terça-feira, 19 de março de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Elo de Bolsonaro com trama golpista ficou mais evidente

O Globo

Acusações de ex-chefes do Exército e da Aeronáutica contra ex-presidente revelam militares leais à Constituição

É da mais alta gravidade a suspeita de que Jair Bolsonaro, ministros, militares e integrantes de seu governo planejaram um golpe de Estado depois da derrota no segundo turno das eleições de 2022 e tentaram atrair para a trama a cúpula das Forças Armadas. Não há pior acusação contra um governante num regime democrático. Os depoimentos prestados à Polícia Federal pelos então chefes do Exército, general Marco Antônio Freire Gomes, e da Aeronáutica, brigadeiro Carlos de Almeida Baptista Junior, ganham credibilidade por vir de onde vieram — comandantes militares que resistiram ao golpismo. A acusação de envolvimento de Bolsonaro foi explícita e complica a situação do ex-presidente na Justiça.

É certo que as declarações não encerram a apuração. Os investigadores ainda precisam ouvir todas as versões e buscar novas provas antes de apresentar uma denúncia. Mas os dois relatos implicam Bolsonaro no planejamento e na execução do plano golpista. Ele foi acusado de, em mais de uma reunião, ter apresentado aos comandantes das Forças Armadas documentos elaborados para emprestar um verniz de legalidade à ruptura institucional e obter apoio deles à virada de mesa.

Luiz Carlos Azedo - Lula é prisioneiro de uma “jaula de cristal”

Correio Braziliense

Sim, Lula administra uma herança maldita de Bolsonaro, mas já está há 15 meses no poder e, como ele próprio reconhece, ainda não mostrou os resultados que os eleitores esperam

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não é dono das suas circunstâncias. Foi eleito num contexto que já não é mais o mesmo, para o bem e para o mal. Por exemplo, no plano internacional, a situação mudou para pior, com o surgimento de conflitos nos quais o rumo dado à política externa esbarrou em obstáculos que não estavam no horizonte, como as guerras da Ucrânia e de Gaza, e, agora, as eleições na Rússia e na Venezuela. Esses episódios desnudaram um viés terceiro -mundista da política externa que cheira a naftalina.

Ontem, na reunião ministerial, Lula relevou esses assuntos, porém, fez uma cobrança generalizada em relação aos ministros, sobretudo à atuação de Nísia Trindade. Em ambos os casos, as circunstâncias também são diferentes. A economia surpreende os próprios agentes econômicos, com a inflação controlada, mercado de trabalho aquecido, arrecadação em alta e um crescimento mais robusto do que se imaginava, apesar da oposição que Haddad sofre do PT e alguns ministros palacianos.

Andrea Jubé - Lula é cobrado a reocupar o centro

Valor Econômico

Presidente teria ouvido de um ministro não petista que “o governo tem que ser o maestro da narrativa”

Em determinado trecho da manifestação aos ministros, na reunião desta segunda-feira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que é preciso melhorar o desempenho e a comunicação do governo para atrair a fatia da população que considera a sua administração apenas “regular”.

Pesquisas de três institutos divulgadas nas duas últimas semanas - Quaest, Ipec e Atlas Intel - atestaram o derretimento da avaliação do governo. A pesquisa Ipec (ex-Ibope), publicada no dia 8 de março, mostrou uma queda de 5 pontos percentuais na avaliação positiva da gestão Lula.

Segundo o Ipec, 33% dos entrevistados consideram o governo ótimo e bom (eram 38% em dezembro); 32% classificam a gestão petista como ruim ou péssima (eram 30%); e 33% a avaliam como regular (eram 30%). No contexto dessas pesquisas, Lula observou que as obras de maior visibilidade do governo, como a ampliação do Bolsa Família, o reajuste real do salário mínimo, a retomada de contratos do Minha Casa, Minha Vida voltados para a faixa 1, a volta da Farmácia Popular e programa Pé de Meia (para alunos de baixa renda do ensino médio) são direcionados aos brasileiros com renda mensal de até dois salários mínimos.

Mario Mesquita* - Os vários desenhos da economia

Valor Econômico

Se as perspectivas para a atividade econômica são mais favoráveis, o mesmo não pode ser dito quanto à inflação

O debate sobre conjuntura econômica brasileira está esquentando, focado nos temas tradicionais, atividade, inflação, desafios fiscais e política monetária.

Em relação à atividade, as discussões giram em torno da possibilidade do crescimento em 2024 repetir a taxa observada em 2023, sem desaceleração. As projeções dos analistas que respondem a pesquisa Focus, do Banco Central, sobre o crescimento do PIB em 2024 começaram o ano em 1,6%, estão agora em 1,8%, e têm sido revisadas para cima sucessivamente. As economistas do Itaú recentemente elevaram a projeção de 1,8% para 2%.

