segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Equilíbrio do INSS depende de reformar aposentadoria rural

O Globo

Mesmo com mudanças de 2019, gasto previdenciário chegará a 18% do PIB até o fim do século, estima estudo

A reforma da Previdência que passou a vigorar em 2019 consumiu duas décadas de debates. Demorou para ser feita e, em meio a todo tipo de pressão para proteger categorias ou grupos sociais, deixou de fora os trabalhadores rurais. Em estudo publicado pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), os economistas Fabio Giambiagi, Rogério Nagamine e Otávio Sidone afirmam que será essencial tratar deles numa nova rodada de reforma previdenciária. Quanto antes o Brasil discutir o assunto, menos custará para a sociedade.

De acordo com o estudo, a última reforma — da iniciativa privada, servidores federais e militares — reduziu a velocidade de crescimento do déficit previdenciário, mas foi incapaz de estancá-lo. Deu tempo para que sociedade, governos e Congresso buscassem construir consenso em torno de uma nova etapa de mudanças que, na opinião dos autores, deverão obrigatoriamente tratar da aposentadoria rural.

Fernando Gabeira - Manhã de carnaval

O Globo

Um fato novo, irreversível, precisa entrar na cabeça dos namoradores: “não” quer dizer “não”. Espero que entendam, pois tudo ficará mais fácil

Escrever para manhã de carnaval é algo de responsabilidade. Se houver um fato muito grave, tratarei dele na TV, guardando este espaço para a festa. Na suposição de certa normalidade, falo também de minhas lembranças, algumas delas enigmas de carnaval. Uma delas é esta canção: “Ai morena/seria meu maior prazer/passar o carnaval contigo/beijar a tua boca/e depois morrer”.

Não entendi bem esse romantismo trágico. Verdade é que, com o tempo, percebi que “beijar a tua boca” talvez fosse alusão a quatro noites de um exuberante amor. Ainda assim, jamais consegui analisar com clareza essa disposição para a morte, sabendo que há tantos carnavais pela frente.

Miguel de Almeida - O dinheiro da cultura

O Globo

No plano governamental, não há qualquer menção à indústria cultural

A passagem de Taylor Swift pelo Brasil, em seis apresentações, movimentou algo como R$ 400 milhões. Próximos aos estádios onde ocorreram os shows, os hotéis ficaram lotados. Foram vendidos cerca de 560 mil ingressos, entre Rio e São Paulo. Sua turnê nos Estados Unidos, cujo resultado é estimado em US$ 4,6 bilhões, mereceu comentários elogiosos nos vetustos relatórios do Fed (banco central americano) como exemplo da potente economia criativa.

Noutro exemplo da indústria cultural, em números de 2022, o audiovisual brasileiro adicionou à economia mais de R$ 27 bilhões. Só em impostos pagou cerca de R$ 9 bilhões. O volume financeiro gerou mais de 300 mil empregos.

Ricardo Patah* - Em busca da redução da desigualdade de renda

Folha de S. Paulo

Consequências nefastas impõem políticas que beneficiem os mais pobres

O Brasil ainda é um dos países mais desiguais do planeta. De acordo com o relatório do Laboratório das Desigualdades Mundiais (2021), realizado em colaboração por mais de cem pesquisadores de diversos países, somos o segundo país mais desigual entre os membros do G20 (atrás apenas da África do Sul).

Dados da ONU indicam que os 10% mais ricos do Brasil ganham mais da metade da renda nacional. A pandemia de Covid-19 foi um dos motivos para o aumento dessa concentração. O outro foi o governo Jair Bolsonaro, que encostou o corpo para a administração e se dedicou apenas à política, buscando a reeleição.

Em 2019, por exemplo, o 1% mais rico do nosso país detinha 46,9% da renda total. Em 2020, esse número subiu para 49,6% —quase a metade da renda nacional, portanto, foi para os mais ricos.

Ana Paula Avellar* - Política industrial de volta à cena

Folha de S. Paulo

Plena execução exigirá amadurecimento institucional, diálogo e liderança

Em 22 de janeiro último, o governo federal anunciou a política industrial "Nova Indústria Brasil" (NIB), constituída por seis missões, que englobam os seguintes temas: cadeias agroindustriais, saúde, bem-estar nas cidades, transformação digital, bioeconomia, descarbonização, transição e segurança energéticas e defesa. A iniciativa prevê R$ 300 bilhões para a custear até 2026, entre financiamento com recursos orçamentários do BNDES e desembolsos do FNDCT (Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e da Finep (Financiadora de Estudos e projetos).

