Policarpo Junior, Daniel
Pereira / Revista Veja
Ministro
celebra o entendimento que permitiu votação expressiva na Câmara e afirma que
as novas regras representam o início de um ciclo econômico virtuoso
Na
terça-feira passada, a Câmara dos Deputados aprovou o novo marco fiscal, projeto
considerado prioritário pelo governo e que segue para análise do Senado, por
372 votos a favor e 108 contra. O placar registrado deixa claro que o
Congresso, dominado pela centro-direita, agora rechaça certos retrocessos na
economia, como iniciativas estatizantes ou intervencionistas, ajudará o
presidente da República a tirar do papel medidas de modernização do Estado,
inclusive a reforma tributária, a próxima prioridade na pauta de consenso entre
Executivo e Legislativo. A votação teve pelo menos três vencedores. Apesar da
chiadeira de setores do PT e da desorganização da base governista, Lula obteve a sua maior
conquista legislativa até agora. Já o presidente da Câmara, Arthur Lira, deu
uma nova e contundente demonstração de ascendência sobre o plenário. A
consagração dos dois já era de certa forma esperada. A surpresa, do ponto de
vista político, ficou por conta do terceiro vencedor, o ministro da
Fazenda, Fernando Haddad, que assumiu a
linha de frente das negociações com os deputados enquanto articuladores do
Planalto eram criticados em público.
Empoderado
pelo presidente Lula, e com uma postura e um tom bem mais moderado que o do
chefe, Haddad considera que a votação é uma vitória do Brasil ao revelar a
capacidade de atores políticos, com pensamentos divergentes, de driblar a
polarização e construir consensos em questões de Estado. Além de permitir a
Lula investir em políticas sociais prometidas durante a campanha eleitoral, o
novo arcabouço fiscal tem potencial para equilibrar as contas e controlar a
expansão da dívida pública, o que, segundo o ministro, renderá uma série de
dividendos. Haddad recebeu VEJA na manhã da quinta-feira 25. Em uma hora de
conversa, interrompida para que ele atendesse a uma ligação de Lula, o ministro
disse que há espaço para a redução da taxa básica de juros, indicou que não há
veto a um debate sobre o regime de metas da inflação e prometeu levar adiante o
projeto de revisar os favores fiscais concedidos pelo Estado a determinados
setores da economia, coisa de 6% do PIB. A meta, segundo ele, é reduzir em 1,5
ponto percentual essa fatura, ficando em 4,5%.
Sempre
de forma ponderada e conciliatória, o ministro falou também sobre política,
área em que, apesar do propalado perfil técnico, está enfronhado desde sempre.
Driblando a polêmica, ele chamou de “coreografia” certas manifestações de
petistas contrários a posições da Fazenda, mas fez questão de elogiar o
partido. Saindo do varejo para o atacado, declarou de forma enfática que o
governo Lula “não pode errar”, sob pena de abrir espaço para a volta ao poder
de um projeto autoritário, que estaria enfraquecido, mas não definitivamente
descartado. Derrotado no segundo turno por Jair Bolsonaro na eleição de 2018,
Haddad é considerado um dos presidenciáveis do PT. Se Lula não disputar a
reeleição em 2026, é visto como o favorito para suceder-lhe. Até José Dirceu,
uma das figuras mais influentes na engrenagem partidária, tem enaltecido a
força do titular da Fazenda. Haddad jura que não pensa no assunto. “Já vi muita
gente boa tropeçar na própria ambição.”
A seguir, os principais trechos da
entrevista.