quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

Malu Gaspar: A valsa de Lula e Ciro Nogueira

O Globo

O ministro-chefe da Casa Civil, Ciro Nogueira, fez uma provocação em entrevista ao GLOBO. “A que ponto chegamos: o Lula, que teve o seu processo anulado, ser juiz, dizendo que tem Centrão do bem e Centrão do mal. Lula tem condições de ser juiz em nosso país? Acho um pouco demais.” E atacou: “O Lula que conheço e que as pessoas vão conhecer na campanha é o Lula da Gleisi (Hoffmann), do Zé Dirceu, do (João) Vaccari. (...) As pessoas não querem esse grupo do PT de volta ao comando do país. Acompanho pesquisas qualitativas. Quando se coloca o Lula ao lado dessas pessoas, a rejeição é total.”

Lula nunca afirmou literalmente que existe um Centrão do bem e outro do mal. Mas o ex-presidente vem justificando a necessidade de fechar aliança com Alckmin com o argumento de que, mais do que ganhar a eleição, é preciso governar. E já repetiu de variadas formas que, se vencer a eleição, não quer se tornar refém do Centrão no Congresso, como Bolsonaro se tornou. Alckmin e os tucanos seriam, segundo essa tese, uma espécie de vacina contra o fisiologismo patrocinado por Ciro, Lira e companhia, que controlam cinco ministérios, dezenas de cargos e bem mais de R$ 150 bilhões do Orçamento.

Só que, embora esteja rompido com o PP de Ciro e Lira e com o PL de Valdemar Costa Neto, que já lhe prestaram muitos serviços no passado, Lula arrasta asa para o PSD de Gilberto Kassab e para setores do MDB — que também são Centrão e têm entre seus membros uma cota de bolsonaristas. É por isso que Ciro adotou a expressão “Centrão do bem”, que ele também usa em conversas privadas, ao comentar o argumento lulista.

Tanto Ciro quanto Lula sabem que não existe tal divisão. Centrão é Centrão. É aquela parcela da classe política que está sempre no governo, seja qual for. Da mesma forma que já chamou Bolsonaro de fascista no passado e depois desdisse tudo ao entrar no governo, Ciro não terá nenhum problema em passar uma borracha no que vem afirmando sobre o PT, se Lula ganhar.

Maria Cristina Fernandes: Lula despe figurino Biden

Valor Econômico

Inspiração sumiu quando o pacote de estímulos teve, como consequência indesejada, a maior inflação dos últimos 39 anos

Em maio do ano passado, em entrevista à rede de comunicação pública dos Estados Unidos, PBS, Lula elogiou o pacote enviado por Joe Biden ao Congresso para estimular a economia a reagir ao freio da pandemia: “Temos que fazer o que Biden já fez nos EUA em sua última declaração sobre a economia. Aumentar nossa base monetária, para que possamos dar condições de sobrevivência ao povo brasileiro.”

O pacote foi saudado por muitos como uma vingança da história a favor do Estado indutor do desenvolvimento. Até um livro (“Bidenomics nos Trópicos”, FGV, 2021) foi organizado pelos economistas Nelson Barbosa e André Roncaglia para discutir a experiência neokeynesiana do governo Biden. A idade e a eventual sucessão de outro populista de extrema-direita levou a entrevistadora americana a citar a perspectiva de Lula vir a se transformar no “Biden brasileiro”.

Na segunda-feira, ao reagir a um jornalista que lhe perguntara se a inflação seria uma fraqueza nas eleições legislativas, o presidente americano, aparentemente sem se dar conta de que o microfone estava ligado, disse: “Não, é um grande trunfo, que filho da puta estúpido.”

No dia seguinte, Paul Krugman, um dos maiores defensores do pacote de estímulos, reconheceu a inflação, que fechou 2021 em 7%, o maior índice dos últimos 39 anos, como um efeito indesejado da política expansionista. Antes, porém, culpou o mensageiro. Em sua coluna no “The New York Times” atribuiu ao “poder da narrativa” o que chamou de reação “desmesurada” da opinião pública americana à alta da inflação.

No percurso entre o pacote e a inflação, seu proponente sumiu do discurso lulista. Na entrevista em que abriu o ano eleitoral, o ex-presidente citou 17 vezes os Estados Unidos, mencionou Barack Obama, George W.Bush e Donald Trump, mas não mencionou Biden nem as medidas de seu governo.