Ao relembrar as últimas políticas industriais do Brasil —a Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior (2003-2007), a Política de Desenvolvimento Produtivo (2008-2010), o Plano Brasil Maior (2011-2014) e o Programa Inova Empresa (2011)—, observa-se que há praticamente dez anos não se executa política industrial. Essa opção pela "não política industrial" aprofundou o processo de desindustrialização, de queda da produtividade e da inovação industrial.

Lygia Maria - Cautela na regulação das redes sociais

Folha de S. Paulo

Histórico recente de decisões do Judiciário na seara da liberdade de expressão não inspira confiança sobre grupo do TSE

Qualquer pessoa bem informada sabe que é preciso haver alguma forma de regulação das redes sociais. Isso não está em questão. O problema é a forma como se dará a regulação.

Alexandre de Moraes, presidente do TSE, disse que o tribunal e o Ministério da Justiça estão constituindo um grupo para rastrear quem atenta contra a democracia na internet.

A fala levanta preocupações, a começar pela participação do Ministério da Justiça, órgão ligado à esfera do Poder (o Executivo) que não deveria se meter na liberdade de expressão, ainda mais em período eleitoral.

Marcus André Melo* - Quarta-Feira de Cinzas no STF

Folha de S. Paulo

O preço da liberdade do Supremo é a eterna desconfiança pública quanto à formação de sua pauta

Dois eventos apontam para um recrudescimento de patologias institucionais do STF que muitos esperavam se atenuar. Sobretudo, considerando que reformas regimentais recentes para conter os danos causados pelo ativismo sinalizavam a conscientização do problema.

Refiro-me às decisões de Dias Toffoli anulando multas bilionárias de grandes empresas. Trata-se de exemplo eloquente do ativismo processual que Diego Werneck critica em livro recente "O Supremo entre o direito e a política". Sua conclusão que "o preço da liberdade do Supremo é a eterna desconfiança pública quanto à formação de sua pauta" não podia ser mais acertada.

Denis Lerrer Rosenfield* - O Brasil ao avesso

O Estado de S. Paulo

O PT, no governo, está literalmente empenhado, junto com ministros do Supremo, num temerário – para não dizer imoral – projeto de revisionismo histórico

Um extraterrestre, tendo visitado o Brasil apenas alguns anos atrás, teria ficado surpreso, senão maravilhado, com o que presenciou. Um país que tinha a corrupção, por assim dizer, naturalizada, caracterizado pelo mais escancarado patrimonialismo, imperando o “é dando que se recebe” em seu sentido mais comezinho, e não religioso, de repente acorda para os imperativos da moralidade, da vida justa. Poderosos de então, mormente nos governos petistas, foram julgados e condenados, alguns presos, com as provas abundando. O Judiciário, unido, deu curso aos processos, das instâncias mais inferiores às mais superiores, aí incluindo o Tribunal Regional Federal da 4.ª Região (TRF-4), o Superior Tribunal de Justiça (STJ) e o próprio Supremo Tribunal Federal (STF).

Diogo Schelp - As dores do bolsonarismo

O Estado de S. Paulo

Tarcísio e Zema têm o desafio de manter o ex-presidente a uma distância segura para 2026

O bolsonarismo fagocitou a direita brasileira. Qualquer aspirante à cadeira de presidente que pretenda antagonizar com o petismo terá dificuldade de fazê-lo fora das raias bolsonaristas. Por esse motivo, a Operação Tempus Veritatis impõe um dilema a políticos cotados para disputar a Presidência em 2026, como os governadores Tarcísio de Freitas (Republicanos), de São Paulo, e Romeu Zema (Novo), de Minas Gerais.

O dilema consiste em se solidarizar com as dores do bolsonarismo e, ao mesmo tempo, não se deixar contaminar pelos efeitos tóxicos da suspeita de que Jair Bolsonaro liderou um plano fracassado de golpe de Estado. Ou seja, é preciso manter o ex-presidente e tudo o que ele representa a uma distância segura. Será preciso equilibrar lealdade bolsonarista de um lado com apego à ordem institucional do outro.

Oliver Stuenkel - Pressão antigolpe dos EUA no Brasil

O Estado de S. Paulo

Washington acabou adotando posição oposta à de 1964, quando sinalizou apoio aos golpistas

As recentes revelações sobre iniciativas e planos antidemocráticos por integrantes do governo Bolsonaro sugerem que um golpe não aconteceu, acima de tudo, por falta de apoio mais amplo das Forças Armadas brasileiras. Enquanto tudo indica que uma série de lideranças militares – entre elas, os generais Walter Braga Netto, Estevam Teophilo e Mário Fernandes e o então comandante da Marinha, brigadeiro Almir Garnier – apoiaram os planos de Bolsonaro de se manter no poder mesmo sendo derrotado nas urnas, outros, como o comandante do Exército, Freire Gomes, e o da Força Aérea, Baptista Júnior, parecem ter sido contra.

