sábado, 3 de setembro de 2022

Ascânio Seleme - Atentado contra Cristina repercute nas campanhas

O Globo

O autor do ataque em Buenos Aires se parece com Jorge Guaranho, o bolsonarista que invadiu uma festa em Foz do Iguaçu e matou o aniversariante por ser petista

Não, não foi Bolsonaro quem atentou contra a vida de Cristina Kirchner. Mas foi um brasileiro, neonazista, que se tivesse título de eleitor votaria em Bolsonaro. Sim, eu quero dizer que a tentativa de assassinato da vice-presidente da Argentina tem todas as cores do delírio autoritário, intolerante e demoníaco que alcança parte importante, mas não majoritária, do eleitorado que apoia a reeleição do presidente do Brasil.

Fernando Andrés Sabag Montiel, autor do atentado frustrado, é mais um dos muitos fascistoides imbecis que se espalham pelos quatro cantos do mundo, estão no Brasil e na Argentina inclusive. Além de irados e intransigentes, são misóginos, homofóbicos e racistas. Politicamente são contra qualquer tipo de representação, defendem a força como regime e obviamente se opõem ao debate de ideias.

Na Argentina, são contra a esquerda representada por Cristina e que se assemelha ao trabalhismo do PDT no Brasil. Aqui, seus inimigos são o PT e Lula. O autor do atentado de Buenos Aires se parece com Jorge Guaranho, o bolsonarista que invadiu uma festa em Foz do Iguaçu e matou o aniversariante por ser petista. Os dois crimes são de intolerância política.

Pablo Ortellado – O risco da violência política

O Globo

O atentado contra a vice-presidente da ArgentinaCristina Kirchner, é mais um sinal de alerta sobre o risco concreto de sociedades polarizadas entrarem num ciclo de violência política.

Um brasileiro radicado na Argentina tentou assassinar Cristina na noite da última quinta-feira. O atentado só não foi bem-sucedido porque a arma apontada para a cabeça dela falhou. Assim como o Brasil, a Argentina vive um belicoso processo de polarização política que, lá, opõe kirchneristas e antikirchneristas. Ele foi chamado de la grieta, ou “a fissura”.

Uma pesquisa da Universidade de Buenos Aires com uma amostra de 3 mil pessoas nos centros urbanos tentou medir como os eleitores dos dois principais antagonistas das eleições de 2019 viam Cristina Kirchner. Enquanto eleitores da Frente de Todos, que a elegeu vice, associavam a ela os sentimentos de admiração, agradecimento, respeito e carinho, os eleitores do Juntos por Mudança, de Mauricio Macri, a relacionavam aos sentimentos de ódio, asco, desprezo e repulsa.

Nos Estados Unidos, que também vivem uma polarização acentuada opondo trumpistas a progressistas, pesquisas têm mostrado um quadro preocupante e perigoso.

Eduardo Affonso -No grito, não

O Globo

Terceira via deu sinal de vida depois que ficou claro não existir contorcionismo retórico que disfarce a corrupção

Há um movimento nas redes sociais para que a escolha do novo presidente seja decidida já em 2 de outubro. Desde que a eleição em dois turnos foi instituída, em 1988, quem ganhou no primeiro acabou repetindo o feito no segundo. Liquidar a fatura daqui a um mês abortaria pretensões golpistas e daria à luz a narrativa da “vitória de lavada”, um 7 x 1 no fascismo etc. Com uma vantagem adicional: sem ter de fazer acordos ou concessões. Como ensina a Doutrina ABBA, na base do “The winner takes it all”. Então, segundo turno, pra quê? Seria um desperdício de tempo, dinheiro e cortisol, o hormônio do estresse.

Mas, para isso, é preciso combinar com os russos — convencer os eleitores dos candidatos hoje em terceiro e quarto lugares de que eles (eleitores) sejam uns idiotas, irresponsáveis, linha auxiliar de um genocida, cúmplices de tudo o que vier a acontecer de ruim caso (toc, toc, toc) o Mal (“eles”) vença o Bem (“nós”).

Nunca foi uma estratégia das mais sensatas, mas era o que tinha pra hoje.

Carlos Alberto Sardenberg - Pequenos roubos

O Globo

O Judiciário e o sistema político oferecem ao país o pior exemplo. Fica estabelecido que há corrupção, mas não há como punir

 “A corrupção não é uma invenção brasileira, mas a impunidade é uma coisa muito nossa” (Jô Soares)

A gente estava só esperando: o tema corrupção havia de aparecer na campanha. Apareceu. Da pior maneira possível. Mais ou menos assim: sua turma rouba mais que a minha. Ou, claro, meus roubos são menores que os seus.

