quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Em nota, PPS defende formação de bloco de oposição para as eleições de 2010




Formar um bloco democrático reformista de oposição, vencer as eleições e governar o país. Esse é o objetivo fundamental do PPS para as eleições de 2010, expresso em nota aprovada nesta terça-feira pela Executiva Nacional e pela bancada federal do partido. A divulgação da nota acontece após a legenda já ter anunciado a decisão de apoiar o candidato do PSDB a presidente.

O documento critica a política econômica do governo Lula e o fato de ele ter paralisado as reformas do Estado. "O mais grave, no entanto, é que o governo e o partido que o hegemoniza abandonaram as reformas estruturais que o Brasil tanto necessita, capazes de permitir ao país efetivamente alcançar seu desenvolvimento e ser menos desigual", diz trecho da nota.

Somente esse bloco de oposição, acredita o PPS, é capaz de organizar um movimento nacional capaz de dar início a um novo ciclo virtuoso de transformações na economia e na sociedade. "Agora que a crise econômica “atravessou o Atlântico”, resta à sociedade e ao próximo governo construir uma outra perspectiva de desenvolvimento, fazer uma gestão transparente e com responsabilidade na condução da política econômica, resistindo ao economicismo que é prisioneiro do mero crescimento econômico, e tenha reflexos concretos nas políticas sociais".

O presidente nacional do PPS, Roberto Freire, frisa que está aberto o debate em torno de como deve ser construído esse bloco. As contribuições podem ser postadas nos comentários dessa matéria ou enviadas pelo e-mail secretariado@pps.org.br. Confira abaixo a íntegra da nota.

Nota da Comissão Executiva Nacional do PPS

A Comissão Executiva do Diretório Nacional do Partido Popular Socialista (PPS) decidiu trabalhar pela construção de um Bloco Democrático e Reformista, capaz de organizar um movimento nacional que vença as eleições presidenciais de 2010 e governe o pais, iniciando um ciclo virtuoso de transformações na economia e na sociedade.

Nos últimos seis anos, o atual governo se beneficiou de uma conjuntura financeira internacional que oferecia liquidez a todas as economias do mundo, graças a alavancagens jamais vistas no mercado, fazendo uso dos recursos fartos disponíveis, além de uma política fiscal de juros altíssimos e um verdadeiro populismo cambial, que transformou o país num entreposto de ganhos para os fluxos de capitais globalizados. Além de negar o discurso ético, o Executivo atropelou as instituições republicanas com a compra de parlamentares e partidos no episódio conhecido como o “mensalão”, a fim de controlar o Legislativo; criou e assenhoreou-se de dezenas de milhares de cargos públicos, usou os ganhos dessa ciranda para cooptar a sociedade organizada, trabalhadores e empresas para o interior do aparelho de Estado, ao mesmo tempo em que ofereceu e continua com políticas compensatórias para os mais pobres.

O mais grave, no entanto, é que o governo e o partido que o hegemoniza abandonaram as reformas estruturais que o Brasil tanto necessita, capazes de permitir ao país efetivamente alcançar seu desenvolvimento e ser menos desigual.

Agora que a crise econômica “atravessou o Atlântico”, resta à sociedade e ao próximo governo construir uma outra perspectiva de desenvolvimento, fazer uma gestão transparente e com responsabilidade na condução da política econômica, resistindo ao economicismo que é prisioneiro do mero crescimento econômico, e tenha reflexos concretos nas políticas sociais.

Assim, o PPS convoca os brasileiros para a formação deste Bloco Político de oposição ao atual governo e aberto à participação de partidos, lideres sindicais e comunitários, gestores públicos em todas as instancias, intelectuais, jovens, mulheres, universidades e escolas, lideranças religiosas, que apóiem seu programa e objetivos. No que diz respeito aos membros do PPS, cada um deverá ser portador desta proposta e assumir o dever de informar seus objetivos à sociedade, usando todos os meios possíveis de comunicação e informação.

Brasília, 2 de dezembro de 2008

Diversidade e cidadania


José Serra e Linamara Rizzo Battistella
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Dos 25 milhões de brasileiros com deficiência, pelo menos 4 milhões estão no Estado de São Paulo

A DECLARAÇÃO Universal dos Direitos Humanos, marco histórico do respeito à diversidade, proclama a igualdade de todos os seres humanos em direitos e dignidade. No mundo de hoje, sob essa inspiração, governos e organismos internacionais combatem a exclusão e tentam criar sociedades para todos. Mas as tendências à desigualdade e a lentidão das mudanças impõem estratégias muito determinadas para garantir os avanços mínimos aos setores mais vulneráveis da sociedade.

Dos 25 milhões de brasileiros com deficiência, pelo menos 4 milhões estão no Estado de São Paulo. Para que as políticas públicas cheguem a essas pessoas de forma resolutiva, o governo de São Paulo criou, no início deste ano, a Secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência. Seguiu o exemplo da prefeitura da capital paulista, onde, em 2005, criamos uma secretaria municipal voltada ao mesmo propósito (chefiada pela atual vereadora Mara Gabrilli).

O exercício da cidadania da pessoa com deficiência tem mão dupla. De um lado, a sociedade deve prover a todos a inclusão; de outro, o portador de deficiência deve ter efetivo poder em relação ao seu direito de acesso a bens, produtos e serviços.

A política que traçamos no Ministério da Saúde em 2001 resultou na criação, neste governo, da Rede de Reabilitação Lucy Montoro, que terá unidades em seis macrorregiões do Estado.

Esses hospitais, além de dispor de médicos fisiatras e equipes multidisciplinares completas, trabalharão para mudar paradigmas e dar acesso às modernas tecnologias para a vida independente e a inclusão no mercado de trabalho.

Já há dois em andamento: um em Campinas, o outro na cidade de São Paulo. Até o final do governo, teremos concluído e colocado em funcionamento todos os seis centros, cuja capacidade será de 450 mil atendimentos por mês.

Serão centros de referência, incorporando todas as tecnologias mais modernas, formando e aperfeiçoando os profissionais da área e exercendo um poderoso efeito na expansão do atendimento de reabilitação, apoiados por uma unidade móvel lançada hoje que percorrerá as mais diversas regiões do Estado, ampliando o acesso aos serviços da rede.

O caminho percorrido até aqui não foi tão longo. Embora os registros históricos no Brasil nos remetam ao século 19, quando da fundação do Real Instituto de Meninos Cegos (1857), somente na década de 1980 foi definido o Ano Internacional da Pessoa Deficiente (1981), seguido pela Década da Pessoa Deficiente (1982-1992).

Desde então, houve um efetivo amadurecimento do Estado na definição de políticas voltadas à inclusão social, que acompanhou o fortalecimento do SUS (Sistema Único de Saúde), incorporando, em 1992, os procedimentos legais para a oferta de órteses, próteses e meios auxiliares de locomoção.

No governo Fernando Henrique Cardoso, as políticas públicas nessa área deram um salto.

Com a edição, em 1999, do decreto nº 3.298, que regulamentou a lei nº 7.853/89, o Ministério da Saúde criou as redes estaduais de assistência à pessoa com deficiência, privilegiando serviços hierarquizados e descentralizados. Pela primeira vez, previu-se que as políticas de governo deveriam dar atenção integral à pessoa com deficiência, um trabalho que não se limita ao aspecto da saúde. Visa, sobretudo, a sua inclusão plena em todas as esferas da vida social.

Isso significa tornar a sociedade mais acessível às pessoas com deficiência sob vários pontos de vista: arquitetônico -sem barreiras ambientais; comunicacional -sem barreiras na comunicação interpessoal, escrita e virtual; metodológico -sem barreiras nos métodos e técnicas de estudo ou trabalho; instrumental -sem barreiras nas ferramentas de trabalho, estudo ou lazer; programática -sem barreiras embutidas em leis, normas, decretos e regulamentos; e atitudinal -sem preconceitos, estigmas, estereótipos e discriminações.

Inclusão é um valor de toda a sociedade que acolhe pessoas com e sem deficiência. Só haverá cidadania a partir do reconhecimento de que somos todos diferentes. O acesso igualitário aos serviços, à tecnologia, ao mercado de trabalho e à garantia da integralidade na saúde, na educação e na moradia acessível não é um favor: é um direito.

JOSÉ SERRA , 66, economista, é o governador de São Paulo. Foi senador pelo PSDB-SP (1995-2002), ministro do Planejamento e da Saúde (governo Fernando Henrique Cardoso) e prefeito de São Paulo (2005-2006).

LINAMARA RIZZO BATTISTELLA , médica fisiatra, é secretária estadual dos Direitos da Pessoa com Deficiência, professora associada da Faculdade de Medicina da USP e presidente honorária da ISPRM (International Society of Physical and Rehabilitation Medicine).

Reforma de autor


Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


Alguém entre os conhecidos do senhor e da senhora, gente cuja intimidade com a linguagem das alíquotas limita-se ao doloroso ato de pagar imposto, sabe dizer no que consiste a proposta de reforma tributária em discussão no Congresso?

Pois é. De vez em quando há mesmo desses debates herméticos que parecem feitos para humilhar os não-iniciados. Percebemos a importância do tema, mas não captamos o espírito da coisa em toda sua grandiosidade.

Educadamente, boiamos, por exemplo, enquanto os especialistas trocam argumentos sobre as regras da navegação de cabotagem, destrincham em detalhes os cálculos do fator previdenciário ou se exaltam por causa dos metros cúbicos do Rio São Francisco em vias de transposição.

No caso da reforma tributária é impossível dispensar um entendimento ainda que simplificado, resumido a vantagens e desvantagens em jogo, dado tratar-se do bolso do contribuinte.

Mas, sobre o assunto a que de repente o governo resolveu dar caráter de urgência urgentíssima depois de seis anos de plácida indiferença, de concreto só se depreende que tem política eleitoral no meio.

As explicações ficam por conta do Bonifácio.

São Paulo é contra porque, argumenta a equipe do governador José Serra, o diabo mora nos detalhes da proposta. Minas Gerais aceita, desde que sejam feitos “ajustes”, o governo reúne governadores do Norte, Nordeste e Centro-Oeste para “isolar” São Paulo, mas ninguém sabe exatamente para quê.

Nem o presidente Luiz Inácio da Silva, que reúne sua coordenação política e pede a aprovação o “mais rápido possível” porque seria um “sinal importante para a economia”. Serviria, no dizer do ministro da Articulação Política, José Múcio, para combater a “síndrome da crise”.