Poesia | Amo-te sem saber como, de Pablo Neruda

 

Música | Alceu Valença - Segura a coisa

 

domingo, 11 de fevereiro de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Alta na dívida pública é preocupante

O Globo

Endividamento cresceu para quase 75% do PIB em 2023. Equilíbrio fiscal é essencial para controlá-lo

Um item das finanças públicas deveria interessar a todo cidadão: a dívida bruta do governo geral, que inclui governo federal, INSS, governos estaduais e municipais. Medido como proporção do PIB, esse número indica o peso do endividamento público e traduz seus principais efeitos negativos, em particular o volume de recursos necessários para pagar juros. Para pagar o que deve, o governo tem dois caminhos: gerar resultado fiscal positivo ou tomar mais dinheiro emprestado no mercado, pagando juros mais altos para isso. Com a sucessão de déficits fiscais nos últimos anos, o endividamento tem atingido patamares a cada dia mais preocupantes.

O Banco Central divulgou na quarta-feira o número para 2023. Com um aumento de 2,7 pontos percentuais em relação ao ano anterior, a dívida bruta alcançou 74,3% do PIB, ou R$ 8,1 trilhões — quase R$ 40 mil por brasileiro. É um resultado bem acima do considerado razoável para países emergentes com as características do Brasil.

Paulo Celso Pereira* - Esqueçam as baleias, foco nos golpistas

O Globo

Jair Bolsonaro começou a semana com uma bela carta na manga: era alvo de um inquérito para averiguar se ele molestara uma baleia. Sim, a mesma Polícia Federal que ficou notória por desbaratar esquemas bilionários de corrupção e por acordar políticos e empresários corruptos ao alvorecer — muitos já inocentados no desmanche da Lava-Jato, claro — se ocupa agora em analisar se Bolsonaro violou o disposto na Lei 7.643, de 1987, que impõe pena de dois a cinco anos de prisão, além de multa, para “molestamento intencional” de cetáceos.

O fim da semana, no entanto, recolocou no proscênio a investigação essencial envolvendo o ex-presidente da República: a apuração da tentativa de golpe de Estado que teve como ápice o 8 de Janeiro, mas começou a ser tramada muito antes. Golpe de Estado que não ocorreu, antes de mais nada, porque a maioria do Alto-Comando das Forças Armadas, a começar pelos comandantes do Exército, general Marco Antônio Freire Gomes, e da Aeronáutica, Carlos de Almeida Baptista Júnior, se negou a colocar as tropas nas ruas.

Dorrit Harazim - A galope

O Globo

É imperativo para a nação não esquecer o que foi o governo Jair Messias Bolsonaro. Esquecer seria o caminho mais fácil, trágico e ruinoso

Passou a ser fácil compor o retrato-síntese dos quatro anos de governo do 38º presidente da República Federativa do Brasil. Para adeptos de uma historiografia-relâmpago, basta analisar dois vídeos. Está tudo lá, escancarado. Um é de 22 de abril de 2020, o segundo data de 5 de julho de 2022.

O primeiro mostra a fatídica reunião ministerial do início de governo, em que um ruinoso elenco de comandados compete para se mostrar o mais obsequioso possível. Abraham Weintraub, ministro da Educação, sugeriu que ministros do STF deveriam ser presos; Ricardo Salles, do Meio Ambiente, defendeu “passar a boiada”; Paulo Guedes propôs “vender logo essa porra”, em referência ao Banco do Brasil; Damares Alves, titular da pasta da Mulher, Família e Direitos Humanos, tampouco decepcionou o chefe. Mas foi ele, Jair Bolsonaro, que naquele dia fincou as estacas do seu mandato: precisava de um “sistema particular de informações” e de uma Polícia Federal para chamar de sua. Convém não esquecer.

Bernardo Mello Franco – O bloco dos trapalhões

O Globo

Conspiração contra a democracia uniu coronel assustado, político que escondia pepita de ouro e chefe de espionagem que falava demais

O comandante do 1º Batalhão de Operações Psicológicas do Exército abriu a porta, viu um agente da Polícia Federal e desmaiou. Parece piada, mas aconteceu na manhã de quinta-feira, em Goiânia.

O tenente-coronel Guilherme Marques de Almeida foi treinado para desestabilizar o inimigo, manipulando corações e mentes com técnicas de guerra híbrida. Ao se ver na mira da PF, ficou pálido, tremeu nas bases e perdeu os sentidos.

O oficial desfalecido foi um dos alvos da Operação Tempus Veritatis, destinada a investigar a tentativa de golpe. A ação foi estrelada por outros personagens inusitados, como um político flagrado com ouro de contrabando e um chefe de espionagem repreendido por falar demais.

