sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

Luiz Werneck Vianna*: Em política o que é, é.

A sociedade está entregue a si mesma, ao desamparo de partidos e de vozes que a representem e mesmo assim, por meio de suas instituições ou até por fora delas, tem-se demonstrado capaz de se defender da pandemia que nos infesta diante de um governo omisso e até conivente com ela por sua postura refratária às prescrições recomendadas pela ciência. Contudo, apesar dele, os brasileiros acorrem em massa aos postos de vacinação e ao uso de máscaras e se disseminam práticas de autodefesa nas periferias por meio de práticas solidárias, especialmente nos seus setores subalternos afligidos por uma situação de miséria crescente. O credo neoliberal vocalizado em tom triunfante por Margareth Thatcher de que essa coisa de sociedade não existe tem encontrado refutação eloquente na cena brasileira atual.

A constatação desse fato benévolo torna ainda mais gritante a ausência dos partidos políticos democráticos, principalmente os de esquerda, nos movimentos sociais, limitados às suas ações no âmbito parlamentar numa conjuntura onde ainda se fazem presentes ameaças reacionárias e fascistas. No mundo desertificado da política atual não se pode fazer ouvidos moucos a importante iniciativa de dois próceres da nossa política, Lula e Alkmin, de conceber uma ampla coalizão a fim de pela via eleitoral fechar as portas para o caminho de desgraças que acomete o país.

Fernando Gabeira: No embalo da pandemia

O Estado de S. Paulo.

Assim como nos Estados Unidos, embora não seja o único tema, a covid-19 terá certamente um peso eleitoral no Brasil

O ano começa com um problema que não nos deixou: a pandemia. Embora não tenha condições científicas de afirmar, parece que uma nova onda de covid-19 se abate sobre o Brasil, trazida pela variante Ômicron. Baseio-me em observações pessoais, muitos conhecidos testando positivo e também pelo crescimento do número de testes nas farmácias.

O líder do governo na Câmara, Ricardo Barros, afirma que no processo eleitoral a pandemia já estará esquecida. Naturalmente que a performance de Bolsonaro não o ajuda e os políticos que o apoiam querem passar uma borracha sobre o tema.

Mas o próprio Bolsonaro, se não bastasse a Ômicron, se dedica a prolongar a polêmica sobre a pandemia. No momento em que a imunização já avançava, ele investiu contra o passaporte sanitário. Na entrada do ano, o governo dedica-se a empurrar com a barriga a vacinação infantil, por orientação do próprio Bolsonaro.

Assim como nos Estados Unidos, embora não seja o único tema, a pandemia terá certamente um peso eleitoral. A resistência de Bolsonaro à vacinação infantil deve afastá-lo mais ainda do eleitorado feminino. Sem contar que muitas crianças voltam às aulas sem que o processo tenha sido realizado integralmente, aumentando os riscos.

Eliane Cantanhêde: Viajando na maionese

O Estado de S. Paulo

Ômicron, Delta, influenza, ‘flurona’, enchentes, rebelião do funcionalismo. E daí?, dirá Bolsonaro

É uma provocação barata e desnecessária do presidente Jair Bolsonaro sair de um hospital de São Paulo e no mesmo dia pegar outro voo para ir a um jogo de futebol de cantores sertanejos em Goiás. Dos jet skis, das férias do Natal, das férias do ano novo e da nova obstrução direto para a campanha eleitoral. Governar, que é bom, necas.

E que tal mandar interromper as férias do seu médico no Caribe para em seguida cair num jogo de futebol, enquanto inundações e enchentes da Bahia se estendem por Maranhão, Tocantins, Paraná, Minas e a própria Santa Catarina das férias presidenciais, ameaçando a vida, as casas e os bens de milhares de brasileiros?

Enquanto isso, também, a Ômicron já matou o primeiro brasileiro, em Goiás, e a covid corre solta mundo afora e acende o sinal vermelho no Rio, São Paulo, Minas, Pernambuco, Bahia, Rio Grande do Sul, além do DF, onde o número de casos deu um salto de 900% do Natal aos primeiros dias de 2022.

Luiz Carlos Azedo: A pedagogia do mau exemplo na campanha antivacinas

Correio Braziliense

Bolsonaro sabota a estratégia de imunização das crianças. É um péssimo exemplo para a saúde pública.  A subnotificação está mascarando a verdadeira dimensão da quarta onda de Covid-19

O presidente Jair Bolsonaro (PL) voltou a criticar a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) por liberar a vacinação do público pediátrico de 5 a 11 anos. Chamou os cientistas e médicos que defendem a vacinação das crianças a partir dos cinco anos de “tarados da vacina” e reiterou que a sua filha, de 11, não será vacinada. Sua ofensiva contra a vacinação de crianças e pré-adolescentes ocorre num momento em que explodem os casos de influenza e de covid-19, inclusive com transmissão comunitária da variante ômicron. Pronto- socorros e ambulatórios estão lotados, houve aumento exponencial da procura por testes de covid-19.

Os números registrados nos Estados Unidos, Europa e Ásia revelam que a quarta onda da pandemia de covid-19 é uma realidade, com o registro de mais de 2,5 milhões de casos por dia. A interpretação do ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, de que o Brasil está fora dessa rota não corresponde à realidade. Além disso, corrobora as suspeitas de que o apagão de dados do SUS pode ter sido provocado por hackers, mas a demora para resolver o problema faz parte da má vontade e das manobras protelatórias do governo federal contra a vacinação. O ministro está incorrendo nos mesmos erros que o general Eduardo Pazuello cometeu à frente do Ministério da Saúde, ao se submeter aos caprichos do presidente da República e dar as costas à população em situação de risco sanitário.