Corrupção não é apenas uma questão moral. Melhor dizendo: se fosse apenas uma questão moral, já seria importante o suficiente para merecer atenção e propostas dos candidatos.

Não basta condenar a roubalheira, muito menos condenar a roubalheira dos outros. É preciso apresentar propostas para restabelecer no Brasil o sistema de combate à corrupção, desmontado meticulosamente nos últimos anos por políticos e tribunais.

Fernando de la Cuadra* - Brasil: Mentira y corrupción, las señales de una derrota anunciada

“Para hacer cumplir las mentiras del presente, es necesario borrar las verdades del pasado”George Orwell

Centro Latinoamericano de Análisis Estratégico (CLAE).

En el primer debate entre los principales candidatos a la presidencia del país, el postulante Bolsonaro acusó al ex Presidente Luiz Inácio Lula da Silva de mantener buenas relaciones con gobiernos izquierdistas de América Latina, profiriendo una de sus mentiras más groseras del último tiempo: “Lula apoyó al Presidente de Chile también. El mismo que practicaba actos de prenderle fuego al Metro (sic)”.

Los dichos de Bolsonaro fueron inmediatamente desmentidos y repudiados por la Cancillería chilena, llamando incluso al Embajador brasileño en Chile para entregarle una carta oficial de protesta por las inaceptables y gravísimas declaraciones difundidas por el mandatario brasileño.

Esta acusación sin pruebas lanzada contra el presidente Gabriel Boric no representa una conducta aislada del jefe del ejecutivo, al contrario, ella es parte de una política permanente de encubrir la realidad o intentar construir un universo paralelo. En efecto, desde que asumió la presidencia hace 3 años y 8 meses, Bolsonaro ha utilizado insistentemente el recurso de la mentira para justificar sus actitudes y sus acciones.

Demétrio Magnoli - Jornalismo militante

Folha de S. Paulo

Especial sobre cotas raciais ilustra a colonização da imprensa profissional pela militante

A imprensa militante, uma ferramenta de partidos e movimentos sociais, propaga causas políticas e ideológicas. A imprensa profissional rejeita a pregação: analisa o noticiário segundo ângulos e pontos de vista diversos, refletindo a pluralidade política da sociedade. O especial sobre as cotas raciais nas universidades publicado pela Folha (29/8) ilustra a colonização da segunda pela primeira.

São seis textos de propaganda das cotas raciais. Acompanha-os uma entrevista com um crítico das cotas raciais que funciona como disfarce: o álibi para inscrever a peça de imprensa militante num veículo da imprensa profissional.

O primeiro texto noticia o diagnóstico governamental de que os cotistas obtiveram desempenho acadêmico similar aos demais —mas nenhum crítico sério das políticas raciais acalentou a ideia racista de que ocorreria coisa diferente.

O segundo defende a tese de que, ao longo do tempo, os beneficiários das cotas passaram a enxergá-las como um direito. Trata-se do óbvio: o que está na lei é um direito. O terceiro esforça-se para provar o impossível, exibindo os tribunais raciais criados pelas universidades como comissões capacitadas a distinguir cientificamente os pardos que são "negros" dos que são "brancos".

Cristina Serra - O atentado na Argentina e o Brasil

Folha de S. Paulo

A violência política adubada é a maior ameaça às democracias modernas

A cena é aterrorizante. O cano do revólver quase encosta no rosto de Cristina Kirchner. Se a bala tivesse sido disparada, a vice-presidente argentina teria morrido com a cabeça despedaçada, diante das câmeras dos celulares.

Não pude evitar que a memória me trouxesse, como um relâmpago, as imagens do assassinato de John Kennedy, em novembro de 1963, nos EUA. O cérebro do presidente se desintegra. Jacqueline tenta recolher fragmentos dispersos no ar. O balaço de fuzil chocou o mundo e reverberou por gerações.

Na noite deste 1° de setembro, o brasileiro Fernando Sabag Montiel, que tentou atirar em Cristina Kirchner, esteve muito perto de produzir algo semelhante na América do Sul. São contextos diferentes, mas em ambos a violência política, o extremismo e o crime se impõem. O senso de humanidade se esvai por recônditos sombrios e inexplicáveis.