Cristiano Romero*: Lula: 1.0, 2.0 ou 3.0 (Dilma Rousseff)?

Valor Econômico

Alckmin como vice é a nova ‘Carta’ de Lula aos “brasileiros”

Líder nas pesquisas de intenção de voto para a eleição presidencial deste ano, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ainda emite sinais ambíguos sobre seu programa econômico. Fundador do PT, principal e incontestável líder da legenda há 40 anos, Lula, não se apega hoje ao ideário anacrônico de parte da esquerda que o acompanha nem ao reformista com que exerceu o início de seu primeiro mandato como presidente (2003-2006).

A palavra que melhor define Lula é pragmatismo. Antes de o petista exercer o primeiro mandato, dúvidas sobre como ele governaria pululavam. Isso levou a maioria dos participantes do mercado a acreditar que, eleito, o ex-operário adotaria ideias de economistas da ala mais à esquerda do PT. Registro necessário: mercado somos todos nós, correntistas de bancos e compradores diretos e indiretos de títulos emitidos pelo Tesouro.

Até 2002, predominaram no PT propostas como fazer “auditoria” na dívida pública, suspender o pagamento da dívida externa, aumentar a presença do Estado na economia, controlar preços dos combustíveis _ entre outros preços públicos _, fortalecer o papel de empresas estatais, reestatizar companhias alienadas por governos anteriores, recriar órgãos públicos etc.

No início deste século, ideários como esse já haviam sido abandonados pela maioria das economias, inclusive, as do Leste Europeu pós-queda do Muro de Berlim. No Brasil, desde o primeiro governo civil da Nova República - de José Sarney (1985-1990) -, o que se procurou fazer foi justamente desmontar o modelo econômico propugnado por economistas do PT.

Não deixa de ser irônico o fato de o Partido dos Trabalhadores, fundado em 10 de fevereiro de 1980, nos estertores do regime militar, defender arcabouço econômico instaurado e consagrado durante a segunda metade - nos governos dos generais Ernesto Geisel (1975-1979) e João Figueiredo (1979-1985), em pleno regime de exceção, sob o qual o país viveu de março de 1964 a março de 1985.

Luiz Carlos Azedo: Federação de esquerda PT-PSB-PCdoB-PV avança, mas Lula quer ampliar alianças

Correio Braziliense

Pela legislação vigente, as federações terão que se manter durante quatro anos e serão verticalizadas, ou seja, se reproduziriam em todas as Unidades da Federação e teriam que valer para as eleições de 2024

Dirigentes do PT, PSB, PCdoB e PV avançaram, ontem, na definição da federação que esses partidos estão constituindo, com base na nova legislação eleitoral. Os entendimentos, porém, continuam tensos em razão das disputas regionais. Os quatro partidos chegaram à definição quanto ao comando da federação: os petistas ficarão com 27 dos 50 lugares da assembleia diretiva, enquanto o PSB ocupará 15 postos. PV e PCdoB ocupariam quatro cada um.

O PT tem, hoje, 53 deputados; o PSB, 30; o PCdoB, oito; e o PV, quatro. Para equilibrar a relação entre o PT e as demais forças, já que o partido do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem maioria de assentos, as decisões seriam tomadas por maioria de dois terços e haveria um rodízio no comando da Executiva, que seria formada por um presidente e três vices, com um representante de cada partido.

Pela legislação vigente, as federações terão que se manter durante quatro anos e serão verticalizadas, ou seja, se reproduziriam em todas as unidades da Federação e teriam que valer para as eleições municipais de 2024, o que é um problema a mais. Os partidos estão enfrentando muitas dificuldades para conseguir reproduzir as federações em nível estadual e terão ainda mais, em nível municipal.

Como a nova legislação está exigindo que os partidos formem federações até 1º de março, ou apresentem chapas competitivas nos estados até as convenções, em junho, esse calendário está sendo considerado esquizofrênico. Os partidos recorreram ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para que esse prazo seja prorrogado, de preferência até as convenções partidárias — ou seja, para depois da janela de transferência de partido, em março.

William Waack: Romper o ferrolho

O Estado de S. Paulo

Pressionada pelo duplo ataque de bolsonaristas e lulistas, 3.ª via busca ‘novidade eleitoral’

Parece que também Lula considera alta a probabilidade de Jair Bolsonaro não estar no segundo turno. Daí certa pressa em “garantir” o mais cedo possível uma ampla coligação para ganhar já no primeiro.

