*Hannah Arendt (1906-1975). “A promessa da
política”, p.118. Difel, 2008.
Política e cultura, segundo uma opção democrática, constitucionalista, reformista, plural.
quarta-feira, 24 de maio de 2023
Opinião do dia – Hannah Arendt*
Vera Magalhães- O marco transita entre escaramuças
O Globo
MPs na bacia das almas entre caducar e
serem drasticamente alteradas e CPIs bombásticas expõem fragilidade da
articulação política do governo
Se o prognóstico otimista da Fazenda e dos
presidentes da Câmara e do Senado se confirmar, e o projeto do novo marco
fiscal for aprovado com a facilidade prenunciada na semana passada, terá sido
um momento isolado de triunfo do governo Lula enquanto o clima no Congresso
está mais para levante oposicionista.
Fernando Haddad resolveu se envolver
diretamente na costura política para a aprovação do novo arcabouço fiscal, e
foi uma decisão acertada. A entrevista em que ele, Arthur Lira e Rodrigo
Pacheco, além do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, estiveram
lado a lado foi uma iniciativa inteligente diante das crescentes dificuldades
para o Planalto no Legislativo, justamente agora.
Embora o titular da Fazenda conte com a boa vontade desses atores, não saiu de lá sem levar mais um recado, desta vez de Pacheco: o Congresso “reformista” considera que questões como marco do saneamento, privatização da Eletrobras e autonomia do BC estão dadas e não devem ser revistas. Apesar dos embates que tiveram neste início de legislatura, Lira e Pacheco estão alinhados nesse entendimento.
Bernardo Mello Franco - Uma rasteira em Marina
O Globo
Ministra protesta contra articulação para
esvaziar sua pasta: “Parece que querem reeditar o governo Bolsonaro”
Marina Silva resistiu
ao bombardeio da Petrobras, mas deve levar uma rasteira do Congresso.
Parlamentares de diferentes partidos se uniram para desmantelar o Ministério do
Meio Ambiente.
A pasta deve perder boa parte de suas
atribuições. As mudanças foram articuladas pelo deputado Isnaldo Bulhões,
relator da medida provisória que reorganizou a Esplanada no início do
governo Lula.
Pelo texto, a Agência Nacional de Águas
será transferida para o Ministério da Integração e Desenvolvimento Regional. A
pasta, comandada pelo União Brasil, também deve assumir o controle da política
nacional sobre recursos hídricos.
O Cadastro Ambiental Rural será incorporado ao Ministério da Gestão. E a gestão dos resíduos sólidos ficará com o Ministério das Cidades, feudo do MDB de Bulhões.
Maílson da Nóbrega - Alíquota única é a melhor saída
O Globo
Reforma tributária sob exame da Câmara
poderá, caso aprovada, promover simplificação radical.
A reforma tributária sob exame da Câmara
(PECs 45 e 110) poderá, caso aprovada, promover simplificação radical. Cinco
tributos — IPI, PIS, Cofins, ICMS e ISS — serão substituídos por uma única
incidência, calculada sobre o valor agregado (IVA), método adotado por 174
países.
As propostas em estudo se inspiraram nos
melhores IVAs do mundo. O país poderá ser beneficiado por um sistema de
tributação do consumo moderno, que não interfere nas decisões de produzir e
consumir. Duas características básicas serão: regras uniformes em todo o
território nacional e alíquota única. Ambas estão ausentes no atual sistema
tributário, cheio de regimes especiais, multiplicidade de alíquotas e regras
desiguais.
O sistema brasileiro tornou-se distorcivo e caótico com a Constituição de 1988 e emendas posteriores. Metade da arrecadação do Imposto de Renda e do IPI foi transferida em favor de estados, municípios e fundos regionais de desenvolvimento. Ao mesmo tempo, os estados passaram a deter o poder de decidir sobre regimes, alíquotas e hipóteses de incidência do ICMS.
Zeina Latif - Opção pelo isolamento
O Globo
O mundo busca diversificar os parceiros
comerciais. Ficar parado no comércio mundial significa andar para trás
A abertura comercial não parece ser tema
para o atual governo. O que há são ações, mais midiáticas do que diplomáticas,
para reinserir o país na cena global, como o fortalecimento das relações com
países com alinhamento ideológico e a participação em fóruns globais em que o
Brasil é player pouco relevante à luz dos temas tratados, como a guerra na
Ucrânia.
Gasta-se muita energia para nada, sem benefícios para os brasileiros, quando se deveria enfrentar temas cruciais, como o acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia (UE), que está por um triz. O mundo busca diversificar os parceiros comerciais, podendo trazer oportunidades ao Brasil, e ficar parado no comércio mundial significa andar para trás, sendo que partimos de uma situação de grande isolamento.
