sábado, 25 de dezembro de 2021

Marco Aurélio Nogueira*: Tempo de assimilações e luta

O Estado de S. Paulo

Agenda do futuro terá de destacar as pautas ambientais, a sustentabilidade econômica e a eliminação das desigualdades obscenas

Não se deve forçar a ideia, pois há processos de longa duração em curso, mas se pode dizer que 2021 foi um ano de assimilações: incorporamos novos processos aos nossos cálculos existenciais. Recuperamos convicções que pareciam esquecidas. Com mais informação e melhor entendimento, distanciamo-nos da aceitação passiva dos problemas que nos desafiam.

A pandemia nos obrigou a retomar cuidados básicos e a lutar por uma vacinação que se projetou como principal via de escape, mas que foi rejeitada, banalizada e desprezada pelo governo federal. O sistema de saúde, com isso, perdeu articulação. Mas o SUS resistiu bravamente, as vacinas chegaram à população, juntamente com o uso de máscaras e a percepção da necessidade de uma vida social menos aglomerada. Ficamos cientes da importância de mecanismos de controle e vigilância sanitária, base de sistemas de proteção e combate a vírus e patógenos.

A assimilação não atingiu a todos. Houve quem seguiu a vida como se não houvesse amanhã. Negacionistas mantiveram-se ativos, a começar pelo presidente da República. 

João Gabriel de Lima: A lição da sociedade chilena

O Estado de S. Paulo

As democracias se fortalecem quando os movimentos da sociedade civil buscam a via institucional

Em 2011, no Chile, estudantes saíram às ruas para reivindicar melhorias no sistema de ensino. A dimensão do movimento foi comparável à das manifestações que se espalharam pelo Brasil em 2013. O dado mais interessante do levante chileno é que, para conseguir seus objetivos, os jovens que saíram às ruas entraram, posteriormente, para a política. 

A presidente da Federação dos Estudantes e líder das manifestações de 2011, Camila Vallejo, elegeu-se deputada em 2014 e está no Congresso até hoje. Seu sucessor na presidência da Federação, Gabriel Boric, acaba de se tornar presidente do Chile. Depois de eleito, Boric se reuniu com seu antecessor, Sebastián Piñera, para combinar uma transição civilizada. 

Boric é de esquerda, Piñera – presidente que se notabilizou por fazer do Chile um exemplo de vacinação na pandemia – é de direita. A alternância entre os dois lados do espectro ideológico é normal e saudável nas democracias. A batalha eleitoral mais importante, atualmente, não é entre direita e esquerda. É entre candidatos democratas e autoritários.

Ascânio Seleme: O centro morreu, viva o centro

O Globo

O centro democrático brasileiro não ganha uma eleição no Brasil desde Fernando Henrique Cardoso. Mesmo assim, o centro que elegeu FHC era híbrido. O PSDB, ainda fresco, tinha epidermicamente uma camada de tinta rosa que lhe dava um ar social-democrata. Quem puxou para o centro aquela chapa que venceu duas eleições no primeiro turno foi o PFL, filhote do PDS e da Arena da ditadura. Depois, tivemos dois presidentes eleitos e reeleitos pela esquerda e um eleito pela direita. O centro com poder eleitoral encolheu por falta de apelo e discurso, mas continuou governando com Lula, Dilma e Bolsonaro.

Na verdade, desde a instalação da República, quem governa o Brasil é o centro. Nos governos do PT, as alianças com PP e PL, e depois com o MDB, transformaram o que deveria ser um governo de orientação socialista. Lula (mais) e Dilma fizeram as alianças necessárias para governar e implementar o que podiam da sua pauta original. Mas para isso foram obrigados a ceder, e não apenas ministérios, diretorias de estatais e cargos superiores da administração pública. O PT foi de esquerda nas questões sociais e liberal na economia. Além, claro, de permitir avanços sobre os cofres públicos.

Carlos Alberto Sardenberg: Boas festas numa hora dessas?

O Globo

Até o último dia 22, portanto já incluindo a Ômicron, a Covid-19 havia causado 277 milhões de infecções, com 5,4 milhões de mortos no mundo. Com a nova variante se espalhando muito mais rápido que as anteriores, como encarar as festas de fim de ano? Que festas?

Por outro lado, os mesmos dados da Johns Hopkins University mostram que 8,8 bilhões de doses haviam sido aplicadas, com muitos países já avançando na terceira dose, e Israel iniciando o programa da quarta aplicação.

