quarta-feira, 18 de maio de 2022

Merval Pereira: Bolsonaro quer armar milícia para as eleições

O Globo

A afirmação do presidente Bolsonaro de que a população brasileira deve se armar para defender a democracia é de uma irresponsabilidade sem tamanho. Usa esse argumento para exortar o cidadão comum a reagir a uma ditadura, quando ele é quem quer implantá-la. Só aceitará o resultado da eleição se for vitorioso. Caso contrário, vai dizer que foi roubado e fará um tumulto para impedir a posse de quem for eleito. Como domina o Congresso, que não irá abrir processo de impeachment, como deveria, vamos ficar na mão de um presidente transtornado. Cada vez que fica mais clara a sua derrota, ele eleva o tom, contestando as instituições. Nunca vimos uma situação como essa, totalmente anormal numa democracia.  Bolsonaro diz que não vai dar golpe, mas alimenta a ideia de quem vai dar o golpe é o PT. O que alega é que será uma eleição fraudada para dar a vitória a Lula. Incentiva seus seguidores a reagir, como se isso estivesse mesmo acontecendo.  Está preparando uma milícia para reagir ao resultado das urnas. Sua retórica está cada vez mais violenta.

Vera Magalhães: A hora da contenção

O Globo

É muito alentador que líderes do Senado e ministros do Supremo tenham, finalmente, começado a se mexer para reagir aos ensaios de golpe que Jair Bolsonaro pratica em praça pública todos os dias. Que bom que aconteceu a tempo.

A dúvida é que instrumentos esses entes institucionais terão para atuar na contenção. A chave, quando se conversa com esses atores, é entender até que ponto as Forças Armadas estão embarcadas na teoria conspiratória que Bolsonaro inventou para desacreditar o processo eleitoral brasileiro.

Nesse aspecto, próceres do Senado se sentiram mais confortáveis nos últimos dias por informações que receberam do Alto-Comando, de generais que deixaram claro em conversas recentes que não darão apoio a nenhuma tentativa de empastelar o pleito.

Também têm sido medidos os humores do presidente da Câmara, Arthur Lira, e dos ministros políticos dos partidos que estarão na aliança de Bolsonaro. O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, tem sido firme em incluir Lira no rol dos que não aceitarão nenhuma tentativa de quebra de normalidade democrática nem de questionamento do resultado das urnas.

Ouvi de um dos participantes das cada vez mais frequentes e graduadas conversas sobre os possíveis caminhos pelos quais Bolsonaro pode tentar tumultuar o ambiente eleitoral que ninguém que vá disputar o voto em outubro —a não ser aqueles cuja existência política depende exclusivamente do bolsonarismo — aceitará questionar a própria eleição.

Bernardo Mello Franco: Divergentes e antagônicos

O Globo

Paulo Freire morreu há 25 anos, mas continua bem vivo no debate político. Ao lançar sua candidatura ao Planalto, o ex-presidente Lula citou uma lição do educador: “É preciso unir os divergentes para melhor enfrentar os antagônicos”.

O petista recorreu à frase para justificar a aliança com Geraldo Alckmin. Os dois passaram décadas como adversários políticos. Agora resolveram se unir contra o projeto autoritário de Jair Bolsonaro.

O dicionário Houaiss define os divergentes como aqueles que têm opiniões ou pontos de vista diferentes. Os antagônicos são contrários. Incompatíveis.

Na política, forças divergentes podem se aliar em nome de valores comuns. Aconteceu nas Diretas Já, quando rivais históricos subiram no mesmo palanque em defesa da democracia. Eram antagonistas da ditadura militar, o regime dos sonhos do capitão.

Um dos primeiros atos do golpe de 1964 foi extinguir o Programa Nacional de Alfabetização, idealizado por Freire. Tachado de subversivo, o educador teve que partir para o exílio. Refugiou-se no Chile, onde acompanhou o processo de radicalização política que desembocaria na derrubada de Salvador Allende.

Anos mais tarde, o educador concluiu que a divisão dos democratas contribuiu para os golpes no Brasil e no Chile. No livro “Pedagogia da esperança”, ele escreveu que só a busca da “unidade na diversidade das forças progressistas”, sem sectarismo, poderia fazer frente “ao poder e à virulência” dos autocratas.

Vera Rosa: A campanha nos tempos do haraquiri

O Estado de S. Paulo.