Luiz Carlos Azedo - O racismo contra Vini Jr. no país do Dr. Garcia
Correio Braziliense
No auge de sua forma física e técnica, o
atacante do Real Madrid e da Seleção Brasileira sofreu insultos racistas de
torcedores do Valencia, que o chamaram de macaco, no estádio de Mestalla, no
domingo
O mundo acompanha estupefato o caso do
jogador brasileiro Vini Jr, o craque do Real Madri que vem sendo insultado em
todos os estádios onde joga futebol. Garrincha sem as pernas tortas, seus
dribles são desconcertantes. Nesta terça-feira, uma sequência impressionante de
jogadas dele viralizou nas redes sociais. Elas deveriam provocar sorrisos nas
arquibancadas, como aconteceu com os suecos que viram Mané jogar na Copa de
1962, sem Pelé na Seleção, mas o que acontece em relação ao craque do time
merengue é uma reação enfurecida das torcidas dos times adversários,
principalmente quando o Real joga fora de casa.
No auge de sua forma física e técnica, o atacante do Real Madrid e da Seleção Brasileira sofreu insultos racistas de torcedores do Valencia, que o chamaram de macaco, no estádio de Mestalla, no domingo. A partida chegou a ser paralisada pelo árbitro e, posteriormente, foi retomada. Numa confusão provocada em campo, na qual levou um mata-leão de um jogador adversário, Vini reagiu e foi expulso. Houve grande repercussão negativa aos insultos e aconteceu solidariedade internacional ao jogador, de grandes estrelas do esporte, e não apenas de jogadores de futebol. A reação provocou uma crise no futebol espanhol, cujo principal dirigente criticou Vini Jr. O governo brasileiro também protestou.
Bruno Boghossian - A Sepultura da Lava Jato
Folha de S. Paulo
Afastamento de Eduardo Appio contribui para
autópsia de operação que nasceu e morreu como joguete
O
afastamento do juiz Eduardo Appio deu
à Lava
Jato mais um atestado de óbito para sua coleção. O conflito entre o
magistrado responsável pelos processos em Curitiba e os desembargadores do
TRF-4 contribui para a autópsia de uma operação que nasceu e morreu como
joguete de vontades políticas.
A Lava Jato já estava morta quando Appio assumiu a função, em fevereiro. Os excessos cometidos pela força-tarefa desde as etapas iniciais, os arranjos revelados pela Vaza Jato, as sentenças anuladas, os acertos do mundo político para frear investigações e a aliança com o bolsonarismo cavaram esse túmulo.
Vinicius Torres Freire - Conflitos no governo Lula
Folha de S. Paulo
Assuntos que deveriam já estar definidos se
tornam motivo de conflito de ministros e programas
Ministros divergem sobre a exploração
do petróleo no litoral norte do Brasil. Sobre o que fazer da demarcação de
terras indígenas. O plano
de subsidiar o carro popular não é compatível com a política de
Fazenda e Planejamento. Etc.
Conflitos são recorrentes em governos, ainda mais naqueles que, mal e mal, são de coalizão, é óbvio. Além do mais, alguns problemas são imprevistos no programa e talvez suscitem um debate mais esquentado de soluções. Pode ser ainda que encarreguem um coordenador ministerial de tomar conta de duas tartarugas e uma delas fuja —inépcia. Em tese, é compreensível.
Wilson Gomes* - O mercado mais aquecido hoje é o mercado de virtudes
Folha de S. Paulo
Minorias, transformadas em identidades, são
o bem mais precioso e frágil a ser tutelado e protegido
"A única diferença atual entre
liberais e conservadores é que os liberais vão à missa das cinco e os
conservadores vão à missa das oito", disse o coronel Buendía, personagem
de "Cem Anos de Solidão", de García Márquez. De fato, às vezes a
distinção entre uns e outros, que parece tão pronunciada na autoimagem de cada
grupo, reduz-se ao mero rodízio para fazer a mesma coisa.
Há três anos, um filme roteirizado por Fábio Porchat foi execrado publicamente. O filme se chamava "A Primeira Tentação de Cristo", do grupo Porta dos Fundos, e, segundo o divertido resumo feito pelo Domingo Espetacular, da TV Record, exibia "piadas sem graça" sobre passagens bíblicas e, entre outros horrores, mostrava um Jesus homossexual e Maria e José em um triângulo amoroso com Deus, que, além de tudo, era "retratado como um homem manipulador e mentiroso" —1,7 milhão assinou um abaixo-assinado pedindo que o filme fosse tirado do ar.