Augusto Heleno comandou o Gabinete de Segurança Institucional. Dava ordens ao diretor da Abin e era responsável pelo aparato de inteligência do governo de Jair Bolsonaro.

Elio Gaspari - O golpinho de Jair Bolsonaro

O Globo

Ex-presidente precisava de um apocalipse como prelúdio. Como o fim do mundo não veio, Lula está no Planalto e ele ficou sem passaporte

Todo golpe vitorioso pinta-se heroico (São Petersburgo, 1917, ou Brasil, 1964) e todo golpe fracassado é mostrado como ridículo (Moscou, 1991, ou Brasil, 2022). Nenhum dos quatro teve tanto heroísmo nem tantas trapalhadas como as que foram pintadas pela vitória e pelo fracasso.

O ex-capitão reformado nunca viu um golpe. Segundo o general Ernesto Geisel, foi “um mau militar”. (Geisel viu seis e ganhou com as brancas em cinco.)

O golpe de Bolsonaro era público. Ele precisava de um apocalipse como prelúdio. Como o fim do mundo não veio, Lula está no Planalto e ele ficou sem passaporte.

Pelo que se sabe até agora, Bolsonaro refinou o cenário em julho, numa reunião com três generais palacianos (Braga Netto, Augusto Heleno e Mário Fernandes), mais os ministros da Defesa, Paulo Sérgio Nogueira e Anderson Torres, da Justiça. Todos acompanharam-no na condenação das urnas eletrônicas. O general Paulo Sérgio, que tinha oficiais na Comissão de Transparência do Tribunal Superior Eleitoral, foi preciso:

“Vou falar aqui muito claro. Senhores! A comissão é para inglês ver.”

Podia ter dito isso ao público, arrostando a contradita. Prático e clarividente, só o general Augusto Heleno:

“Não vai ter revisão do VAR. Então, o que tiver que ser feito tem que ser feito antes das eleições. (...) Se tiver que virar a mesa é antes das eleições.”

Míriam Leitão - O livro aberto da identidade

O Globo

Escolas de samba do Rio fazem uma busca radical pelas raízes de um país que procura a si mesmo e não encontra

O Brasil é um país que procura a si mesmo e não encontra. Ponciá Vicêncio, personagem de Conceição Evaristo, é dada a ter uns vazios de si mesma. O Brasil é assim. Mas não desiste da busca, como Ponciá. Este carnaval no Rio tem isso. Dois dos enredos baseados em livros são radicais buscas de raízes. A Portela trará na segunda-feira a obra de Ana Maria Gonçalves, “Um defeito de cor”, uma viagem atrás da fonte negra e africana da nossa identidade. A Grande Rio traz, neste domingo, o livro de Alberto Mussa, “Meu destino é ser onça”, um relato do elemento tupinambá da porção indígena da brasilidade. O Salgueiro virá cantando o povo Yanomami e um verso que diz “tenho o sangue que semeia a nação original”.

Não importa, aqui, a disputa dos quesitos, o Brasil ganha sempre nesses mergulhos que o carnaval permite — em algumas escolas, em certos enredos — pelos muitos passados encobertos do país. Como cantou a Mangueira, em 2019, “Brasil, meu nego, deixa eu te contar a história que a história não conta”. Somos profundamente quem somos e nos desentendemos de nós.

Eliane Cantanhêde - Taí, uma boa pergunta de Bolsonaro

O Estado de S. Paulo

Nos palácios, viagens e ruas, Bolsonaro só conspirava. A que horas governava?

Dúvida atroz após repassar vídeos das reuniões ministeriais, das viagens e dos quatro anos de Jair Bolsonaro na Presidência da República: Quando ele estudava e discutia os planos para economia, educação, saúde, segurança pública, meio ambiente? Quando analisava gráficos e estatísticas sobre as diferentes áreas do País? Quando identificava as emergências, especialmente em comunidades e regiões miseráveis? Afinal, quando o presidente Bolsonaro trabalhava?

Em Brasília, ele reunia ministros, assessores e até desconhecidos, como em 5 de julho de 2022, exigindo, aos gritos e palavrões, união, ação e pressa para desacreditar o TSE e as urnas eletrônicas, espionar adversários a la Watergate e “virar a mesa” – leia-se: dar um golpe – antes das eleições, porque, depois, seria “um caos”. Em meio a generais e civis expoentes do golpe, hoje já bastante conhecidos, como o então ministro da Justiça, Anderson Torres, destacava-se alguém totalmente inesperado: o “Posto Ipiranga” do governo, Paulo Guedes.