Não há acordo mínimo em torno de coisa alguma por parte dos governadores, dos parlamentares, dos setores produtivos, cada um defende um naco de uma sigla dentre as inúmeras incompreensíveis, mas a prioridade, passou a insistir o governo, é total. É preciso aprovar o “texto-base” ainda este ano, deixar os “pontos polêmicos” para depois, fazer alguma coisa, como diz o ministro da Fazenda, Guido Mantega, “o quanto antes”.

Uma discussão riquíssima em adjetivos e conceitos vagos, vontades prementes, mas paupérrima em termos de conteúdo.

Objetivamente: qual efeito terá a aprovação do “texto-base” - vale dizer, a proposta assinada pelo relator Antônio Palocci - de qualquer maneira em 2008 se os pontos polêmicos alteram todo o conteúdo? Ademais, que urgência se impõe neste momento que já não tenha se imposto há muito tempo sem que merecesse tal grau de aflição e empenho?

Segundo o presidente Lula, exatamente o fato de a polêmica se estender há muito tempo. Mais não diz sobre sua disposição para organizar e arbitrar os contraditórios. Apenas reclama dos “óbices” criados pelos adversários e os acusa de defender a reforma só “da boca para fora”.

Não obstante ser este o único modo conhecido de expressão audível, o governo é dos primeiros a falar muito e fazer nada em prol da reforma tributária. Deixa o assunto caminhando à deriva, não articula possibilidades, faz de conta que não vê as dificuldades e, quando o interesse político se impõe, alega ter feito a sua parte e cobra os votos da maioria.

A reforma que será votada não importa, desde que seja aprovada. Para dar ao presidente Lula, e também ao relator Antônio Palocci em seu processo de reabilitação, a autoria para efeito de registro histórico.

O objetivo, portanto, é a conquista da chancela. Tal como já ocorreu com a reforma da Previdência no setor público. Votada na base do “texto-base” no primeiro mandato, está até hoje incompleta, mas consta no portfólio de reformas aprovadas pelo governo Lula.

Uma proposta de reforma tributária aprovada sem eixo, sem efeitos conhecidos sobre o desembolso geral, cheia de atalhos e agrados setoriais, desprovida de uma lógica que sirva de base para uma explicação com começo, meio e fim sobre seu significado, resulta em nada sob o aspecto substantivo.

Pode até ter um tênue presente, mas desmancha em seguida.

Se ninguém se acerta agora, se o governo não se dispõe a dirimir atritos por receio de desgaste político, não será em 2009, muito menos em 2010 que haverá possibilidade de o entendimento entre as forças políticas transformar o “texto-base” numa genuína reorganização do sistema de tributos.

A peça publicitária, porém, está garantida. Para todos os efeitos, consta que o governo mandou sua proposta, assim como fará em breve com a reforma política. Se não completou o serviço, culpa do Congresso, o irresponsável de plantão.

Ou mais especificamente da oposição que, com sua vastíssima maioria, paralisa os movimentos dos 15 partidos da aliança governista, neutraliza os 80% de popularidade do presidente da República, anula o poder indutor de um governo, enfim, como se sabe, não deixa o homem trabalhar.

A porta principal


Nas Entrelinhas :: Luiz Carlos Azedo
DEU NO CORREIO BRAZILIENSE


O diabo no meio do redemoinho, porém, é a proposta de acabar com a reeleição e aumentar todos os mandatos para cinco anos, com exceção dos do Senado, que seriam reduzidos

Por mais que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva esbraveje contra os agourentos da crise, os fatos são teimosos: a realidade mudou. De um lado, a crise mundial já provocou recessão nos Estados Unidos, Itália, Alemanha e Japão, entre outros países, e as nossas indústrias estão com atividade reduzida, algumas até parando. De outro, começou a contagem regressiva para a sucessão presidencial de 2010 e todas as ações políticas miram esse objetivo, o que acaba por absorver a energia do próprio governo federal. Manda o bom senso, portanto, fazer o possível e esquecer os projetos mirabolantes.

Final da linha

Nos últimos 18 anos, o Brasil transitou do modelo autárquico de substituição das importações para o projeto de integração à economia globalizada. Esse processo foi iniciado pelo presidente Collor de Mello, com a abertura para as importações, e avançou durante os governos FHC e Lula. Com o Plano Real, o presidente Fernando Henrique Cardoso aproveitou a poupança externa e o estímulo fiscal para estabilizar a moeda. Mas capotou na crise cambial de 1999, quando o estímulo fiscal chegou ao limite, pressionando a taxa de juros e a carga tributária. O governo Lula deu seqüência ao mesmo projeto de integração, na base do “mais do mesmo”: juros altos, câmbio flutuante e superávit fiscal. Graças à grande liquidez global e à elevação dos preços das commodities agrícolas e minerais, usou a poupança externa para ampliar o mercado interno. Crédito direto, gastos públicos, crescimento da massa salarial e programas sociais como o Bolsa Família garantiram o sucesso da empreitada.

Agora, o tempo fechou. Acabou o crédito mundial abundante, as taxas de juros do mercado internacional estão subindo. A partir dos Estados Unidos, instalou-se uma crise financeira nos países desenvolvidos que atinge a periferia emergente. China, Rússia, Índia e Brasil, em diferentes escalas, estão sentindo o tranco. Pior: a China replica para o Brasil e outros países o impacto que sofre com a redução do consumo nos Estados Unidos. O setor siderúrgico brasileiro, por exemplo, está em retração. A crise mundial será longa; não estamos fora disso.

Nova agenda

A taxa de crescimento do PIB brasileiro, que está prevista para 5,2% este ano, deverá cair a 2% em 2009, apesar da retórica oficial otimista de que cresceremos 4%. O governo Lula enfrenta a borrasca. Mas ela é como a chuva em Santa Catarina, não tem dó nem piedade. É maior do que as medidas anticrise adotadas. Não só aqui, é maior no mundo inteiro. Alavancado pela liquidez internacional, com elevadas taxas de juros domésticas, o nosso atual modelo econômico não é capaz de viabilizar os investimentos e o consumo. O Brasil precisa reinventar sua economia; o governo Lula não tem tempo para isso.

A crise mudou o eixo do debate político. A aposta do governo Lula para consolidar a hegemonia do bloco PT-PMDB e eleger seu sucessor é o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), um misto de fomento da atividade produtiva e plataforma eleitoral. O objetivo é consolidar a candidatura da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff. Esse esquema funcionou com sucesso no primeiro turno das eleições municipais. No segundo turno, engasgou. Pode ser a salvação da lavoura para enfrentar a crise, mas já não exerce o mesmo fascínio de antes junto aos aliados. Apenas empata o jogo.

Entretanto, o governo desengavetou duas reformas. Uma é a tributária, que especialistas consideram temerária por causa crise, mas que possibilita a construção de um discurso contra o “Sul Maravilha”, principalmente São Paulo. O risco desse embate no Congresso é consolidar um conflito entre os estados meridionais e o resto do país, divisão com raízes históricas, que a União sempre combateu, mas agora quer alimentar. A outra é a política, cujas intenções são obscuras.

Aparentemente, o fim das coligações e a janela para o troca-troca partidário abririam caminho para consolidação de dois blocos partidários, um governista e outro de oposição. O diabo no meio do redemoinho, porém, é a proposta de acabar com a reeleição e aumentar todos os mandatos para cinco anos, com exceção dos do Senado, que seriam reduzidos. É uma espécie de saída pela porta dos fundos. A porta da frente é discutir tudo isso e o novo modelo econômico na campanha eleitoral de 2010, sem mudar as regras do jogo.

O jogo do governo vai recomeçar do zero


Villas-Bôas Corrêa
DEU NO JORNAL DO BRASIL


Talvez não seja o melhor momento para uma primeira e cautelosa tentativa de avaliação das repercussões políticas da calamidade que assola Santa Catarina e castiga o Espírito Santo e o estado do Rio, quando as abnegadas equipes de socorro ainda buscam encontrar dezenas de pessoas desaparecidas e os milhares de desabrigados que perderam tudo e não sabem como emendar o fio da vida.

Mas, acredito que seja preferível trincar os dentes e avançar do que esconder o rosto para não enxergar a realidade. É de uma evidência transparente que o presidente Lula terá que rever todo o seu esquema tático de campanha, centrado na prioridade assumida e confirmada da eleição da ministra Dilma Rousseff para sua sucessora nas urnas de 2010.

Além da antecipação que agora se revela como temerária, o presidente terá de rever datas e táticas, e recomeçar abaixo do zero. Com as obras de reconstrução de uma imensa e próspera faixa do nosso território, o Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC, talismã da candidata oficiosa, passa a segundo plano. Ou, na mais lisonjeira das hipóteses, dividirá a prioridade com uma enxuta listagem de obras de absoluta e indiscutível urgência.

Mas, o mutirão que desafia o governo é de intimidar o maior ministério da gastança de todos os tempos, com exageros que raspam na leviandade. Os 37 ministros, em sua maioria, são tão desconhecidos da população como o que fazem. O que se sabe por alto é o custo exorbitante do monstrengo, que poderia ser reduzido à metade.

Quando o National Bureau of Economic Research, com o seu aparato técnico, anuncia aos quatro cantos que a recessão nos Estados Unidos já vem se arrastando por meses, com a produção desacelerada, o crescimento dos índices de desemprego e a estagnação dos salários, o silvo de alarme dá a volta ao mundo.

Na mídia, todos os dias a cota de advertência cutuca os desatentos. Inútil querer jogar para a platéia com a bola quadrada.

A buraqueira no cronograma de obra do PAC, em Santa Catarina, vai exigir, tão logo soe a hora de refazer as contas, não apenas créditos milionários para o reparo do que as enchentes levaram de água abaixo, mas a retomada do cronograma do PAC, com os seus reajustes. Durante todo o mês de novembro, em Florianópolis, Vale do Itajaí, Blumenau e amplas áreas da região, além do socorro às vítimas, com a ajuda do movimento de solidariedade que mobilizou o país, o balanço das obras destruídas dobra o desafio para o mutirão que, na primeira etapa, apenas cuidará de recompor o que estava em obras e virou monturo.

