quarta-feira, 5 de julho de 2017

Opinião do dia - *Luiz Werneck Vianna

As reformas são necessárias; aqui e ali provavelmente, olhando de perto, com lupa, elas poderiam ser melhor apresentadas, mas a reforma da previdência é uma necessidade aqui e alhures — o mundo todo tem discutido isso. O fato é que temos uma previdência orientada para o funcionalismo público. Aliás, esse tema do Estado tem sido um elemento de perturbação. O Partido dos Trabalhadores tem sido — não na sua origem, mas na prática recente — mais representante dos interesses do funcionalismo público do que dos trabalhadores em geral, dada a força do funcionalismo e das corporações de Estado, especialmente de alguns setores muito poderosos que estão encravados no aparelho do Estado, os quais detêm hoje uma força considerável, como é o caso do Ministério Público.

Esta é uma mudança de natureza quase antropológica: pensar a sociedade não a partir do Estado, mas a partir dela mesma. Essa questão, a meu ver, a próxima sucessão presidencial terá como tema de fundo. Não se voltará àquele Estado que nos veio dos anos 30 ao PT: que passou pelo segundo governo Vargas, pelo governo de Juscelino Kubitschek, pelo regime militar e encontrou, espantosamente, a sua forma de consagração no PT, que nasceu com outra origem, outra orientação, orientado, sobretudo, para os interesses dos setores subalternos, do sindicalismo, dos trabalhadores da terra, dos sem direitos. A Teologia da Libertação nasceu aí e veio engrossar esse movimento subterrâneo que o PT encarnou, de uma revolta contra o Estado, do fim da Era Vargas, da denúncia da Consolidação da Lei do Trabalho como o AI-5 do trabalhador.

Esse era um diagnóstico saudável e correto, mas que foi interrompido pelas circunstâncias da política e, sobretudo, por força da predominância do cálculo eleitoral. Voltou-se para essa nossa marca antiga, arcaica, de prevalência do Estado, essa “Estadofilia”, que tem sido a marca da nossa modernização. Acho que agora isso foi interrompido. E esse processo não é brasileiro, é mundial, mas as coisas acontecem aqui de forma muito virulenta, porque o país é muito atrasado cultural, intelectual e politicamente.

Um movimento do tipo desse francês, com Macron, é muito difícil de se imaginar aqui, embora haja alguns movimentos dessa tendência. Mas o nosso sindicalismo e os nossos movimentos sociais se deixaram enredar pelo aparelho do Estado e isso tem sido um inferno. Quando vamos entender que no capitalismo é necessário um sindicalismo autônomo, forte, livre, que lute pelos seus interesses sociais, econômicos e políticos, e que se tenha partidos que sejam representativos? A esquerda desertou desse campo e se tornou um operador do Estado. Cadê a esquerda no mundo popular, nas favelas, na vida popular ela mesma? A esquerda não se faz presente.

Havia, pelos anos 60, a presença da esquerda no mundo popular de verdade e, inclusive, os comunistas tinham organizações nas favelas e a Teologia da Libertação, que nasceu com essa deriva forte à esquerda, implantou-se com alguma força no mundo popular, especialmente nas favelas do Rio de Janeiro. Houve um movimento da intelectualidade católica, com alguns intelectuais relevantes. A isso deu-se marcha a ré por imposição da hierarquia católica. Um dos resultados disso, como está se vendo, foi o avanço dessas ideologias da prosperidade dos cultos pentecostais no mundo popular, quando a esquerda católica se retirou de lá.

Nós temos que reconstruir, temos que ir aos fundamentos nessa hora de caos em que todas as referências estão sendo destruídas. Temos que voltar um pouco para a nossa própria história. O que fizemos antes, que deu certo? O que estávamos fazendo antes e que estava dando certo e paramos de fazer? Por que mudamos de orientação e fizemos com que uma era, que se abria com uma plataforma de interromper a modernização autoritária que nos vinha dos anos 30, não fosse levada adiante? Por que de repente nós aderimos à modernização autoritária? Por que a esquerda aderiu às práticas econômicas dos governos do regime militar?

Há um fenômeno aí que é de natureza, digamos, supraestrutural: houve uma mudança na cabeça que fez com que seguíssemos uma trilha errada, abandonando um bom caminho que vínhamos percorrendo. Um pouco de tudo isso que nos ocorre se dá por atraso cultural, por atraso na reflexão, por falta de autocrítica. Nós não estávamos condenados a ter essa história de ódio, rancor e ressentimento que estamos começando agora. No entanto, estamos distantes da revolução como nunca — de qualquer revolução, inclusive daquelas feitas pelo voto, pelo caminho das instituições. Quais são as instituições através das quais poderíamos fazer avançar um programa de mudanças efetivas a favor de um grande número da população? Com quais partidos? Com que personalidades intelectuais? Em que correntes de pensamento?

Nós agora estamos como se um mar vermelho estivesse nos afastando da nossa história. Nós temos que atravessar a pé esse mar vermelho, com um esforço intelectual, moral e com coragem política de procurar uma solução, um caminho, deixando esse deserto de ódio e tolerância para trás; precisamos pensar para frente. Aliás, é preciso notar que, apesar de todo esse caos na vida política, a sociedade tem se mantido em silêncio, como observadora. Ela não tem reconhecido, entre os antagonistas do ódio, um lado. 2017 não nos trouxe de volta 2013.”

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*Luiz Werneck Vianna é professor-pesquisador na Pontifícia Universidade Católica - PUC-Rio. Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo, é autor de, entre outras obras, A revolução passiva: iberismo e americanismo no Brasil (Rio de Janeiro: Revan, 1997); A judicialização da política e das relações sociais no Brasil (Rio de Janeiro: Revan, 1999); e Democracia e os três poderes no Brasil (Belo Horizonte: UFMG, 2002). Sobre seu pensamento, leia a obra Uma sociologia indignada. Diálogos com Luiz Werneck Vianna, organizada por Rubem Barboza Filho e Fernando Perlatto (Juiz de Fora: Ed. UFJF, 2012), em entrevista, “É preciso coragem, paciência e ética de responsabilidade para interromper a modernização autoritária”, IHU On-Line, 03/07/2017

'Quem é que vai pôr ordem na casa?', diz FHC ao defender Judiciário

Sem citar nenhuma decisão judicial, ex-presidente disse que, mesmo com opinião pública, juiz não pode atuar 'contra fatos, nem contra o texto da lei'

Elisa Clavery, O Estado de S.Paulo

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) defendeu a atuação do Judiciário, em vídeo publicado nesta terça-feira, 4, em seu Facebook. Sem citar nenhuma decisão judicial específica, disse que a "opinião pública pode, e deve, participar", mas que o juiz não pode atuar "contra fatos, nem contra o texto da lei".

"Ou nós aceitamos que há regras e que há o Judiciário ou então quem é que vai pôr ordem na casa?", questionou o ex-presidente. O tucano disse, ainda, que "nem sempre o resultado de uma decisão do Judiciário o agrada, nem a quem está ouvindo", mas que a Justiça tem regras, prazos e se presta a interpretações.