Nicolau da Rocha Cavalcanti* - Semente de bolsonaristas
O Estado de S. Paulo
O fator que favorece o bolsonarismo não é a polarização da política, e sim a imbecilização da discussão política
Se há uma real preocupação com o debate
público e com o regime democrático – se não queremos ficar reféns do
bolsonarismo nos próximos anos –, é preciso urgentemente qualificar a crítica
contra o PT: ir aos fatos, sem ficar repetindo lugares-comuns ou fantasmas que,
apesar de renderem muitos cliques, não têm suporte na realidade e não passam
pelo filtro da racionalidade.
Não é um pedido para amenizar a oposição ao PT, como se a crítica contundente contra o partido do Lula favorecesse o bolsonarismo. Ou como se um ambiente democrático não autorizasse um forte antagonismo com o PT. Nada mais distante da realidade. A divergência faz parte da política. Os extremos e os contrastes são elementos legítimos e, de certa forma, necessários para o debate político. O regime democrático não comporta apenas tons pastéis. O fator que favorece o bolsonarismo não é a polarização da política, e sim a imbecilização da discussão política.
Marcelo Godoy - Lula e o ‘piston de gafieira’
O Estado de S. Paulo
As confusões dentro de um governo em disputa são o reflexo da ausência de coordenação
Era 1959 quando Billy Blanco compôs a
música Piston de Gafieira. É aquela que retrata o que acontece quando o clima
esquenta no salão: “A porta fecha enquanto dura o vai não vai, quem está fora
não entra, quem está dentro não sai”. Nada mais parecido com o governo do
petista Luiz Inácio Lula da Silva.
Das confusões do ministro Juscelino Filho,
passando pela titular do Turismo e pelas brigas entre as pastas de Minas e
Energia e do Meio Ambiente e, agora, entre o Itamaraty e os militares, tudo
parece lembrar o samba gravado por Silvio Caldas e Moreira da Silva. E qual o
papel de
Lula, o presidente, nessa história? Na hora da confusão, o samba dizia que a orquestra na gafieira sempre tomava a mesma providência: tocava alto para a polícia “não manjar”. E concluía: “E nessa altura, como parte da rotina, o ‘piston’ tira a surdina e põe as coisas no lugar”.
Marina diz que decisão do Ibama contra exploração de petróleo no Amazonas será cumprida
Ministra do Meio Ambiente afirma que governo rejeitará pedido da Petrobras
Por Renan Truffi, Fabio Murakawa e Rafael
Bitencourt / Valor Econômico
Brasília - Em sua primeira manifestação
sobre o tema, a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, saiu em defesa do Ibama e disse na
terça-feira (23) que o governo federal vai “cumprir a lei” e respeitará a
decisão do órgão de rejeitar pedido da Petrobras para
iniciar perfuração em área próxima da foz do Amazonas, na chamada Margem Equatorial.
A declaração da ministra vai na contramão
dos interesses da estatal de petróleo e dos pedidos da bancada do Amapá no
Congresso, estado que poderia ser beneficiado com uma eventual exploração
petrolífera na região.
Marina falou sobre o assunto à imprensa após reunião sobre o tema na Casa Civil, capitaneada pelo ministro Rui Costa, e que envolveu também o ministro de Minas e Energia (MME), Alexandre Silveira (PSD), e os presidentes da Petrobras, Jean Paul Prates, e do Ibama, Rodrigo Agostinho. Ela foi a única a se pronunciar sobre o tema depois do encontro. Não houve qualquer contraponto oficial da Casa Civil, MME ou Petrobras às declarações da ministra. Rui Costa, no entanto, se reuniu com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no Palácio da Alvorada, no fim da tarde, para tratar do mesmo tema.
Fernando Exman - Caminhos e obstáculos para Lula na Câmara
Valor Econômico
Parlamento permanece disposto a impor
limites à forma de governar do partido que encabeçou a chapa vitoriosa das
últimas eleições
Recados importantes foram enviados pelos partidos de centro ao Palácio do Planalto nos últimos dias. Ao aprovar a urgência na tramitação do arcabouço fiscal por ampla margem na quarta-feira (17), mostraram que a Câmara dos Deputados pode, se e quando quiser, facilitar o caminho para as pautas econômicas do governo. A segunda mensagem, não menos importante, foi uma nova demonstração de que o Parlamento permanece disposto a impor limites à forma de governar do partido que encabeçou a chapa vitoriosa das últimas eleições.