César Felício: Contrato nupcial entre desiguais

Valor Econômico

PSB está com pouco poder de barganha para negociar com PT

A federação partidária é uma velha aspiração do PSB. Não à toa foi um parlamentar do partido que propôs o projeto aprovado no ano passado. Isso em 2015, iniciativa do então senador Antonio Carlos Valadares.

O parceiro preferencial de quase todas as articulações partidárias sempre foi o PT. Está claro, portanto, que ainda que possam acontecer outros matrimônios no jogo das legendas, os protagonistas da novela que o mundo político acompanha são PT e PSB. Partidos de centro-direita podem se federar, mas a Federação é uma antiga ideia da centro-esquerda.

Andam mal as negociações, dada a resistência petista em ceder espaços, e caciques partidários de fora da esquerda apostam que o casamento não irá se concretizar.

“A questão central é a governança. Vai ser preciso um estatuto da federação. São muitas as dúvidas. As convenções serão conjuntas ou cada sigla terá que fazer a sua? se forem juntas, como vai ser a ponderação? quem vai ter mais peso?”, indaga um adversário certo da esquerda este ano.

Bernardo Mello Franco: A advogada e o general

O Globo

Eny Moreira estudava Direito em Juiz de Fora quando leu um perfil de Sobral Pinto, o lendário defensor de presos políticos. Largou a revista e avisou a mãe: “Vou trabalhar com esse homem”. Determinada, viajou para o Rio e madrugou à espera do advogado na porta de uma igreja. No dia seguinte, estava contratada como estagiária. A parceria se estenderia por 15 anos.

Conhecida pela coragem, Eny chegou a ser presa duas vezes. Não se limitou a defender as vítimas do autoritarismo. Também denunciou as torturas praticadas nos porões. Em 1971, pediu a abertura de inquérito contra o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, chefe do DOI-Codi paulista. Protestava contra as agressões ao estudante Paulo Vannuchi, que 34 anos depois se tornaria ministro dos Direitos Humanos. “Minha petição sumiu como num passe de mágica, nunca foi tomada providência”, contou, em entrevista para o livro “Advocacia em tempos difíceis”.

Eny denunciou a farsa do julgamento de Virgílio Gomes da Silva, participante do sequestro do embaixador americano. Na tribuna, disse o que as autoridades fingiam ignorar: o guerrilheiro já havia sido morto na tortura. Irritado, o juiz cassou sua palavra e ameaçou expulsá-la do tribunal.

Bruno Boghossian: A fumaça do Capitólio brasileiro

Folha de S. Paulo

Apesar de armistício, acrobacias antidemocráticas do presidente terão efeito em 2022 e no futuro

Donald Trump não conseguiu melar a eleição de 2020, mas teve sucesso em seu plano B. Um ano depois da invasão do Capitólio, um terço dos americanos acredita na informação falsa de que a disputa foi fraudada para favorecer Joe Biden, e quase metade dos republicanos não aceita até hoje a vitória do democrata.

O ex-presidente adubou o terreno político dos EUA para preservar sua influência. Mesmo derrotado, ele se consolidou como líder de um processo de divisão da sociedade americana que se tornou uma importante ferramenta eleitoral da direita.

O trumpismo se firmou como uma linha central do Partido Republicano. Dirigentes se recusam a condenar a tentativa de golpe de 6 de janeiro de 2021, tratam o ex-presidente como um candidato competitivo para 2024 e pegam carona nas fantasiosas alegações de fraude para aprovar medidas que restringem o voto de potenciais eleitores democratas.

Flávia Oliveira: Volta que deu ruim

O Globo

A esta altura, esperava confirmar duas semanas de férias em Salvador (BA) e reencontrar, no 2 de Fevereiro, a celebração a Iemanjá que se tornara tradição dos meus verões. Esperava não temer assistir presencialmente ao show de Maria Bethânia, após um par de anos aplaudindo-a do sofá. Esperava frequentar ensaios de rua das escolas de samba, abraçar os amigos, franquear a todos os queridos a visita a meu neto, nascido há um ano, no momento mais agudo da pandemia da Covid-19. Mas, a exemplo de ilustração viralizada há tempos sobre a ponta final da Teoria da Evolução, tive de encarar o espelho e proclamar: “Volta que deu ruim”.

É hora de reconhecer que a reabertura foi exagerada e precipitada. Antes mesmo da multiplicação da variante Ômicron, Brasil e mundo afora, o surto —no Rio de Janeiro, epidemia — fora de época da gripe H3N2 estava a confirmar. Abolimos as máscaras, abrimos a porteira, saímos às ruas, os vírus nos alcançaram. As celebrações de fim de ano — incluído o Réveillon carioca descentralizado em dez queimas, com a Praia de Copacabana restrita — deram numa confirmação de casos de Covid-19, que não produziu luto como em janeiro de 2021 em Manaus, porque a vacinação foi robusta. Não sei você, mas eu não me lembro de tantos conhecidos simultaneamente confirmados com a doença em dois anos de pandemia.

Hélio Schwartsman: Ômicron arrasa as escalas de trabalho

Folha de S. Paulo

Autoridades poderiam avaliar reduzir prazos de isolamento de profissionais de saúde

Embora os trabalhos ainda não tenham sido publicados em "journals", já dá para afirmar com alguma segurança que a variante ômicron do Sars-CoV-2 causa uma doença menos grave do que a delta. Acrescente-se a isso o fato de que, pelo menos nos países de renda alta e média, a vacinação está em geral bem avançada e temos bons motivos para crer que não veremos mais taxas de mortalidade como as de ondas anteriores.