Segundo o tucano, "quando o juiz é consciencioso, ele ao interpretar o texto da lei vai tomar como consideração os sentimentos que estão em predominância na sociedade, mas não pode nem ir contra fatos, nem contra o texto da lei." O ex-presidente afirmou, ainda, que não se pode pensar que "a Justiça vai funcionar como cada um de nós quer."

Ainda segundo o sociólogo, as decisões da Justiça às vezes "nos colocam em certa perplexidade". "(Se pensa) 'Ah, a Justiça errou'. Pode ser que tenha errado, mas nós temos que obedecer. O norte é a Constituição."

As declarações de FHC foram dadas dias após a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), na última sexta-feira, de soltar o ex-deputado federal Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR), o "homem da mala", e permitir que o senador Aécio Neves (PSDB-MG) volte ao exercício parlamentar.

Outra decisão judicial, nesta segunda-feira, 3, agitou o universo político e preocupou o Palácio do Planalto. O ex-ministro e aliado de Michel Temer (PMDB) Geddel Vieira Lima foi preso preventivamente, após decisão do juiz Vallisney de Souza, titular da 10ª Vara Federal de Brasília.

Na semana passada, FHC também se manifestou sobre a situação política no País, em artigo publicado no jornal Folha de S.Paulo, em que fez um "apelo" ao presidente Michel Temer (PMDB) para "que medite sobre a oportunidade de um gesto dessa grandeza" ao encabeçar uma proposta de antecipar as eleições presidenciais. O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, chegou a criticar o posicionamento do tucano, e disse que FHC não deveria "colocar lenha na fogueira".

Leia na íntegra a declaração de Fernando Henrique:

"Em toda democracia, nós temos que acreditar que as instituições estão funcionando. Temos que fazer com que elas funcionem. A Justiça é um marco em qualquer democracia. A Justiça tem regras, tem prazos, tem princípios e tem divergências. E há interpretações. Ela (a Justiça) se presta a interpretações.

Não podemos pensar que a Justiça vai funcionar nem como cada um de nós quer, nem de uma maneria automática, matemática. Não. Ela tem ai uma certa margem de manobra. Nem sempre o resultado de uma decisão do Judiciário me agrada ou agrada a quem está me ouvindo.

Ou nos aceitamos que há regras e há o Judiciário ou, então, quem é que vai pôr ordem na casa? É claro que a opinião pública participa desse processo, e tem que participar. Ela também toma partido. Em certa medida, quando o juiz é consciencioso, ele, ao interpretar o texto da lei, vai tomar como consideração os sentimentos que estão em predominância na sociedade. Mas ele não pode nem ir contra fatos, nem contra o texto da lei.

Isso nos coloca, como estamos hoje, em certa perplexidade. 'Ah, a Justiça errou'. Pode ser que tenha errado, mas nos temos que obedecer.

O norte é a Constituição."

A transição e o futuro | Roberto Freire

- Blog do Noblat

Em uma quadra conturbada da vida nacional, em que o país dá os primeiros passos para a superação da pior recessão econômica de sua história enquanto enfrenta uma profunda crise política cujos desdobramentos são a cada dia mais imprevisíveis, é fundamental que não nos afastemos do nosso compromisso intransigente com os interesses do Brasil e dos brasileiros, atuando sempre com responsabilidade, serenidade e espírito público.

Durante todo o período em que o país foi governado pelo PT, nós, do PPS, exercemos uma oposição corajosa e altiva, denunciando as mazelas, os desvios, as irregularidades e todos os equívocos cometidos nos 13 anos de administrações lulopetistas e que nos levaram ao total descalabro. Em 2016, assumimos o protagonismo no processo legítimo, constitucional e democrático que culminou no impeachment de Dilma Rousseff e apoiamos o governo de transição e as propostas de reformas fundamentais para a recuperação da economia e a modernização do país.

Quem assina o acordão? | Vera Magalhães

- O Estado de S.Paulo

Tal qual um locatário que procura reunir os requisitos para fechar o contrato de aluguel de um apartamento, os que perseguem um acordão que preserve o establishment político e detenha a Lava Jato estão em busca de um fiador. E está difícil encontrar.

Em cada um dos grandes partidos, os interessados em um entendimento “por cima” que se traduza sobre o virtuoso nome de reforma política não podem assinar nada porque estão com o nome sujo na praça.

Ontem, em seu discurso de rentrée no Senado, Aécio fez todos os acenos possíveis para o acordão. Elogiou Michel Temer mais que qualquer peemedebista jamais ousou e poupou o PT mesmo das críticas pela condução da economia. O resultado é que também não foi apupado pela ruidosa bancada oposicionista no Senado, o que não deixa de ser sintomático.

Afinal, a presidente do PT é a senadora Gleisi Hoffmann, assim como Aécio denunciada na Lava Jato. Também ela não pode ser a fiadora do grande aluguel partidário.

E o PMDB? Além de Temer na berlinda, o partido é presidido por Romero Jucá, outro que assistiu calado ao discurso de Aécio, em que o tucano deixou claro, sob o argumento de que há de se preservar o direito de defesa, que o que aconteceu com ele poderia acontecer com cada um ali.

Temer, Lula, Aécio e outros caciques tateiam por uma saída política, mas não há segurança alguma de que ainda consigam deter o trem da Lava Jato. Isso ficou muito claro quando o governo ainda esboçava um suspiro aliviado com a soltura de Rodrigo Rocha Loures e teve de prender a respiração diante da detenção de Geddel Vieira Lima. Um pelo outro, saiu caro para Temer.

Todos contra todos | Merval Pereira

- O Globo

A delação de Lúcio Funaro, doleiro do PMDB e operador de Eduardo Cunha, que levou Geddel Vieira Lima à cadeia, vai envolver toda a cúpula do PMDB, inclusive o presidente Michel Temer. Esse grupo do PMDB não escapa do tiroteio, e no final morrem todos — como no filme do Tarantino “Cães de aluguel”, no qual todos os pistoleiros atiram contra todos — porque vão entrar tanto na delação do Funaro quanto na do Eduardo Cunha.

Geddel é um político experiente, com vários processos na Justiça envolvendo cargos públicos, e tem estrutura psicológica para resistir aos primeiros meses de cadeia. Mas, chega uma hora em que acaba falando. Acho que vai esperar um pouco para ver o que vai acontecer com Michel Temer, antes de tomar uma decisão.

O monstro do desemprego | Luiz Roberto Nascimento Silva

- O Globo

Com as crises econômicas, surgem com frequência a sedução por propostas messiânicas ou o saudosismo de períodos autoritários do país

Indicadores econômicos informam que as empresas começaram a oferecer melhores salários iniciais, os chamados salários de admissão. Talvez seja das poucas boas notícias em nosso dramático cotidiano. São sinais de melhora da renda, mas não diminuição do desemprego, porque continuamos com 14 milhões de desempregados.