Lu Aiko Otta - Lei do Bem, o pós arcabouço e o passado à porta
Valor Econômico
Se corte de imposto para montadoras vingar
será preciso muito contorcionismo para evitar que vire estímulo ao consumo de
combustíveis fósseis
Na véspera do Dia da Indústria, em que a
“neoindustrialização” promete ser a tônica, novos dados mostram que anda mal o
desenvolvimento tecnológico no Brasil. Pesquisa inédita da Confederação
Nacional da Indústria (CNI) mostra que apenas 37% das empresas brasileiras
utilizam a Lei do Bem, criada em 2005 e que reduz impostos para aquelas que
investem em inovação.
Gastos tributários, entre os quais se situa
a Lei do Bem, estão na mira do ministro da Fazenda, Fernando Haddad em sua
agenda pós-arcabouço.
Ele quer cortar 25% dessa conta, que chega
a R$ 600 bilhões e abriga um “rebanho de jabutis”.
Reduzi-la é uma forma de elevar a arrecadação sem criar impostos nem aumentar alíquotas. O ministro precisa de mais receitas para cumprir as metas de resultado das contas públicas que estão fixadas no novo marco fiscal.
Bruno Carazza - Aprovação do arcabouço fiscal marca segundo início do governo Lula 3
Valor Econômico
A partir das novas regras, Lula e Haddad
serão cobrados pelas suas efetivas entregas
Este é um governo atípico, e não apenas
porque marca o retorno de um presidente para um terceiro mandato. As
circunstâncias políticas mostram que não há limites temporais muito rígidos
quando se trata deste período Lula 3.
A votação apertada nas eleições
presidenciais, de apenas 1,8 pontos percentuais entre os votos válidos,
indicava que não seria fácil.
É bem verdade que o vácuo de poder deixado
por Bolsonaro ajudou, mas Lula tem os méritos de costurar de forma muito rápida
uma aliança com Arthur Lira e Rodrigo Pacheco e aprovar, antes mesmo de tomar
posse, uma mudança na Constituição que lhe deu os recursos necessários para
atender às suas promessas básicas de campanha.
Com uma boa folga tanto na Câmara (331 votos, contra o mínimo de 308), quanto no Senado (63 apoios, 14 além do necessário), a PEC da Transição autorizou o novo presidente a furar o teto em R$ 145 bilhões e atender de imediato os seus principais compromissos eleitorais – reajustes no Bolsa Família, na tabela do Imposto de Renda e no salário-mínimo, além da recomposição de políticas como o Minha Casa Minha Vida e Farmácia Popular, entre outras.
Câmara dá vitória ao governo e aprova texto-base do arcabouço fiscal com 372 votos
Proposta que combina limite de despesas e meta de resultado primário vai substituir o teto de gastos se passar pelo Congresso
Idiana Tomazelli,
Julia Chaib,Victoria Azevedo
/ Folha de S. Paulo
BRASÍLIA - Em uma importante vitória para o governo
de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o plenário da Câmara dos Deputados aprovou o texto-base
do novo arcabouço fiscal na noite desta terça-feira (23) por 372 votos a 108.
O placar expressivo mostra
uma ampla folga em relação ao mínimo de 257 votos que o governo precisava
reunir para a aprovação de um projeto de lei complementar. Na semana passada,
a votação da urgência já havia reunido 367 votos.
"A demonstração do
painel, tanto da urgência quanto do mérito, demonstra que era um texto
equilibrado. Tanto que posições mais à direita e à esquerda convergiram em
votar determinadas matérias", disse o presidente da Câmara dos Deputados,
Arthur Lira (PP-AL).
O novo arcabouço fiscal vai substituir o
atual teto de gastos, regra que limita o crescimento
das despesas à inflação e ainda está em vigor, embora tenha sido driblado nos últimos anos. Para a
substituição ser efetivada, porém, a proposta ainda depende de votação de
destaques (mudanças no texto), o que está previsto para esta quarta-feira (24),
e depois passar pelo Senado Federal. A expectativa de Lira é que os
destaques sejam rejeitados.
A aprovação do texto-base do
projeto ocorreu após modificações em seu conteúdo, mas ainda assim representa
um feito relevante para o governo petista, que amargou derrota recente ao tentar mudar o Marco do Saneamento e
enfrenta dificuldades para consolidar uma base de apoio no Congresso Nacional.
O avanço da proposta também é
uma vitória para o ministro Fernando Haddad (Fazenda), que precisou enfrentar resistências dentro do próprio PT ao
desenho da regra, que combina metas de resultado primário com um limite de
crescimento para gastos.
