terça-feira, 26 de julho de 2022

Opinião do dia – Luiz Werneck Vianna*

“Ainda há tempo a fim de arregimentar um vigoroso sistema de defesa que impeça a efetivação da trama do golpe, para que importa a mobilização da opinião pública internacional e das organizações mundiais afetas à defesa dos ideais civilizatórios, a que não deve faltar manifestações massivas populares. Em Roma os gansos do Capitólio grasnavam em advertência a perigos que ameaçassem a república, o desacato infligido a nossa democracia por esse projeto mal ajambrado de um governo tirânico de Bolsonaro perante embaixadores de países amigos, finalmente desatou a voz dos que ainda permaneciam em silêncio. A salvação da nossa república está em traduzir o que ainda é um alarido num clamor público cuja máxima potência sirva de advertência a seus inimigos para que recuem dos seus projetos temerários.”

*Luiz Werneck Vianna, Sociólogo, PUC Rio. “Os gansos do Capitólio e nós”, Blog Democracia Política e novo Reformismo, 21/7/2022.

Miriam Leitao - Nova 'Carta aos brasileiros' une a força da tradição e a urgência da hora na defesa da democracia

O Globo

Texto se remete a um documento histórico e chega na hora em que o Brasil mais precisa dessas vozes

A nova carta em defesa do Estado democrático de Direito que está sendo articulada por um grupo de empresários, juristas, artistas, intelectuais, esportistas tem a força da tradição porque se remete a um documento histórico e chega na hora em que a democracia brasileira mais precisa dessas vozes e desse reforço. Mais de três mil pessoas da economia, artes, esportes assinaram o documento e o ápice será no dia 11 de agosto, no Largo de São Francisco, na faculdade de Direito da USP. Mesma dia e mesmo local em que, em 1977, o grande professor Goffredo da Silva Teles leu a Carta aos Brasileiros, um texto de repúdio à ditadura, e que foi um marco da redemocratização. Agora a luta é para preservar a democracia.

O movimento surge porque o presidente da República tem sistematicamente ameaçado a democracia brasileira e dito que não respeitará o resultado das eleições. Na convenção do PL, convocou os seguidores a ocupar as ruas no dia 7 de setembro, sequestrando o bicentenário da Independência. Mas as ameaças ao Estado de Direito foram uma constante nestes últimos anos.

Manifesto pela democracia reúne 3 mil assinaturas

Por Ivan Martínez-Vargas / O Globo

Dez ex-ministros do STF, juristas, empresários, advogados e artistas, como Chico Buarque, também endossam documento, que já tem mais de 3 mil assinaturas

No final, leia na íntegra o documento.

SÃO PAULO - A Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) divulga nesta terça-feira manifesto de juristas, empresários, artistas, advogados e entidades da sociedade civil em defesa da democracia. Com mais de 3 mil assinaturas, o documento é apresentado pelos organizadores como reação aos reiterados ataques do presidente Jair Bolsonaro (PL) ao sistema eleitoral e às instituições, embora não mencione diretamente o nome do presidente. O manifesto será lido no Largo de São Francisco, no dia 11 de agosto, em ato em defesa da democracia brasileira.

Banqueiros como Roberto Setubal, Pedro Moreira Salles, João Moreira Salles e Candido Bracher (os dois primeiros copresidentes do Itaú Unibanco; o terceiro, fundador; e o último, ex-presidente do banco), além do presidente do Credit Suisse no Brasil, José Olympio Pereira, estão entre os que assinaram o texto que critica a retórica de Bolsonaro. A informação é do diretor da faculdade, Celso Campilongo.

Também subscrevem o texto empresários como Guilherme Leal, Pedro Passos e Fabio Barbosa (da Natura), Horácio Lafer Piva (ex-presidente da Fiesp) e Walter Schalka (presidente da Suzano).

“Ataques infundados e desacompanhados de provas questionam a lisura do processo eleitoral e o Estado Democrático de Direito tão duramente conquistado pela sociedade brasileira. São intoleráveis as ameaças aos demais poderes e setores da sociedade civil e a incitação à violência e à ruptura da ordem constitucional”, diz o texto.