Rolf Kuntz - Planejar para voltar à turma da frente

O Estado de S. Paulo

É preciso buscar muito mais que uma expansão econômica superior à estimada para 2024. É hora de redescobrir o longo prazo e o planejamento

Pesadão e emperrado, o Brasil continuará correndo no segundo ou terceiro pelotão da economia mundial, neste ano e no próximo, segundo projeções de entidades multilaterais, do mercado e também do governo brasileiro. As políticas sociais do presidente Luiz Inácio Lula da Silva podem favorecer o consumo e estimular a atividade em 2024 e 2025, mas será necessário muito mais que isso para intensificar e prolongar o crescimento. Só se expande o potencial produtivo com muito investimento em infraestrutura, construção civil, incorporação de máquinas e equipamentos e formação de mão de obra. Mas o País continua deficiente em todo esse conjunto de requisitos.

Completadas mais de duas décadas, o balanço deste início de século é pouco entusiasmante. Do ano 2000 até novembro do ano passado, a taxa média mensal de investimento em capital físico ficou em 17,9% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo a Fundação Getulio Vargas (FGV). A partir de janeiro de 2015 a média caiu para 16,4%. Esse quadro indica fragilidade do crescimento econômico e “liga um alerta para o futuro”, comentou a pesquisadora Juliana Trece, coordenadora do Monitor do PIB-FGV.

Pedro Malan* - Os primeiros 400 dias de Lula III

O Estado de S. Paulo

Neste domingo de carnaval, vale lembrar a marchinha ‘Recordar é viver’ (1955), a propósito do programa Nova Indústria Brasil

O Brasil foi descoberto no dia 21 de abril, “dois meses depois do carnaval”, dizia a marchinha que encantou foliões no carnaval de 1934. Tudo, metaforicamente, ficaria para depois da grande festa nacional. Mas não foi assim este ano, em que ações da Polícia Federal ocuparam as primeiras páginas dos jornais, iluminando a importância de elucidar os eventos que levaram ao surreal 8 de janeiro de 2023. As rodas da economia e da política tampouco deixaram de girar com Executivo e Congresso em estado de alta tensão por causa da disputa sobre fatias do Orçamento.

Foi numa virada de fevereiro para março, logo após o carnaval de exatos 30 anos atrás, que o governo de então lançou a Unidade Real de Valor (URV). Essa unidade de conta era o embrião da nova moeda, que chegaria quatro meses mais tarde sob o nome de real e que viria a consolidar-se – esperemos – como a definitiva moeda nacional.

Neste início de fevereiro, o governo Lula completou seus primeiros 400 dias. Pode parecer pouco, mas o tempo da política não é igual ao tempo cronológico. Na política, como na guerra, dias podem valer semanas; semanas, meses; meses, anos. Foi também de 400 dias, por exemplo, o período decorrido entre o momento em que o presidente Itamar Franco nomeou FHC seu (quarto) ministro da Fazenda e o lançamento do Real. Aqueles 400 dias valeram por anos.

Celso Rocha de Barros - Bolsonaristas organizaram levante contra chefe do Exército

Folha de S. Paulo

General Freire Gomes teria se recusado a participar de golpe com Bolsonaro

Com a operação da Polícia Federal na última quinta-feira (8), começamos a entender as disputas ocorridas dentro das Forças Armadas durante a ofensiva golpista de Jair Bolsonaro.

O golpismo se torna mais aberto quando morre a desculpa das urnas eletrônicas. A PF tem prints de conversa de Mauro Cid, ajudante-de-ordem de Bolsonaro, em que ele admite que nada de consistente foi encontrado pelas auditorias nas urnas eletrônicas.

Seu interlocutor, o tenente-coronel Hélio Ferreira Lima, conclui que, neste caso, será necessária uma quebra institucional. Se a preocupação com as urnas fosse legítima, a conclusão seria o exato contrário. Ferreira Lima encerra a conversa dizendo: "O povo está onde ele pediu. Ele prometeu, Cid".

O "Ele" que prometeu era Bolsonaro. E o ex-presidente tentou, sim, cumprir sua promessa golpista.

Bruno Boghossian - Medo da prisão está na origem da trama do golpe

Folha de S. Paulo

Bolsonaro e auxiliares citavam cadeia como argumento para melar eleição e ficar no poder

Na reunião preparatória do plano golpistaJair Bolsonaro tentou cativar auxiliares com teorias da conspiração. Insinuou que o STF recebia propina para fraudar a eleição, falou de desarmamento e repetiu que o Brasil corria perigo de virar uma Venezuela. No meio de tudo, revelou que seu medo, na verdade, era terminar como uma boliviana.

O fantasma de Jeanine Añez assombrava Bolsonaro. Em discursos e conversas com auxiliares, ele citava com frequência a ex-presidente interina da Bolívia. Ela assumiu o poder em 2019, depois que militares pressionaram Evo Morales a renunciar, e foi presa dois anos mais tarde, sob acusação de golpe de Estado.