Eliane Cantanhêde - O ‘fator Garnier’

O Estado de S. Paulo

Novo temor: o almirante Almir Garnier desmentir e incriminar Freire Gomes e Baptista Jr.

Há um alívio nas Forças Armadas com a separação entre o joio golpista e o trigo legalista, depois que o general Freire Gomes e o brigadeiro Baptista Jr., ex-comandantes do Exército e da FAB, confirmaram a tentativa de golpe e que o então presidente Jair Bolsonaro a liderava pessoalmente. A preocupação, agora, é com um novo depoimento do almirante Almir Garnier, o único dos três comandantes que apoiou o golpe e colocou “as tropas da Marinha” à disposição de Bolsonaro para a aventura.

Hélio Schwartsman - O futuro do golpismo

Folha de S. Paulo

Depoimentos de oficiais-generais não devem afetar base de eleitores bolsonaristas convictos

Os depoimentos do general Antônio Freire Gomes e do brigadeiro Carlos de Almeida Baptista Júnior dão cor e textura à tentativa de golpe capitaneada por Jair Bolsonaro e seus seguidores, mas não creio que mudem muito as perspectivas penais do ex-presidente. O STF, afinal, em todas as decisões relativas aos ataques de 8 de janeiro, já dera sinais de que uma eventual condenação de Bolsonaro era questão de tempo. Um placar de 9 a 2 me parece verossímil.

As falas dos dois ex-comandantes também não devem mudar muito o pensamento dos cerca de 25% de eleitores que se dizem bolsonaristas convictos. Já comentei aqui o trabalho do psicólogo Drew Westen, que mostra que militantes políticos parecem sentir prazer sempre que conseguem apaziguar uma dissonância cognitiva relativa a seu líder. Os circuitos cerebrais utilizados, os sistemas de recompensa, são os mesmos envolvidos na dependência de drogas.

Dora Kramer - A verdade não absolverá

Folha de S. Paulo

Quando militares revelam urdiduras do golpe, cai a versão de perseguição política

O avanço das investigações, o que vai sendo revelado pouco a pouco sobre as preparações golpistas do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), nos mostra muita coisa.

Também já torna possível que pessoas presentes na avenida Paulista em 25 de fevereiro para corroborar a tese da injustiça considerem a hipótese de terem sido enganadas.

Não digo os fanáticos nem os adeptos da ruptura institucional, mas aqueles que por alguma razão acreditavam que Bolsonaro fosse vítima de narrativa oposicionista. Os depoimentos dos ex-comandantes do Exército e da Aeronáutica à Polícia Federal não permitem que se fale em perseguição política.

Alvaro Costa e Silva -Tarcísio, o candidatíssimo

Folha de S. Paulo

Governador de São Paulo constrói imagem de Bukele à brasileira

O cenário do bolsonarismo revela um Tarcísio em alta e um Jair emparedado. Com a certeza de que o tempo se esgota e a cana dura se aproxima, o ex-presidente exibe a face de um golpista fracassado, enquanto seu principal herdeiro político ergue a construção de uma imagem —o Bukele à brasileira.

Bolsonaro se esforça para passar uma impressão de frieza. Alimenta a algazarra da perseguição, conversa por videochamada com Trump, implora para reaver o passaporte, viajar a Israel e beijar a mão de Bibi.

Trata o PL como seu puxadinho doméstico. No fim de semana esteve no Rio fazendo campanha em territórios dominados pela milícia. Deu a ordem de que a ex-primeira-dama Michelle só poderá ser candidata ao Senado, de preferência por Brasília ou na vaga do aliado Sergio Moro, se este perder o mandato.

Paulo Sérgio Pinheiro* - Gaza: o que virá depois de um cessar-fogo provisório?

Folha de S. Paulo

Nenhum crime pode ser interrompido com data marcada para continuar

Passados cinco meses de bombardeios maciços e operações militares terrestres de Israel, resultando em mais de 30 mil mortes de palestinos, entre as quais 10 mil crianças, a Faixa de Gaza tornou-se um campo de ruínas. Além da destruição de 6 hospitais e 12 universidades, tudo o que dizia respeito à vida social foi arrasado: mesquitas, tribunais, escolas, arquivo histórico, museus, centros culturais. A infraestrutura civil de água, esgoto e eletricidade também foi aniquilada.

As ordens militares de evacuação da população resultaram em deslocamento forçado do norte para o centro, logo alvo de bombardeios, para o sul e, dali, para Rafah —agora também sob ataque.

Todo esse quadro é agravado por impedimentos, por parte dos israelenses, para a distribuição de ajuda humanitária —apesar de uma das medidas provisórias impostas pela Corte Internacional de Justiça (CIJ) ter obrigado Israel a facilitar o acesso do apoio internacional à região.

O volume de ajuda humanitária entrou em colapso em razão dos ataques de Israel a policiais —suspeitos de serem militantes do Hamas— que vigiam os comboios. Nas últimas semanas, 62 caminhões entraram em Gaza —bem abaixo dos 200 por dia que Israel se comprometera a liberar, ainda que se estime que para atender às necessidade básicas da população seriam necessários 500 veículos.