Ainda assim, a ômicron pode ser bem disruptiva. O problema é que ela é muito, muito mais infecciosa do que as cepas precedentes. Quem conferir os gráficos de contágio em diferentes países constatará que, nas ondas prévias, as curvas de novos casos lembravam morros e até montanhas escarpadas. Mas, com a ômicron, o que vemos são paredões verticais mesmo. Se ainda não registramos isso no Brasil, é porque testamos pouco e mal e porque o sistema nacional de contabilização está bichado.

José de Souza Martins*: Ruy Ohtake e a moradia de gente

Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

Morto em novembro, arquiteto foi interlocutor de grande criatividade entre a cultura erudita de sua arte e a cultura popular e cotidiana das populações pobres

A morte, em novembro, do arquiteto Ruy Ohtake privou a inteligência brasileira de um personagem dos mais representativos de nossas possibilidades na área da cultura. Ele foi interlocutor de grande criatividade entre a cultura erudita de sua arte e a cultura popular e cotidiana das populações pobres.

O confinamento e as interdições decorrentes da epidemia da covid restringiram e abreviaram o tempo de sua disponibilidade para o diálogo enriquecedor com os que podiam aprender com ele. Como nós, que, na Academia Paulista de Letras, poderíamos ouvi-lo sobre suas ideias de superação da degradação urbana de São Paulo.

Filho mais velho da grande Tomie Ohtake, sua família foi criada no bairro industrial e operário da Mooca. O que pode ter influenciado sua sensibilidade em relação à situação dos que nasceram para o trabalho, mas não para os melhores frutos do trabalho. Uma característica própria da realidade social dos bairros e do subúrbio de São Paulo.

Prazo curto e impasses regionais emperram federação da esquerda

Indefinição marca as conversas entre partidos de centro-direita e de centro-esquerda sobre acordo

Por João Valadares e Marcelo Ribeiro / Valor Econômico

BRASÍLIA - Com resistências internas a serem superadas, calendário eleitoral apertado e muitas dúvidas sobre o funcionamento prático, partidos tentam destravar as negociações para a criação de federações. De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), as legendas têm até o dia 1º de março para solicitarem o registro formal da criação das associações.

Entre os dias 3 de março e 1º de abril, a janela partidária - período em que os deputados podem trocar de partido para concorrer às eleições sem risco de perderem o mandato - também esquenta o cenário eleitoral.

Novidade nas eleições de 2022, a possibilidade de formar federações surge após o fim das coligações e representa um mecanismo para driblar a cláusula de barreira imposta a siglas com baixas votações. Os partidos federados são obrigados a lançarem chapas conjuntas em todos os Estados e a atuarem unidos por quatro anos no Congresso e nas Assembleias Legislativas.

Apesar de a maioria das legendas já ter sinalizado em resoluções internas o encaminhamento para criação do novo mecanismo, a solução prática para formalizar a união não é simples. As disputas acirradas nos Estados entre partidos do mesmo campo acentuam as dificuldades.

Outro ponto de alerta nas legendas diz respeito às eleições municipais de 2024. Há receio sobre os critérios para escolha dos candidatos que vão representar a federação no Executivo e na Câmara dos Vereadores de 5.568 municípios brasileiros.

Na centro-direita, PSDB e Cidadania já iniciaram conversas, mas o tema não é tratado como prioridade.

No campo da centro-esquerda, PT e PSB ainda não chegaram a uma definição sobre o “casamento” de papel passado que pode incluir, além das duas siglas, PCdoB, PV, Psol e Rede.

O PSB, que se coloca como principal aliado do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na disputa presidencial deste ano, reivindica apoio petista a candidatos ao governo nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco, Rio Grande do Sul e Acre.

Em São Paulo, por exemplo, ainda não há definição sobre o arranjo envolvendo o ex-governador Márcio França (PSB) e o ex-prefeito Fernando Haddad (PT). Os dois são pré-candidatos ao governo paulista.

Biden: Trump ainda é uma ameaça à democracia americana

Lucas de Vitta / Valor Econômico

Biden acusou Trump de espalhar uma rede de mentiras sobre as eleições presidenciais de 2020

O presidente dos Estados UnidosJoe Biden, responsabilizou seu antecessor no cargo, Donald Trump, pelo ataque ao Congresso que chocou o mundo há um ano. Em um discurso para lembrar o aniversário da invasão, o democrata afirmou que o republicano continua representando uma ameaça à democracia e que o país precisa encarar esta realidade para evitar uma tragédia similar no futuro.

Sem citar Trump pelo nome, Biden acusou o ex-presidente de espalhar uma rede de mentiras sobre as eleições presidenciais de 2020 por simplesmente não aceitar perder, dificultando a transição de poder, algo inédito na história da democracia americana. Para ele, seu adversário incentivou que uma “insurreição armada” invadisse o Congresso para beneficiar seus próprios interesses e colocar Washington sob cerco.

“Aqui está a verdade: o ex-presidente dos EUA criou e espalhou uma teia de mentiras sobre as eleições de 2020”, disse Biden. “Ele fez isso porque valoriza mais o poder do que os princípios, porque vê seu próprio interesse como mais importante do que o interesse de seu país e porque seu ego ferido é mais importante do que nossa democracia ou nossa Constituição. Ele não consegue aceitar que perdeu.”