Uma ala do partido defendia
uma regra fiscal mais branda, ancorada apenas na meta de primário, mas Haddad
fez prevalecer o entendimento de sua equipe sobre a necessidade de manter um
teto para as despesas, ainda que mais flexível —com espaço para alta real de
gastos, acima da inflação. Mesmo durante as discussões no Congresso, a sigla
continuou fazendo críticas ao texto.
Agora, esse modelo é
chancelado pela Câmara dos Deputados, com votos favoráveis do próprio PT e
também de siglas de centro como PP, MDB e PSD. Duas legendas da base aliada,
PSOL e Rede, orientaram contra o texto. Já o PL do ex-presidente Jair Bolsonaro
liberou a bancada.
Segundo Lira, a votação desta terça não representa a base do governo, mas sinaliza um avanço. "É uma evolução, estamos trabalhando para que isso [a base] se concretize", disse.
O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões
Congresso muda o mapa do poder dos Ministérios
Valor Econômico
Como o desenho ministerial é sobretudo
político, o parecer dado ontem pelo relator não poderia deixar de ser polêmico
O mapa dos poderes nos Ministérios ainda
pode mudar quando for votada, finalmente, a MP 1154, ameaçada de caducar caso o
Legislativo não se pronuncie sobre ela até 1º de junho. A MP define a nova
configuração do governo, ampliada de 19 pastas para 37. Como o desenho
ministerial é sobretudo político, o parecer dado ontem pelo relator, deputado
Isnaldo Bulhões Jr (MDB), não poderia deixar de ser polêmico. E como o peso da
bancada ruralista é grande na Câmara dos Deputados, o Ministério do Meio
Ambiente, severamente degradado durante o governo de Jair Bolsonaro, poderá não
chegar a ter o comando de órgãos e funções que lhe eram próprias no passado.
O Cadastro Ambiental Rural, que constitui a base de informações sobre imóveis rurais, vital para se mapear o desmatamento e orientar o Programa de Recuperação Ambiental, deixará, se o parecer do relator for aprovado, de ser atribuição da pasta de Marina Silva. Isnaldo tentou uma solução salomônica entre a pressão ruralista, que defendia que a atribuição fosse delegada ao Ministério da Agricultura, historicamente mais permeável à influência dos lobbies dos produtores, e os ambientalistas, que acham a mudança absurda e sem sentido, como de fato é. O CAR será responsabilidade do Ministério de Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, de Esther Dweck, que nunca teve qualquer proximidade com o assunto. Para o relator a mudança garantirá o “equilíbrio entre desenvolvimento e a proteção ambiental”.
terça-feira, 23 de maio de 2023
Opinião do dia – Antonio Gramsci (a força das ideias)
*Antonio Gramsci (1891-1937). Cadernos do Cárcere, v.1. p. 105.
Civilização Brasileira, 2006.
Paulo Fábio Dantas Neto* - Virar a página no Judiciário também: o exemplo vem de cima
Com a dupla derrota da extrema-direita, em outubro e janeiro, além de se mudar o governo, os executores dos atos golpistas foram logo presos, estão sendo agora processados, com agilidade e rigor, pelo poder constitucionalmente autorizado a isso. O Judiciário tem agido em cooperação com órgãos da segurança pública, que também se dedicam, diuturnamente, a identificar os autores intelectuais e financiadores dos atos para também processá-los, conforme a lei. As corporações militares, tidas e havidas, na quadra mais recente da vida nacional (e nem sempre de modo justo) como potenciais fontes de desestabilização democrática, estão pacificadas e submetidas ao poder civil, sem prejuízo, como se vê, de indiciamento pessoal de militares. As instituições republicanas retomam sua normalidade e a rigor não se pode mais falar de conjuntura de risco à democracia. Ficaram abertos, a princípio, caminhos para que a política democrática cuide do que mais interessa, as avarias no seu edifício e na sua dinâmica institucional, para que tenham passagem as pautas econômicas, sociais e ambientais, em nome das quais se negou, à extrema-direita, a continuidade de sua experiência no governo.
Míriam Leitão - A difícil arte de governar
O Globo
Lula entre dois desafios: aprovar limite de
gastos e evitar o risco ambiental de explorar petróleo na costa da Amazônia
Governar exige escolhas e impõe limites. As
duas barreiras, o presidente Lula está enfrentando essa semana. De um lado, o
desenho final do arcabouço traz desafios. Em uma conta, feita ontem, ficou
claro que havia o risco de, em 2026, ano eleitoral, o governo não poder dar
aumento real ao Bolsa Família. A discussão foi então reaberta. Outro problema
que exige sabedoria é a exploração de petróleo na costa da Amazônia. O governo
Bolsonaro fez a política de fato consumado levando para lá equipamentos antes
de ter autorização do Ibama. Agora, a Petrobras do governo Lula alega que é
prejuízo tirar o que nunca deveria ter ido para lá.