Carlos Andreazza - Tatuagem

O Globo

Arthur Lira estava ao lado do presidente, levando-o no peito, seis dias após Bolsonaro dizer que poderia não haver eleições. Qual a surpresa? Ninguém pode se surpreender — não em 2022 — com a impermeabilidade de alguém como Lira aos princípios da democracia liberal.

Esta é lição nunca tardia: está bom para ele — e para muita gente, estando bom para os negócios, o resto será negociável.

Sejamos justos. Lira jamais foi omisso relativamente ao projeto autocrático de Bolsonaro. Qual a surpresa em vê-lo sobre o palanque e vestido de mito? É um bolsonarista ativo e com inúmeros serviços prestados à causa. Está bom para ele, jamais tão poderoso, gestor maioral de uma corporação autoritária que controla a distribuição do Orçamento da União, a partir de Brasília, e a rede que recebe os dinheiros públicos, na ponta.

Sejamos objetivos. Ao se vestir de mito, Lira usa a camisa da continuidade do arranjo que lhe dá o poder sem precedentes. Sejamos pragmáticos. Oportunismo e bolsonarismo não se excluem. O populismo bolsonarista depende da instabilidade para prosperar. O oportunista pode aprender a prosperar no caos. Lira decerto avalia conhecer tipos como Jair. (Estima que não será enforcado.) Pensa saber com quem trata. Não serão tão diferentes. Não estaria lá de outra forma. Entendeu o clima, percebeu uma brecha para ascender — e foi. Encheu a carteira de ações do bolsonarismo. Apostou corretamente. Está, desde 2020, vestido de Bolsonaro — vestido de si mesmo. Business.

Alvaro Costa e Silva - Governo Bolsonaro é um show de crimes

Folha de S. Paulo

Corrupção e golpe são armas da mesma estratégia

Começa assim: Bolsonaro comete um crime. Mais um. Qualquer um de seu desvairado repertório. Convocar fanáticos apoiadores para preparar um golpe no dia em que lança a candidatura à reeleição, por exemplo. Ou fazer para dezenas de embaixadores uma apresentação eivada de mentiras contra as urnas eletrônicas.

Com as proverbiais notas de repúdio, segue-se o roteiro da peça, introduzindo-se uma novidade, uma pimenta para que o espectador não durma na cadeira: a reação do governo americano elogiando nosso sistema eleitoral e as manifestações de juízes, procuradores, delegados e peritos da PF, além do protesto dos servidores da Abin, o mais surpreendente ou quem sabe o mais combinado de todos, já que a agência está sob o coturno do general Heleno, que incentiva as teses golpistas do capitão.

Cristina Serra - A convenção do centrão e o golpe

Folha de S. Paulo

Execrados em 2018, agora os chefes da rapinagem são reverenciados

Foi um espetáculo grotesco de inversão da lógica política a convenção do PL que tornou oficial a candidatura de Bolsonaro à reeleição. Deve ser a primeira vez no mundo que alguém se candidata atacando o sistema eleitoral que o elegeu e pelo qual será candidato mais uma vez.

A convenção não era apenas do PL de Valdemar Costa Neto. Era também do centrão, já que lá estavam os expoentes dos partidos que formam a base de apoio do governo e que compõem a facção política mais corrupta de que se tem notícia no Brasil contemporâneo.

Execrados em 2018 pelo general que fez até paródia de samba para enganar trouxa, agora os chefes da rapinagem são reverenciados. Só faltou Bolsonaro se ajoelhar aos pés do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), operador do orçamento secreto e arquivista de pedidos de impeachment, que garante as noites de sono no Palácio da Alvorada.

Hélio Schwartsman - Entre esperança e realismo

Folha de S. Paulo

Se ele vencer e não houver golpe, pegará uma conjuntura especialmente difícil

Dentro de um mês, terá início a propaganda eleitoral gratuita no rádio e na TV. É difícil triunfar numa disputa presidencial sem passar uma mensagem de esperança ao eleitorado. As pessoas gostam de ilusões positivas. O risco é o candidato vencedor exagerar na dose e criar expectativas muito irrealistas em relação ao governo, situação em que o posterior choque de realidade poderá custar caro ao dirigente.