Temos insistido aqui na questão do desemprego. Este é a mais cruel consequência de uma economia de mercado e um imenso desperdício de recursos humanos de uma sociedade que se quer desenvolvida. Sem emprego, o homem perde sua inserção na sociedade, tem sua identidade desfigurada, seu núcleo familiar corroído. E, se a interdição ao trabalho for longa, ele pode perder suas qualificações.

Candidatos de toga ou ilusão de ótica | Rosângela Bittar

- Valor Econômico

A crise política não vai acabar com a eleição de 2018

Eles apareceram, mais óbvios do que vinham se mostrando, já no fim do semestre, cerca de duas semanas antes do recesso judiciário. Numa festa com artistas, no Rio, exposto a homenagens dias antes e dias depois, em especial nas telas de TV com lugar cativo em auditório do julgamento da chapa Dilma Temer, no Tribunal Superior Eleitoral, o ex-ministro do STF Joaquim Barbosa cunhou todo o conteúdo do seu marketing em uma frase. Pressionado a declarar-se candidato a presidente, não se sabe se por querer ser ou por não ser, perguntou: "Será que o Brasil está preparado para ter um presidente negro?"

Pronto, estava ali o candidato e seu slogan, sua bandeira, com toda uma linha de propaganda a explorar, indicando o que poderia ser sua peça de resistência na campanha eleitoral.

Dias depois, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, em auditório assemelhado, em São Paulo, em congresso de jornalistas, também consolidou em uma frase toda a ideia que poderia propagar sua candidatura. "Enquanto houver bambu, vai ter flecha". O cacique, o guerreiro, o procurador que no encerramento de seu comando do Ministério Público logrou, por enquanto simbolicamente, cortar a cabeça do presidente da República, avisava que até 17 setembro a caneta está na sua mão, e seguirá a decapitação que trava com o sistema político, para deleite do eleitorado. Ato contínuo, para efeito demonstrativo, flechou um amigo do presidente Michel Temer e ex-ministro dos governos Lula, Dilma e Temer. Caça premium.

O que é ser de esquerda? | Hélio Schwartsman

- Folha de S. Paulo

Os conceitos políticos de esquerda e direita ainda fazem sentido? Cada vez menos, acredito. O problema é que suas definições são fluidas, não mostram muita coerência interna e ainda têm sido castigadas pela história.

Uma defesa intransigente do princípio da sacralidade da vida, por exemplo, exigiria que os direitistas que o professam fossem contra o aborto e a eutanásia (ok, isso eles são), mas também contra a pena de morte e o direito mais ou menos irrestrito de carregar armas (aí já fica mais difícil).

Traições premiadas | *Pedro Cavalcanti

- O Estado de S.Paulo

Casos há em que a ideia de encorajar delações descamba para a abominação

As chamadas delações premiadas, tão vibrantes nos dias de hoje, suscitam uma velha questão envolvendo eficiência e moralidade. Até que ponto sua eficiência, sendo certa, justificaria eventuais falhas no aspecto moral?

Conforme a mágica empregada na escolha das palavras, a meritória colaboração com a Justiça pode se transformar em desprezível traição premiada.

Da sua eficiência poucos duvidam. Sem as delações, a Lava Jato nunca teria chegado aonde já chegou. Mas eficiência, por si só, não basta como justificativa. Basta lembrar a existência de um método ainda mais eficiente na obtenção de confissões imediatas. Técnica milenar e que só foi modificada com a descoberta de aparelhos capazes de provocar choques elétricos, chama-se tortura. Há ainda quem a defenda como último recurso para evitar ataques terroristas, mas é uma defesa envergonhada, construída sobre uma base de eufemismos.

Brasileiros jacobinos e girondinos | João Crestana*

- O Estado de S.Paulo

A época de 1790 foi uma das mais significativas. Os franceses, em busca de valores democráticos, ou enojados com seus representantes, empreenderam mudanças drásticas na administração nacional, e essas criariam um acervo de vivências institucionais para o mundo. Duas forças principais disputavam a hegemonia, tentando impor sua visão de nação. Os girondinos, mais conservadores, sentavam-se à direita na Assembleia, e os jacobinos, mais radicais, à esquerda. Aliás, daí surgiu o conceito correspondente.

Os jacobinos impuseram o “Reino do Terror”, executaram o rei e milhares pela guilhotina, fazendo valer suas ideias. Em 1794, os girondinos prevaleceram, mas o terreno, fértil de sangue e punições, fez florescer Napoleão, o gênio militar que restabeleceu a ordem e implantou, na espada e na pólvora, novo modelo estrutural, base para as instituições atuais em muitas nações democráticas.

Brasília suga o sangue que voltava | Vinicius Torres Freire

- Folha de S. Paulo

A economia do país melhorava até maio, do que tivemos mais sinais nesta semana: a indústria se recuperava.

Desde maio também vamos piorando, a discutir o zumbi Michel Temer e seus ministros no presídio ou casos como o do senador capilé, Aécio Neves, presidente de desonra do PSDB.
Assim, as contas públicas vão piorando na direção do desastre, pois o governo do Brasil foi sequestrado por essa gente que foge da polícia e por seus cúmplices, ativos ou omissos.

A indústria cresceu em abril e maio, soubemos nesta terça-feira (4) pelo IBGE. Arrastava-se, portanto, para fora do vale da morte para onde havia despencado desde o governo de Dilma Rousseff. Era pouco, mas se movia.

Sem descolamento | Míriam Leitão

- O Globo

Economia melhora, mas não se descola da política. A economia está colhendo uma série de boas notícias, mas isso não quer dizer que esteja se descolando da política. Com uma crise da gravidade que o Brasil vive, a economia permanecerá com o freio de mão puxado. Os bons dados de agora são o resultado dos acertos do último ano na escolha da equipe econômica e nas primeiras decisões tomadas pelo governo Temer.

A alta de 0,8% da produção industrial de maio, divulgada ontem, foi maior do que o previsto pelos economistas e é mais um dos vários dados positivos recentes. É o segundo mês consecutivo de alta. A comparação interanual subiu 4%. Ainda assim, a produção industrial está 18,5% abaixo do que estava antes de a recessão começar. Por isso, nem se pode falar em recuperação, mas apenas em redução do tamanho da queda.

Crise é deflacionária e Banco Central vai agir | Cristiano Romero

- Valor Econômico

Crise que ameaça Temer afeta PIB e justifica queda maior da Selic

Os mercados deram ao Banco Central (BC) uma mensagem muito clara: a crise política que ameaça o mandato do presidente Michel Temer é deflacionária. Deflagrada em 17 de maio, quando o jornalista Lauro Jardim, de "O Globo", revelou diálogo comprometedor entre o presidente e o empresário Joesley Batista, um dos donos da JBS, a crise provocou, no primeiro momento, uma correção nos preços dos ativos, já praticamente revertida. Seu pior efeito, porém, foi abalar o ânimo dos empresários quando estes se preparavam para voltar a investir.