Lula seria poupado de dois cenários de alto risco. O primeiro é ter de enfrentar mais uma vez o “todos contra o PT”. Parte da militância petista, especialmente nos círculos intelectualizados, considera que Lula já passou da condição de vilão à de mártir. A esta altura do calendário, é uma postura temerária.

O segundo cenário de risco para Lula – se tiver de enfrentar um segundo turno – é o longo mês de negociações entre a primeira e a segunda votação com diferentes chefes de bancadas, capazes de extrair o máximo dele. Por isso mesmo, o esforço de articuladores do PT para formar uma bancada de no mínimo 257 integrantes, contando, além da esquerda, com uma eventual federação e/ou com PSB e PSD de Gilberto Kassab. É nesta complicada tarefa que Lula se concentra hoje.

José Serra*: Combater desde já as sequelas

O Estado de S. Paulo

Caberia ao governo tomar a iniciativa de assistir econômica e socialmente a população mais vulnerável

Na guerra sem quartel contra as vacinas, o Executivo Federal já foi derrotado pela opinião pública, apoiada nos governos estaduais e nas prefeituras. Refugiar-se na retaguarda e manter escaramuças nessa área foi o que restou ao Planalto, a seus prepostos no Ministério e ao grupo residual de empresários e profissionais politizados da área de saúde. Cerca de 70% dos brasileiros concluíram o ciclo completo de imunização contra a covid-19, e pouco menos de 20% receberam a dose de reforço. Já não há como privá-los da proteção imunológica a que têm direito.

Não há mais tempo a se perder com controvérsias sobre remédios, manobras para retardar a entrega das vacinas e dos testes, perseguição a técnicos e servidores que seguem a ciência, difusão de acusações forjadas sobre efeitos colaterais inexistentes nas crianças vacinadas, ou propaganda sobre remédios milagrosos. A seu tempo, o peso da lei recairá sobre o conteúdo criminoso, hoje sob investigação no Ministério Público, em decorrência das apurações da CPI do Senado sobre condutas que têm contribuído para prejudicar o combate à covid-19.

Eugênio Bucci*: A morte como piada

O Estado de S. Paulo

Um ser humano, sobretudo na hora da morte, merece de nós a nossa melhor expressão de respeito

O falecimento do escritor Olavo de Carvalho, na terça-feira, repercutiu nas redes sociais de um modo carnavalesco, brincalhão, satírico e apavorante. Uma avalanche de festejos virtuais fez da notícia fúnebre uma festa popular, como quando as torcidas comemoram a vitória do seu time num desses certames futebolísticos. Anedotas floresciam em toda parte, das mais chulas às mais elaboradas. Uns se divertiam com a boutade de que a onda de calor destes dias se deve à porta do inferno, escancarada para receber o novo inquilino. Outros preferiram replicar o post segundo o qual o morto, ao se instalar no endereço escaldante, havia declarado que o inferno é plano. Os mais líricos recuperaram um poema famoso do uruguaio Mario Benedetti, escrito em 1963, chamado Obituário com hurras: “Murió el cretino / vamos a festejarlo”. Por muitas horas, o escárnio divertido, espirituoso e ácido manteve seu ânimo. E foi isso, apenas isso, que me soou apavorante (esta é a palavra). Se a morte de alguém, seja esse alguém quem for, é motivo para o nosso regozijo mais ostensivo, a que teremos nos reduzido?

É claro que a minha percepção individual não pode ser generalizada. Aliás, nada aqui se pretende generalizante. Quando falo em redes sociais, estou me referindo apenas ao que delas posso ver ou saber, ou seja, falo de recortes exíguos e franjas infinitesimais de uma superindústria inapreensível. Olho as redes mais ou menos como os mendigos que viam televisão em frente às vitrines do Mappin. Eu as observo pelo lado de fora. Mesmo assim, mesmo vendo tão pouco, não gostei de ver a bolha que orbito exultando copiosamente porque alguém morreu.

Ruy Castro: Lá jaz Olavo de Carvalho

Folha de S. Paulo

Enterrá-lo aqui seria profanar os cemitérios cheios de gente que ele e Bolsonaro ajudaram a matar

Nenhum jornal impresso ou online deu a morte de Olavo de Carvalho em manchete no alto da primeira página. Deram-no na primeira página, certo, mas em muito menos espaço que reservariam à morte de um cantor sertanejo ou baterista australiano de rock. O Jornal Nacional foi ainda mais discreto —ignorou-o nas chamadas de abertura do programa e, em vez disso, destacou a morte em Mangaratiba (RJ) de três girafas trazidas da África para o zoológico do Rio. Olavo de Carvalho só apareceu no jornal propriamente dito por 1min15. As pobres girafas mereceram 4min44.