"Eu não busquei esta luta trazida a este Capitólio há um ano, mas também não irei recuar", continuou Biden. "Vou defender este país e não permitirei que ninguém coloque um punhal na garganta da democracia."

Ricardo José de Azevedo Marinho*: Sobre as medidas urgentes espanholas com vistas a reforma trabalhista

A pandemia da COVID-19 é uma emergência de saúde pública internacional, que originou grandes impactos a nível social e econômico, e que se teve de dar uma resposta imediata no plano sanitário, bem como através de um conjunto significativo de medidas de apoio aos desempregados e desempregadas, as empregadas e empregados e seus rendimentos.

A União Europeia (UE), tomando consciência da severidade da crise pandémica e dos seus profundos efeitos nos diferentes Estados-Membros, promoveu uma resposta coletiva e concertada, tendo os Estados-Membros acordado simultaneamente o Quadro Financeiro Plurianual para o período 2021-2027 e os instrumentos de recuperação europeia, designado de Próxima Geração da UE, aprovado no Conselho Europeu, em julho de 2020, ou seja, já havia a previsão de perdas geracionais ainda no princípio do primeiro ano pandêmico. Com efeito, os Estados-Membros comprometeram-se com uma visão de futuro conjunto, para dar forma nas mitigações dos efeitos que decorreriam da capacidade de resposta totalmente assimétrica dos Estados-Membros.

É neste contexto que se deve falar da proposta de reforma trabalhista na Espanha pois evoca um processo complexo de tempos diferentes onde a pandemia cruza um conjunto longuíssimo de mudanças que não conseguiram acabar com os seus graves problemas no seu mercado de trabalho. A conjunção de pandemia com a história institucional trabalhista espanhola extremamente complexa fez com que o trabalho por lá (e não só lá) fosse afetado ainda mais pelo desemprego, pelas más condições de emprego e impede a plena cidadania no trabalho.

O que pensa a mídia: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

O incendiário do Palácio do Planalto

O Estado de S. Paulo.

Com reajuste para forças de segurança, Bolsonaro encoraja funcionários públicos e policiais civis e militares a criarem um caos no País

O presidente Jair Bolsonaro armou mais uma crise para seu próprio governo ao prometer reajustes salariais às carreiras policiais ligadas ao Ministério da Justiça, deflagrando uma reação em todas as demais categorias de servidores públicos. Em um país que já sofre com inflação alta, juros em ascensão e desemprego elevado em meio ao recrudescimento de casos de covid-19 e, agora, também de influenza, tudo que a sociedade não precisava era de uma ameaça de greve. A entrega de cargos de chefia por funcionários da Receita Federal, Banco Central e auditores fiscais do Trabalho é mais um elemento de instabilidade para a economia, cujas projeções de crescimento foram reduzidas a 0,36% para este ano, conforme o mais recente boletim Focus.

A resposta da elite do funcionalismo cresce a cada dia, e nem poderia se esperar algo diferente. De acordo com o Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil (Sindifisco), cerca de mil servidores já abriram mão de funções comissionadas e, segundo o Sindicato Nacional dos Funcionários do Banco Central (Sinal), quase metade dos 3,5 mil em cargos de confiança teria se comprometido a fazer o mesmo. O Fórum Nacional Permanente de Carreiras Típicas de Estado (Fonacate), associação formada por mais de 30 entidades que representam 200 mil pessoas, marcou uma paralisação para 18 de janeiro e não descarta uma greve geral em fevereiro.

Poesia | João Cabral de Melo Neto: A mesa

O jornal dobrado

sobre a mesa simples;

a toalha limpa,

a louça branca

 

e fresca como o pão.

 

A laranja verde:

tua paisagem sempre,

teu ar livre, sol

tuas praias; clara

 

e fresca como o pão.

 

A faca que aparaou

teu lápis gasto;

teu primeiro livro

cuja capa é branca

 

e fresca como pão.

 

E o verso nascido

de tua mão viva,

de teu sonho extinto,

ainda leve, quente


e fresco como pão.

Música | MPB4 - Amigo é pra essas coisas

 

quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

Míriam Leitão: A conspiração contra as crianças

O Globo

As crianças brasileiras de 5 a 11 anos poderiam voltar às aulas em fevereiro já vacinadas, com duas doses, mas o governo não quis e continua não querendo vaciná-las. A entrevista de ontem no Ministério da Saúde em que, derrotado, o governo teve que incluir essa faixa etária no Programa Nacional de Imunização, foi um show de hipocrisia e dissimulação. Rendidos, ainda assim os integrantes da cúpula do Ministério, Marcelo Queiroga à frente, continuavam tentando espalhar as mesmas mentiras, incutir o medo, criar exigências descabidas.

O secretário de vigilância em saúde, Arnaldo Medeiros, mostrou dados para explicar que o número de infecções em crianças caiu. Ora, caiu porque houve um aumento da vacinação na população em geral e, portanto, queda da circulação do vírus.

A secretária extraordinária de Enfrentamento à Covid do Ministério da Saúde, Rosana Leite disse que houve muitas “demandas” e por isso eles “abriram o debate". Na verdade, eles inventaram uma audiência pública que nunca ocorreu no Programa Nacional de Imunização (PNI) para protelar ao máximo a vacinação das crianças. A secretária também disse que é “imprescindível” que se consulte um médico antes de vacinar. Não exigiram porque sabiam que a Justiça derrubaria, mas ela usou estrategicamente a palavra “imprescindível”. Nesse Brasil desigual, consultar um médico é fácil para os ricos e a classe média, mas não para os pobres."