Esta análise é compartilhada por participantes do mercado, economistas de bancos e gestoras e integrantes da equipe econômica do governo. É crescente a percepção de que, com o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) derretendo, isto é, caindo bem abaixo da meta de 4,5%, as expectativas de inflação sob controle, a atividade econômica ainda bastante desaquecida e as contas externas operando no azul, o Comitê de Política Monetária (Copom) deveria acelerar a queda da taxa básica de juros (Selic), fixada hoje em 10,25% ao ano.

Uma Justiça sem obsessões – Editorial | O Estado de S. Paulo

Na segunda-feira passada, foi cumprida a ordem de prisão preventiva do sr. Geddel Vieira Lima, decretada pelo juiz Vallisney de Souza Oliveira, da 10.ª Vara Federal do Distrito Federal (DF). Como é de conhecimento público, a biografia do preso não inspira especial confiança. Geddel é alvo de denúncias desde os 25 anos de idade, quando foi acusado de desviar dinheiro do Banco do Estado da Bahia (Baneb). Depois esteve envolvido no escândalo dos anões do orçamento, no qual foi inocentado, e em acusações de mau uso de verbas do Ministério da Integração Nacional. Agora, a Justiça investiga sua atuação como vice-presidente de Pessoa Jurídica da Caixa Econômica Federal (CEF) durante o primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff. Segundo a delação do sr. Lúcio Funaro, Geddel teria recebido R$ 20 milhões a título de propina por sua participação em esquema de favorecimento a algumas empresas.

Diante de um caso grave assim, era de esperar um estrito cumprimento do processo penal. No entanto, a leitura da decisão da 10.ª Vara Federal do DF revela uma perigosa interpretação da lei e da delação premiada, que, em última análise, afeta as garantias individuais de todos os cidadãos.

Sentimento de impunidade ainda estimula corrupção – Editorial | O Globo

Prisão de Geddel Vieira, por tentar obstruir a ação da Justiça, é uma das provas de que investigados por corrupção não se atemorizam diante dos organismos de Estado

Desde o começo das investigações do mensalão, em 2005, passando pela condenação de mensaleiros, em 2012, chegando à Lava-Jato, lançada em 2014, até hoje, transcorreram 12 anos, e mesmo assim poderosos ainda continuam a ser presos em nítido delito. Isso, mesmo que haja correntes que considerem parcelas do Ministério Público e do Judiciário, envolvidas neste enfrentamento da corrupção, a reencarnação dos radicais jacobinos da Revolução Francesa e suas guilhotinas, ou a ressurreição de Torquemada, o frade da Inquisição espanhola responsável por despachar para sessões de tortura e fogueiras, alegadamente purificadoras, hereges, judeus, homossexuais etc.

Se eles espalharam o terror na França do final do Século XVIII e na Espanha medieval, no Brasil dos tempos que correm não assustam denunciados por corrupção. O ex-ministro Geddel Vieira é o mais recente exemplo em pessoa de que, apesar de denúncias de que agentes públicos perseguiriam suspeitos por sobre leis e a Constituição, os tais perseguidos não demonstram qualquer pudor em continuar na delinquência.

Orçamento insensato – Editorial | Folha de S. Paulo

Parece difícil entender como um governo cujo Orçamento supera o trilhão de reais tem dificuldades para reajustar o Bolsa Família ou, num exemplo mais prosaico, fornecer os passaportes requisitados –e pagos pelos cidadãos do país.

O aumento do benefício social custaria em 2017, conforme os cálculos oficiais, não mais que R$ 800 milhões. Ainda assim, a medida, programada para este mês, está suspensa por falta de recursos.

Quanto à emissão dos documentos de viagem, o Planalto teve de suplementar às pressas as verbas, que receberão novos R$ 102 milhões. Esgotam-se, segundo a Polícia Federal, os R$ 145 milhões programados de início para o ano.

Ambos os casos envolvem montantes pouco expressivos para os padrões da despesa federal e, ao mesmo tempo, medidas essenciais.

Cumprir meta fiscal ainda é um desafio para o governo – Editorial | Valor Econômico

Transcorrida a metade do ano, o cumprimento das metas fiscais continuam um desafio a ser vencido, diante do ceticismo de analistas privados. A receita de tributos até maio ainda caiu em termos reais, como resultado de uma economia em recuperação muito lenta e sujeita a reversões. Desde o início, o governo de Michel Temer colocou a alternativa do aumento de impostos como a última da fila das possíveis. O fato que a equipe econômica cogitar fazê-lo é um indicador de que aproxima-se a hora de reforçar o ajuste fiscal. O momento exato e a magnitude do aumento de tributos não se vislumbram com clareza, dada a grande incerteza em relação às receitas extraordinárias, que deverão ocorrer, se ocorrerem, no segundo semestre - algo na casa dos R$ 55 bilhões.

A criação de um teto de gastos pela inflação passada é uma promessa de desarme da armadilha da dívida. A dívida bruta continua dando saltos e atingiu em maio 72,5% do PIB, nada menos de 17 pontos percentuais acima de seu valor no fim de 2013. Analistas já consideram inexorável que até o fim do ano se estará no limiar dos 80% do PIB.

Defesa de Temer ataca acusação de Janot em 11 capítulos

Documento com quase cem páginas será entregue pelo criminalista Antônio Claudio Mariz de Oliveira nesta quarta-feira, 5, na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara

Fausto Macedo, Julia Affonso e Luiz Vassallo, O Estado de S. Paulo

Inexistência de provas de corrupção, ausência de conexão com a Operação Lava Jato, falta de autenticidade do áudio da conversa do empresário Joesley Batista com Michel Temer, ilicitude de gravação ambiental clandestina no Jaburu e um desafio aberto ao procurador-geral da República Rodrigo Janot para que prove em que circunstâncias o presidente teria recebido propinas da JBS formam a coluna central da linha de argumentos da defesa do peemedebista, a ser protocolada nesta quarta-feira, 5, na Câmara.

Entre 15hs e 16 hs, o criminalista Antônio Cláudio Mariz de Oliveira, advogado de Temer, entrega a defesa ao presidente da Comissão de Constituição e Justiça, deputado Rodrigo Pacheco (PMDB/MG).

É um documento de quase 100 páginas, dividido em onze capítulos que buscam fulminar ponto a ponto a acusação formal da Procuradoria-Geral da República contra o presidente. Perante o Supremo Tribunal Federal, Rodrigo Janot, chefe do Ministério Público Federal, atribui ao peemedebista corrupção passiva no caso JBS.