Durante o ano, os tratores ficaram 100 dias parados nos atoleiros das rodovias estaduais. Em reverência à verdade, o Departamento de Nacional de Infra-Estrutura de Transporte (Dnit-SC) torna pública a sua frustração: a meta de fechar o ano com 70% das obras do PAC concluídas encolheu para 50%.

E o governo, sentindo a ardência do risco de uma degringolada nos índices recordistas de popularidade do presidente Lula, abre o cofre, que não é hora de pensar em economia. Até onde a vista alcança, novos cenários ampliam o horror da tragédia. Os portos de Itajaí e Navegantes, responsáveis por 4% das exportações brasileiras, somam perdas no total de US$ 370 milhões, no ritmo de US$ 31 milhões por dia.

O governo está perdido, ou zonzo, frente a um quadro que se desmancha diante de seus olhos, como se a tinta escorresse pela tela.

E não há como remendar os rombos antes que a normalidade seja restaurada.

Um pulso firme, de braço amigo


Rosângela Bittar
DEU NO VALOR ECONÔMICO

A receita já existe há meses e vem sendo transmitida boca a boca, sem formalidades inúteis. Primeiro, tem que ser alguém muito ligado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, isto é uma necessidade e uma exigência; o escolhido tem que possuir autoridade política e liderança partidária; é preciso ser um quadro com capacidade para conduzir alianças, no plano nacional e nos Estados. Com estas características, o indicado terá que ter força para aproximar o presidente da República e o partido. Assim, ficará viabilizada, sem maiores riscos, a sucessão, e garantidas as conquistas do governo.

Este é o perfil declarado do futuro presidente do PT, definido pelos próprios dirigentes partidários e assessores do presidente, com negociações em estágio avançado. O nome que pode a ele se amoldar, no entanto, não está oficialmente confirmado, embora seja unânime a conclusão de que só há um: Gilberto Carvalho, chefe do gabinete do presidente da República.

Numa ala do partido, informa-se que Lula vetou a saída de Gilberto alegando que ele está muito bem no Palácio e é melhor procurarem outro candidato. É verdade, disse mesmo. Outras opiniões abalizadas, porém, avaliam que o presidente sabe que não há outro nome e está vendendo caro o passe de seu mais próximo auxiliar. Vender caro significa que quer unanimidade e facilidade para o trabalho de quem vai presidir o partido na sucessão presidencial. E, mais perto da eleição, para não haver desgastes desnecessários desde hoje, vai ceder.

O sucessor indicado por Lula até este momento, a ministra Dilma Rousseff, da Casa Civil, tem que ser preparada interna e externamente. Dilma existe menos no PT do que nacionalmente, onde as pesquisas já lhe dão de 8 a 10% de conhecimento e apoio. Será do presidente do PT, a partir de determinado momento do processo, a tarefa de aproximá-la mais do partido, sobretudo das bases, que Lula comanda apenas com o discurso mas esta é uma habilidade que ninguém mais consegue reproduzir. Ao mesmo tempo em que prepara o candidato, o dirigente petista terá a função de organizar o partido, fortalecê-lo para não perder tudo o que considera haver conquistado nos dois mandatos presidenciais.

Neste aspecto a crise econômica atual é considerada um fator importante na definição de rumos. Acredita os petistas que se o governo conseguir gerir bem a crise, não deixar que tenha impactos sobre três pilares que considera características de suas gestões - emprego, baixa inflação e distribuição de renda - manterá retraídos os problemas maiores. Se houver, porém, influência da crise e o PT começar a ter medo de perder a eleição, desesperar-se com a proximidade da desocupação da máquina, o futuro será cada vez mais uma incógnita.

O novo presidente terá que ser capaz, também, de não deixar o processo de eleição direta, mesmo com uma base que Lula ainda consegue comandar, transformar-se numa guerra interna a estraçalhar a coesão do partido, que o presidente considera fundamental para ter êxito na disputa.

Isto não significa que estão proibidas as prévias para escolha do candidato à sucessão, sempre um fator de tensão. Mas as expectativas têm que estar sob o controle de Lula. Assim, o nome do momento é Dilma, que o presidente do PT terá que fazer passar sem traumas pelas instâncias do partido. Se, em outro momento mais à frente, for o de Antonio Palocci, por exemplo, - que pode ser deslocado do quadro de candidatos ao governo de São Paulo caso a crise econômica se agrave - o presidente do PT, sendo muito ligado a Lula, terá papel fundamental na mudança para o nome de quem pode levar o Brasil ao porto seguro.

Há, ainda, a nunca esquecida hipótese de ter o PT que transformar o trabalho em torno de um sucessor para, objetivamente, tornar viável o terceiro mandato para o próprio Lula.

Em diferentes alas partidárias colhe-se a opinião de que Gilberto Carvalho é mesmo a opção certa para qualquer destas tarefas. Marco Aurélio Garcia, assessor do presidente em assuntos de política externa, assumiu a presidência do PT na crise do dossiê armado pelo partido contra adversários políticos, foi considerado independente demais, cheio de idéias próprias, costurou pessoalmente o acordo com o PMDB que resultou na eleição de Arlindo Chinaglia para a presidência da Câmara, e voltou ao governo queimado entre os petistas.

O atual presidente, Ricardo Berzoini, não teria a menor condição para permanecer no cargo, já não é tão próximo a Lula e não lidera o partido, muito menos detém as condições necessárias para negociar alianças.

Na Presidência da República, gozando da confiança de Lula e com boa base no PT, há o secretário geral Luiz Dulci, que criou para si, porém, arestas em alas partidárias inteiras a partir das últimas eleições municipais. Tal como ocorreu com o petista Tarso Genro, ministro da Justiça, que já se incompatibilizara antes mesmo das últimas eleições. O atual secretário geral do partido, José Eduardo Cardozo, citado entre os presidenciáveis do partido, ainda é visto como alguém não totalmente absorvido internamente, depois de ter, nas avaliações internas, feito um discurso para o público externo nas crises éticas atravessadas pelo partido.

Nos últimos meses, têm aparecido com maior nitidez os movimentos do ex-ministro e ex-presidente do PT, José Dirceu, para voltar à cena partidária. Artífice das candidaturas Lula e das alianças partidárias que sustentaram os dois mandatos petistas na Presidência da República, Dirceu não tem perdido uma só oportunidade para se manifestar, por meios legalmente ainda à sua disposição, hoje, sobre todos os assuntos nacionais e partidários. Pode conseguir, até o processo de eleições diretas, resgatar seu espaço, mas ainda não conseguiu.

Um eleição sem José Dirceu e sem Lula é um desafio imenso para o PT, que tem a responsabilidade de apresentar seu projeto renovado. Não pode ser menos do que acredita estar fazendo, nem pode apresentar-se com resquícios oposicionistas que ainda o acompanharam nas últimas campanhas eleitorais.

Rosângela Bittar é chefe da Redação, em Brasília. Escreve às quartas-feiras

Uma empulhação no Congresso


Fernando Rodrigues
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


BRASÍLIA - O modismo agora no Congresso é a tese da "coincidência de mandatos". Trata-se de unificar as eleições de todos os cargos eletivos do país: vereador, prefeito, deputados, governador, senador e presidente. Os mandatos passariam a ter cinco anos, sem reeleição para os postos executivos.

O Brasil adotou os quatro anos de mandato com chance de uma reeleição só a partir do pleito de 1998. Dez anos são insuficientes para determinar se o modelo é bom ou ruim. Mudar agora só confirmaria a obsessão nacional pela constante alteração nas regras -contrariando o slogan lulista segundo o qual o brasileiro não desiste nunca.

Adversários do modelo sempre sacam do coldre o sofisma sobre a alta taxa de reeleição entre os prefeitos e governadores que disputam no cargo um segundo mandato. Mas essa é a lógica do sistema. O ciclo político é de mandatos com oito anos com uma espécie de mata-burros no meio. Administradores rejeitados ficam pela estrada.

Marta Suplicy que o diga.

A tese a favor da coincidência de mandatos pode ser resumida em dois pontos: 1) o Brasil pára a cada dois anos, por que as eleições de prefeitos e de vereadores são separadas das outras, e 2) custa muito caro fazer tantas eleições.

Primeiro, o Brasil não pára em ano de eleições. Mais de 5.500 prefeitos foram eleitos em outubro.

Nenhuma cidade entrou em colapso por causa das campanhas. Sobre o custo das eleições, o valor é bem menor do que a soma das emendas ao Orçamento apresentadas por deputados e senadores.

Em democracias desenvolvidas, quanto mais se vota, melhor. Na cabeça de muitos no Congresso, o raciocínio é o oposto. Querem os eleitores votando menos. Suas excelências seguem em marcha batida para consolidar aquela triste máxima: toda vez que um deputado tem uma idéia, o Brasil piora.

Visão democrática


Merval Pereira
DEU EM O GLOBO


NOVA YORK. A mudança de estratégia da política externa do futuro governo americano, explicitada pelo próprio presidente eleito, Barack Obama - que pretende espalhar "ideais que brilham como farol para o mundo: democracia e justiça; oportunidade e uma inabalável esperança, valores americanos que são nossos melhores produtos de exportação" -, vai dar prioridade à ajuda para o desenvolvimento de países aliados que tenham instituições democráticas fragilizadas pela pobreza e são presas fáceis de grupos delinqüentes, sejam terroristas ou traficantes de drogas e armas.

Também nos países em que os Estados Unidos travam guerras, como o Iraque e o Afeganistão, as ações militares serão acompanhadas de ações sociais e institucionais, para criar um ambiente em que seja possível prosperar a democracia. O colunista do "New York Times" David Brooks revelou ontem que essa nova estratégia responde a um sentimento generalizado entre as tropas americanas naqueles dois países, cujas impressões do campo de batalha transformaram-se em documentos de ampla circulação nos meios militares.

A conclusão é que não adianta ter poder militar para aniquilar o inimigo se o país não tem estruturas sociais e institucionais que o façam prosseguir sozinho. Países frágeis e falidos se tornariam refúgios para todo tipo de atividade ilegal. O secretário de Defesa Robert Gates teria sido mantido no cargo por causa da sua adesão anterior a esses conceitos, que tiveram em Barack Obama a melhor acolhida.

A imposição da democracia pela força seria uma tentativa inócua, mas criar condições sociais e institucionais para que a democracia floresça nesses países ameaçados seria uma maneira inteligente de combater os adversários da democracia. Não se fala em espalhar a democracia pelo mundo, como na gestão Bush, mas em dar condições aos governos ameaçados de fortalecer suas instituições e criar um ambiente de responsabilidade no serviço público.