Perfeito. Também acho a morte de uma girafa mais importante que a de Olavo de Carvalho. As girafas, assim como os lêmures e os gnus, não discutem o óbvio. Sabem que a Terra é redonda, e olhe que nunca saíram dela e a espiaram lá de cima. Submetem-se à vacinação se necessário e não dão cursos de negacionismo por correspondência para zebras ingênuas. Além disso, raras girafas fumam cinco maços de cigarros por dia.

Bruno Boghossian: Lula vai além de Alckmin

Folha de S. Paulo

Petista aproveita rejeição a Bolsonaro e faz sinal precoce de abertura à centro-direita

Pouco depois de um encontro com Lula, em maio passado, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso fez juras de lealdade ao PSDB. Disse que apoiaria um nome de seu partido à Presidência em 2022, mas acrescentou que, se o candidato tucano não chegar ao segundo turno, votará em qualquer um contra Jair Bolsonaro –"mesmo o Lula", completou.

O PT age para antecipar essa lógica do segundo turno. A ideia é aproveitar o favoritismo de Lula apontado pelas pesquisas, a descrença com a decolagem da tal terceira via e a sólida rejeição a Bolsonaro para atrair nomes de centro e centro-direita para o campo petista ainda nas etapas iniciais da campanha deste ano.

Maria Hermínia Tavares: Civilidade ou brutalidade na eleição

Folha de S. Paulo

Pleito deverá opor defensores da civilidade mínima às falanges da ignorância

Preocupado desde a primeira hora apenas com sua permanência no Planalto, Bolsonaro terminou por estimular a antecipação do processo eleitoral. Embora não tendo chegado à massa dos votantes, o assunto consome bom espaço na imprensa e nos partidos, despertando o interesse da delgada camada da opinião pública que acompanha o vaivém da política.

A menos de dez meses da ida às urnas, tudo pode acontecer, a começar da confirmação do cenário traçado pelas pesquisas: a disputa cristalizada entre a extrema direita bolsonarista e a esquerda moderada —hoje francamente favorita— personificada por Lula. Entre ambas, no território das forças de direita e de centro que rejeitam o ex-capitão, movimentam-se protocandidatos, embora nenhum deles já capaz de desfilar como líder da chamada terceira via.

O desastre econômico, social e moral produzido pela direita autoritária e a elevada rejeição popular a Bolsonaro —sua mais acabada encarnação— parecem estar levando alguns a prever que a volta das esquerdas é certa como o dia depois da noite e que elas podem não só ganhar sozinhas mas também governar sem alianças ao centro e além.

Desde a redemocratização, sob a liderança do PT, representaram uma força eleitoral a ser levada a sério, embora de desigual potência: vertebradora da competição pelo centro do poder, relativamente importante nas disputas estaduais e menos expressiva na formação das duas casas do Congresso.

De toda maneira, candidatos petistas jamais levaram a melhor no primeiro turno; vencedora, sua chapa nunca dispensou um vice que indicasse o intento de se entender com centro e mesmo a direita. Os governos do PT sempre se lastrearam, no Legislativo, em coalizões amplíssimas —bem mais heterogêneas daquelas que sustentaram Fernando Henrique durante oito anos.

Vinicius Torres Freire: Águas de março de inflação e eleição podem afogar Bolsonaro

Folha de S. Paulo

Mercado acredita em mais carestia, alta de juros nos EUA pode afetar Brasil

A cada semana a guerra da inflação parece um pouco mais perdida para Jair Bolsonaro. Nesta quarta (26), foi divulgada a taxa do IPCA-15 de janeiro, que veio um tico acima da média esperada pelos povos dos mercados financeiros. Foi o bastante para montes de bancos, corretoras e consultorias elevarem seus chutes informados, previsões, para a inflação deste ano.

Antes de continuar: o IPCA-15 é a inflação medida de meados do mês passado, dezembro, no caso, a meados deste. O IPCA mensal, medida "oficial" de inflação para o consumidor, mede a inflação de um mês só, mês "cheio".

