais difícil

Eu estou com medo. Estou com medo porque Flávio Bolsonaro pode vencer a eleição para presidente no Brasil, e o que ele quer é destruir tudo o que faz do país um dos lugares mais maravilhosos do mundo.

Eu só estive algumas vezes no Brasil. Passei apenas algumas semanas neste país. Não pretendo compreender toda sua complexidade. Eu não conheço em detalhes a história do Brasil nem sua geografia ou o conjunto das culturas que o compõem. Há tanta gente no mundo, a começar pelos próprios brasileiros, que têm muito mais a dizer do que eu sobre este lugar do planeta.

No entanto, apesar das limitações do meu conhecimento, eu sei de uma coisa: tudo que eu vi em minhas viagens ao Brasil, tudo que testemunhei, tudo que constitui a beleza, a força e a singularidade desse país, Bolsonaro quer destruir.

O mito do Nordeste vermelho, outra vez, por Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

O Nordeste não constitui um sistema partidário distinto do restante do país

O peso do PT é menor nas bancadas federais do Nordeste do que nas de outras regiões

Em 2022, mostrei nesta coluna que o núcleo do centrão e o PL haviam eleito 35% dos deputados federais nordestinos. Os partidos de esquerda ficaram com 33%. A participação de PL, PP e Republicanos nas bancadas da região era praticamente idêntica à observada nacionalmente.

Em 2026, o PT elegeu 70 deputados federais, contra 69 em 2022, mas a participação do Nordeste nessa bancada caiu de 21 cadeiras —30,4%— para 20, equivalentes a 28,6%. Se antes a maioria dos deputados petistas já vinha de fora da região, agora a diferença aumentou: são 20 contra 50.

Ressentimentos individuais alimentam o autoritarismo, por Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

Falar em mudança da Constituição apavora quem preza pela manutenção de conquistas civilizatórias num país tão desigual

Carta de 1988 representa um marco nacional na consolidação do Estado Democrático de Direito

Fiquei aterrorizada com essa conversa sobre "mudar a Constituição" com vistas a "redemocratizar o Brasil". O assombro se fundamenta na certeza de que nossa estrutura institucional estabelecida atualmente garante, em regra, o respeito à Lei Maior do país. Salvo melhor juízo, há 41 anos este país é uma democracia.

As instituições de controle, apesar das imperfeições próprias da ação humana, estão em pleno funcionamento. A ponto de conseguirem conter uma tentativa de golpe de Estado e punir os envolvidos na maior investida antidemocrática que o país enfrentou desde a década de 1980.

O clique da glória e da amargura, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Um soldado prisioneiro de guerra volta do Vietnã e descobre que sua esperança foi em vão

A bela foto daquele momento é premiada e liga o fotógrafo e seu personagem para sempre

A foto, excepcional, correu o mundo em 1973. Mostrava um soldado americano, prisioneiro de guerra durante cinco anos no Vietnã, desembarcando recém-libertado numa base aérea na Califórnia. O homem é um major e se chama Robert Stirm. Está fardado, de costas para a câmera, e sua bela família corre euforicamente para abraçá-lo. São duas meninas, uma já adolescente, dois garotos e a esposa. Parecem estar no ar, os pés fora do chão, e a alegria em seus rostos é indescritível. A foto é de Slava Veder, também americano, da Associated Press.

Jornal também precisa descer do salto na cobertura eleitoral, por Ombudsman \ Alexandra Moraes

Folha de S. Paulo

Surpresa e tom de caricatura prejudicam reportagens sobre mulheres conservadoras eleitas para o Legislativo

Atenção que faltou para deputadas parece ter sobrado para Flávio Bolsonaro, que leitores veem tratado como já eleito

Os resultados que geraram uma semana de críticas e autocríticas à campanha petista também respingaram na imprensa, acusada de ter afetado negativamente o desempenho de Lula (PT).

Já na reta final da campanha e diante dos primeiros resultados, a conversa havia virado praga para que os jornalistas voltassem ao "cercadinho" onde profissionais da mídia eram confinados e humilhados por Jair Bolsonaro (PL), que titereia o filho na corrida eleitoral enquanto cumpre pena.

Na era da IA, depois de duas décadas de redes sociais e de uma dinâmica de informação que esnoba Redações com muita facilidade, soa até otimista a atribuição aos jornais de todo esse peso nos resultados. Não à toa, rapidamente a conversa deixou a imprensa de lado para se concentrar em vídeos e viralização online.

Nos jornais, um climinha de "já ganhou" antes da hora, por Ombudsman \ João Marcelo Sena

O Povo (CE)

É necessário um pouco mais de cautela ao reportar a postura adotada pelas campanhas após o primeiro turno. Nos principais jornais, prevaleceu um clima de "já ganhou" antes da hora presente no otimismo que Flávio tentou demonstrar

O Brasil parece estar vivendo desde a noite do último domingo, 4, em função dos resultados das eleições e dos desdobramentos do apurado das urnas de todo o País. Não faltaram análises nos principais veículos sobre a composição do próximo Congresso, acerca do elevado número de governadores eleitos ou reeleitos num só turno e, claro, sobre a disputa presidencial, com Flávio Bolsonaro (PL) à frente de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), contrariando o que projetavam as pesquisas.

Com poucas disputas em segundo turno pelos governos estaduais, a corrida pelo Palácio do Planalto fica ainda mais em evidência no noticiário. Ao longo da última semana, as agendas e estratégias de Flávio Bolsonaro e Lula pautaram a cobertura.

O candidato do PL vestiu a roupa de “futuro presidente”. O noticiário em torno de Flávio Bolsonaro baseou-se nos apoios recebidos para o segundo turno, nas projeções de cortes no orçamento que animaram os mercados e nas promessas de mudanças na Constituição sob o argumento de “redemocratizar” o País.

Poesia | Procura-se um amigo, de Vinicius de Moraes