Luiz Carlos Azedo: Lula aposta no confronto com Bolsonaro, centro não se unifica

Correio Braziliense

A aliança entre setores social-democratas, liberais e conservadores comprometidos com o Estado democrático de direito hoje não se materializa, porque nenhuma liderança foi capaz de traduzi-la.

O artigo do ex-ministro da Fazenda Guio Mantega sobre a política econômica do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, publicado ontem na Folha de São Paulo, na verdade um resumo do que pensa o grupo de economistas que o assessoram, desconectou o projeto petista do colapso econômico do governo Dilma Rousseff em 2015, o que despertou grande polêmica entre analistas e economistas. Ao mesmo tempo, demarcou claramente a candidatura de Lula como um projeto de esquerda, que batizou de social-desenvolvimentista, e não de centro-esquerda.

A narrativa de Mantega emula com o discurso nacional-desenvolvimentista do candidato do PDT, Ciro Gomes; ao mesmo tempo, aparta o projeto petista dos setores que defendem uma política social-liberal e de plena integração à economia mundial, o que pode facilitar a vida dos demais candidatos que lutam por um lugar ao sol na chamada terceira via: Sergio Moro (Podemos), João Doria (PSDB), Simone Tebet (MDB), Rodrigo Pacheco (PSD) e Alessandro Vieira (Cidadania). Essa agenda conta com certo consenso entre os agentes econômicos, porém, não sensibiliza o eleitorado, porque não enfrenta o problema das políticas públicas universalistas, do desemprego, da precarização do trabalho e das injustiças sociais.

William Waack: Uma mãozinha

O Estado de S. Paulo

As circunstâncias não são ruins para os adversários de Bolsonaro e Lula, mas falta ação

A última vez em que um candidato apostou com sucesso que as várias circunstâncias o ajudariam foi Bolsonaro em 2018. Assim mesmo, ele se empenhou em empurrar as circunstâncias a seu favor (via uso das redes sociais) e teve a facada como um imponderável decisivo (a política é o campo do imponderável). Só que 2018 não se repete, é o consenso geral entre analistas e agentes políticos.

Por isso é que jogar parado como Lula faz é uma tática arriscada sobretudo contra o tempo. Aparentemente o calejado estado-maior petista acha que tudo converge para uma vitória até em primeiro turno. Os “empurrões” (a mãozinha ajudando os fatos) são absolutamente previsíveis: acenos ao difuso “centro” (via Alckmin) e o apelo à memória de tempos melhores (como se sabe, nada muda mais do que o passado).

O problema para o cálculo político dos adversários de Lula e Bolsonaro é, em primeiro lugar, estabelecer se as circunstâncias estão atrapalhando ou ajudando as diversas candidaturas. Bolsonaro se esmera em reiterar o que tem de pior em termos de imagem, e Lula o que se espera de pior em termos de falta de ideias para tirar o País da estagnação (como demonstra sua opção de porta-voz para assuntos econômicos). Mas é essa a percepção geral do eleitorado? Ou só da minúscula parcela dos que se dedicam profissionalmente à política?

José Augusto Guilhon Albuquerque*: Tem Moro na costa

O Estado de S. Paulo

Seriam as expectativas otimistas suficientes para ele ter sucesso em montar uma candidatura com reais chances de ser competitiva?

Para os portugueses da época das invasões mouriscas, a presença de mouros na costa era, evidentemente, prevista, mas como, quando e onde tentariam o desembarque era imprevisível.

Que o ex-juiz da Lava Jato, Sergio Moro, poderia retomar sua breve carreira política estava previsto. Mas não era previsível como, quando ou onde ocorreria, nem muito menos que faria tábula rasa da pré-campanha eleitoral.

O retorno de Moro provocou um choque de realidade no processo sucessório, porque mostra que nem a reeleição de Bolsonaro nem a volta de Lula estão garantidas. Alguns candidatos, partidos e “analistas” deram sinal de alívio ou de esperança, outros se mostraram desapontados ou enraivecidos.

Com base no que tenho observado e compartilhado neste espaço, a entrada de um candidato competitivo na chamada terceira via poderia desacreditar a tática da polarização e, com isso, reduzir a pulverização do espaço da de centro. Minha hipótese é de que a polarização entre os extremos, somada à pulverização dos moderados, é o que abre caminho para candidatos aventureiros.

Roberto Macedo*: Cenário do PIB em 2022 é pior que resultado de 2021

O Estado de S. Paulo

Previsão do Boletim Focus para a variação do produto deste ano vem caindo, e a queda desta semana foi bem mais forte.

O primeiro Boletim Focus, do Banco Central, de 2022, publicado na segunda-feira passada, revelou cenário mais difícil para o Produto Interno Bruto (PIB) deste ano do que o observado em 2021. O boletim é semanal e suas previsões são colhidas de analistas do mercado financeiro, na sexta-feira anterior à sua publicação.

A previsão para a variação do PIB de 2022 deste boletim é de apenas 0,36% – na semana anterior, estava em 0,42%, e há quatro semanas era de 0,51%. Ou seja, vem caindo, e esta última queda foi bem mais forte.

