sábado, 24 de fevereiro de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Agenda de Haddad é prioritária no Congresso

O Globo

Oito medidas para melhorar ambiente de negócios não devem se tornar objeto de barganha política

Em recente encontro com representantes da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, proferiu uma obviedade que parece escapar a muitas lideranças do Congresso. O Brasil nada pode fazer para influenciar o ritmo da economia global ou o patamar dos juros nos Estados Unidos. “O que podemos fazer?”, perguntou Haddad. “Melhorar nosso ambiente de negócios.” Ele tem toda a razão.

No encontro, o ministro pediu apoio da Febraban a oito projetos que buscam corrigir distorções da economia brasileira, todos parados no Congresso. Mais da metade depende da ação do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL). Quatro precisam ser despachados para comissões ou dependem da nomeação de relator. O quinto aguarda a criação de uma comissão especial desde 2019, quando a Câmara ainda era presidida por Rodrigo Maia.

Marco Aurélio Nogueira* - Luiz Werneck Vianna (1938-2024)

O Estado de S. Paulo

Homenageá-lo hoje é manter viva a memória de um combativo, erudito, generoso e indignado intelectual, que olhou um país desigual, injusto e violento como o Brasil com lucidez e esperança

Com o falecimento do sociólogo Luiz Werneck Vianna, ocorrido no último dia 21 de fevereiro, perderam as ciências sociais brasileiras um de seus mais importantes pesquisadores, autor de obras seminais e um incansável trabalhador intelectual, figura pública de rara envergadura.

Eu o conheci em meados dos anos 1970, nos ambientes frequentados por socialistas, comunistas e liberais democráticos, que formavam a esquerda do então MDB. Werneck acabara de defender sua tese de doutoramento (Liberalismo e sindicato no Brasil, 1976) e me lembro da generosidade com que recepcionou a resenha crítica que fiz do livro, na Folha de S.Paulo. Nas reuniões políticas que então transcorriam, sua mente se destacava pela argúcia e pela firmeza de convicções. Não abria mão do marxismo e não ocultava seus vínculos com o Partido Comunista Brasileiro (PCB), mas não era um dogmático e recepcionava com respeito e admiração as mais diversas matrizes de pensamento. Demarcava um espaço dedicado a encontrar pontos de equilíbrio e consenso, sem os quais, dizia, seria impossível construir uma oposição produtiva à ditadura e uma democracia sustentável. Já então, formulava a tese de que era indispensável olhar o mundo a partir dos atores que nele se moviam.

Bolívar Lamounier* - Há casos em que o espelho retrovisor é essencial

O Estado de S. Paulo

O Brasil parcialmente já aprendeu como construir a estrutura institucional de uma democracia para as condições modernas. Falta aprimorá-la e aprender a fazê-la funcionar

Pensadores teleológicos são aqueles que imaginam o futuro exatamente como querem que ele seja. Creem que a sociedade humana vai evoluir precisamente no sentido de seus próprios valores e desejos. Concebem o futuro como progresso, ou seja, como uma inexorável aproximação da coletividade ao padrão que eles mesmos visualizam como superior, mais ético, mais feliz – e por aí afora.

Desde o século 19, os grandes teleólogos foram Karl Marx e Augusto Comte. O progresso marxista levaria à sociedade sem as desigualdades de classe do capitalismo e na qual o Estado, por falta de função, perderia seu caráter coercitivo. Augusto Comte postulou três fases. Na primeira, perdida nas trevas de um passado longínquo, a vida humana era regida tão somente por superstições. Na segunda, ainda não de todo superada, somos ainda em parte escravos de especulações filosóficas (metafísicas). A terceira, superior, será a era da positividade, ou seja, um tempo em que a humanidade se organizará com base numa pura racionalidade, científica e técnica. Uma das consequências dessa elucubração foi acirrar o desentendimento com o islamismo, que postula justamente o oposto.