Hélio Schwartsman - É o clima, estúpido

Folha de S. Paulo

Livro mostra que clima é personagem central da história humana

"The Earth Transformed", de Peter Frankopan (Oxford), é uma obra importante. Ela coloca o clima como personagem central da história humana. Uma das figuras que mais aparecem ao longo das mais de 700 páginas do livro é Enos, a sigla para El Niño-Oscilação do Sul, um fenômeno relativamente regular, mas que pode ter grandes repercussões sobre a temperatura e a hidrologia do globo.

Muniz Sodré* - Uma massa falida

Folha de S. Paulo

No país tem mais templos do que escolas e hospitais, dá para confiar no povo?

O estarrecimento com a amplitude da intentona golpista não pode ser menor do que o da suspeita de esvaziamento da operação de socorro aos ianomâmis pelas forças, nem do fato de que os medicamentos foram achados numa fossa em Boa Vista. Estavam lá desde o governo passado. Esse grau de descompaixão, síndrome de sociopatia genocida, acrescenta-se aos elementos do reexame necessário para bem compreender o comportamento de uma larga fração do povo nacional de hoje. Um dado do Censo é sintomático: o país tem mais templos do que escolas e hospitais.

Ruy Castro - Economia da folia

Folha de S. Paulo

O Carnaval mobiliza milhões de pessoas e custa ou produz outros tantos em reais; nada é de graça

Um dia, alguém calculará o quanto o Carnaval movimenta de recursos e de pessoal para acontecer. Se puder.

Tudo o que se vê, por exemplo, num desfile de escola de samba teve de ser fabricado por alguém. E esse alguém significa muita gente. As fantasias, envolvendo trajes, luvas, meias, sapatos, chapéus e perucas, saem dos croquis dos figurinistas, passam pelos desenhistas e chegam aos chapeleiros, cortadeiras, costureiras, bordadeiras e aderecistas. Sabe por que alguns trajes parecem espelhar a avenida? Porque são feitos de espelhinhos grudados ao tecido, cortados pelos espelhadores. Criado o protótipo de cada fantasia, ela é reproduzida às centenas, um modelo para cada ala, por um exército de artistas e artesãos.

Poesia | Os ombros suportam o mundo, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Nara Leão - Manhã de Liberdade

 

sábado, 10 de fevereiro de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Maioria no STF impõe retrocesso às relações trabalhistas

O Globo

Exigir ‘justificativa’ para demissão de funcionários concursados das estatais cria risco de judicialização

Em julgamento suspenso na quarta-feira, o Supremo Tribunal Federal (STF) rejeitou o recurso de um grupo de funcionários demitidos do Banco do Brasil em 1997 que tentavam ser readmitidos. Mas a maioria dos ministros decidiu que a demissão, no caso de funcionários de estatais concursados — e contratados com base na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) —, só poderá ser realizada mediante justificativa. Será marcada nova sessão para o plenário formular uma tese geral definindo que tipo de justificativa seria aceitável. Independentemente da tese que seja adotada, é evidente o risco de judicialização, com ex-funcionários recorrendo de demissões que considerem injustas.

Merval Pereira - As instituições estão funcionando?

O Globo

Vivemos uma espécie de democracia do tipo jabuticaba brasilienses, que só com muita boa vontade parte de nós, brasileiros, compreende

As instituições brasileiras estão realmente funcionando, como gostamos de dizer, diante das inúmeras crises institucionais que enfrentamos nos últimos anos? Aparentemente, sim, mas com distorções que a qualquer momento cobrarão seu preço. Vivemos uma espécie de democracia do tipo jabuticaba brasilienses, que só com muita boa vontade parte de nós, brasileiros, compreende.

Ponto delicadíssimo desse simulacro de democracia é a participação dos militares na tentativa de golpe. Louvam-se as Forças Armadas porque não aderiram, exige-se a condenação dos que aderiram, mas esquecemos de que as omissões de oficiais graduados, não denunciando os que conspiravam, e permitindo o acampamento de golpistas em frente aos quartéis pelo país, tudo faz parte do mesmo corporativismo nocivo às instituições brasileiras.

Todos os ministros que estavam naquela reunião revelada em vídeo oficial e não pediram demissão, militares ou não, são igualmente culpados. Os sinais trocados vêm de muito tempo, não é de agora, e poderão ser trocados novamente, de acordo com os ventos políticos. Só essa possibilidade já demonstra que não vivemos em uma democracia genuína, mas em um simulacro de democracia, que serve aos que estão momentaneamente no poder.