Sem citar a PGR, Aécio afirma ser vítima de 'trama ardilosa' em retorno ao Senado

No plenário do Senado, o senador mineiro defendeu o apoio do PSDB ao governo do presidente Michel Temer

Julia Lindner e Thiago Faria, O Estado de S.Paulo

Após 46 dias fora do Congresso Nacional, o senador Aécio Neves (PSDB-MG) fez seu primeiro discurso nesta terça-feira, 4. Em sua defesa, o tucano não fez citação ao procurador-geral da Republica, Rodrigo Janot, mas afirmou ser vítima de uma "trama ardilosa" e que seus familiares foram usados como “massa de manobra” por pessoas com “ausência de caráter”. No plenário do Senado, ele defendeu ainda que o PSDB mantenha o apoio ao governo do presidente Michel Temer que, "apesar das adversidades, continua a liderar" as reformas em discussão no Congresso.

"Retorno com o firme propósito de continuar trabalhando para permitir que o Brasil possa superar suas enormes dificuldades", afirmou Aécio, lembrando que ele, na condição de presidente do partido, condicinou o apoio ao governo à pauta das reformas trabalhista e da Previdência.

Deputado do PMDB é escolhido relator de denúncia contra Temer

Daniel Carvalho, Ranier Bragon, Bruno Boghossian, Angela Boldrini, Folha de S. Paulo

BRASÍLIA - O deputado Sergio Zveiter (PMDB-RJ) foi escolhido nesta terça-feira (4) para ser o relator da denúncia da PGR (Procuradoria-Geral da República) contra Michel Temer na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) da Câmara.

Apesar de o parlamentar ser do mesmo partido do presidente da República, integrantes do Palácio do Planalto preferiam outros nomes e afirmaram, nos bastidores, não ter visto com bons olhos a escolha.

A decisão foi do presidente da comissão, Rodrigo Pacheco (PMDB-MG), que, apesar de também ser da sigla de Temer, tem nos últimos meses agindo em uma linha de independência.

A sessão da CCJ desta terça foi tomada por discursos a favor e contra Temer e críticas da tropa de choque do presidente à PGR e aos irmãos Batista, da JBS.

Relator apresenta parecer a favor da indicação de Raquel Dodge

Senador cita atuação de subprocuradora em investigação do mensalão do DEM

Jailton de Carvalho, O Globo

-BRASÍLIA- O senador Roberto Rocha (PSB-MA) protocolou ontem na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado parecer favorável à indicação da subprocuradora-geral Raquel Dodge ao cargo hoje ocupado pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot. Num texto de cinco páginas, Rocha menciona como pontos altos da carreira de Raquel a atuação dela na Operação Caixa de Pandora, investigação sobre o mensalão do DEM, nos processos criminais contra o exdeputado Hildebrando Pascoal.

O relatório deve ser lido hoje, votado na próxima semana na CCJ e, em seguida, no plenário do Senado. Raquel foi indicada para chefiar o Ministério Público Federal (MPF) pelo presidente Michel Temer na última quartafeira, logo depois da divulgação da lista tríplice do MPF.

Para senador, nome tem ‘amplo apoio’ da categoria

Nas eleições da semana passada, Raquel ficou em segundo na lista tríplice

Denúncia não pode paralisar reforma, diz Alckmin

Por Fernando Taquari e Carolina Freitas | Valor Econômico

SÃO PAULO - Em mais um aceno ao governo Michel Temer, o governador paulista, Geraldo Alckmin (PSDB), disse ontem que a denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR) contra o presidente pemedebista pelo crime de corrupção passiva não pode ser usada como pretexto para adiar o avanço da reforma trabalhista no Congresso Nacional.

"Você não pode parar as instituições por causa disso. As coisas precisam caminhar", disse o tucano após participar da cerimônia de entrega de um trem da linha 11-Coral da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM). A despeito da pressão da ala jovem do PSDB pelo desembarque, Alckmin tem sido um dos principais fiadores da permanência do partido na base do governo Temer.

Em meio ao fogo cruzado entre integrantes do Planalto e do Ministério Público Federal, o governador reiterou o apoio ao presidente ao afirmar que as investigações são importantes, mas "não podem parar o Brasil". "Você tem que, de um lado, tocar a Lava-Jato e, de outro lado, não prejudicar a economia para as coisas caminharem", ressaltou.

Acaso | Fernando Pessoa (Álvaro de Campos)

No acaso da rua o acaso da rapariga loira.
Mas não, não é aquela.

A outra era noutra rua, noutra cidade, e eu era outro.

Perco-me subitamente da visão imediata,
Estou outra vez na outra cidade, na outra rua,
E a outra rapariga passa.

Que grande vantagem o recordar intransigentemente!
Agora tenho pena de nunca mais ter visto a outra rapariga,
E tenho pena de afinal nem sequer ter olhado para esta.

Que grande vantagem trazer a alma virada do avesso!
Ao menos escrevem-se versos.
Escrevem-se versos, passa-se por doido, e depois por gênio, se calhar,
Se calhar, ou até sem calhar,
Maravilha das celebridades!

Ia eu dizendo que ao menos escrevem-se versos...
Mas isto era a respeito de uma rapariga,
De uma rapariga loira,
Mas qual delas?
Havia uma que vi há muito tempo numa outra cidade,
Numa outra espécie de rua;
E houve esta que vi há muito tempo numa outra cidade
Numa outra espécie de rua;
Por que todas as recordações são a mesma recordação,
Tudo que foi é a mesma morte,
Ontem, hoje, quem sabe se até amanhã?

Um transeunte olha para mim com uma estranheza ocasional.
Estaria eu a fazer versos em gestos e caretas?
Pode ser... A rapariga loira?

É a mesma afinal...
Tudo é o mesmo afinal ...

Só eu, de qualquer modo, não sou o mesmo, e isto é o mesmo também afinal.

Roberta Sá - Água da minha sede

terça-feira, 4 de julho de 2017

Opinião do dia – Alexis Tocqueville

De minha parte, detesto os sistemas absolutos, que tornam todos os acontecimentos da história dependentes de grandes causas primeiras, ligadas entre si por um encadeamento fatal, e que eliminam, por assim dizer, os homens da história do gênero humano. Considero-os estreitos em sua pretendida grandeza e falsos em seu ar de verdade matemática. Creio – e que não se ofendam os escritores que têm inventado essas sublimes teorias para alimentar sua vaidade e facilitar seu trabalho – que muitos fatos históricos importantes só podem ser explicados por circunstâncias acidentais e que muitos outros são inexplicáveis; e enfim que o acaso – ou antes o entrelaçamento de causas secundárias, que assim chamamos por não sabermos desenredá-las – tem um grande papel em tudo o que vemos no teatro do mundo; mas creio firmemente que o acaso nada faz àquilo que, de antemão, já não esteja preparado. Os fatos anteriores, a natureza das instituições, a dinâmica dos espíritos e o estado dos costumes são os materiais com os quais o acaso compõe os improvisos que nos assombram e nos assustam.

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Alexis Tocqueville (1805-1859), “Lembranças de 1848” p. 104, Companhia de Letras, 2011.

Werneck Vianna: É preciso coragem, paciência e ética de responsabilidade para interromper a modernização autoritária.