Paul Krugman* - Por que os americanos ainda estão pessimistas em relação à economia?

Folha de S. Paulo

Democratas precisam superar a falsa narrativa de que o país está indo mal

Você está numa situação melhor do que estava quatro anos atrás? Sinceramente, eu não achava que os republicanos repetiriam a famosa frase de Ronald Reagan, já que grande parte da estratégia do Partido Republicano para 2024 depende de uma espécie de amnésia coletiva sobre o último ano da presidência de Donald Trump.

Será que é realmente uma boa ideia lembrar os eleitores de como foi o segundo trimestre de 2020?

Porque foi um momento terrível: foi um momento de medo, com as mortes por Covid aumentando drasticamente. Foi um momento de isolamento, com as interações sociais interrompidas. Foi um momento de aumento da criminalidade violenta, talvez causado por essa interrupção social. Foi um momento de grandes perdas de emprego, com a taxa de desemprego atingindo 14,8% em abril daquele ano. Você se lembra da grande escassez de papel higiênico?

Merval Pereira - Disputa inglória

O Globo

Lula não consegue se colocar como opção às pessoas que não gostam de Bolsonaro e rejeitam o PT

O presidente Lula sente que a situação política não está favorável a seu governo, mas repete os erros, mesmo quando poderia evitá-los. Ao chamar Bolsonaro de “covardão” por não ter conseguido executar o autogolpe planejado, retira das instituições o mérito de terem impedido a ilegalidade, além de chamar mais uma vez para a briga seu adversário preferido no momento.

Seu próprio discurso é um dos problemas. Ele continua querendo fazer o contraponto ao bolsonarismo, atacando Bolsonaro pessoalmente, chamando a atenção para a disputa dos dois lados, em vez de apresentar-se como a melhor alternativa com atos. O presidente Lula exacerba o ambiente político, chama Bolsonaro para a briga, na certeza de que é boa para ele essa disputa. Mas isso cria um ambiente tenso no país, ele não procura se aproximar dos que apoiam Bolsonaro por falta de opção.

Lula não consegue se colocar como opção às pessoas que não gostam de Bolsonaro e rejeitam o PT. Ao ficar nessa disputa, restringe seu raio de ação, pode ganhar por pouco, como da outra vez, mas pode perder por pouco também, porque o país está dividido. E não consegue esvaziar o apoio a Bolsonaro — apoio que tem lógica, pois seus seguidores se sentem menosprezados, constrangidos pelo assédio dos petistas.

Míriam Leitão - E se o general desse a ordem?

O Globo

O que era uma insinuação hoje se sabe que é uma certeza. Mas ainda há muito a entender sobre a tentativa de golpe de Bolsonaro

Os comandantes de área, ou seja, das regiões militares, obedeceriam a ordem do general Freire Gomes caso ela fosse favorável ao golpe? Essa pergunta me foi respondida por um ex-comandante de área. “Uma ordem ilegal não seria cumprida”. Por mais importante que tenha sido a atuação do general Freire Gomes, é um equívoco pensar que um homem segurou a instituição, segundo avaliação que eu ouvi. Os comandantes de área são poderosos porque têm tropas. Eles é que fariam o golpe andar, se houvesse a quebra da ordem constitucional. Um almirante, que comandava tropas da Marinha em 2022, me disse que o almirante Garnier não determinou movimentação de tropas. Por que ele ofereceu apoio e não acionou seus subordinados? Há muito ainda a entender dessa intentona de Bolsonaro.

Carlos Andreazza - A incerta de Lewandowski

O Globo

Ricardo Lewandowski foi a Mossoró. De novo. Para “dar uma incerta”. Ele mesmo de paradeiro recente incerto. E então a incerta — o reaparecimento. Chegou-chegando, com aquela energia boleto-free de juiz aposentado ora parecerista. Para pegar a tropa de surpresa. (E para nos lembrar: há um governo de turno.) Um mês depois da inédita fuga de dois traficantes de presídio federal.

Palavras do ministro da Justiça e Segurança Pública, concluídos os encontros com autoridades sobre as buscas aos criminosos:

— Vim para cobrá-los. Precisava dar uma incerta, como se diz no meio militar. A polícia me garante que serão capturados, mas não sabemos quando.

Cobrado, foi cobrar. Agastado, sobrevoou a caatinga desgastada e assegurou a foto-clichê. Perdido, encontraria outros perdidos. Não os fugitivos. Os que garantem. Garantem a captura. Nalgum momento. “Não sabemos quando.” (A alternativa sendo haver hora marcada para prisão.) Sabemos que o ministro garantista desconfia do garantido — ou não teria passado a revista sem aviso prévio.

Poesia | Belo Belo, de Manuel Bandeira

 

Música | Moacyr Luz - Atravessado