O problema vai bem além disso, de revisão pessimista das projeções da carestia, especialmente em termos políticos. Bolsonaro e o centrão estão ouriçados para aloprar, baixar impostos e fazer dívida extra de dezenas de bilhões de reais a fim de tentar baixar os preços de gasolina, diesel e a conta de luz (apenas tentar: nem isso pode dar certo). O tiro pode sair pela culatra, nas nossas fuças, porque um aumento de déficit pode ter efeito em taxas de juros e dar um sinal de que o governo pode tentar medidas ainda mais desesperadamente idiotas ou perigosas.

Alvaro Gribel: Inflação alta piora o cenário

O Globo

IPCA-15 acima do esperado em janeiro era tudo que o Banco Central não queria a uma semana da reunião do Copom

O IPCA-15 acima do esperado em janeiro já fez com que vários bancos e consultorias aumentassem as projeções para a inflação deste ano. Isso era tudo que o Banco Central não queria a uma semana da reunião do Copom. Mais do que o número, em si, o que chamou atenção dos economistas foi a composição do índice, com aumentos de preços em 75% dos itens, o maior patamar desde fevereiro de 2016. A inflação está espalhada, a taxa em 12 meses permanece em dois dígitos e a inflação de serviços também está alta. Com o aumento dos preços do petróleo, a Ativa Investimentos estima que a gasolina no país ainda está 16% abaixo dos preços internacionais, indicando que haverá mais pressões por reajustes nos combustíveis pela Petrobras.

Logo após a divulgação do IPCA-15 pelo IBGE, o Credit Suisse subiu sua estimativa para a inflação deste ano de 6% para 6,2%. A LCA consultoria aumentou de 5,5% para 6%, enquanto o Itaú Unibanco elevou de 5% para 5,3%. São só três exemplos, mas que indicam como o ano começou com uma forte piora das expectativas. O Banco Central já se comprometeu com um aumento de 1,5 ponto na reunião da semana que vem, o que levará a Selic para 10,75%, e ainda assim não está conseguindo controlar as projeções do mercado. O risco é que seja forçado a subir demais os juros e levar a economia a uma recessão mais severa.

Cora Rónai: A derrota do otimismo

O Globo

Fiz o que pude para não desanimar, mas a pandemia não tem aspectos positivos. Além do vírus, temos de brigar contra autoridades obscurantistas e debochadas

Quando a pandemia começou, tentei ver a situação pelo lado positivo. Foi muito difícil, mas havia alguns vagos fiapos aos quais nós, polianas inveteradas, podíamos nos agarrar: afinal, estávamos vivendo uma experiência rara, que passaria aos livros de História.

Qualquer pessoa de bom senso sabe que experiências históricas devem ser evitadas a todo o custo; mas também é sabido que pessoas otimistas por natureza, como é meu caso, não têm bom senso — as condições são excludentes.

O fato é que vimos imagens inéditas das grandes metrópoles inteiramente vazias; descobrimos pontos de luz e de solidariedade em vizinhos que cantavam nas janelas e tentavam transmitir coragem uns aos outros; vibramos com o aplauso coletivo para os heróis da área da saúde; aprendemos coisas que nem imaginávamos sobre vírus e transmissão de doenças.

Cheguei a escrever sobre a importância do nosso papel como testemunhas, e disse aos meus netos para prestarem muita atenção ao que acontecia à sua volta, porque, no futuro, os seus netos lhes farão perguntas sobre os tempos que vivemos.

Natalia Pasternak* e Roberto Simon**: Memória do Holocausto e pandemia

O Globo

O ex-chanceler Ernesto Araújo comparou medidas de isolamento social a campos de concentração nazistas. O senador Flávio Bolsonaro e o secretário de Cultura, Mario Frias, divulgaram um vídeo com trechos de “A lista de Schindler” e uma frase ao fim: “Não é a primeira vez que pessoas são classificadas em ‘essenciais’ e ‘não essenciais’”.

O ex-ministro Ricardo Salles disse que um artigo crítico a ele na imprensa alemã parecia “o que a própria Alemanha fez com as crianças judias”. “Omitir o uso da cloroquina é o mesmo que deixar judeus na dúvida entre chuveiro e câmara de gás”, segundo o blogueiro bolsonarista Allan dos Santos. Para Augusto Nunes, da Jovem Pan, ações contra o dono de uma pousada em Fernando de Noronha que recusara a vacina lembravam “o autoritarismo nazista contra judeus”. E a lista continua.