Bolsonaro comete sincericídio e generais não se entendem com Centrão

A quatro meses e meio das eleições, o comando da campanha de Jair Bolsonaro é alvo de cotoveladas e divergências que crescem na mesma velocidade do preço dos combustíveis. Sem conseguir dar uma resposta para o aumento do custo de vida, Bolsonaro busca agora culpados para a crise econômica, que vão da pandemia de covid-19 à guerra na Ucrânia, passando por governadores e desembarcando na Petrobras.

Diante de discursos desencontrados, o comitê da reeleição marcou reuniões para esta semana numa casa alugada no Lago Sul, em Brasília, com o marqueteiro Duda Lima, homem de confiança do presidente do PL, Valdemar Costa Neto. Em tempos de haraquiri na política, como se vê com o exgovernador João Doria, em pé de guerra com o PSDB, a ordem é dar um freio de arrumação na retórica do presidente e divulgar “ações” dos ministérios.

O senador Flávio Bolsonaro (PL), coordenador da campanha do pai, diz ser preciso melhorar logo a comunicação, pois eleitores têm “informações distorcidas” sobre o governo. Não é o que parece.

Almir Pazzianotto Pinto*: Estado autoritário e legislação trabalhista

O Estado de S. Paulo

Duas MPs convulsionam o mundo jurídico-trabalhista. Mas não será condenada a falta de liberdade nas relações de trabalho.

Desde a derrubada da Primeira República pela revolução de outubro de 1930, com a deposição do presidente Washington Luís pelas forças de Getúlio Vargas, o Brasil experimenta crescente intervenção do Estado nas relações privadas. A livre-iniciativa é ficção constitucional, tantas são as exigências que cerceiam a liberdade indispensável à saúde da vida econômica.

Vivemos o mito do Estado liberal, garroteado durante a ditadura do Estado Novo e ao longo do período militar. Somados, temos mais de 35 anos de autoritarismo, com as relações de direito privado submetidas ao controle do Poder Executivo com a cumplicidade dos Poderes Legislativo e Judiciário.

Manifestação aberta de autoritarismo consistiu na aprovação, mediante decreto-lei e em plena ditadura, da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), editada em 1.º de maio de 1943. Passados 79 anos de vigência, a CLT é uma espécie de obelisco erguido para assegurar a lembrança da era Vargas. Ao escrevê-la, os autores foram pródigos em elogios ao ditador. Veja-se o que disse o ministro do Trabalho Alexandre Marcondes Filho, na Exposição de Motivos ao Presidente da República: “(A CLT) é o diploma do idealismo excepcional do Brasil orientado pela clarividência genial de V. Excia., reajustando o imenso e fundamental processo de sua dinâmica econômica, nas suas relações com o trabalho, aos padrões mais altos de dignidade e de humanidade de justiça social”.

Fernando Exman: Duas questões de honra para os militares

Valor Econômico

Ataques de Bolsonaro não têm apoio entre oficiais da ativa

São duas as principais preocupações dos militares com os efeitos colaterais negativos de sua participação na Comissão de Transparência das Eleições (CTE). A primeira é que fique cristalizada a versão segundo a qual eles não foram colaborativos com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Em segundo lugar, que tentem pintá-los como tecnicamente incapazes.

Virou uma questão de honra. E é sob essa ótica que pode ser relida a polêmica nota emitida pelo ministro da Defesa e ex-comandante do Exército, Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, logo depois da questionável declaração do ministro Luís Roberto Barroso de que as Forças Armadas “estão sendo orientadas a atacar o processo” eleitoral brasileiro e “tentar desacreditá-lo”.

Ex-presidente do TSE, Barroso não citou o presidente Jair Bolsonaro. Mas era ele o sujeito oculto da frase proferida pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF).

Como era de se esperar, as reações foram imediatas. E a mais impactante foi justamente a nota divulgada pelo ministro da Defesa, a qual, na prática, marcou a sua passagem de comando de uma instituição de Estado para uma outra de governo.

O general livrou-se das amarras institucionais do Exército e agora, de terno e gravata, reposicionou-se como agente político. Ainda assim, não se afastou da responsabilidade de ser o porta-voz na defesa do Exército, Marinha e Aeronáutica. “Afirmar que as Forças Armadas foram orientadas a atacar o sistema eleitoral, ainda mais sem a apresentação de qualquer prova ou evidência de quem orientou ou como isso aconteceu, é irresponsável e constitui-se em ofensa grave a essas Instituições Nacionais Permanentes do Estado Brasileiro. Além disso, afeta a ética, a harmonia e o respeito entre as instituições”, pontuou na nota.