Quanto a 2021, a previsão é de uma taxa de 4,5%, mas é enganosa quanto ao desempenho do PIB dentro do ano. Ela é calculada usando o PIB previsto para 2021 relativamente ao de 2020, ou seja, entre esses dois anos. Como em 2020 o PIB caiu 3,9%, essa queda faz com que a comparação entre 2021 e 2020 leve a uma taxa bem mais alta do que a que ocorreria se o PIB houvesse permanecido estável em 2020. Vista de outra forma, a taxa de 4,5% é mais determinada pela queda do PIB de 2020 do que pelo seu fraco desempenho em 2021.

Everardo Maciel*: A decadência do Estado brasileiro

O Estado de S. Paulo

Planejamento governamental não há mais. Tudo é improviso de má qualidade

Nunca tivemos um estado modelar, mas tivemos sucesso, embora nem sempre duradouro, em alguns setores. 

Nos últimos tempos, entretanto, percebe-se um processo contínuo e crescente de degradação institucional. Neste artigo, aponto algumas evidências dessa degradação, para a qual concorrem fortemente o corporativismo e o arbítrio.

O poder pessoal conferido a autoridades, em órgãos de deliberação colegiada, em tudo se assemelha a um absolutismo extemporâneo. 

Decisões monocráticas permitem dar curso ou não, sem fundamentação, a processos de impeachment de autoridades, pautar votações, audiências ou julgamentos, obstruir processos judiciais, mediante desarrazoados pedidos de vista, e conceder liminares que se eternizam. Tudo isso com respaldo em regimentos que se prestam a qualquer interpretação, mesmo quando contrária à lei. 

Bruno Boghossian: Exibição controlada

Folha de S. Paulo

Ex-presidente emite poucos sinais sobre agenda, com foco em eleitor de baixa renda e na classe média

Lula apresentou um esboço das bases de seu plano econômico numa entrevista coletiva no início de outubro. "Eu quero um Estado com força para que ele seja o indutor do desenvolvimento. Um Estado que não tenha preocupação de fazer dívida para investir num ativo produtivo para este país", disse.

O PT rejeita a ideia de anunciar publicamente um assessor econômico para a candidatura de Lula, com o argumento de que o próprio ex-presidente será o responsável por esse capítulo do programa. Ele mesmo já repetiu os pilares dessa agenda em declarações feitas nos últimos meses: investimento público e ampliação de gastos sociais, com o equilíbrio fiscal em segundo plano.

Ruy Castro: Os esbirros de Bolsonaro

Folha de S. Paulo

Não confundir com espirro, esporro, esparro ou esbarro. Esbirro é jagunço, e o governo está cheio

—Às vezes falo aqui nos esbirros de Jair Bolsonaro. Já foi uma palavra comum na imprensa, mas ficou fora de moda, daí leitores me perguntarem o significado. Houve quem a confundisse com espirro, sem saber que, achando repulsivos os espirros de Bolsonaro, eu jamais macularia esse espaço com eles. Para outros, talvez eu quisesse escrever esporro, o que faria sentido —nunca houve presidente tão estúpido e dado a governar por esporros. E ainda outros arriscaram esparro e esbarro. De fato, as duas palavras têm a ver: esparro é aquele que dá um esbarro na vítima para o punguista bater-lhe a carteira. Bolsonaro fica bem nos dois papéis, de esparro e punguista.

Humberto Dantas*: Três anos da “nova governabilidade”

Valor Econômico

2022 será intenso e não se acalmará com resultado eleitoral

Bolsonaro se elegeu na onda da antipolítica. Um de seus principais alvos foram os partidos, organizações sem as quais ele dizia ser possível governar. A posição desafiou quem compreendia ser inviável aprovar a agenda presidencial sem passar pelas lideranças partidárias no Congresso. O que ocorreu a partir de então?

O conceito de “presidencialismo de coalizão” ilustra o arranjo institucional trazido, principalmente, pela Constituição de 1988. Sergio Abranches apontou que seria complexo governar: dificuldades em alta e estímulos colaborativos em baixa tornariam as relações entre Legislativo e Executivo frágeis. Em 1992, já cairia o primeiro presidente eleito sob a nova ordem. Mas Itamar Franco e o primeiro mandato de FHC indicaram um país governável. É de Argelina Cheibub Figueiredo e Fernando Limongi a ideia de que existiam elementos capazes de fazer a agenda executiva prosperar no parlamento. O presidencialismo era de coalizão, e a pactuação entre Poderes entregava o combinado, com partidos coesos e disciplinados internamente em torno do Executivo. A parceria era tão intensa que até a reeleição presidencial foi aprovada, e tivemos oito inéditos anos de um mesmo governo sob ordem democrática. Lula repetiu o feito, mas escancarou a ideia de que as bases cobravam algo que transcendia o debate moral sobre cargos, ministérios e emendas orçamentárias somadas às fortalezas legislativas do Executivo. Existia um ilícito chamado mensalão.

Mario Mesquita*: Chegou o bicentenário

Valor Econômico

O denominador comum nas trajetórias dos países que lograram superar a armadilha da renda média é a inserção no comércio internacional

O ano de 2022 marca o bicentenário do Brasil como nação independente. Sob o prisma da economia (uma ótica limitada, admito, mas que é o objeto desta coluna), a data merece mais reflexão do que ufanismo.