Pablo Ortellado - O contorno geral da trama

O Globo

Falta ainda compreender em todos os detalhes a participação de Jair Bolsonaro no complô

A decisão do ministro Alexandre de Moraes sobre as movimentações golpistas, divulgada na última quinta-feira, desvelou inúmeros fatos novos. Os detalhes são tantos e tão chocantes que, às vezes, perdemos o contorno geral da trama.

Olhando com atenção o documento, e combinando os fatos revelados com outros que já conhecíamos, vemos se formar, grosso modo, duas linhas de atuação da movimentação golpista: de um lado, tentativas institucionais e paralegais para reverter o resultado das eleições; de outro, mobilizações de massa de caráter insurrecional buscando criar instabilidade social. Em paralelo, uma campanha de pressão sobre o comando das Forças Armadas, cujo apoio era decisivo, tanto num caso como no outro.

A primeira linha é a que leva ao documento que ficou conhecido como “minuta do golpe”. O termo se popularizou para descrever um insólito decreto de Estado de Defesa na sede do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para “restabelecer a lisura” do processo eleitoral, suspendendo o sigilo dos ministros do TSE e criando uma comissão de regularidade eleitoral presidida pelo Ministério da Defesa. Essa minuta foi encontrada na casa de Anderson Torres, que foi ministro da Justiça de Jair Bolsonaro. Aparentemente, essa foi apenas uma entre outras minutas (esboços) que buscavam diferentes caminhos paralegais para um golpe de Estado.

Carlos Alberto Sardenberg - Um baita equívoco

O Globo

Bolsonaro não poderia ter sido mais sincero quando disse que a eleição de um deputado do baixo clero, desprezado, só pode ter sido um engano

Dia desses eu estava num hospital em São Paulo, para exames. Na sala de espera, já com as desagradáveis agulhas enterradas na veia e aquele uniforme de paciente, aproxima-se um senhor, na mesma condição, e me pergunta direto:

— Como vai o nosso Brasil?

Mal-humorado, falei qualquer coisa vaga e já ia voltando para o celular quando o cidadão, em voz já alterada, atacou:

— Como vocês da imprensa não percebem? Já estamos na ditadura. No comunismo!

De humor piorado, respondi:

— Ora, que besteira!

Hélio Schwartsman - Tudo o que era sólido...

Folha de S. Paulo

STF foi bem no combate ao golpismo, mas deixa a desejar na promoção da estabilidade jurídica

Hoje, começo com Marx. "Tudo o que era sólido se desmancha no ar, tudo o que era sagrado é profanado, e as pessoas são finalmente forçadas a encarar com serenidade suas posições e relações uns com os outros."

As investigações que parecem comprometer em definitivo Bolsonaro são, ao que tudo indica, resultado da delação premiada do tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens do ex-presidente. A pergunta que se impõe é se essa colaboração com as autoridades foi livre e espontânea. Se não foi, um Toffoli do futuro poderá anular tudo, até uma eventual condenação de Bolsonaro, com base na ausência de voluntariedade.

Dora Kramer - A hora e a vez dos tubarões

Folha de S. Paulo

Peixes grandes do golpe terão penas mais graves que as dadas à horda de bagres ensandecidos

Era questão de tempo. Pela dimensão do caso, não demorou. Levou um ano e um mês até que a Polícia Federal batesse às portas dos tubarões envolvidos na conspiração golpista, cujo ápice deu-se de maneira atabalhoada no dia 8 de janeiro de 2023.

Vemos uma resposta a quem reclamava que as investigações, processos e condenações alcançavam apenas os peixes pequenos executores da depredação nas sedes dos três Poderes, destinada a provocar a conturbação da ordem e daí a ruptura institucional.

Alvaro Costa e Silva - Sambódromo do Brizola: a loucura que deu certo

Folha de S. Paulo

Passarela do samba completa 40 anos colecionando apoteoses

Quarenta anos de Sambódromo. A palavra —que o dicionário Houaiss registra como criação de Darcy Ribeiro— é uma das mais feias da língua portuguesa. Mas acabamos nos acostumando e até gostando dela e do seu som quadrado, como batuque no cimento. Também não parece mais tão monstruosa, hoje, a estrutura de concreto erguida em apenas quatro meses.

Ao longo do tempo o Sambódromo se humanizou, apesar dos carros alegóricos que podem chegar a 22 metros e exibem mais tecnologia que criatividade. Cada amante dos desfiles passou a colecionar momentos inesquecíveis, os quais podem ter se desenrolado fora da passarela —o ex-presidente Itamar Franco, de topete carnavalesco, ao lado da modelo Lilian Ramos, de camiseta e sem calcinha, num camarote.