O Chile é um bom exemplo desse efeito. Gabriel Boric assumiu a Presidência em março, com 50% de aprovação popular. Agora, está com meros 34%. Em quatro meses de mandato, ele perdeu 16 pontos percentuais de popularidade. A julgar pelas pesquisas, o projeto de uma nova Constituição, que, para ser adotada, precisa ser aprovada em plebiscito em setembro, corre sério risco de rejeição. A nova Carta não é obra de Boric, mas ambos se identificam com o campo ideológico da esquerda.

Joel Pinheiro da Fonseca - O Supremo e a liberdade de expressão

Folha de S. Paulo

Entre erros e acertos, está claro que o STF reage a ataques, não os inicia

"Esses poucos surdos de capa preta têm que entender o que é a voz do povo." Assim falou Bolsonaro em seu discurso de oficialização de candidatura em que atacou o STF e chamou para mais uma manifestação de 07 de Setembro.

bicentenário da Independência bem merecia alguma comemoração especial e maior que a política partidária. Mas já está bem claro que o dia será marcado mesmo por passeatas de bolsonaristas usando camisas da seleção e gritando contra o STF. Mais do mesmo.

Eliane Cantanhêde - Toma lá, dá cá reeleitoral

O Estado de S. Paulo

Candidato Bolsonaro dá R$ 41,2 bi para bolsões do eleitorado e tira R$ 6,7 bi de todo o País

O presidente Jair Bolsonaro e o Congresso, unindo do Centrão ao PT, ampliaram para a Nação a velha regra do “toma lá, dá cá”. Com uma das mãos, dão R$ 41,2 bilhões para aumentar o Auxílio Brasil, dobrar o valegás e dar voucher para taxistas e caminhoneiros. Com a outra, tomam R$ 6,74 bilhões do Orçamento, principalmente da Saúde e da Educação de todos!

A PEC Kamikaze, ou da reeleição, é compra de votos direta de setores relevantes, já o corte faz um mal enorme ao País, mas é quase uma abstração e não dói imediatamente na pele do eleitor e da eleitora.

Em 2018, o que movia o País e o eleitorado eram a Lava Jato, a corrupção, a “velha política”. O discurso de Bolsonaro coube como uma luva e milhões de pessoas não se deram ao trabalho de analisar o passado, as manifestações, o que havia de real no discurso e no candidato.

Luiz Carlos Azedo - No meio do caminho tem um Janones

Correio Braziliense

Ciro (PDT), Simone (MDB) e Janones (Avante), juntos, somam de 12% a 13%, o suficiente para levar a eleição ao segundo turno e manter Bolsonaro dois dígitos distante de Lula, que mantém o favoritismo

O presidente Jair Bolsonaro vive o rescaldo da grande convenção de domingo que oficializou sua candidatura. Seu discurso no Maracanãzinho mirou aquilo que as pesquisas estão mostrando e seus marqueteiros também: (1) precisa do voto das mulheres, daí o discurso de Michelle, a primeira-dama, na convenção, dirigido ao mundo evangélico para chegar ao eleitorado feminino; (2) está em franca desvantagem junto à população de mais baixa renda, em que o ex-presidente Lula nada de braçadas, situação que tenta reverter prometendo manter o Auxílio Brasil no valor de R$ 600 após as eleições (apesar de a equipe econômica só conseguir garantir R$ 400 remanejando o Orçamento da União de 2023); e (3) sonha com os votos de classe média que recebeu em 2018 e está perdendo, por causa de seu radicalismo, principalmente nos estados do Sudeste. Jovens e o Nordeste são batalhas perdidas.

Acontece que Bolsonaro não se aguenta e fala o que realmente pensa, não o que as pesquisas qualitativas da equipe de campanha estão mostrando: na convenção, fugindo ao script, partiu novamente para cima do Supremo Tribunal Federal (STF) e das urnas eletrônicas, o que é um tiro no pé, porque reforça a imagem de candidato perdedor e a ideia de que prepara um golpe de Estado, ainda mais depois de ter feito uma nova convocação para mais uma manifestação contra o Supremo no 7 de Setembro.