O arcabouço deve ser votado amanhã, mas todo o temor da área econômica ontem era de que o debate esbarrasse nas brigas políticas da base parlamentar. Por isso, o ministro Fernando Haddad foi conversar com o presidente da Câmara, Arthur Lira, e, ao chegar, avisou que estava ali para “agradecer a aprovação da urgência”. Quis dizer com isso que o feito era resultado da articulação do próprio Lira.
Luiz Carlos Azedo - Ambiguidade de Lula pode levar ao desembarque de Marina
Correio Braziliense
A pior coisa que poderia ocorrer ao governo,
neste momento delicado da nossa política externa, em razão do posicionamento
sobre a Ucrânia, é uma crise no Meio Ambiente
A polêmica sobre a exploração de petróleo
na foz do Rio Amazonas, que opõe institucionalmente a Petrobras, que pretende
fazê-la, ao Ibama, que não autoriza, é nitroglicerina pura. Além de o ministro
das Minas e Energia, Alexandre Silveira, entrar em rota de colisão com a
ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, arrasta para o contencioso o
presidente Luiz Inácio Lula da Silva, numa hora em que o eixo da política externa
foi deslocado da economia sustentável para o tema da guerra e da paz.
A Petrobras pediu para explorar um campo
com potencial de 14 bilhões de barris de petróleo a 175km da costa do Amapá,
mas o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis
(Ibama) negou licença à estatal na quarta-feira.
A pior coisa que poderia ocorrer ao governo, neste momento delicado da nossa política externa, em razão do posicionamento de Lula em relação à guerra da Ucrânia, é um desembarque de Marina do governo. Ela é a fiadora da credibilidade do país nos fóruns internacionais sobre o meio ambiente, que abriram as portas da política mundial para o presidente Lula, antes mesmo de sua posse, além de desbloquear os recursos financeiros para o Fundo Amazônia.
Carlos Andreazza - Codevasfização
O Globo
Loja de políticos — assim reportagem da
Folha se referiu à Codevasf. Poderia ser “loja para políticos”, vitrine em que
parlamentares escolhem os produtos que mandarão a suas bases. Há até catálogo
com equipamentos que podem ser remetidos por meio da companhia. A própria
estatal, originalmente dedicada à irrigação, criou o mostruário. Além dos mais
frequentes tratores, já distribuiu freezers, batedeiras, notebooks e máquinas
de costura.
A Codevasf se tornou, a partir do governo
Bolsonaro, superfície essencial para o deságue de bilhões em emendas
parlamentares. Num milagre de proporções alcolúmbricas, os vales do São
Francisco e do Parnaíba chegaram ao Amapá. Multiplicação de alcances que não
mudou com o governo Lula. Nem poderia, já que o sistema do orçamento secreto —
deslocando-se para enganar — continua em operação.
Se o motor do orçamento secreto permanece acelerado, constante será a necessidade de a Codevasf ampliar a variedade de suas irrigações. Orçamento secreto e Codevasf são corda e caçamba. Evoluem — modernizam-se para continuar sob perversão — em dupla.
Merval Pereira - A praga do racismo
O Globo
Reação de Vinicius Jr. pode ajudar a conter
o racismo
Vini Jr. transformou-se num símbolo
internacional na luta contra o racismo não por ser ativista, mas simplesmente
por não admitir ser ofendido pela cor de sua pele ou ser cerceado nas
comemorações depois dos gols, fazendo dancinhas que não visam a diminuir os
adversários, simplesmente são reflexos de sua alegria e de sua cultura.
Sua resiliência, com o brilho de seu
futebol, está provocando mudanças na estrutura de um esporte que é o mais visto
no mundo, talvez o mais lucrativo. Uma indústria de bilhões de dólares que
perde muito com a imagem manchada pelo racismo.
Enquanto o presidente da Liga Espanhola, Javier Tebas, tenta transformar Vini Jr. em culpado e minimiza os ataques racistas, tanto por ser de extrema direita quanto pelo receio de perder dinheiro, o presidente da Fifa, Gianni Infantino, teve uma atitude firme e digna: apoiou o jogador ofendido e disse que a partida deveria ter sido encerrada, proposta que está se alastrando entre os jogadores nos times espanhóis.