Setenta e sete anos após a libertação de Auschwitz, o mundo observa hoje o Dia da Memória do Holocausto. No Brasil do extremismo político e da pandemia, a data exige uma reflexão especial.

O assassinato em escala industrial de milhões de judeus, além de outras minorias, foi arrastado ao centro do debate político por apoiadores do presidente Jair Bolsonaro, sobretudo no contexto da pandemia. Um ingrediente nesse caldo nefasto é a relativização do genocídio nazista, usado como arma retórica, “comparável” a supostas vítimas da luta contra a Covid-19.

Outro ingrediente, menos evidente, porém tão pernicioso quanto, é a disseminação da lógica negacionista.

Em sua prática e técnica, os negacionismos histórico e científico são duas faces da mesma moeda. Trata-se, em ambos os casos, de negar fatos bem estabelecidos por evidências, sejam elas resultado de experimentos controlados ou de robusta documentação histórica.

Sofismas contra a vacina se arvoram numa estrutura conhecida. “Não sou antivacina, mas os imunizantes para Covid-19 foram feitos rápido demais, são experimentais, não sabemos seus efeitos de longo prazo, a técnica é muito nova e pode interferir no seu DNA, há interesses da indústria farmacêutica.”

Note a estrutura: pega-se um detalhe que é até verdadeiro, como “foram feitos em tempo recorde”. Remove-se o contexto — a tecnologia básica desenvolvida ao longo de décadas, o esforço, a cooperação e o investimento inéditos trazidos pela pandemia — para encaixá-lo num quadro de conspiração.

Negacionistas do Holocausto argumentavam que a bula do veneno Zyklon-B, usado nas câmaras de gás, mandava ventilar o ambiente por 48 horas após seu uso. Então, como os nazistas poderiam entrar nas câmaras para retirar os corpos sem morrer? Contexto omitido: a bula pressupunha o uso do gás como inseticida, e não (por razões óbvias) para extermínio humano em massa, em galpões vazios e por carrascos com máscaras.

O negacionista, em todas as suas cepas, posa de questionador intrépido ou inocente curioso. Diz o senso comum que quem não tem nada a esconder não teme perguntas. Mas quem questiona querendo conhecer a verdade — e não tentando manipulá-la — ouve as respostas, não insiste na pantomima de que supostos enigmas de soluções bem conhecidas, aceitas pela comunidade de especialistas e reiteradas centenas de vezes, seguem “em aberto”.

Setenta e sete anos depois, há no mainstream brasileiro quem veja equivalência possível entre o judeu na câmara de gás e o dono da pousada. Quem use as ferramentas do negacionismo como arma política contra a promoção da saúde. A eles, repetiremos em uníssono, hoje e sempre: nunca mais.

*Pesquisadora na Universidade Columbia, é presidente do Instituto Questão de Ciência e conselheira do Instituto Brasil-Israel

**Jornalista e analista internacional, é mestre em política pública pela Harvard Kennedy School e conselheiro do Instituto Brasil-Israel

O que pensa a mídia: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

É reveladora piora do Brasil em lista global de corrupção

O Globo

É deplorável que o Brasil tenha caído duas posições no ranking global de percepção de corrupção anunciado nesta semana pela Transparência Internacional, organização de renome na área. Numa lista de 180 países, o Brasil passou a ocupar o 96º lugar. Trata-se da nossa terceira pior colocação na série histórica. O Brasil aparece empatado com Indonésia, Lesoto e Turquia, entre outros.

O contraste com dois de nossos vizinhos é vergonhoso. O Uruguai figura como 18º, junto a Japão e Bélgica. O Chile, 27º, está ao lado dos Estados Unidos. Sob qualquer ângulo que se analise, o Brasil decepciona. Está abaixo da média global, da média do G20 (grupo que reúne as 20 maiores economias), da média regional da América Latina e Caribe e da pontuação do Brics (sigla em inglês usada para Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul).

Para o presidente Jair Bolsonaro, eleito com a bandeira da anticorrupção, o resultado é tremendamente constrangedor. O ranking é feito com base num índice no qual 100 significa muito íntegro, e zero altamente corrupto. A pontuação do Brasil foi 38, a mesma registrada em 2015 e 2020.

Poesia | Cecília Meireles: Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.

Música | Gal Costa - A Felicidade