Andrea Jubé - PSB confirma Alckmin, com impasses estaduais

Valor Econômico

PSB cobra aliança na Paraíba, onde PT fechou com MDB

Na política, como no amor, não raro se processa o acordo dos contrários. A frase é do ex-ministro das Relações Exteriores João Neves da Fontoura, que serviu aos presidentes Getúlio Vargas e Eurico Gaspar Dutra. A reflexão era sobre o conturbado relacionamento entre dois aliados que volta-e-meia rompiam e, mais tarde, se reconciliavam: Vargas e seu ex-ministro da Justiça, da Fazenda e das Relações Exteriores Osvaldo Aranha.

Para Neves da Fontoura, os temperamentos de Vargas e Aranha contrastavam totalmente e, talvez por isso, se completassem. “Aranha - homem-multidão - vivia sempre cercado, falando sem cessar, com plateia permanente”, descreveu o ex-chanceler em suas memórias. Vargas, embora comunicativo e sorridente em público, era reservado e contido nas rodas privadas.

A citação do “acordo dos contrários” é oportuna. Após a confirmação da candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à Presidência, no dia 21 de julho, a homologação do nome do ex-governador Geraldo Alckmin como vice do petista, que se dará na convenção nacional do PSB na sexta-feira (29), sacramentará uma das chapas mais improváveis da história política recente do país.

Pedro Cafardo - O Brasil é inexplicável

Valor Econômico

Como explicar que os neoliberais do governo atual estão fazendo a gastança, e os progressistas heterodoxos, se a oposição ganhar a eleição, terão de propor a austeridade para equilibrar as contas a partir de janeiro?

Numa tarde quente deste inverno paulistano, um amigo pediu ao colunista do Valor que explicasse o Brasil a um espanhol. Garcia, com interesses comerciais no Brasil, havia acabado de chegar a São Paulo.

Explicar o Brasil? Tarefa ingrata!

Naquele dia, os jornais contavam que um médico do Rio havia estuprado uma parturiente anestesiada em plena sala de parto. O ato, filmado pelos colegas do próprio médico, revelou uma das cenas mais estarrecedoras de abuso sexual das quais se tem notícia no país.

O ímpeto era de esquecer as explicações sobre a economia e dizer apenas que o Brasil é um país onde a violência e a barbárie são estimuladas pelo alto escalão do governo, que já sugeriu o fuzilamento de opositores, estimulou adultos e crianças a gostar de armas e defendeu tortura.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Editoriais / Opiniões

As ameaças de Bolsonaro à democracia

O Globo

Além do golpismo explícito, presidente incentiva patrimonialismo inédito no próprio partido e entre seus aliados

O lançamento da candidatura do presidente Jair Bolsonaro à reeleição, na convenção nacional do PL, foi marcado por vitupérios contra o Supremo e o Tribunal Superior Eleitoral, contra o PT e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e por uma conclamação a manifestações no dia 7 de setembro — reprise provável dos atos golpistas do ano passado.

A agenda de Bolsonaro está ainda mais clara que depois das mentiras sobre as urnas eletrônicas proferidas a embaixadores. Ele não aceitará o resultado da eleição se derrotado e procura mobilizar seus partidários para tentar repetir no Brasil um movimento violento de contestação, inspirado na invasão do Capitólio por trumpistas em 6 de janeiro do ano passado. Enquanto semeia a confusão, seus aliados em Brasília e em todo o país se aproveitam quanto podem dos recursos públicos que o atual governo lhes garantiu.

Não há paralelo no apetite com que os congressistas se lançaram sobre o Orçamento da União na gestão Bolsonaro, como revelou levantamento publicado no GLOBO. As emendas parlamentares — incluindo aí as individuais, as de bancada e as famigeradas emendas do relator, que irrigam o orçamento secreto — correspondem a um quarto dos gastos que não estão carimbados no Orçamento (24,6%). Em 2014, eram 4,7%. Antes de Bolsonaro, não chegavam a 10%. Num levantamento de 29 países feito pelo economista Marcos Mendes, apenas em três esse percentual ultrapassa os 2%.

Poesia | Moacyr Félix - Sentimento Clássico

 

Música | Grupo Mal de Raíz - Rainha da Lapa e História da Lapa