Entrevista especial com Luiz Werneck Vianna

Por: Patricia Fachin | IHU On-Line, 03 Julho 2017

Para explicar a absolvição da chapa Dilma-Temer no Tribunal Superior Eleitoral – TSE em meio a uma série de escândalos políticos, disputas e apostas em torno da permanência de Michel Temer na Presidência da República até a sucessão presidencial em 2018, o sociólogo Luiz Werneck Vianna recorre a Max Weber para defender que o que tem imperado no país, especialmente na decisão do TSE, é uma ética da responsabilidade. O que, segundo ele, não significa a ausência de uma ética de convicções. “Essas duas éticas não se contrapõem, ao contrário do que certas opiniões ingênuas formulam, elas se complementam. O estadista, o homem de Estado verdadeiro, é aquele que é capaz de ser fiel a uma ética de responsabilidade sem abdicar das suas convicções, fazendo com que essas convicções estejam presentes na sua tomada de posição, que tem que considerar o mundo”, afirma.

De acordo com ele, embora houvesse “elementos para a condenação da chapa no Tribunal Superior Eleitoral”, diante do caos em que o país se encontra, “o formalismo jurídico não vai levar a lugar nenhum” e, portanto, outros elementos foram considerados na decisão política dos juízes do TSE. “Acredito que naquela decisão esteve presente, sim, um cálculo político dos juízes que resolveram absolver a chapa, com uma ética de responsabilidade, pois onde nos teria levado uma ética de convicção estranha e exótica à da responsabilidade? Onde? Está se preparando a sociedade para uma saída à direita, é isso? Ela está aí, rondando”, diz.

Embora faça elogios e críticas à atuação do Ministério Público e do Judiciário na cena política, Werneck Vianna insiste que o que falta ao país é “clarividência”, “reflexão” e um “projeto”. “Temos que ir aos fundamentos nessa hora de caos em que todas as referências estão sendo destruídas. Temos que voltar um pouco para a nossa própria história. (...) Por que mudamos de orientação e fizemos com que uma era, que se abria com uma plataforma de interromper a modernização autoritária que nos vinha dos anos 30, não fosse levada adiante? Por que de repente nós aderimos à modernização autoritária? Por que a esquerda aderiu às práticas econômicas dos governos do regime militar?”, questiona.

Embora seja favorável à Operação Lava Jato, Werneck questiona: “Como se sai desse buraco? Colocando 80% dos políticos na cadeia, é isso?” E adverte: “Nós temos que criar mercado de trabalho para 14 milhões de brasileiros, que estão à míngua. Uma coisa é a defesa de programas ético-morais, outra coisa é esse moralismo rastaquera, que está dominando a mídia, a opinião das redes sociais”.

Na entrevista a seguir, concedida por telefone à IHU On-Line na última sexta-feira (30-06-2017), Werneck analisa a conjuntura política e comenta a escolha da subprocuradora-geral da República Raquel Dodge, que irá substituir Rodrigo Janot à frente da Procuradoria Geral da República a partir do dia 17 de setembro. A decisão, frisa, representa uma “lufada de ar fresco nesse ar viciado que aí está”.

Luiz Werneck Vianna é professor-pesquisador na Pontifícia Universidade Católica - PUC-Rio. Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo, é autor de, entre outras obras, A revolução passiva: iberismo e americanismo no Brasil (Rio de Janeiro: Revan, 1997); A judicialização da política e das relações sociais no Brasil (Rio de Janeiro: Revan, 1999); e Democracia e os três poderes no Brasil (Belo Horizonte: UFMG, 2002). Sobre seu pensamento, leia a obra Uma sociologia indignada. Diálogos com Luiz Werneck Vianna, organizada por Rubem Barboza Filho e Fernando Perlatto (Juiz de Fora: Ed. UFJF, 2012).

Confira a entrevista.
IHU On-Line — Segundo uma pesquisa recente, a percepção de 95% dos brasileiros é a de que o Brasil não está no rumo certo. Considerando a situação política do país, a sua percepção também é essa?

Luiz Werneck Vianna — Qual é o rumo certo? Essa questão do rumo é complicada; é quase uma questão metafísica.

IHU On-Line — Mas considerando a crise atual em torno do presidente da República e o impeachment da ex-presidente Dilma, era de se esperar que o país estivesse nessa situação de crise continuada?

Luiz Werneck Vianna — O impeachment, como já disse em alguns artigos e em entrevistas para o IHU, é sempre muito traumático, é uma solução extrema e que deixa sequelas, e as sequelas estão aí. Os partidos e as personalidades que foram atingidos pelo impeachment estão respondendo às circunstâncias posteriores de forma muito irracional e sensorial. Mas imagino que isso também vai se esvair, assim como em outras circunstâncias; o tempo ajuda.

Por que de repente nós aderimos à modernização autoritária? Por que a esquerda aderiu às práticas econômicas dos governos do regime militar?

Na medida em que a sucessão presidencial se aproxima, novos tempos, novos temas e novas questões vão se impor, inclusive essa com a qual você iniciou a entrevista, sobre os rumos. A sociedade vai definir, entre os candidatos dos partidos, os rumos a seguir. Não vai se voltar à política econômica da época de Dilma; acho isso de uma improbabilidade absoluta. Aquela política nos levou a uma situação muito ruim do ponto de vista econômico, social e político. A sucessão presidencial tende a nos devolver aos trilhos da racionalidade à medida que os novos candidatos vão ter que oferecer plataformas exequíveis, persuasivas e estimulantes. Mas é preciso voltar a crescer.

A renovação política em 2018 | *Murillo de Aragão

- O Estado de S.Paulo

Caminho para alavancar uma candidatura não alinhada com o antigo será o das redes sociais

Uma das perguntas mais recorrentes em minhas palestras é como e se o novo prevalecerá nas eleições de 2018. A pergunta parte do pressuposto de que existe um notável sentimento antipolítico na sociedade e que, a partir dessa constatação, seria mais do que natural uma grande renovação do sistema político.

No entanto, existem condições muito duras para que o novo prevaleça. A primeira barreira para a disseminação do novo, que chamarei de novos entrantes, são as regras atuais. O marco regulatório das eleições estabelece regras para a distribuição de fundos partidários e para o uso de tempo de televisão. Ambas são críticas para a campanha eleitoral e estabelecem uma situação de privilégio para as estruturas partidárias tradicionais.

Grandes partidos ganham mais verbas, mais tempo de televisão e, na maioria das vezes, mais prefeituras. Ora, numa competição em que haverá escassez de recursos – pela ausência de financiamento empresarial e pela debilidade das doações individuais – o maior financiador da campanha será o Fundo Partidário.

O fato novo | Merval Pereira

- O Globo

Uma máxima que sempre foi levada muito a sério pelos profissionais do PMDB é a que diz que em política existem apenas dois fatos que importam: o fato novo e o fato consumado.

A prisão do ex-ministro Geddel Vieira Lima é um desses fatos novos que afetam diretamente a estabilidade do governo Temer, que ele já havia abalado ao ter que se demitir da Secretaria de Governo, devido a uma disputa com o então também ministro da Cultura Marcelo Calero, em torno de um prédio em Salvador, no qual tinha um apartamento, que infringia regras do patrimônio da União. Geddel insistia em liberar.