Armando Castelar Pinheiro*: O nó dos preços de derivados

Valor Econômico

O que irá realmente fazer essa transformação energética ocorrer é o preço dos combustíveis fósseis aumentar

Semana passada participei do seminário Direito e Economia no Pós-Pandemia, uma parceria da FGV Direito Rio com o Tribunal de Justiça de Minas Gerais (ver bit.ly/3t1zKKb). Ótimas e instigantes apresentações sobre o desafio colocado para o Judiciário, e os operadores do direito em geral, de administrar os ajustes que contratos e práticas econômicas vão precisar após esses dois difíceis anos de pandemia.

Um interessante consenso que emergiu das discussões foi a transformação tecnológica provocada pela pandemia, com “o Brasil fazendo em cinco meses o que de outra forma teria levado cinco anos”. Lendo o noticiário estes dias, fiquei me perguntando se algo assim - uma aceleração no processo de transformação - também pode estar em curso no setor de petróleo.

O preço do petróleo disparou no último ano: de US$ 70 para US$ 110 por barril, um salto de 57%. O resultado, claro, foi uma alta igualmente forte no preço dos derivados. Nos EUA, o preço da gasolina ao consumidor subiu 44% nos 12 meses até abril; o do diesel, 64%. No mesmo período, o rendimento médio recebido pelos trabalhadores no setor privado aumentou “apenas” 5,5%.

Bruno Boghossian: A caravana do golpismo

Folha de S. Paulo

Presidente usa eventos oficiais para naturalizar ideia de ruptura em caso de derrota nas urnas

Jair Bolsonaro embarcou numa caravana do golpismo. Nos últimos dias, ele explorou eventos oficiais, bancados com dinheiro público, para lançar novas suspeitas sobre o processo eleitoral, defender uma reação armada de seus apoiadores e lançar as bases para uma ruptura caso seja derrotado na votação de outubro.

O presidente parece interessado em reforçar a coalizão que apoiaria esses planos. Desde a semana passada, ele repetiu o discurso para plateias de produtores agrícolas, lojistas, empresários e policiais militares. Nesta terça (17), testou a ideia com eleitores do interior de Sergipe.

Na inauguração de uma obra de duplicação de uma rodovia, Bolsonaro tentou difundir a mensagem de que será preciso pegar em armas para defender o que ele chama de democracia, "não interessa os meios que porventura um dia teremos que usar". A única democracia que o presidente reconhece, como se sabe, é sua permanência no poder.

Fernanda Perrin: Silêncio de empresários sobre golpismo de Bolsonaro preocupa

Folha de S. Paulo

Empresariado brasileiro não se resume ao pato da Fiesp

Quem resume o comportamento político do empresariado brasileiro ao pato da Fiesp não está entendendo nada.

Nos primeiros estudos sobre o tema no país, nos anos 1950, os industriais eram vistos como uma força progressista, um potencial aliado na promoção de um projeto nacional de desenvolvimento em oposição aos interesses agroexportadores.

Essa teoria desmoronou em 1964, não apenas pelo apoio do empresariado ao golpe, mas porque o regime militar mostrou que o avanço do setor não era incompatível com uma sociedade autoritária e desigual.

Nesse período, as pesquisas buscaram entender por que, afinal, os industriais não assumiram o papel que supostamente deveriam desempenhar.

Com a redemocratização, a abordagem de classe perde espaço para estudos que encaram industriais como grupos de interesse, orientados por uma lógica pragmática em estratégias de lobby e financiamento político, por exemplo.

Vinicius Torres Freire: O tabelamento eleitoral da gasolina

Folha de S. Paulo

Preço do trigo dá um salto, governo quer fixar preço de combustíveis por três meses

O governo de Jair Bolsonaro quer que a Petrobras reajuste seus preços apenas a cada três meses, ouve-se no Planalto. Com vai fazer isso, não foi possível descobrir. Mas "é preciso fazer alguma coisa, já", dizem os palacianos.

Ninguém explica como vão intervir na petroleira. Há boatos de demissão da diretoria, o que é quase impossível de confirmar, até porque essas decisões são resultado de faniquitos de Bolsonaro. Mas a intervenção teria de ir muito além da troca do comando.