É previsível que diversas agências americanas estarão trabalhando em conjunto nessa nova fase da diplomacia americana e, ao contrário do que acontecia ultimamente por receio de infiltração de terroristas, o governo Obama deve estimular a ampliação de intercâmbios universitários através do mundo.

Com relação à Colômbia, onde o governo Bush investiu muitos milhões de dólares num programa de combate à produção de cocaína que não teve efeito direto na contenção da droga, mas está sendo exitoso na parte de segurança interna e no combate à guerrilha, é provável que a nova administração mude seu foco, passando a ações mais construtivas na parte institucional e reduzindo o aspecto militar do projeto. Mesmo porque o presidente eleito já levantou muitas dúvidas com relação à violação dos direitos humanos no combate ao terrorismo na Colômbia.

Essa estratégia de reforçar os aspectos institucionais no combate ao terror tem tudo a ver com a guerra ao tráfico de drogas em países como o Brasil, e às gangues que dominavam as favelas do Haiti. A atuação das tropas americanas no Haiti foi desastrosa, deixando muito mais ressentimentos no país do que resultados positivos pela violência e truculência da ação. O Brasil assumiu o comando da Força de Paz a pedido dos Estados Unidos, e utilizou a estratégia de passar a prestar serviços básicos à população, depois de dominar as partes de Porto Príncipe que estavam controladas por gangues, o que foi fundamental para o êxito da força internacional de paz.

A primeira região a ser controlada foi a de Bel-Air, no centro da cidade, onde está o palácio governamental; em seguida veio o controle de Cité Militaire, e depois a maior favela do país, Cité Soleil, onde vivem cerca de 300 mil pessoas. A ação do Exército brasileiro no Haiti é considerada inovadora no campo militar, o desenvolvimento de uma nova doutrina de emprego das forças militares, que poderia perfeitamente ser utilizada no combate às quadrilhas de drogas que ocupam os morros do Rio de Janeiro.

O anúncio do governo Sérgio Cabral de que o tráfico foi enxotado do Morro Dona Marta, em Botafogo, e que o governo do estado ocupará o local não apenas com soldados, mas com ações comunitárias, segue o mesmo objetivo, de combinar a ação militar com o fortalecimento das instituições do Estado, seja ele nacional ou local, para permitir que a sociedade receba os benefícios de um governo democrático, com acesso aos serviços públicos fundamentais, como saúde e educação.

Não foi à toa que o presidente eleito Barack Obama, ao apresentar sua equipe de segurança nacional, ressaltou que, para ser forte no exterior, os Estados Unidos têm que ser fortes internamente, reforçando seu sistema de educação e as oportunidades iguais a todos.

Laicismo em doses diárias


Alberto Dines
DEU NO OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA


Enquanto os leitores mais exigentes são obrigados a contentar-se com a caricatura do jornalismo americano oferecida às segundas-feiras no caderno do New York Times encartado na Folha de S.Paulo, o diário espanhol El País oferece todos os dias, por 8 reais, um show de bom jornalismo, inteligência e informação privilegiada (e sem infográficos, professor Di Franco!).

Enquanto nos bastidores trava uma guerra contra a influência da Opus Dei na mídia espanhola e ibero-americana, El País vem acompanhando com muita seriedade o despertar do laicismo na sociedade européia.

No domingo (30/11, na página 30 inteira e com destaque na capa), o jornal entrevistou o pai da aluna da escola pública em Valladolid que venceu a demanda judicial e obrigou a direção do estabelecimento a retirar os símbolos religiosos dos locais públicos. Fernando Pastor, porta-voz da Associación Escuela Laica agora denuncia as represálias contra sua filha: "Ahora insultan a mi hija en clase. No sé se aguantaré".

Dia seguinte, segunda (1/12), com duas páginas (e chamada na capa), o jornal madrileno investe contra a exibição de crucifixos nos espaços públicos dos governos e revela as sucessivas vitórias da sociedade civil espanhola para garantir o caráter não-confessional do Estado. O último feito é atribuído aos jovens casais que exigem a retirada do crucifixo em ambientes onde se celebram casamentos civis.

Na mesma edição, um editorial sereno e firme ("Aulas sin crucifijo", página 26) elogia o governo Zapatero por não converter a questão num conflito político. Basta que respeite a lei.

Secularização vs. Fanatismo

A secularização da Espanha é um fato novo e contrasta vivamente com uma história de fanatismo religioso e brutalidade. A Espanha institucionalizou a Inquisição no século 15 e a transformou num aparelho policial; promoveu pogroms contra judeus e mouros antes mesmo da expulsão de 1492; criou duas poderosas ordens religiosas opostas, porém com enorme penetração mundial (a Companhia de Jesus e a Opus Dei); e, como se não bastasse, a Igreja espanhola foi um dos baluartes do franquismo. E também vítima da paranóia de grupos extremistas republicanos.

Antonio Hernández Gil, o jurista que em 1977 mandou tirar o crucifixo da sala das Cortes, era profundamente católico. Teve a grandeza para perceber os perigos de um Estado confessional. Sabia que religião misturada à política inevitavelmente acaba em banho de sangue.

A chacina de Mumbai mostra que tinha razão.

O fantasma das rebeliões

José Luís Fiori
DEU NO VALOR ECONÔMICO


"O mais provável é que voltem à ordem do dia as revoltas e revoluções sociais. Elas não serão socialistas nem proletárias, mas adquirirão maior intensidade e violência nos territórios situados em "zonas de fratura"." - José Luís Fiori, Valor Econômico, 5/11/2008

Não existe uma teoria da revolução, existem várias. Mas quase todas reconhecem a existência de um denominador comum, na experiência revolucionária dos séculos XIX e XX: as revoltas acontecem - quase sempre - em sociedades fraturadas, com Estados enfraquecidos pelas guerras e por grandes crises econômicas, e situados em "zonas de fratura", onde se concentra a pressão geopolítica da disputa entre as grandes potências. É nestes territórios, que costumam nascer e multiplicar as rebeliões mais importantes e resistentes, que são sempre violentas, mas não tem homogeneidade ideológica e não produzem grandes mudanças estruturais imediatas, como costuma acontecer no caso das revoluções sociais e políticas bem sucedidas. Pois bem, se esta tese for correta, não é difícil de prever o novo mapa mundial das rebeliões, deste início do século XXI. Basta seguir os passos da competição geopolítica e econômica das grandes potências, depois do fim da Guerra Fria, e localizar os seus pontos de maior pressão competitiva, onde estas potências exercem de forma mais direta sua capacidade de dividir e mobilizar as forças locais, umas contra as outras, dentro dos Estados situados nestes "tabuleiros geopolíticos" mais disputados. Alguns destes pontos são mais visíveis, e de explosividade imediata, outros, são menos visíveis, e de combustão mais lenta

Tudo começa em 1991, com a desintegração da União Soviética e a entrada das forças da Otan ou dos EUA, na Europa Central, nos Bálcãs, no Cáucaso e na Ásia Central, onde se situa, neste momento, a região mundial de maior complexidade geopolítica, envolvendo os territórios do Afeganistão, Paquistão, norte da Índia, Caxemira e Tibete. Não há nenhuma grande potência que não esteja envolvida em alguma destas áreas, e nas disputas em última instância, pelo controle desta extensa região, utilizando ou incentivando grupos e organizações locais de todo tipo, numa sucessão de revoltas, rebeliões, atentados terroristas e guerras civis que não têm como parar, a menos de um acordo multilateral improvável, ou de uma retirada de todas as grandes potências envolvidas. Mas a retirada é rigorosamente impossível, do ponto de vista da lógica do sistema e dos interesses e posições que já foram ocupadas pelos participantes deste neste novo "grande jogo". Alfred Mackinder e Nicholas Spykman - os dois maiores teóricos geopolíticos anglo-americanos - definiram esta faixa de terra que vai do Báltico até a China como uma fronteira decisiva para o controle do poder mundial, situada entre as "potências marítimas" e as "grandes potências terrestres", ou seja, entre a Grã-Bretanha e os Estados Unidos, de um lado, e do outro, sobretudo, a Rússia e a China.

Logo em seguida, neste "mapa da pólvora", aparece a África Negra. Depois de 2001, os EUA mudaram sua política externa e aumentaram sua presença no continente africano. Mas esta mudança de posição não foi um fenômeno isolado. Foi seguida pela União Européia, Rússia, China, Índia e também pelo Brasil. Em poucos anos, o cenário africano mudou: aumentou a competição imperialista e, como nos séculos anteriores, as potências e suas grandes empresas utilizam a seu favor e muitas vezes incentivam as lutas tribais e as guerras locais entre os Estados que nasceram da decomposição dos seus próprios impérios coloniais. Neste momento, já estão em curso rebeliões e guerras civis no Congo, na Somália, no Zimbábue e na Nigéria, com participação de países e empresas de fora da África, e com o envolvimento direto de Angola, Ruanda, Namíbia e Burundi. Também neste caso não há perspectiva de acordo local ou de retirada das grandes potências, e o mais provável é que a África se transforme - uma vez mais - em território privilegiado da corrida imperialista e num verdadeiro "semilheiro" de rebeliões, de todo tipo.

E o que se pode prever com relação à América do Sul? Durante os séculos XIX e XX, foi uma região de influência anglo-americana, sem grandes disputas imperialistas. Mas neste início do século XXI, o cenário e as perspectivas mudaram. De forma lenta, mas implacável, a pressão da nova corrida imperialista que começou na década de 90 está alcançando a América do Sul, e deve produzir os mesmo efeitos do resto do mundo. Já fazem parte deste processo o envolvimento militar americano com a Colômbia, a reativação da IV Frota Naval dos EUA para o Atlântico Sul, a intensificação dos conflitos fronteiriços entre Venezuela, Colômbia e Equador, e os conflitos internos da Bolívia e da própria Colômbia. Mas também: a criação da Unasul e do Conselho de Defesa da América do Sul, e todos os projetos políticos e econômicos de integração regional assim como os grandes projetos de integração comercial e de investimento produtivo na região, da UE, da China, da Rússia, e demais países de fora do continente. Tudo indica que a América do Sul foi incorporada e não tem mais como escapar da pressão competitiva mundial, produzindo uma maior integração do continente, mas também uma maior disputa entre os seus Estados e, em particular, entre o Brasil e os Estados Unidos. Nesta mesma direção, algumas áreas da América do Sul também devem se transformar em "zonas de fratura" internacional, e aí podem surgir conflitos e rebeliões que envolvam as grandes potências e as empresas que competem pelo controle da região. No caso das regiões de maior densidade indígena, nos próximos anos, estas rebeliões tenderão a ser de direita, brancas e racistas.