Alvaro Costa e Silva - Os Bolsonaros já fizeram sua independência

Folha de S. Paulo

O desfile do 7/9 poderia ser em uma das mansões do clã

Nelson Rodrigues —que anda atualíssimo— dizia faltar "espanto político" ao Brasil. Com seu estilo inconfundível, deu um exemplo:

"Se baixassem um decreto mandando a gente andar de quatro —qual seria a nossa reação? Nenhuma. (...) Cada um de nós trataria de espichar as orelhas, de alongar a cauda e ferrar o sapato. No primeiro desfile cívico, o brasileiro estaria trotando na Presidente Vargas, solidamente montado por um Dragão de Pedro Américo. E seria lindo toda uma nação a modular sentidos relinchos e a escoucear em todas as direções".

A citação ao quadro "Independência ou Morte!" lembra as comemorações deste Sete de Setembro, que sob o governo Bolsonaro seguem as regras da vergonha e do assombro. Última cartada da campanha que não vê o presidente subir nas pesquisas ou mais um movimento estratégico em direção ao golpe, o desfile do bicentenário —que no Rio trocou a Presidente Vargas pela avenida Atlântica, em Copacabana— foi sequestrado politicamente, a exemplo das cores verde e amarela da bandeira e da camisa da seleção.

Hélio Schwartsman - Iniquidades sanitárias

Folha de S. Paulo

Juízes não têm formação adequada para as decisões que terão de tomar

Demorou, mas a opinião pública se convenceu de que a judicialização do SUS é ruim para a sociedade. A prática introduz uma iniquidade no sistema, já que são tipicamente os pacientes mais ricos que acionam a Justiça para obter acesso imediato a drogas, terapias e outros itens, o que tira recursos do fundo comum.

Na prática, a judicialização transfere a decisão sobre onde alocar recursos das autoridades sanitárias para juízes, que não têm a formação adequada para isso.

Miguel Reale Júnior* - Forças Armadas subordinadas ao poder político

O Estado de S. Paulo

Nada justifica, diante do texto constitucional e da experiência histórica, o entendimento de que elas sejam um Poder Moderador

Ao responder, no Jornal Nacional, da TV Globo, ao comentário de que seus correligionários, sem sua contestação, defendiam em manifestações o fechamento do Congresso Nacional e a intervenção militar, Jair Bolsonaro mencionou o artigo 142 da Constituição. A resposta ficou pelo meio. Com efeito, todavia, o presidente referia-se à posição de poucos juristas no sentido de que esse artigo autoriza as Forças Armadas a agir como Poder Moderador, como um Poder acima dos demais, no caso de conflito entre Poderes.

Resta saber se se pretende referir ao Poder Moderador consagrado ao imperador pela Constituição de 1824 ou se se usa o termo no seu sentido literal, como órgão de conciliação entre os Poderes.

Em golpe de Estado, Dom Pedro I dissolveu a Assembleia Constituinte, que a seu ver não elaborava texto digno dele. O Conselho de Estado, nomeado para, então, elaborar a Constituição, instituiu um quarto poder, o Poder Moderador, criando a figura de rei que reina, governa e administra.

João Gabriel de Lima* - Agenda saiu do controle de Lula e Bolsonaro

O Estado de S. Paulo

Ciro e Tebet foram bem no debate. Lula e Bolsonaro foram mal – e perderam o controle da agenda

“A batalha crucial de uma eleição é pela captura da agenda.” Seguindo essa máxima, o estrategista de campanha Luiz González elegeu três governadores do PSDB em São Paulo – Mario Covas, José Serra e Geraldo Alckmin. “Sou um dos responsáveis pelo apelido ‘tucanistão’”, brinca.

“Capturar a agenda” significa emplacar o tema que vai pautar o debate eleitoral. Para González, entrevistado no minipodcast da semana, os dois líderes da corrida presidencial, Lula e Bolsonaro, já têm estratégias definidas para que a discussão gire em torno de seus assuntos preferidos.

Lula gostaria que o tema da campanha fosse a comparação entre o seu desempenho e o do atual presidente. Bolsonaro investe na reconquista do público evangélico e no discurso anticorrupção. Apesar do escândalo no Ministério da Educação, do orçamento secreto – furos de reportagem do Estadão – e, agora, da compra de imóveis com dinheiro vivo, estrategistas de Bolsonaro avaliam que o tema corrupção atrapalha mais Lula do que ele.