Uma atuação vulgar que revelava o caráter patrimonialista que rege o grupo do PMDB que chegou ao poder com Temer. Esse fato novo se junta a outros que estão na fila para serem revelados, como a delação do doleiro Lúcio Funaro — responsável pela prisão de Geddel —, a provável delação do expresidente da Câmara Eduardo Cunha e a possível delação do ex-assessor Rodrigo Rocha Loures.

O elo do crime | Míriam Leitão

- O Globo

A prisão de Geddel Vieira Lima é mais um passo para perto do presidente Michel Temer, mas é também mais um fato revelador de que o grande beneficiário desse crime permanece, e assim será, fora do alcance da Justiça. O que está sendo investigado pela Sépsis e pela Cui Bono é o uso do dinheiro do FGTS para empréstimos fraudulentos, e o maior deles foi ao grupo J&F.

Geddel, que há um ano era o todo poderoso ministro da Secretaria de governo de Temer, responsável pela relação entre o executivo e os políticos, está hoje em prisão preventiva, sem data para sair. Antes disso, ele já havia perdido o poder depois de ser pego num flagrante de tráfico de influências e uso do poder político para interesses pessoais.

O que o levou para a prisão foi o ato de rondar um ex-comparsa preso e que pode relatar o seu envolvimento na corrupção na Caixa Econômica. A suspeita é de obstrução de Justiça.

Saída negociada | Eliane Cantanhêde

- O Estado de S.Paulo

Diretor-geral da PF entrou no cargo no início do governo Dilma e já viu seis ministros passarem pelo ministério da Justiça

A troca do diretor-geral da Polícia Federal nunca é simples, mas se tornou particularmente delicada com o avanço da Lava Jato sobre o Executivo e o Legislativo e a gritaria, dia sim e outro também, sobre supostos golpes contra a maior operação de combate à corrupção da história. Foi assim que Leandro Daiello foi se tornando “imexível”, mas ele pode estar se cansando.

Daiello assumiu a direção-geral em janeiro de 2011, no início do governo Dilma Rousseff, foi mantido no de Michel Temer e já está no sexto ministro da Justiça. Desde a Olimpíada do Rio, em agosto de 2016, ele já pediu para sair pelo menos três vezes, mas um ministro atrás do outro recusa a demissão.

Jacaré na jaula | Bernardo Mello Franco

- Folha de S. Paulo

Não durou três dias o alívio do governo com a libertação do deputado da mala. No sábado, o Planalto festejou a soltura de Rodrigo Rocha Loures. Na segunda, voltou a se assustar com outra prisão: a do ex-ministro Geddel Vieira Lima.

O peemedebista é um dos aliados mais próximos de Michel Temer. Os dois atuam em parceria desde a década de 90, quando viraram colegas na bancada do PMDB na Câmara. No ano passado, Geddel estava sem mandato e voltou a Brasília para ajudar a aprovar o impeachment. Foi recompensado com o posto de ministro da Secretaria de Governo.

O articulador caiu em novembro, acusado de usar o cargo para liberar a construção de um espigão em área tombada de Salvador. Na carta de demissão, descreveu Temer como um presidente "sério, ético e afável" e o chamou de "fraterno amigo".

O Brasil tem ideologia? | Joel Pinheiro Da Fonseca

- Folha de S. Paulo

A distinção entre esquerda e direita é daquelas que parecem óbvias mas, quando olhadas de perto, se desfazem. O Datafolha realizou em junho sua pesquisa sobre a inclinação ideológica do país. Os resultados dão pano para discussão, mas refletem também as dificuldades do tema.

Os problemas começam na definição. Os rótulos agrupam coisas muito diferentes. Isso já é verdade para a esquerda: será mesmo que o socialismo modelo soviético é um modelo puro do qual a social-democracia europeia é uma versão parcial, imperfeita? No saco de gatos da direita, então, a confusão é total, pois ele agrupa posicionamentos que são rigorosamente opostos: de nacionalismo econômico e conservadorismo moral de um lado a, de outro, liberalismo econômico e individualismo moral (a crença de que cada um deve poder decidir sobre sua própria vida).

A ‘Constituição teórica’ – Editorial | O Estado de S. Paulo

Entre as esquisitices dos tempos atuais, tem-se observado, com crescente frequência, a defesa de algumas ideias destoantes da Constituição como se elas fossem o suprassumo do espírito democrático. É um insidioso sofisma, que tenta fazer com que opiniões pessoais prevaleçam sobre normas que estão no ápice do ordenamento jurídico.

Essa inversão de hierarquia foi vista, por exemplo, na movimentação de alguns grupos por eleições diretas no caso de o presidente Michel Temer deixar o cargo. Há na Constituição uma regra para tal situação. “Ocorrendo a vacância nos últimos dois anos do período presidencial, a eleição para ambos os cargos será feita trinta dias depois da última vaga, pelo Congresso Nacional, na forma da lei”, fixa o art. 81, § 1.º da Carta Magna.

Não obstante a clareza do texto, houve quem divulgasse a ideia de que o respeito a essa disposição constitucional seria formalismo jurídico. Nessa enviesada visão das coisas, a pretensa restauração da democracia exigiria desobedecer à Constituição. Apesar do barulho que é feito por seus mentores, um postulado com esse teor tem poucas chances de sobrevivência, tendo em vista sua manifesta contradição. A Constituição é o caminho institucional para a democracia no País, e não obstáculo.

A preocupante barganha política sobre o imposto sindical – Editorial | O Globo

Recuo na criação da contribuição espontânea dos trabalhadores impede modernização dos sindicatos e prejudica a própria reforma

Ao termo “insegurança jurídica”, usado em análises em vários campos, no econômico e fora dele, junta-se agora o da “insegurança política”, para designar o risco que projetos em tramitação no Congresso enfrentam devido à vulnerabilidade do presidente Michel Temer, na dependência de votações na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara e no plenário da Casa para saber se será processado, ou não, pelo Supremo.

Cada projeto de importância que esteja na pauta do Congresso vira matéria de barganha entre parlamentares e Planalto em torno do destino de Temer. Padece de “insegurança política”.

Infelizmente, a proposta de reforma trabalhista, em fase de votação final pelo Senado, está sobre a mesa, em negociação. E nela, a principal vítima pode ser o fim do imposto sindical, convertido em contribuição espontânea, emenda correta feita ao projeto na sua passagem pela Câmara.

Ideologia nacional – Editorial | Folha de S. Paulo

Pouco mais de um ano depois que o PT foi substituído no poder federal por uma coalizão liderada pelo PMDB, hoje igualmente impopular, os brasileiros de novo se mostram divididos entre posições à esquerda e à direita.

Na mais recente pesquisa do Datafolha, nota-se oscilação rumo à primeira do pêndulo ideológico nacional, quando se comparam as preferências manifestadas agora com as de quase três anos atrás.