O Brasil de 1822 contava com 4,5 a 5 milhões de habitantes, a grande maioria no campo, sendo que cerca de um terço eram escravos. Quase metade da população estava no Nordeste, e cerca de 40% no Sudeste. As principais atividades econômicas eram a produção e exportação de açúcar, algodão e, em rápido crescimento, de café. Apesar da precariedade das bases estatísticas, os melhores estudos sobre a renda, no período inicial da vida independente, indicam que o país nasceu com patamar de renda média. As estimativas de Angus Maddison, economista da OCDE e Universidade de Groningen, com uma obra fundamental sobre a evolução da renda mundial, indicam que nossa renda per capita era pouco superior à metade da americana, e a de países afluentes da Europa Ocidental, às vésperas da independência.

O que pensa a mídia: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

O mal que os privilégios fazem aos partidos

O Estado de S. Paulo

Acertadamente, o Congresso extinguiu em 2017 a propaganda partidária no rádio e na televisão. Sua recriação é mais um retrocesso da atual legislatura, com apoio de Jair Bolsonaro

Sancionada pelo presidente Jair Bolsonaro, a Lei 14.291/22 recria a chamada “propaganda partidária gratuita”, que de gratuita não tem nada, no rádio e na televisão. É mais um retrocesso que a atual legislatura, em sintonia com o governo federal, impõe à sociedade.

Em 2017, o Congresso extinguiu a propaganda partidária no rádio e na televisão, mantendo a propaganda eleitoral, veiculada durante a campanha. A rigor, não deveria existir nenhuma modalidade de propaganda política, partidária ou eleitoral custeada pelos cofres públicos ou compulsoriamente por terceiros. Partido político é entidade privada e, se deseja promover suas propostas, deve buscar por si mesmo os meios para tanto.

A extinção da propaganda partidária em 2017 foi um passo positivo, ao reduzir benefícios artificiais, pagos de forma compulsória pelo contribuinte às legendas. Com a medida, o Congresso fez uma pequena correção, dentro de um marco legal muito benevolente com os partidos. Na verdade, o sistema é benevolente com as lideranças dos partidos.

Além do custo econômico imposto à sociedade, benefícios artificiais para as legendas são prejudiciais aos próprios partidos, uma vez que os afastam de sua missão – que é agregar pessoas em torno de ideias e projetos, fazendo a representação e a articulação política dessas propostas. Se uma legenda obtém do Estado os meios para sua manutenção, o partido acaba por receber uma espécie de autorização para estar distante de seus associados e não buscar novos associados.

Os benefícios artificiais desencadeiam todo um processo de desvirtuamento das legendas. Não se pode fechar os olhos à realidade. O alheamento dos partidos em relação à sociedade não é resultado do acaso, como se fosse uma má sorte nacional. O atual regime de privilégios às legendas, incluindo também os recursos do Fundo Partidário e do Fundo Eleitoral, é forte estímulo para que as legendas fiquem distantes da sociedade e se convertam em um negócio lucrativo para os caciques partidários.

Vale notar que, como pano de fundo desse sistema absolutamente disfuncional, há uma visão equivocada sobre a natureza dos partidos políticos. Como argumento para o acesso dos partidos a recursos públicos e a outras benesses, como a “propaganda partidária gratuita”, afirma-se que as legendas defendem o interesse público e, portanto, mereceriam ser custeadas pelos cofres públicos. Trata-se de grave equívoco conceitual. Os partidos são entidades privadas, que defendem interesses privados – os interesses de seus associados. Isso nada tem de ilegítimo ou antidemocrático. Ao contrário, é justamente na confluência democrática dos diferentes interesses privados que se poderá depois vislumbrar o interesse público. Entre outras consequências, essa realidade é um dos fundamentos para o multipartidarismo: nenhum partido, nenhuma entidade privada detém o monopólio da defesa do interesse público.

Poesia | João Cabral de Melo Neto: O Relógio

1.
Ao redor da vida do homem
há certas caixas de vidro,
dentro das quais, como em jaula,
se ouve palpitar um bicho.

Se são jaulas não é certo;
mais perto estão das gaiolas
ao menos, pelo tamanho
e quadradiço de forma.

Uma vezes, tais gaiolas
vão penduradas nos muros;
outras vezes, mais privadas,
vão num bolso, num dos pulsos.

Mas onde esteja: a gaiola
será de pássaro ou pássara:
é alada a palpitação,
a saltação que ela guarda;

e de pássaro cantor,
não pássaro de plumagem:
pois delas se emite um canto
de uma tal continuidade

que continua cantando
se deixa de ouvi-lo a gente:
como a gente às vezes canta
para sentir-se existente.

Música | Antonio Vivaldi: Concerto in E minor

 

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Roberto DaMatta: Ano novo?

O Globo

O ano passou de 21 para 22, mas não conseguimos controlar as velhas, triviais e vergonhosas roubalheiras, o machismo, o feminicídio e a violência miliciana e policial. Ademais, aumentamos a taxa de racismo estrutural e estruturante, do “você sabe com quem está falando?” e, para completar, voltou a inflação, em paralelo a uma polarização que, demandando a exclusão do outro, é, em todo tempo e lugar, o timbre do reacionarismo fascista.

O calendário muda, mas o estilo aristocrático e elitista, antirrepublicano e autoritário, claro na Presidência e em todo lugar, permanece atrapalhando nossas vidas.

Num chavão, o “ano novo” realiza sua costumeira malandragem de mudar não mudando. Continuamos a pensar o tempo como calendário, imaginando que, quanto mais velhos, mais “adiantados” ficamos, quando, na verdade, o Brasil de hoje é uma infâmia de atrasos. É um país a caminho do suicídio moral.

Como falar num novo ano se o acontecimento básico deste tempo começa com uma campanha eleitoral que repete a anterior, negando o devir histórico?