Visto assim, já se encontra algum espaço para comemoração, mas só para vacinados e em ambientes seguros.

A Covid-19 continua sendo um desastre, mas é preciso admitir que o mundo reagiu de forma espetacular. E continua. As vacinas foram produzidas e aplicadas numa rapidez inédita e já começam a aparecer os remédios para tratar quem apanha a doença.

Pablo Ortellado: Uma vida maravilhosa

O Globo

“A felicidade não se compra” (“It’s a wonderful life”), o clássico filme natalino de Frank Capra, completa 75 anos, e a efeméride é ótimo pretexto para revê-lo. Quem quiser pode assistir hoje (25/12) às 13h15 no Telecine Cult.

Os filmes de Capra celebram as virtudes do homem comum. Em “O galante Mr. Deeds” (1936), um homem simples de uma cidade do interior herda uma grande fortuna e é perseguido por interesseiros. Em “Do mundo nada se leva” (1938), uma garota de família trabalhadora e alegremente excêntrica enfrenta a família do noivo rico que quer comprar as casas da região. Em “A mulher faz o homem” (1939), um cidadão ingênuo é eleito para o senado americano, onde tem de enfrentar a política corrompida.

Os personagens de Capra são trabalhadores que mantêm as famílias unidas e atravessam com otimismo e alegria os momentos difíceis. Seus filmes celebram de maneira um pouco ingênua a honestidade, a simplicidade e a decência do trabalhador americano, em contraste com a ganância, a corrupção e o rebaixamento do espírito trazidos pelo dinheiro e pelo poder.

Hélio Schwartsman: Lula x Moro, a batalha das narrativas

Folha de S. Paulo

Qual versão preponderará? Fácil, a de quem estiver à frente nas pesquisas

As prováveis candidaturas de Lula e Sergio Moro deverão levar ao eleitor uma batalha de narrativas em torno da Lava Jato. Na versão do petista, a operação não passou de uma manobra arquitetada por Moro e seus sequazes para encarcerá-lo injustamente e retirá-lo do pleito de 2018, que venceria fácil. Já para o ex-juiz, a Lava Jato era um movimento virtuoso, que estava conseguindo julgar e prender políticos e empresários corruptos, que havia séculos assaltavam a coisa pública. Lula era um desses corruptos. A um dado momento, o sistema conseguiu articular uma reação, pondo fim à operação, livrando condenados e tentando desmoralizar seus campeões, entre os quais o próprio Moro.

Cristina Serra: Lições de resistência em 2021

Folha de S. Paulo

Este ano que chega ao fim me ensinou novos significados para a palavra resistir

Este ano que chega ao fim me ensinou novos significados para a palavra "resistir". Aprendi a resistir com a sabedoria de Ailton Krenak e suas ideias para adiar o fim do mundo. Com as aulas de humanidade do padre Júlio Lancellotti, que, quando precisa, faz justiça a marretadas. Com a voz de Txai Suruí e os ecos da floresta que ela levou a Glasgow.

O muro da resistência é feito de amor, solidariedade e riso. "Rir é um ato de resistência." Obrigada, Paulo Gustavo, por este ensinamento. Resisti torcendo por Rebeca Andrade e Rayssa Leal, em Tóquio, e pelo tanto de Brasil bonito que as duas carregaram com suas medalhas no peito.

A resistência é feita da lucidez das palavras. Foi assim quando ouvi senador Fabiano Contarato, na CPI da Covid no Senado. Ele falou de sonhos que são os mesmos de tantos de nós: "Eu sonho com o dia em que eu não vou ser julgado por minha orientação sexual. Sonho com o dia em que meus filhos não serão julgados por serem negros. Eu sonho com o dia em que minha irmã não vai ser julgada por ser mulher e que o meu pai não será julgado por ser idoso".

Deméttrio Magnoli: Genuína felicidade

O Globo

Pouco se fala da corrupção moral de uma sociedade que se acredita idêntica a um partido

"Fui afortunado na vida. Como regra, meus interesses pessoais coincidiram com os interesses da sociedade —e é isso, provavelmente, que constitui a genuína felicidade", escreveu Mikhail Botvinnik no outono de sua existência. Há exatos 30 anos, no 25 de dezembro de 1991, outro Mikhail, Gorbachev, renunciou à Presidência da URSS, no ato final do colapso do Estado Soviético. A "maior catástrofe geopolítica do século 20", segundo Putin, deve ser celebrada porque, depois dela, a linguagem empregada por Botvinnik perdeu, para sempre, sua justificação filosófica.