Dora Kramer - Moeda de troca
Folha de S. Paulo
Cercado por CPIs, Lula se vê sob olhar
complacente da base
Se dependesse da vontade de gente séria do
governo e da oposição, a comissão
mista do Congresso para a alegada apuração dos fatos já investigados
em inquéritos sobre o 8 de
janeiro subiria no telhado e lá ficaria em eterno descanso. A má
vontade é evidente.
Na impossibilidade de recuo, a comissão
será instalada junto a outras três (MST,
fraudes nas apostas de futebol e Americanas) criadas na Câmara e mais
uma (abuso de autoridade) proposta na Casa comandada por Arthur Lira.
Governo nenhum gosta de CPI, o que dirá quatro, quiçá cinco. São instrumentos da minoria —normalmente residência de oposicionistas— e, portanto, carregam o potencial de provocar danos aos locatários do poder em curso.
Alvaro Costa e Silva - Os Bolsonaro enrolados
Folha de S. Paulo
A impressão é que qualquer pessoa próxima
do clã está sob suspeição
Em março de 2021, quando o presidente que
se elegera com o discurso de combater a corrupção estava havia quase dois anos
e meio no poder, os Bolsonaros bateram um recorde. Seguindo os passos do chefe
do clã, os quatro filhos de Jair enfrentavam investigações da Justiça e da
Polícia Federal. As rachadinhas de Flávio estouraram no início do mandato.
Hoje, com podres irrompendo a cada instante, a impressão é que qualquer pessoa que tenha tido um contato mais próximo com a família está sob suspeição. Uma amiga da ex-primeira-dama Michelle que emprestava o cartão de crédito a ela. Na hora de pagar a fatura, sempre em dinheiro vivo, entrava em cena o faz-tudo da Presidência, um tenente-coronel que está preso. A desculpa é que Bolsonaro é pão-duro. Mas só quando o capital sai do seu bolso. No cartão corporativo, chegou a gastar R$ 55,2 mil numa única padaria um dia após o casamento de Eduardo.
Hélio Schwartsman - O fim de uma era
Folha de S. Paulo
Vontade de Lula não deveria se contrapor a
decisão técnica do Ibama
"A Idade da Pedra não acabou porque
ficamos sem pedras." Essa frase é atribuída a Ahmed Zaki Yamani. Revela
uma lucidez surpreendente, considerando que seu autor foi durante décadas o
titular do Ministério do Petróleo e dos Recursos Minerais da Arábia
Saudita, um país cuja economia depende
essencialmente da venda de petróleo.
A era do petróleo não acabará por causa do esgotamento das reservas desse hidrocarboneto. Isso já estava claro nos anos 1970, quando Zaki teria proferido seu alerta. Avanços tecnológicos já se encarregariam de aposentar os combustíveis fósseis. Fazê-lo, no entanto, se tornou um imperativo agora que não há mais dúvidas de que o aquecimento global antropogênico é uma ameaça ao clima planetário e que ela só será atenuada se cortarmos as emissões de CO2. Teremos de deixar o petróleo de lado bem antes de esgotar as últimas jazidas. A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, parece ter assimilado essa lição; o presidente Lula, talvez não.
Joel Pinheiro da Fonseca - Máquina versus voto
Folha de S. Paulo
Não é cedo para pensar na eleição do ano
que vem, já que hoje a campanha é constante
Imagino que o MST não
queria piorar as chances da esquerda na maior cidade do país nas eleições de
2024, mas até agora é isso que a retomada de
invasões tem conseguido: servir de plataforma para a direita.
Toda a CPI do MST parece
um evento sob medida para lançar a candidatura de Ricardo
Salles e prejudicar Guilherme
Boulos. Ele já anunciou que colocará sob holofote não apenas o
MST como também o MTST, o movimento pela moradia urbana que, até onde se sabe,
não tem absolutamente nada a ver com as invasões ou ocupações rurais recentes.
O único motivo para isso é tentar jogar Guilherme Boulos —líder do MTST— na pior luz possível; mostrá-lo como um radical que patrocina a invasão de casas, os protestos violentos e a depredação da propriedade.
Andrea Jubé - O problema do governo é o ‘day after’ da votação da regra fiscal na Câmara
Valor Econômico
As apostas responsáveis voltam-se para a
aprovação do relatório do deputado Cláudio Cajado (PP-BA) sobre a nova regra
fiscal na sessão plenária desta quarta-feira na Câmara. Proposta em que o
presidente da Casa, Arthur Lira (PP-AL), empenhou seu capital político para
caminhar com o governo na matéria. “O novo regime fiscal é prioridade para o
desenvolvimento econômico e social do país”, escreveu Lira em seu perfil no
Twitter no dia 15.