Marcus Pestana - A decolagem da economia em 2024

Os indicadores da economia brasileira em 2023 não foram ruins. O crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) deve bater nos 3%. A divulgação oficial do resultado pelo IBGE será no próximo dia 1º.  de março. As projeções iniciais eram bem mais modestas, em torno de 0,7%. O mercado de trabalho está aquecido com taxas baixas de desemprego, crescimento da massa salarial e dos salários reais. Ainda nos desafiam o grande contingente de trabalhadores informais e o não desprezível número de desalentados, que são aqueles que desistiram de procurar emprego.

A inflação, medida pelo IPCA, registrou queda, fechando ano em 4,62%, batendo na trave do limite superior do intervalo de tolerância do sistema de metas inflacionárias. Para 2024, se espera uma inflação em torno de 3,9%, ainda acima da meta de 3% traçada pelo Conselho Monetário Nacional. Os juros reais continuam altos, a taxa básica está em 11,25%, muito acima da inflação estimada, mas o Banco Central sinaliza a continuidade de quedas contínuas nas próximas reuniões do COPOM.

Cristovam Buarque* - Lula e Netanyahu

Blog do Noblat / Metrópoles

A corajosa declaração de Lula deixa-o ao lado dos humanistas contra a desumanidade

Matéria no Jornal “The Guardian” cita que, em 1982, depois de assistir cenas do bombardeio de Beirute, o presidente Ronald Reagan, dos Estados Unidos, ligou para o primeiro-ministro Menachem Begin, de Israel, e disse: “Isto é um Holocausto”. Duas horas depois, segundo o jornal, o bombardeio estava suspenso. Do ponto de vista histórico, Reagan, tanto quanto Lula, podem ter exagerado na dose, não na essência política.

Há quatro meses, o governo de Benjamin Netanyahu despreza estatísticas e imagens que mostram a mortalidade e a destruição em Gaza. Arrogantemente ignoraria fala do Lula repetindo a condenação ao Hamas e alertando para a tragédia humanitária dos constantes bombardeios, invasão e assassinatos de civis, crianças, mulheres.

Pablo Ortellado - Câmeras corporais fortalecem a polícia

O Globo

O controle da atividade policial é necessário

As câmeras corporais em policiais, implantadas com sucesso no Estado de São Paulo, estão correndo sério risco de ser abandonadas. Com elas, a letalidade em intervenções policiais foi drasticamente reduzida de 697 mortes em 2019 para 260 em 2022 — uma queda de 63%. Apesar dos números excelentes, convicções ideológicas do governador Tarcísio de Freitas e do secretário de Segurança Pública, Guilherme Derrite, estão levando o programa a ser sucateado. Verbas para as câmeras foram cortadas, e elas deixaram de ser usadas em operações policiais como a sangrenta Escudo, na Baixada Santista.

Carlos Alberto Sardenberg - Governo de anúncios

O Globo

Trezentos e sessenta e três ianomâmis morreram por desnutrição e malária em 2023, mais que os 343 óbitos do ano anterior. Revelado o número, a ministra Sonia Guajajara anunciou a criação do primeiro hospital indígena na História do país. Ficará em Boa Vista, mas ainda não se sabe quando começam as obras. Sabe-se, porém, que fracassaram as medidas emergenciais tomadas no ano passado para retirar garimpeiros das terras ianomâmis. Garimpeiros expulsos voltaram para a região.

E agora? O governo decidiu que Forças Armadas e Polícia Federal deverão ter presença definitiva no território. A partir de quando? Não se sabe. Fracassaram também as ações para levar alimentos e cuidados médicos. Não há novos planos emergenciais em andamento, mas há anúncios. Além do hospital, o governo informou que construirá unidades básicas de saúde na região. Prazos? Metas? Nada.