O enxadrista Botvinnik, sexto campeão mundial, dono da coroa de Caíssa entre 1948 e 1963, com duas breves interrupções, criou a Escola Soviética de Xadrez, fonte de incontáveis grandes mestres e de uma supremacia absoluta que perdurou até 1972. "Eu não estava só; na luta pelos interesses da sociedade, tive apoio". O patriarca ingressou no Partido Comunista na pré-adolescência e, desde seu triunfo num forte torneio em 1935, tornou-se "o escolhido".

Marcus Pestana*: O Natal e a renovação da esperança

É Natal! Associamos esta data especial a sentimos nobres que fazem a vida ganhar sentido: esperança, solidariedade, caridade, amor ao próximo, perdão. Coisas tão em falta no mundo contemporâneo. Tudo aquilo que Cristo tentou semear. O menino lançou luzes sobre a travessia humana. E como quis o poeta Fernando Brant: “Toda vez que a bruxa me assombra/O menino me dá a mão/E me fala de coisas bonitas/Que eu acredito não deixarão de existir/Amizade, palavra, respeito, caráter, bondade/Alegria e amor”.

Nenhum outro acontecimento conseguiu dividir a história como o que estamos celebrando hoje: antes de Cristo, depois de Cristo. Em Lucas, 1:30-33, está dito na Bíblia: “Mas o anjo lhe disse: ‘Não tenha medo, Maria; você foi agraciada por Deus! Você ficará grávida e dará à luz um filho, e lhe porá o nome de Jesus. Ele será grande e será chamado Filho do Altíssimo. O Senhor lhe dará o trono de seu pai Davi, e ele reinará para sempre sobre o povo de Jacó; seu reino jamais terá fim”. E sobrevive vinte séculos depois. Um reino que nasceu numa simples manjedoura, não teve palácios e tesouros, e viveu da palavra e das sementes plantadas.

O que pensa a mídia: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Um convite ao diálogo

O Estado de S. Paulo.

Em um passado não muito distante, a sociedade já mostrou que é capaz de se unir quando precisa

Em um passado não muito distante, a sociedade já mostrou que é capaz de se unir quando precisa.

Em algum ponto da história recente do País, a sociedade renunciou ao diálogo e passou a tratar o debate político como uma guerra de eliminação do “outro”, vale dizer, de qualquer um que não comungue dos mesmos valores, visões de mundo ou ideias para o futuro do Brasil. Há não muito tempo, o diálogo entre atores tidos como irreconciliáveis foi determinante para dar fim a crises tão severas que pareciam insolúveis. Desafortunadamente, isso parece ter se perdido.

A Constituição de 1988 é o exemplo maior de que a concertação civilizada em torno da miríade de interesses em jogo em uma sociedade complexa como a brasileira é possível. O País mal havia saído de uma ditadura que durou longos 21 anos. Decerto, havia forças muito poderosas que se recusavam a enxergar o alvorecer das liberdades. Contudo, ao final daquela Assembleia Constituinte, pode-se dizer que quase todas as forças políticas representadas no Congresso saíram com a percepção de que seus interesses, de alguma forma, foram contemplados pela Lei Maior. Em que pesem os problemas que remanescem no texto constitucional, em boa medida causados pelo afã dos constituintes em privilegiar direitos sobre deveres, o País deu um salto civilizatório com a promulgação da chamada “Constituição Cidadã”, filha legítima do diálogo entre os cidadãos e seus representantes.

Poesia | João Cabral de Melo Neto: Cartão de Natal

Pois que reinaugurando essa criança
pensam os homens 
reinaugurar a sua vida
e começar novo caderno, 
fresco como o pão do dia;
pois que nestes dias a aventura
parece em ponto de voo, e parece
que vão enfim poder
explodir suas sementes:

Que desta vez não perca esse caderno
sua atração núbil para o dente;
que o entusiasmo conserve vivas 
suas molas, 
e possa enfim o ferro
comer a ferrugem 
o sim comer o não.

Música | Amadeus Mozart: Allegro (Clarinete: Arngunnur Árnadóttir)