Em setembro de 2014, conforme os critérios do levantamento, 45% do eleitorado identificava-se com pontos de vista tidos em geral como mais conservadores, enquanto 35% apoiavam ideias comumente associadas ao campo oposto.

Agora, apurou-se um empate técnico —de 40% a 41%, respectivamente— que reproduz o equilíbrio observado em novembro de 2013, na primeira sondagem do tipo realizada pelo instituto.

Saldos comerciais garantem sossego nas contas externas | Editorial | Valor Econômico

Uma luz amarela acendeu nas contas externas no mês passado, quando o mercado de câmbio começou a refletir a intranquilidade dos investidores estrangeiros frente à turbulência desencadeada nos mercados financeiros pelas acusações da delação dos donos da JBS ao presidente Michel Temer. Dados parciais registrados até o dia 23 mostravam um fluxo cambial negativo de US$ 5,3 bilhões. Se as operações ficaram no zero a zero nos dias seguintes, esse número já era suficiente para o mês fechar com o pior resultado do ano. Novas informações a respeito estarão disponíveis amanhã.

As saídas de dólar concentraram-se nas operações de câmbio da conta financeira, que ficou negativa em US$ 8,6 bilhões nos 23 primeiros dias de junho, incluindo empréstimos, investimentos, serviços e rendas. Desde o início de maio, o saldo negativo da conta financeira totalizou US$ 13,8 bilhões, concentrando em menos de dois meses quase 60% das saídas de US$ 23,7 bilhões acumuladas no ano. Como as exportações têm registrado desempenho bastante positivo, as operações de comércio exterior compensam essas saídas. Por isso, o saldo total do mercado está positivo em US$ 6,5 bilhões no ano. No entanto, o comportamento recente do investidor estrangeiro levou o Banco Central (BC) a revisar as expectativas para as aplicações externas em renda fixa de US$ 10 bilhões para zero; e as em ações, de saída de US$ 7 bilhões para zero.

Inadimplência, mais um freio – Editorial | O Estado de S. Paulo

Se depender dos gastos familiares, a economia continuará em marcha lenta – avançando, quase certamente, mas sem grandes arrancos. Isso deve perdurar pelo menos até uma boa limpeza nos orçamentos caseiros. Em maio, com mais 900 mil nomes adicionados à lista, o número de consumidores inadimplentes chegou a 61 milhões, segundo a Serasa Experian. Foi o maior contingente registrado na série iniciada em 2012. Isso corresponde a quase um terço da população brasileira, incluídos bebês, crianças e jovens menores de idade. Desemprego ainda muito elevado, com 13,8 milhões de desocupados no trimestre de março a maio, e crédito escasso e caro são obviamente as principais explicações. Um ano antes, o cadastro apontava 59,5 milhões de inadimplentes.

Pessoas com dívidas em atraso pouco poderão contribuir para a recuperação dos negócios no varejo. Mantido esse quadro, o consumo das famílias até poderá crescer mais que o investimento privado, neste ano, mas ainda avançará em ritmo insuficiente para tirar do já prolongado marasmo a economia nacional. A seca do crédito prossegue, embora a taxa básica de juros, a Selic, esteja em baixa desde outubro. Há cautela de lado a lado. Os bancos permanecem muito cuidadosos na concessão de empréstimos, enquanto os tomadores – pessoas jurídicas e físicas – se mantêm prudentes na busca de financiamentos.

PT prevê protestos se Lula for condenado

Por Ricardo Mendonça | Valor Econômico

SÃO PAULO - A poucos dias - ou horas - da primeira sentença do juiz Sergio Moro em caso que tem o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva como réu, petistas dão ênfase ao discurso de que o Ministério Público não conseguiu provas materiais para sustentar a acusação e prometem mobilizar a militância para uma onda de protestos, caso o magistrado decida pela condenação.

Lula é acusado de ter recebido propina da construtora OAS por meio da reforma de um tríplex num edifício no Guarujá, litoral paulista. A defesa diz que o apartamento nunca pertenceu a Lula e que ele só esteve no local uma vez, quando teria desistido da compra. Os dois lados já apresentaram alegações finais no processo, restando agora só a sentença.

Lula participou ontem de reunião da executiva estadual do PT em São Paulo, com a presença da nova presidente nacional da sigla, a senadora Gleisi Hoffmann (PR). Após o encontro, o presidente estadual do PT, Luiz Marinho, afirmou que uma eventual condenação irá mobilizar a militância automaticamente, "como foi automática e espontânea no episódio da condução coercitiva do presidente". Na ocasião, em março de 2016, houve início de aglomeração ao redor do aeroporto de Congonhas, para onde Lula foi levado.

PT já prepara protestos caso Lula seja condenado por tríplex

Partido pretende ir às ruas se Sergio Moro der sentença contra o ex-presidente

Sérgio Roxo, O Globo

-SÃO PAULO- O PT já prepara uma ofensiva para responder a uma eventual condenação do ex-presidente Lula pelo juiz Sergio Moro no caso do tríplex do Guarujá. Dirigentes do partido afirmam que militantes vão se mobilizar da mesma forma que ocorreu na condução coercitiva do petista, em março do ano passado. Na ocasião, simpatizantes foram ao aeroporto de Congonhas, onde ocorria o depoimento, para protestar.

Antes da divulgação da sentença, a estratégia tem sido adotar o discurso de que não há provas no processo para embasar uma condenação. Todas as fases do processo já foram concluídas e falta apenas a sentença do juiz.

— Esperamos que o Sergio Moro seja efetivamente juiz e julgue conforme as provas dos autos e não com convicção, com base simplesmente em delação. Se vier a condená-lo, vamos fazer todo o debate com protestos e repúdio — disse o presidente do PT de São Paulo, Luiz Marinho, após se reunir ontem com Lula e parlamentares da legenda.

Na semana passada, a presidente nacional do PT, Gleisi Hoffmann, que também participou da reunião de ontem com o ex-presidente, disse, por meio de nota, que a militância da legenda está mobilizada para “dar a resposta adequada para qualquer sentença que não seja absolvição completa e irrestrita”.

Lula cobra maior empenho do PT na oposição a Alckmin

Catia Seabra, Folha de S. Paulo

SÃO PAULO - O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva reclamou, nesta segunda-feira (3), da timidez do PT de São Paulo na oposição ao governo do tucano Geraldo Alckmin e na defesa do partido.

Reunido com as bancadas do partido em São Paulo, Lula afirmou que os petistas têm aliviado a administração Alckmin e gastado muita energia nas críticas à gestão do prefeito João Doria, também do PSDB.

Segundo participantes da reunião, Lula ponderou que, nos primeiros seis meses de mandato, os governantes são bem avaliados. Após fazer uma enquete com os prefeitos presentes ao encontro, o o ex-presidente disse que Doria é um exemplo dos administradores que gozam de grande popularidade no início da gestão.

Mas que Alckmin tem sido poupado. Por isso, seu governo deve ser dissecado.