Finalmente, sobre este pano de fundo de deve e pode calcular o impacto da nova crise econômica mundial. Será prolongado e deverá atingir todas estas "zonas de fratura", acentuando suas tendências mais perversas. Por isto, neste momento, apesar de que se fale muito de economia, existe um outro fantasma que ronda o mundo e assusta mais os seus dirigentes: o fantasma das rebeliões.

José Luís Fiori é professor titular do Instituto de Economia da UFRJ e autor do livro "O Poder Global e a Nova Geopolítica das Nações" (Editora Boitempo, 2007). Escreve mensalmente às quartas-feiras.

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil
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terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Apresentação


Luiz Sérgio Henriques
Editor do site Gramsci e o Brasil
Texto de apresentação da revista Política Democrática, nº 22

Q presente número da Política Democrática, justamente por se concentrar na comemoração dos vinte anos da Carta Magna de 1988 e por manter sua discussão quase permanente sobre a história, limites é possibilidades da! esquerda brasileira, é particularmente relevante para o leitor atento, seja qual for o ponto do espectro político em que estiver.

A Constituição de 1988, por exemplo, é aqui vista de ângulos diversos e até freqüentemente opostos. A partir do depoimento de Roberto Freire, um dos protagonistas do processo constituinte, desenrola-se uma série de textos e avaliações de uma Carta que, de fato, está na base do mais longo período de vida democrática da história moderna do pais. O próprio Freire examina dilemas daquela época que nos acompanham até hoje, como um grande desequilíbrio de poderes, em favor do “presidencialismo imperial” e em detrimento do Congresso, a casa por excelência da democracia; o tratamento insuficiente dos problemas do Judiciário; os impasses relativos à anistia; e a condução da reforma agrária. Em muitos desses casos, formulações constitucionais excessivamente analíticas, ainda que de caráter progressista,: contribuíram para retardar a aplicação prática das medidas de reforma, contrariando a boa intenção de constituintes, inclusive os de esquerda.

De todo modo, está claro que o documento de 1988 marca a retomada vigorosa da construção de uma «era de direitos” no pais, embora, ao longo dos anos noventa, reformas liberais tenham incidido sobre o texto no âmbito da rediscussão do papel do Estado e do mercado, tão própria daquela década. Que balanço fazer dos anos de reforma liberal que, a rigor, começou com Collor e, grosso modo, não parou mais desde então, na falta de inflexões mais visíveis rumo a um desenvolvimentismo de novo tipo? Como entender as sucessivas emendas sofridas pela Carta cidadã? Tratou-se de um aggiornamento necessário, tendo em vista a intensa transformação pela qual passavam a economia e a sociedade em nível planetário, ou, ao contrário, significaram perda generalizada de direitos e inserção subalterna nas engrenagens do capitalismo globalizado?
:
Eram uma decorrência de excessos discursivos, que engessavam a ação ordinária dos governos, ou, como afirma Marcelo Cerqueira, chegaram perigosamente a ameaçar “bens públicos, constitucionalmente indisponíveis”, como ás florestas e os rios?

São discussões que ainda hoje animam o debate público, e pessoalmente considero difícil deixar de pensar que todo este tempo, desde 1988, combinou substanciais ganhos democráticos que, aos poucos, vão se enraizando capilarmente na nossa sociedade, com a persistente “crise do desenvolvimento nacional”, que taxas relativamente altas nestes anos mais recentes encobriram, mas não resolveram com firmeza. Discutem-se assim na sociedade os resultados do jogo que, muitas vezes, não são bons, mas, querendo ou não., raramente se põe em questão o essencial, que é. a manutenção da regra democrática, a adesão mais ou n generalizada aos princípios do Estado democrático de Direito. Eventuais quebras das regras do jogo, como a manobra da reeleição em meados dos anos 1990 em beneficio, do governante no poder, ou, mais recentemente, indecentes sugestões de terceiro mandato, têm encontrado. quase’ unânime condenação, ainda que, no primeiro caso, isto só seja possível.retrospectivamente. Não é pouco, num país de vida constitucional conturbada como a nossa.

Um outro eixo importante de discussão aqui presente é a questão da esquerda e dos desafios da sua renovação. Em tempos de crise aguda dos mercados globais cujo paralelo mais evidente é 1929 e a década trágica que, se seguiu, até desembocar no flagelo da Segunda Guerra, é bom ter presente a necessidade de uma esquerda de novo tipo, radicalmente democrática, que.não se deixe: desencaminhar pelo “grave equívoco (de) pensar que o que está ocorrendo hoje é o fim da idéia do capitalismo” (Fréire).

Neste mesmo sentido, Alberto Aggio lança a discussão de um novo reformismo, recuperando semanticamente uma ‘palavra que costumava: cair como chumbo sobre os militantes do velho Partidão, supostamente desqualificando sua opção pela luta legal contra o regime militar. O que se propõe, a respeito, é a ruptura com o padrão bolchevíque / soviético e o cubano / guerrilheiro, ambos conformadores da esquerda brasileira e ambos, flagrantemente insuficientes para compreender nossa realidade e nela agir, introduzindo reformas incisivas, concretas - se não consensuais, pelo menos amplamente majoritárias, apontando para níveis-mais altos de progresso e civilização.

Temos de admitir que o ato de nascimento deste reformismo forte, adepto incondicional da democracia política como o terreno mais favorável para.a luta dos setores “de baixo”, ainda não se deu, nem mesmo como visão geral ‘ou estilo de fazer política aceito pelas forças da esquerda brasileira, na variedade das suas manifestações. E, diga-se de passagem, as dificuldades do PT em relação á Carta de 1988, contra a qual votou ë que assinou, apenas protocolarmente, tais dificuldades são muito ilustrativas de um suposto radicalismo que mal encobre subalternidade e incapacidade de uma verdadeira direção do destino do país e das suas grandes escolhas.

O reformismo forte de que falamos supõe, evidentemente, a incorporação de outras matrizes e orientações além do marxismo, a assimilação de problemáticas novas, como, a da ecologia ou a da questão urbana, que adquirem uma feição antes inteiramente desconhecida e que também são tratadas em outros textos deste número.

A associação pode ser arbitrária, mas não resisto a lembrar que, certa vez, o poeta Caetano Veloso fustigou a selvageria do trânsito, dizendo que nós, motoristas brasileiros, insistimos pateticamente em perder os sinais verdes e avançar os vermelhos. É uma boa imagem para compreender a situação das esquerdas, enquanto não nascer e ganhar vigor este novo reformismo: continuaremos a ansiar por rupturas e revoluções, por ataques frontais ao palácio de poder, enquanto desperdiçamos o sinal escancaradamente aberto às mudanças que a vida em democracia proporciona.

UMA IDENTIDADE REFORMISTA PARA A ESQUERDA*


Alberto Aggio

Qual o significado, no mundo e no Brasil de hoje, de uma esquerda contemporânea, reformista e transformadora? A identidade da esquerda – algo que, a bem da verdade, sempre esteve em questão – é um tema em permanente debate e permanece aberto ao ingressarmos no século XXI. Como sabemos, o problema é intrincado e merece muito cuidado tanto na aproximação a ele quanto e no seu desenvolvimento. O que se quer aqui é organizar algumas idéias e um conjunto de argumentos com o intuído de contribuir para uma reflexão sem a qual ficará cada vez mais difícil agir no presente e projetar o futuro.

De início podemos anotar que, em sua integralidade, uma esquerda com esse perfil ainda não existe, não está abrigada em nenhum partido político e tampouco se encontra expressa oficialmente em governos ao redor do mundo – ainda que, em alguns países, possa se notar vivamente que um processo rumo a sua construção ganhe um curso expressivo (a despeito de todas as suas dificuldades). Assim, é forçoso reconhecer, antes de mais nada, que a afirmação de uma esquerda com esse perfil configura-se como uma criação política e cultural de grande envergadura. Mas ela não se inicia nem se desenvolve a partir do vazio. Em função da crise que hoje vive a esquerda, há uma necessidade imperiosa de que o percurso dessa criação revele capacidade para superar várias idéias que se afirmaram como identificadoras da esquerda ao longo da história – e que representaram verdadeiros desastres políticos – e, ao mesmo tempo, reafirmar outras tantas, às vezes equivocadamente desprezadas.

Como sabemos, “esquerda” é um conceito contextual e situacional. Ela se define em relação a uma direita e a um centro, ambos histórica e conjunturalmente determinados. Mesmo assim é possível rascunhar algumas referências ou valores da esquerda que permanecem como eixos da sua identidade política e cultural, a saber: (1) a defesa do bem-estar-social ao invés do bem-estar individual; (2) a valorização das responsabilidades coletivas; (3) a extensão da igualdade de oportunidades para todos; (4) a vigência de um Estado forte que seja capaz de corrigir as injustiças sociais por meio de uma ação distributivista da riqueza material produzida pela sociedade; e, por fim,(5) a perspectiva de uma mudança das estruturas de poder por meio da democratização e da participação política[1].

Além desses propósitos de caráter geral, que deram e ainda dão sustentação a uma prática política de esquerda, não há como negar que historicamente a perspectiva de conquista e exercício do poder por parte da esquerda deu a ela um sentido de finalidade que, regra geral, foi semantizado na palavra socialismo. E este, por sua vez, transformou-se no horizonte político e/ou utópico da esquerda. Da mesma forma, não há duvida de que, embora não integralmente identificáveis, os vínculos entre esquerda e socialismo são historicamente incontestáveis. O socialismo foi reconhecidamente um programa de mudança social e um movimento político que mobilizou milhões de pessoas no correr dos séculos XIX e XX.

As três últimas décadas do século XX produziram mudanças de tal ordem na estrutura do mundo que as bases de referência do socialismo ruíram integralmente: a estrutura produtiva foi alterada de maneira drástica, reduzindo muito a necessidade de mão-de-obra; um cenário pós-fordista foi se estabelecendo, ao mesmo tempo em que diminuíam a auto-organização coletiva, a vida associativa e diversas dimensões que davam sustentação ética à cultura política do socialismo. Para a esquerda e para o socialismo talvez essa mudança histórica tenha sido mais decisiva do que a própria queda da URSS e o colapso do chamado “socialismo real”.