Não se explica também qual será o método desse controle de preços. A cada trimestre, a Petrobras faria um reajuste segundo qual critério? O preço do trimestre compensaria perdas (ou ganhos) dos meses passados, caso a empresa tivesse cobrado menos (ou mais) do que o preço internacional? O preço novo seria meramente o preço internacional da data do reajuste?

Luiz Carlos Azedo: Cúpula do PSDB negocia desistência de Doria

Correio Braziliense

Araújo ressaltou que os entendimentos com o Cidadania e o MDB para encontrar uma candidatura única continuarão e que o próprio Doria busca uma alternativa ao seu nome

A reunião da Executiva do PSDB, ontem, produziu um consenso: o ex-governador de São Paulo João Doria deveria renunciar à corrida presidencial e buscar uma alternativa honrosa para o partido, que tanto pode ser ressuscitar a candidatura do ex-governador gaúcho Eduardo Leite, no caso de uma solução prata da casa, quanto apoiar a indicação da senadora Simone Tebet (MDB-MS), que teria o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) para vice. Com isso, a reunião da terceira via marcada para hoje, na qual será apresentada uma pesquisa sobre a competitividade de Doria, não poderá tomar uma decisão definitiva, porque o presidente do PSDB, Bruno Araújo, não foi credenciado para isso. As conversas continuarão, preferencialmente com a participação de Doria.

O porta-voz dos líderes tucanos foi o deputado Aécio Neves (MG), autor da proposta de consenso. A ideia é realizar uma nova reunião, com os governadores e candidatos majoritários do PSDB e a presença de Doria, para que os próprios correligionários relatem as dificuldades que estão enfrentando para apoiá-lo nos seus respectivos estados. Aécio é desafeto de Doria, mas defende uma candidatura própria da legenda e havia apoiado Leite na disputa das prévias. Entretanto, o maior algoz e interessado na desistência de Doria é mesmo o governador de São Paulo, Rodrigo Garcia, que o sucedeu no cargo e, inclusive, foi levado ao PSDB pelas mãos do candidato tucano.

A discussão na reunião da Executiva do PSDB foi quente, mas o encerramento teve clima de velório. Essa é a mais séria crise enfrentada pelo PSDB, que corre sério risco de não ter candidato a presidente da República pela primeira vez em sua história — o que também pode ser catastrófico para a legenda. Tanto Garcia como Araújo articulam essa posição, defendendo o apoio a Tebet, como deseja a maioria dos deputados paulistas da chamada terceira via em São Paulo. Na avaliação deles, Doria seria um estorvo para a candidatura de Garcia, que está em quarto lugar nas pesquisas de intenções de votos, atrás de Fernando Haddad (PT), Márcio França (PSB) e Tarcísio de Freitas (Republicanos), o candidato de Bolsonaro.

PSDB eleva pressão para Doria desistir do Planalto, em reunião da Executiva Nacional

Cúpula tucana quer se reunir com o ex-governador com o objetivo de demovê-lo do projeto presidencial

Eduardo Gonçalves, Bianca Gomes e Gustavo Schmitt / O Globo

SÃO PAULO - Em reunião realizada na noite desta terça-feira em Brasília, a maioria da Executiva Nacional do PSDB decidiu fazer uma investida para tentar convencer o ex-governador de São Paulo João Doria a abrir mão de sua pré-candidatura à Presidência da República pelo partido. A cúpula da sigla vai chamar o correligionário para um encontro ainda nesta quarta-feira com o objetivo de demovê-lo do projeto de disputar o Palácio do Planalto.

O plano uniu o presidente da legenda, Bruno Araújo, e o deputado mineiro Aécio Neves. Embora sejam contrários à candidatura de Doria, ambos vinham trocando farpas públicas recentemente.

O nó que amarra Doria e grande parte do PSDB passa pelo caminho a ser trilhado pelos partidos da chamada terceira via — PSDB, MDB e Cidadania. As três siglas marcaram para hoje o anúncio do nome que encabeçaria a chapa presidencial apoiada pelo grupo. Doria, porém, dá sinais de que não está disposto a deixar o páreo para apoiar quem quer que seja, mesmo que essa fosse a decisão da maioria do bloco. O ex-governador se fia no fato de o PSDB ter aprovado em prévias o nome dele para representar o partido na corrida pela Presidência.