Eduardo Affonso - A ficha de Lula

O Globo

É possível repudiar a brutalidade da resposta aos ataques de 7 de outubro sem apelar para a relativização do Holocausto

Há quem atravesse a rua para escorregar na casca de banana do outro lado. Lula, não. Ele cruzou um oceano e um continente para contratar uma crise diplomática — e, de quebra, abrir as comportas de um insuspeitado antissemitismo entre nós. A troco do quê, só ele sabe. Não estava num palanque, onde os ânimos se exaltam e as hipérboles fazem a festa. E não parecia embriagado — a não ser de si mesmo.

Adriana Fernandes - CMN mais forte

Folha de S. Paulo

Efeito surpresa foi fundamental para evitar emissão indiscriminada de títulos com isenção de IR

Ministério da Fazenda começou o ano com dois movimentos no campo da regulação com grande poder de mexer com o mercado de capitais brasileiros e diminuir as distorções que acabam beneficiando os investidores com renda mais alta via incentivo tributário.

O efeito surpresa foi fundamental para evitar que forças contrárias se articulassem para barrar as duas medidas antes mesmo da decisão.

Na primeira delas, o CMN (Conselho Monetário Nacional) fechou brechas, no início de fevereiro, que permitiam a emissão indiscriminada de cinco títulos de renda fixa com isenção do Imposto de Renda, as LCA, LCI, CRA, CRI e LIG.

São papéis de renda fixa que em tese precisariam ter como base operações no setor imobiliário e no agronegócio. Empresas de outros setores e bancos, porém, estavam se apropriando desse incentivo tributário do IR, que foi concedido para estimular o financiamento do agronegócio e imobiliário no Brasil.

Alvaro Costa e Silva – E o Lula, hein?

Folha de S. Paulo

Investigada pela PF, deputada Lucinha reassume cargo como se nada tivesse acontecido

A exemplo de colegas em Brasília, ansiosos por protocolar um pedido de impeachment de Lula que não vai dar em nada, deputados do Rio gastam o tempo em debates sobre a fala do presidente associando a matança em Gaza a Hitler. Lá como cá, desloca-se o tema principal —as ações do governo de Israel no combate ao terrorismo— para seguir o apito das redes bolsonaristas, cujo intuito é aliviar a barra do chefe.

Na terça (20), enquanto atacavam Lula nas tribunas da Alerj —"amigo de ditadores e terroristas", "vergonha internacional para o Brasil", "declaração criminosa e antissemita"—, parlamentares não notaram, ou fingiram não notar, à exceção de afagos protocolares, a presença da deputada Lúcia Helena Pinto de Barros, a Lucinha, no plenário.

Dora Kramer - A marca da empáfia

Folha de S. Paulo

O PT é bom em exigir desculpas do alheio, mas não sabe se retratar quando é preciso

PT é muito bom em exigir desculpas do alheio. Cobra retratações com a maior facilidade, mas tem muita dificuldade em se retratar quando a necessidade se impõe.

Fez o que fez com a cumplicidade de partidos aliados no mensalão e, no máximo, reconheceu a existência de "erros" sem nunca ter admitido o crime, a despeito das condenações impostas a petistas de alto escalão.

Demétrio Magnoli - Brincando de antissemitismo

Folha de S. Paulo

Hamas foi o primeiro a aplaudir a fala de Lula, o que deveria envergonhá-lo

Lula inscreveu-se –e inscreveu o Brasil– no discurso do antissemitismo. Mauro Vieira e Celso Amorim tentam convencer-nos de que falou por falar, quase de brincadeira. Tornamo-nos ridículos e, ao mesmo tempo, indecentes.

O antissemitismo contemporâneo divide-se em duas etapas, separadas pela fundação de Israel. Antes dela, sua senha era a dos Protocolos dos Sábios do Sião: os judeus organizam uma conspiração multigeracional para dominar o mundo, a partir do controle sobre o sistema financeiro. Essa conversa não acabou, mas reduziu-se a um ruído de fundo. Depois da fundação do Estado judeu, a senha clássica do antissemitismo é a repetida por Lula.

Poesia | Carlos Drummond de Andrade - Quadrilha

 

Música | Caetano Veloso - La Mer