Por outro lado, há que se incorporar definitivamente a idéia de que somente uma visão crítica da história do socialismo nos permitirá construir uma nova síntese para se pensar o futuro. Uma atitude profundamente crítica ao passado do socialismo nos ajuda a pensar que devemos, hoje, ir além dele. Não há como não reconhecer o fato de que hoje o socialismo não se configura mais como um programa de ação revolucionária tal como pretendeu ser ou, de fato, foi no correr dos séculos XIX e XX. De um ponto de vista cultural ou intelectual, o socialismo não se sustenta nem mais como uma tradição, hoje isolada e anquilosada no pensamento marxista. Resta a ele encontrar a melhor maneira de colher os frutos de uma necessária e real contaminação cultural que possa lhe alarguar os horizontes e impulsionar a afirmação de um novo reformismo, estratégia que poderá lhe dar um novo sentido histórico.

Entretanto, surpreendentemente, é possível recolher alguns elementos da história do socialismo que apontam para o caminho da sua superação. Por um lado, alguns historiadores do socialismo o criticam fortemente em razão de alguns equívocos em sua trajetória. Para esses estudiosos, o socialismo pecou profundamente na sua concepção de “homem novo”, foi fechado e estreito em relação à questão das mulheres, desconheceu rotundamente o tema da “fraternidade”, etc. Por outro lado, há elementos extremamente virtuosos nessa trajetória, De acordo com Giuseppe Vacca, presidente da Fundação Instituto Gramsci de Roma, os socialistas do inicio do século XX realizaram uma mudança de paradigma nas suas concepções que representou, para a época, uma verdadeira renovação da cultura política do socialismo. Essa mudança foi muitas vezes foi relegada a um segundo plano na interpretação mais geral da história do socialismo. Se refizermos essa trajetória, perceberemos que,

“desde os anos trinta do século XX, a distinção entre “reformistas” e “revolucionários” torna-se anacrônica. (...) a disputa sobre o “fim último” baseava-se num equívoco. A idéia da “superação do capitalismo” nascia da contraposição entre capitalismo e socialismo, que é histórica e conceitualmente infundada. Capitalismo e socialismo referem-se a dois planos diversos da realidade e não são comparáveis: o capitalismo é um modo de produção, o socialismo é um critério de regulação do desenvolvimento econômico, que, portanto, não se contrapõe ao primeiro, mas propõe-se orientá-lo” [2].

O resultado foi que “para superar este falso dilema, foi necessário elaborar o conceito de regulação, e, naturalmente, não estamos falando de elaboração puramente intelectual, mas de experiência histórica concreta”. Para Giuseppe Vacca esse é um marco histórico essencial que deve ser recuperado. É efetivamente o “ato de nascimento do reformismo: a crise dos anos trinta e a invenção de um ‘modo de regulação’ do desenvolvimento alternativo ao do velho liberalismo, que entra em colapso”[3].

Outra idéia a ser superada pela esquerda é a idéia de revolução como fiat da história. Para a esquerda do século XXI realmente se constituir numa esquerda contemporânea, reformista e transformadora é necessário superar a idéia e a representação da revolução como seu eixo e lugar simbólico. Esse pressuposto implica conceber a esquerda a partir de uma definição clara pelo ideário e pela política das reformas. Contudo, esta não é uma formulação muito clara no campo da esquerda real, isto é, no mundo dos homens e mulheres que se identificam com a esquerda. Não é difícil de se observar isso dentro de partidos como o PT, o PCdoB ou mesmo na recente trajetória dos comunistas brasileiros, do PCB para o PPS. A compreensão de que uma esquerda democrática e moderna é uma esquerda reformista é algo ainda não inteiramente assimilado. O sentido do reformismo como o núcleo da política de esquerda no Brasil é muito rarefeito ou praticamente inexistente.

Entendo que é precisamente esse o ponto ou a pista que se deve perseguir: organizarmos um debate a respeito dos sentidos do reformismo, de como construir uma esquerda de reformas no Brasil. Isto porque pensar uma esquerda de reformas na Europa Ocidental já é algo que se pode fazer a partir da revisão de uma história concreta. No Brasil e na América Latina é ainda um problema a ser definido, a ser pensado em inúmeras variáveis, inclusive na superação da condenação ao reformismo que marcou a geração de jovens desde os anos sessenta. Por outro lado, no caso brasileiro, especificamente, é preciso lembrar que até mesmo a palavra reforma foi capturada e se afastou do campo da esquerda, desde o governo de Collor de Melo, no inicio da década de 1990.

De qualquer forma, há algo a se recuperar . Se observarmos bem, em termos de idéias e conduta política, havia alguma coisa na trajetória do PCB que indicava para essa direção. O socialismo sempre foi um referente importante na história do PCB, ainda que a sua prática, especialmente depois de 1958, tenha sido abertamente a de um reformismo político que tinha como ênfases as noções de democratização e desenvolvimento. Contudo, não há espaço para que aqui possamos examinar essa história e tampouco levantar uma série de aspectos que julgamos pertinentes para essa reflexão a partir daquela experiência do PCB. Apenas vamos partir de um ponto que para nós configura-se como emblemático.

É indiscutível que há na história da esquerda brasileira uma parcela ou fração que assumiu para si, desde o final da década de 1970, o tema da democracia e que efetivamente se afastou das idéias dogmáticas que habitavam o ideário mais convencional da esquerda, tanto da “esquerda tradicional” quanto da chamada “nova esquerda”. Sua maior expressão emergiu com a publicação do famoso ensaio de Carlos Nelson Coutinho, A democracia como valor universal (1979), formando-se, a partir daí, um entorno de militantes ativos dessa idéia, que jogava por terra o entendimento de que a democracia não era mais do que uma tática a ser desprezada depois da conquista do poder. Dessa linhagem há que se destacar, sem nenhuma dúvida, a revista Presença, que circulou entre 1983 e 1992. Reconhecidamente, esse movimento fez parte daquilo que Maria Alice Rezende de Carvalho, em texto recente, chamou de “breve história do ‘comunismo democrático’ no Brasil’[4].

Ainda assim, passados alguns anos e depois de inúmeras transformações, no mundo e no Brasil, é forçoso reconhecer que o fim do tempo histórico das revoluções, como método e critério para a mudança histórica, não foi capaz de produzir, entre nós, uma nova fórmula identitária que garantisse, simbólica e politicamente, uma nova expressão para a esquerda. Os fatos do mundo e do Brasil no final do século XX são os responsáveis diretos pelo esgotamento dos dois mais potentes núcleos de identidade da esquerda brasileira, a saber, o núcleo bolchevique/soviético e o núcleo cubano/guerrilheiro. Surpreendentemente, a esquerda pós-1989, que havia surgido pouco antes e ambicionava se configurar como um novo paradigma, fracassou mais rapidamente do que aquela dos modelos anteriores. Contudo, o cenário que ela deixa depois da sua fulgurante trajetória é ainda mais inconsistente: fundada na lógica do mercado e da “escolha racional”, a esquerda representada pelo PT se expressa como uma esquerda de simulacros, nos quais realidade e ilusão se integram em erráticas metamorfoses.

A história e a vida é que colocaram para nós o desafio de superar simultaneamente três dimensões históricas da esquerda brasileira. Mas aqui a história não deve e nem merece ser repetida. Essa não pode ser uma das muitas oportunidades perdidas na trajetória de construção da esquerda e da democracia brasileira. Dentre muitas razões porque o nosso penoso e débil processo de modernização e de democratização somente se consumou, em seus traços conhecidos, devido a não existência, entre nós, de uma esquerda radicalmente democrática e reformista.

Por essa razão, é preciso recapturar o tema das reformas para o campo da esquerda brasileira por meio da elaboração de um programa que concentre suas propostas nas demandas democratizadoras do mundo do trabalho e da vida, condenando tanto o mal Estado ineficiente (independente do seu tamanho) quanto o mercado ególatra e desqualificado. Baseado numa política aberta e em amplo diálogo com a sociedade, é preciso pensar as reformas como mudanças que envolvam a democratização do poder na sociedade brasileira, ou seja, é preciso conectar as reformas com o tema da civilização democrática. É preciso pensar as reformas para além do minimalismo e da lógica de mercado a que elas foram reduzidas na política brasileira recente. Em outras palavras, é preciso resgatá-las como uma perspectiva de realização da modernidade.

O país necessita forjar outra esquerda, com amplas bases sociais, legitimada como reformista e que fale ao coração de milhões. No Brasil, um partido das reformas deve defender a melhoria da vida das pessoas e, em função dessa perspectiva, deve privilegiar a elaboração e implementação de um programa que tenha as características e o sentido de um "reformismo desenvolvimentista". Esse "novo reformismo” deve ser enfim a base de uma nova cultura política para uma esquerda moderna e democrática, o correlato, no discurso político, daquilo que o filosofo Antonio Cícero reivindicou recentemente como “um reformismo profundo e conseqüente”.

[*]O texto foi publicado originalmente na revista Política Democrática nº 22

[1] Ainda que não idênticas tais indicações são expostas em SMITH, Peter H. “Perspectivas de la izquierda latinoamericana” In PÉREZ HERRERO, Pedro (Ed.). La “izquierda” en América Latina. Madrid: Editorial Pablo Iglesias, 2006, p. 291-305.

[2} VACCA, G. “A esquerda italiana e o reformismo no século XX”. Política Democrática, n. 18, p. 111-125, 2007.


[3 ]Idem, ibidem

[4] REZENDE DE CARVALHO, Maria Alice. “Breve história do ‘comunismo democrático’ no Brasil” In p. 261-281. FERREIRA, J. e AARÃO REIS, D.(org.) Revolução e Democracia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007 (As esquerdas no Brasil, v.3).

O QUE PENSA A MÍDIA

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Corda esticada


Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Há 15 dias, quando o presidente do Senado, Garibaldi Alves, devolveu à Presidência da República a medida provisória das entidades filantrópicas, o líder do governo, Romero Jucá, entrou com um recurso na Comissão de Constituição e Justiça e instalou-se o impasse.

Político, o gesto não tem sustentação legal. Ou seja, um julgamento na CCJ significa necessariamente uma derrota do presidente do Senado e, por extensão, de todos os senadores que prestaram solidariedade a Garibaldi Alves - praticamente a totalidade deles.