Dois dias depois, o plenário da Casa aprovou o regime de urgência para o projeto. O placar foi expressivo: 367 votos a favor, 102 contrários e uma abstenção, e com adesões relevantes da oposição. O PL do presidente Jair Bolsonaro, por exemplo, que orientou contra a matéria, entregou 29 votos. Desse total, o governo acredita que terá 25 ou 26 votos “permanentes” da dissidência do PL em outros projetos.
Pedro Cafardo - Os dez maiores economistas brasileiros, segundo a IA
Valor Econômico
Saiba também quem seriam os cinco maiores
economistas da atualidade no mundo
Quais são os dez maiores economistas
brasileiros de todos os tempos? A pergunta foi feita pelo colunista no dia 8/5
ao ChatGPT, site de inteligência artificial (IA) que dialoga com humanos. E o
número 1 da lista foi Celso Furtado, considerado pela IA como “um dos mais
importantes pensadores do desenvolvimento econômico do país”.
Antes de dar a lista, o site fez a ressalva de que a indicação dos maiores economistas pode variar de acordo com os critérios utilizados. E apresentou, em segundos, os dez que, em seu entendimento, são “frequentemente reconhecidos por sua contribuição para a economia brasileira ao longo do tempo”. O ranking abaixo e os minicurrículos são do ChatGPT:
Entrevista | Fernando Limongi: Plano de Moro e de Deltan é ‘profundamente antiliberal’
Marcelo Godoy / O Estado de S. Paulo
Para pesquisador, símbolos da Lava Jato revestiram ‘projeto arbitrário’ como algo positivo Cientista político, é professor da USP e da FGV. Autor do livro ‘Operação Impeachment: Dilma Rousseff e o Brasil da Lava Jato’
“A classe política não é a escória da
sociedade. O que há de pior também está no Judiciário, no Ministério Público,
em todo lugar”
O impeachment é um processo excepcional,
cujas consequências são incomensuráveis. A afirmação do cientista político
Fernando Limongi está logo na introdução de seu livro Operação Impeachment,
Dilma Rousseff e o Brasil da Lava Jato (editora Todavia, 304 págs., R$ 84,90).
Investigar o papel dos principais atores da crise que tirou o PT do poder e
pavimentou o caminho para a ascensão de Jair Bolsonaro (PL) revela ao mesmo
tempo os diversos projetos de políticos e de grupos sem os quais o processo que
convulsionou o Brasil seria ininteligível. Professor da Universidade de São
Paulo (USP) e da Fundação Getulio Vargas (FGV), Limongi diz que esquerda e
direita queriam capturar a Lava Jato, que, por sua vez, tinha seu próprio
projeto de poder.
Leia a seguir trechos da entrevista:
Aylê-Salassié Filgueiras Quintão* - No fundo, é tudo um "rachadão"
As instituições jurídicas são primeiras vítimas: a Constituição, a legislação complementar, decretos e portarias. A sobra fica para a História. O procurador da República, Augusto Aras, num estilo do bombeiro Montag, do livro Fahrenheit 451 (Bradbury, Ray, 1953), teria tido a "cachimônia" de mandar incinerar documentos da Lava Jato, e o ministro da Justiça, Flávio Dino, anunciou que a "liberdade de expressão no Brasil deixou de ser absoluta".
O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões
Crédito deverá continuar apertado para as empresas
Valor Econômico
Houve uma redução na demanda de recursos
para investimentos e subiu a busca por capital de giro
A economia surpreendeu no início do ano.
Puxado pela agropecuária, o Índice de Atividade do Banco Central (IBC-Br)
avançou 2,41% no primeiro trimestre, a terceira maior variação da série
histórica, e já está animando previsões mais positivas para o ano. Na
contramão, as empresas enfrentam cenário financeiro negativo, com o alto custo
dos empréstimos e o mercado de capitais travado, comparável a períodos críticos
de crise, como na freada brusca registrada no início da pandemia e na recessão
de 2015 e 2016, segundo números levantados pelo Centro de Estudos de Mercado de
Capitais da Fipe (Cemec-Fipe).
A captação líquida das empresas foi de R$ 37,092 bilhões na média móvel do primeiro trimestre. Foram seis meses seguidos de queda, acumulada em 84,1% a partir do pico de setembro, levando o número para o menor nível desde março de 2020, informa o Cemec-Fipe. O recuo é puxado pelas emissões de dívidas domésticas, devido à retração do mercado de capitais. Mas o crédito bancário não está melhor e caiu ao patamar mais baixo da série iniciada em 2016.