sábado, 30 de agosto de 2025

Crise e mal-estar, por Marco Aurélio Nogueira

O Estado de S. Paulo

Falta, no Brasil atual, uma força democrática que se qualifique para apresentar um amplo programa de reformas para a sociedade

Não é nova a percepção de que a vida moderna traria consigo ondas seguidas de mal-estar. Freud se referiu a isso em O mal-estar na civilização, no qual enfatizou que os indivíduos modernos reprimiriam (ou sublimariam) seus desejos e vontades (sua liberdade) para não contestar a segurança e as normas sociais.

No início dos anos 90, o filósofo Charles Taylor revisitou o tema, para se referir ao “desconforto” que haveria nas sociedades modernas, invadidas pelo lado sombrio do individualismo e pela afirmação de um egocentrismo avesso ao interesse pelos demais. Mais tarde, Zygmunt Bauman aproveitou a tese de Freud para constatar que “o mal-estar na pós-modernidade” viria do fato de que os indivíduos se soltam de sua segurança para abraçar dimensões crescentes de liberdade, com as quais não sabem o que fazer.

Hoje, saturados pela oferta abundante de informações, mercadorias, ondas de prazer fugaz, redes sociais tóxicas, os indivíduos não sabem em que portos ancorar, atordoados pela insegurança existencial, pelo desemprego estrutural, pela miséria de muitos, pelo vazio de utopias e perspectivas políticas. A sociedade está viva, mas parece doente, como se não soubesse aproveitar o que tem de bom, a começar da sua força cultural, energética, ambiental. O mal-estar social incomoda e paralisa o País. Invade a relação da população com o Estado. Alimenta o populismo de extrema direita, com sua demagogia “patriótica”, agora desmentida ostensivamente pelas estripulias agressivas de Trump.

Assim como o conceito de crise, mal-estar é expressão escorregadia. Ambas sugerem desgaste, disfuncionalidade sistêmica, desorganização, paralisia, desconforto, sofrimento. Referem-se a situações que podem afetar uma sociedade inteira. Crises (políticas, econômicas, morais, éticas) reverberam, atingem o mercado, a governança, os cálculos eleitorais, o bem-estar da população, a democracia.

O Brasil está hoje num momento estranho, analítica e politicamente desafiador. Ora parece uma bomba prestes a ser detonada. Ora entra em aparente normalidade, que logo se desfaz. Há bastante gente participando do jogo político miúdo, mas os times mal se compõem e não têm liderança. Difícil captar o que virá da política, como se um véu recobrisse tudo.

Os Poderes podem muito, mas não dirigem. Os problemas se acumulam. As relações entre o Executivo e o Legislativo estão sem sintonia, colidem entre si e com o Judiciário. Os partidos não organizam nem interagem com a sociedade. Os campos políticos e ideológicos estão cortados por desentendimentos. A disposição acentuada para o confronto político é o vetor que mais se manifesta. Faltam moderadores e construtores de consensos.

Há muitas pessoas indignadas, revoltadas, confusas, propensas a buscar um “salvador” ou descrentes de tudo, a começar da política, dos políticos e dos governos. Há muitas vozes, mas pouca coordenação. Muito medo, raiva e ódio, pouca disposição para o diálogo.

As atitudes e medidas de Trump prejudicam nossa economia e agridem o Estado brasileiro. A extrema direita saúda a bandeira dos EUA e bate continência para ela. Eduardo Bolsonaro conspira abertamente nos EUA. A insensatez é completa, exibida em nome do combate ao “comunismo” e a um “sistema viciado”.

O bolsonarismo age com estridência e contestação generalizada, e, com isso captura muitos descontentes. Não se sabe o fôlego que terá com Bolsonaro na prisão. Uma possibilidade real é que navegue na onda trumpista e se marginalize, o que incentivará a direita a dele se afastar. Mas isso não é certo. Seus seguidores batem bumbos que são ouvidos pelos setores conservadores radicalizados.

Se uma centro-direita pósbolsonarista surgir, ela poderá se afirmar de modo competitivo. Sabendo dosar sua postulação e atuar com inteligência, terá como se converter em fator de agregação política alternativa, capaz de apresentar um plano de governo para repor o País nos trilhos e dissolver a polarização.

O terreno está dado. Exige passos largos, e não há, no Brasil, boas lideranças políticas, nem uma população disposta a se engajar na política. Com o governo Lula entregue a manobras eleitorais, restringido por compromissos que não lhe dão rumo, o mal-estar tende a se manter.

Quando diferentes crises se entrecruzam, sua gravidade aumenta. Pode não ocorrer um desfecho e os estragos irem se normalizando, com o mal-estar se tornando parte da vida e a sociedade ir sangrando lentamente.

Os motores eleitorais estão a esquentar. Políticos pragmáticos se movimentam. Não há como afirmar que evoluirão a ponto de fornecer saídas para o País. O fato é que falta, no Brasil atual, uma força democrática (liberais, socialistas, socialdemocratas) que se qualifique para apresentar um amplo programa de reformas para a sociedade.

A esquerda democrática, hoje atarantada, deveria dar sua contribuição, no mínimo apresentando um desenho estratégico de País. Pouco adianta ter combatividade com intransigência e mãos vazias, sem admitir que o mundo mudou e novas ideias são indispensáveis.

 

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