Por isso, passado o primeiro momento do revide, o governo deu sinais de recuo. Tanto o líder Romero Jucá quanto o ministro da Articulação Política, José Múcio, indicaram que o governo desistiria do recurso e trocaria a MP por um projeto de lei.

Tiraria as entidades filantrópicas sob investigação de conduta fraudulenta do texto que autoriza a renovação automática de registros e estaria dissolvida a tensão.

Passadas duas semanas, porém, chega-se à véspera da sessão fatal da Comissão de Constituição e Justiça sem sombra de projeto de lei. Tudo pode ser negociado: nessas 24 horas o governo pode cumprir a promessa de amenizar o clima. Mas pode também insistir, levar a questão a votos e dar o troco em Garibaldi expondo a imperfeição jurídica de seu ato.

Se for essa a escolha, o presidente Luiz Inácio da Silva terá pouquíssimo a ganhar e muito a perder. Ganhará fluidos momentos de razão.

Perderá, entretanto, sob todos os demais aspectos das relações entre Legislativo e Executivo. Este, por mais forte que seja, não pode prescindir daquele.

Nunca. Muito menos em período final de mandato, em meio a um complicado processo de eleição dos novos presidentes da Câmara e do Senado, menos ainda diante de um cenário nebuloso de crise econômica que se confundirá com o ano de armação do jogo da disputa presidencial de 2010.

Nada favorece o atrito, tudo aconselha o entendimento. Todos os personagens envolvidos entendem isso. O líder Romero Jucá, interessadíssimo em herdar a presidência do PMDB de Michel Temer, então, é dos que mais entendem.

O ministro da Articulação Política certamente compreende também, assim como um grupo de senadores (governistas e oposicionistas) que enxergam na demora a intenção do presidente Lula de apostar na conquista de uma vitória na CCJ.

A decisão de trocar a MP pelo projeto de lei depende dele. Para solucionar o problema das filantrópicas “limpas” há uma proposta já em tramitação na Câmara o que, em tese, dispensaria a MP da discórdia.

Mas, por motivos ainda não esclarecidos, o governo resolveu dar anistia às chamadas “pilantrópicas” e o fez por medida provisória, ultrapassando todos os limites no aceitável no tocante aos preceitos constitucionais de urgência e relevância exigidos para a edição de uma MP.

Daí o gesto de Garibaldi Alves não se enquadrar numa discussão de natureza jurídica. Se for para discutir legalidade, o Executivo sai do embate com saldo devedor.

O presidente do Senado quis demonstrar o esgotamento de um modelo de convivência. No discurso, o governo compreendeu, mas, na prática, agiu diferente. Na semana seguinte à devolução da MP, a maioria governista aprovou o texto base da emenda que altera o rito de tramitação das medidas e manteve o ponto mais desconfortável para o Congresso: o trancamento da pauta.

Nesse meio tempo, suspendeu - pelo menos de público - os gestos de boa vontade em relação à saída negociada para o impasse no Senado.

Se quiser comprar uma briga, poderá conseguir. O Parlamento tem mil maneiras de criar problemas para o Executivo sem fazê-lo de forma explícita nem dar margem a retaliações.

Por exemplo: sexta-feira passada, os presidentes da Câmara e do Senado simplesmente não apareceram numa solenidade oficial no Palácio do Planalto. As assessorias de ambos dizem que Garibaldi Alves e Arlindo Chinaglia apenas viajaram; não havia sentido de retaliação nas ausências.

Um acaso e tanto, pois o presidente esperou mais de uma hora antes de ser avisado. E só não ficou falando sozinho porque o presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, estava com ele no gabinete onde acabou decidindo ficar para não emprestar com sua presença o brilho das duas ilustres ausências à cerimônia.

Fila que anda

Não há informações consistentes da parte de ministros do Tribunal Superior Eleitoral. O que há em Brasília, depois da decisão de suspensão do mandato do governador da Paraíba, Cássio Cunha Lima, é uma troca de impressões entre parlamentares e advogados que conhecem o teor dos processos em andamento no TSE contra outros sete governadores, acusados de crimes eleitorais.

Conclusão comum: os casos são todos complicados, em especial os que envolvem os governadores do Maranhão, Jackson Lago, e de Sergipe, Marcelo Déda. Este, aliado do presidente Lula; aquele, adversário do senador José Sarney.

Preliminares da sucessão

DEU NO VALOR ECONÔMICO

O presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia, pediu para o deputado João Paulo Cunha (PT-SP) fazer uma análise das emendas constitucionais em tramitação que tratam da reeleição. São mais de 60, e o conteúdo das propostas revela o desconforto dos deputados com a recondução para cargos do Executivo, inscrita em 1997 na Constituição por meio de um projeto que teve ventriloquia tucana e a iniciativa do antigo PFL, hoje Democratas.

Há propostas de calibres variados. A maioria acaba com a reeleição. Mas há também aquelas como a do deputado Devanir Ribeiro (PT-SP) que abrem a brecha para se discutir um terceiro mandato presidencial. Umas acabam com a reeleição, mas fixam em cinco anos o mandato do presidente; outras, em seis anos. Todas são pura confusão no horizonte da Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania.

O assunto vem sendo tratado por João Paulo Cunha com presidentes de partido e integrantes da CCJC. Mas só deve ganhar impulso a partir do próximo ano. O partido mais refratário tem sido o DEM.

Na CCJC a discussão parte de uma constatação óbvia: leva vantagem quem disputa eleição no cargo.

Em 2000 e 2004, as duas primeiras dentro da nova norma, a taxa de prefeitos reeleitos ficou em torno dos 58%. Já na eleição passada bateu um recorde: dois terços dos prefeitos foram reconduzidos a seus cargos.

Difícil é fazer o resumo da ópera - há quem veja nesses índices o reconhecimento do eleitor a boas gestões, que, aliadas a um período de bonança econômica, como o de 2004-2008, permitiram o alto índice de reeleição deste ano.

Talvez majoritária seja a ala dos que consideram o instituto da reeleição demasiadamente forte em um país que tem parcelas grandes da população que dependem do Estado. Isso é o que levaria o político de plantão no comando da máquina pública a levar uma vantagem muito grande em relação a outros, reduzindo ou até mesmo tirando o caráter competitivo da disputa.

O eleitor, ao escolher, acabaria votando não no melhor, nas melhores idéias para as cidades, para o Estado ou para o país. Simplesmente acabaria envolvido pelo candidato da obra eleitoreira. E nem sempre as obras de momento dizem respeito ou guardam uma certa conexão com o futuro das cidades, do Estado ou do país.

Esmiuçando: se as pesquisas indicam a um candidato que ele está mal em certo bairro por causa de asfalto, sua reação imediata não é querer saber se precisa primeiro fazer o esgoto. Ele faz o asfalto, ganha os votos e deixa a tarefa de fazer o saneamento para os próximos prefeitos.

No PT lembra-se muito o ato do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, ao passar um cheque milionário ao governador José Serra: "Essa é minha parte para fazer o metrô". Um gesto eleitoralmente muito forte, mais forte, segundo essas avaliações, do que 40 dias de debate horário eleitoral com Marta Suplicy dizendo que ia levar o metrô daqui pra alí e de lá pra cá.

O debate sobre o fim da reeleição interessa tanto ao nome que lidera as pesquisas, José Serra, como ao presidente Lula.

Para o tucano a medida oferece margem de manobra a negociações internas no PSDB, principalmente com o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, também pré-candidato ao Palácio do Planalto.

Para Lula a aprovação da emenda, valendo a partir da eleição municipal de 2012, como é cogitado, permitiria que ele fosse candidato novamente já em 2014. ponto de vista político é uma medida que, mais pragmaticamente falando, interessa muito ao Serra.

Por esse cronograma haveria eleição em 2010, para um mandato presidencial de quatro anos, 2012 para mandatos de cinco anos nas prefeituras, e 2014 para o primeiro ciclo de cinco anos de um presidente no Palácio do Planalto - nova eleição para prefeito só em 2017, e, para presidente, em 2019.

Há emendas também unificando as eleições, de vereador a presidente da República, mas suas chances de sucesso, à esta altura, parecem reduzidas. Em seu relatório, que pode sair até o fim do ano, João Paulo Cunha não se estenderá ao mérito das propostas. Vai se limitar a recomendar a tramitação das emendas na CCJC.

Raymundo Costa é repórter especial de Política, em Brasília. Escreve às terças-feiras

Da liderança à berlinda


Eliane Cantanhêde
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


BRASÍLIA - Hugo Chávez lançou a Alba (Alternativa Bolivariana para as Américas) em 2001, como reação aos EUA e à Alca (Área de Livre Comércio das Américas), que veio a morrer de morte morrida. O grupo foi formalizado em Havana, em 2004, mas não chegou muito longe.

Além de Venezuela e Cuba, só aderiram à Alba Bolívia, país mais pobre da América do Sul, Nicarágua, que ainda sofre efeitos da guerra interna, Honduras, da América Central, e Dominica, um pontinho no Caribe. Digamos que não dá para ameaçar a Calc (Cúpula da América Latina e do Caribe), que reúne 33 países na Bahia, dias 16 e 17.

O que preocupa é o Equador de Rafael Correa, que estapeou Odebrecht, Petrobras e Furnas e ameaça um calote no BNDES, o que deixa de ser contra uma empresa privada e passa a ser contra o governo brasileiro. Lula cancelou uma missão técnica a Quito e depois chamou o embaixador de volta.

Ontem, havia um corre-corre no Itamaraty para avaliar os problemas e oferecer saídas para cada um antes do dia 15, tudo para que Correa não chegue à Bahia uma fera, contaminando o clima geral.

Blocos e regiões convivem com divergências e conflitos. Os próprios Brics têm seus problemas: a Rússia e a mágoa dos ex-satélites soviéticos, a Índia e o Paquistão em torno de Caxemira, a China e Bangladesh e os arroubos do Tibete. Mas o Brasil alardeia sua eterna imagem pacifista e faz questão de uma foto da Calc só de sorrisos, para sinalizar unidade e integração para o mundo e especialmente para o Norte. Correa pode botar tudo isso a perder se atirar pedras contra o Brasil, trouxer para dentro da reunião o apoio que já recebeu da Alba e unir a "esquerda" contra a "potência" local.