É abominável ver a repetição da “luta” Lula-Bolsonaro, que, neste “novo ano” de 22, estão muito mais parecidos com criadores de autolorotas negacionistas — esse conceito dominante de um ano novo nascido velho. São nossos mais ávidos postulantes a “supremos magistrados da nação” — uma nação que precisa de muita água benta (e sanitária) para livrar-se de sua danação e que corre o risco de repetir-se no seu rito democrático mais importante. Reprisará na eleição sua sina de conjugar, segundo o oportunismo, burocracia-legal-processualística, compadrio regado a mandonismo elitista e carisma para dar e vender.

Luiz Carlos Azedo: Lula e Bolsonaro estreitam a possibilidade de 3ª via

Correio Braziliense

A unificação das forças de centro dependeria de um acordo entre seus candidatos ou de um deles atrair os eleitores dos demais, ou de um outro fato novo na política

A nove meses das eleições presidenciais, o favoritismo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e a resiliência da base eleitoral do presidente Jair Bolsonaro, favorecido pelo exercício do poder, dominam o cenário pré-eleitoral. O campo da chamada terceira via existe no eleitorado, mas, até agora, não encontrou um candidato capaz de fulanizá-lo, como é da nossa tradição. Essa fragmentação reproduz o cenário do segundo turno de 2018, a não ser que surja algum fato novo.

A unificação das forças de centro dependeria de um acordo entre seus candidatos — Ciro Gomes (PDT), Sergio Moro (Podemos), João Doria (PSDB), Simone Tebet (MDB) e Alessandro Vieira (Cidadania) — ou de um deles atrair os eleitores dos demais. Sem isso, nada garante que Lula ou Bolsonaro possam ser deslocados do segundo turno. A polarização direita x esquerda é mais desejada por Bolsonaro. Lula se movimenta para atrair lideranças de centro e bloquear a chamada terceira via.

Há várias explicações para as dificuldades das forças de centro. Aproveito o Bicentenário da Independência para destacar uma delas: a trajetória das ideias liberais no Brasil. Quando D. Pedro I introduziu o direito à propriedade privada, na Constituição outorgada de 1824, esse instituto da ordem burguesa serviria de blindagem para o regime escravocrata, até a Abolição, em 1888. Enquanto o liberalismo na Europa ocorria num contexto de trabalho livre e de igualdade perante a lei, aqui no Brasil a ordem escravocrata predominante restringia seus benefícios, os “direitos iguais”, aos homens livres.

Bernardo Mello Franco: Curtindo as férias adoidado

O Globo

Há momentos que são capazes de resumir um mandato presidencial. O Brasil assistiu a um deles nos últimos dias de 2021. A Bahia registrou as piores enchentes em mais de três décadas. Enquanto o estado submergia, Jair Bolsonaro foi curtir férias no litoral catarinense.

A catástrofe deixou 26 mortos, 518 feridos e 93 mil desabrigados. Derrubou pontes, interditou rodovias, destruiu estoques de vacinas e medicamentos. Na semana passada, o presidente foi questionado sobre a longa estadia na praia. “Espero não ter que retornar antes”, respondeu.

Bolsonaro se esbaldou. Dançou funk, passeou de jet ski, visitou um parque de diversões. Antes do Natal, já havia passado seis dias no Guarujá. Fez um bate-volta em Brasília e retornou ao ócio remunerado em São Francisco do Sul.

No dia 31, o presidente convocou cadeia de rádio e TV para um pronunciamento à nação. Em seis minutos e meio de falatório, só dedicou duas frases aos “nossos irmãos da Bahia”.

Visitar locais de grandes tragédias é obrigação básica de qualquer governante. A presença da autoridade não devolve vidas perdidas, mas indica que os sobreviventes não estão sozinhos. É uma demonstração de respeito e empatia — duas mercadorias em falta no Planalto.

Elio Gaspari: Sem teatro, o FBI já pegou 700

O Globo

A Polícia Federal americana pescou os lambaris, falta o peixe gordo

Amanhã completa-se um ano da insurreição trumpista que pretendia melar o resultado da eleição de Joe Biden. Cinco dias depois da invasão do Capitólio, Steven M. D’Antuono, chefe do escritório de Washington do Federal Bureau of Investigation (FBI), avisou: “Nossos agentes vão bater na tua porta”. Até agora, bateram numas mil portas e prenderam ou indiciaram 724 pessoas de 45 estados americanos. Abriram 170 investigações e partiram da análise de 100 mil peças de comunicação digital. Sem lavajatismo, quase todo dia havia alguém sendo interrogado. O sujeito dizia que esteve no Capitólio por dez minutos, e o FBI mostrava, com vídeos, que ele esteve lá das 14h45 até por volta das 15h05, com um amigo que agarrou um policial e empurrou uma porta. Outro achou que passara despercebido, e o FBI bateu à sua porta em outubro, mostrando-lhe que esteve no Capitólio por pelo menos 17 minutos. Outros, que posaram ao lado de estátuas ou quadros, foram logo achados. Um discreto desordeiro que passou despercebido articulou um ataque a uma prisão. Seu cúmplice era um agente disfarçado.

Os agentes procuraram agulhas no palheiro, mas nunca dispuseram de tantos meios para achá-las. Exibicionistas incriminaram-se nas redes sociais. Além disso, o FBI rastreou os celulares que estavam ligados no Capitólio e na vizinhança durante as horas dos distúrbios. A isso somaram-se as câmeras dos policiais e pistas oferecidas por centenas de pessoas.