Adriana Fernandes - Cálculo de chegada

O Estado de S. Paulo

Ainda que a melhora econômica não se reflita nas pesquisas, retira força da fala dos adversários

Se depender da economia, a chegada do presidente Jair Bolsonaro ao dia da votação em primeiro turno das eleições presidenciais tende a ser forte.

O PIB cresceu 1,2% no segundo trimestre (acima do esperado), os economistas já projetam uma alta próxima de 3% no ano e a taxa de desemprego no trimestre de maio a julho caiu para 9,1%, a menor em sete anos.

A massa salarial também está crescendo bem, apesar da previsão de uma desaceleração do ritmo no terceiro trimestre.

A inflação (ah... ela) está caindo, e economistas apontam que o novo corte da gasolina, de 7%, ou R$ 0,25% no preço do litro, anunciado na quinta-feira pela Petrobras, abre espaço para o IPCA negativo em setembro. É na antessala das eleições, marcada para começar às 8h de 2 de outubro. Foi a quarta queda nas refinarias da estatal desde julho, e ainda há espaço para novas quedas no preço da gasolina.

Eliane Cantanhêde - O maior espetáculo da Terra

O Estado de S. Paulo (2.9.22)

Setembro chegou e Bolsonaro vai botar navios e aviões na campanha e ‘canhões’ contra Lula

Com sua obsessão em transformar o 7 de Setembro e o bicentenário da República nos maiores espetáculos da Terra e da sua campanha à reeleição, Jair Bolsonaro criou um problemão para a prefeitura do Rio e uma saia-justa para as Forças Armadas, particularmente o Exército. Mas não foi só isso. Mais uma vez, gerou enorme constrangimento para países amigos do Brasil.

As forças navais do Brasil e de 18 outros países das Américas estão no País para participar da Operação Unitas, exercício conjunto que vem desde 1960 e, neste ano, justamente ano eleitoral, ocorre no Brasil, a partir do Rio. E agora? Os países discutem nos bastidores se vão ou não reforçar o bicentenário da independência brasileira, o que corresponde a dar mais visibilidade à campanha de Bolsonaro.

São 5,5 mil militares, 20 navios de guerra, um submarino e 21 aeronaves que fazem a alegria das famílias e serão chamariz para a campanha. A operação começa oficialmente no dia seguinte, mas muitos países participarão do 7 de Setembro/bicentenário e um dos mais importantes, senão o mais, os EUA, faz suspense. “Duvido que isso mude a opinião do eleitor que não decidiu em quem votar”, diz um diplomata de um dos 18 países.

Bruno Boghossian - Escolhas de última hora

Folha de S. Paulo (2/9/22)

Atuais governadores e nomes conhecidos lideram em quase todas as pesquisas feitas pelo Ipec

Apesar de ter se posicionado cedo na disputa presidencial, o eleitor brasileiro dá todos os sinais de que só pretende definir seu candidato a governador nos últimos dias da campanha. Uma rodada de pesquisas do Ipec mostra que pelo menos 20% dos entrevistados não escolheram nenhum nome para ocupar esse cargo em 19 corridas locais.

Esse é o terreno ideal para reviravoltas na reta final. Em 2018, o então candidato Wilson Witzel aparecia com 1% das intenções de voto a esta altura da disputa pelo governo do Rio, enquanto 30% dos eleitores não tinham candidato. Ele só disparou às vésperas da votação e conseguiu vencer no segundo turno.

Alguns estados reproduzem as condições de jogo aberto em 2022. No Rio e em São Paulo, 35% dos entrevistados estão indecisos ou declaram voto em branco ou nulo. Os números tendem a cair, porque mesmo os eleitores que agora parecem frustrados devem escolher um nome.

José de Souza Martins - O coração do rei

Valor Econômico / Eu Fim de Semana

É curioso o empenho político em trazer ao país o órgão do imperador

Foi Dom Pedro IV, de Portugal, quem doou o próprio coração, em testamento, à Irmandade de Nossa Senhora da Lapa, da cidade do Porto. Não foi Dom Pedro I, do Brasil. Embora os dois reis, do ponto de vista vulgar, sejam a mesma pessoa biológica, não são, sociologicamente, a mesma pessoa política e histórica. Cada qual personificou um mandato e um destino. Dom Pedro IV foi um rei de Portugal e dos portugueses. Dom Pedro I fora um monarca do Brasil e dos brasileiros.