Isso deixaria o Brasil cara a cara não com o frágil Equador, mas, sim, com a forte Venezuela e seus aliados, provocando uma mudança radical. Lula quer ser líder, mas pode acabar na berlinda.

Pós-hegemonia


Merval Pereira
DEU EM O GLOBO


NOVA YORK. Confirmados, sem surpresas, os nomes da equipe que vai levar adiante a nova política de segurança nacional dos Estados Unidos na futura administração democrata de Barack Obama, ficou de mais importante na apresentação de ontem a explicitação das novas diretrizes da política externa americana que, nas palavras do próprio Obama, vai usar de maneira balanceada e integrada os elementos do que chamou de "o poder americano": militar e diplomático; informação e a força da lei; a economia e o poder do exemplo moral.

A troca da "guerra preventiva" e da submissão dos direitos humanos aos interesses imediatos do governo, por uma gestão que leve em conta os "valores" americanos de justiça e democracia, como ressaltou Obama, tem ainda mais significância no dia em que o presidente George Bush admitiu em uma entrevista à televisão que não estava preparado para a guerra e que errou ao aceitar os relatórios do serviço de inteligência sobre as supostas armas de destruição em massa do Iraque.

A admissão de que o poder mundial está cada vez mais repartido entre novos atores, que devem ter espaço para sua ação internacional e devem ser escutados em suas reivindicações, permeou todo o discurso do presidente eleito e da nova secretária de Estado, a senadora Hillary Clinton, os dois que deram o tom mais político da apresentação.

Também a futura embaixadora dos Estados Unidos na ONU, Susan Rice, ressaltou o reforço do papel da organização na política externa americana. Obama definiu a nova política como capaz de "reforçar nossa capacidade de derrotar os inimigos e de apoiar nossos amigos", e a disposição de "renovar antigas alianças e forjar novas e duráveis parcerias".

Ele deixou claro que todos os desafios que se apresentam, desde as guerras em andamento até o espalhamento do poder nuclear com o perigo de que essas armas letais caiam em mão perigosas, têm uma ligação entre si, a "realidade fundamental" de que, no século 21, o destino dos Estados Unidos é dividido com o resto do mundo.

"Dos nossos mercados até a nossa segurança; de nossa saúde pública até nosso clima, precisamos agir de acordo com o entendimento de que, mais do que nunca, temos interesse no que acontece no resto do mundo".

A futura secretária de Estado, Hillary Clinton, foi ainda mais explícita na sua fala, afirmando que "nós sabemos que nossa segurança, nossos valores e nossos interesses não podem ser protegidos nem avançar apenas pela força e nem também apenas pelos americanos. Temos que perseguir uma diplomacia vigorosa, usando todos os meios para criar um futuro com mais parceiros e menos adversários; mais oportunidades e menos perigos para todos os que almejam a liberdade, paz e prosperidade".

Coube ao vice-presidente eleito Joe Biden, um especialista em política externa, especificar as mudanças que estão ocorrendo no mundo, falando sobre "as forças que estão forjando esse novo século" - às quais Obama já havia se referido, dizendo que os Estados Unidos têm condições de moldá-las, e não serem moldados por elas.

Entre elas, Biden citou a emergência de países como China, Índia, Rússia e Brasil, invertendo a ordem do acrônimo Bric, provavelmente citando os países pela importância que lhes dá.

A potencialidade do Brasil como um poder global nunca esteve tão em evidência, especialmente agora que o presidente eleito Barack Obama insiste no fato de que a dependência de petróleo dá poderes a governos autoritários e põe o planeta em perigo, colocando na mesma cesta a questão ambiental e a política.

O mundo já debate há algum tempo a questão da energia como instrumento político que está dando a países emergentes poder de protagonistas da cena internacional, alguns considerados pelos Estados Unidos como "estados-bandidos", como a Venezuela de Chávez e o Irã de Ahmajinedah.

A idéia de que a América do Sul tem reservas de petróleo e gás para ser parceira internacional importante no equilíbrio do mercado mundial vai ganhando força, paradoxalmente com a preocupação de que governos como os da Bolívia e da Venezuela utilizem suas reservas naturais para reforças suas posições política radicais. Diante da potencialidade com o petróleo do pré-sal e os biocombustíveis, uma posição equilibrada do Brasil na política externa ganhará maior destaque.

Embora a crise econômica tenha retirado da prioridade os biocombustíveis, pela queda do preço do petróleo, e pela mesma razão a exploração do pré-sal tenha se tornado antieconômica no momento, o presidente eleito Barack Obama já declarou que o melhor momento para fazer a mudança da matriz energética é quando não há a pressão econômica.

Por seu pioneirismo na nova tecnologia, e por suas vantagens comparativas, como amplidão territorial e clima, e por ter das maiores reservas de água do mundo, o Brasil está no centro das preocupações expressas pela equipe de segurança nacional do futuro governo Obama.

A perspectiva de que o mundo se torne cada vez mais multipolarizado, dando espaço para novos atores globais, admitida ontem pela futura administração americana, também aumenta a possibilidade de que os países que formam o grupo Bric assumam cada vez mais poder nas decisões internacionais dentro dos organismos multilaterais, que serão reforçados pela nova política externa dos Estados Unidos, a começar pela ONU, onde o Brasil insiste em ter um assento permanente no Conselho de Segurança.

A coerência entre o que o candidato Barack Obama defendeu durante toda a sua campanha e o que anunciou ontem é uma garantia de que ele realmente entende o mundo de maneira totalmente distinta do atual ocupante da Casa Branca, o que reforça a mensagem de mudança que foi vitoriosa na eleição presidencial.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Uma conversão no leito de morte?


Giuseppe Vacca
Novembro 2008
Fonte: Gramsci e o Brasil

Tradução: Josimar Teixeira

Jornais de todo o mundo trouxeram nestes últimos dias a declaração de uma importante autoridade da Cúria vaticana, o bispo Luigi De Magistris, sobre a “conversão” de Antonio Gramsci às vésperas da morte, ocorrida em 27 de abril de 1937, na clínica Quisisana, em Roma. De Magistris diz apoiar-se em supostas revelações das freiras que então trabalhavam naquela clínica, revelações que, de resto, têm reaparecido periodicamente, sem nenhuma comprovação documental.

O fato em si é irrelevante, mas, como toda instrumentalização, mesmo de sabor folclórico ou arcaico, provoca algum interesse e comentário. Não é a primeira vez que setores mais tradicionalistas da Cúria lançam bizarras elucubrações sobre grandes personagens da cultura pretensamente convertidos no leito de morte: foi o que ocorreu, ironicamente, até mesmo com Benedetto Croce, ilustre pensador laico e liberal, também fortemente relacionado, como sabemos, ao mundo político e intelectual do próprio Gramsci. É difícil imaginar de que modo elucubrações desse tipo contribuem para uma percepção mais adequada, inclusive por parte dos não crentes, do insuprimível acervo de fins e valores que toda visão religiosa do mundo traz consigo, enriquecendo de modo único a experiência de todos os homens e mulheres.

Transcrevemos abaixo uma entrevista com Giuseppe Vacca, presidente da Fundação Instituto Gramsci, feita por Matteo Sacchi e publicada no último 26 de novembro em Il Giornale, porta-voz da direita italiana e ligado diretamente a Silvio Berlusconi.

Na verdade, nesta entrevista o mais importante são as informações relativas a
novas cartas descobertas em Moscou, junto à família Schucht. Expressão destas descobertas é o recente lançamento na Itália do livro de Antonio Gramsci Jr., La Russia di mio nono [A Rússia de meu avô], de que aqui já demos notícia (Nota de Josimar Teixeira).


Professor Vacca, o que pensa das declarações do bispo Luigi De Magistris?

A plausibilidade destas declarações ainda deve ser inteiramente avaliada. Segundo a documentação conhecida, não há nada que nos fale desta conversão.

Quais são os documentos de que dispomos?

Uma carta muito detalhada da cunhada de Gramsci, Tatiana, dirigida a Piero Sraffa em Cambridge. E que não diz nada sobre isso. Além disso, há uma outra carta, sempre de Tatiana a Giulia Schucht [a mulher de Gramsci], inédita e que há pouco recebemos da família [em Moscou]. E também aqui não há menção à conversão. O mesmo se deve dizer para todos os outros documentos, inclusive relatórios da polícia...

E as relações de Gramsci com a espiritualidade?

Não, esta pergunta assim colocada não tem sentido... É inútil falar de antes, buscar em Gramsci um espiritual oculto que antecipe alguma coisa. Não é um discurso que faça sentido. É preciso que Monsenhor Luigi De Magistris mostre as provas históricas das suas afirmações. Discorrer sobre espiritualidade “antes” só serviria para criar um fumus de conversão, e não me presto a isso.

Mas na imensa obra de Gramsci quais são os trechos em que se reflete sobre a religião?

A reflexão sobre a religião está presente em toda parte, uma página sim, outra não dos Cadernos. Basta ir na biblioteca e pegar os Cadernos ou as Cartas. Mas este é um fato óbvio e nada tem a ver com o caso. Um grande pensador que reflita sobre a política deve obrigatoriamente ocupar-se de religião, é óbvio.

Mas nada que antecipe uma conversão?

Era absolutamente laico. Mas, para resumir, não tem sentido olhar para “antes”, se não temos a prova de uma conversão. Se houvesse prova, poder-se-ia pensar no “antes”. Mas até este momento... Sou um não crente que leva a sério a teologia católica. Se encontrou a graça na hora da morte... O antes conta pouco. Mas, se estamos falando do testemunho tardio de uma irmã de caridade, já refutado por Paolo Spriano no seu livro de 1977 [Gramsci in carcere e il partito], não há muito o que dizer. Se houvesse novidade, então seria um fato de grande interesse e teria sentido fazer uma longuíssima discussão sobre “antes”, reler tudo.

Neste caso, seria preciso uma releitura?

Sim, mas são necessários documentos, coisas verificáveis do ponto de vista histórico. Mas, repito, até aqui não há traço disso. Existem provas? Dêem-nas, estaríamos interessadíssimos. Senão, Gramsci continua a ser o de antes, o filósofo projetado para a política e a ação que pensa e fala de religião e da Igreja nesta ótica.

E quanto a Gramsci e à espiritualidade?

Você insiste? Não tem nada a ver com a questão, e seria tema para uma conferência de duas horas. Se lhe interessar, aconselho a biblioteca...