Adriana Fernandes - Negociação da MP da reoneração se arrasta e empresários culpam Pacheco

Folha de S. Paulo

Desde o começo do ano, resultado das reuniões de Haddad se repete com pequenas variações sobre o mesmo tema

negociação política da MP (medida provisória) da reoneração da folha de pagamentos de 17 setores da economia e das prefeituras anda em círculos há um mês.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) baixou a MP faltando dois dias para o fim de 2023, com a estratégia de ganhar tempo na costura política com o Congresso.

E o ministro Fernando Haddad (Fazenda) vem conseguindo até agora o que precisa com a ajuda do presidente do SenadoRodrigo Pacheco (PSD-MG).

Desde as primeiras semanas do ano, o resultado das reuniões de Haddad se repete com pequenas variações sobre o mesmo tema.

A negociação com Pacheco está centrada em três pontos:

Luiz Gonzaga Belluzzo* - Guido Mantega e tropeços da mídia

CartaCapital

Os dados não confirmam a narrativa dos mercadistas, mas atestam o êxito da gestão do ex-ministro

Sábado, 27 de janeiro, entrego-me à leitura do jornal Folha de S.Paulo. A manchete de primeira página anunciava: “Reação negativa faz Lula desistir de ter Mantega na Vale”. À estrondosa manchete seguiam-se comentários dos jornalistas incumbidos de produzir a matéria.

Nessas deambulações, os profissionais da mídia oferecem aos leitores considerações a respeito das circunstâncias que cercaram as desistências do presidente Lula e do ex-ministro da Fazenda Guido Mantega. Lá pelas tantas, o leitor é abalroado por uma informação que não se coaduna com os fatos.

Bolívar Lamounier* - O panorama visto da ponte

O Estado de S. Paulo

Tenho para mim que o grande problema do País é não termos no Congresso uma sólida espinha vertebral, um grande partido de centro, sério, competente e de orientação liberal

O Brasil, como sabemos, é um país onde qualquer coisa pode acontecer – inclusive nada. Este ano começou com um rotundo nada. Ou, se preferem, com um pouco menos que nada. No que diz respeito ao Orçamento, começamos com um déficit de R$ 232 bilhões, dos quais R$ 57 bilhões se referem às chamadas “emendas parlamentares”. Para quem, como nós, já está acostumado, não é grande coisa. Ou, por outra, é grande coisa porque estamos falando só deste ano – ano eleitoral, não custa lembrar. No início do próximo ano, Brasília estará se contorcendo como sempre, na esperança de promover um empate entre a arrecadação e a despesa. Tentando pensar num prazo mais longo – 15 anos, digamos –, o que temos, por enquanto, é uma célebre inspiração literária: “o futuro a Deus pertence”.

Dom Odilo Pedro Scherer* - Amizade social

O Estado de S. Paulo

Tema da Campanha da Fraternidade deste ano vem em boa hora, considerando o contexto de polarização ideológica e política que se vive, não só no Brasil

Como ocorre há 60 anos, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) promove a Campanha da Fraternidade durante o período da Quaresma, que vai da Quarta-feira de Cinzas até às vésperas da Páscoa. Desta vez, o tema é “fraternidade e amizade social” e o lema, “vós sois todos irmãos e irmãs” (cf. Mateus 23,8).

O principal objetivo da Campanha da Fraternidade é despertar e promover mais e mais a fraternidade entre todos, a superação dos conflitos e suas causas, a convivência harmoniosa entre as pessoas, não apenas no âmbito interno das comunidades da Igreja, mas em toda a sociedade. E não parece um objetivo pequeno nem banal, mais ainda em tempos de polarização, acirramento dos conflitos e de fechamento em bolhas autorreferenciais. O tema remete logo à encíclica Fratelli Tutti, do papa Francisco (2020).

Desde os filósofos clássicos gregos, a amizade foi vista como um fator de bom convívio das pessoas e de integração harmônica da comunidade humana. Sócrates ensinou que a amizade é capaz de vencer todos os obstáculos para unir corações e, graças a ela, as pessoas preferem possuir menos, vivendo em paz, do que conquistar tudo pela guerra. Para Platão, a amizade vai além de uma tendência natural, sendo fruto da afinidade em base a valores comuns, em torno dos quais a cidade pode viver de maneira virtuosa e superar seus problemas. Aristóteles, na sua Ética a Nicômaco, trata mais longamente da amizade, ensinando que ela é o vínculo social por excelência, que mantém a unidade entre os cidadãos de uma mesma cidade, ou entre os companheiros de um mesmo grupo. Para o filósofo, a amizade é capaz de humanizar e aperfeiçoar as relações entre as pessoas e o convívio político. Também Santo Tomás de Aquino, seguindo a linha de Aristóteles, deu destaque à amizade como virtude política necessária à boa convivência em sociedade.