Os reis nunca são eles mesmos nem o que achamos que são. A rainha Elizabeth II é rainha da Inglaterra e da Escócia. São dois tronos e dois reinos distintos. Na Inglaterra, ela é anglicana e cabeça da Igreja Anglicana. Na Escócia, ela é presbiteriana, cabeça simbólica da Igreja Escocesa, cuja origem vem de John Knox, braço direito de Calvino e fundador do presbiterianismo.

Quando na Inglaterra, nas celebrações religiosas, ela segue o rito anglicano. Quando na Escócia, nessas celebrações, segue o rito do protestantismo escocês. Na Escócia, formalmente, está ligada a uma igreja de estrutura e de espírito republicanos.

As circunstâncias históricas e políticas dizem o que são e podem ser os reis nos diferentes momentos e épocas de sua vida. O pai de Dom Pedro, o rei Dom João VI, que foi rei do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarve, a partir de 1815, quando o criou, foi um desses casos. Pagou com a vida o fato histórico de que a unidade dinástica sobre dois territórios, Portugal e Brasil, pressuposta nessa decisão, antecipava uma possibilidade política em dois países politicamente atrasados. Homem de grande lucidez política, do estadista que era, ele acabou assassinado por envenenamento em 1826.

Maria Cristina Fernandes - No bicentenário das urnas, paz foi exceção

Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

Livro mostra que, 173 anos antes da peleja do presidente do TSE, Alexandre de Moraes, já se tentava desarmar os eleitores

“Grupos armados, capitaneados por agentes policiais disfarçados, que expeliam as mesas legalmente organizadas, quebravam urnas, rasgavam cédulas e espancavam votantes.” Corria o ano de 1840, o último ano da Regência, período durante o qual, desde a Independência, a nação mais esteve ameaçada. O autor do relato é João Manuel Pereira da Silva, um filho de comerciantes de Nova Iguaçu (RJ) que estudara direito em Paris e acumularia 11 mandatos como deputado.

Nos resgates de seu livro de memórias, Pereira da Silva mostrou que, se as rebeliões foram a face mais visível dessa ameaça, as eleições do período demonstraram como a disputa pelo voto foi a tradução institucional dessa guerra. Não é por outra razão que, 200 anos depois, o governo que mais atacou os alicerces da nação brasileira tenha escolhido as urnas eletrônicas por alvo.

O nome dado à disputa de 1840, que acabaria cancelada pelo imperador, é autoexplicativo, “eleições do cacete”. E foram assim definidas por Pereira da Silva: “Empregados públicos são colocados na dura colisão de optar entre o sacrifício de sua consciência e o pão de seus filhos; operários de repartições públicas, soldados, marinheiros de embarcações de guerra, são constrangidos a levar à carga cerrada, em listas que lhe são impostas, um voto de que não têm consciência”.

Pereira da Silva é recuperado em “Eles e o voto” (Távola Editorial, 2022), do ex-professor da UNB e ex-ministro do TSE Walter Costa Porto. O livro poderia ter suas 627 páginas reduzidas pela metade com o expurgo das repetições, mas vale pelo resgate dos personagens da política nacional mais enfronhados nas tentativas de fazer do voto o filtro mais fidedigno das escolhas nacionais.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Editoriais / Opiniões

É absurda a MP que permite salário acima do teto

O Globo

Senado deveria barrar medida que privilegia diretores dos fundos de previdência dos servidores

Parlamentares não perdem a oportunidade, especialmente em ano eleitoral, de fazer valer a máxima orwelliana de que todos são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros. Na quarta-feira, a Câmara dos Deputados aprovou a Medida Provisória (MP) 1.119, que permite a diretores de fundos de previdência de servidores receber mais que o teto salarial do funcionalismo, hoje em R$ 39.294 (correspondente ao salário dos ministros do Supremo Tribunal Federal).

A mágica foi obtida mudando a natureza jurídica dos fundos, de fundação pública para fundação privada. Deputados que tentaram suprimir esse trecho da MP foram voto vencido. Um absurdo que ignora a dura realidade da maioria da população brasileira.

Não foi o único disparate na MP oportunista. O texto também reabre o prazo para que servidores em atividade migrem para um fundo de previdência complementar. Quem optar pela mudança terá aposentadoria limitada ao teto do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), hoje em R$ 7.087 (ou R$ 7.612 no ano que vem, conforme previsão no Orçamento para 2023 enviado ao Congresso).

Poesia | Fernando Pessoa - Quando olho para mim não me percebo

 

Música | Chico César - Pensar em você