Diante do impasse, então, a Executiva do partido resolveu agir. Para Bruno Araújo, não é possível “dar nenhum passo” em relação ao candidato único da terceira via sem um “diálogo interno” com Doria.

Cristovam Buarque*: Perguntas ao Ministério da Defesa

Correio Braziliense

Depois de 11 eleições, tudo indica que o sistema de urnas eletrônicas é incorruptível e exemplo do Brasil ao mundo. Por isso, fica estranho nossas Forças Armadas levantarem suspeitas, com perguntas sobre as urnas, exatamente no ano da eleição em que as pesquisas de opinião indicam a derrota do atual presidente.

Sabendo-se que ele vem cumprindo estratégia para deslegitimar o resultado para justificar um golpe, mas, supondo que o desejo de nossas Forças Armadas seja aperfeiçoar o sistema eleitoral, também me sinto no direito de fazer perguntas sobre o estado de nossa Defesa.

Da mesma forma que o TSE criou uma comissão com representantes externos para discutir possíveis fragilidades das nossas urnas na construção de nossa democracia, posso me imaginar parte de uma comissão instituída pelas Forças Armadas para ouvir civis com perguntas sobre fragilidades das nossas armas para fazer nossa defesa.

Apesar de minha experiência limitada a alguns meses como recruta no serviço militar e sete anos como membro da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado, um dos quais como seu presidente, sou tão especialista nesse campo quanto os generais são em apuração de votos. Mesmo assim, sinto-me na obrigação de fazer perguntas sobre nossa defesa.

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Editoriais

O presidente está nervoso

O Estado de S. Paulo

Estagnação nas pesquisas tirou Bolsonaro do prumo. Seu discurso será cada vez mais ameaçador

 A proximidade das eleições está mexendo com os nervos do presidente Jair Bolsonaro. A bem da verdade, sereno ele nunca foi. Mas, a julgar por sua postura ainda mais irascível nas últimas semanas, parece que a estagnação nas pesquisas de intenção de voto tirou Bolsonaro do prumo. Talvez não contasse com esse quadro a cinco meses da eleição.

No dia 16 passado, durante um evento organizado pela Associação Paulista de Supermercados (Apas), em São Paulo, o presidente voltou a ameaçar com uma sublevação caso seja derrotado nas urnas em outubro. Aos berros, comparou o atual momento do País com aquele que antecedeu o golpe militar de 1964. “Os que tentaram nos roubar em 64 tentam nos roubar agora. Lá atrás, pelas armas. Hoje, pelas canetas”, afirmou o presidente à plateia de empresários.

À luz da razão, essa fala de Bolsonaro não tem pé nem cabeça. O Brasil de 2022 em absolutamente nada se aproxima do Brasil de 1964. Nem o mundo é o mesmo. Das duas uma: ou a comparação provém de uma mente perturbada, alheia à realidade, ou é pura tática eleitoral. Ainda que o presidente de vez em quando pareça perturbado, é mais seguro apostar na segunda opção.

Bolsonaro não está nervoso pelas razões que afligiriam qualquer presidente digno do cargo: a fome de milhões de seus concidadãos, o desemprego, a alta da inflação, a falta de perspectiva de futuro em áreas fundamentais, como economia, educação e meio ambiente. Bolsonaro tem medo de perder a eleição, é isso que tira o seu sono. O próprio presidente já projeta um futuro nada bom caso seja derrotado nas urnas: “Por Deus que está no céu, eu nunca serei preso”. Ora, e quem disse que será? Acaso o presidente vê algum motivo para ser preso?

Poesia | Carlos Pena Filho: A Rosa, no íntimo

Entro em teu breve sono, onde os minutos

são três pássaros líquidos e enorme,

e descubro os gelados aquedutos

guardiães do silêncio, enquanto dormes.

 

Pouso a cabeça nos teus lábios sujos

de mundo e tempo, e vejo que possuis

em teus seios, dois bêbados marujos

desesperados, sós, raros, azuis.

 

Enfim, além (no além de tuas pernas

onde Deus repousou a sua face,

cansado de inventar coisas eternas)

 

desvendo, ao desespero de quem passe,

a rosa que és, a mística e sombria

a noturna e serena rosa fria.

Música | Carla Rio - Samba sem pretensão